quinta-feira, junho 30, 2005

QUE NINGUEM BRINQUE COM COISAS SÉRIAS

O referendo sobre o aborto anunciado pelo senhor primeiro-ministro teve todo o ar de pílula do dia seguinte, talvez mais do que opção rectificativa. Quem não toma cuidado e não se precavê acaba por meter-se em trabalhos. A minha madrinha matava-se a avisar a sobrinha para ter juizo. Mas qual quê, a fulaninha gastava-se à fartazana e fartou-se e quando despertou era a crise. Tudo se resolveu pela calada. Com a prima foi pior, teve mesmo de ir a Badajoz, porque em Badajoz é mais barato. Se pudesse esperar mais umas semanitas podia ter ido a uma clínica das avenidas, que o dr. Correia de Campos pagava e ficava com a crise para ele.
Acho que sim. Acho que é melhor deixar o dr. Correia de Campos ir apagando as crises, pagando. Pelo menos até as presidenciais passarem. Não misturem alhos com bugalhos. Estão a ver um referendo sobre o aborto misturado com eleições presidenciais? Imaginem o que pode sair daquilo? No melhor, vai vai dar um presidente arrancado a ferros e um outro nado-morto...
Tenham cuidado. Não brinquem com coisas sérias, que só façam rir. Ele há coisas sérias que devem ser levadas a sério, muito a sério.
E o aborto (referendo sobre) é uma delas...

EDUCAÇÃO SEXUAL

Se há assunto que a Igreja, sobretudo a Igreja Católica, devia evitar é justamente o da educação sexual. De há muito que perdeu autoridade na matéria. E perdeu-a pela pior das razões. A memória das pessoas, e até dos crentes, não é assim tão curta. A Conferência Episcopal saberá que pouco se ganha em agitar as águas , até porque subsiste o risco de tombar afogado.
Podem e devem os cidadãos estar atentos, mas deve conceder-se ao Estado o dever de tratar da matéria de maneira adequada.
A tese de que compete às famílias decidir as orientações educativas que deseja para os filhos está eivada de preconceito e pretende, sobretudo, travar o processo iniciado pelo Ministério da Educação, opondo-lhe o fervor religioso.
Deve reconhecer-se, por outro lado, alguma delicadeza na elaboração do programa e nas formas de o desenvolver na escola. Do passado recente sobrou-nos alguns obscurantismo, muito do qual instigado pela Igreja, que ainda limita alguns dos adultos, pais de família. Mais difícil do que abrir as janelas aos meninos e meninas, durante as aulas, é acalmar o pudor dos papás e levá-los, a eles também à descoberta da forma primária da Natureza, muito escondida e diluida pela religião, que pode ser cristã por princípio, mas não pela prática. Deixemos pois que seja a Escola
a decifrar os mistérios que perpetuam a vida.

quarta-feira, junho 29, 2005

IMPUNIDADES

Se é verdade que todo o crime merece castigo, não é menos verdade que muito dele fica impune. Claro que há outras verdades. As verdades devem ser como as cerejas e, aqui, surge a primeira contestação: as cerejas ou são doces ou não são; ou são rijas e deliciosas ou moles e desoladoras. O principal problema com a Lei (com as leis) começa logo pela confusão entre o espírito e a letra. Nunca se estabelece um critério e as mais das vezes os próprios juizes se confundem entre ajuizar à letra ou interpretar o espírito. E não raro fazem a opção errada porque... claro,claro: errar é humano.
Era por ser humano que o senhor Chirac, quando era presidente da Câmara, pagava salários simpáticos a correlegionários, como se os ditos trabalhassem no município local. Daí não teria vindo mal ao mundo se os adversários políticos não fossem gente de coração empedernido e tivessem clamado pela Lei. A Lei é como o Sol quando nasce: é para todos, menos para alguns, bem entendido!
Estabalecido que as coisas são como são há que agir em conformidade. Uma das conformidades é evitar chatices. Há coisas de que não se deve falar. Justiça e política devem coexistir e nunca afrontar-se. Cada uma das partes não deve esquecer-se do que acontece quando o mar bate na rocha...
Tivemos recentemente dois casos muito badalados, em áreas diferenciadas. De uma vez o ministro Sarkozy clamou contra um juiz, o qual concedera liberdade condicional a um condenado e que este aproveitou para cometer um assassínio violento. O ministro ameaçou mesmo ir agir contra o magistrado. Villepin ainda deu um bafo qualquer sobre a independência da Justiça, recado do senhor de cima, o presidente Chirac. Ocorre-me uma velha história que me contou um poeta madeirense sobre uma curiosa afirmação que um tribuno proferiu numa assembleia da região sobre uma daquelas coisas de que se não fala alto e que é suposto ser muito do agrado das senhoras:«Meus senhores, não sei como é, mas a verdade é que todos os dias aparecem feitos, na Madeira, duzentos, eu faço dois, quem é que faz os outros?»
Isto para acentuar que ele há coisas de que se não deve falar. Os erros de juizes não são erros da Justiça, são erros humanos. É dever de quem governa agir de forma a corrigir, mas fazê-lo sem alarido. Pode empandeirar o juiz um serviço qualquer mais chato ou exigir a abertura de um processo. Ao desautorizar o seu ministro Villepin fez pior: recolheu a ira popular e alargou o populismo de Sarkozy.
O segundo caso, mais recente e mais próximo, ocorreu no aeródromo de Espinho: uma avioneta embateu num automóvel. A história em si é horrenda e inadmissível, mas aconteceu e aconteceu porque numa pista que foi militar e já não é mas que possui a peculariedade ser atravessada por estrada. São absurdos que restam do passado e hoje em dia já não se aceitam. Por isso mesmo, o acidente é da responsabilidade do Estado. Claro que o Estado tem que olhar para o senhor culpado e ralhar com ele. Ora o que o estado permitiu é que alguém tido por responsável pela aeronáutica interna falasse não para explicar fosse o que fosse, mas para dizer barbaridades dignas de qualquer interno do Júlio de Matos. Dizia o senhor que a pista de mil e quinhentos metros só tinha 460 metros. A estrada que atravessava a pista não atravessava nada, porque a pista já tinha acabado. Vejamos: a ideia era explicar que a passagem da pista militar para a parte civíl, retirava um quilómetro e assim sendo o aeroclube ficava com 460 metros de pista, uma
estrada e outra pista, ainda maior, sem utilização. Dizia a criatura do Estado que a estrada, sim senhor, os aeroportos também têem estradas no fim das pistas. Foi ele que disse, e não tinha ar de estar a brincar. O Estado ficou a saber (e nós também) que tem um tipo a mais e que devia começar por ele a redução do défice. Este artista ainda foi pior que a ministra, que quis riscar os Açores do mapa lusitano. Um lapso de linguagem pode corrigir-se, é mais discutível quando se pretende ostensivamente tapar o Sol com a peneira...

segunda-feira, junho 27, 2005

GENTE FINA

É bem verdade que se vê mais da outra, da grossa. E nem me refiro aos das quintas, prefiro perder algum do meu tempo com os mais badalados nos fins de semana. Devo começar por reconhecer que não sendo quinteiro, vivo num quintal. É aqui que leio os jornais e evito, tanto quanto posso, as televisões. Li a indispensável análise às audiências televisivas. Não vi nenhum dos programas mais vistos e nem um dos menos mirados. Desisti de ver a programação porque não suporto a publicidade. Mesmo os telejornais, que ainda vou vendo, acabam para mim, quase sempre, logo que entra a pub. Em casos de interesse especial, vou saltitando no Cabo até retomar um dos noticiários, mas são poucas as vezes.
Por isto mesmo é que me dei ao incómodo de ler a entrevista com o responsável pela Informação da SIC. A primeira impressão/informação que retive foi a de que o senhor em causa é mentiroso ou, se preferirem não fala verdade. A rábula mais evidente: «Noticiário dura o tempo que as notícias exigem" é tudo menos verdade. Dura mais, muito mais e dura mais por mór da publicidade. Para justificar tanta pub em horário nobre é preciso encher o chouriço e para segurar o telespectador é preciso pintar alguns quadros com cores de tragédia ou intriga brejeira. É justamente disso que se foge ou que fogem pessoas como eu. Quero crer que, no mais o director de informação da SIC, tenha eventualmente razão e não seja preciso duvidar da preferência por integração e não fusão de redacções ou que as relações entre as criaturas sejam óptimas, com certeza, ainda que a comissão de serviço de Cândida Pinto no Expresso deva ter alguma água no bico...
Albarran consegue outra primeira página no DN. As suspeitas do Mninistério Público nos «offshores» do antigo homem da TV são o destaque da edição. Mas a segunda, senhores, é sempre tão difícil! É claramente forçada a preciosidade biografada do suspeito. Desde a alusão
a «o revolucionário que abraçou o capitalismo», no caso do assalto à embaixada de Espanha ou
outra mais delicada «a relação com Maria Elisa passou pela realização de um documentário sobre a Europa». Discreto. Bom o jornalista bem podia servir-se do exemplo para descrever o período revolucionário do pasquim, onde trabalha, no pós 25 de Abril e como ele é hoje em dia... Quem tem telhados de vidro deve evitar as pedradas. Não é a notícia, em si, que está em causa. Os personagens televisivos, por mais isto ou mais aquilo, são um pouco como os que encheram a crónica de Fernando Alves, gostam de massa e isso às vezes faz mal à linha...

