quinta-feira, abril 28, 2005

NA TERRA DA NOSSA IGNORÂNCIA

Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Parafraseando: nas terras da ignorância todos falam e ninguém sabe o que diz.
Claro que sempre há alguém que sabe o que diz. Uma ou outra excepção no meio da santa ignorância, que é o caminho mais eficaz de chegar ao céu. Por isso o inferno está quase vazio...
Carvalho da Silva, uma excepção
A gente da política faz profundos cálculos sobre a velocidade necessária ao despedimento dos funcionários da Administração Pública. E a profundidade oscila, salvo erro, entre os 100 à hora e os 6.000/ 6.500 ao ano.
Mas, espanto dos espantos! apareceu na santa terra lusitana um homem, Carvalho da Silva de seu nome, a perguntar por quê?
A querer saber como se pode chegar a números sem primeiro se definirem necessidades. Sem primeiro se estudarem as reformas da Administração Pública.
Um querer saber lapalissiano: ignorando-se o tamanho e o peso da carroça, como se pode calcular o número de bois necessários a puxá-la? A qualidade da carroça, aqui, tem de andar à frente do número de bois. É para isso que existe a ciência e o método científico. Para contrariar o que a ignorância diz.
E com isto somos chegados a um caso de polícia, a partir do qual todo o departamento de investigação terá de formular duas interrogações:
1 . Em que faculdades se formaram os senhores governantes, opositores e toda essa chusma de iluminados que vai para a política porque, diz-se, é um emprego que "tem saída"?
2. Que universidades portuguesas ensinam metodologia ?
De posse destes dados poderá, então, formular-se a extensão do crime, bem como as condições sociais que levam à proliferação de criminosos.
Marcelo Rebelo de Sousa, o génio
Um homem de outra galáxia. Génio como o Mourinho, ele próprio se sugeriu. Modestamente, como é seu timbre.
- No PSD não o acharam tão genial assim. E viram-no até de muito bons olhos pelas costas quando abandonou a direcção do partido. Provavelmente ingratos duma ingratidão que lhe classificou o génio como de serpe dum cobril sinistro;
- Na TVI despediram-no sob um cortejo de flores, desde o volte sempre até às juras de admiração, mas com o desejo secreto de que fosse andando e não voltasse;
- E na RTP já deve haver gente a pensar em como mandar passear um ilustre professor que utiliza o seu ziguezaguear como muleta de toureiro frente a um pacífico interlocutor sem direito à interlocução. Agora interlocutora, e com bonito penteado. Elogiou o mestre.
É que ele , o eu-sou-professor-universitário, a estar bem, só poderia estar na SIC, na TVI, entre gente da sua gente e nunca num órgão da informação estatal. Uma casa que tem obrigações de isenção, de suprapartidarismo, de supra-egocentrismo, dispensa de bom grado quem jornalisticamente mais parece um trapezista saltando entre os seus desígnios. Antiprofissionalmente.
Esperemos, portanto, que Ana de Sousa Dias lhe saiba pôr cobro ao tagarelar com que a atropela, ou tenha a coragem de o deixar a falar sozinho. Ele com ele dá-se muito bem, a palestra portanto teria melhor efeito. E mais verdade.
A flor do jardim
1. Julgo que foi D. João V. Também se não foi ele foi outro assim: uma magestade mandante.
E ia a magestade em seu coche quando, cruzando-se com um escravo, recebe deste um cumprimento desde o alto até ao chão. Ao qual responde com outro de igual tamanho.
Incomodado, o acompanhante real fez-lhe ver que o outro da troca de delicadezas era um escravo. Observação a que a magestade respondeu (mais ou menos, claro) :
- Em Portugal ninguém pode ser mais bem-educado que o rei de Portugal.
2. No tempo do colonialismo, o Estatuto do Funcionalismo Ultramarino obrigava todos os funcionários públicos, desde o governador ao servente, à urbanidade no trato. E um artigo do mesmo Estatuto estabelecia a pena a que correspondia a falta-de-educação. A qual, dependendo das circunstâncias e gravidade da ofensa, merecia registo no cadastro.
A partir destes dois pontos é importante investigar, em especial na democracia que governo, oposição, constituição, presidência da república, ministério-público e mais instituições democráticas dizem que Portugal é, quem é que deu, e dá, autorização a Alberto João Jardim para ser tão grosseiro.
Não há memória, na história portuguesa da ditadura recém-falecida e da democracia recém-nascida, de alguém tão incivil. E se nem a ditadura consentia que um seu servidor fosse assim, a que título e sob a responsabilidade de quem a democracia consente.
Será que a democracia portuguesa é da irresponsabilidade?
Ou será que os ditos democratas portugueses não sabem que a democracia sem responsabilidade não existe?
E o periquito tremeu
Alberto João também tremeu. Mas foi de fúria.
E mandou os seus recados ao partido de Marcelo Rebelo de Sousa, que é o seu e de outros espécimes igualmente notáveis, a propósito da limitação dos mandatos. Portanto da limitação do seu. Seu emprego. E parece que único porque não consta que saiba fazer mais nada.
Mandou recado mas só a fazer uh! uh!
E foi a vez de o periquito tremer. Mas de medo. Então periquito falou que sim senhor, que limitação sim senhor, que ele é pela limitação sim senhor, mas só daqui a 12 anos.
Esperto. Está convencido que doze anos chegam para que o Jardim seja acometido por um AVC vínico. Um AVCV portanto.
A ganda nóia
O periquito Marques Mendes da Nóia entrou em funções propriamente depois do uh! uh! que lhe fez o grande-chefe Jardim. Assustou-se primeiro, que uh! não é para menos, e depois teve que resolver de imediato, e duma assentada, as hipóteses de referendo sobre a constituição europeia e sobre a libertação da mulher portuguesa das garras dos tribunais e da polícia no caso de aborto.
E resolveu: o referendo sobre a Europa para já, é de interesse nacional; o referendo sobre a despenalização do aborto é do interesse do mulherio. Fica para depois.
Com a chegada do periquito que subiu ao poder no PSD, o partido transformou-se numa espécie de gaiola para a passarada.
Primeiro foi o passarão que voou atrás do seu interesse; depois foi o despassarado que o país pôs a voar por não ter interesse; agora arribou um passarinho que mal chega ao poleiro.
Não chega, mas se um dia o periquito crescer vão ver como o passarinho ainda se faz um homenzinho.

