quinta-feira, março 31, 2005

A Gestão Do Silêncio

Quem viveu em regime de partido único sabe como é(foi) : a informação não é (era) feita de notíticas, mas de silêncio.
Quem viveu os últimos dois anos em Portugal sabe como foi: a informação era feita de trapalhadas, desmentidos e contra-desmentidos, uns do primeiro-ministro, outros dos ministros e outros ainda da central de informação clandestina.
Hoje, em Portugal, vive-se uma situação de normalidade: o governo parece estar a tratar das coisas da res publica, os cidadãos estão na expectativa e os jornais, rádios e televisões atolam-se em noticiários de desgraças ( quando não estão perto, mesmo as de longe servem) e enchem as páginas e os minutos com as opiniões de comentadores, que, não tendo nada para comentar, comentam isso mesmo - o silêncio.
Nos corredores das instituições, entretanto, começam os boatos - tal como acontecia na gestão das notícias pelo silêncio. Por exemplo: na RTP diz-se que tudo vai ficar na mesma, isto é, mesma administração, mesma direcção e a mesma sem vergonha de ausência total de projecto.
Na RDP, o mesmo, com a agravante de na RDP África se murmurar, com pânico, que o substituto de David Borgers vai ser o Ricardo Jorge, "analfabeto de pai e mãe, que nem sabe ouvir rádio, um burocrata autocrata"...etc, etc.
Para a Galp, João Líbano Monteiro e os seus pequenos polvos lançam a notícia um pouco por toda a parte: Murteira Nabo e sus muchachos e muchachas (Ah! Ah!).
Na PT, tudo na mesma: o Barão não sei das quantas até já pagou um boneco para o contra-informação a ver se ganha alguma notoriedade. Mas, coitados dos autores dos textos... vão tirar o quê de um boneco que apenas é conhecido por querer muito ser barão e boneco do contra-informação.
E assim por diante.
Os boatos são os filhos do silêncio.
Se a estratégia é gerir o silêncio até ter tudo reorganizado - como parece estar a acontecer, por exemplo no Ministério da Agricultura, com Capoulas a colocar as pedras convenientes no tabuleiro - se a estratégia é essa, então também será conveniente que o barulho das notícias ocupe não mais de três dias de uma semana destas, para que tudo se acabe num Sábado, com o Expresso a dizer o pior possível das alterações efectuadas. É que na segunda-feira seguinte voltar-se-á ao normal.
Espera-se, portanto, que, por exemplo, o anúncio de uma nova administração para a Agência de Notícias Lusa, bem como a nomeação de uma nova direcção de informação, seja feito ao mesmo tempo das novas administrações e direcções da RTP e RDP, finalmente separadas.
Que no dia seguinte sejam anunciados os nomes dos novos admnistradores das empresas cujos mandatos já terminaram. No mesmo dia podem, por exemplo, ser anunciados os novos directores gerais de algumas estruturas da admnistração pública.
Assim mesmo: tudo de uma vez, durante três dias: terça, quarta e quinta-feira.
O país respirará de alívio e os boatos acabar-se-ão com a normalização de um processo de informação democrático.
Valeu?
Como veêm, é fácil, basta consultar a blogoesfera. Nem cobramos nada pelo conselho. Uma estratégia destas decidida por uma qualquer agência de comunicação ( por exemplo a JLM & Associados) custaria uns milhões de Euros. Vai uma aposta?

quarta-feira, março 30, 2005

Enfado

Deve ser de facto das melhores coisas do mundo: não fazer népia e depois descansar!
Mas, é preciso reconhecer, tem os seus ângulos obtusos, quer dizer: sem razão para ser infeliz, um tipo sente-se quase culpado; melhor dizendo: sem ter que fazer, acontece ao felizardo sortudo ficar mal disposto. É o caso. Ainda não mexi uma palha, nem fiz a barba. li ao de leve um jornal, aqui, no computador. A única tarefa compulsiva foi tomar o pequeno almoço, que por acaso nem foi pequeno
À minha frente, pela janela, vejo um dia claro. O céu não está inteiramente limpo, mas bastante claro. Não há vento. Apenas uma leve brisa. Como moro no campo. por aqui passam poucos carros e abstraindo o mau humor dos cães, está tudo calmo. Anui-me (deve estar mal dito, mas soa-me bem) a fazer uma paciência com a cartas e, quase sem dar por isso, ligo o rádio. Na RDP, que é suposto não impingir publicidade. Cinco minutos depois, desligo o aparelho e comecei a praguejar, enquanto a pobre paciência decorria sem dificuldade alguma. A extrema dificuldade
consistia na minha recusa em admitir a causa do mau humor: a impotência, a pior de todas as impotencias: não é física, quer dizer, não é aquela que vocemecês estão a pensar, cheios de gozo, É psíquica, mas ao contrário da outra, esta fode a paciência a um gajo. E tudo por mór da publicidade!
A RDP não passa publicidade. Pois não, que não passa. Passa a pior de todas, a promoção sistemática e exaustiva das porcarias que produz, ainda que umas quantas até sejam de qualidade passíveis de ser escutadas, As rádios privadas exploram a publicidade como fonte de receita, quem quiser oiça, eu não oiço, habitualmente, a não ser no carro, porque a patroa não me deixa desligar. É chato, mas evita-me ter de falar. Para as viagens compridas, levo um monte de cd's. Mas a RDP, não. Nem tem o direito de passar tanto tempo a autopublicitar-se,
porque, como é do domínio público, cobra portagem, perdão, taxa. E cobra coersivamente, através da cobrança pelo consumo de electricidade, Mesmo que um tipo não goste de ouvir a RDP, mesmo que não tenha receptor de rádio. E mais, agora até contribui para a solvência da RTP, que se farta de impingir publicidade. No princípio era a taxa, a taxa que cada um por si ia pagar. Como acontecia com os isqueiros, porque era premente, determinava o prof. Oliveira não sei quê, acautelar os legítimos direitos dos fazedores de fósforos. Mas o sistema era puro. Na licença para uso de isqueiro constava o regulamento todo, incluindo a refência de que era devida
ao "vil delator" uma parte da multa. No caso da Rádio era mais fino: o fiscal podia, estava investido desse direito, penetrar nas casas para verificar se os donos das ditas possuiam ou não o famigerado receptor radiofónico.
Mas se os senhores leitores quiserem que eu admita que tal era uma filha da putice reles e salazaresca, eu digo: era, sim senhor. E depois, quando é que isso acabou? Baixem um bocadinho a bola e pensem: quando?
Com o advento da TV criou-se a taxa compulsiva. Para ser compulsiva tinham que existir compulsores, palavrão que suponho não exista no léxico, lá vai: fiscais. Havia-os antes e depois
do sr. António da Calçada. Enquanto andei por Angola, costumava identificá-lo por Oliveira Dalatando ( o N com apóstrofo só apareceu depois da independência) e quem andou por lá sabe porquê.
Sim, isso mesmo, mesmo depois de Marcelo(padrinho do outro, porra). Morreu (a licença, caraças) de morte natural, quando Cavaco Silva acabou com a taxa. Em boa verdade, morrer, o que se chama morrer, não morreu. Se tivesse escrito que ressuscitou ia incomodar uma data de gente que vai à missa, digamos, pois, que reapareceu, encolhida, imiscuindo-se na taxa da Rádio, uma taxa curiosa cujo valor praticamente ninguém conhece e nunca se é avisado se aumenta e quanto aumenta. Vem na conta da luz e tu, ó meu, que tás pr'aí a mandar vir, se não pagas, ficas às escuras...
Vamos lá ter tento na língua e falar melhor. Uma criatura paga taxa aparentemente de Rádio para a empresa EP que acasalou a RDP com a RTP. Uma faz publicidade tal e qual e a outra chateia com publicidade intestina, tão chata uma como a outra.
E depois não querem que um felizardo que não tem nada que fazer ande chateado...

A travessia do deserto

Continuando com os jornais e virando, de vez em quando, um olho para dentro, vou despachando a torto e a direito, antes que me despachem a mim. "A moda dos códigos" e Marcelo reportado para o pasquim da Liberdade (avenida de), administrado pelo administrador Delgado, que assina "A moda". É notório como cada um deles se esfalfa para saltar para outro lado. A areia incomoda e faz sede. Esta tem, como se sabe, duas componentes: ou de bière (pr'a dar uma de cosmopolita) ou do mal. Esta última tem, evidentemente, mais sumo. Cada um a seu modo deixa transparecer ou assume-se mesmo da relegiosidade. Marcelo baloiça "pra cá e pra"
lá no drama Terri, invocando a própria mãe. Isso eu compreendo, também tive esse problema
e assumi as responsabilidades.Não foi isso que fez de mim um mau católico, porque já não o era, nem espero vir a ser e já agora deixo expresso que se me acontecer algo do género desejo firmemente que me aviem muito depressa e pode qualquer hospital ficar com as miudezas susceptíveis de conversão. Mas passemos adiante. Para ganhar embalagem Marcelo fez uma referência amena ao primeiro-ministro, mas tem perdido audiências. A minha não lhe deve fazer falta. Vi a primeira e por aí me quedei, mas o DN deixa-me espeitar, mas como é muito papel só espreito uns pedacitos.
O outro disfarça menos; também lhe falta o engenho, que ao outro sobra. O blá-blá sobre a profusão literária dos códigos é para dar conta da preocupação do tema ser tão badalado. Não é, creio eu, por acaso que a opinião corrobora a mesma posição da santissíma igreja, que tem evidente dificuldade em aceitar que se diga que Jesus dava umas quecas, como Dan Brown escreveu, com a delicadeza possível, concedendo a Madalena a condição de esposa. É verdade que a Bíblia opta por considerar a senhora como prostituta. A posição do escritor parece-me mais positiva e susceptível de humanizar o mito , pois como tal não carecia de piedade. Não é preciso adorar ou ter pena de quem ressuscita. Mas é o mito que alimenta outros códigos, como os da castidade e a Igreja ser um negócio só de senhores. Mulher não dá jeito, a não ser para ser crente e serva.Este, confesso, não é assunto da minha simpatia, mas chateia um pouco quando os beatos exorbitam...
Também por aqui se exorbita um tanto com o novo código da estradas, bem menos piedoso. Não quero entrar pela avaliação, mas pela necessidade que havia ( e há) de fazer alguma coisa, ante a carnificina nas estradas, que não parava de crescer. Simplesmente o problema não é só nas ruas, nas estradas, nos coletes e nas cadeirinhas (esqueci-me do copo de vinho), mas no resto. O trânsito tem a ver com o que mexe e o que fica parado. O que é que vai acontecer aos carros arrumados noite fora, ou dias inteiros, durante meses, sobre os passeios. O novo Código da Estrada vai resolver o problema? Os municípios vão garantir estacionamento nocturno e diurno, ainda que de modo diferenciado, mas vão? Não chega proíbir é necessário oferecer alternativas.
Fazer doer (nos bolsos) é um meio de pressão susceptível de levantar um pouco o pé do pedal. Uns dias de cadeia podem concorrer para que os condutores bebam mais água e menos alcool. Não é possível reprimir sem fazer doer. Agora há questões difíceis de conciliar. O limite de velocidade é uma delas. Há carros e carros. Pois, mas não é possível fazer destrinça. Mas é possível fazer concessões. Algumas auto-estradas podiam ter limites acima dos 120 Km/hora, como em França, por exemplo, que é de 130 Km, já que como na Alemanha (não há limite) não se vislumbra a hipótese. Os alemães têm outro tipo de controlo, que incide na condução e no qual são implacáveis.
No caso das multas, a severidade tem alguma justificação: a maior parte delas nunca foram pagas. Em grande parte eram amnistiadas. Isso sim era problema que ultrapassava a Polícia de Trânsito, foi mais da responsabilidade dos governos, que nunca quiseram resolver o assunto. Actualmente nem é difícil de resolver. Quando um automobilista é controlado pode saber-se tudo o que interessa, se liquidou ou não as coimas que lhe foram aplicadas. É uma situação que não oferece dificuldade e possibilita que não se efectue a cobrança coerciva no acto. Evita atritos e até a relação de confiança entre cidadãos e autoridade. Fixa-se um prazo, sei lá, 48 horas? Qualquer coisa assim. Nos casos em que haja coimas anteriores por pagar, aí, sim, aí a viatura
ou/e os documentos seriam apreendidos.
Nem sempre é ao estaladão que se resolve, mas um tabefe de vez em quando ajuda. A Justiça não precisa sempre de ser cega, de vez em quando pode piscar num lampejo solidário. Saltou-se do oito para o oitenta. Foi excessivo. Dêem, por favor, a volta ao texto. Concedam ao automobilistas o benefício da dúvida e lembrem-lhes que à primeira qualquer um cai, mas que à segunda só cai quem quer...

