domingo, fevereiro 27, 2005

Cada Coisa no Seu Lugar

A forma como José Sócrates está a administrar a comunicação social no processo de formação do seu governo é exemplar. O que tem aparecido nos jornais, nas rádios e nas televisões é, visivelmente, especulação.
Isto quer dizer que o próximo governo será constituído por gente que tem um compromisso com o primeiro-ministro: não vai haver fugas de informação.
Este compromisso pode ser definido como o verdadeiro "fusível" do XVII Governo Constitucioanal. No dia em que alguém quebrar o compromisso haverá um curto-circuito e o chefe da equipa terá que fazer de "electricista".
Neste plano - o do relacionamento do poder com a comunicação social - permito-me uma sugestão: o regresso a uma certa institucionalização, nomeadamente com as televisões. Em Portugal, tal como em todos os países europeus, existe uma estação de Televisão oficial.
É através dela que os representantes do Estado apresentam as suas comunicações aos respectivos povos.
Isto não quer dizer que as outras estações não tenham direito à transmissão de tais mensagens. Quer apenas dizer que cabe à Televisão Pública disponibilizar os meios técnicos e humanos para que os eleitos do Povo a ele se dirijam. As televisões públicas são obrigadas - evidentemente - a disponibilizar o sinal a todas as outras.
Deste modo se evitam as cenas desagradáveis de multidões de câmaras e microfones, disputas, birras e outras coisas feias. Com tudo bem definido a vida é mais fácil.

OS DO RESTELO

Quem mais espreita os sucessos alheios o que mais deseja é vê-los cair. Sempre ouvi dos menos afoitos, dos menos dotados a sabedoria dos que nunca descobriram a pólvora:
quanto mais se sobe/maior é o trambolhão!
De medroso que sempre fui, aprendi que não se deve bater num homem caído.Subsiste sempre o risco de ele se levantar.Quem mais empurrou Santana para o abismo foi o Lopes que havia nele. O mesmo Santana que ganhou a Figueira da Foz, a fazer lembrar Helena Roseta a candidatar-se por Setubal, porque não era fácil. Mais fácil seria depois Cascais. Era muito, era demais e não lhe perdoram e ela abalou. Marcelo não ganhou Lisboa e depois voltou a perder naquilo que ele julga que é forte: a intrigalhada. Portas deitou-o por terra e como se não bastasse o Santana, com Lopes e tudo, afoitou-se a Lisboa. E ganhou.
Ganhou é uma forma de dizer, de facto ele perdeu-se nas teias emaranhadas do Pelourinho, enquanto Durão Barroso descortinava forma de, ele próprio, sair da crise, trespassando-a para o nº2.
Agora é fácil e simples concluir que o nº2 do Partido falhou como nº1 na condução
dos assuntos do Estado, na chefia do governo.
A primeira questão que se pode levantar é o porquê? Porque motivo era ele o nº2 do nº1? Seria porque o nº3 era mau de mais para ser verdade? E, decerto, nem valerá a pena citar o nº4 ou o nº5, deviam ser péssimos.
Os bons estavam prudentemente recolhidos.O mais excelentíssimo recolheu-se demais, tanto que se queimou. Já pode guardar o tabu na gaveta.
Tenho, confesso pouco geito para prever o futuro, mesmo próximo. Do jogo de amanhã prevejo que ou o Porto ou o Benfica ganhe, porque se não for assim, empatam. Mais longe que isso habitualmente não me afoito, mas admito que estive estes últimos dias à espera que o prof. Freitas aderisse ao Bolco de Esquerda. Ali ficaria a matar...

sábado, fevereiro 26, 2005

Aos Empresários Compete Investir

Não sei o que deu aos empresários deste país. Agora deu-lhes para alvitrar sobre matérias que não lhes dizem respeito. Vêm dizer-nos como formariam um governo, quem escolheriam para esta e para aquela pasta e até se permitem interferir no cumprimento do programa eleitoral do partido que ganhou as eleições por uma maioria estrondosa.

Francamente, senhores!

Então a CIP acha que o PS não deve mexer uma linha do Código de Trabalho e os srs. Belmiro de Azevedo e Artur Santos Silva e mais não sei quem entendem que os governos são muito grandes e deviam isto e mais aquilo.

Então, e os senhores fazem o quê? Por acaso, foram a eleições? Por acaso contentar-se-iam com os míseros vencimentos, relativamente às fortunas que cada um de vós ganha, que os ministros recebem.

(Um dia destes alguém se lembrou de publicar num jornal qualquer a notícia de que o engº Zenal Bava poderia vir a ser ministro da Educação. Era para rir, seguramente. De quanto seria necessário aumentar o orçamento do Ministério da Educação? E o engº iria receber comissões de quem?)

Fechado o parentesis: os srs. empresários dizem estes disparates porque os jornalistas os interrogam sobre estas matérias. Ninguém lhes pergunta: e agora, sr. engº. vai investir? E agora sr.dr., vai criar postos de trabalho.

E já agora, uma pergunta especialmente dirigida a um que não esteve no tal programa da SIC Notícias, o dr. Ricardo Salgado: vai deixar de parasitar a PT?

Srs. empresários, é hora de arregaçar as mangas e investir. Despir foi antes, já passou. Assumam as vossas responsabilidades e deixem de armar em políticos.

Quanto aos jornalistas económicos: aprendam, a fazer perguntas. Os empresários não se interrogam sobre como formar governos.

E já agora, um último parentesis: aquela notícia do engº Bava tinha como objectivo assegurar que também o PS aceitará a sua candidatura à presidência da PT - é o que ele quer.

SINAIS DOS TEMPOS /3

É uma questão de tempo e o tempo não abunda. Isto justamente para sugerir ao novo governo que terá decerto empenho em dar seguimento ao enunciado eleitoral -- as reformas, porque reformar é preciso.E como já vinha alvitrando a maneira mais coerente de avançar com o programa é começar por reformar por dentro. Num país minúsculo como o nosso, o peso tumultuoso do Estado representa um travão restritivo a qualquer programa governativo. Para se avançar há que diminuir a herança herdada do Estado Novo, nessa matéria. O Estado-patrão ou o Estado-senhor-doutor ou o Estado-senhor-professor ou o Estado-vaca-leiteira terá de ser brutalmente interrompido.
Um governo ambicioso não pode aceitar ser mero tesoureiro do Patrão, tem que ambicionar mais.Um ministro não pode mais continuar a ser um mero chefe de repartição. Ao ministro da Saúde caberá traçar a política sectorial e o governo determinar a sua execução, logo que aprovada pela A.R., e quer seja a Ordem dos Médicos, se quiser, ou o senhor doutor Espirito Santo (que já tem alguma prática) ou, porque não, a Olivedesportos (que é muito, muito prática)tratem de encher os hospitais de clínicos e de doentes, com remédios de marca ou genéricos. Competirá ao estado controlar e ser exigente. O mesmo, mas mais depressa, para a Educação e com mais calma para a Agricultura. Até o pessoal burocrático nos ministérios não deveria ser constituido por funcionários públicos. O serviço assegurado por empresas privadas, de acordo com as necesidades
Claro que no Palácio das Necesidades as coisas são diferentes. Na maioria dos outros não. Um ministro não deve perder tempo a negociar com sindicatos ou o serviço paralizado por uma greve.
Não vale a pena ignorar um dado adquirido:a gestão privada é mais rentável e mais eficaz. Enquanto um governo for um mero director de pessoal, perde tempo e meios para governar.Poderão eventualmente sobreviver alguns, mas o funcionalismo público, tal como o conhecemos hoje não pode continuar Hidra de sete cabeças.
Por-se-á a questão delicada e que fazer com os funcionários? Não é do jornalista a receita dos milagres, mas haverá decerto soluções. Ocorre-me quando foi do regresso maciço das ex-colónias, que envolveu não só funcionários públicos, improvisou-se um Quadro Geral de Adidos.
Poderá sempre determinar-se directivas que obriguem as empresas que prestarem serviço ao Estado a recrutar percentagens expressivas de ex-funcionários e mesmo entre estes, com diferentes graus para os diferentes escalões etários.
Claro que a solução mais fácil para qualquer governo é deixar tudo na mesma, mas com outros nomes.
Pois é, mas acaba na mesma e com o mesmo resultado.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

SINAIS DOS TEMPOS/2

Mesmo Alta, o que uma pessoa é não é o que foi. O que foi Filho talvez não aceitasse ser Alto, mas se aceitasse por certo haveria de intervir de forma a não pactuar com a vil tristeza a que chegou a CS. Compram-se escandalos para abrir tj ou primeiras páginas de semanários (a moda já começa a chegar aos diários). Compram-se e jogam-se para o ar mesmo que manifestamente sejam falsos ou falseados e quando é preciso desmentir fazem-no de modo a que o desmentido soe a falso.

No meio disto o cronista avençado/comprometido passa ao lado. Os círculos de comentadores políticos, esses, sim, esses têm outro peso e, por conseguinte, outra autoridade, mesmo moral, porque não disfarçam as conotações. Pacheco Pereira foi tão duro contra Santana Lopes quanto
Marcelo, afilhado de outra Marcelo, mas foi este quem mais empurrou o líder da irmandade
para o caos. Mas a que preço? O partido de todos eles já está a pagar e mesmo a prestações vai ser duro.

Enquanto isso o estado de graça do PS começa a ser sobressaltado. Os prazos regimentais são um tormento para a estabilidade que se pretende. Precisa-se, precisa o PS, de um governo sem convulsões, tranquilo, tão natural como a sede, que possa avançar para as santas reformas. E avançar para elas o mais imediatamente possível, porque reformar contunde com hábitos e vícios, que não cedem facilmente. Que esbracejam, refilam e inundam cabeçalhos, abrem tj e atiçam os cronistas pró-interesses constituidos. O estado de graça some-se. O remédio consiste em começar cedo e acabar dezoito meses e meio antes das próximas legislativas, de forma a ter tempo para fazer render as reformas, as mudanças, e valorizar os índices económicos. Para começar cedo era necessário dispôr de projectos, planificados que mobilizem. Sem isso será difícil avançar, porque tempo é como o dinheiro; não há...

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

SINAIS DOS TEMPOS

Um colega de carteira derrama incontrolável ira sobre colunistas amplamente conhecidos por posições (atenção que não estou a referir-me a colos) pouco ou nada isentas. Numa onda de euforia, a imparcialidade é subjectiva e só se dá pela sua falta quando ataca, ofende, a onda.
Mas é verdade que a parcialidade do contra não é ingénua, é claramente mercantilista.

Sendo um dado adquirido que a comunicação social é uma loja, que frequentemente vende produtos em saldo ou que pratica descontos avultados na venda por atacado, é natural que se aproveite o intervalo em que um governo ainda não está e outro ainda não saiu para esvaziar as prateleiras dos monos afim de dar espaço aos luzidios lugares comuns da nova temporada.
Isso porque vai ter de haver lugar para os outros, com outra noção de imparcialidade convenientemente parcial. Em todo o caso, eles dão a cara e mesmo que não seja por amor à camisola comprometem-se.