segunda-feira, abril 25, 2005

Viva o 25 de Abril

VIVA o 25 de ABRIL!!!
O grito é óbvio. Viva!
Mas, trinta e um anos depois, era natural esperar que a história se virasse para outros ângulos, para os daqueles que, embora gritando VIVA!!!, o tinham que fazer para dentro de um saco, escondidos, porque à sua volta havia medos, angústias, responsáveis por atitudes impensadas, precipitadas e, em alguns casos, por via disso, a tender para o crime.
Refiro os portugueses que viviam nas ex-colónias. Para uns, a Revolução, o golpe de estado, o que quer que seja, era um alívio, o resultado de uma luta que também tinha sido e era deles. Para outros, foi um sobressalto, a evidência de que, afinal, tinham vivido toda a sua vida dentro de uma mentira e agora (então) não tinham saída, ficavam sem rumo. Pior do que isso: não percebiam nada.
Para ambos os grupos, de Lisboa, só chegavam notícias de disparates. Na ânsia de se apresentarem com os governantes mais revolucionários, os homens que iam salvar o Mundo, os responsáveis pela gestão dos negócios do Estado - que interessavam a todos os cidadãos - comportavam-se como os adeptos de um qualquer- Sporting-Benfica e esqueceram a cidade "destruida".
De onde resultou que, nem para uns (os dos Vivas), nem para outros (os das angústias), nada se salvou de tal destruição. Por lá, Portugal morreu mesmo e em seu lugar, com a excepção de Cabo Verde nasceu nada, ou antes nasceu tudo: corrupção, crime, desprezo pelo direito dos outros, etc, etc. E esta realidade nem Bento XVI com toda a sua humildade germânica pode salvar.
De qualquer modo, VIVA o 25 de ABRIL