domingo, junho 26, 2005

Independência Nacional

Ouve-se o ministro da defesa (é assim que se chama?) a dizer que a actual crise económica tem tais consequências que pode colocar em risco a independência nacional e assustamo-nos - seja isso o que fôr.
Meditamos sobre o significado da expressão e desesperamos - seja isso o que fôr.
Porque, a verdade é que nada já quer dizer alguma coisa.
Os políticos - sejam eles quem forem - vendem-nos, sistematicamente, o melhor -mesmo as gravatas que usam e nos mostram na televisão.
E nós acreditamos: a União Europeia! boa. Podemos andar de um lado para o outro, trabalhar aqui e ali, ver as loiras e os loiros, combóios, espanholas, Paris.
Constituição europeia - uma "nice" - todos iguais, todos diferentes.
Nada disso - dizem os políticos . Como assim? Então, não são os mesmos direitos, as mesmas obrigações, não somos todos iguais, bonitos de gravatas garridas, camisas côr de rosa e elas de vestidos transparentes...? Afinal, a vida não é o paraíso na terra e , depois, logo se vê, o que vier virá?
Não!!!!! A França recebe 25 por cento de todo o orçamento da PAC. Portugal não vê um centavo e corre o risco de ter que contribuir para aí com uns 10 milhões de contos por ano para o orçamento geral da tal PAC.
A Inglaterra recebe anualmente um cheque de compenssação que já ninguém percebe o que significa e , entretanto, a China exporta gente, tecidos, louças, peças de automóveis, CD's e tudo o resto, pagando malgas de arroz a dividir por dois ou três trabalhadores.
Os Estados Unidos, com aquele estúpido a mandar nas tropas, fazem guerras e aumentam a capacidade tecnológica - competem com todo o Mundo em termos que ninguém tem capacidade para perceber ou acompanhar, mas, ao mesmo tempo, multiplicam o número de habitantes dos vãos das pontes.
Das vinte universidades de topo em todo o Mundo apenas duas são europeias... A India licencia mais gente que toda a Europa junta
E mais quê?
É fim de semana. Passei uma semana a tentar resolver problemas insolúveis - alguns não eram tanto assim - deixem-me, agora, não ir mais longe na nossa desgraça.
Apenas quero, em cima destas preocupações todas, apontar uma nota: há mais de trinta anos que a Europa anda a fazer de África - sobretudo -, mas também da América Latina, uma espécie de caixa de reserva para os movimentos menos claros, para as corrupções escondidas e mais lucrativas.
É verdade que os governos africanos são corruptos. A sério! Mas, onde começa a corrupção que os alimenta (alguns dos responsáveis, eu sei, nem sequer sabiam assinar um cheque) ?Nas capitais europeias. E também em Washington. Os africanos ficam com uma mísera parte do jogo da corrupção.
Os políticos europeus não perceberam que uma ajuda ao desenvolvimento a África e à América Latina, concebida em termos correctos, sérios, teria construído uma aliança capaz de oferecer resistência a estes ataques muldireccionais e diversificados, responsáveis pela actual crise económica e política deste velho continente, convencido de que o seu modelo social serviria de exemplo para todo o Mundo, e agora posto perante a triste realidade de ter que admitir a impossibilidade de lutar por ele, mesmo intra-muros.
Independência nacional. O que é isso? perguntam as novas gerações a quem se dispensou do serviço militar obrigatório e a quem se prometeu a Europa toda para passear?

sexta-feira, junho 24, 2005

SÃO CONTAS

Jorge Sampaio, na pele de Presidente da República, foi hoje severamente julgado no editorial do matutino da avenida da Liberdade. Não foi simplesmente criticado por opinião expressa. Foi julgado e asperamente condenado. Foi aparentemente a reacção da banca à censura presidencial da véspera. A deixa dos dirigentes da social-democracia, ao acusar Sampaio de favorecer os correlegionários, foi avidamente aproveitada e o inquilino de Belém surge como um socialista mais, e nessa condição, responsabilizado pela hecatombe económica, porque em devido tempo não soube travar os desmandos dos ministros da área das finanças dos governo de Gueterres.
Agora compreende-se melhor o azedume da banca, quando os negócios marginais ou, no mínimo pouco claros, são revelados ou comentados. Não só e apenas não apreciam como parecem agora, mais do que nunca, apostados em não tolerar intromissões ou críticas a actividade sanguessuga, a dar crédito à informação do mesmo jornal que refere amplos pormenores sobre diferentes formas de crédito bancário mais ou menos expedito com taxas lucrativas acima dos 25%, por operação. Não tenho nada contra. Nunca me emprestaram e que saiba não obrigam ninguém a pedir. Claro que não são obrigados a exorbitar. Fazem o que se lhes permite. E sobre o que se lhes permite, muito boa gente da governação podia e devia ser interpelada.
Mas ele há maneiras de interpelar e de assumir as dores alheias. Como há maneiras de ler e entender um jornal. Em 140 anos de actividade o jornal variou e inflectiu algumas vezes. Saltar de Século, da monarquia para a república, da ditadura para a democracia é muita fruta. É, pois natural que tenha alterado ou variado a linha editorial. O vento tem muito a ver com a opinião.
Tempos houve em que a opinião era controlada. Com Salazar a censura era oficial. Os jornais podiam exibir «visado pela Comissão de Censura». Marcelo (padrinho) aligeirou para «exame prévio». Com a democracia instalada terminaram tais inibições. Cada orgão de comunicação social é livre de expressar convicções (apetecia-me ter dito "quase livre", mas não disse). Livre de determinar a linha editorial, que pode alterar sempre que entender ou quando mude de patrão. E até pode optar, se assim o entender, preferir editar uma linha de crédito, provavelmente melhor remunerada. Mais rentável que a mera análise político-partidária. Afinal que diferença haverá entre abater uma porção de sobreiros ou um presidente? Por mim, não sei. A Banca que diga...

quarta-feira, junho 22, 2005

O CONTO DO VIGÁRIO

Era um tipo simpático. Conduzia um carro vulgar. Abrandou próximo e foi dizendo: "Então pá! Como vai isso?" E foi acrescentando as lérias do costume: "aos anos, pá! Como é que tu vais?" Eu ia para a exposição do DN, zangado porque não dava com o sítio e sem vontade de perder tempo a falar com um gajo que não me dizia nada, de que não me lembrava de todo. Ele falou-me de um filha, acabadinha de chegar da Suiça e que ia montar um restaurante e ele queria convidar-me, e queria oferecer-me isto e aquilo. Era, claro, o conto do vigário banal. Mas eu, chico esperto, não percebi logo. Só quando ele me mostrou, cheques e papeis, não sei de quê para as criancinhas é que dei pelo que estava a correr.
Escapei no sábado, mas não escapei hoje. Na net estava espaparrachado que a RTP-I ia dar o Argentina-Alemanha, as 19-45H. Ia dar o Telelixo às 21 e picos. Não deu. Á hora do costume vendeu o concurso abominável, que costuma vender e logo a seguir o telejornal. Na Televisão portuguesa os telejornais são, em si mesmos, o conto do vigário mais sujo que o do bilhete premiado. Aquilo é papel manhoso para embrulhar publicidade. No caso da RTP a trafulhice é mais descarada porque o canal não só nos lixa a paciência com toneladas de pub, como ainda vai
sacar uma parte da taxa que os incautos se vêem obrigados a pagar, como se fosse destinada à RDP.
No Cabo, quandi liguei o primeiro canal, lá estava faixa com a indicação: «19H45 futebol( pois, pois),às 21H30,Telejornal», isto já depois da 20 horas, já com o telejornal no ar. Nem sei a que horas transmitiram o jogo em diferido. Não vi, nem era para ver, mas tinha gente em casa que queria ver. E o que eu vi foi o que não queria ver: o dircurso da tanga todo vestidinho!
Dir-se-á que são coisas sem importância, e se calhar são! Nomear mil e tal criaturas para cargos de confiança política se calhar também não tem importância, sobretudo se montes gente caiu no desemprego. Ver os de fora apontar-nos o dedo, a dizer: porra, que vocês são burros! E ter de engolir, Imaginar que finalmente os de fora vão indicar o caminho, um caminho com quase nenhuma segurança social, para velhos e desempregados, para empregados que ganhem pouco, um caminho de regresso ao passado. O cheque de mr. Blair há-de ter cobertura; a agricultura francesa terá colheitas prósperas, enquanto os 25 vão progredir e crescer e crecer até serem seis ou sete.
O sr. Coelho, quando a ponte caiu, disse que com ele a culpa não morria solteira e saiu porta fora.
E, agora, com ele por perto, o IVA caiu para cima, a moral das tropas afunda-se, o desemprego vai crecer, os preços upa, upa, as reformas mais afastadas, com tudo isto, o mais certo é a culpa vai-se casar e o sr. Coelho poder ficar em paz com a sua dele consciência...
E com um bocadinho de sorte não vou estar cá para ver...

SOMBRAS

Abatido? Ora, como havia de não estar. Triste? Não sei, cheio de rancor, isso sim, de raiva impotente. Chegou pelo telefone a notícia-choque: morreu no México, assassinada!
Era parisiense. Passou por aqui pelo aniversário da minha neta. Encheu sózinha o crocodilo para a catraia usar na piscina. Era a namorada do rapaz e jovem como ele. Continuaram ligados mesmo sem namoro. E voltei a vê-la algumas vezes mais por Paris, quando calhava ir lá. Uma vez foi de férias ao México e ficou encantada. Voltou e regressou ainda mais magnetizada. Deixou o emprego, fez o saco e abalou.
Ontem à noite alguém a assassinou, ainda não sei como nem porquê. Saía do trabalho e ia ter com amigos. Não sei pormenores, mas não foi no comboio, nem na praia. A violência urbana é como o tráfego rodoviário, de súbito trás!
Mas doi quando quem vai no carro é dos nossos ou quando a violência nos atinge, com um oceano de permeio.
Não saber que fazer, nem como reagir. Sei lá... ir para o Martin Moniz gritar pela exclusão deles, mas nem deve haver mexicanos por aqui. Que fazer do ódio senão recalcá-lo. A violência que nos chega pelos jornais assemelha-se à que vemos pela televisão em filmes velhos ou séries novas. Pelo telefone e quando nos toca por perto é mais amargo, até porque nos damos conta da ameaça que nos rodeia. Valerá a pena discutir se os genéricos sim ou se os genéricos não? Quando dava sinal de si parecia bem na sua pele, tinha encontrado o seu canto, nem precisou de votar não. O que é que uma pessoa tem deve fazer para ter direito a um pouco de paz?
Desculpem o desabafo. Eu sei que habitualmente só se discute o direito à vida quando se julgam criminosos...

terça-feira, junho 21, 2005

Ingenuidades(?) e Estratégias

Ouço o ministro da saúde a dizer que não lhe interessa saber o que herdou - o que é importante é saber se - e indica uma série de preocupações do presente, cujos resultados há-de avaliar no futuro. Isto é: se tiver futuro...porque dentro de um a dois anos (ou até menos) todos os erros e números que herdou e de que não quer saber lhe vão cair em cima.
Esta foi igualmente a estratégia seguida pelo primeiro governo de António Guterres: não interessavam os erros do passado, as falcatruas do cavaquismo, a gestão ruinosa de algumas empresas então ainda públicas, as notícias de verdadeiros roubos constatados mesmo pelas auditorias internas. Não! o PS era superior a tudo isso.
Pois! mas pouco tempo depois a opinião pública esqueceu o cavaquismo e somou os respectivos erros aos entretanto praticados pelo guterrismo. Conclusão? Uma verdadeira calamidade e uma lesgislatura interrompida a meio.
Mais: ao mesmo tempo, tal como então, toda a comunicação social, incluindo a pública, passou a abrir todos os noticiários com notícias de crimes. Os assaltos nos combóios, os arrastões nas praias, como que por encanto passaram a existir de um dia para o outro. Só falta agora aparecer um deputado do CDS/PP, a substituir o Paulo Portas para fazer comícios clamando por mais segurança.
Ainda hoje aconteceu qualquer coisa num combóio de Sintra e a SIC abriu o jornal da noite com grandes parangonas. No final da reportagem sem que, aparentemente, nada a justificasse, apareceu um senhor da CP a dizer que o número de incidentes naquela linha tem vindo a diminuir.
Que se cuide o PS. O circo está de novo montado. Melhor seria que contassem toda a verdade. Digam como encontraram as contas públicas, como encontraram a polícia, o exército, a marinha, a força aérea,a educação, a saúde.Digam tudo. Percam tempo com essas coisas , mas digam tudo. Desssa maneira talvez não tenhamos que ouvir o metro e meio ( ou será meio metro) de nicotina a exigir, a exigir, a exigir e a esquecer-se da pouca vergonha de três anos de Barrosismo/santanismo de que ele fez parte. (refiro-me ao pequeno Marques Mendes...)
Que diabo! Esta gente não aprende nada?