Hotel Celeste/2

Em boa e honesta verdade, o primeiro título não teve nada a ver com o texto. Comecei com uma ideia e desviei-me no caminho, nem me lembro bem porquê, e no fim nem me ocorreu modificar o título. Era ainda o efeito múltiplo de andar de comboio e ao mesmo tempo ler um jornal, Foi no problema de palavras cruzadas que cruzei o pasmo:"cada uma das mulheres extremamente belas que, segundo o Alcorão, hão-de desposar no Céu os crentes muçulmanos"!Como podem calcular, foi daqui que partiu o título, agora repetido. Não que eu seja religioso, mas a ideia de ter lá em cima, à minha espera "uma das diáfanas", desperta até o mais adormecido dos ateus. Só falta o nome da diva e o volume dos recursos humanos. Pudesse eu crer no Alcorão ou outra qualquer literatura do género e, decerto, já não estaria aqui à espera do polícia de trânsito usurário. Já teria abalado, de colete rodoviário, não sem ter o cuidado de perguntar ao Altíssimo, se se pode ir de mãos a abanar ou se é conveniente algum Viagra...

terça-feira, março 29, 2005

Os Assaltos das Fardas

O Governo chefiado por José Sócrates tem estado a conseguir o objectivo a que se propôs para os primeiros tempos: ganhar a confiança dos Portugueses.
Digamos que em alguns sectores, sim.
Digamos que noutros, não.
Por exemplo: com o novo código da estrada os portugueses correm o risco de ser verdadeiramente assaltados pela BT da GNR e pela PSP.
Assaltos provenientes de verdadeiras emboscadas. Os agentes da BT e da PSP não andam na rua para proteger os cidadãos cumpridores. Eles sabem os locais onde podem esconder-se para verdadeiras emboscadas, cujo resultado é sempre um roubo à carteira dos incautos - roubos cujos produtos agora podem multiplicar, com o novo valor das coimas ou das multas, ou lá como se chama essa cobrança que faz lembrar os velhos tempos dos impostos mandados cobrar pelos reis a quem lhes atravessava as propriedades.
A verdade é que os tais agentes nunca aparecem quando há verdadeiras dificuldades de trânsito. Nessas horas estão sempre longe, encostados.
Era bom que o novo ministro da administração interna, ou lá o que é isso, proíba emboscadas policiais. Que andem na rua, com carros devidamente identificados, que se coloquem nas auto-estradas, nas estradas mais problemáticas, mas à vista de todos, para evitar os desastres.
E já agora, de uma vez por todas: deixem-se de dar publicidade a estatísticas que não dizem nada, que não comparam nada, que são verdadeiras anedotas. O que é isto de , "no mesmo período" terem ocorrido menos acidentes e ter havido menos vítimas mortais? Que raio de comparação é esta? Então na Páscoa (ou no Natal, tanto faz,) deste ano houve o mesmo volume de tráfego em todas as estradas, com o mesmo tipo de veículos?...
Esperemos que no tal ministério apareça alguém que saiba alguma coisa de Matemática e que obrigue a DGV e todas as polícias a estudar estatística - umas pequenas luzes que sejam para perceberem a figura de parvos que andam a fazer há anos, com as televisões, as rádios e os jornais a ajudar.

Hotel Celeste

Antes de jantar já vos deixei entender que cometi a leviandade de ler no comboio. De ler não um livro interessante ou, pelo menos que estivesse de moda, mas um simples matutino, cujo nome dobrou o século. Estou lixado. Peguei no pasquim para clarificar a existência e descortinar a data da fundação. Não vi. Devo ter procurado mal e devo andar a ler pior. Então não li que a sede é no Porto e a filial na Av.da Liberdade, em Lisboa.
Devo estar doido. Que direito tenho eu de andar por aqui a dar bafos, se nem sei o que se passa à minha volta...
E, agora? Como é que posso continuar, se os dados estão baralhados? Ia extrapolar sobre a crónica de L Delgado, com a intençao de exprimir "o gajo disse", porra, não posso, o "gajo" é administrador, caraças, de uma loja de jornais do Porto. com uma filial em Lisboa. O senhor administrador disse, a propósito do pungente drama de Terri, qualquer coisa como "igual relevo devia ter sido dado à sua condição de católica romana, que impede a opção pela morte". Ao pé disto um tal Bid Laden, ou lá como ele se chama, é um pateta de coro.
De repente nem é a comoção pelo sofrimento da senhora, nem a coragem do marido em querer por fim ao martírio, mas a raiva contra esta estranha manifestação de intransigência que cheira a insídia. Um sujeito bem posto e bem instalado que incute o fanatismo católico e o coloca ao mesmo nível que o fanatismo muçulmano é suspeito. Não de ser parvo, mas de ser interesseiro.
Nem é a pobre Terri que está em causa, nem a devoção dela, qualquer que seja, nem o amor do marido, mas a tentação diabólica de mandar, de deter o supremo poder. Bush quer, e logo os delgados se amocham.
Será que a Santa Inquisição está de volta?

Pelos jornais

De comboio o jornal dá jeito. Quando as notícias são agradáveis, a viagem faz-se melhor e o tempo não pesa. Chovia quando entrei no "inter regional" e continuava a chover quando saí. Não teve importância. Li que José Mourinho tinha ido a Israel, a convite de Shimon Perez, para gáudio de meninos que dão os primeiros passos do chuto na bola. A notícia referia que quatro guarda-costas e tal e coisas, um blá-blá. De facto o que interessa é que o homem foi convidado por ser uma personalidade; o que interessa é que o treinador aceitou por ser um homem. Por ser nosso concidadão, E por ser um concidadão com prestígio. Que raio!senhores! Não foi o sr. Santana que foi convidado, nem o sr. Portas, nem o sr. Soares(pai) e menos ainda o filho. Foi o Zé. Podia ter sido o princípe casadoiro ou a mais recente patroa dele, mas não foi, nem um, nem a outra, como não foi o Maradona, nem o Pelé, nem Zidane. Foi Mourinho.
E nós, que lemos jornais, merecemos que se atente melhor em alguns fenómenos e que se mostre o merecido respeito.

segunda-feira, março 28, 2005

Manda quem pode

O direito de mandar adquire-se em democracia e ao ser sufragado torma-se um dever. É ao governo que cabe decidir sobre variadas matérias, com mais ou menos intervenção da Assembleia da República, onde não raro, sobre as propostas do governo, se travam sonolentos diálogos de surdos. Resta, para prevalecer a tese do governo, o parecer do Presidente da República sobre a constitucionalidade da Lei.
Frequeentei um curso de formação sobre a Constituição, apoiado em fundos estruturais europeus, ou lá como isso se chamava, e saí dele com um pomposo diploma, atestando simplesmente a frequência. Como desde o princípio (foi um curso longo, longo, durou dois dias, um atrás do outro) não achei piada, nem à matéria, nem ao constitucionalista e passei o tempo a levantar reservas e a revelar claro cepticismo. Ganhei o rótulo de esquerdista o que, isso sim, me divertiu imenso. E isto para ter de reconhecer que tenho pouco jeito para citar a Constituição ou para fazer dela um auto de fé. Por exemplo, nem sei se a questão do aborto é ou não um dogma constitucional. Dava-me jeito que não, mas se for que se lixe!
Um grupo de artistas comentadores discutiu, num canal de televisão, o assunto e alguns não disfarçaram o mal estar que a posição da Igreja lhes transmitia. De repente viam o referendo em risco. A hipótese do não se sobrepor é, de facto, asustadora, mas seja como for, as regras do jogo são essas: ganha quem tem mais votos, perde a razão.
Estou em crer que este é o lado errado. Não é tema de religião. É matéria de intervenção política(de governação) porque interfere com direitos e liberdades dos cidadãos, que não podem nem devem estar sujeitos a dogmas, seja lá isso o que for, religiosos; e científica, pelos efeitos que exerce sobre a saúde física e psicológica.
É ao governo que cabe decidir sobre o peso dos impostos que o cidadão deve pagar (ou ficar a dever) sobre se os pópós podem ou não estacionar nos passeios. Sim, senhor, é ao governo que compete definir quem é que pode soprar em apitos dourados (e quem não pode!), é o governo que deve fixar as propinas e deve também ensinar o caminho do futuro, assegurando um presente digno. A Igreja é outra coisa e por muito respeito que possa merecer é um pouco como a TV Cabo -- serve para os tempos livres e só lá vai quem quiser. Pode pregar a fraternidade e a castidade (sobre isso Eça já disse o bastante!); pode abençoar os baptizados, abrilhantar os casamentos e ajudar os vivos a chorar os mortos. Mas não se pode, nem deve, permitir a qualquer culto entrar na cama das pessoas, na vida íntima dos crentes ou limitar o livre arbítrio.
E não é só o governo que tem de entender isto, é também, e sobretudo, a Igreja: façam do culto uma festa, não um trauma.

Leis das Finanças

Das leis do hóquei em patins para as leis das finanças: vejo na SIC Notícias um programa sobre a falência da ENRO.
Fico a pensar: agora que o PS declarou guerra aos grupos de pressão e até salvou os sobreiros de Benavente, talvez chegue a vez de fiscalizar as contas das empresas que especulam para além do que devem com as finanças. Talvez chegue a hora de chamar à razão alguns administradores de grandes empresas que atiram gente para o desemprego para poderem gastar "à tripa forra".
Talvez algumas empresas mereçam mesmo o tratamento que foi sujeita a ENRO. Papéis para isso não devem faltar
Talvez alguns administradores devam mesmo ser algemados e conduzidos à prisão, se, entretanto, ao sistema judicial for colocada uma venda nos olhos como a que é colocada à figura da Justiça em todos os "Palácios" dela.
Talvez possamos vir a ter um país a sério.
Talvez valha a pena viver os anos seguintes.

domingo, março 27, 2005

As Leis do Hóquei em Patins

Há muito tempo que trago na cabeça a ideia de escrever sobre o Hóquei em Patins, uma modalidade desportiva em que Portugal é, normalmente campeão, embora, ultimamente o seja com muito mais dificuldades. Aproveito a oportunidade da realização do Torneio de Montreux.

É sobre as cada vez maiores dificuldades do Hóquei português que me ocorre discorrer: fomos enganados há já muitos anos - não sei quantos - quando consentimos na alteração de leis fundamentais da tal modalidade em que eramos quase imbatíveis.