domingo, abril 24, 2005

Cherchez o negócio

Durão Barroso voltou às primeiras páginas dos jornais por causa de um amigo. Um amigo multimilionário, grego, antigo colega de estudos, enfim...o habitual: amigo convida amigo e sai um cruzeiro de luxo. Eles e as famílias e uma tripulação completa.
Tal com da outra vez, quando outro amigo convidou Durão Barroso para umas férias numa ilha particular, no Brasil. Neste caso, o amigo multimilionário era português e chamava-se João Pereira Coutinho, cujo irmão acabou por comprar a Quinta da Falagueira pelo preço da uva mijona.
O João já havia comprado o quartel da Artilharia 1 e os terrenos do antigo Colégio dos Maristas, entre a Travessa da Légua da Póvoa e a Avenida Duarte Pacheco. Já estão desenhadas e vendidas as respectivas urbanizações, entretanto hipervalorizadas pelo chamado Túnel do Marquês.
Quando as férias brasileiras do José Manuel levantaram alguma celeuma, o gabinete do primeiro-ministro afirmou que se tratava da sua vida privada.
O mesmo argumento usou agora o gabinete do presidente da Comissão da União Europeia, a propósito das férias gregas do sr. Barroso.
Esperemos pelo negócio.

Os Tiques do Poder

Um semanário traz hoje a notícia de algumas movimentações na gestão de empresas públicas ou participadas pelo Estado e é incrível como esses nomes nos fazem adivinhar que, afinal, nada mudou na forma de gerir o Estado. Lá estão os lobies todos escarrapachados. Prefiro não comentar a notícia, já que ela pode não passar de especulação. Todavia, a confirmar-se, terei algumas coisas a dizer a propósito de alguns nomes. Esperemos então pelo anúncio do Ministro das Obras públicas, Transportes e Comunicações.

sábado, abril 23, 2005

JÁ SE VISLUMBRA LUZ AO FUNDO

Não me surpreende, como calculam, que cerca de 500 médicos estejam a ser investigados pela Inspecção-Geral de Saúde, a propósito da colocação de professores. O que me surpreendia, e disso dei nota esta madrugada, era que não estivessem. Mas ocorre com os médicos, agora visados, o mesmo que defendi em relação aos professores: o hábito faz o monge!
Não devem, os médicos, passar, de um dia para o outro, de gajos porreiros a filhos da mãe, para evitar a forma mais expressiva que usou Fernando Alves relativamente aos jornalistas...
O hábito de sacar/passar atestados médicos vem de longe e há muito que se tornou uma válvula burocrática. Valia o que valia. Mas era uma nódoa. Pouco visível, é certo. Mas suja, mesmo assim.
Ocorre-me um caso típico. Um professor estrangeiro, a exercer em Lisboa, numa escola não portuguesa, assistiu a um acidente de trânsito, assás violento, de que resultou a deficiência num dos condutores, que ficou pelo resto da vida confinado a uma cadeira de rodas. Fez o que lhe pareceu natural, testemunhou. Um processo mais a seguir trâmites. E entretanto, o professor terminou o seu tempo de Lisboa e regressou ao seu país.
Quando o processo chegou a tribunal, anos depois, o professor foi citado. Apesar do incómodo e da despesa, achou natural. E no dia e hora aprazados lá estava, à espera da audiência.
Que não houve, bem entendido. Geralmente nunca há, em geral o réu não comparece, mune-se de atestado médico. Da vez seguinte, não foi o réu, mas uma das testemunhas, que faltou. Bom, é melhor não dramatizar. Nem sei como acabou o caso. A testemunha deixou simplesmente de comparecer.
E eu paro de citar outros casos paralelos, todos iguais, todos diferentes. Nem quero desculpar A ou B, nem pegar numa lanterna e procurar alguém que tenha razão. É tarde para encontrar um
culpado ou uma dúzia deles, talvez seja tempo de glozar Cesariny: culpados somos nós todos /ou ainda menos/ culpados somos nós todos/ desde pequenos...
A Ordem dos Médicos sai deste caso mal vista. Ao longo dos anos não se preocupou com o assunto. E o assunto era/é simples: a idoneidade da classe...

sexta-feira, abril 22, 2005

COMO SAIR DE UM BURACO?