segunda-feira, junho 20, 2005

Políticas

Se o mundo já não é o que era, é porque é o que nunca foi. E a verdade é que nunca foi coisa de grande jeito.
O que há sempre é uns e outros. Houve e vai havendo disso. Gente que quebra a monotonia da ainda animalidade; outra que não. E já lá vão centenas de milhões de anos.
Cansativo, realmente.
Sousa Martins, João Semana e ex-tradição
Quando Sousa Martins morreu, D. Carlos disse que se tinha apagado "a mais brilhante luz do meu reinado". E com certeza que sim, embora mais brilhante que luz ele foi humanista.
Um catedrático que calcorreou a escuridão da pobreza. Que servia a miséria ao preço de seu prazer, que ia a casa dela a pé, quando um fiacre não cabia nas vielas, e deixava ao lado das receitas o dinheiro para as pagar, que sofria com a dor alheia, que tinha um consultório aberto a quem não podia pagar - isso foi o que ele foi em primeiro lugar. Depois disso é que, então, fica o brilho do universitário, a competência, a luz que D. Carlos disse.
Mas o povo viu mais longe.
Se lhe rezou de joelhos décadas e décadas depois da sua morte, se lhe acendeu velas pelas mesmas décadas, se pelo Campo de Santana olhava de olhos tristes a estátua do homem como já não há e o homenageava como a um santo - isso, foi ao homem inteiro. Completo. De excepção.
Agora, o João Semana é que não foi excepção nenhuma. Foi um vulgaríssimo médico de província, o corajoso que se arriscava por despenhadeiros para assitir a um parto, um pai por vilas, aldeias e lugarejos. Pai português.
Como também foi português o médido das cidades que guardava um dia por semana para os pobres. E eram muitos. Leiam-se com atenção os clássicos portugueses para saber. Saber como há pouco mais de cem anos eram os médicos. Alguns até há menos de cem.
Note-se isso e pasme-se à dificuldade dos governantes e do povo para conseguirem deles, muitos deles, a prescrição de genéricos.
Claro que o vulgar das leis são mal feitas, que a vulgaridade dos políticos é amadora, mas vulgarmente os médicos não colaboram. Levantam entraves a propósito de tudo e de nada. Zangados com nada e com tudo. Com ninguém e com todos.
Leiam-se com atenção as explicações dos bastonários quando se levanta a questão. A luta e o resto por detrás.
A inefável Manuela
Saltitando de estação em estação à procura do nada que as Tvês normalmente oferecem, dei com a Manuela. Afável, simpática, voz doce, olho a pestanejar sentimentos. A dizer desonestidade política e suavidades assim, porque em tom brando.
Fugi, como fujo de normal de todas as estações. Mas fiquei a pensar na Manuela; mulher, que não acrescentou nada à política. Nem um toque a dizer que estou aqui e sou diferente de vocês, estúpidos homens que por todo o mundo fizeram da política a vergonha da humanidade. Todos irmãos, primos ou, pelo menos, parentes do clarividente e humaníssimo Bush.
Sinceramente, o homem não precisa de Ferreira Leite nenhuma para continuar no despautério de até aqui. Basta-se a si, como têm provado milénio a seguir a milénio. E, já agora esclareça-se que quando chama a alguma ministra "mulher de ferro" está a classificá-la como "uma das nossas".
O que não é elogio nenhum, porque, em versão livre, quer dizer tão estúpida como nós.
Para quem entende, evidentemente, já que ele, a si nunca se entendeu. Nunca se percebeu no tamanho da respectiva estupidez.
No fundo, mulher de ferro quer dizer, politicamente, virago. Coisa feia de ser para qualquer mulher.
Com os Estados Unidos às Costas
Tem sido a sina do mundo nestes últimos anos. Os Estados Unidos querem guerra, pois haja guerra. Os Estados Unidos estão-se lixando para o protocolo de Kioto, pois que se lixe o protocolo. Os Estados Unidos querem colocar os seus senhores da guerra em bons lugares da paz, pois lá está um dos seus tubarões à frente do Banco Mundial a falar de paz. Os Estados Unidos não querem os seus criminosos de guerra julgados nos tribunais internacionais competentes, pois que não sejam julgados. Os Estados Unidos querem enganar o mundo acerca do que poluem, pois elaborem relatórios falsos. E o mundo sabe.
Há anos que se lê sobre isso das falsificações de dados sobre as alterações climáticas, sobre as emissões de dióxido de carbono, sobre o aquecimento global.
No tempo do doutor Salazar, na comunicação social não se podia tocar em nada que tocasse na Casa Branca. O doutor tinha medo que se zangassem com ele. E a censura cortava tudo.
Enganou-se como todos aqueles que têm a certeza de que nunca se enganam. A Casa Branca está-se nas tintas para o que digam e o que deixem de dizer. Portanto está-se nas tintas também para o sr. José Manuel Fernandes, para o senhor Pacheco Pereira, para o senhor Paulo Portas e para outros nortamericanófilos-probishianos assim.
Mas, pelo sim e pelo não, sempre é bom estar-se nas boas graças da Casa e do dono da Casa. Olhem se o senhor Durão Barroso não tivessse servido o café nos Açores!...
Corria o risco de, um dia destes, acabar a servir cafés numa esplanada da Avenida.

Os Fracassos da UE

Aqui para nós que pouca gente nos lê: ainda bem que a cimeira da UE foi um fracasso. Pode ser que, de repente, desponte alguma inteligência e apareça alguém esperto neste continente de acomodados, de exploradores, racistas, colonialistas, preguiçosos e outras coisas semelhantes.
Então não é que, aparentemente, toda a gente se ia submeter à ideia de que os ingleses têm direito a um cheque de compensação para a sua própria recuperação económica - uma vantagem que vem ainda dos tempos da senhora Tatcher, a senhora que quando se sentava de forma descuidada fazia soar estranhos ruidos metálicos na sala...?
E também não é verdade que todos os outros- com a excepção do Reino Unido, que não quer perder o ferro da srª. Tatcher - aceitam que 40 por cento do orçamento da UE vá para a agricultura gaulesa - uma vantagem conseguida pelo sr. Chirac, actual presidente da República Francesa, no tempo em que era ministro da agricultura...?
Então e não é verdade que o tal Conselho Europeu deciciu parar para reflectir sobre o referendo ao novo tratado da constituição europeia, mas também decidiu que não vai haver qualquer alteração ao texto proposto?
Estão a brincar ou são apenas estúpidos? Vão reflectir sobre o quê? Só pode ser sobre a melhor maneira de enganar a malta...

GOSTAR DO PRÓXIMO...

Nem faz mal se ele estiver afastado!De certo modo, o próximo também se pode entender como o seguinte, o que vem depois, logo não há razão para reservas e até se podem alimentar algumas esperanças, sobretudo as de caracter erótico...
A fraternidade não é uma obrigação. A fraternidade limita, não é generalista. Mesmo com pais comuns é frequente um tipo detestar a irmã ou invejar o mano. Ora como convencer um tipo que não suporta os sobrinhos e abomina a cunhada a ser prestável com a vizinhança, especialmente se for toda de brancos, menos ele próprio? E muito mais se o tipo estiver convicto ( e com alguma experiência) de que os brancos, grosso modo, não gostam de mestiços, quase tanto ou mais do que de pretos. Com os chineses é mais fácil. Eles não percebem nada do que se
lhes diz e podem dizer o que lhes aprover que nós não entendemos patavina.
E próximo também tem a ver com proximidade. Numa situação de carência é mais simples amar o que está à mão ( ou a que está ali mesmo) do que quem estiver longe. Pode ainda, como faz regularmente um amigo meu, amar perdidamente a que está ausente, e ir aproveitando do que gira pelas cercanias... Enfim sentimentos que ajudam a comprender que no fim de contas o amor devido ao próximo não será tão cândido como a moral aconselha.
Já o ódio é mais díficil de entender e em geral se vende como recalcamento.
Pelos idos de sessenta do Século passado estalou um caso invulgar de xenofobia na África do Sul. Não estou a gracejar e o invulgar estava apropriado. Uma assembleia legislativa procurava propor que a colónia madeirense fosse classificada como não branca! A moção esteve por um tríz para ser aprovada. A intervenção da diplomacia portuguesa, das raras que não condenava o regime do apharteid, contribuiu para que a proposta não fosse discutida. A acusação que pendia sobre os portugueses da Madeira era de serem associais, de não participarem, de não consumir e de não investir. Era como se estivessem condenados a trabalhos forçados.
Não devem ter ganho para o susto, mas aprenderam a lição. Pouco tempo depois, a colónia tinha-se transfigurado. Já dispunha de centros de convívio, dispunha de um jornal e espeitavam outros negócios para além das mercearias. E foi dos madeirenses o primeiro impulso vinícola.
O que por essa altura despontava era o anti-racismo. Racismo era, então, o modo de ser. Quem não se lembra dos pubs ingleses na China terem inscrições do género proíbida a entrada a cães e a chineses? Quantos anos os chineses suportaram aquilo? E quantos deles não esqueceram?
Na África portuguesa não havia menos racismo, o que havia era outra legislação e a segregação não era obrigatória. Por isso as escolas abriram-se a todos e de meninos os portugueses aprendiam finalmente a caminhar juntos. O funcionalismo público participava integrando cidadãos de todas as etnias, incluindo a branca. As empresas do grupo do Vinhas e outras que depois se seguiram prometiam uma Angola bem diferente. Esteve quase.
Muito do quase acabou por rumar a Europa, para as covas da moura, que por aí abundam. Aqui não encontraram legislação estimulante. Tropeçam no racismo puro e duro e na xenofobia. Não é por do outro lado estarem brancos portugueses. Na Africa do Sul são os brancos portugueses a pagar, maneira de dizer, a morrer. Em França não se quer mais gente do Leste. Houve tempo que os franceses se alimentavam na Indochina ou na Argélia. Comia-se bem!
Como os madeirenses na África do Sul, a leva de portugueses para França, a fugir à guerra colonial, criou os primeiros bidonville, que era a maneira de estar dos deslocados. Trabalhar, poupar e mandar para a família. Houve alguma indignação e medidas, também. Também estes tiveram a aprender. E aprenderam e integraram-se.
Pior é quando a leva é grande e a absorção curta. De repende eles são orientais e eslavos, africanos de muitas áfricas, ávidos e desalentados. Já não há cobertor que estique. Tornam-se incómodos e mão de obra para máfias globalizadas. Assustam e forjam temores e raivas, ódios e xenofobia.
Para nós já não há Brasil e os states já foram. A Venezuela, sim, mas.
E os chineses começaram a chegar. Se quiserem perceber melhor vão a Paris ou a Londres.
Olhem à volta. Um amigo que foi a Bruxelas e, no regresso passou por Paris telefonou-me eufórico: «tu exageras. Ontem vi três franceses no Metro!»