Não tenho em mente justificar, seja quem for e de que lado estiver. São muito poucos os cronistas que vou lendo ( e apreciando) e cada vez mais os que deixei de ler. Vou envelhecendo
sem ver telenovelas, séries boas (que as vai havendo, quero crer) ou más. Nem filmes. Quase sempre, porque algumas vezes o apelo é irresistível. E mesmo assim, não raro acabo por sair do filme, à segunda ou terceira interrupção, por imperativos comerciais da Estação. Não tolero a
publicidade em doses maciças, e na 2, a dita institucional, chega a ser tão chata como a comercial

Mas busco sempre a Informação (é um vício natural ou, se preferirem, deformação profissional) , dando-me ao incómodo de saltitar de canal em canal. Mas até os tele-jornais me começam a enfadar. A falta de ética é gritante. Nem acredito que os modelos de informação
sejam todos impostos com finalidade inconfessável. Na maior parte dos casos é manifesto o cunho pessoal, tanta o destempero, a ignorância e a irresponsabilidade. Um pequeno exemplo: o apresentador do tj anuncia: A "X" (pode-se aplicar a qualquer uma das três) soube que fulano de tal e tal de fulano foram convidados para integrar o próximo governo e entram imagens.Um
repórter (ou uma ou uma chuva deles) aponta o microfone ao fulano visado e grita:o senhor foi convidado para integrar o governo?
A resposta foi simples: não fui nem tinha quer. Perguntem ao eng. Sócrates. E o bando ulula: "mas se for aceita"?!!!
Colocaram a mesma questão a mais suspeitos, obtendo o mesmo tipo de resposta, mas foi como se nada se tivesse passado. Os noticiários seguintes (no Cabo e nas generalistas) continuaram a divulgar, ao longo da noite e no dia seguinte, como certa a informação desmentida e nunca confirmada. A Sic sabe, a Sic soube, a TVI, a TVI aquilo e pronto, quem quiser que engula. Desculpem por não ter citado a RTP, mas podia ter citado.

É verdade que existe uma autoridade (alta) para a Comunicação Social. Se fosse clandestina seria por certo mais activa, como não é, funciona como um instrumento com tecnologia sideral, alimentado a pilhas e é activado para não fazer ondas. (continua, depois do jantar)...

Ansiedades

A informação em Portugal funciona numa lógica absolutamente preversa, determinada por um sem número de factores, cuja identificação rigorosa é indispensável a quem quiser fazer dela um instrumento de comunicação social.
Desde logo a sua natureza de negócio. Tal como a venda de sapatos ou a concessão de créditos. É um negócio. Os seus factores de produção são considerados da mesma maneira que numa empresa de telecomunicações ou num restaurante.
Nessa perspectiva, os seus trabalhadores valem pelo que produzem e pelo que ganham. O melhor trabalhador para um empresário de comunicação social é aquele que produz mais e ganha menos.
O negócio, por sua vez, é alimentado pelos leitores e pela publicidade - em Portugal, mais por esta do que por aqueles, já que os leitores são cada vez menos. Cada vez mais os únicos leitores de jornais são os quadros de empresas que têm direito ao jornal diário, pago pelo orçamento.
Há, todavia, em matéria de leitura, dois concorrentes sérios: a blogoesfera e os jornais distribuídos gratuitamente nos transportes públicos. Para quem quiser saber dos instrumentos de comunicação social, deve dedicar alguma atenção sobretudo a este último fenómeno.
A publicidade é a chamada pescada com o rabo na boca, já que os grupos proprietários de jornais têm interesses nas agências de publicidade e os dinheiros passam de um lado para o outro, engordando ou emagrecendo orçamentos, mas sem resultados importantes.
A informação portuguesa vive da pressão política que faz sobre os detentores dos poderes de Estado. Os grupos económicos, que dominam a informação, vivem, sobretudo, dos favores que obtêm do Estado. Por isso fazem pressão e dão guarida a todo o tipo de lixo, desde que possa representar uma pistola apontada ao peito de alguém.
É neste contexto que se interpreta a ansiedade - quase desespero - da comunicação social a propósito na nova situação política de Portugal. Chega a ser ridículo ficar atento ao que escreve ou diz.
Todavia, é necessário ter alguma compreensão acerca de tal ansiedade. Os jornalistas estiveram habituados, durante muitos anos, aos telefonemas privilegiados, às relações próximas com os gabinetes do poder. Alguns deles foram formados nesse esquema - não imaginam outro. Nunca produziram uma notícia, fizeram sempre redações a partir de ditados do sr. dr (nos últimos anos, os ditados já têm erros de ortografia).
Percebe-se, portanto, que os jornalistas desesperem e que os profissionais da intriga aproveitem o desespero para atirar para as redacções as chamadas análises inteligentes.
Também não custa perceber que o País - todo ele e não apenas os jornais - esteja perplexo com os resultados das eleições do último fim de semana. Eu atrever-me-ia a dizer que a própria Europa está, mais uma vez, de boca aberta. Como é possível uma viragem tão acentuada na contagem dos votos?
Contagem de votos - digo bem.
Essa contagem deve ser lida sobretudo pelo PS. É que ela não representa uma onda entusiastica favorável aos socialistas e ao seu secretário-geral. É, sobretudo, um grito de rejeição. Tão forte que até deu para alguns dos votos socialistas irem alimentar o crescimento do PCP e do BE.
Esta maioria absoluta não pertence ao PS e ao engº Sócrates. Pertence a este povo e à sua esperança na mudança de rumo.
Ao contrário do que dizem os intriguistas profissionais, tais como António Ribeiro Ferreira, Vasco Graça Moura, Luís Delgado e outros, o povo não rejeita a ideia do sacrifício. Está disponível para ele, mas quer ver os resultados. Por isso se mobilizou nesta votação maciça na esquerda - não porque é esquerda, mas porque é a única alternativa.
É aqui que deve entrar a inteligência de quem vai formar governo, de quem vai delinear políticas, de quem vai assumir este cheque em branco, onde é preciso, urgentemente, colocar os números e a assinatura.
Na rua, conversando com as pessoas, percebe-se que é tudo muito simples: toda a gente quer uma vida mais simples, mais cómoda e mais recompensadora e quer entender o que os políticos propõem.
Espero que o engº José Sócrates não confunda amizades com política e tenha capacidade para identificar algumas figuras socialistas que o povo não quer voltar a ver com responsabilidades de governo. Alguns deles até podem ser amados pelo povo socialista, mas não são queridos dos outros.
A outros é o próprio PS que se esforça por esconder nos bastidores, mas o resto do país reconhece-lhes competência, seriedade, amor à causa pública.
Esta maioria absoluta ainda não pertence ao próximo primeiro-ministro de Portugal e ao PS, mas eles têm todas as possibilidades de a ganhar, de a justificar e , quiçá, ampliá-la. Há muitos casos na história de granders líderes que o foram, sendo-o. Não chegaram à liderança através de um caminho longo de conquistas na construção de carismas irresistíveis. Há muitos exemplos na história em que o poder construiu o carisma e a capacidade de liderança incontestável e incontestada. Em Portugal já há algum tempo que tal não acontece.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Outra Vez o DN

O Diário de Notícias continua uma lástima. Começa a parecer-se com o governo de Santana Lopes. Hoje, Luís Delgado, no seu estilo trapalhão, brinda-nos com um choro convulsivo a propósito da saída , "de cabeça erguida", de Pedro Santana Lopes e promete (ou ameaça?) com o seu (dele, Pedro) regresso. Só lido, contado ninguém acredita.

Noutra página, noutro estilo, mais elegante, mas trauliteiro, Vasco da Graça Moura, na mesma linha do António Ribeiro Ferreira, desanca os eleitores que deram ao PS a maioria absoluta e anuncia a calamidade.

Pode concluir-se que estes textos de opinião anunciam a nova linha editorial do DN? Já ontem, ao que parece ingenuamente, sugeria que a direcção do jornal se sentiria desconfortável com este tipo de escritos. Hoje, parece-me poder concluir o contrário: Miguel Coutinho e Raul Vaz estão mais felizes que nunca, agora que viraram vedetas de televisão não devem ter tempo para essa coisa menor de dirigir um jornal. Os outros, António Perez Metelo, João Morgado e Pedro Rolo Duarte, que são sub-directores, também devem achar piada a este insulto permanente à inteligência dos eleitores.

Podem rir-se, pensando: "mas tu compras o jornal". Não, não compro. Leio na Net e, a partir de hoje, vou deixar de o fazer. O DN entrou na minha lista de pasquins. Contentes?

VOTEM EM MIM

O mundo já esqueceu a "Laranja Mecânica", um livro ( e filme) com várias mensagens, o qual e as quais já andam esquecidos mas ao tempo fizeram tanto banzé na Europa como Santana Lopes em Portugal nos escassos meses em que governou o país.
Coisa de sua natureza, o barulho. Só que o cimo do banco onde subiu amplificou-os: barulho e barulhento. Mas ele não fez mais do que repetir-se. Foi sempre assim, homem a pedir que olhassem para si. E quando primeiro-ministro pediu o mesmo, por palavras de primeiro-ministro: votem em mim!
Mais ou menos a mesma coisa que os outros apenas de forma veemente. Agora: se o homem é veemente de que forma havia de pedir. Depois: por estas e outras é que temos o que temos.
O narrador da "Laranja" chamou aos políticos, a todos e não apenas a Santana, que nem sabia que existia, gabarolas.
Deveria ter acrescentado porém o tipo de gabarolice. É que são acriançados. Dedo apontado ao outro a dizer que tu és feio e o bonito sou eu, com a vida do povo na ponta do ioó.
O Actor Portas
Mas Santana Lopes tem o encanto de ser natural. Nele até a pouca competência é natural. A vida bem gozada tem coisas mais importantes que ser competente, em consequência do que não há gravidade em pôr os violinos do pianista Chopin a tocar, como ele disse que tocavam. E tocaram mesmo nas duas sinfonias que ele, Chopin, fez. Mas isso ninguém sabia, nem tem importância. Ignorância natural de todos nós.
O que, de resto, falta a Paulo Portas. O mais postiço dos políticos portugueses, salvo caso de fingimento bem escondido. Mas Portas anda de defeitos à vista desarmada. Ainda nos últimos dias desempenhou três papéis distintos com cara de quem representa a mesma para situações distintas. A que pôe para homem de Estado, a que pôs para se mostrar compungido com a morte da irmão Lúcia e a que voltou a pôr para dramatizar o seu abandono da presidência do CDS.
O mesmo ricto, carão fechado, distante, altivo, mas simultaneamente farfalhudo de intenções, pretendendo representar um Catão, mais Catão que Catão, um cristianíssimo mais cristão que Cristo e o espanto de um político desinteressado, um soberbo mandante que esbanja poder, que o deita fora como coisa pequena. Um avo ou menos.
Sucede que a naturalidade humana tem caras para isso tudo. A verdade no entanto é que não tem muitas para quem pretende sempre colher dividendos políticos. A ambição larga fica apertada num só fingir.
Mas há casos em que tem uma para tudo. Uma cara e uma voz para tudo. Sem caixa de sentimentos, como o caso de Sócrates. Um de que não se desconfia, mas em que não se confia.
Rufando apressado
Voltando a Portas, ele é, de facto, um espectáculo. Vários espectáculos. Não só em dia de sermão e missa cantada ou em sessão de actor que representa mal. De grande teatralidade é ele na tropa, ele frente a um desfile, ele a passar revista à guarda de honra. Como marcha emproado, peito de pombo que arrulha, esquerdo/direito, a satisfação de se sentir o oficial do exército que nunca foi! Faz lembrar Camillo Pessanha numa parte do poema cujo primeiro verso é "rufando apressado". E diz assim, numa altura:
Com força soldado!
A passo dobrado!
Bem bamboleado!
O que, já que o soldado é ministro, parafraseando, dá:
Com força ministro!
A passo sinistro!
E aqui a porca torce o rabo porque, nem com a ajuda de dois dicionários de rima, se encontrou rima de bamboleio que jogue com ministro. Mas lá que se bamboleia é vê-lo, esquerdo/direito, rufando ele mesmo até com o bombo calado.
Não haverá um amigo de Portas a dizer-lhe que a vaidade assim se chama cagança? E que tanto a moda como a inteligência a recusam!
Alcunhas
Miguel de Sousa Tavares inventou um bom cognome para Louçã. Chamou-lhe "bispo". Pense-se agora no irmão Francisco de mitra à cabeça. Fica parecido com ele mesmo. Aconteceu no entanto que um leitor, parece que dos futebóis, chamou a Sousa Tavares o "enjoado". Trejeito realmente bem caçado.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