Na verdade, os hoquistas portugueses tinham ( e têm) sobre todos os seus adversários uma habilidade inata do controlo da bola e dos patins.

Estas duas habilidades permitem-lhes jogar a grande velocidade, desde que usem todo o campo.

Ora, foi aqui que os dirigentes do Hóquei nacional foram enganados, ao permitirem a criação de uma linha de anti-jogo, que reduz o campo de jogo a metade. De facto, o hóquei em patins, que era uma modalidade espectacular passou a ser uma espécie de andebol sobre rodas com um pau na mão, sem velocidade, sem imaginação e sem graça.

Os adversários de Portugal eram e ainda são, sobretudo a Espanha e a Itália e foram eles que lutaram pela tal linha de anti-jogo - um verdadeira aberração. Para que são as rodas se não para dar velocidade ao jogo?

Não há maneira de voltar a libertar o espaço e, desse modo, permitir aos jogadores que usem todo o campo para praticarem um hóquei veloz, tal como o fizeram Jesus Correia, Correia dos Santos, Cruzeiro, Lisboa, Adrião e tantos outros?

De resto, há outras leis introduzidas no jogo que prejudicam a sua espectacularidade. Refiro-me às que regulam a capacidade de intervenção do guarda-redes - que se pode deitar na baliza e defender sem que isso acarrete qualquer penalidade e o próprio tamanho das balizas...

Enfim... aí fica o desabafo de um amante desiludido. Hoje, o hóquei em patins já não é o que foi e, por isso, nem sequer ganha nada com as transmissões televisivas, ao contrário de outros tempos em que bastava um relato radiofónico para mobilizar o país.

DA BAÍA DOS TIGRES A VISEU

Da corda por se destinar a rememorar o passado. Como se sabe, quanto mais passado mais podre. O nosso passado comum é ainda recente e, no entanto, tudo se alterou e nada foi do que se esperava. Mas serviu para forjar um presente envenenado. Calma, calma, não estou a sugerir que o Barbas tenha congeminado de propósito a maldade de lixar os brancos que estavam em África e enfernizar a vida aos pretos que por lá ficaram. Referia-me mais terra-a-terra ao presente que se criou entre a chamada civilização ocidental e o resto, considerando como "resto" os locais aprazíveis onde os civilizados de parte do Ocidente costumam ir de férias, explorar a mão de obra alheia, bem como outras partes da anatomia local.Mesmo mau, o presente que hoje se vive, tem para nós mais e melhores recordações que para o comum dos civilizados que nos rodeiam, que vive os seus problemas sem o polvilhar de recordações. Quem, hoje, se pode lembrar da Baía dos Tigres, onde a pista era de lajes e servia de passeio dominical, porque tudo o mais era areia fina e o motor mantinha a luz acesa até às 22 horas. E onde fiquei pasmado a olhar pasteis denata, tal e qual.Havia também bolas de berlim e outra doçaria corriqueira das pastelarias, mas na Baía dos Tigres não havia pastelarias, nem lojas chinesas, nem pronto-a-vestir. Só havia areia e uns barcos que pescavam e, em algum curto período do ano quase se podia passar a pé para o continente. E havia cães! Cães que comiam peixe, se queriam comer alguma coisa, E gente gira, que sabia valer a pena viver, mas para isso havia que saber sobreviver. Aos domingos as gentes juntavam-se num dos serviços aéro-portuários, com o lanche ajantarado.Passeavam pista fora, arreados por ser domingo.Estive lá mas foi como se não estivesse estado. Não percebi nada. E nem sabia que não precisava de perceber. Estive lá. E sei que, se um dia for rico ou poderoso, gostaria de lá acabar e lá ficar, sob a areia...Entretanto vou pairando por aí. Ontem, ao fim da tarde, passei perto de Viseu.Vinha de Mirandela para a Régua, pela montanha deslumbrante.Missão dura: almoçar na Galafura, no miradouro de S. Leonardo. Nem quero falar disso. Não vão lá; aquilo é demais, não vale a pena. Nem é justo haver uma coisa assim.Miguel Torga é que sabia. É preciso esconder. É tudo mentira. Tudo.Não vão a Galafura. Vão a Viseu. É mais animado. Moral sólida econvencional. É gente tesa e lá os polícias são distraídos, nem sei bem, mas ou são distraídos ou mal pagos. Em todo o caso melhor seria que fossem para as obras ou, porque não? para a Síria, que isso do Iraque já deu...E a mim deu-me para ser infeliz. Queria falar a um amigo sobre o antigamente. Quando eu era menino e moço e aprendia a vida indo às meninas. Meninas era uma espécie de lojas em voga, nesse tempo distante, ainda por cima salazaresco.Por dez escudos podia-se. Nalguns casos de sedução bem sucedida podia-se mais. Havia antros a vinta paus. Aí a escolha era permitida.Uma jovem precocemente envelhecida ensinou-me: "que queres, meu querido, cabeça que não tem juizo, o cu é que paga"...Pronto,pronto. Agora já sabem porque me esforço tanto para ter juizo...

sábado, março 26, 2005

Antes que seja tarde

Chove que Deus dá! Papagaio. Já não se aguenta. Tento sair, que o pobre cão já não aguenta. Os pés cheios de lama. Inquieto-me. Acho que devo telefonar ao ministro novo, por causa do velho que se esqueceu de meter os papeis para o subsídio da seca. É urgente avisar o novo, dos efeitos avassaladores do mau tempo. É preciso começar a meter os papeis em Bruxelas. Precisamos de ajudas comunitárias urgentes. As colheitas do que não teve tempo de secar estão em perigo de se afogar. Vamos todos padecer à míngua. Força, minha gente, toca a mexer. Que não se guarde para o amanhã o subsídio que se deve pedir hoje, já. Avisem, se faz favor, os senhores ministros da chuva e dos malefícios de ser indolente. O dever primeiro das maiorias é saber o como, o a quem e o quando exigir o que nos é moralmente devido.
Deve igualmente exigir-se do executivo medidas urgentes para aproveitamento das infraestruturas da Bombardier, enquanto houver por lá umas maquinetas, para produzir chapéus de chuva impenetráveis e com aquecimento central e galochas antiderrapantes. E luvas, claro, assépticas, com as quais se possa coçar seja quem for. Urge evidenciar a nossa capacidade
de enfrentar as piores tormentas, com subsídios a preço da uva mijona, apesar do risco a que a dita está sujeita.
Deve igualmente aproveitar-se a invernia para melhorar a programação televisiva de forma a minorar os efeitos nocivos no mercado de trabalho. Se os desocupados não têm que fazer, que possam, ao menos, ter que ver, sem se aborrecer de morte.
Enquanto isto, as previsões metereológicas revelam-se assustadores. As rajadas de sudoeste estão a ser influenciadas por um anticiclone qualquer e podem diminuir e se parar a chuva, lá virá, outra vez a porcaria da seca. Com chuva ou sem chuva querem apostar em como o Portugal-Canadá vai ser uma seca!...

Código da Estrada

Primeiro erro da governação PS: a promulgação de um Códio da Estrada feito por outros e que continua a constituir-se como uma armadilha (emboscada) para os cidadãos cumpridores. Este Código não traduz a necessidade de fazer para a estrada uma lei que obrigue as pessoas a um relacionamento civilizado. Pelo contrário, leva para a estrada o medo das emboscadas montadas de forma arbitrária pelas autoridades que, incapazes de combater os verdadeitros delinquentes e criminosos, ocupam o seu tempo a assustar e a explorar os cidadãos cumpridores.
O PS tinha a obrigação de suspender a promulgação deste código de "cobardes" para fazer um outro, susceptível de acolher o apoio dos homens e mulheres de bem deste país. Deste modo continuamos a justitificar a existência de uma autoridade caprichosa que faz da lei um chicote ou um caminho de fuga.
Para quê tanta pressa? Para poder dizer que o código foi feito por outros. É verdade, mas não deixa de ser um atentado à inteligência de um a Nação.
Porra!

sexta-feira, março 25, 2005

Rdp África II

Para a RDP África o importante é libertar-se das influências instaladas pelo seu anterior director- David Borges - já que a sua propalada ascendência cuanhama se tem casado com algum sucesso com o "quipungo" Kundy Payama, exactamente o primeiro comissário do Cunenne ( Ongiva), e também o primeiro a fugir da invasão sul-africana, de pasta à " James Bond" e pulseira de ouro no braço esquerdo. Lembras-te David Borges? Não? É verdade, não estavas lá, já tinhas fugido muito antes.

É verdade: são mensagens cifradas, as chamadas "private jokes", mas eu explico: David Borges, branco de gema, filho de sargento do exército colonial português, nascido em Pereira d'Eça perfeitamente por acaso, simpatizante da UNITA de Jonas Savimbi desde a primeira hora, depois de ter fugido para Portugal , assim que as condições o permitiram - diria mesmo, exigiram - transformou-se em Cuanhama ( tribo pertencente a uma nação importante do Sul de Angola e do Norte da Namíbia - a Nação Ambó) apenas porque tinha nascido na então Pereira d'Eça.

Nunca falou uma palavra Cuanhama, nunca usou tchinkuani, nunca manipulou uma zagaia, mas acha-se um cuanhama, súbdito do rei Mandume.

Porquê? ( ele não sabe o que é um tchinkuani, o rei Mandume... a Nação Ambó)

Porquê?

Porque lhe serviu de chave para algumas portas: Aldemiro da Conceição , " o acessor prás gajas" do presidente Eduardo dos Santos, no tempo em que o ZéDu utilizava a piscina do Futungo... Kundy Payama...

Aqui está a porta estranha: é que Kundy Payama, ex-primeiro cabo do Exército Português, no ASMA, em Luanda, natural do Kipungo, Província da Huíla, foi nomeado como primeiro comissário do MPLA na Província do Cunnene, com capital em Ongiva (ex-Pereira d'Eça) e foi também o primeiro a fugir perante a eminência da invasão sul-africana.

Em Outubro de 1975, com uma pasta à "James Bond" e uma pulseira de ouro à "betinho dos anos sessenta", apareceu no Lubango implorando uma boleia para Luanda. Nunca ninguém percebeu o ar assustado do actual e ex-ministro não sei de quê. Eu acho que ele queria mudar de calças e de tudo o resto em terreno seguro - Luanda.

São estes dois homens (David Borges e Kundy Payama) que têm, hoje, uma aliança perfeita, com o acessor de ZéDu pelo meio.

São estes dois homens - que não sabendo a história de Mandume - também não sabem as do Comandante Kapofy (Cowboy) e do militante-poeta Vidigal, esses sim verdadeiramente cuanhamas - mortos com tiros nas costas, quando defendiam o seu povo dos canhões racistas sul-africanos.

Fazer o quê, David? Ensinar-te outra vez a história? Vai, vai, mas deixa-nos em paz. Escusas de dizer que não gostas " do rumo que as coisas estão a tomar".

Que rumo?

Alguma vez o tiveste?