Os Mitos

No jogo da vida também dá para aprender o jogo das coincidências, algumas bem curiosas. Uma das figuras mais queridas do povo português durante uma parte importante da primeira metade do sec. XX foi a de Vasco Santana, actor popular, de personalidade multifacetada e senhor de um talento que poucas vezes foi igualado. Morreu a meio da madrugada do dia 13 de Junho de 1958, com 60 anos. O seu funeral foi uma demonstração de desgosto colectivo impressionante.
Álvaro Cunhal morreu no dia 13 de Junho de 2005, ao princípio da madrugada, e o seu funeral foi a maior demonstração espontânea de pesar nacional de que há memória em Portugal.
É apenas uma coincidência, mas dá para perceber que o povo sabe reconhecer na morte a quem apreciou em vida.
É apenas uma coincidência e, talvez, mais uma razão para o PCP perceber que a manifestação verdadeiramenmte nacional de desgosto pelo passamento do seu líder o ultrapassa. Aquilo que se viu em Lisboa, tendo também alguma coisa a ver com o PCP é muito mais do que PCP. Era interessante que os seus actuais dirigentes mostrassem alguma inteligência e tivessem impedido aquela palavra de ordem "assim se vê a força do PC", exactamente na altura em que se procedia à cremação do corpo de Cunhal. Ardia, desaparecia, a força do PC?

sábado, junho 18, 2005

MATAR E MORRER

Dantes, era a caça às bruxas. Havia todo um cerimonial à volta da presumível, que sucumbia esturricada. Com o Santo Ofício ou a Santa Inquisição alargou-se o objecto da caça. O misticismo era mais abrangente e permitia intimidar qualquer um, azarado ou distraído. Para isso dispunha-se de engenhosos objectos que lavavam do pecado e permitiam a confissão, não que fosse indispensável, mas atenuava o tormento e morria-se mais depressa.
Mas o Homem não parou de crescer. No Século XX já era suficientemente crescido, se bem que a Economia fosse ainda elementar. O que não havia, ia-se arranjar. Adolfo acreditava que o dinheiro dos judeus era suficiente para ganhar a guerra. Matou alguns milhões deles, com alguma dose de maquiavelismo. Acabou por se suicidar, mas nem era preciso, já tinha perdido a guerra. A rendição. A festa da paz, que festa!
Em paz, a guerra, as guerras prosseguiram, uma atrás das outras. O que é que um pobre humano poderá fazer, se um dia as guerras acabarem? Provavelmente bocejar.
Onde hoje em dia é suposto não haver guerras, morre-se tranquilamente nas estradas. Aqui, onde estamos, desde que Afonso amarrou a mãe, é o pior troço da Europa. E se não é o mais pior
andará perto. Não adianta dramatizar. A culpa é de todos nós, mas especialmente dos governos, ou melhor dito: dos governantes. O problema nas estradas não é uma questão de défice orçamental. Mais IVA menos IVA não leva a nada. A meio do ano já vamos a pisar o meio milhar de vidas que sucumbiu nas estradas. O que é que vamos fazer? Ora: bocejar! Bocejar e ficar paulatinamente à espera dos outros quinhentos. Para isso vamos arranjar mais umas pontes de fins de semana, comprar mais uma dúzias de balões para o Zé soprar...
Ontem na Televisão e hoje num matutino faz-se referência a estudos sobre a matéria. Ou eu li mal ou o estudo é pouco credível, não que os dados não estejam certos, mas o tecido escasso para extrair conclusões, algumas das quais pavorosas, como a de que mais de 67% dos condenados, por infracções graves (de contrário nem seriam condenados) não ficou inibida de conduzir. E pior: em 90% de casos de condenação as penas foram suspensas!
Devo acrescentar por experiência própria que estes estudos não são fáceis. Ainda no Século passado tentei reunir elementos para abordar o assunto, por um certo ângulo. Eu reconheço que não sou simpático e tentar ir à procura de casos sinistrados reincidentes esbarrou logo, à partida, com a recusa peremptória das seguradoras em prestar quaisquer informações. Esbarrei com o silêncio e o fim dos sorrisos dos senhores das Janelas Verdes. O objectivo não era tão sinistro quanto pode parecer e incidia justamente sobre a pouca ou nenhuma repressão. E é aqui que a porca torce o rabo...
Existe excessiva tolerância sobre os automobilistas. Por um lado o peso da indústria terá contribuido para que a legislação seja maneirinha; por outro, o sentimento de quem julga ser muitas vezes contemporizador para com o réu, qualquer coisa do género: "são coisas que acontecem, podia-me acontecer".
De resto o próprio sistema judicial permite toda a espécie de atrazos e demoras que permitem a lavagem das responsabilidades, beneficiando o prevaricador e a seguradora. Quantos casos ficam anos e anos sem decisão, afectando vítimas, muitas das quais com a vida estilhaçada. Porque fala-se de mortes, mas não de nomes de pessoas. Fala-se do automobilista que atropelou (e matou) uma jovem na passagem de peões e foi condenado a dois anos de prisão, com penas suspensa, mas não se ,diz quem é. Mas é assim porque é assim que a Lei determina. Pois que seja, mas não deixa de estar mal. Nunca vi referido se um tal e tal que bateu e fugiu e depois foi julgado, se por acaso não tinha já tido uma porção de acidentes perigosos e pouco católicos. É aqui que entra, a meu ver, a responsabilidade do governo, que sabe melhor discutir portagens do que assegurar o bem estar de quem circula de acordo com as regras. Quando um operário cai do andaime, habitualmente sabe-se quem é o responsável pela obra. Sobre aparatosas acidentes de viação fica a saber-se pouco. Há uns dias houve um acidente terrivel: uma automobilista, violou dois riscos contínuos para poder ultrapassar um camião. Bateu de frente noutro carro que circulava em sentido contrário. Um morto (uma das duas automobilistas envolvidas) e três feridos graves. Mas nenhuma referência sobre qual dos envolvidos é que morreu.
Urge simplificar. Se o automóvel mata em excesso de velocidade, o processo judicial não pode ser lento, sob nenhum pretexto. A lei não prevê. Ora essa, então para que é que temos um ministro da Justiça? Para que serve uma Câmara de Deputados? Não se deve utilizar uma viatura como se fosse uma arma, e quem o fizer, e quantos o fizerem, todos devem ser denunciados. Como diziam os de antigamente: o que não vai a bem, vai a mal...

quinta-feira, junho 16, 2005

TEMPO ESCORRE

Como Inês pus-me tranquilamente em sossego. Aproveitei do tempo acalorado do modo mais comum. Fui espeitando os jornais, dei asas ao comando da TV, enquanto o tempo paulatinamente escorria, como o ribeiro manso, que tão bem cantou o poeta. Os mortos foram troados, moldados, ainda a quente e à boa maneira cristã; depois, mais cruamente e, já depois de funeralizados, com alguma aspereza. Foi preciso que Cunhal estivesse morto e enterrado (cremado) para que as cruas verdade fossem, finalmente, proferidas. Por tardias soaram (soam) tão mal como as loas choramingas prestadas ao admirável defunto. Em alguns casos pelas mesmas criaturas...
Não é (não foi) o caso de Eugénio de Andrade. Os poetas são uma espécie mortal diferente. Quando se vão, não será por muito os criticarem, que arrefecem mais depressa; e não será por muito serem cantados que a sua alma aquece. Mas a obra permanece pelos Séculos além, mesmo os mais obscuros, como Angelo de Lima, por exemplo, que Herberto tirou, com ternura, de páginas do« Orpheu», de sob a poeira para mo mostrar.
Dos políticos é mais complicado. Geralmente diz-se deles amabilidades vagas, subtis a ponto de se subentender melhor a amabilidade que a realidade; a crítica por vezes agreste sobre a excelsa criatura defuntada pode medir-se sem lupa, basta soletrar as entrelinhas.
O que varia habitualmente é o funeral. Desta vez não deu para sair da Basílica, mas num dos casos encheu as televisões de multidão e nem sempre a multidão é anónima. Pessoalmente não me impressiono com multidões. A que me marcou, e definitivamente, me inibiu de pasmo pelas seguintes, foi a chegada a Luanda da Riquita. Muito antes eu próprio engrossei a mole que festejou o primeiro título europeu do Benfica. Sei o que eram e o que valiam. A multidão na última viagem poderá ter compensado a ausência de condecoração, aliás logo assinalada na nossa rede com azedume. Com o andar da carruagem as distinções vagamente oficiais com as quais o senhor Presidente da República premeia nem sei que tipo de virtude ou de obra relevante nunca obedeceram a regras claras, talvez por isso a condecoração se torne cada vez mais um acto mais floclórico do que solene. José do Telhado teve, antes de se tornar salteador, uma alta condecoração do Estado. Um português ilustre, premiado com o Nobel da Medicina, não teve direito ao reconhecimento do Estado, porque não era, imagine-se!, salazarengo. O Eusébio deve ter tido. Um comentador de RTP, filho de um antigo ministro do Estado Novo, também. O Álvaro não. Na sua longa e atribulada existência não se distinguiu tanto, quanto Catarina Furtado. Não se espantem! Hão-de ver nos funerais da imensa legião de comendadores às ordens (ou devo dizer da Ordem?) o impacte da graça presidencial...