JÁ CHOVE

Logo que se anunciou a mudança de governo, a chuva voltou. Fosse Sócrates tão beato como Guterres e, por certo, estaríamos, agora a venerar um milagre. Esta chuva representa a esperança, remotiva os agricultores e credibiliza os senhores que se seguem. De repente até os benfiquistas acreditam, reaprenderam a esperança. Ainda ontem, à noite, quando o Guimarães marcou logo no primeiro minuto da segunda-parte, um lampião dizia atemorizado: "Queres ver que o gajo, afinal, vai convidar Pinto da Costa para ministro Interior..."
É prometedor justamente que ainda não tenham circulado rumores sobre o elenco governamental. Sampaio deu uma boa ajuda para o clima de tranquilidade, acelerando o processo de consultas. Se Sócrates puder despachar com prontidão, de modo a que os artistas da comunicação social não tenham embalado para a caça ao alvo a abater, apontando como mais prováveis os improváveis ou como tendo sido sondados uma data de insondáveis, pode evitar
atritos ou desavenças internas e atapetar o seu legítimo período de graça.

O bom senso aconselha a que a preocupação primeira seja conhecer o programa governativo, a estratégia para a recuperação, os horizontes para a Educação. O que a malta que compra jornais ou os mira na Net quer é saber quem vão ser os ministros, porque esta curiosidade é-lhes despertada, justamente pela comunicação social.

Como lisboeta, bem gostava de ver nos assuntos sociais alguém com vontade de meter nos eixos
os senhores responsáveis pelos diferentes meios de transporte urbanos. Tanto quanto me lembro, foi Leonor Coutinho que concebeu, ainda num dos primeiros governos de Mário
Soares, o passe social, que ainda hoje vigora. Acho que nunca se deu o devido destaque a uma medida realmente social encontrada à época, conciliando os interesses, especialmente de estudantes e trabalhadores, com os de quatro transportadores independentes uns dos outros : Carris, Metro ,CP e Cacilheiros.
Depois vieram os abusos, povo tem que sofrer. É dos livros. Os passes aumentaram (de preço, bem entendido) amiude. Pior: os cartões ( cada vez mais caros) são temporários. De cada vez
é preciso um imenso rol perguntas sobre idade, morada, estado civil, que se destinam a banco de dados, transaccionados para diferentes publicidades, sem autorização prévia. Só para não imaginarem que não sei do que falo (escrevo) também tenho passe parisiense. Não é cartão é uma carteirinha, gratuita, onde se introduz o bilhete, semanal ou mensal, conforme as posses ou necessidades. Serve, claro, para Metro e Autocarros. Em Paris também há barcos, mas não são transporte urbano para operariado. A única despesa com o passe é a fotografia. O único incómodo é inscrever o nome.
Deve haver por certo muitas lisboas pelo país fora, com alguns vícios e os mesmos defeitos. Não recomendo um milagre, mas o ponto final num abuso contra direitos básicos dos cidadãos. Não constitui um dilema, mas isto de mudanças profundas é como entender por é que se beija a mão às senhoras: ora, por que é preciso começar por algum lado.

Mais Um Trauliteiro no DN

O Título despertou-me a curiosidade. O sujeito, o autor, deve ter andado na escola com o futuro primeiro-ministro, José Sócrates.
"A Culpa não é do Sócrates" - mal-educado e deselegante - a anunciar o insulto. E, no corpo do texto, desenvolve uma raiva surda contra os mais de dois milhões e meio de votantes eleitores da nova Assembleia da República.
O homem (?) distribui traulitada a esmo, ofende os portugueses, quase promete vingança ao prever a desgraça total para Portugal e para os portugueses; faz lembrar a ameaça das sete pragas que assolaram o Egipto.
Quem é este sujeito? é rival ou sucessor de Luís Delgado? Quem é este António Ribeiro Ferreira?
Como é que um boçal destes pode escrever num jornal que é uma das referências da imprensa portuguesa há mais de um século?
Não posso acreditar que a direcção do jornal, com um director, um director-adjunto e três sub-directores se sinta confortável com este tipo de prosa, mas esta minha crença pode ser ingénua e o DN tenha inaugurado com este monte de lixo a sua nova orientação editorial.

Bush e o Mapa

Bush, o texano, veio à Europa. Sob vigilância apertada de Condoleezza Rice, que o castiga com os olhos, enquanto acena com a cabeça, George veio fazer as pazes com os europeus, tentar partilhar os estragos do Iraque e mostrar o mapa que os seus ideólogos lhe metem na cabeça todos os dias.

O Presidente dos Estados Unidos veio à Europa ameaçar a Síria e o Irão. Bem que o podia ter feito lá na sua casa branca. Assim como assim, já conhecemos o mapa e imaginamos o que se vai passar com ele. Para quê ouvi-lo na "velha " Europa, a mesma que ajudou a desenhar e a redesenhar todas aquelas fronteiras que o cowboy agora quer saltar?

Afinal, Quem Ganhou as Eleições?

Já ontem salientei o atrevimento de Rocha de Matos, que, no próprio dia das eleições apareceu citado num jornal a recomendar não sei quantas medidas ao novo governo socialista.

Hoje, a CIP - A Confederação da Indústria Portuguesa -, em nota distribuida pela Agência Lusa e depois explicada, bem explicadinha, nas televisões, recomendou (ou exigiu?) ao novo governo que não mexa na legislação laboral.

Lá mais para a noite, na SIC Notícias, no jornal apresentado pelo Mário Crespo, cujos editoriais do jornal " A Capital" de há uns anos eram o "Ridiculus" de então, lá estava Horácio Roque, um banqueiro, a fazer novas recomendações, com ar grave, diria mesmo ameaçador. Que isto e mais aquilo, confiança e não sei que mais. E o Mário, todo atento e venerando, sem interromper, como costuma fazer a quem diz coisas com que ele não concorda.

Mas, afinal, o que é que isto quer dizer?

Por não ter visto o Luís Delgado julguei que as coisas iam ficar normais, com gente normal, e assim, gente com bom senso, que consiga perceber os resultados das eleições de ontem.

Não senhor, as televisões e os jornais entraram em delírio.

O sr. Rocha de Matos - que hoje também apareceu numa das televisões - foi a votos? e o sr Horácio Roque terá sido sufragado onde? Entre os comendadores?

E a CIP, deixou de ser confederação e assumiu-se definitavemente como corporação e ganhou alguma eleição entre os grémios?

Já não bastava o António Barreto, com toda a sua má fé, a dizer que José Sócrates fez um discurso de vitória só para socialistas...

Apetece-me citar ma amiga: "estes gajos estão mal habituados".

SOBREVIVER

Se não os podes vencer...
Junta-te a eles! Deve ter sido uma correria, ontem, a partir das 19 horas, quando o que tem que ser tem muita força já não oferecia dúvidas...

Mesmo assim, ainda me surpreendo com o gorducho Freitas do Amaral. Não era preciso ser tão pronto, que diabo! Não se põe a questão de mudar de cor, mas de fazê-lo com algum decoro. Para se mudar de campo não é necessário lamber botas.
Socrates não se parece com Mário Soares e, ao contrário deste, nem tem necessidade de dividir a direita, mais que dividida - estilhaçada.
Vai ter um provir sobressaltado, uma espera quase mística por El-Rei D.Sebastião, um que também abandonou cedo, em busca de quimeras.

Não se vislumbra que monarca possa suceder ao infante desvalido, se bem que o tabu algarvio
de tanto querer perder o outro, perdeu-se a ele próprio, ficou sem espaço e não se lhe vê geito de pegar na criança. Ver-se-á...

E, agora? Em que presente nos vamos sentar para arrancar para o futuro. Não vai ser fácil.
Quando Guterres saiu, deixou um triste quadro. Todo o país sofreu com a situação até se tornar intolerável.
Agora escutamos palavras de esperança e promessas de vencer a crise, mas de momento ainda não se conhece sequer a composição do próximo executivo. E muito, muito do modo como se vai afrontar os problemas e na confiança na sua resolução dependerá da equipa
que for escolhida por Socrates.
Assim ele possa estar em condições de apresentar um governo
novo e politicamente renovado, o que implicaria a total pacificação interna e o exemplo de confiança que daí adviria para o país!

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Barreto & Marcelo

Primeiro: a minha manifestação de grande alegria. O PS ganhou: com maioria absoluta, as eleições antecipadas convocadas fora de tempo ( mas, mesmo assim, convocadas) pelo Presidente da República.
A Esquerda portuguesa, pela primeira vez, conseguiu exprimir em votos e em deputados a sua real força na sociedade portuguesa.
Nestas coisas de eleições, todos nós estamos colados às televisões e vamos ouvindo aqui e ali os comentadores, os jornalistas e assim. Todos nós percebemos quem está lá - na pantalha - a falar de si ou dos outros. Na maior parte dos casos, de si mesmos.
Judite de Sousa, sorriso amarelo, toda vivaz quando anuncia que o prof. Marcelo vai retomar o comentário político, na RTP.
António Barreto, com idade para ter juizo e, ao que parece, com algum receio de que apareça alguém a falar de contratos conseguidos não se sabe bem como e do seu passado como renovador para dar nome à célebre "AD", a dar a deixa ao prof. Marcelo.
"Fiquei muito desiludido com o discurso de J. Sócrates ... porque falou para os socialistas...etc, etc...
Oh! dr. , não percebeu que ele estava a falar para uma multidão de socialistas que foram espezinhados, despedidos, celindrados, humilhados pelo PSD e pelo PP durante estes três anos e meio?
Não percebeu?
Faz então o quê na vida, além de ganhar concursos sem outros concorrentes para apresentar estudos e programas na Televisão, que qualquer sociólogo ou qualquer profissional da TV, faria a preços dez vezes menores, com mais eficiência e mais dignidade?
Não percebeu que Sócrates quiz dizer que o seu governo(PS) não ia ser norteado pelo desejo de vingança, do ajuste de contas e que seria uma governação para todos? Não percebeu que era importante, para ele, fazer o discurso contrário do habitual, falando, sem falar, dos "jobs for the boys"?
O sr. é apenas convencido ou é, como parece, arrogante?
Oh! dr. António Barreto, aprenda, de uma vez por todas, que a sua arrogância nem sequer tem fundamento. O país nunca beneficiou nada consigo. Tal como nesta noite de comentários de televisão, em que caiu na armadilha montada pelos novos-velhos directores da RTP.
Hoje, como sempre, o sr. esteve à procura de uma brecha por onde pressionar o poder político, do qual vive, despudoradamente.
E, por isso, concedeu a deixa àquela dissertação "inteligente" de Marcelo Rebelo de Sousa, que já começou a anunciar o que vão ser os seus comentários dominicais na RTP, ainda dominada pela estrutura montada pelo "boxeur" Morais Sarmento.
Será que o dr. Barreto tem capacidade e curriculum para obter todos os trabalhos em que ganha para além do necessário ao seu sustento, se submetido a concurso, devidamente publicitado, com outros profissionais da sua área e de outras que invade como um predador?
A Televisão é, para ele, um instrumento de pressão?
Enfim, vai ser precisa muita coragem. Ainda o PS não anunciou o seu governo e já os lobies começam a manifestar-se em toda a sua plenitude.
Deus e a irmã Lúcia nos guardem.