RDP ÁFRICA

Republiquei há dias um texto sobre a televisão, especificando em capítulo àparte a RTP África. A republicação tem um objectivo claro: quem vai tomar decisões sobre a matéria não pode esquecer as observaões que são feitas ao serviço prestado - isto é, mais vale a pena fechar.
Outra questão é a RDP África - feche-se hoje mesmo. Demita-se o director, peça-se-lhe, por favor: aceita o convite do Aldemiro da Conceição. Desse modo toda a gente ganha, fica tudo claro. É ou não é, David Borges?
Angola reganha um filho, o Aldemiro uma voz autorizada e a RDPÁfrica um novo espaço de afirmação, sem os telefonemas do Futungo - que é longe "pacaraças..."

quarta-feira, março 23, 2005

Recapitulação II

Este segundo capítulo de recapitulação da "matéria dada" dedico-o à Televisão, repondo um texto que me deu algum trabalho na altura e em que falava de erros- alguns verdadeiramente catastróficos - trazidos pela governação PSD/CDS e do ministro mais ignorante da matéria que passou pela tutela. De facto, Morais Sarmento passou pelo Governo apenas para beneficiar os grandes grupos privados de audiovisual, atrofiando, quer a Televisão, quer a Rádio públicas. Como o programa do actual Governo é pouco explícito em algumas matérias relativas a estes dois importantes sectores da vida nacional, aqui deixo a reposição dos erros apontados.
A Destruição do Audiovisual

Já aqui foi dito que uma das razões por que a Televisão Portuguesa continua com uma qualidade impossível de comparar com qualquer outra europeia tem a ver com a destruição do audiovisual português. É que o ministro Morais Sarmento, enquanto retirava capacidade de produção à RTP, a verdadeira escola nacional de Televisão, entregava a produção televisiva a grandes grupos internacionais .
Quem são eles?
Grupo Telefónica (espanhol), onde estão incluídas as empresas Endemol, Gestmusic, Sonotech, United Broadcast, Telefónica e outras pequenas empresas-satélite, constituídas especificamente para a concretização de determinados contactos ou projectos.
A GesteMusic, por exemplo, só se radicou em Portugal para produzir e realizar a "Operação Triunfo", tendo abandonado o país quase tão vertiginosamente como se implantou.
Entre outros conteúdos, o Grupo Telefónica é responsável por grande parte dos Reality-Shows (Big Brother, Big Brother dos Famosos, Quinta das Celebridades), concursos (Quem Quer Ser Milionário, o Elo Mais Fraco...), Academia das Estrelas (Operação Triunfo), grandes séries, gravação de concertos, algumas transmissões desportivas, etc.
Grupo Media Luso (espanhol) - Apenas duas ou três grandes empresas constituem este grupo, a Media Lusa, Media Burst e a Media Pro, que detêm, quase em exclusivo, todo o mercado das transmissões desportivas nacionais, nomeadamente, o futebol.
A entrada deste grupo em Portugal está, de resto, rodeada de alguns aspectos menos claros, no que respeita aos meios técnicos utilizados e ao pessoal contratado.
Grupo NBP (Colombiano) - A actual NBP pouco ou nada tem a ver com a empresa produtora inicialmente constituída e hoje há alguma dificuldade em determinar, com exactidão, a nacionalidade dos capitais envolvidos, nomeadamente porque não é possível saber o destino que teve o Grupo Bavaria e os fundos ingleses e americanos, inicialmente envolvidos na Media Capital e na TVI.
Após alguns anos de graves dificuldades económicas, a NBP lidera, hoje, em Portugal, a produção de Telenovelas. Continua a produzir, quase em exclusivo, para o mercado nacional por não ter motivado qualquer interesse significativo no mercado externo. Apesar disso, a NBP parece póspera e com grandes projectos para o futuro.
Fremantle - Trata-se de um grande grupo internacional com um representante em Portugal e que faz aprovar, sempre que se proporciona, programas de entretimento, testados e rodados no mercado externo. A produção e os meios técnicos ficam a cargo de uma das empresas nacionais ou estrangeiras, especializadas neste tipo de serviço.
A Portugal Telecom - É um caso único no panorama Audiovisual Europeu.
O Grupo PT tem, na prática, a propriedade efectiva e o controlo da infraestrutura de distribuição do sinal de Cabo.
Tem o quase monopólio da distribuição desse sinal através de um conjunto de empresas que cobrem quase todo o espaço nacional e, na prática, desvirtua os princípios básicos das leis do mercado.
Controla, ainda, os conteúdos transmitidos por via dos canais que selecciona para distribuição pública, não implementando alternativas técnicas que permitam aos assinantes do serviço escolher livremente o conjunto de canais que pretendem receber, dos mais de duzentos a que o grupo tem acesso.
Controla, directamente, os conteúdos de alguns dos canais que transmite e de que é o principal responsável editorial.
Controla a organização da própria oferta do cabo, o chamado" pacote básico", que altera sistematicamente e sem razão plausível, favorecendo alguns canais - escandalosamente todos os canais do grupo SIC - prejudicando outros, sobretudo a RTP e a TVI, retirando da grelha canais de interesse público - M6 - e substituindo-os por autênticas aberrações de interesse e gosto mais do que duvidoso (Vivir, televendas, etc).
Finalmente, controla o mercado publcitário dos canais do cabo, não generalistas, através de contratos de concessão a longo prazo, tudo na ausência de legislação que estabeleça regras, e com a conivência efectiva das entidades reguladoras, a Alta Autoridade para a Comunicação Social e a ANACOM.
Estamos, portanto, perante meia dúzia de grandes produtores ou grupos de produção que, globalmente, controlam a esmagadora maioria do volume de negócios da Televisão Portuguesa e, por esse meio, os próprios conteúdos produzidos.
A maioria das pequenas e médias empresas de produção nacional está à beira da falência, não tem mercado de programas que justifique o investimento e a actualização tecnológica, não dispõe de quadros especializados, não tem projectos nem perspectivas de poder vir a, num futuro próximo, realizar contratos que lhes permitam sobreviver.
Estão "entalados" entre os "grandes produtores" e as empresas de "vão de escada", cuja proliferação se acentuou a partir da entrega do canal 2 da RTp à chamada sociedade civil.
Ao contrário do que se passa no resto da Europa, em que se priveligia a constituição de pequenas e médias empresas, altamente especializadas, a concentração que se verifica em Portugal tem impedido o desenvolvimento tecnológico da grande maioria das empresas, a especialização dos seus quadros técnicos, actualização dos meios e sistemas de produção, enfim a prossecução de um projecto industrial, cultural e de produção autónomo, nacional e participado.
É por isso que hoje não se produz ou realiza, em Portugal, qualquer projecto televisivo inovador, não se conquista uma única parecela de mercado internacional, não se exporta um programa, não se vende uma ideia ou conceito, não se participa em nenhuma grande produção.
Nenhum projecto televisivo dura mais do que uma época (grelha de Verão ou de Inverno), os contratos de produção nunca excedem os seis meses de duração, não há projectos a médio ou longo prazo, as empresas não possuem especializações, não têm capacidade de rentabilização dos meios técnicos e humanos envolvidos, vivem sistematicamente à beira do colapso económico e financeiro.
A maior parte das empresas desconhce as regras de funcionamento do sistema, acreditam que o modelo implantado em Portugal é comum aos restantes países europeus, não desenvolvem parcerias internacionais, não têm capacidade financeira para participar de feiras, exposições e inovações que o normal desenvolvimento do sector impõe, estão completamenmte alheadas do que realmente se produz na Europa, estão quase tão isoladas, em termos internacionais, como durante o anterior regime.
Sr. Ministro M. Sarmento, espero que ainda esteja aí, para lhe explicar que o o sr. não foi um minisitro esforçado, inovador ou porra nenhuma. O sr. condenou um sector importante da vida portuguesa à estagnação. O senhor é responsável por uma grande fatia do desemprego que nos assola. O senhor nunca devia ter sido ministro de coisa alguma.
Teria muito mais a dizer-lhe, mas sabe: tenho um blog e a maioria dos meus leitores já está um bocado cansado desta matéria. Ficamos por aqui, mas não apareça em campanha a fazer do grande homem que salvou a televisão do caos e não sei de que mais!


A Desregulamentação da Televisão em Portugal

O sr. ministro Morais Sarmento devia, de facto, ter feito algum esforço e recorrido a uns acessores criativos para perceber onde estaria a importância do seu papel como entidade tuteladora da Televisão.
Devia, por exemplo, ter obrigado os vários operadores do ramo a cumprir um conjunto de disposições que já se encontram regulamentadas.
Todos eles deviam ser obrigados a cumprir, integralmente, o Contrato Programa que assinaram com o Estado Português e que legaliza as respectivas autorizações de emissão e distribuição de sinal.
Deviam, igualmente, respeitar os diplomas e regulamentos em vigor e que regem o sector Audiovisual, sob pena de lhes serem aplicadas coimas de valor suficientemente exemplar, já que não tem significado a aplicação de uma coima de valor inferior ao lucro que a contravenção proporciona.
Em simultâneo, devia ter estabelecido um novo quadro legal do sector, mais ajustado à realidade decorrente das evoluções tecnológicas recentes, que introduziram no mercado novos produtos: canais distribuídos por satélite e fibra óptica, canais privados e empresariais.
Quanto à Televisão Pública devia ter-se apoiado nas conclusões da comissão independente que convidou e depois desprezou para definir um modelo de televisão e, em seguida, criar uma estrutura técnica e uma direcção administrativa e de conteúdos, de informação e programas adaptadas ao modelo escolhido.
O que é que aconteceu com o sr. ministro M. Sarmento?
A RTP mudou de instalações próprias para umas instalações alugadas, sofreu uma "profunda reestruturação", cujos resultados ainda não são visíveis, mas que, pelo que se passa em sectores vitais da empresa, poderão ser os piores.
Mais alguma coisa, para além da continuada protecção aos canais de Pinto Balsemão, que, de resto, já vinha de trás?

A Televisão do Nosso Descontentamento - Programação

As políticas de "grande esforço e inovação" do ministro M. Sarmento na Televisão não são responsáveis apenas pelo baixo nível da nossa informação televisiva. Eu diria que elas são, sobretudo, a causa do baixíssimo nível da programação de todos os canais portugueses.
Olhemos para o panorama geral das grelhas de programas emitidos pelas televisões portuguesas, cujas diferenças existem apenas nas bengalas em que cada uma delas se apoia: a SIC numa batelada de telenovelas produziadas pela TVGlobo, a TVI nas suas próprias telenovelas e a RTP em concursos já gastos e revistos.
Logo pela manhã, há um tempo de informação e entretenimento, na RTP1, "Bom dia Portugal", na TVI, "Diário da Manhã".
Seguem-se nas três cadeias longos "talk-shows", conversa de estúdio, sobre tudo e coisa nenhuma, com participação do público, geralmente remunerado a custo reduzido, dois ou três "especialistas convidados", figuras de quinto plano.. A opção está entre acompanhar o Jorge Gabriel (RTP1), a Fátima Lopes (SIC) ou o Manuel Goucha (TVI).
Às 13 horas, os noticiários, longos de mais de uma hora e sem qualquer critério editorial - adopção cega do modelo tabloide.
Às 14 horas todos eles adoptam pela repetição de séries, que, às vezes, já vão na quinta e na sexta repetição. Segue-se mais um talk-show em cada um deles. Só a partir do meio da tarde é que recorrem às tais bengalas, o que dá a aparência de programações alternativas.
À noite, depois de mais um longo jornal de pelo menos uma hora, com os critérios já descritos, lá vêm, na SIC e na TVI, programas de anedotas. O mesmo esquema deverá estar a ser seguido pela RTP 1, que, entretanto à falta de tal alarvidade, e por agora, apresenta uma série de produção nacional, de excelente qualidade "Ferreirinha" - uma honrosa excepção em alguns anos.
A seguir às anedotas e à tal série, a SIC e a TVI voltam às telenovelas e a RTP1 aos concursos.
Porquê uma tão confrangedora grelha de programas? Por uma questão de redução de custos? A situação financeira em que se encontra a generalidade das cadeias de Televisão em Portugal não justifica, minimamente, as opções editoriais e de programas adoptadas.
Repare, sr. ministro, vou começar a explicar-lhe: como há alguns anos afirmava o realizador brasileiro, Walter Avancini, o problema da Televisão Portuguesa é de natureza cultural e resume-se à falta de qualquer projecto cultural para o país e consequentemente para os diversos órgãos de comunicação social.
O sr. achou que esta coisa de televisão se resolvia com a entrega da produção televisiva a grandes grupos, sobretudo se fossem estrangeiros, e atirou o audiovisual português para as urtigas, estrangulando a capacidade criadora que as pequenas e médias empresas detinham para alimentar as cadeias televisivas.
O ministro Morais Sarmento não percebeu que a televisão representa o mais poderoso instrumento de divulgação cultural e entendeu apenas a sua condição de principal aparelho ideológico do Estado. Daí que, a certa altura, se deu ao desplante de afirmar que o Estado o devia controlar inteiramente, porque "os jornalistas não vão a votos".
E a verdade é que não desistiu da ideia: basta olhar os telejornais da RTP 1 e perceber as manobras com alguns programas, que podem ser considerados incómodos para o actual poder, como é o "Contra-Informação", um caso raro e notável de sobrevivência perante os ataques demolidores do ministro Sarmento às pequenas e médias empresas de audiovisual.