terça-feira, junho 14, 2005

IGUALDADES

Entre igualdades e desigualdades venha a diferença e escolha. Por exemplo, a malta de Viseu não vai muito nisso das desigualdades ou da diferença. Como não aceita agride e espanca quem sai dos conformes. Mas há quem aceite e defenda o direito de cada qual ser como é, mas quando é o caso de se forçar a mão, os preconceitos emergem.
Um sindicalista chocado com as condições laborais no Vale do Ave revelava que algumas operárias com salários muito baixos ou até no desemprego se viam constrangidas à prostituição, com conhecimento e condescendência dos maridos. A crueza da crise faz, no entanto, realçar a desigualdade: ante o espectro da fome, a metade feminina do casal prostitui-se. O esposo conforma-se e ganha o respeito do sindicalista condoído. É uma imagem distorcida. Em plena era dos direitos e igualdades, porque é que a jovem senhora empobrecida, que decerto já lava a loiça e as roupas da casa, varre o chão do lar e cozinha para a família, tem ainda de ser ela a prostituir-se?
E porque não a outra parte? Porque não vão eles, varões, para o parque Eduardo VII ou outros similares, onde tanta gente, alguma alta e poderosa, mas igualmente carente, busca com ardor resposta adequada aos seus anseios? A igualdade, como a responsabilidade, quando nasce é para todos. Mas nem sempre, nem em tudo, se pode satisfazer todos. Se fosse só ir ao parque, pela noitinha, era simples. Mas, ele há mais desigualdades. Olá se há! Ainda que algumas imcompreensíveis e quiçá injustas. Como por exemplo a do pobre professor que badala na televisão pública, que só pode reformar-se aos 65 anos, se nessa altura já tiver anos de trabalho suficientes, e outro gajo qualquer pode ter pensão dourada e vitalícia após três ou quatro anos de banca do Estado, ou 12 anos de Parlamento? Ou mais ou melhores, no caso de ser julgador dos semelhantes pecaminosos?
Não é por nenhuma razão razoável ou lógica e muito menos decente. Mas porque quem mandou, manda ou mandará, nessa área aproveita-se e não se lembra de mandar as propostas de lei sobre essas generosas e ilegítimas benesses a votos. Para privilégio não há referendo. Se houvesse era seguro e certo que ninguém jamais se admiraria (como se admirou) com um nãozito de vez em quando.
A questão não se pode pôr em termos de discutir se é legal, razoável ou ético acumular uma pensão com um salário, mas a legitimidade da pensão, sobretudo se for gulosa, antes do tempo e sobretudo, atribuida por serviço mínimo num orgão do Estado que remunera bem os de cima e não avança com pensões prematuras para os de baixo. Pessoalmente preferiria que o senhor ministro (e outros que tais) perdesse a pensão, e que lhe dessem mais taco no vencimento, do que avançassem com alguma generosidade paga pela Segurança Social ao jovem professor dominical...

segunda-feira, junho 13, 2005

O Estado Que Temos

Há momentos na vida de um povo que o definem como tal. A morte de Álvaro Cunhal é um deles. Ninguém pode ficar indiferente à passagem deste homem pela vida colectiva de Portugal.
Todavia, o Estado, essa instituição em nome da qual pagamos impostos, vamos à guerra, somos presos ou libertos, não traduziu uma única vez, num único gesto essa consideração do povo. Álvaro Cunhal passou, definitivamente, à categoria da lenda sem ter recebido das mãos de nenhum representante do Estado uma demonstração de apreço pela vida de luta, dedicação, esforço e sacrifício que viveu.
O Estado português nunca condecorou Álvaro Cunhal, um homem que marcou indelevelmente a vida nacional durante mais de cincoenta anos.
A sua morte serve também para definir a natureza do Estado que, dizendo servir-nos, se serve de nós, decidindo sempre segundo preconceitos ideológicos que nos dividem.

Discursos Políticos II

Apenas ouvi meia dúzia de frases do discurso de Mário Soares sobre o 20º aniversário da adesão de Portugal e Espanha à CEE, hoje UE, por isso, que me desculpe este homem cuja presença na vida pública portuguesa já ultrapassou, seguramente, a da maior parte dos protagonistas da nossa História, talvez com a excepção de Afonso Henriques e D. João V. Espero, todavia, ler, numa primeira oportunidade, tudo quanto disse naquela circunstância.

...Mas ouvi, integralmente, o discurso de Felipe Gonzalez.

Ora aí está o discurso de um político. Ficou claro o seu pensamento: pode a Europa competir com o poderio demonstrado pelos estados emergentes nesta globalização através de salários baixos?
Pode a Europa competir com os saltos tecnológicos conseguidos pelos Estados Unidos, muito à custa da guerra contra o Iraque?

Pode a Europa manter o seu modelo social contra estas ameaças?

Pode a Europa acrescentar a cada hora de trabalho imaginação, criatividade, inovação e, com isso, superar os seus reais competidores neste Mundo globalizado que os europeus desejam e para o qual comparticiparam e comparticiam?

Foram estas as perguntas de Felipe Gonzalez, que se considerou, primeiro, um "HOMEM LIVRE" e, depois, um cidadão" sem responsabilidades mas não irresponsável" e, por isso, preocupado com o actual terramoto que assola a União Europeia. A solução para a crise está nas mãos da geração actualmente detentora do poder europeu. Uma geração já sem as referências fundamentais da primeira e da segunda guerras mundiais. Esta geração - disse Felipe - tem a obrigação de governar o verdadeiro "presente de Deus" que representa a Unidade Europeia, seja a dez , a 25 ou a 35.

Oxalá Sócrates e todos os outros tenham ouvido igualmente a sua manifestação de esperança na possibilidade de a Europa manter, contra tudo e todos, o seu modelo social

Oxalá.

Os Discurssos Políticos

Acabo de ouvir José Sócrates no seu discurso de comemoração dos 20 anos de adesão de Portugal à então CEE, hoje UE.

Alguém tem que ensinar ao primeiro-ministro que aquele tipo de discurso já não se usa e é cansativo. Mais: aquilo é um tipo de discurso jornalístico que já nem nos jornais fica bem, com as muletas habituais: a retrospectiva histórica capaz de justificar conclusões prospectivas e onde nem sequer falta o estafado "por outro lado...".
Sócrates usa também os truques dos padres da Aldeia, repetindo, no início de cada período, as mesmas frases ou, às vezes, uma única palavra. Aos políticos dispensam-se os truques de oratória.

A um político exige-se, num discurso público, em circunstâncias tão marcantes, a notícia. Um discurso com novidades, com ideias novas, sem tantas referências ao passado. A um político exige-se, quando fala, a indicação para mudanças na sociedade que dirige, sobretudo no nosso tempo, que circula a uma velocidade igual, ou superior, à da velocidade da luz. Um político, quando fala, tem que dizer alguma coisa.

Eu já não me lembro de nada do que ouvi.

As Dívidas E Os Perdões

O Grupo "G-8", de repente, resolveu perdoar as dívidas aos 18 países mais pobres , isto é, aos mais endividados, isto é, aos estados que não pagam as suas dívidas, isto é, resolveram premiar os estados que têm tido ao longo dos tempos uma atitude de menos (ou nenhum) respeito pelas regras da convivência internacional.

Olhamos par a lista e não podemos deixar de ficar surpreendidos. Nenhum dos 18, exceptuando, provavelmente, o Burkina Faso, pelas condições climatéricas, e o Uganda, por via dos sucessivos genocídios levados a cabo por razões ainda não totalmente identificadas publicamente, terão algumas razões para se comportar como não pagadores dos seus compromissos internacionais.

Esse pagamento representaria, de resto, uma afirmação de dignidade e soberania nacionais que a todos honraria.

O escândalo aumenta quando percebemos que na lista seguinte - passível de novos perdões - se encontram países como Angola, Costa do Marfim, Camarões, Congo, Somália, Sudão e Togo.

Esta resolução, que encheu de contentamento os ministros das finanças do grupo "G-8", não tem uma referência, um prémio, para os países que, sendo efectivamente pobres, sempre se esforçaram por cumprir os seus compromissos e, para isso, obrigaram os seus cidadãos a comportamentos responsáveis, plenos de sacrifícios e - por isso também - mais dignos.

Esta decisão é um prémio à corrupção, ao roubo institucionalizado, à exploração desenfreada, ao conluio entre as elites nacionais e as instituições internacionais que prestam assistência, que distribuem verbas ou bens pagos por todo o Mundo.

Esta resolução não resolve problema nenhum. As elites dos países da primeira lista vão ficar mais ricas e prolongar a ocupação do poder de decisão sobre todas as matérias que dizem respeito aos respectivos povos e as da segunda vão tentar perceber, antecipadamente, como desviar em seu próprio benefício os perdões que vão chegar, e com, isso consolidar, igualmente, os esquemas de domínio do poder político nacional.

Mais do que isso: este perdão é, de facto, uma tentativa de construir um esquema institucional de intromissão na gestão de cada um destes países governados por verdadeiros gangs de ladrões.

É interessante verificar que países como Cabo Verde não fazem parte de nenhuma das listas. Sempre cumpriram com os seus compromissos e mantiveram acesa a luta por dignificarem a sua condição de países independentes. Por isso vão ter que continuar a lutar com as suas próprias armas, primeiro contra a organização internacional que favorece a corrupção e depois contra os seus congéneres que não apreciam particularmente o seu modelo da honestidade.

Pode não servir como comparação, mas ela aí vai: é como, quando, em Portugal, um governo se lembra de lançar um perdão fiscal sobre os contribuintes não cumpridores. E os outros? Ficam assim, sem direito a nada e com a obrigação de financiar a corrupção, a irresponsabilidade, a ladroagem daqueles, que, muitas vezes, não se inibem de, com os seus automóveis de topo de gama, passarem propositadamente nas poças de lama e salpicar o coitado que vai a pé porque toda a vida pagou as suas obrigações.

domingo, junho 12, 2005

Os próximos capítulos

Estou verdadeiramente surpreendido: sempre que escrevo alguma coisa sobre o Luís Delgado, os níveis de leitura deste blog sobem em vertigem.
Quer dizer: se eu funcionasse como o Luís Delgado, passaria, desde agora,a escrever só sobre ele. E matéria não faltaria.
O Luís Delgado seria para mim (para este blog) como o romance escaldante de uma vedeta da televisão, do cinema, da política, é para as revistas do coração ou cor de rosa.
Não é isso que verdadeiramente me motiva, mas não posso deixar de me interrogar sobre o efeito "Luís Delgado" na blogoesfera. Será que se está à espera que eu revele alguma coisa verdadeiramente bombástica sobre o LD?
Não percam os próximos episódios...