E Não Podia Calar-se ?

Raúl Solnado legou-nos, com os seus textos humorísticos e o uso inteligente da gaguez, algumas brincadeiras linguísticas que o tempo ainda não apagou de todo. Uma delas é o célebre: "podioocaláloo?"
É o que me apetece perguntar ao sr. Rocha de Matos, cujas recomendações para os primeiros cem dias de governo de um poder a sair das eleições de hoje, aparecem num jornal com data de 20 de Fevereiro.
Quem é o sr. Rocha de Matos para vir recomendar o que quer que seja? Talvez uma biografia não autorizada explique a presteza de tais recomendações.
Foi o sr. Rocha de Matos a votos?
Ora... e se estivesse quieto e calado, a aguardar o anúncio das medidas do próximo governo, escolhido pelo voto livre e soberano do povo português. E se se preparasse para os sacrifícios que vão ser exigidos a todos, a começar pelo pagamento das obrigações fiscais?

Uma Outra Esperança

Hoje é dia de esperança. Para mim e para muitos milhares de portugueses. Esperança numa mudança significativa da vida colectiva da nossa Terra.
Talvez por isso me apeteça, hoje precisamente, falar de uma outra esperança - a de que em Coimbra surja alguém que joque longe o ar cinzentão dos prof(s). dr(s). que todos os coimbrões têm e se ponha a pensar.
A pensar em quê? Muito simplesmente em futebol e na Associação Académica de Coimbra. Alguém capaz de descobrir que aquelas camisolas negras podem motivar a existência do maior clube português e , em consequência, deixar de significar angústia, domingo a domingo, todos os anos.
Houve, para mim, alguma esperança nas últimas eleições, mas, rapidamente percebi que o cinzento continu a imperar na direcção da Académica, o meu clube de sempre.
Senhores, basta que se lembrem de que há dezenas de milhares ( só?) de pessoas que passaram pela Universidade de Coimbra e que não se importarão - seguramente - de comparticipar com uma cota mensal para as despesas de um clube que recupere a tradição de fazer do futebol um meio e não um fim.
Vamos a isso? É só fazer uma base de dados, devidamente protegida e autorizada pela Comissão de Protecção de Dados Informáticos. Claro que é preciso investir, mas trata-se de um investimento estruturante, de futuro.
Que diabo! Vivemos a era da globalização. Pode haver um sócio da Académica no Japão a pagar, todos os meses, a sua contribuição. Deixem o cinzentismo, assumam o preto como a cor da certeza.

sábado, fevereiro 19, 2005

Um Novo Mapa Político

A partir de amanhã, o mapa político português vai ser completamente diferente daquele a que nos habituámos nos últimos anos, já que a esquerda, na sua globalidade, vai impôr-se de forma absoluta, deixando a direita entregue a uma representação escassa, do ponto de vista quantitativo e pobre do ponto de vista qualitativo.

As eleições de amanhã poderão mesmo apontar para o próximo fim de uma das contradições do nosso espectro político: a existência de dois partidos que se reclamam da social-democracia.

É que a entrega do PPD/PSD a Santana Lopes, por parte de Durão Barroso com o assentimento de todos os seus dirigentes e uma grande parte dos militantes, foi como que um assassinato (também tu, Brutus?").

O PPD/PSD, perante a calamidade que foi Santana Lopes, quer como governante, quer como líder partidário, vai aparecer a agonizar entre os festejos de vitória da esquerda e as coroas de flores da direita, representada pelo CDS.

Todavia, a este CDS/PP (porque é que a direita usa este truque de duas siglas para os seus partidos?) também não esperam boas notícias, ao contrário daquilo que o seu presidente foi anunciando ao longo da campanha.

Uma campanha especial, a fugir do seu eleitorado de 2002: os feirantes, os "espoliados do Ultramar", os ex- combatentes da guerra colonial, precisamente o eleitorado que não lhe vai perdoar o não cumprimento das promessas então feitas.

Repare-se que Paulo Portas só apareceu de supresa em alguns locais públicos. Durante toda a campanha montou acampamentos defendidos das multidões que fazem as vitórias dos políticos.

Portanto, as coroas de flores do CDS/PP têm mais a ver com o futuro do que com o dia de amanhã. Com o PPD/PSD a desmembrar-se, previsivelmente, numa" guerra civil fratricida", ao PP resta esperar a absorção dos "PP" do PSD para hastear a bandeira da direita e entregar ao centro, em que o PS se vai transformar, o que ficar do PSD.

Neste contexto, o reforço da esquerda do Parlamento português pode anunciar a reformulação do chamado espectro político nacional, já para as próximas eleições autárquicas. Diria mesmo que, depois das eleições de amanhã, todos os cenários para as presidenciais também terão de ser revistos.

Vá Lá Alguém Entendê-lo

A pressão sobre o eventual negócio da Lusomundo pode ser uma das explicações. Mas, mesmo assim, as crónicas do ex-jornalista e actual vice-presidente da Lusomundo, Mário Bettencourt Rezendes, - publicadas no DN, de que foi director - são um rosário de perplexidades.
A última, em vésperas de eleições, é espantosa, já que, perante a chuva de sondagens a dar a maioria absoluta ao PS, ele segue o raciocínio desesperado da direita dos interesses - não a direita ideológica- "já que não os podemos bater, pedimos à esquerda, mais à esquerda, que dê uma ajuda".
Neste cronista o pedido de ajuda entende-se por uma defesa dos seus próprios intereesses, já que, nunca tendo feito nenhum esforço para se demarcar da estratégia João Líbano Monteiro/Luís Delgado, está ligado a ela, para o bem e para o mal.
Isto, a despeito de algumas linhas abertas para o Largo do Rato e utilizadas, nos últimos dias, para explicar "as circunstâncias".

História de Um Gestor de Sucesso

... voltando ao porta-voz dos gestores de sucesso, que nos últimos dias andam de dedo apontado ao poder político, assim com um pistolão 38, à John Wayne.
O seu porta-voz é considerado entre os jornalistas-economistas um exemplo de sucesso. Apenas isso e ponto. De sucesso
A memória fica obnibulada pelos elogios. Ele próprio se esquece que recebeu do Estado Português uma licença para instalar uma empresa de telecomunicações a custo zero. Quer dizer, não pagou um tostão pela licença, que, em qualquer outro país do Mundo teria ido a leilão e teria custado muito dinheiro - que reverteria a favor dos cofres do Estado.
Este Estado Português era então governado por Cavaco Silva, que justificou a benesse em nome da necessidade de criar em Portugal um sector de telecomunicações competitivo.
A autorização concedida à Telecel obrigava à manutenção de uma maioria de três quartos de capital portugês por um período de cinco anos. BES e Amorins subscreveram a maioria desse capital.
E subscreveram mais alguma coisa, provavelmente com o conhecimento do ministro das telecomunicações de então, Ferreira do Amaral: um acordo com uma empresa estrangeira, que, no final dos cinco anos tomou o controlo da Telecel, gerida por Carrapatoso, que, desse modo, propiciou aos accionistas portugueses o ganho de mais valias escandalosas.
Isto quer dizer: a Telecel, entretanto, adquirida pela Vodafone, nasce de uma concessão gratuita, em que o Estado, mais uma vez, abre as portas do cofre aos privados e os deixa meter a mão.
Esta é, igualmente, a explicação do sucesso de António Carrapatoso e dos milhões que vai ganhando. E também uma pequena parte da explicação para os milhões que faltam ao Estado Português para ir resolvendo os problemas das pessoas que nâo têm acesso a estes negocios - ou serão negociatas?

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Que Desgraçados Nós Somos

Eu acredito que o dr. Medina Carreira tenha razão - parece mesmo que tem! Mas, ouvi-lo ou lê-lo é um verdadeiro exercício de masoquismo.
Que diabo! (ou será meu Deus!), estamos condenados a ser completamente esmagados pela realidade económica, a ser completamente desgraçados? Este povo, que somos nós, não terá capacidade para um golpe de asa?
Por falar nisso, e se a comunicação social mudasse as agulhas e se preocupasse em lembrar-nos o que já fizemos , para concluir que voltaremos a ser capazes?
Alguns dos cronistas de lugar cativo parecem-se muito com a ideia de político disseminada a esmo.
As suas preocupações têm mais a ver com a necessidade de se venderem a si próprios do que ajudar os leitores a perceber o que quer que seja. Recolho da minha leitura diária uma frase espantosa - que deve ter alcançado uma boa cotação no mercado das chamadas frases assassinas - "escolher (o próximo primeiro-ministro) é como escolher entre a pepsi-cola e a coca-cola".
Será plágio ou representa uma venda inédita: dois em um?

vogar no espaço/tempo

Sempre que tento avançar no tempo é o passado que encontro. É como se nada fosse novo e eu já conhecesse a história.Vou tentar começar pelo princípio, mas não garanto que os tempos dos verbos estejam atempados. Então lá vai...

Eu pecador me confesso.
Também, puritano incompetente, também eu subornei. Subornei funcionários públicos, com o intuito vil de lucrar com informações valiosas para o pasquim (e para mim mim, bem entendido), da capital (geográfica, porra) para o qual trabalhava.
Sejamos mais claros: eu subornava, mas era o pasquim que pagava.
Um deles, corcunda, trabalhava na morgue.
Nunca percebi bem se trabalhava ou se vivia na dita morgue, estava sempre lá. E sempre que aparecia um cadáver conveniente ele telefonava-me.

Um cadáver era sempre um ponto de partida para reportagens de sucesso.