A maneira mais prática de evitar um dilema destes é não entrar no buraco. Mas sem problemas não há soluções. Pronto! Lá estou eu a atirar-me às cegas pelo beco fora e, depois, esbracejar como um doido. E tudo porque li o matutino, que fazia queixa do matutino do lado. Não era a rufiada de um contra o outro que me pôs mal disposto, já lá vai o tempo em que os jornais me mereciam respeito. Hoje folheia-se um jornal com a mesma placidez com que se busca na lista telefónica o número da salsicharia.
O caso dos profs e dos seus deles atestados médicos deixou-me mal disposto. Principalmente por, a meu ver, ter sido mal abordado. O desenrascanso lusitano tem tradição. Nasce da necessidade e, como é sabido, esta aguça o engenho. No caso vertente, um caos administrativo, politicamente vergonhoso, pôs em risco o ano escolar. Misturou-se escassês de massa, (taco, pilim, cacau, ah! euros!) com falta de programas, falta de organigramas, falta colocações e excesso de vontade de diminuir encargos e pessoal docente. Muita falta e pouca uva.
O resto já se sabe e deu na palhaçada que deu.
E, agora, com o ano já na fase derradeira, ergue-se a questão moral, levantam-se vozes escandalizadas e preparam-se inquéritos impiedosos. Atenção:não vai haver inquéritos aos efeitos da balbúrdia que foi a montagem do ano. O que se põe em causa é a legitimidade dos profs serem aldrabões, como se a aldrabice fosse privilégio exclusivo de outros escalões da função pública.
Muito provavelmente noventa por cento dos atestados médicos em moeda falsa. O que é que se podia esperar?
Não se praticou nenhuma falsificação incomum. Os tribunais recebem imensa papelada dessa para adiar julgamentos. Réus e testemunhas fartam-se de se baldar com recurso desse tipo. Os funcionários que gostam de fazer crecer o fim-de-semana também utilizam esse documento trivial.E toda a gente sabe. É daquelas coisas...
Vamos dar de barato que sim, que no caso da colocação dos profs se exorbitou e que, bom!,pois!, enfim, nasce uma oportunidade para finalmente se sair do buraco. Pode concordar-se com esta tese, mas, senhores, antes de tudo convirá enquadrar bem o buraco. Não será altura para pedir explicações à Ordem dos Médicos?
De facto, não é um sapateiro qualquer que assina o atestado que paraliza o juiz, desautoriza o director-geral ou o director debaixo-do-geral. Nunca se achou por bem pôr em causa a idoneidade do documento assinado à toa pelo clínico mais à mão, o qual as mais das vezes assina por amabilidade ou por ser simpático, sem disso tirar grande proveito. É muitas vezes certo. Será. Mas ao ser simpático, o médico acaba por prejudicar alguém no processo ou, no caso vertente, prejudicou outros docentes igualmente carecidos de colocação e sempre se soube que essa era uma prática corrente, apesar dos prejuizos que causava ( e causa) ao Estado.
E, pela mesma razão, devemos acusar de irresponsabilidade na matérias os sucessivos governos, progressistas ou não, os supremos tribunais com todo o cortejo de ilustres mestres, os quais, de facto, nunca mostraram grande aptidão para prevenir, que é, sem dúvida preferível a julgar?
É manifesto que a legislação nesta matéria terá de ser revista e actualizada com rigor, mas a Ordem terá de intervir também no sentido de impôr respeito pelos valores éticos da classe. Punir só os profs será manifestamente injusto. Como se diz na terra da minha prima: tão ladrão
é o que vai à horta, como o que fica à porta...