A Televisão do Nosso Descontentamento - Informação

As políticas de "grande esforço e inovação", levadas a cabo pelo sr. ministro M. Sarmento não tiveram efeitos apenas na RTP, a instituição que ele tutela directamente. No seu conjunto, a Televisão Portuguesa, pertencendo a um País Europeu, membro de pleno direito da União Europeia, de cultura e modo de vida europeus, pode classificar-se dentro de um modelo misto de latino-americano e de canal local americano, mas nunca uma Televisão de modelo europeu.
Analisemos em primeiro lugar, o que se faz em matéria de informação e sem falarmos das trapalhadas que se fazem com as mensagens de órgãos de soberania, por exemplo do Presidente da República ou do Primeiro Ministro, que, normalmente, aparecem a meio dos jornais, comentadas pelos jornalistas de serviço, enquadradas por oráculos de frases soltas, retiradas do contexto, tudo num cenário de feira a que não faltam as notícias de rodapé, sobre matérias que nada têm a ver com a comunicação emitida.
Em nenhuma televisão europeia, notícias de relevante importância nacional são preteridas a favor de informações locais, de interesse duvidoso, numa sucessão noticiosa sem critérios, nem objectivos, sem discernimento nem equilíbrio. Dir-se-ia que, em Portugal, só acontecem faits-divers, desastres, roubos, crimes, violações, assaltos...
É degradante a imagem que os diversos noticiários nacionais dão do País e do Povo Português. Ao relato e análise dos factos prefere-se o comentário especulativo, a informação converte-se em espectáculo: o "vizinho", o "morador", a "turista" e a "testemunha" são o novel critério jornalístico; o jornalista é a "notícia", a "notícia" é uma inimaginável sucessão de banalidades, uma feira de vaidades, pessoais e profissionais, onde a classe política no poder ganhou especial protagonismo.
O falso "volume de informação" criado neste sistema comum aos canais portugueses esconde uma outra realidade, que decorre da profunda fragilidade e incapacidade das diversas direcções de informação, da televisão pública e privadas, que não lhes permitem produzir nenhum bloco noticios sério ou qualquer magazine de informação especializado.
A Televisão Portuguesa interessa-se pouco pelo que, de concreto e capital, se passa no território nacional, despreza, soberanamente, o que ocorre no estrangeiro, sobretudo se a realidade ultrapassa a sua capacidade de compreensão imediata, se a notícia não arrasta o drama, a tragédia ou a vulgaridade e se não chegar pelo sistema diário de troca de informações televisivas internacionais (EVN's).
Este panorama é o resultado das políticas desenvolvidas pelo sr. ministro M. Sarmento, a quem aconselho a não sair daí... porque, lá mais para a frente, vou explicar-lhe porquê.


A RTP Do Nosso Descontentamento III

RTP INTERNACIONAL E ÁFRICA

Na sua política de esforço e inovação, M Sarmento não conseguiu descobir algo para que não era necessário nenhum esforço: a existência de uma RTP África, ao mesmo tempo que uma RTP Internacional é uma aberração. Não faz qualquer sentido fora de um quadro de actuação definido por preocupações neo-coloniais, eu diria mesmo, racistas.
Isto é, a RTP Internacional é para brancos e a RTP África é para negros.
As preocupações, legítimas, de o Estado português utilizar os meios de comunicação social para, por um lado, comunicar com os seus cidadãos espalhados pelo Mundo e, por outro, fazer a defesa dos seus valores culturais junto de comunidades que os partilharam durante séculos e, em alguns casos, ainda partilham, têm que corresponder à elaboração e execução de políticas rigorosas.
A RTP Internacional deverá ser dirigida igualmente para África, sem uma designação específica, mas tendo em atenção as peculariedades das sociedades que ocupam os vários espaços a que se dirigem as suas emissões. Assim, se uma edição para África da RTP Internacional, não deve ter os mesmos conteúdos dos programas destinados a França, estes não podem ser iguais aos que são vistos no Canadá ou nos Estados Unidos, ou no Brasil.
Esta concepção valoriza, de facto, a posição de Portugal no Mundo, mas implica investimentos. Desde logo na investigação das correntes emigratórias nacionais, nas suas várias componentes e na dotação dos departamentos responsáveis por estas emissões de gente qualificada para orientar antenas e programações para públicos eterogénos, mas com uma raíz comum.
A RTP não tem que juntar às suas emissões internacionais produtos que não correspondam a um perfil definido pela preocupação de fazer de cada minuto de televisão transmitido para o estrangeiro um tijolo na construção de uma comunidade respeitada, coesa, culturalmente avançada, com um passado contribuinte indispensável para o Mundo de hoje - uma comunidade que a todos respeita, mas que exige ser respeitada.
Não é essa a ideia que ressalta dos inquéritos, não comprovados cientificamente, mas possíveis graças à troca de ideias que a actual globalização das comunicações vai permitindo.
De resto, para comprovar a desgraçada qualidade das emissões da RTP Internacional e África basta recordar as palavras de um emigrante canadiano, proferidas há pouco tempo, em directo: "não somos só nós que já não vemos a RTP Internacional e África, tudo faremos para que os povos que nos acolheram também não as vejam, porque o País e o Povo que nos dão a conhecer não condiz com a realidade que apreciamos".
Ora aí está, sr. ministro, o resultado da sua política de "tanto esforço e inovação".

A RTP Do Nosso Descontentamento II

O CANAL 2 E A SOCIEDADE CIVIL

Um dos grandes cavalos de batalha do ministro M. Sarmento, na sua política de "grande esforço e inovação", uma adjectivação repetida por ele próprio sempre que tem oportunidade, foi a seguida com a RTP 2, "entregue à sociedade civil".
Esta "entrega" foi a maior mistificação da tal política, já que esta sociedade civil, a que foi entregue o Canal 2, não existe. As instituições que se associaram a este projecto e se constituiram como "parceiros" do canal, que patrocinam uma parte dos programas emitidos, são, na sua maioria, organismos, organizações e empresas , fundações, associações, alimentados por capitais públicos.
Para além dos capitais públicos têm outra característica comum: não têm vocação para produzir, realizar, programar, ou mesmo controlar a produção de programas de televisão. Acrescente-se que, em alguns casos, a contribuição dada ao canal 2, no panorama da tal sociedade civil, tem apenas a ver com "pequenas vaidades pessoais" dos respectivos dirigentes.
As consequências são o que se vê: quando a proclamada sociedade civil ocupa a Antena, sucedem-se os programas sem qualidade técnica, estética, artística, numa confrangedora pobreza de conteúdos e de formatos, a que a direcção do canal parece não querer nem poder pôr fim.
É que aquelas são horas preenchidas com programas entregues, para emissão, a custo zero ou tão baixo que tornam impossível a mínima exigência.
Aliás, à parte os programas produzidos pela RTP Meios, e que em nada se distinguem das piores produções externas, não existe nenhum controlo de qualidade dos programas apresentados, já que os "parceiros" do canal escolhem, soberanamente, as empresas produtoras dos seus "produtos televisivos".
Esta falta de controlo deu origem ao aparecimento das chamadas empresas de vão de escada, produtores completamente desconhecidas até agora e que são escolhidas pelos parceiros do canal para produzir e realizar a baixa qualidade que caracteriza o actual canal 2.
Em conclusão: o orçamento de Estado continua a pagar dois canais de televisão, com duas diferenças importantes: a factura do canal dois é dividida em múltiplas contas, algumas das quais não contribuem, seguramente, para o objectivo estabelecido e, ao mesmo tempo, o Estado alienou o controlo da qualidade de grande parte da grelha de emissão daquele canal.

terça-feira, março 22, 2005

Recapitulação I

Ao longo dos meses - sem quase dar pelos dias a correr - fui escrevendo as minhas impressões sobre o que ia acontecendo à minha volta, sobretudo nop domínio da política. Alguns dos textos, entretanto sobrepostos por outros demonstram-me, agora, que há impress~~oes que valem a pena ser lidas. Deixo hoje alguns exemplos.

O primeiro tem a ver com o desastre PSD/CDS e alguns dos seus anúncios mais evidentes.

O Estado-Empresa ( 10 DEZ 04)

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Problema para netos resolverem (14 DEZ 04)
Quando toda a gente imaginava que o anedotário nacional acabara, eis que os dois se reunem no Ritz e, com toda a pompa e circunstância, anunciam a festa do divórcio. Só não se sabe onde foram passar a lua de mel. Vão regressar em breve ao casamento - a sério - para ralhar um com o outro. Novo casamento entre as respectivas famílias só já entre netos. Nessa altura espera-se que haja netas para a cerimónia.
São apenas conjecturas sugeridas por esta opereta a que temos assistido, com um final anunciado: no palco vai entrar um taxi para levar os deputados do PP ao Parlamento, já que vai ser necessário poupar para pagar as obras do Caldas. Paulo Portas recusar-se-á entrar.No mesmo plano e mesma cena, ainda mais torto do que tem aparecido nos últimos dias, mais vergado e mais coitadinho, Santana Lopes sairá pela porta das traseiras para não ser visto pela multidão dos seus até agora apaniguados. Sem saber para onde ir, acabará, seguramente, por ser acolhido na Quinta, em grande festividade.

Castração (30DEZ04)

A palavra castração é exacta para descrever o actual estado PSD. É espantoso como um partido que sempre soube reagir perante a possibilidade de chegar ao poder ficou parado frente à grande probabilidade de o perder.
Toda a gente perde muito tempo com Santana Lopes. Nos jornais, nas rádios nas televisões, os comentadores encartados e desencartados. Por mim, já escrevi aqui que Santana Lopes, felizmente para o país, é um problema do PSD. Todavia, quando tal escrevi ainda tinha a esperança de ver o PSD reagir e encontrar uma solução que lhe permitisse recuperar alguns dos estragos provocados pela sandice de Santana Lopes e da sua equipa.
Passado algum tempo, concluo que o PSD está mesmo manietado, sem capacidade de recuperação com toda a gente, no partido, a confiar numa coisa espantosa: na capacidade de "combate" do Pedro. Francamente! o homem até a ler os papéis que lhe dão se engasga... E quando fala de improviso só lhe vem lixo à boca!
Os profissionais do marketing político não fazem milagres e alguns, de tanto se esforçarem, acabam mesmo por conseguir os efeitos contrários ao que programaram.
Este PSD está mesmo castrado e isso não é bom para a democracia portuguesa, até porque, depois das eleições, os ajustes de contas não vão ser rápidos. Santana Lopes não é o único responsável. Quem o deixou chegar à liderança também vai ser julgado. Por quem? haverá gente limpa neste processo de destruição de uma força política com a história do PSD?