Outros dois da minha folha de pagamentos eram da "Judite". Eram-me muito úteis, sobretudo para desviar as atenções. Nesse tempo tinha boas relações naquelas instalações.
O director mostrou sempre alguma simpatia pelo repórter que cobria o Tribunal de Polícia, no qual o director da PJ era juiz.
Essa relação amistosa manteve-se quando o repórter mudou de
categoria e de periódico e incluia outras amizades com dois do principais inspectores.
Deles nunca tive informação privilegiada, salvo um que outro esclarecimento.
Suponho que eles sabiam que eu tinha informação quente dentro e que provavelmente eles próprios tenham utilizado as fontes anónimas para me fazer chegar informação útil para os dois lados, mas, tal como eles, eu nunca esmiucei isso.
Mas, a propósito dos colos e das insinuações lembro-se do citado director me ter contado, e se me dão licença, vou usá-lo na primeira pessoa: Quando pela primeira vez fui a Londres (contava ele) a homosexualidade era considerada no Reino Unido imoral e era proíbida. Era como aqui(ele é que comparou).
Uns tempos mais tarde tive que lá voltar (ele). Então apercebi-me que já não se sentia a imoralidade, ainda que legalmente continuasse proíbida. Mas à terceira vez que lá fui apanhei um susto: já nem era proíbida! Jurei a mim mesmo (ele, chiça, foi ele que jurou) nunca mais lá voltar..

- E porquê? - perguntei eu (eu este sou eu).
- Tenho medo que já seja obrigatório...

Talvez vocês não acreditem mas contei esta memória num noticiário matinal na Rádio, em Lisboa.Tive que ser eu porque nenhum dos jornalistas- locutores esteve pelos ajustes.

Percebem porque eu digo que é o presente que me empurra para o passado? Por estar na matéria, recordo a primeira vez que fui confrontado com a questão.
Menino e moço e ingénuo e desinformado. Aprendia o b-a:bá do futebol e por via do foot que lí no Século, o jornal que o meu pai, que sabia de sapatos, comprava.
Um treinador de futebol do Sporting tinha sido encontrado morto no Parque Eduardo VII. Naquele tempo creio que não havia conexão. Naquele parque o menino que eu era só sabia que Portugal tinha ganho o primeiro mundial em Hoquei em Patins, com os primos Correia, os manos Serpa o Cipriano e um defesa que nem me lembra o nome mas jogava na Amadora.
O crime foi assunto muito comentado.Devia estar bem explicado nas entrelinhas mas eu não sabia ler isso. E um dia um cara do Século chocou-me: "tanto a vítima, como o criminoso eram dois miseráveis!". Lembro-me de ter perguntado ao meu pai se aqueles senhores eram miseráveis só por serem do Sporting...
Isto passou-se muitos anos antes do director aqui de cima ter ido a Londres, mas deve dar uma imagem de como a moralidade da época podia ser podre.

E valeu a pena eu ter durado todos estes anos só para perceber que hoje em dia ninguém é miserável por qualquer coisinha destas. Chateia é para eleições...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os Debates do Debate - Um Filme de Terror

Há um debate político e lá estão eles: os jornalistas da economia e outros, que não o sendo - sem serem nada, porque misturam tudo - lhes imitam os gestos, as palavras e os fatos novos. E até as gravatas garridas.
E o que dizem eles, os economistas-jornalistas, a quem é exigida, por uma directiva da União Europeia, uma declaração de património ?
Sempre o mesmo e sempre com o mesmo ar, de quem tem a solução no bolso. É preciso despedir, reduzir as despesas do Estado, criar alternativas à Segurança Social existente, aumentar a idade da reforma - não pelos bons motivos - mas pelos mesmos de sempre: reduzir despesas com as pessoas.
O que faz confusão a esta gente são as pessoas. As pessoas é que estão a mais. Ainda os vamos ouvir, um dia destes, a pedir a demissão do Povo.
Nunca os ouvi explicar porque é que as grandes empresas estão sempre a criar novas empresas: que se trata de um dos muitos expedientes usados para não pagar os impostos devidos, já que, durante três ou quatro anos ( e às vezes mais), absorvem lucros, transformados em despesa.
Jamais lhes ouvi uma palavra explicativa sobre as razões por que a Banca continua a usufruir de condições especiais no pagamento de impostos, que lhe foram atribuídas há mais de vinte anos com o objectivo de se reorganizar.
E é verdade que a Banca se regorganizou. Tão bem que aproveitou para incorporar todas as novas tecnologias e dispensar o maior número de trabalhadores. Os que ficaram viram os seus direitos reduzidos a quase zero.
Houve até alguns bancos que se permitiram declarar que não aceitariam mulheres como suas trabalhadoras. A gravidez incomodava-os muito...
Também nunca ouvi os tais economistas-jornalistas a explicar ao "povo ignorante" qual o papel da Banca no desenvolvimento e no crescimento da economia. O tal papel indispensável, tão louvado por eles, limita-se à especulação financeira em seu próprio proveito - com o dinheiro dos outros - , à concessão de crédito ao consumo e à construção civil.
O que faz mais a Banca? Transfere as operações rentáveis para os of-shore (o da Madeira é apenas folclore), parasita os médios e pequenos empresários e algumas grandes empresas na condição de accioinistas de referência, e pressiona o poder político para ter mais regalias, mais isenções de pagamento de impostos.
Algumas destas acções da Banca têm como arautos estes jornalistas-economistas (ou serão economistas-jornalistas) sempre de sorriso irónico e fato novo.
Porque não perguntar à Banca pelo apoio à criação de empresas viradas para as novas tecnologias, pela criação de créditos que permita a reconstrução da nossa Indústria, da nossa Agricultura, das nossas Pescas, numa palavra, do nosso aparelho produtivo?
Eles também são os arautos e ferverosos adeptos dos grupos de gestores que se reunem para, assim como entidades supra-estatais, apontarem o dedo.
A última vez que o fizeram foi para acusar os políticos de não ter coragem para dizer aos portugueses os sacrifícios que é necessário exigir-lhes. Mais?
O porta-voz foi o dr. Carrapatoso.
Não ouvi nenhum dos comentadores de debates perguntar se o dr. Carrapatoso ( ele e todos os outros) está disponível para sacrificar os milhões que recebe anualmente, só de prémio pelo desempenho da empresa que dirige, distribuindo uma parte pelos trabalhadores que o ajudaram a obter os resultados premiados.
É que, desse modo, as receitas do Estado seriam bem maiores, já que os impostos a pagar não se concentrariam num único contribuinte.
Não percebo as palmas que estes comentadores batem a tudo quanto é empresário, sem lhes perguntar onde estão os programas de requalificação de mão de obra, de criação de novos empregos.
Percebo, mas gostava de não perceber, o entusiasmo com que acolhem as medidas de reestruturação das grandes empresas, que significam - sempre - dispensa de trabalhadores e o consequente "outsorsing" contratato a uns amigos, donos de empresas com trabalhadores precários e pagos miseravelmente.
Acho mesmo que estes doutores vivem noutro planeta, que não passam pelas mesmas ruas que eu e não veêm as multidões de gente com ar desesperado a andar a esmo, sem ocupação e a maldizer a hora em que aceitaram a conversa do director de recursos humanos ( ou de um seu representante) a convencê-los a assinar o "maldito papel".
Eles ainda não perceberam que a desregulamentação do trabalho é a causadora da crise a nível internacional. Que os empresários (grandes e enormes) se apoderam dos aumentos incríveis de produtividade atingidos pela Humanidade. E querem mais!!!
Essa gente está no filme errado e aterroriza quem os ouve. Por favor, tirem-nos de cena!

Debate com Velório em Fundo

Afinal, o Pedro não chorou. Ainda bem.

E aquela gravata preta assentava-lhe bem: estava como deve ser no seu próprio velório.

Um funeral em grande com flores à direita e tiros à esquerda.

Desta vez, sr. ex-presidente da Figueira da Foz, acertou em cheio.

nada igual a nada

Não vi o debate. Não cheguei tarde, nem me esqueci. Fui ao cinema, depois petisquei comida basca. Foi agradável. Vi, claro, imagens no último telejornal, deu para entender. Parece fácil, parece sobretudo pretensioso. A questão parece ser: se um tipo não se preocupa agora, que direitos terá depois?

Pode-se responder sem responder: o que não tem remédio... quanto pior melhor... O que for soará...

O dia das eleiçõs há-de chegar. Um deles há-ganhar, que se lixa, o que perder vai à vida e um deles vai livrar-se da tropa (ou será a tropa que se livra dele?) , a vida há-de continuar. E, depois, as coisas importantes: o que é que vai acontecer ao Porto? e ao Benfica? E o Sporting? Ah!, e o Boavista? Se depender de um apito, ao menos que seja dourado, que entretém mais e melhor.
Reconheço que baixar os braços não é exemplo. Ocorre-me citar um poeta, ele, sim um exemplo
de tenacidade, de teimosia,que não vergava: (... ) fazei todo o mal que puderdes e passai depressa....

O Último Acto

Depois da carta que hoje recebi do dr. Santa Lopes, a pedir-me, por amor de Deus, para ir votar (nele). Depois de ler aquela "queixinha" de que é o político mais mal-tratado da face da Terra, acho que ainda o vou ver, na Televisão, a chorar.
Oh! doutor, por quem é, não me faça uma coisa dessas, porque eu não consigo ver sequer uma mulher a chorar, quanto mais um homem. Caramba! um Homem não chora!!! Além disso, o sr. até teve o colinho da Irmã Lúcia. O sr. e o sr Portas. Vá lá, porte-se bem.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

As Homenagens Devidas ao Sr. Ministro

O Ministro Paulo Portas sugeriu aos chefes dos três ramos das Forças Armadas que o condecorassem, atribuindo-lhe o mérito de "melhor ministro da defesa". Esta "sugestão" foi feita logo a seguir à dissolução da Assembleia da República ao Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMFGA).
O Almirante Mendes Cabeçadas teve que explicar ao sr. Ministro que tais condecorações não seriam possíveis por várias razões: desde logo porque o sr. ministro é, do ponto de vista da hierarquia, o chefe. Depois, porque os chefes dos estados maiores de cada um dos ramos das Forças Armadas não têm competência para tal e, finalmente, porque seria ridiculo...
Esta "exigência" do "melhor" ministro da defesa, que, entretanto, tem feito ou mandado fazer as maiores tropelias com alguns dos concursos que estão em curso no âmbito da reestutururação de diversas estruturas militares, tem um precedente:
Logo no primeiro ano do seu consulado, "sugeriu" aos mesmos chefes que deveriam congratular-se, de forma pública e notória, com o facto de o terem como ministro, no dia do seu aniversário. O público e notório seria expresso por ofertas individuais de cada um dos chefes.
Nessa altura mandou o seu secretário de estado telefonar ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea, dizendo-lhe que já tinha a aquiescência do seu homólogo da Marinha.
O ridículo foi evitado porque, entretanto, os generais conversaram uns com os outros.
Será necessário acrescentar alguma coisa?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