É MUNDO QUE TEMOS

Achei por bem oferecer-me umas férias curtas. Como não tenho nenhum amigo milionário, não
fui de canhoneira e nem por isso me vi grego, por ir de carro. Fui sem net, sem portátil, e sem preocupação. O Papa já tinha falecido que me chegasse, mas depois de três dias de viagem, quando liguei a televisão, para saber do mundo, era ainda a morte dele o assunto. Já tinha de sobra e o conclave que estava para seguir-se não me dizia nada. Paris está muito na mesma.
Finalmente comprei um matutino, de uma prateleira de um supermercado de Chateau Thierry e quase caí: era o desemprego, os desempregados a lastimar-se, uma senhora, quadro superior de uma grande empresa comercial a queixar-se que a inflação lhe comia mais de dez por cento do salário. Enfim, populices!
É bem verdade que também eu sou vítima do sistema: entre um bourgogne e um bordeaux não
se coloca a questão de gosto, eu não coloco, mas de preço e, por isso, opto pelo que posso comprar. Bom, mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, não tive a mais pequena curiosidade sobre o que teria acontecido numa aldeola onde houve um congresso, mas passei algum tempo a folhear pasquins expostos à espera de saber coisas da minha terra. Um portuga não deixa de ser saloio só por estar numa lojeca de Saint Germain. Nada. Finalmente, na quinta-feira o Nouvel Obs trazia uma página de pub, com uma foto de Lisboa, do alto de Alfama, bem bonita, por sinal.
Isso lembrou-me que é bem verdade que Lisboa é um dos destinos de agrado dos executivos e dos quadros médios franceses, para as escapadelas de fins-de-semana. No sábado, foi o suplemento do Figaro a incluir uma página de anúncio, mas desta feita de promoção do Algarve. Foi pelo telefone que acabei por saber que o Benfica perdeu e que estava muito vento em Lisboa.
E de repente dei por mim a rir como um perdido. Villepin é ministro do Interior. Achou por bem dizer que a seguir ao referendo, fosse qual fosse a opção, a política ia ser outra, mais isto e mais aquilo. Raffarin foi aos arames e o seu ministro do Interior achou por bem insinuar que foi Chirac que lhe encomendou o serviço. O Presidente, bem entendido, não confirmou nada, nem desmentiu coisa nenhuma. "Uma tempestade num copo de água" -concluiu. Do lado da oposição, o PS debate-se com um dilema: metade é pelo sim, a outra metade é pelo não, o que está a deixar o PC embaraçado. Mas entre a direita a contradição é semelhante. Chirac entrou na liça mas sem grande sucesso. O Canard divulgava ontem que o presidente apenas convenceu a neta de um velho amigo e colaborador, já falecido.
Isto de políticos está complicado, está. Até parece que, afinal, Santana Lopes fez escola!
Mas não é só de política. Pela Polícia, pelos tribunais passa-se de tudo, como nas farmácias e mesmo sem receita. Um exemplo, retirado de um dos vários processos tipo Casa Pia que ocorrem, mesmo onde menos se espera. Sobre um dos mais badalados, o "scandale d'Outreau"
o mesmo Canard editou um dossier a que chama "O horror judiciário", onde conta como dois homens foram presos devido a um erro de transcrição do interrogatório de um dos rapazes abusados que terá descrito um dos pretensos violadores como "Dany le grand (o alto)". Ao
passar ao papel o agente escreveu "Dani Legrand". E eis como, de repente, na Bélgica dois homens de nome Daniel Legrand, pai e filho, foram detidos e acusados no processo, ficando presos. Ao londo do processo o pai Daniel fez parte de um grupo de seis detidos inocentados, mas o filho aguarda há três anos recurso à condenação. Este e outros casos, agora divulgados, estão
a causar algum embaraço aos diferentes orgãos judiciários.
Pois, então, é assim mesmo. Na minha terra a economia vai mal, nos governos é a trapalhada que se sabe, nos tribunais os processos arrastam-se e isto e aquilo. Pois, sim, pois sim. Mas se não fosse o Benfica ser o que é, seriamos todos iguais, todos europeus, com mais ou menos sim, com mais ou menos não. Ah, grande Trapattoni!...