sábado, junho 11, 2005

TAPAR OU DESTAPAR

O que as crises têm de chato é a dificuldade em perceber porque ponta é que se lhes deve pegar. A senhora ministra da Educação quis mostrar obra e, porque crise é crise, avisou que ia
poupar uma pipa de massa, restringindo aqui e ali, travando progressões progressivas. Avisou ainda que uns três mil professores incapacitados de dar aulas iam ser deslocalizados, por assim dizer. Saiam das listas de profs e iriam (ou hão-de ir?) para actividades afins, como bibliotecas, do ministério de de autarquias. A ideia luminosa consistia em não falar de despedimentos.
Acho mal. A crise no mercado de trabalho surge, de repente, falseada. Se há lugares possíveis de preencher nas bibliotecas municipais ou nas do Estado já devia ter-se aberto concursos de preenchimento desses lugares, entre os milhares de desempregados, muitos dos quais com currículo mais que suficiente e que nem sequer estão incapacitados de exercer a sua profissão.
Não se trata de ter ou não ter respeito pelas pessoas, neste caso, pelos trabalhadores. O direito ao trabalho disponível é para todos os desempregados.
Nos três milhares de professores a empandeirar, alguma da incapacidade resulta da recusa em mudar de local de residência ou outras distorções profissionais, mas seja pelo que for a incapacidade de preencher o seu posto de trabalho não lhes dá, a eles, nem à senhora ministra, o direito a usurpar outros postos de trabalho.
É claro que o desvio de docentes deve abrir espaço para novos professores, mas uma coisa não invalida a outra. O preenchimento de vagas, se for caso disso, será por concurso, naturalmente. Mas, minha boa gente, não há concurso para despedimentos. Há que ter algum respeito. Já basta quando alguns artistas da cor entram pela porta do cavalo. O governo deve guardar alguma contenção, mas ser pragmático: quem não pode ou quem não quer o posto de trabalho deve ser dispensado, com o devido respeito. Mas as vagas não podem nem devem ser para alguns.
E por falar em professores, porque não falar de ensino. Não por economia, mas por estímulo. Porque não convidar vultos para lições a vários níveis via TV codificada. A melhoria de técnica de ensino e o sumo de lição podia ser assim, creio eu, valorizados. Não com o intuito de substituir para poupar, mas de enriquecer o ensino, introduzindo alguns pós de qualidade extra.
Porque também este é um ângulo de preocupação: a qualidade. Fico-me por aqui. Tenho que estudar, mas volta não volta oiço o prof. na Televisão. Se aprendi alguma coisa de filha de putice foi a ouvi-lo...

Alívio

É a sensação deste 10 de Junho - que até me basta para não ter que analisar as condecorações do Presidente da República. Já não há ninguém de méritos comprovados para que o povo distinga? Então acabem-se com as condecorações... Tenhamos algum respeito pelos palhaços.

O alívio - com o já entenderam - não tem nada a ver com isso ( medalhas são medalhas e já não valem nada no prego, oxidam muito rapidamente). Tem a ver com a resposta aos inúmeros e-mails que eu e, muito provavelmente toda a gente, recebemos, pedindo bandeiras negras nas janelas.

Não respondi a nenhum deles, mas fiquei à espera. Afinal, nada aconteceu. Estes protestos, mobilizados não se sabe bem de onde, não resultam. Felizmente que a extrema direita, aliada à direita populista ainda não tem terreno para este tipo de acções. Mas, cuidado, a Europa está à beira do abismo. Com lideranças tipo Barroso, Chirac, Blair, Schroeder... não vamos conseguir resistir à pressão neo-liberal ( a rondar o fascismo) dos EUA e ao canto da sereia chinês, sem respeito por qualquer tipo de regras que considere a pessoa humana como a coisa mais importante da política.

Aos portugueses não ficaria nada mal ficarem mais atentos. Os portugueses e já agora o Presidente da República, que parece ter perdido o Norte. Ele já não sabe que o conflito Leste-Oeste nunca existiu, bem como o diálogo Norte-Sul. É o contrário, sr. presidente! E as condecorações servem também para dar sinais...

sexta-feira, junho 10, 2005

SALOIADAS

Que um homem tivesse esposa e filhos era tão natural como ser solteiro, antes de casar. Com o desenrolar do tempo cada vez mais é tão natural ser solteiro, com mulher e filhos, como ser casado uma porção de vezes e ser pai de filhos de outros. Simplifiquemos: qualquer um pode ser o que lhe apeteça. Nem sempre foi assim. Tempos houve que uma criança podia nascer já condenada a um BI monstruoso: filho (a) ilegítimo (a). Ainda conheci um caso em que o bebé foi rotulado como filho de mãe incógnita, apesar de ter nascido numa maternidade pública. Ainda podia haver alternativa nos casos fora do casamento em que o pai, casado, anuisse perfilhar a criança, mas para tal era indispensável a concordância da esposa atraiçoada. Com paciência e alguns anos de de intervalo, conseguia-se. Mas a inversa, ser a perversa adúltera a ter a criança, que não do marido, era muito mais complicado. Basta lembrar que os tribunais (e os juizes) reconheciam o direito à honra. Não foram poucos os maridos que lavaram a honra conspurcada a tiro ou à machadada, conforme a época e arcaram com uma sentença de desterro de 30 ou 40 quilómetros.
Há de resto um caso interessante sobre esta matéria justamente sobre uma herdeira do Diário de Notícias, que teve um devaneio sentimental. O marido, com ajuda de médicos puritanos, tentou interná-la como doida, e inibida do uso dos seus bens. De facto usurpou-lhe a propriedade do Jornal.
Hoje o mesmo matutino critica um candidato à Câmara de Lisboa por exibir a esposa e o rebento do casal. Não terá uma coisa a ver com a outra. Os casamentos não são hoje o que foram no passado. Quando referi o Diário de Notícias, não foi a propósito da apresentação pública do candidato, noticiada como um episódio das próximas eleições autárquicas, mas do editorial do jornal. Nem sei que dizer. Talvez inverter os factores. Então, seria assim. Os editoriais já não são o que eram. Dantes os editorialistas sabiam o que deviam saber. Usavam pesos e medidas e escreviam sobre assuntos sérios, criticavam asperamente, mas com elegância. Liam-se com prazer. Podia-se discordar, mas apreciava-se o estilo e a cultura.Quando os ardinas gritavam:
«Fala o Rocha...fala o Rocha» eu comprava o jornal. Continuei a comprar quando ouvia, depois, apregoar «Vem à Cunha...Vem à Cunha», às vezes quase às 7 da tarde.
Não é lá por Carrilho ter dado uma de David Beckham que se tem editorial. Também acho que o homem de cultura que Carrilho sempre se quis afirmar não se compadece com cenas saloias, por mais interessante que possa ser a senhora sua esposa, também ela muito apegada a cultos e a culturas. Mas daí a espaço nobre no matutino vai alguma distância. A mesma, no fim de contas, que vai desde os primórdios ao presente: um percurso quase sempre a descer...

quinta-feira, junho 09, 2005

Por Favor!!!

Essa gente da Lusomundo, da não sei quantos Global, da Multimédia, ou da PT mão consegue entender-se com o F. Balsemão - já que pagam, que paguem!!! - e retirar aquele fantasma do Luís Delgado dos comentários políticos da SIC Notícias? Francamente! Acho que vou retirar o canal 5 do meu "zaping". Assim não corro o risco de o ver e ouvir de novo. Que raio!!! É preciso algum decoro - diria mesmo: é preciso vergonha!. Deixem lá o homem com o BMW, série 5, e o apartamento de luxo no condomínio de Alcântara, mas proibam-no de aparecer em público a comentar a política - seja ela qual fôr: nacional, internacional, autarquica, desportiva ou mesmo da Junta de Freguesia a que pertence. Por favor!!!

É A FALAR ...

...Que a gente se entende. Não sou muito adepto dos silêncios estratégicos. O governo inglês adiou, não fosse o Diabo tecê-las. Em boa verdade já tinha tecido: França e Holanda optaram por um rotundo não. Durão Barroso foi falando sem dizer nada. Sócrates não sabia o que dizer. Não havia estratégia no governo, havia silêncio falado, do género esperar para ver. Freitas do Amaral, esse, sim, falou e traduziu a decisão do governo de Londres com um expressivo "o tratado da constituição europeia não é viável".
Provavelmente não é e provavelmente não vai haver outro referendo sobre o tratado, tal como está.
A reunião na Assembleia da República dos líderes parlamentares evidenciou que não era tão determinada como se afirmava no PS e no PSD a decisão de manter a consulta ao povo português. Optou-se por uma pausa. Não é,pois, um silêncio, é uma gritaria. É natural que o titular da pasta das Necessidades exprima opinião sobre matérias do seu pelouro. Se apenas se limitasse a transmitir o recado do primeiro-ministro não precisaria de ser ministro, qualquer um Fernando Gomes servia. Eles servem para tanta coisa...
Em todo o caso, António Vitorino veio a terreiro explicar o que é que os ministros devem e não devem fazer, e não devem expor posições pessoais que causem ruido. Foi a opinião dele, diria depois Freitas do Amaral, o qual ainda foi a tempo para relançar a nova moda no política portuguesa: a tempestade num copo de água...

terça-feira, junho 07, 2005

METER ÁGUA

O governo anunciou que a água vai ficar mais cara, coisa de nada e o que é importante nem é o consumo, mas a reserva e a qualidade. Para que se cuide melhor da reserva e se sirva qualidade tem que se tomar medidas.Quem se der ao incómodo de ler o recibo da água há-de verificar a porção de taxas e sobretaxas, além da água propriamente dita, que tem de pagar por um líquido que, à cautela, nem deve beber.
Mas nem é pelo preço, nem é pelo aumento que manifesto algum desagrado, mas pelo desinteresse que os poderes públicos têm revelado ao longo dos anos pelos atentados aos veios de água, que alimentam os poços rurais, rios e ribeiros do país. Todos os responsáveis pelos institutos, pelos municípios pelos sucessivos governo sabem o que se passa pelas pecuárias, como são feitas descargas criminosas. O ar incomodado de alguns personagens a tentar fazer crer que vai ser instaurado um inquérito. O caso dormita até ao próximo incidente do género. São praticamente todos ou quase todos os porqueiros ou similares. Os raros que não são ficam mal vistos na fotografia e passam por parvos. E o Estado sabe. E sabe quais são e quantos são, e onde moram. Mas quase sempre faz por esquecer.
É duro que seja o cidadão que tem em casa o contador de consumo de água a pagar a crise e a pagar as águas, quer a trabalhar que esteja no desemprego, enquanto o explorador de suinos opta pela multa em caso de, e são muitos poucos, no fim de contas, os casos de...
Se este governo e este primeiro-ministro quiserem ser coerentes com a preocupação pelos cuidados da manutenção da qualidade da água deveriam ter começado por impor regras à laboração de pecuárias ou qualquer outro tipo de industrias poluidoras. A multa não é uma punição; a multa legitima a infracção. Este é um género de negócio que não pode ser tolerado.
Muita de responsabilidade cabe aos municípios, sempre prontos a olhar para o lado, mas os orgãos do Estado conhecem a situação. Querem fazer crer que existe outra crise de momento para enfrentar e cada dia que passa agrava-se o índice de poluição.
Salvar rios e proteger o ambiente não é só um dever é também investimento. Um rio de cara lavada também pode gerar receitas e pode restituir o respeito pela Natureza e alguma simpatia acrescida pelos agentes do Estado.