VELHA PÁSCOA, VELHO VIVER

Todos os anos os judeus comemoram a sua saída do Egipto. Por todos esses mesmos anos os egípcios ignoram essa mesma saída. É coisa que nem consta da sua história, salvo erro, em absoluto. Talvez então que a história continue a ser o que cada um quer que seja, assim como para cada escrevinhador semanal a história da semana seja o que ele quer que seja.
Assim:
O tempo de julgar
Foi notícia dos últimos dias. Pequenina porque dos fracos não reza a história. Mas por cá sabe-se que se juntou em Lisboa um Tribunal Mundial Sobre o Iraque, o qual pretendeu julgar os responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque.
Um julgamento que pretende ser moral num mundo seguramente sem moral. Na prática acto nulo. Que aliás já foi feito há muito tempo. Os povos falaram do Japão à Inglaterra. A política, no entanto, não quis formalizar essa voz. E menos escrutinar resultados. No fundo, a malta barafustou e pronto.
Depois aconteceram os mortos, os feridos, os desaparecidos, a fome, as destruições e também pronto: entrou-se no politicamente correcto, que é o salvar a face da força. Irresponsabilizá-los. Nem há outra saída airosa do atoleiro por causa dos efeitos colaterais duma barrela ao acontecido.
Um verdadeiro julgamento dos invasores e ocupantes, porém, fê-lo a natureza. Em poucas horas conseguiu o que eles não conseguiram em dois anos. Puseram o Iraque a arder e os iraquianos a matar-se uns aos outros, mas mais nada que se saiba. Agora, o maremoto matou 250.000 duma assentada enquanto os outros, ao que consta, ainda não chegaram a 150.000. E com ajudas, com palavras mansas, com a invocação de novas amizades. Na verdade uma vergonha para quem se julgava dono do mundo e nem em dois anos dominou o Iraque. Se a tivessem.
Soubessem eles perceber-se na força que não têm. Ensinem-lhes isso, já que inteligência para se perceberem por si também não. Seria mais útil que proferir sentenças sem força para as executar.
Os vice-versa
Pela originalidade, os dois mais notáveis cronistas portugueses serão Marcelo Rebelo de Sousa e Pulido Valente. O primeiro porque discursa para os apartes (atenção para quando os diz, por vezes é só isso que quer dizer) ; e o segundo porque é um cronista figadal. Depende do lado para que tem a víscera virada.
Originais de facto.
Serão uma espécie de vice-versa. Não porque sejam o avesso do outro, mas porque em originalidade são duas das faces da qualidade. Portanto um nem-vice e outro nem-versa. Mas mais ou menos do mesmo cobril. Cronistas navegando com uma costa à vista e duas intenções no mastro.
O nem-vice
De Rebelo de Sousa a história há de registar o elogio que ofereceu a Mourinho, com reparo à irreverência que este demonstra.
Foi reparo e lembra-lhe que, lá por ser génio, não se lhe pode permitir tudo. Logo a seguir veio o aparte, o importante em suma, que dizia mais ou menos assim:
eu quando era jovem e bom aluno, quer-se dizer, quando ainda não professor universitário, também fui rebelde. Comparou-se a Mourinho, portanto.
Mas não se disse génio, comparou-se só.
Genial aparte, convenhamos.
O nem-versa
Agora o figadal Pulido Valente. Há dias deu-lhe para escrever o que se segue:
Em França, o antiamericanismo( leia-se antinorteamericanismo) e, subsidiariamente, o ódio à Inglaterra continua a ser o fundamento da ortodoxia de Estado. Uma ortodoxia, que, de resto, a França comunicou à "Europa" (ou, no mínimo, às "velha Europa" que não sofreu o comunismo) e que ameaça hoje dividir o Ocidente.
A coisa não está mal pensada de todo. A França tem realmente a mania. E quem estudou por livros seus pode chegar à conclusão de que os franceses também: corre-lhes a presunção nas veias. Nem é preciso lembrar De Gaulle, como costuma fazer-se.
Contudo, o ódio a um poder imperial não é exclusivo dos franceses, que de imperadores parece que só gostam de Napoleão. Há antinorteamericanistas que nem de Napoleão gostam.
Todos os imperialistas, desde antes de Átila a depois de Mussolini, foram odiados.
Serve de exemplo o povo português (o povo, não os senhores de conveniências privadas nem as madames que fizeram boa cama a generais e outros que tais da manada napoleónica que ocupou Portugal), o qual, não obstante os brandos costumes, logo que se sentiu capaz, ofereceu aos franceses o tormento duma vida negra.
Instigado por padres que arregaçaram as batinas e acirrado por suas mulheres, obrigaram-nos a passar as passas do Algarve.
Claro que também houve os militares, os heróis e os ingleses que faziam do antifrancesismo ortodoxia de Estado. Houve esses, sem dúvida. Mas o povo, sem ortodoxia, tratou-os abaixo de cão.
Pulido Valente, que julgo ser historiador, se durar o tempo necessário, ainda há de rir com o que o Asterix vai fazer a Bush quando resolver deixar César e os romanos em paz. Caso, evidentemente, a catadura figadal lhe consentir que a inteligência sorria.

Cinema

Maria José Nogueira Pinto, um dia destes, em entrevista à Dois e à Rádio Renascença, quando lhe pediram uma palavra para definir Paulo Portas: Cinema.
Já naquela altura fiquei espantado com a inteligência da Provedora da Santa Casa da Misericórdia. De facto, PP está permanentemente frente a uma câmara imaginária para quem representa os mais variados papéis.
Para Paulo Portas, todavia, o cinema não passa por todos aqueles processos complexos de gravação, montagem (edição como se diz agora), etc. Não, para ele o cinema já está na tela com espectadores na sala- de preferência a bater palmas.
Foi o que aconteceu hoje, no Parlamento, com aquela sandice sobre a necessidade de José Sócrates corrigir o ministro dos negócios dos estrangeiros, Freitas do Amaral.
Disse tudo aquilo à espera do aplauso da sua claque, que, de resto, conhecia o teor da comunicação que o líder demissionário ia proferir. Todos se divertiam à grande e trocavam olhares cúmplices.
Hoje percebi melhor a palavra Cinema como definição de Paulo Portas. É um cinema de paranóico, de homem transtornado a precisar da chamada "ajuda profissional".

segunda-feira, março 21, 2005

Por morrer uma andorinha

Eram dois polícias jovens. Iam de serviço. Morreram.
Ainda ontem tinha decidido não ser oportuno escrever sobre o assunto. Por respeito. Mas, hoje, porque a indignação é muito grande não deixo esquecer. Tê-lo-ia feito ontem mesmo se tivesse sabido da missa a metade. A metade reles do país que somos. Mas a morte dos dois infelizes agentes não é tanto da responsabilidades dos governantes (de todos os dos últimos governos), como do comando-geral das polícias. Mais destes do que daqueles, sem que a responsabilidade não deixe por isso de ser dividida por igual.
O país ser indigente tem servido de desculpa para muita coisa, mas não justifica, porque nada pode justificar, não haver coletes à prova de bala suficientes para os diferentes tipos de emergência. E quanto mais elevado na hierarquia mais responsável. Não há desculpa. Adquirir umas centenas de coletes não terá significado, ainda não é por aqui que começa a miséria.
Pode parecer mais compreensível a ausência de meios operativos blindados, mas não sei se o seja.
Este governo, acabadinho de chegar, não terá culpa, se bem que alguns dos senhores ministros
já participaram noutros executivos anteriormente e com alguma responsabilidade na matéria.
Não que devam sentir mais culpa que tantos outros que os antecederam ou lhes sucederam.
Penso que não basta um qualquer minuto de silêncio para aliviar as consciências.
Como não bastará, só por si, abrir concursos expeditos para aquisição de viaturas blindadas, haverá talvez por aí algumas sem uso adequado, ou montadas e alinhavadas em unidades fabris extrapoladas ou em vias de...
Nem bastará ir aos saldos comprar os coletes da vergonha.
Não, não basta. É preciso apontar responsáveis, reconhecer responsabilidades, e limpar o prestígio dos organismos públicos de segurança. Quantos ministraram no sector nos últimos anos e quantos quadros chefiaram as forças da ordem pública, todos, sem excepção ,deverão ser afastados, com censura ou sem ela, de cargos públicos.
O mais provável, contudo, é que a culpa acabe por morrer solteira. Se assim for, acabará por afectar as prometidas reformas. ..

Faço-me Entender?

A SIC-Notícias, um fenómeno, se considerado sob vários pontos de observação, mantém um programa, que é um remake de uma edição radiofónica da TSF - nos tempos em que esta foi inovadora . Manteve ao longo dos anos os mesmos intervenientes, com ligeiras alterações, à direita.
Havia, até à última semana três totalistas: Pacheco Pereira, José Magalhães e Carlos Andrade.
A "Quadratura do Círculo" é uma aberração. Desde logo porque dá voz a Pacheco Pereira, que nos entusiasma quando parece ter-se libertado da política partidária, mas que fica corno, a sério, quando perde. Depois porque reduz o Carlos Andrade a uma espécie de imitador do Pacheco Pereira, sem coragem para defender as suas próprias ideias, a fazer o papel idiota do jornalista isento, que já não existe, e não foi imaginado para o original daquele programa.
José Magalhães, agora secretário (ou sub) de uma coisa qualquer, foi sempre, naquele programa, ora o cepo das marradas do corno, ora o palhaço que divertia os representantes da outra direita - sem complexos de alguma vez terem pertencido a correntes de pensamento preocupadas com as pessoas.
Eis que José Magalhães cumpre o destino e é substituído por Jorge Coelho.
Porquê Jorge Coelho?- perguntam-se as pessoas que ali o veêm.
Eu cá também não sei.
Cap.II
O Contra-informação, outro programa de televisão ( no canal público), talvez com outra lógica, parece vender bonecos (agora o Expresso anunciou que o "barão" Miguel vai aparecer e há já gente a perguntar quanto é que o barão - PT - pagou pelo cast) mantém Jorge Coelho como figura de primerio plano no elenco. A que propósito?
Oh! Mafalda! o Jorginho foi varrido. Não tem papel.
O que significa tudo isto?
Que o Jorge Coelho transferiu do governo de Guterres a força necessária para manter as dúvidas quanto à sua capacidade de influenciar o que quer que seja?
Eu não gostaria de responder - doutro modo teria que explicar os "boatos" que dão como certo o Murteira Nabo na presidência da GALP.
Faço-me entender?
Por que razão estes negócios e estas razões são, em Portugal, tão claros?

quinta-feira, março 17, 2005

Mercado alucinado

Alucinado devo estar eu, não o mercado,que eu queria marcado.
Bom! Vamos por outro lado. Ainda recentemente li por aqui uma citação poética muito bonita:
"...uma bola colorida entre as mãos (...)"
E fica-se a sonhar com imagens bonitas, à espera de reconhecer que "o mundo pula e avança".
Mas ou é impressão minha ou o homem anda a sonhar demais e o mundo fica indeciso entre pular e zarpar.
Como os leitores estão fartos de saber a farmácia da aldeia é uma instituição. Na minha, o farmaceutico é um pacholão. Além de saber, ao pormenor, a vida de toda a gente da redondeza,
cuida dos clientes sem cobrar pelo uso da seringa ou de medir a tensão. E, de repente, ficou tão atarefado que nem visto. Mudou as prateleiras, empurrou o balcão, alargou uma portade forma a ter-se acesso a outra sala.
Espantei-me e perguntei-lhe o que é que se estava a passar. Ele explicou que estava a preparar-se para as novas regras de mercado. Tencionava alargar o negócio e vender produtos hegiénicos e dietéticos que não exijam prescrição médica. E mostrou-se um canto onde vai vender vinho alentejano a copo, Cerveja também vai vender, mas só muitro gelada. Vai ter, também, outros produtos de dieta especial, como presunto de Chaves, morcela das Beiras e alguns enchidos de Mirandela. Whisky, também, mas apenas escocês.
- E daquele outro lado do balcão? - perguntei.
- Oh!, ali vai ser a agência de viagens! - E sem ligar a minha cara de pasmo, prosseguiu: - Vamos organizar viagems a Badajoz e à Suiça, para os casos de interrupção voluntária... Na outra sala, ali, vamos vender bilhetes prá Bola...
Eu abanei a cabeça cheio de compreensão pelas modernices e perguntei-lhe em que canto eu podia levar a injecção semanal. Ele abanou a cabeça:
- Oh!, menino, isso não. Uma farmácia não pode servir para tudo... Ali o vizinho do talho tem sala vaga e vai vender injecções, dar massagens e tratar das artroses...