ORGIA CARNAVALESCA I

Ao Mundo ninguém o fez. Fez-se. Melhor: foi-se fazendo. Como o homem, que anda a fazer-se há milénios e nunca mais se acaba. Uma confusão dos diabos, convenha-se.
Por isso, que no tempo do paganismo, a gente simples e de pensar a direito, ciente de não ter feito isso duma vida que se alimenta da morte e duma riqueza sustentada pela pobreza, ciente, disso, resolveu inventar os deuses. Alguém explicativo de tamanho despautério: quadros futuros como o da sintonia entre Iraque-Irão-Afeganistão-Ruanda-Sudão-o maremoto-o imperialismo-os fundamentalismos-a Coreia atómica-os comunismos serôdios-secas dilúvios, tudo isto com direito ao contraditório. Que até a natureza o tem porque a agridem diariamente.
No meio de tanta tragédia salva-se um Portugal onde se brinca tanto ao Santana e seus meninos como ao almirante Portas e suas fragatas anti-aborto. Só que a folia, embora não mate povos, mói nações com o grotestco de seus episódios.
ENTÃO:
I - A co-incineração
Rezam as crónicas e os cronistas que os portugueses são o povo mais, ou dos mais, analfabetos da Europa. Pois não obstante essa maior percentagem é formada, quem diria?, por peritos em incineração. Pincipalmente co.
Economistas, bombeiros, futebolistas, políticos, marinheiros, poetas e advogados, também a dona Balbina e o senhor Travassos, de todo esse mundo dos muitos por cento que mal sabem, ou nem sabem mesmo, juntar as letras, anda meio-mundo na rua aos pontapés a um assunto da competência exclusiva dos técnicos. Competentes.
E a chamada democracia, para aumentar o pandemónio, anda por tudo quanto é canto a perguntar ora diga lá de resíduos e da incineração com co , de gases e dos perigos. Questão a que ninguém se recusa porque falar tornou-se um vício. Falo, logo existo.
Então ao telefone e ao microfone todos destapam a sua ignorância porque não têm mais nada para mostrar. Nem vergonha da nudez.
II - Os Revolucionários
O defunto CDS, hoje partido de Portas, descobriu-se revolucionário: um partido de esquerda às direitas.
Nobre Guedes disse que ele, Portas, podia ser o "nosso Malraux".
Nosso deles, evidentemente. Mesmo assim não foram nada modestos, escolheram para comparação um anti-fascista que andou por guerras a sério a lutar contra o fascismo, um intelectual ante a memória de quem a Europa se curva, um homem que até pessoa foi!
Por outro lado, Pires de Lima, afirmando-se "sem medo das palavras garantiu que "nós" (eles) "somos os verdadeiros revolucionários do século XXI". E o próprio Paulinho das Feiras já aceita a transmutação em Paulinho das Revoluções.
Ora, se no meio deste revolucionarismo-PP uns se lembram de Malraux e outros de outras mirabolâncias, fora dele há quem se lembre mais modestamente de revolucionários dá de perto. Da terra portuguesa.
De um revolucionário que, de poder fresco nas mãos, declarou, tão convicto como é hábito entre Portas e seus rapazes:
"Enquanto houver um lar sem pão, a revolução continua".
Chamava-se António de Oliveira Salazar.

ORGIA CARNAVALESCA II

III - A independência da Madeira

Miguel Sousa Tavares tem sido o homem dos jornais mais inconformado com a chantagem de Jardim quando deseja favores políticos dos tacanhos governantes do continente.
Tacanhos, o mínimo que chama aos "inimigos" da Madeira e da autonomia, os quais, com receio duma suposta chantagem com a independência da ilha, vão suportando as bernardices de AJJ.
Chantagem mais implícita que assumida. Existente no entanto. E, como o mais inconformado com ela, a repetição do jornalista, insistindo no tema, não teria novidade se não fossem as serpentinas que lançou para a festa.
Rolos delas a dizer que a melhor maneira de calar Jardim com a cantata da independência seria a de submetê-la a escrutínio popular.
De facto o carnaval desregula a razão.
O território de uma qualquer nação nunca foi, nunca será, formado por imposição dum qualquer plebiscito. Atrás dumas fronteiras nacionais há factos e história. Há razões sociais, políticas e jurídicas, razões de séculos, de mil vivências e de direito internacional, razões de amor à terra, de hábitos e familiariedades e, finalmente, a grande razão do bem-querer à gente que é a nossa.
Há tudo isso amassado num cimento feito da terra do chão nacional.
Não cabe na cabeça de ninguém sugerir a independência do Porto e redondezas em razão do passado galego e de exigências de governantes locais. Ou do Algarve, que foi mouro e hoje tem interesses específicos.
Não cabe e ninguém se lembrou disso.
Assim, a que título, a não ser carnavalesco, vem a lume a independência da Madeira, terra achada por portugueses, povoada por portugueses, que nunca teve outra história nem outra vida que não fosse portuguesa?
A descontinuidade geográfica é argumento juridicamente pobre e a chantagem de Jardim ainda mais pobre.
IV - Havai descontínuo
O Estado norteamericano do Havai são umas ilhas longe, metidas nos Estados Unidos há um século, e que existiam antes disso primeiro como monarquia e depois como república.
Ora no aproveitamento das disputas havidas nessa transição, da guerra interna, os estrangeiros entraram em ajuda a uma parte contra a outra. E poucos anos depois pegam na terra e incorporam-na por sucção.
Aposentam a rainha a troco de um punhado de dólares, manobram com força sua interesses seus e alheios e pronto, já está.
Antes esteve. E ficou.
A Independência para o Havai, já!!! É uma causa justa.
V - Lembrando o truca-truca de Natália Correia
A sina deste Fevereiro que ainda não passou atacou também António Barreto. E levou-o para longe das paragens políticas: para o sexo de governantes.
Aventou, com ar sério de quem pensa, que os responsáveis máximos do país fossem obrigados a apresentar, para além da declaração dos rendimentos e mais teres e haveres, suas habilitações sexuais.
A prática e as tendências.
Na conformidade, ficaríamos a saber se são truca, retruca ou truca-retruca. E como a Constituição não permite discriminações por motivos de raça, sexo e assim, também as mulheres que eventualmente chegassem a cargos presidenciais e primoministeriais teriam de apresentar a sua declaração de fufa, fafu ou fuaf.
Em consequência do que se chegaria ao voyeurismo democrático na cama com o poder político.
Óptima modalidade de programa para a TVI.

Tudo Como Dantes

É bem possível que a Democracia seja o melhor sistema político. Creio que, de um modo geral, os democratas acreditem que seja o único, o supra-sumo. A questão que se levanta é a de saber onde começa e onde acaba. É difícil imaginar virtude na ideologia vendo os democratas perorar na Televisão ou imaginá-los a telefonar para o Expresso ,quando o sr. Balsemão não está lá,bem entendido, ou para o Indep.,seja quem for que lá esteja.Intrigar é em si mesma um passatempo divertido, mesmo sob a forma de filha de putice reles.Deixa de ter graça quando se exerce como acção política. Não venho aqui discutir moral. O que pretendo pôr em questão é o comportamento dos democratas. Não encontro nada de mal na democracia. Aceito que seja um excelente sistema político. embora muito virado para favorecer os políticos, mais do que enriquecer a populaça de mais sopa e de melhores costumes.

Confesso que sem querer pôr em causa a democracia, o que eu tenho dificuldade em aceitar/gostar é de democratas filiados em. vulgo: militantes (?) , militantes militam, militam, de militar, ó Diabo! já me perdi ou estou a perder o fio à meada.

Devo confessar que quando comecei a escrever este doloroso desabafo ainda a irmã Lúcia era viva e o Sporting não tinha esmagado o Rio Ave. Do passamento da vidente se têm encarregue os líderes do PSD arrouba CDS pê-tê ( o hifen é devido ao computador, coitado, que, como eu, não sabe ortografar analfabetices), eu prefiro comentar ou entreter-me com a bola, mas depressa me dou conta de que é tempo perdido. O "Record" é pior que o "Expresso" e isso dói-me. Aprendi a vida com "A Bola", quando a vida era o Benfica e o Benfica era o Bloco de Esquerda. Quando o "marreco" a quem também chamavam Teixeira, ficou fechado num camarote do barco que o trazia da Madeira, com destino - imagine-se! - ao Sporting. Nenhum comandante de navio, mesmo de passageiros faria uma coisa dessas. Foi no Benfica avisar e pela noite lá o levaram e o inscreveram. Isso sim, eram assuntos de jornal. Havia uma revista desportiva "stadium" que funcionava, ainda que não o soubesse, como haveria de ser a Televisão. Desvendou a trama do desvio, do mesmo modo que o Indep. o faz com Amaral, Freitas do.

Caiu o Carmo e a Trindade, como Guterres haveria de cair. Empurrado pela ira vermelha, que não tolerava a admissão de um lagarto, nem que fosse para cabeça de lista em Fornos de Algodres. E quando, na semana seguinte, o Benfica, que residia no Campo 28 de Maio e a que, por patriotismo, a malta chamava Campo Grande, recebia justamente o Sporting. Foi coisa séria. O Benfica ganhou por cinco a quatro e o "marreco" marcou quatro golos...

Vocês crêem que Santana é capaz de marcar quatro golos?...

sábado, fevereiro 12, 2005

O Rosto dos Sem Rosto

Há um semanário que não compro há anos, desde que o descobri como o jornal de uma aldeia sem dignidade, povoada de beatas, pequenas intrigas, grandes negócios e negociatas. Vou escolhendo outras leituras de um painel cada vez mais difícil , e , na demanda do que ler, deparo com títulos, com rostos nas capas de revistas. Alguns não conheço, mas outros sei bem que eles são.
A propósito de um rosto que hoje aparece no tal semanário, cujo nome já nem pronuncio, lembro os posts que aqui coloquei nos dias 30 de Janeiro de 2005 e a 01 de Dezembro de 2004. Este último sugere a leitura de mais alguns colocados em datas anteriores.
Ele aí está o rosto dos que não dão a cara. A PGR e a CNVM não estarão a investigar nada a respeito deste jogo de espelhos para o público perceber de quem é verdadeiramente a silhueta de Luís Delgado ? Até pode não ter espelhos mas apenas sombras chinesas.

«Por Ora»

A Procuradoria Geral da República e a Direcção Nacional da Polícia Judiciária fizeram saber, em comunicado tornado público que, "por ora", José Sócrates não é suspeito de coisa nenhuma, relativamente ao empreendimento "Freeport".
Estes pronunciamentos são feitos na sequência de uma notícia do semanário "Independente".
Mesmo depois da indicação de que se trata de um atropelo a todos os códigos deontológicos (que haja, mesmo no inferno), as rádios e as televisões - e pela amostra das edições "online", os jornais - continuam a servir-se do mote dado pelo semanário para ampliar aquilo que o próprio Sócrates já classificou de "campanha negra".
Negra ou branca ela é, de facto, uma granada de fragmentação, um automóvel aramadilhado, atirados contra todos nós, pacíficos cidadãos de um país de brandos costumes, que aceitam estes actos terroristas com um encolher de ombros, na esperança de que não nos caia um estilhaço em cima.
O "Independente" não é estreante neste tipo de actuação. Esta é a marca de um jornalismo que exige contrapartidas, que aponta caminhos para alianças futuras e tem cimentado poderes ocultos, verdadeiros polvos que se alimentam da intriga e da chantagem.
O jornal é apenas o instrumento. Quem o utiliza sabe que a sobrevivência obriga , muitas vezes, a actos desesperados.
Este acto de puro terrorismo anuncia, seguramente, uma verdadeira guerra, porque o tal polvo começa a ficar nervoso perante a possibilidade de todo o seu grande projecto ir água abaixo.
Fico com a esperança de que tal guerra não garanta, no futuro, outras alianças, outros projectos, outros polvos.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Patriarcão

Ele foi -- e é, sem a menor dúvida -- uma referência da democracia em Portugal. Mas até as mais reverendissimas referências são humanas. Os humanos não são perfeitos, nem sempre têm razão e estão sujeitos a tropeçar.