segunda-feira, junho 06, 2005

EM BUSCA DA SABEDORIA PERDIDA

Quando fiz a tropa, era Angola antes dos idos de um Março qualquer, um dos prazeres que raro voltei a ter era o de falar com os cabelos brandos dos velhos. Aliás realmente velhos porque o cabelo de negro é resistente ao encanecer.
Era então o falar com a sabedoria.
Falavam pausado, deixando a inteligência descansar por sobre os intervalos da lentidão, e só depois diziam.
O quê?
Ora, diziam o que dizem os sábios. No caso, sèculos de Angola.
Diferentemente do que dizem os velhos da Europa, que falam à velocidade dos novos europeus as mesmas banalidades que eles.
Mas com surpresas em todas as idades.
Entretanto um pescador em Sines
Um dia de tarde entrei numa taberna de Sines. Ia dar de beber à sede. E numa taberna por gosto do bom vinho de barril, que já não se vende, e de ouvir a sinceridade dos copos, que cada vez se usa menos. Até os bêbados falam o falso português dos jornais e das telefonias, quer-se dizer, falso de bem comportado e sem caixa de velocidades. Com excepções, evidentissimamente.
Três pescadores tinham-se-me antecipado nos copos e estavam em guerra vínica com o governo, um desses do costume que andava em guerra contra eles. O problema era de marisco e de proibições.
Então um deles, quando me percebeu interessado, deu uma lição marisqueira, com explicações de nascimento e procriações, da razoabilidade científica de certas leis e do amadorismo óbvio de outras, após o que transitou para a análise do reflexo económico da atitude governamental com contabilização de ganhos. E perdas, que eram para todos, país e pescadores. Disse.
Foi como ouvir uma sinfonia, um homem de camisa grossa aos quadrados e penso-o descalço, mas já não sei. O que sei é que gostava de ouvir a mesma sonoridade em Sócrates. No que temos.
E a lembrança de Chiesso
Ao ouvi-lo, a esse pescador-talvez-descalço, o vinho trouxe-me o Chiesso à memória.
Não era sèculo. Apenas um negro qualquer arrebanhado para a tropa e que calhou no "meu" pelotão. Já era fora de idade, um recruta com entre 30/40 anos. Acontecia. Era tudo feito a olho. Mediam-se os mancebos pelo pêlo púbico, e se o moço fosse felpudo, tivesse ou não tivesse idade, ia malhar com os ossos na tropa. Ou, de contrário, se fosse escasso de pêlo, tivesse ou não ultrapassado a idade, assentava praça.
Ora Chiesso não devia ser de abundante pilosidade. E no meio da moçada sentia-se deslocado. Ajudei-o com muita simpatia, que ele retribuia passando os domingos a apanhar pássaros que me oferecia. Não convivia com a rapaziada, talvez da idade dos seus filhos.
E aconteceu num dia daqueles tempos de paz, a pax lusitana como lhe chamou Mesquita Lemos, em que eu distribuía tarefas, lhe disse que "nós, que somos amigos" vamos fazer qualauer coisa que se perdeu no tempo. Aí Chiesso formalizou-se e ponderou discordância a respeito da amizade. O que me espantou:
- Não és meu amigo, Chiesso?
- Amigos, quer dizer, amigos, bom eu gosto do meu aspirante, o meu aspirante talvez goste de mim, mas, amigos, o meu aspirante tem os seus amigos e eu tenho os meus amigos.
O mistério no meio daquela amizade está no entender como um analfabeto conseguiu estudar de Karl Marx o seu discurso sobre classes sociais...
Este diz que não mas é
Ao certo, ao certo é benfiquista. Quanto ao ser comunista diz que não mas parece que é. Pelo menos desanca "neles" (PS, PSD e CDS) de manhã à noite. Durão Barrosso e Paulo Portas eram "esses macacos que estão no governo", Sócrates "é um gajo do mais à direita que tem o PS" e andando por essa via (será suspeita?) mas com fio de raciocínio a mostrar escola. Apurada para quem é de poucas letras.
Há dias andava numa de pessimismo sem esperança. Aí temperei com os exemplos da Irlanda e da Finlândia que conseguiram, como países, situação confortável. Embora modestos de capacidades naturais.
E a sua resposta foi instantânea:
- Ah, mas isso foi com confiança nos governantes. E quem é que vai confiar nestes gajos?
A confiança
Portugal é um país que vive asfixiado entre o discurso capcioso de juristas e o discurso contabilístico dos economistas. E, pelos indícios, tudo gente que acabou os cursos já doutores. Provavelmente ninguém lhes ensinou que a Universidade confere aos seus alunos apenas os ensinamentos necessários ao estudo. Não faz sábios. Os sábios fazem-se a si, estudando depois de sairem da escola.
Precisamente aquilo que os nossos ministros (eu excluo da maralha Maria de Lourdes Pintasilgo, António Guterres e assim; talvez outros engenheiros que se tivessem dado ao trabalho de perder, aliás ganhar tempo lendo e meditando sobre os problemas sociais) dizia então que os nossos ministros e deputados, a generalidade deles concerteza, deixou os bancos da faculdade já doutores. E pronto, sentiram-se aptos para doutorar na coisa política.
Daí que nenhum deles, até hoje, se preocupou em perguntar-se o porquê desta bagunça que tem gerido os destinos do país. O meio-comunista-e-benfiquista-completo diz que é por falta de confiança nos governantes. E di-lo do rés-do-chão da sua instrução primária.
Será?
E,se for, qual o projecto? qual o método? qual o estudo? qual o plano apresentado ao país para chamar os portugueses à confiança?
Mas pode ser que não seja. Porquê?
Poucos meses depois das últimas legislativas, Sócrates foi tão explícito quanto ao processo de captar a confiança da nação que já tinha esbanjado, com a salgalhada das pensões juntadas aos vencimentos ministeriais, o capital de confiança que o levara ao poder.
E Marques Mendes, o periquito falante, anda a exigir reformas da Administração Pública já! - em demonstração cabal de não fazer a mínima ideia da complexidade do problema, dos meses que se vão gastar a estudar a matéria, as perguntas de investigação, o que fazer o o como fazer. Talvez nunca tenha trabalhado na função pública nem na função privada. Estudou para doutor e para ministro. Saiu feito da máquina, como as salsichas.
Talvez então mandando esta gente repetir a instrução primária.
Não tanto? Os preparatórios? Então fica assim, preparatórios.

domingo, junho 05, 2005

ENTRE O SIM E O NÃO

Cabe sempre um talvez. E talvez tenha sido por isso que fugi da crónica sobre os nãos e os muitos ses que ela suscita. Pessoalmente sou um europeu do tipo saloio. Conheço melhor a Malveira (e já não passo por lá há uma vintena ou mais de anos) do que a Inglaterra toda. Passei umas horas em Londres, andei de metro e de maximbombo. Jantei um steak com batatas fritas (juro), coisa que nunca como em Lisboa. Das restantes vezes foi só escala nos aeroportos. E por via dos aeroportos londrinos conheço um bom pedaço da Austrália, que não vem para aqui chamada, como as ilhas da Nova Caledónia, da minha viagem de núpcias, aos 65 anos, quando me reformei, tal e qual, sem subsídios extras ou comprometedores.
Bom,que mais? Ah! Sim, pois, a Espanha, isso sim, desde o tempo da peseta barata e do meu primeiro «metro». A França, claro; a Itália menos, mas o suficiente. Da Alemanha um pedaço de Munique, onde fui com um colega buscar o BMW dele, que nos facultou um imenso regresso
a Lisboa, onde estava de passagem, habitava em Luanda.
Bom, esqueceu-me de mencionar o Luxemburso, mas não tem importância. Passei por lá uma vez para apanhar um avião de regresso ao Jornal Novo. Estados Unidos e Brasil não fazem parte da crónica.
Sei pouco da Europa sim ou da Europa não. Nunca fui à Holanda, e gostava de ter ido. Aprendi a gostar dos holandeses, quando estava em Angola e soube das «Minas malucas» por uma revista sueca. Mais tarde um poeta havia de fascinar-me a contar a experiência dele na Holanda, um paraíso de liberdade. Tudo isso já bem na gaveta da História, mas influencia o meu apego pelo país que não conheço.
A história das «minas» data do fim de guerra na Europa. Até então a Holanda era sociedade recatada. Durante a guerra a escassez de mão de obra (praticamente só os homens trabalhavam) levou as fábricas e outros armazéns a abrir as portas às mulheres. Nas principais cidades costeiras mudou a paisagem e iam mudar os hábitos.
Os cafés, as tascas das zonas fabris não tinham sido equipados como lojas mistas. Até então os clientes eram homens e, de repente as mulheres passaram a dividir o consumo. Queriam sentar-se em grupo e discutir modas e sindicalices, que também começava a estar de moda. As tascas não dispunham de sanitários para senhoras. As pequenas não foram de modas e deram volta ao assunto. Ocuparam quase todos os tascos da área; duas ou três ficavam sentadas em cadeiras às portas da «cazinha», a tricotar. Estenderam umas cortinas de rendas por sobre as portas e impediam a entrada a machos. Que festa que seria para as televisões de hoje!
Mas elas ganharam, como hoje em dia se pode verificar, em qualquer momento de aperto!
Outro triunfo do movimento feminista foi contra o excessivo recato. A Rainha de então alimentava um puritanismo rígido. No dia nacional, festejado com um cortejo tradicional, as «minas malucas» integraram-se em grupo no cortejo, carregando um enorme símbolo fálico...
Anos mais tarde, quando o poeta me falou da sua estadia holandesa, a Holanda já era outra e surpreendeu o próprio poeta. Puritanismo nem vê-lo e não fora ele poeta e certamente teria criticado alguns excessos de arroubo.
Hoje, quando é preciso, votam não e não acreditam que seja uma tragédia.