terça-feira, abril 19, 2005

O "Senhor Engenheiro"

Dantes, nos noticiários, chamava-se-lhe "senhor engenheiro João Proença", secretário-geral da UGT. A democracia, entretanto, foi-se acentuando e o título foi-lhe retirado. Hoje é apenas João Proença, secretário-geral da UGT. E o que diz João Proença ?: que a Administração Pública deve ser reduzida entre vinte e quarenta mil trabalhadores.
E porquê, João Proença pensa isto?
Por razões orçamentais - diz, "com muito desgosto".
Mais valera que João Proença continuasse a ser "o senhor engenheiro". Ficavam-lhe melhor as preocupações orçamentais. Assim, sem recomendar um estudo aturado, sem reconhecer a necessidade de um reajustamento dos recursos humanos da Administração Pública, assim, de sopetão, aceitar a dispensa de tanta gente, mesmo em quatro anos, não fica bem a um sindicalista.
Não é, sr. engº?

Os Jornalistas são "umas putas"

No segundo congresso dos Jornalistas - segundo e último - um dos oradores, Fernando Alves, que, felizmente para todos nós, continua de boa saúde e constitui um exemplo de que as generalizações podem ser perigosas, subiu ao palco dos trabalhos e pronunciou a célebre frase: "os jornalistas são umas putas". E explicou porquê.
Ontem, ao ver o comportamento de dois ou três "jornalistas" da RTP, que recorreram a todos os expedientes para encobrir o que se passava na sua própria casa, chegando ao ponto de aproveitar, miseravelmente, as imagens repetitivas de cerca de uma centena de velhos decrépitos, mascarados para um qualquer cortejo carnavalesco - imagens que, posteriormente repetiram no jornal da 2... ontem ao constatar esta verdadeira "filhadaputice", lembrei-me da frase do Fernando Alves.
Coitados dos filhos deles.