Cabo Verde Na União Europeia

Hoje, dois dos chamados "monstros" da política portuguesa juntaram-se para defender, cada um a seu modo e pelas suas razões um projecto que a muitos poderá parecer louco: a adesão de Cabo Verde à União Europeia:

(ora, aqui está um tema que a Comunicação Social portuguesa bem poderia ter destacado nos seus noticiários - e até não custaria muito dinheiro; é apenas uma questão de atenção, cultura, informação...e pouco mais)

Mário Soares e Adriano Moreira (ou ao contrário, a ordem dos factores é arbitrária) lançaram na Sociedade de Geografia de Lisboa a ideia: Cabo Verde é um país independente, regido por um sistema político democrático, governado por um Estado que pode considerar-se uma pessoa de bem, onde são respeitados os valores fundamentais das liberdades política, religiosa, de oportunidade e todas as outras e, além disso, depositário dos valores mais importantes da civilização europeia.

Cabo Verde - acrescentaram os defensores do projecto - representa a extensão da Europa no Atlântico Sul, onde a sua posição estratégica é fundamental para a Europa no seu todo ( se não disseram isto foi porque se esqueceram) - logo, a Europa e os próprios cabo-verdianos devem preparar-se para este casamento em que toda a gente ganha.

Só me resta uma curiosidade: por que espera o Governo de Cabo Verde, chefiado por um homem, em tempos classificado como "o futuro de CaboVerde", para lançar uma verdadeira campanha de mobilização do país para atingir este objectivo proposto por dois verdadeiros senadores europeus?

Proponho um slogan: "Por Amor à Nossa Gente, Queremos A Europa Connosco".

Então, Zé Maria, esperamos, ou arrancamos? Olha o Renato gingando, enquanto fala: "nós também somos europeus..."
Ficar amarrado a atavismos em nome de pruridos ideológicos ou a medos de solidariedades impossíveis não resolve problemas.

Cá Se Fazem Cá Se Pagam

De vez en quando acontece: algém divulga números e estabelece tabelas (os media dizem "rankings") . Hoje foi a vez de hierarquizar a valoração que os vários povos dão - ou não dão - aos e(i)migrantes.
O lugar de Portugal é uma vergonha. Só os gregos são mais xenófobos e racistas que nós. Todos os jornais, rádios e televisões o repetem, à falta de verbas para assuntos próprios nas respectivas agendas.
Espantados?
De que se espantam?
Os portugueses nunca respeitaram ou admirararm os seus próprios emigrantes - pelo contrário, sempre os invejaram , exploraram e vilipendiaram. Por que razão haveriam de respeitar os imigrantes, de quem têm medo? Um medo explicado apenas pela diferença...
É tempo de deixar cair o mito: não somos um povo não racista, nem acolhedor para quem precisa de nós. Apenas sabemos ser subservientes, afáveis e simpáticos para quem nos usa.
Esperavam o quê dos números, uma máscara?
Cá se fazem, cá se pagam.

quarta-feira, março 16, 2005

"As Terríveis Questões" Portuguesas

Dois Jornalistas- ainda os há, e dos que não abdicaram da função mais nobre do jornalismo, opinar - na edição de hoje do "Público" tratam, cada um à sua maneira, a questão da confiança da sociedade portuguesa.
Tereza de Sousa, pelo seu lado, e muito bem - em texto que seria um ponto de partida excelente para a discussão da natureza do poder que nos rege, da sua fundamentação e legitimação - verbera o facto de o Estado, na sua versão mais visível, a Administração, tratar o cidadão comum como gente que não merece confiança, passando-lhe, permanentemente, "um atestado de menoridade.
A articulista demonstra, exemplificando, que essa desconfiança sistemática não é apenas uma manifestação de menor respeito pelos direitos dos cidadãos, mas também se traduz em prejuizos para todos nós. A conclusão deste texto pode ser a de que valeria a pena tentar uma administração baseada na confiança e assente no princípio de que cada cidadão é uma pessoa de bem, contrapondo às excepções pesadas punições legais.
Pelo seu lado, José Vitor Malheiros analisa o discurso de tomada de posse de José Sócrates, acompanha os vários raciocínios tornados públicos sobre a nomeação de Freitas do Amaral como ministro dos negócios estrangeiros, acabando por desvalorizar a argumentação que se lhe opôs e debruça-se, igualmente, sobre a medida concreta apresentada pelo primeiro-ministro quanto à venda livre de medicamentos não sujeitos a receita médica.
Malheiros concorda e desmonta os argumentos falaciosos daqueles que se opoêm à medida.
Todavia, no final do texto, num ponto 3, Vitor Malheiros levanta aquilo que considera "uma terrível questão" que é a de saber se estas decisões de Sócrates indicam "sinais de uma vontade ao serviço de uma estratégia (qual?)" ou não passam de "gestos avulsos apenas decididos pelo desejo de marcar agenda mediática, surpreender o homem da rua, entreter os comentadores e gerir o status quo".
Este é o outro lado da nossa marca cultural: a desconfiança dos cidadãos em relação a quem exerce o poder.
Um desconfiança que, obviamente, tem um preço a pagar também pelos cidadãos, porque esta desconfiança sistemática em relação aos agentes políticos, em vez de os punir desresponsabiliza-os.

terça-feira, março 15, 2005

SINAIS?

Nem é de agora. Houve tempo que aconteceu várias vezes com Mário Soares. O então primeiro ministro saía para o estrangeiro e atribuía às dificuldades no linguajar estrangeiro algumas da gafes que cometeu. O Jornal Novo tinha para ele um ante-título especial: "Mário Soares disse que não disse". Seguia-se a notícia invariavelmente a desmentir a afirmação produzida. Quando Freitas do Amaral, na sua qualidade de cidadão que carregava uma conotação política que manifestamente já não perfilhava, disse o que disse sobre Bush, não foi nada que não tivese sido já ou dito ou insinuado por muitas e distintas personalidades de vários quadrantes de vários países. O que disseram ficou dito. O que fizeram depois, e o que têm estado a fazer é lá com eles. Já não dizem o que disseram e dão-se palmadinhas nas costas.
E a guerra no Iraque deu no que deu e falta saber ainda no que vai dar.
Seja dito que nenhum deles se desdisse. Deitaram para trás das costas e toca a confraternizar. Menos Aznar, que caiu; menos Durão, que zarpou.
Se não tivesse dito o que disse, Freitas do Amaral possivelmente não seria hoje o ministro que é.
É a partir dessa tirada que ele claramente se demarcou de Portas e do resto da Direita. Fosse ou já não fosse, ele, de Direita, desviava-se da posição do governo. A sua postura relacionada com as eleições que se seguiram, o sinal de voto, era o ponto final parágrafo.
A tentativa de desmentir é um sinal, um mau sinal. É uma brecha no habituem-se que Vitorino em boa hora decretou. O incómodo não se apaga com fraquezas. Os ministros não devem esquecer que não foram eleitos para quatro anos. Freitas disse que não disse é capaz de ser um mau começo...

segunda-feira, março 14, 2005

O JOGO DAS CONVENIÊNCIAS

Usa dizer-ser que o jornalismo é o espelho das sociedades modernas. Em Portugal ultrapassou-se esse dizer. O jornalismo foi o espelho das trapalhadas. Não todas de Santana porque ele, o trapalhão-mor, herdou algumas.
Delgado/Durão/Belmiro
Luís Delgado foi homem que atingiu súbita projecção, um autêntico estrelato, com a poderosa investida de Durão Barroso pela direita reaccionária internacional. Cá dentro maneteve-se nem-peixe-nem-carne, um habilidoso de pouca habilidade de confundir a social-democracia com o populismo, munido no entanto do supremo talento de se mudar como pedra de xadrez no momento exacto. E assim foi mudando desde a extrema-esquerda por caminhos que o levaram da modéstia do folclorismo político a gorda renda mensal.
E a bem da pátria! O que lhe dá vantagem, se um dia chegar a mais rico que Belmiro de Azevedo, não ter de suportar a invejosa auréola que coroa o já ar de suficiência com que o opolento cavalheiro de indústria fala de cátedra, ensinando aos governantes o que devem ou não devem fazer. Ele que chegou a hoje depois de largo tempo de comedimento político. Homem de fala modesta e serena.
O falar da conveniência, que muda em tempo de mudança. O susto de Abril já lá vai. Corram-se as imagens do conversar dos homens de negócios a ver como são outros. Também Barroso é outro, mesmo sem contar com o patriotismo, a tal vantagem. Ele partiu de trauliteiro para conveniência de maior respeito: a de menos traulitar e mais compostura. A da contenção. Ou seja, a mesma conveniência dos cavalheiros de indústrias, mas de sentido inverso.
Ora, foi neste entreacto barrosista, já com paz nas aldeias e cada um a falar no tom do seu interesse, que Luís Delgado floriu.
Delgado/Santana
Mas se floriu com Barroso foi com Santana que atingiu o apogeu. O senhor, que de ignorado colunista do DIÁRIO DE NOTÍCIAS (jornalista de carteira profissional todavia, na realidade, um falta-de-jeito notável), havia subido a administrador-delegado da LUSA, mas com Pedro no poder foi mandado administrar nem mais nem menos que a LUSOMUNDO. O que juntou às funções de comentador político, de entrevistado, de objecto de crónicas, pessoa quase tão importante como o Cristiano Ronaldo. Apto a figurar na Quinta das Celebridades.
E inchou. Quis ser como o Belmiro. Propôs-se a comprador da LUSOMUNDO inteira.
Para quê e para quem?
Para o mau ajuntador de letras que é, seria como que chegar ao céu à velocidade da luz.
Mas com que dinheiro? De quem o dinheiro? Para quem o negócio?
Se Almada Negreiros tivesse alma...
Se tivesse já cá estava ela. A apontar os que, pior que Dantas, cheiravam mal da boca. Pim!
A gritar contra o salvador Oliveira que acabou por ficar com o negócio da LUSOMUNDO logo que despediram o Pedro Santana, à sombra do qual manobrava, dizem, Morais Sarmento com não se sabe bem que interesses e interessados da PT, dizem também. Desconfia-se.
Para aumentar a confusão garante-se, de vários lados, que o negócio é obscuro e, doutro, que a suposta traficância é transparente.
E com boa vontade até é possível achar que um Oliveira de escassas letras esteja interessado, assim a seco, no DN, no JN, na TSF, no 24 e no resto do abecedário lusomundista. A alma do Almada é que não ia nessa. No seu entender, Júlio Dantas, o director do DN que lhe cheirava mal da boca, era um balofo, um cerimonioso, um petulante, um gongórico vazio, mas lavava os dentes. Contudo, dessa gente, agora metida e a meter-se nos jornais e telefonias, queria saber de onde lhes vinha o cheiro. Dúvida que lhe atazanava a sua ainda mania da higiene.
Cadê a inteligência?
Num programa da emissora oficial, Luís Delgado não agoirou bom governo a Augusto Santos Silva porque, esclareceu, o hoje ministro escreveu sobre a sua qualidade jornalística coisas como se fosse Maomé a falar do toucinho.
E rematou o seu mau-agoirar com um sentido reparo de onde constou um "ele nem me conhece!".
Mas quem é que, em Portugal, não conhece um cronista que anda nu pelo meio das letras que escreve, um comentarista radiofónico e televisivo que se despe em cada palavra que profere?
Como prova de escassa inteligência é difícil conceber-se outra mais significativa.