ANTES QUE CASES

Já não é novidade: a França disse não; a Holando gritou não. O sr. Raffarin saiu e entrou outro, mais alto. Chirac é o mesmo, paciência. Hollande afastou Fabius da direcção do PS. Não chegam grandes rumores da Holanda. O estardalhaço é aqui. Um súbito medo do escuro.
O sr. Jorge Miranda defende o adiamento. Adiar, que se saiba, não é solução. Que interessa ou justifica um referendo que só admite uma resposta. Um não como o que cresceu pela Europa
tem a virtude de ensinar os que julgam que sabem tudo. E nem vale a pena explicar agora, muito bem explicadinho, que o não foi por isto e aquilo. Não interessa, por mais análises e teses o efeito é o mesmo. Não é exactamente o contrário de SIM. Uma vez uma vizinha disse-me que não. O que é que eu podia fazer? Ora! Ir à procura de outra que dissesse que sim...

sábado, junho 04, 2005

"Um Lugar Ao Sul"

É um programa de Rádio transmitido na Antena 1 da RDP que os burocratas atiraram para as sete horas da manhã de Sábado.
Tempos houve em que a Rádio era um meio de comunicação nobre, dirigido por gente íntegra e de cultura e que percebia o essencial de um instrumento tão poderoso. Nesses tempos, jornalistas, ou radialistas, como o Rafael Correia, eram considerados num plano de prestígio que nos garantia a salvaguarda dos valores culturais que nos diferenciam no Mundo.
Com a chamada massificação ou globalização, ou lá o que é, passamos o dia ( quando há paciência para isso) a ouvir disparates, conversas ocas de sentido, intercaladas do anúncio das previsões meteorológicas e das horas que vão correndo, além de música que pouco tem a ver connosco, sem nada que nos possa recolocar no nosso espaço, aproximar-nos uns dos outros.
Rafael Correia, todas as semanas nos mostra o caminho de um lugar ao Sul, mas a horas que pouca gente ouve - o que indica, seguramente, a predisposição das gentes que agora dirigem a principal estação de Rádio de Portugal de o atirar tão para Sul, tão para Sul que vai saltar das antenas, já sem espaço e sem voz para nos mostrar a nossa gente.
Hoje lá consegui estar acordado para o ouvir. Espero que muito mais gente tenha tido uma "espertina".
Ora então, muito bom dia, Rafael Correia. Oxalá alguma coisa mude a sério neste país.

A Verdade da Imprensa

Um dia destes, desta semana, passou a correr num daqueles oráculos que todas as televisões usam para mostrar de fugida as notícias importantes, enquanto vão falando e mostrando o sangue da estrada e as caras disfarçadas dos pedófilos e das alegadas vítimas e a história de mais uma velhinha simpática, mas que já não fala nem ouve... um dia destes, num daqueles oráculos, fugiu a notícia segundo a qual o New York Times tinha mandado fazer uma sondagem para seu próprio consumo.
E que resultados obteve nesta sondagem? Que a maior parte dos leitores não acredita em nada do que os seus redactores escrevem.
Esta conclusão - terrível para quem edita um jornal - levou a respectiva direcção a lançar uma reestruturação profunda no modo de fazer jornalismo: por exemplo, acabar com as fontes anónimas, contraditar as fontes oficiais, abrir linhas directas para os leitores e outras medidas.
Será que algum jornal português tem estrutura mental para, honestamente, fazer a mesma sondagem e actuar em conformidade com os resultados obtidos?
Tenho a certeza que não. Nenhum deles ligou a mínima a este processo americano. De resto, da América, só lhes interessam os discursos inteligentes de George Bush.

Os Nãos Europeus

Não deixa de ser interessante verificar as reacções portuguesas aos "nãos" dos outros, neste caso, o não dos franceses e dos holandeses à proposta de um novo tratado de constituição europeia.
Um tratado para substituir um outro, o de Nice, que entrou em vigor em Janeiro de 2005, concebido para albergar a turba de europeus do Centro e do Leste.
Para uns quantos portugueses ilustres, o não francês podia ser uma catástrofe, para outros, igualmente ilustres, com direito a tempo de antena e a escritos nos jornais, foi o produto da ignorância e da falta de informação, representou, não uma resposta à proposta da constituição europeia, mas uma vontade incontrolável de deitar abaixo o governo.
As versões da análise sobre o não holandês são um pouco diferentes, mas vão ter sempre à falta de consciência e de informação.
Claro que também os dinamarqueses - que se preparam para dizer não - vão ser rotulados de mal-informados, ignorantes e outras coisas piores.
Bons, bons, mesmo vão ser os portugueses. Nós sim, estamos perfeitamente informados e, como, ao contrário dos franceses, não atravessamos nenhuma crise de identidade, vamos votar "SIM". Como a Espanha também já disse sim, em referendo, e uma série de outros países também já aprovaram o novo tratado nos respectivos parlamentos, sempre temos a possibilidade de juntar umas quantas bandeiras e ir fazer uma outra Europa, ali mesmo ao lado, para ficarmos a apreciar o inferno dos não informados, dos ignorantes, com profundas crises de identidade.
O que custa mesmo nisto tudo é verificar a incapacidade de reacção dos líderes políticos a um resultado que se adivinhava. Durão Barroso fez declarações absolutamente idiotas, do tipo, "faço um apelo à reflexão, à calma ..." e coisas quejandas.
Em Portugal, o meio metro veio logo dizer que não realizar o referendo era sujeitar o heróico povo português à humilhação de não sei o quê.
E ninguém conseguiu explicar por que razão povos como os de França e da Holanda votaram "NÃO".
Ora, como não aparece ninguém a explicar nada, é bom que se olhe para algumas outras reacções: em Itália, apareceu logo um ministro a dizer que o melhor será fazer circular, de novo, a lira, ao mesmo tempo que o euro.
O mesmo acontecerá brevemente noutros estados europeus, provavelmente mesmo em Portugal. Tal seria bom para os políticos que gostariam de voltar a ter nas políticas cambiais um instrumento de política económica.
Enfim... estão para acontecer algumas coisas interessantes e nós, por cá, continuamos a olhar-nos como os mais inteligentes, os mais sábios, os mais bonitos. Por isso bem merecemos uma Europa só para nós. Em Outubro ela vai cair-nos no sapatinho. Afinal, Natal não é quando um homem quer?

quinta-feira, junho 02, 2005

A CRISE E O ACESSÓRIO

Recebi uma mukanda interessante a dar-me conta de que, afinal, o senhor Banco de Portugal/Constâncio é um instrumento do primeiro-ministro. Com a autoridade que lhe advém do cargo deve advertir, alertar e precaver o Governo e/ou a Assembleia da República. Dá o mote e o governo que estiver no poleiro está justificado para impor medidas drásticas. Foi o que aconteceu com Barroso e, depois, com Santana. E, agora, de forma mais sumarenta. O governador do BP tem cumprido com zelo o compromisso de ser a todo o instante, como cantava a senhora do fado, sentinela vigilante da honra do marido dela e, neste caso, da nação, o que, de algum modo, também se deve aceitar como natural, considerando a remuneração que aufere pela colaboração que presta aos senhores primeiros ministros e colaboradores afins. Ao pé do senhor Victor, o que Fernando Gomes vai auferir parece remuneração de marçano.
De facto, considerando o volume da crise, anunciada por gente abastada, poderia sugerir-se começar por aí a poupança, remunerando um pouco menos alguns cargos principescos e que por via disso se tornam suspeitos de colaboracionismo excessivo.
Mas em vez de meditar nas formas de governar a crise, o que preocupa os agentes políticos ditos de oposição é o convite formulado pela RTP a António Vitorino de comentar, provavelmente os comentários dos outros, ou os acontecimentos em versão pessoal. Pode entender-se que pelo facto de se ser próximo de um partido se seja proíbido de emitir opinião?
Tanto quanto me lembro, Marcelo Rebelo de Sousa ainda era afilhado do padrinho e já botava opinião no Expresso e quando calhou ser colega de governo do seu ex-director, telefonava imenso a dar informações estratégicas, com comentários a condizer, a uns quantos fulanos da comunicação social, mais ou menos conotados com a posição democrática do governo tripartido.
Deve ser mais agradável e salutar escutar essa alta personalidade do PS, que é António Vitorino, do que gramar os pontos de vista do ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. O ex-de Gondomar teria mais graça, sobretudo se fosse para debater assuntos sérios ou de arbitragem!
Não, meus senhores, já basta de censuras e de censores, sobretudos destes. Deixem falar quem
tiver audiência e é isso que interessa aos canais de TV e às respectivas audiências. Qualquer de nós dispõe do único instrumento de censura legítimo: o comando da TV.
Tal como os políticos estão de moda e a ser contratados pelos canais de TV, tempos houve em que eram os profissionais da Televisão os escolhidos para acessorar os poderosos dos governos ou mesmo para engrossar as listas eleitorais. Lembro-me de uma colega que tanto lhe fazia ser acessora de Maria de Lurdes Pintasilgo, como de Proença de Carvalho e que não tinha dificuldade em deputar na Assembleia e actuar na Televisão. No fim de contas a vida é um espectáculo e muitas vezes nem se dá pelas figuras que se fazem...

quarta-feira, junho 01, 2005

OS TEMPOS MUDAM

E nós mudamos com eles. Não sei. Vi que desde ontem a cidade fechou, perdão, perdão, mudou, lá ia eu plagiando o heterónimo dele. Aconteceu-me vir a Lisboa e, de repente, vejo duas esquinas, a primeira na Paiva Couceiro, onde, do outro lado da Morais Soares, um banco que estava lá, já não estava. Desço a calçada; no Chile rumo à esquerda, Almirante Reis abaixo, como se fosse para a Portugália. E de repente outra esquina sem banco. Sem o banco que lá estava.
A quantidade de cafés que eu perdi em Lisboa, tornados bancos. Agora parece ser a vez da banca se reduzir. Só que não aparecem cafés.
O que eu não daria para reaver o Royal, com a esplanada, no Cais do Sodré, à esquina com a rua do Alecrim. Já nem sei andar em Lisboa, já nem sei às quantas ando.
Um pretexto para tomar café. Da tv no alto saiu um som estranho vil pão. Não era, claro, nada contra o paposseco, foi o Chirac a mudar de primeiro-ministro. O melhor é telefonar para lá saber o que é isto. Não é preciso um dicionário para dizer alô em francês. Villepin é um artista com história. Era primeiro-ministro, com maioria. Dissolveu-se a Assembleia, novas eleições e lá se foi a maioiria. Não parece o caso dos bancos, que tão depressa são bancos, como passam a lojas de fancaria!
Não esqueçam que o primeiro não é o que custa mais. Amanhã é a vez dos holandeses expressar a sua imensa vontade de não dizer sim.
Pois, sim, pois, sim, e que será de nós, que somos mais vocacionados para dizer talvez?
Talvez já nem haja Europa, nem Durão.
Quando chegar a altura dos saldos, Bush compra a metade de cima e dará a parte de baixo aos pobrezinhos. Eu farei como os cafés do Rossio: vendo-me ao primeiro que passar...
Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.