NOS DIAS DE NADA

Há semanas assim: não morre um papa nem escolhem outro, não treme a terra nem o mar invade a Ásia, Bush não liberta o Iraque nem Carlos dá escapadelas à cama de Camila, nem o petróleo desce nem o príncipe da batota e dos iates repete o seu trajecto de cá para lá (paz à sua alma e à do Papa (ex) também, em verdade nem mais nada..
Foi uma semana sem importância.
Portanto um rescaldo
Disse-o de ela própria uma fraqueza muito explicada, para que o mundo a visse e ouvisse enquanto dizia, por conseguinte falando aos microfones duma televisão que era ateia.
Ateia a sério, dessas de não acreditar mesmo, confessou-se. Não acreditar nem antes nem depois da morte de J.P. II.
Não obstante sentiu-se chamada a Roma, quando do passamento de um polaco sucessor de Pedro. Não sabia porquê!, admirou-se.
Então pôs-se a falar disso "urbi et orbi"como os papas fazem nos dias de festa cristã. Aventando porém que o chamamento talvez tivesse partido da personalidade falecida.
Queria ela dizer, e não disse, carisma. Por isso a ajudamos aqui. E a ajudamos também lembrando que as exéquias a que ela foi tinham o seu quê de agrado.
Era festa, reliogiosa mas aparatosa. Mais que ritual, um espectáculo, um espectáculo oferecido pela morte. Uma solenidade vestida de roupagens e mostrada por sentimentos. Sentidos uns, mostrados outros.
Uma cena chamando a atenção das indiferenças cosmopolitas. Que gostam de ver tudo e vão a todas.
A festa das chamas
Mas espectáculo de impossível comparação, foi o da pompa e dos ritos com que a igreja se engalanava depois de passar a ser apoiada por reis e suportada pelos respectivos braços seculares: o das fogueiras purificadoras de almas. As que mandavam para o inferno. A queima de hereges constituiu o acúmen da espectacularidade. Judeus, judaizantes, pagãos, bruxas, uma chusma de incréus corria sérios riscos de ser trasnformada em archote iluminante desde que o santo do tribunal da inquisição assim o entendesse.
Então a igreja vestia galas.
Estranhamanete, dada a sua origem judia e a nacionalidade do Filho que Deus mandou à Terra.
É que os judeus, quando martirizavam os seus incréus: os cristãos e outros idólatras (como chamavam, e chamam ainda, aos crentes na santidade de Cristo), eram de festas mais modestas.
Talvez por serem mais forretas.
Crucificavam-nos, e espetavam-nos com compridas lanças que chegavam até ao cimo das cruzes. Mas a pompa e circunstância era coisa barata. Não metia a ostentação de decotes a convidar ao pecado, usados pela rainha e mais damas da corte, nem o passeio de circunspectos bispos e luzidios nobres pelo palco se iriam assar pessoas.
Claro que o ar com que assistiam à gala era grave, mas curioso da festa em que as chamas engoliam os gritos. Calavam-nos tão completamente que deles ficava apenas o cheiro, diz-se que nauseabundo, além do lixo que as vidas deixam quando se vão.
Entre as duas festas, a dos judeus e a dos cristãos, a ciência ainda não escolheu qual a mais cruel: se o esplendor das labaredas se a sovinice duma tosca cruz onde se pregavam e espetavam pecados e pecadores.
Mas, como uma igreja é filha da outra, bem se pode dizer que tal pai tal filho. Ou tal mãe tal filha.
Os Clubes da Política
Em política recuso-me a ter clube. Poderia até votar nas eleições de todos os partidos e escolheria sempre o candidato que a honestidade aconselhasse.
Por isso que no PSD votaria em Marques Mendes. Depois do despassaramento santanista era de obrigação. Escolher Menezes pareceu grave risco à honestidade. O homem deu a impressão de ter um carreto fora do lugar. Ou dois.
E Marques Mendes não. Fala até o politiquês corrente, o daquelas frases redondas cheias de vazio, mas di-las com convicção. Homem a mostrar que não brinca em serviço. Portanto antes ele que outro.
Agora, tirando-lhe a convicção não lhe sobra grande coisa.
E, sendo pequeno de mais para chegar a papagaio, fica-se por periquito. Mas repete as palavras muito bem. Será portanto um periquito amestrado. O qual, falando da Administração Pública, repetiu isso que está na moda dizer: o isso que os empresários querem ouvir, o isso que o liberalismo defende para já, o isso da reacção. Convenha-se então que, mesmo para periquito não foi muito original. Embora tenha a chamada ideologia de ouvido. De onde se depreendeu que ignora que, em Portugal, a instituição Administração Pública nunca funcionou. Que foi sempre dominada pelos governantes. Dominada, infiltrada, esmagada. E que, em consequência, levará muito tempo e muito mais estudo até se perceber o que fazer dela. Como a remendar. Como reformar.
Daí a naturalidade da interrogação a querer saber onde trabalhou este homem, que só sabe periquitar.
Parece que trabalhou em lado nenhum, mas dá uma mãozinha na política. Ou seja, outro político de aviário.
Santo Deus! Está a ser cruel o destino deste Portugal, crucificado na política e assado por aprendizes da governação.

