segunda-feira, março 14, 2005

YES MEN

Comecei a profissão não por ser especialmente dotado, mas porque quem precisa segura a primeira oportunidade. Um amigo, dos que aparecia amiude pelo Gelo, trabalhava na ANI e como bom comuna que era, acreditava que a maneira socialmente correcta de ajudar um próximo era arranjar-lhe trabalho. Influenciou o chefe de turno e eu lá fui fazer uma prova. A prova foi péssima, mas na apreciação o homem foi simpático e sublinhou que embora o texto produzido fosse satisfatório não revelava poder de síntese, além de excessiva lentidão dactilográfica. De facto, não sabia escrever à máquina e como se não bastasse o teclado não começava por azert, o que me baralhou os dois únicos dedos com os quais me ia ( e ainda vou)
desenrascando.
Aproveitei outro amigo, que tinha um biscate na Reuter e tentei a chance. Arranjaram-me umas horas nocturnas para substituir um que estava doente. Nos diferentes turnos havia sempre alguém que precisava de se baldar. Estava por lá quando foi a aventura do Santa Maria. A maior parte dos telexes era censurada, cortada na totalidade ou rasurada. Eu levava alegremente para o Gelo cópias dos telexes cortados e algumas vezes fotocópias dos telexes da censura.
Não levou tempo a que a PIDE colocasse um par de agentes à porta, primeiro da ANI, depois na Reuter e na FP.
A Reuter funcionava naquela altura na Rua do Telhal, num 2º andar. Amarrotava os telexes e
despejava-os pela janela, para a rua. Naqueles tempos ainda não eramos viciados na ecologia urbana. Quando saía, um dos agentes perguntava-me se eu levava alguma cópia de telegrama e eu, além de negar, levantava candidamente os braços. Só três vezes fui revistado e só uma me exigiram que baixasse as calças, mas verdade se diga que não me pediram para baixar mais nada...
E quando chegava à rua era só andar aos papeis e zarpar para o Gelo...

Outra memória (e não é só a RTP que tem memória) tem a ver com um período eleitoral.
A UN era pronta a enviar às agências informação sobre as diferentes actividades eleitorais, relativa à parte que lhe competia. Onde como e quem participava nos comícios. Habitualmente com dois ou três dias de antecedência. Perfeitos luxos. Um deles, que melhor retive, não só transcrevia os discursos que iriam ser lidos, como sublinhava entre parentesis, as frases aplaudidas (muito aplaudidas) , ou mesmo com estrondosas salvas de palmas. A parte divertida foi que um desses apaludidos oradores não pode comparecer no comício e um dos jornais transcreveu a notícia, incluindo os sublinhados...
De repente comecei a notar muitos comentários sobre o novo governo e até sobre o discurso do primeiro ministro e sem perceber porquê comecei a lembrar-me dos velhos tempos. Comoveu-me que o senhor que não gostou de ser ministro tenha aderido muito jovem, ainda adolescente, ao partido, onde ainda se mantém e não estavam sequer a falar de outro muito diferente. Falavam simplesmente dele e da sua voluntária ausência do executivo. Foi ele que falou dos pais e dos avós, e com ironia sublinhou o contraditório no seio familiar, lembrando que os avós haviam sido pró-salazaristas. A minha avó, costureira, que trabalhava de Sol a Sol, também era, se bem que eu, ainda adolescente, não era capaz de perceber, mas também aprendi a entender, mais do que a ser indulgente. Em todo o caso, optei por uma crónica vazia de presente. Como o poeta, apetece-me dizer "para onde vou não sei/ sei que não vou por aí" ...

2 comentários:

pindérico disse...

Interessante texto! Mas decididamente (ainda) não vem nada a propósito.

LS disse...

caro rafael, gostei bastante de ler este seu texto. Diga-se, a propósito, que de vazio não tem mesmo nada...
Um abraço