Mário Soares além de ter descido como desceu a Alameda, desceu algumas vezes de outros modos. Para subir teve de contar com certos apoios e uma certa Europa esteve com ele. Por essa altura os partidos recém nascidos eram virgens de princípios e à margem de legislação, como, por exemplo, as dotações pecuniárias. Nada que não tivesse remédio e que não se tivesse procurado regulamentar.

Como líder, primeiro, como primeiro-ministro, depois, teve confrontos naturais na Assembleia,
que nem sempre ganhou. Sossobrou ante uma moção de censura, que o levou à tal coligação com o partido do centro-esquerda de Freitas do Amaral e, depois, perder eleições para a AD.

De regresso ao largo do Rato arranjou algumas desavenças intestinas que haviam de culminar com o abandono da liderança por se recusar a apoiar a recandidatura de Ramalho Eanes.

Data dessa altura a contestação à origem de apoios monetários aos partidos. Para regressar à chefia foi notória a diferença entre o partido empobrecido e os meios postos à disposição dos apoiantes do candidato ao regresso.

Reconquistado o partido, Soares voltou a ganhar legislativas e a chefia do governo. Bem sabemos que o poder desgasta. Nunca são suficientes os problemas da governação. Pior que um défice num capítulo do orçamento pesa a pressão contínua dos militantes candidatos a empregos, a cargos, a tachos ou a negócios.

E o governo sossobrou. Da hecatombe emergiu Cavaco Silva. Mas é justo lembrar que o PS apresentava como candidato Almeida Santos.

Mas Mario Soares não entregou os pontos. Perfilou-se candidato a Belém. E bem mal fizeram
os que não quiseram,dentro do partido, acreditar nele. Soares ganhou a presidência e não poupou os descrentes.

Constâncio entrou na sala do Rato e não havia tostão. E casa onde não há pão... Saiu a bater com a porta. Entretanto Cavaco, governava. Belém não levantou entraves. Era o país das maravilhas.

Nas legislativa que se seguiram o PSD voltou a ganhar e Sampaio foi quase trucidado. E saiu. Mas não era um mau candidato. Não tardou a ganhar a Câmara de Lisboa, vencendo o nadador
Marcelo, o destemido. E avançaria mais tarde para a sucessão de Soares, batendo um tal C. Silva.

Mas isto foi depois do entretanto. O que contava era o implacável ajuste de contas, que até então decorrria entre iguais, como é apanágio dos polícos de topo. Arrumadas as contas a esse
nível, Mário Soares voltava à terra, arregaçava as mangas. Era a vez de Cavaco Silva...

Depois de vencer, com um sorriso nos lábios a reeleição, em que o mais difícil terá sido obter um adversário, socorrrendo-se, como era prática, de um CDS (Basílio Horta), o Presidente retomou o rumo e friamente, durante quatro anos moeu Cavaco Silva, até à exaustão. Ainda hoje, e já lá vão uns anos, o pobre prof. ainda cheira a queimado.

Com pouca saúde ficou o país. Guterres, Durão e Santana não parecem médicos de grande sucesso. Entre votar ou ir à bruxa.. o Diabo que escolha...

Rábulas



Desde que chegou , e se instalou, a democracia tem sofrido, e nós com ela. É preciso tempo para tudo, até para ter paciência. Dito de outra forma: não há remédio. Um bom exemplo, honesto e expressivo, saiu de Manuel Alegre quando criticava diferentes membros do governo Santana e terminava a reconhecer que no exercício do poder sempre se cometem erros “eu próprio cometi alguns”.É quase ternurento tanta compreensão.
A outra verdade, a minha, é que o que se conserva na memória é justamente o disparate, a palhaçada, as artolices. Neste domínio Santana não inventou nada. O poeta socialista disse uma vez: O “Século” não pode fechar. Fechou, claro.
E Soares? Caramba, senhores, caramba: “os senhores pensam que eu ia fazer uma remodelação à trouxe-mouxe na véspera de partir para a Europa?” Fez, bem entendido, ao fim da tarde. E de coligações estamos falados.
A História fará, estou certo, justiça ao homem bom que conduziu o país para o rumo da democracia ocidental, com coragem e determinação. As coligações trapalhonas e os frequentes “Soares disse que não disse” ficam no saco humanista de Manuel Alegre, onde devem estar arrumadas algumas diatribes de Pinto Balsemão, como a de escolher um pobre ministro que, coitado!, nem ganhava para os charutos.
Mesmo Cavaco deixou marca com a história do leite... Na altura era ainda mais mínimo que Santana, mas incoligado e quando quis aumentar o preço dos combustíveis, a maioria da Assembleia, onde ainda morava o PRD, levantou-se contra.. Cavaco choramingou que não o deixavam baixar o preço do leite, o santo leite das criancinhas…
E Soares fez-lhe a vontade, não por mor do leite, claro está, mas para começar a ajustar contas com os eanistas. Novas eleições e Cavaco apareceu de maioria absoluta. E asssim os combustíveis puderam aumentar e o leite também …

Trapalhadas continuaram com Cadilhe e as mudanças de casa e outro da mesma pasta com subsídios para jovem agricultor.
E as maiorias de Guterres não deram pano para mangas, apesar de se dever reconhecer algum mérito ao então líder socialista, pelo menos o de ter ganho com a maior margem de sempre entre os seus pares, mas tal como Durão durou menos do que devia.
Guterres ficou a dever ao país a solução para o problema de interrupção voluntária da gravidez. Durão “engravidou”O PSD e pôs-se a andar.
Ficou Santana para pagar a crise, com o inevitável sorriso nos lábios.
O pior é que Sócrates está com uma vontade doida de o incinerar…

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Este país é mesmo provinciano. O país inteiro, gente e geografia, já que os responsáveis por ele fazem dele uma província da Europa. Espiritual, servindo-se do seu nome como razão arrasadora em tudo o que discutem.

A comparação com o que se faz e não faz na Europa, e se faz deveria repetir-se ou se não faz deveria rejeitar-se, é o argumento máximo. A elaboração intelectual mais sabida.

Um provincianismo que nem dá direito ao contraditório, tal como Marcelo não gostava de dar entre as suas constantes afirmações de ser professor de direito.

- Eu que sou professor de direito ! - lembram-se ?

Não gostava e não dava, para grande irritação de Santana. Enquanto desejava a ocupação da Lusomundo por gente sua. Ou seja, enquanto trabalhava no limiar do direito ao contraditório do povo que ainda ministra. Como se faz na Europa.

Provincianismos, no entanto

Fernando Pessoa dizia, e até deixou escrito, que Eça de Queiroz era o mais provinciano dos escritores portugueses: pelo parisiense que gostava de mostrar-se, pelo estrangeirado de modos e dizeres por que às vezes se fazia passar. Ou passava mesmo.

Para Pessoa, provinciano era o que se enfeitava com plumas alheias, o que se punha em bicos nos pés para que o vissem. Considerava-o como que parvenu , como diria Eça.

Mas há que diferenciar entre uma pose de literato e o senhor Silva ao volante dum Ferrari. À parte isso, o que mais distinguiu, no capítulo, Pessoa de Eça foi que, enquanto este se escreveu, numa das suas "cartas" ( de Londres ou de Paris, embora num enquadramento que diminuiu o entono) um parisiense - a presença do primeiro em terra estrangeira exacerbou-lhe o nacionalismo. Fez dele um patriota místico.

Serviram aqui os talvez maiores nomes, em popularidade, da literatura portuguesa para demonstrar que provincianismos há muitos. Não apenas entre políticos.

O chico-espertismo

O chico-esperto talvez seja um tipo de provinciano, mas mais tosco. No fundo um convencido da estupidez dos outros, que procura explorar.

Paulo Portas, em defesa do seu ministro Nobre Guedes, aquele que arengou ao povo de Coimbra para não deixar entrar Sócrates nas muralhas da cidade, apareceu nas televisões com um arrasoado a dizer que aquilo retumbado pelo governante não foi o que as palavras disseram. Não foi barrá-lo, a Sócrates, com barreiras físicas (paus e pedras) mas com barreiras políticas (votos). No fundo disse que Guedes disse o que não disse.

E falou com tanta convicção que deixou a ideia de crer realmente em que os portugueses a que se dirigiu são estúpidos que nem portas. Ideia de que sobram duas hipóteses: serem os portugueses estúpidos que nem portas, ou Portas que nem porta.

Provincianismo erótico

Disse-se que eram mil. Elas

E apenas um. Ele.

Ele, Pedro, que não é pedra como o São, mas carne de um colo, o seu, para muitos colos, os delas. As que foram pôr-se-lhe à volta num colar de orgia política.

Colar que espichou lubricidade. Jacto, Santo Deus! Que por descuido foi atingir os desprovidos de tal aconchego. Uma variante dos sem-abrigo: os sem-regaço. Pelo menos delas, as que se regaçaram para Pedro. A quem Nosso Senhor não livrou da tentação de apontar José-Suposto-Sem-Colo com um gesto largo de mostrar-lhe elas todas adornando-o. A si. Não a ele, sobre quem boatos oportunos lançaram suspeitas.

Que Pedro Santana Lopes se prestasse ao papel a que se prestou, hoje não admira. A mãe de Kennedy também orientou uma campanha à presidência dos EUA apelando ao eleitorado feminino; os conselheiros de Lopes, ao que consta brasileiros, teriam agrrado na ideia e, de modo grosseiro, lembraram-se de fazer dos mil colos um facto político. Até aqui, tudo vá que não vá. Santana Lopes tem sido uma desilusão, até para os que lhe achavam graça. Portanto, para os técnicos de imagem levá-lo ao caricato não deve ter sido difícil. E mulheres arranjaram-nas. Pelo menos veio na informação que elas estiveram lá.

Aqui é que foi o mal. A mulher, hoje, já não é nada que foi. A mulher, hoje, tem obrigações para si como mulher. E, ir de colo a a abanar em demonstração de como qualquer político é femeeiro, ofende-a como pessoa.

Se houvesse justiça, deveriam todas as mil ser julgadas por interrupção voluntária da dignidade feminina.