YES MEN

Comecei a profissão não por ser especialmente dotado, mas porque quem precisa segura a primeira oportunidade. Um amigo, dos que aparecia amiude pelo Gelo, trabalhava na ANI e como bom comuna que era, acreditava que a maneira socialmente correcta de ajudar um próximo era arranjar-lhe trabalho. Influenciou o chefe de turno e eu lá fui fazer uma prova. A prova foi péssima, mas na apreciação o homem foi simpático e sublinhou que embora o texto produzido fosse satisfatório não revelava poder de síntese, além de excessiva lentidão dactilográfica. De facto, não sabia escrever à máquina e como se não bastasse o teclado não começava por azert, o que me baralhou os dois únicos dedos com os quais me ia ( e ainda vou)
desenrascando.
Aproveitei outro amigo, que tinha um biscate na Reuter e tentei a chance. Arranjaram-me umas horas nocturnas para substituir um que estava doente. Nos diferentes turnos havia sempre alguém que precisava de se baldar. Estava por lá quando foi a aventura do Santa Maria. A maior parte dos telexes era censurada, cortada na totalidade ou rasurada. Eu levava alegremente para o Gelo cópias dos telexes cortados e algumas vezes fotocópias dos telexes da censura.
Não levou tempo a que a PIDE colocasse um par de agentes à porta, primeiro da ANI, depois na Reuter e na FP.
A Reuter funcionava naquela altura na Rua do Telhal, num 2º andar. Amarrotava os telexes e
despejava-os pela janela, para a rua. Naqueles tempos ainda não eramos viciados na ecologia urbana. Quando saía, um dos agentes perguntava-me se eu levava alguma cópia de telegrama e eu, além de negar, levantava candidamente os braços. Só três vezes fui revistado e só uma me exigiram que baixasse as calças, mas verdade se diga que não me pediram para baixar mais nada...
E quando chegava à rua era só andar aos papeis e zarpar para o Gelo...

Outra memória (e não é só a RTP que tem memória) tem a ver com um período eleitoral.
A UN era pronta a enviar às agências informação sobre as diferentes actividades eleitorais, relativa à parte que lhe competia. Onde como e quem participava nos comícios. Habitualmente com dois ou três dias de antecedência. Perfeitos luxos. Um deles, que melhor retive, não só transcrevia os discursos que iriam ser lidos, como sublinhava entre parentesis, as frases aplaudidas (muito aplaudidas) , ou mesmo com estrondosas salvas de palmas. A parte divertida foi que um desses apaludidos oradores não pode comparecer no comício e um dos jornais transcreveu a notícia, incluindo os sublinhados...
De repente comecei a notar muitos comentários sobre o novo governo e até sobre o discurso do primeiro ministro e sem perceber porquê comecei a lembrar-me dos velhos tempos. Comoveu-me que o senhor que não gostou de ser ministro tenha aderido muito jovem, ainda adolescente, ao partido, onde ainda se mantém e não estavam sequer a falar de outro muito diferente. Falavam simplesmente dele e da sua voluntária ausência do executivo. Foi ele que falou dos pais e dos avós, e com ironia sublinhou o contraditório no seio familiar, lembrando que os avós haviam sido pró-salazaristas. A minha avó, costureira, que trabalhava de Sol a Sol, também era, se bem que eu, ainda adolescente, não era capaz de perceber, mas também aprendi a entender, mais do que a ser indulgente. Em todo o caso, optei por uma crónica vazia de presente. Como o poeta, apetece-me dizer "para onde vou não sei/ sei que não vou por aí" ...

domingo, março 13, 2005

Oposição Pela Oposição

Logo a seguir à tomada de posse do XVII Governo Constitucional teci algumas considerações sobre os discursos e o enquadramento da cerimónia. Depois ouvi as reacções, sobretudo ao discurso de Sócrates. As Rádios começaram, logo, logo, pelas reacções das corporações farmacêuticas. Lá mais para a tarde aparecereram outras instituições a defender as propostas de Sócrates.

Parece-me óbvio que a venda livre de medicamentos não carecidos de receita médica não tem discussão: pode ser feita em qualquer estabeleciemento comercial, desde que tenha licença - e isso significa pagar impostos - e condições técnicas para o efeito.

Manter a actual situação é pactuar com um enquadramento legal quase do século XIX. Assim como a legislação que obriga a que as Farmácias tenham, necessariamente, que pertencer a licenciados em Farmácia. Essas e outras...

Tudo parece poder vir a ser resolvido com um governo socialista, disposto a afrontar os grupos de interesses, os tais poderosos que possibilitam o aumento exponencial do número de multibilionários, quase na mesma progressão do crescimento da pobreza no Mundo.

O que me espanta é a posição do Bloco de Esquerda - que, disposto a aceitar a despenalização das chamadas drogas leves, cujos efeitos podem ser mortais ( a canabis, por exemplo, tem efeitos vasoconstritores e, por isso, matar pessoas com problemas de coronárias obstruídas ), numa primeira declaração entende que a venda de medicamentos que não obrigam a receita médica em estabelecimentos que não Farmácias deve ser objecto de um mais profundado estudo.

Estamos a fazer o quê, bloquistas? Oposição pela oposição ? Ainda não perceberam que a vossa margem de crescimento será directamente proporcional à vossa inteligência? O "bota abaixo" resultava sempre com o Pedro. Agora há que entender as propostas dos outros e ter alguma paciência para as iniciativas próprias. O CDS/PP mandou entregar o retrato, tal foi o choque da derrota. Não queiram, vocês, um fotógrafo exclusivo para vos tirar fotografias. E depois? Quem as quereria?

sábado, março 12, 2005

Uma Esperança Substantiva

Parece-me legítimo falar em esperança, depois dos últimos actos da política nacional: formação de um governo levada a cabo na intimidade , uma tomada de posse sem beija-mão, dois discursos verdadeiramenmte de Estado, virados para as questões importantes da gestão da República.
Hoje, ao ouvir Jorge Sampaio, pareceu-me senti-lo completamente confiante, senhor de si mesmo, com a esperança de, finalmente, ser entendido.
José Sócrates recuperou a atitude própria de um chefe de Governo: anunciou as ideias norteadoras do seu projecto. Fê-lo com determinação, com simplicidade e num tom grave, mas sereno. Os exemplos concretos que deu da futura acção do seu governo foram bem escolhidos, já que, um deles fala do dia-a-dia dos portugueses - o acesso aos medicamentos - e o outro da necessidade de uma opção de fundo em matéria constitucional.
Dedicou poucas palavras ao passado e fez bem.
No final, os repórteres de serviço, que se entretiveram a ouvir gente a esmo para passar o tempo, tiveram a desilusão de não poder ouvir nenhum dos empossados, à procura de uma primeira hesitação, de uma primeira gaffe.
Também aqui este XVII Governo Constitucional parece ter uma estratégia correcta: os ministros vão falar quando entenderem e não porque estão à mão de um qualquer microfone.
Para um cidadão especialista em generalidades, como é o meu caso, são estes os factos mais relevantes desta manhã de passagem de testemunho entre dois governos, no cumprimento do determinado pela escolha popular.
E estes factos transmitem a esperança de que a passagem do testemunho represente, efectivamente, uma mudança substantiva nas políticas governativas.

sexta-feira, março 11, 2005

Ser Ministro

Ser ministro deve ser horrível. Só o trabalho para desligar todos os receptores de televisão, de rádio e ordenar que não lhe tragam nenhum jornal!!! Só o trabalho...para não ouvir tantos ministros a dizer-lhe o que fazer!!! Um homem (mulheres são poucas) deve ficar louco. Qual deles - dos que falam e/ou escrevem (porque há os que acumulam) - tem razão?Que faço eu ? - grita, já desesperado, o até há pouco tempo técnico reputado e prazenteiro.Que fazer ?Oh! Homem, escute o que lhe digo: não ouça, não olhe, não leia. Faça o que sempre pensou que devia ser feito. Afinal, foi por isso que o escolheram. Desligue tudo - mesmo este blogue que nunca chegou a ler

HERÓI OU MORALISTA

No DN desta manhã o comentarismo aparece em destaque a propósito de um livro de Rita Figueiras, o qual deverá estar a ser apresentado na Universidade Católica de Lisboa, e versa sobre comentadores ao longo dos últimos 20 anos. O jornal destaca seis deles, mas, de facto não
sendo muitos os que se têm mantido em permanência, em 1990 eram mais de cem.
Sem muito eco, na maior parte dos casos. Os que mais se destacavam na TV passaram a ser mais procurados pelos matutinos, uma vez que os vespertinos se foram diluindo até ao sumiço total. A ideia que tem passado para fora é a de que interessa mais o comentador que o comentário; não é tanto a lucidez e o a-propósito, mas o populismo da mensagem, que quanto mais contiver de intriga mais eco obtém.
Nos últimos tempos começa a estar de moda, começou pelo futebol, claro, é o comentarismo por grosso e atacado. Começou por dois, passou para três, já vai em quatro e não imagino até onde vai chegar. Na Quadratura, Magalhães é o chato de serviço. Praticamente não comenta, resmunga, interrompe, chalaça, sorri, uma espécie de bobo da corte, uma corte soturna e sonolenta.
Um que nem é citado no DN e que já há muito preenche uma coluna no
matutino da Av. da Liberdade, recentemente posto à venda, Francisco Sarsfield Cabral faz uma análise sobre o que tem sido o combate contra o terrorismo, "uma guerra subterrânea, oculta e, decerto, pouco limpa - mas indispensável". Por um lado aceita que algo se tem feito, porque em boa verdade não houve mais nenhum atentado nos EUA, depois do 11 de Setembro. Reconhece que apesar de tudo foi possível efectuar eleições no Iraque. Entre esses dois polos cita os atentados no Quénia, no Bali e em Madrid.
Mas como violam valores éticos, os que combatem o terrorismo, "os ocidentais dão o flanco aos seus inimigos. É que para nós, os fins não justificam os meios".
O problema com os humanistas é que eles não se explicam bem. Se um grupo de terroristas raptar a mãe de um qualquer de nós e nos avisar que lhe vai cortar a cabeça, em directo, diante da câmara de televisão, podemos contar com o senhor Francisco? Esperar que ele se ofereça como voluntário para substituir na filmagem a pobre senhora?
Humanismo não é pieguice, nem dar esmola ao pobrezinho. É preciso uma grande dose de sofrimento e de sacrifício para entender e respeitar os valores éticos. Não há fins justificáveis sem princípios elementares. Nem tudo se pode perdoar. Nem tudo se deve tolerar. Nem o terrorismo, nem o humanismo sócio-profissional.