Os Filhos do Pedro

O Pedro não faz campanha na rua, não gosta de andar a apertar as mãos às pessoas...o Pedro não fez campanha na terça-feira de Carnaval e chamou os jornalistas a S. Bento, para lhes mostrar os jardins, os filhos a passear de ar compostinho e criticar José Sócrates.
Oh! Pedro, tudo isso até capaz de resultar no Brasil, onde dois terços da população pertence ao quarto Mundo. Lembro-lhe, todavia, um facto brasileiro: o Ciro Gomes, candidato à Presidência do Brasil, com Lula da Silva, liderava as sondagens quando um jornalista lhe perguntou se o papel de Patrícia Pilar, sua mulher, era importante na campanha.
Ele respondeu à cafageste: "é importante, dorme comigo". Desde esse dia as sondagens não pararam de descer. Ciro Gomes, é, hoje, um cadáver político bem enterrado.
Que dizer de si, que só lhe falta estar enterrado e só faz e diz estes disparates ? Dizem que a conselho do mesmo brasileiro que levou Ciro Gomes ao topo das sondagens e não o impediu de se esborondar nos gráficos das agências.
Quando os filhos deste Pedro tiverem a sua própria vida e as suas próprias responsabilidades vão dizer o quê deste pai, ao verem as imagens de arquivo das televisões de então. Televisões que terão, seguramente, outros patrões e não o dr. Pinto Balsemão que manda transmitir comícios inteiros em directo, numa tentativa desesperada de salvar alguma coisa.
Salvar o quê? Perguntarão então os filhos do Pedro. "Os seus próprios interesses, prometidos pelo Morais Sarmento e confirmados pelo vosso pai" - responderão os interrogados.
Só estórias tristes de um futuro defunto.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Para Que Serve a Política

Sempre se lhe abre um largo sorriso quando apareço. Um sorriso de alegria, a mostrar a falta de dentes levados pela idade, mas também a alma limpa, carregada de amizade, bondade, solidariedade. Para os seus quase oitenta anos, o meu amigo trabalha quase como nos velhos tempos, quando andava de pinhal em pinhal a fazer pela vida e a gozar as alegrias da mocidade. Delas fala quando sente alguma esperança de melhores dias e sente aliviado o peso da sua condição de idoso, trabalhador por conta própria e português.
Ontem, a propósito da campanha eleitoral, lá veio a política à baila e a sua conclusão habitual: "Oh meu amigo, a política não serve para nada!"
Com alguma paciência e amizade tentei dar-lhe o meu ponto de vista: "bem que os poderosos do Mundo gostariam de a eliminar da nossa vida.Por causa daquilo a que chamamos política é que não somos todos peças de uma engrenagem de produção, sem direito às pequenas alegrias e às pequenas ou grandes ideias que gostamos de trocar".
Ficou pensativo, o meu amigo, mas não me quis deixar sem resposta: "mas, então acha que estes gajos que nos estão a governar são políticos?".
"Não, esses fazem parte dos que gostariam de eliminar a política da nossa vida. Esses são apenas lacaios dos que têm tudo, dos que se apoderaram da maior parte do esforço que a Humanidade fez para progredir. Esses são os que estão a permitir a importação dos métodos chineses para gerir as empresas. Mas, felizmente, ao contrário do que acontece na China, nós temos a possibilidade de os mandar borda fora".
"Você é danado! - riu-se o meu velho amigo. E lá voltámos à conversa sobre os achaques dele e meus.
Na despedida, um abraço e o remoque final: "... eu acho que não vou votar...para quê?"
"Olhe, nem que seja para voltar a sentir alguma esperança"
Tenho que passar por lá outra vez. Talvez se o frio passar ele se sinta melhor consigo mesmo.

domingo, fevereiro 06, 2005

A Realidade Não É Essa

Inicia-se hoje mais uma campanha eleitoral em Portugal. Os Portugueses voltam a votos a 20 de Fevereiro.

Demos graça à força da razão que levou os homens deste país a lutar por esta tão simples forma de decidir quem nos deve governar. Se tivessemos que dar graças a Deus - tal como o concebe D. José Policarpo - ainda estaríamos, seguramente, de joelhos, a agradecer a algum iluminado a nossa condição de homem ou mulher, de português ou senegalês, negro ou branco. Teríamos de esquecer Sócrates, que dava graças por ter nascido livre e não escravo.
A proibição de os católicos serem, em simultâneo, maçãos é, para um homem livre, imcompreensível. Tal imcompatibilidade, a juntar a tantas outras, ajuda a transformar o catolicismo numa seita restritiva, que, um dia, quando constatar o seu completo desajustamento com as sociedades em que vive, terá de voltar à clandestinidade - para aí cumprir as suas regras, defender as suas proibições e praticar a sua hipocrisia.
Mas, não é apenas a Igreja Católica que está desajustada da realidade.
Também os Partidos Políticos que arrancam hoje para mais uma campanha eleitoral não percebem a sociedade que querem governar e perdem-se em análises abstractas, propostas imcompreensíveis, discussões de modelos irrealizáveis.
A nossa sociedade já não está organizada como os seus dirigentes supõem. As medidas que foram sendo tomadas ao longo dos anos conduziram a vários fenómenos de que ninguém fala.
Por exemplo, a nossa Juventude está a entrar em esquemas de trabalho definidores de um modelo de uma escravatura impressionantemente veloz: os estágios não remunerados de que se alimentam pequenas, médias e grandes empresas; os contratos de trabalho precaríssimos, que alimentam os salários de miséria e desmobilizam qualquer apetência para especializações, aprendizagens avançadas; as regras de avaliação monolíticas, espartilhadas, aparentemente exigidas pelo cumprimento de objectivos a favor dos accionistas das grandes empresas, transformam o dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas em infernos.
A constatação de que, sobretudo nas grandes empresas, as diferenças são cada vez mais abissais e de que, afinal, os objectivos que obrigam os trabalhadores ao cumprimento de regras ilógicas, absurdas e mesmo estúpidas, contribui para a descrença e consequente crescimento do espírito carreirista, oportunista, quando não para comportamentos de deslealdade e de desonestidade.
A ideia de que um trabalhador aos 50 anos é velho e precisa de ser substituído por alguém mais novo e, por isso, mais disponível para aceitar as regras da escravatura dos objectivos definidos por meia dúzia de gestores de capitais alheios, é outra das realidades deste país que os políticos e as suas políticas foram construindo - pedindo, aos poucos, umas brasas ao inferno dos católicos.
E nesta campanha não há nenhum partido capaz de agarrar o touro pelos cornos. Aos que ouvi só percebo estratégias de poder para a sociedade, cuja existência é fruto das suas imaginações. E, quando fazem o apelo ao voto, contra a abstenção, continuam desajustados. Se a abstenção sobe é porque a população não se reconhece nos problemas enunciados e nas propostas políticas publicitadas.
Os que votam fazem-no por uma questão de jogo. Estão viciados nele. Mas, mesmo esses, acreditam pouco, porque percebem que o futuro depende do presente e, para este, os políticos nem sequer são capazes de fazer o diagnóstico. Trocam tudo, mesmo quando acertam numa palavra: confiança.
Identificam-na com o sistema económico. Nada disso, do que eles precisam é da confiança dos cidadãos.
Tal como a Igreja de D. Policarpo, também estes partidos vão, um dia, ter que viver de si mesmos, logo numa clandestinidade que lhes permita falar das suas fantasias.

sábado, fevereiro 05, 2005

O Bom Tempo

Queixamo-nos nós das elites - sobretudo das políticas.
Há pouco, ao seguir um noticiário de uma das nossas Rádios - a que liga Portugal - lá ouvi o RM da meteorologista de serviço, a prever chuva para os próximos dias e o "regresso do bom tempo" lá para terça ou quarta-feira.
A minha alma fica parva. É suposto tratar-se de alguém licenciada em curso relacionado com as várias geografias, logo com aberturas para a análise científica das consequências gravosas da actual evolução do clima, não só em Portugal, mas em todo o Planeta.
E o que diz ela? Que bom tempo é o céu limpo, temperaturas amenas, mesmo agora, no Inverno, altura em que, supostamente, deveria chover e fazer frio.
E o que diz o "locutor" de serviço da tal Rádio que liga Portugal ? Nada. Nada, porque ele não sabe que o país rural está suplicando aos céus por chuva e clamando junto dos poderes instituídos por apoios que lhe permitam manter os animais, as pastagens e a esperança de ter condições para lançar algumas sementes à terra.
Que maneira de ligar Portugal!
É claro que todas as outras rádios e todas as televisões estão a repetir o conceito de "bom tempo", desligando-o da ideia de chuva. Ora, a verdade é que, muitas vezes, a ideia de bom tempo não pode ser dissociada da de chuva.

O Debate - Comentários

Algumas vezes na minha vida tive este sentimento de "pioneiro", de alguém que dá alguma coisa de si para construir algo que pode servir a todos.
Desde os finais de Novembro de 2004, altura em que inaugurei este blog, cujo título devo a um amigo do coração, voltei a esse sentimento gratificante.
A blogoesfera é, na realidade, o futuro que começou ontem ( eu ainda estou a correr atrás do combóio, mas já com um enorme sorriso...). Na verdade, esta rede de cabeças que exigem continuar a apensar por si, representa a maravilha do nosso tempo. Um dia, estaremos todos ligados, não como no "Big Brother", mas a postos, para discutir ideias e sistemas para a sua execução ; estaremos capacitados para, finalmente, decidir um poder de gente sábia, em primeiro lugar, honesta, no mesmo plano, competente, logo a seguir, preocupada com os outros, antes de tudo.
Que me desculpem os meus pouco leitores estes desabafos.
Vêm eles a propósito de dois comentários que o meu post sobre o Debate entre SL e JS mereceram: o primeiro da DespenteadaMental, a quem cumprimento, tirando o chapéu, a imitar o gesto elegante do meu avô, que se recusava sair sem o dito, porque "não podia andar na rua à estudante".
Fui olhar o seu blog. Vou incluí-lo na minha lista de preferidos, porque não quero roubar aos que me visitam o prazer de a conhecer. E agradeço-lhe a rectificação. Ainda bem que José Sócrates disse que aquela entrada maciça de funcionários públicos, durante os governos de António Guterres, tinha o objectivo de rectificar situações irregulares de gente que trabalhava há anos par a FC a recibos verdes.
Foi pena, todavia, que não tivesse responsabilizado a "era cavaquista". Porque foram os "cavaquistas"os responsáveis pela deterioração da Administração Pública. Foi Cavaco Silva que fez todos os jogos para, no final de cada legislatura, ter o eleitorado na mão. Foi a sua gente que enriqueceu de forma escandalosa. Em notícia largamente documentada do "Expresso" de um ano e de um mês que não recordo ( e já não tenho paciência para pesquisar) foi apresentado o enriquecimento extraordinário de Manuel Dias Loureiro ( o tal que telefonou ao pai a dizer que já era ministro) e que, pouco tempo depois de chegar ao poder, tinha acumulado um património em Lisboa, de mais de um milhão de contos, tendo como base uma herança sem quantificação precisa, tão pequena era ela.
E ele não é caso único dessa década negra da história recente do nosso país.
E já que Santana Lopes e "sus muchachos" não param de falar dos seis anos de governação guterrista, era saudável lembrar aos portugueses os dez anos de cavaquismo.
DespenteadaMental, muito obrigado por me permitir este desabafo.
Quanto a LS, do Abnegado: também lhe agradeço a generosidade da partilha das suas ideias, dos seus textos. Já faz parte da minha rotina diária, uma visita ao seu blog.
Não deixa de ser curioso que ao ouvir Carlos Magno na Dois me tenha ocorrido a ideia: "ora aqui está um homem que só não é o Luís Delgado porque não teve a coragem de se assumir como um verdadeiro "carraceiro" do poder - é verdade que o o outro, o verdadeiro Luís Delgado, teve e tem, um patrão, o JLM, e o Carlos Magno anda sempre à procura de alguém".
Tem razão, LS, o carlos Magno faz lembrar um palhaço a quem o nariz "bola vermelha" não se ajusta, porque já tem uma séria dificuldade em confrontar-se consigo mesmo.
Mas, infelizmente, não é o único