sábado, abril 16, 2005

A Entrevista

José Sócrates apareceu a falar dos seus projectos, do seu governo, em entrevista a Judite de Sousa. Foi esta semana, que agora termina. Que dizer desta entrevista? O primeiro-ministro esteve ao seu melhor nível, a revelar bom senso, conhecedor dos dossiês, sem fazer da crise - que toda a gente conhece - motor da conversa e, ao contrário, tentando fazer passar a mensagem de que é no crescimento económico que está a solução.
O que dizer da entrevistadora? Sempre com o mesmo jeito, procurando na pequena política um título para os jornais do dia seguinte. Sempre o mesmo tipo de perguntas, com intrigas subjacentes, mas já gastas, já velhas e revelhas.
Perguntas sobre problemas sérios, concretos, nada.
Por exemplo: a questão da segurança, não se resume a um caso de polícia, como parece ser interpretado por José Sócrates e a sua equipa.
Estão a criar-se ilhas perigosas em Portugal, nomeadamente em Lisboa e uma das culpas mais fortes desses territórios perigosos tem a ver com a lei na nacionalidade, que considera estrangeiros milhares e milhares de jovens que aqui nasceram, aqui vivem, aqui fizeram amigos, mas a quem a lei continua a considerar outra coisa qualquer.
Como é que estes jovens, classificados à partida como estranhos à sociedade em que vivem se podem integrar na nossa sociedade. A lei convida-os objectivamente à marginalidade, praticamente sem alternativa. É um problema grave, de que ninguém fala.
Porque é que na preparação da entrevista a jornalista não detectou esta questão e tantas outras que ficaram por colocar ao primeiro-ministro, cuja disposição era a de, aparentemente ,esclarecer tudo?
Francamente, Judite, que interesse tem, agora, saber se este ou aquele ministro foram a primeira escolha? Será que essa preocupação representa a frustação de não ter participado no habitual festival dos governos formados nos jornais, nas rádios e nas televisões?
Na verdade o país está a precisar de grandes mudanças e não é apenas na política. O governo aparece aos olhos dos portugueses com uma nova atitude, pautada pela dignidade e pelo tão citado sentido de estado, mas os jornalistas e os comentadores não conseguem acompanhar - não saem da baixa política, da pequena intriga, sempre desejosos de pequenos ou, de preferência, grandes escândalos.

quarta-feira, abril 13, 2005

Os Tempos das Músicas

Ouço Aznavour e espanto-me. Afinal, a tecnologia de hoje não me obriga a ouvir os verdadeiros infernos que as Rádios trasnmitem - nem a música, nem as conversas, nem as notícias. Basta ter o CD certo no momento. E não apenas em casa. Agora, no carro trago, entre outras músicas de outros tempos, 48 sucesssos de Juanito Valderrama, o cantor andaluz que comovia toda a Espanha com a sua voz e , muito particularmente, com o "El Emigrante", que Franco, num golpe de génio acabou por transformar numa espécie de hino do franquismo, depois de ter sido uma verdadeira cantiga de protesto dos espanhóis que se sentiam obrigados a procurar melhor vida e melhores dias noutras paragens.

Assim como eu que procuro noutras músicas um complemento para o conforto de quem se sente bem consigo e mal com o que o mundo à volta proporciona.

Para me sentir ainda melhor recordo a voz de Mayza Mataratzo, a feiticeira de voz cálida, de quem nem os brasileiros já falam. A par de músicas de outros tempos - que seriam de hoje se as editoras se dispusessem a isso e os homens e mulheres da Rádio fossem mais cultos, mais informados, também visito João Loio, um verdadeiro proscrito da música portuguesa

Deste modo esqueço a política, a pequenez da oposição e o tamanho da desesperança, que, ou me engano muito, ou está retomar o seu lugar no centro do Mundo.

domingo, abril 10, 2005

Os "Problemas PSD"

A seis de Dezembro de 2004 eu dizia aqui neste blogue que Santana Lopes era um problema do PSD e desejava que os dirigentes sociais-democratas o conseguissem resolver rapidamente . Hoje, no segundo dia do Congresso Social-democrata, a decorrer em Pombal, renovo a pergunta e repito a dúvida. Acho que o PSD vai substituir o problma Santa Lopes por um outro chamado Marques Mendes. A dificuldade está em que este arrasta muitos outros, enquanto que o Pedro se encontrava com todas as suas ramificações na "nigth".
Para líder de transição, o "metro e meio" está a arrastar muitos "pesos pesados". O PSD, definitivamente, está sem elasticiade mental e o mal é dos negócios.
Sem ler até final repito aqui o post de Dezembro de 2004.
Santana é um problema do PPD/PSD
A vida política portuguesa das últimas semanas atinge as raias do burlesco, mas tem um lado trágico-cómico que confrange pelo ridículo que revela. As reuniões dos estados-maiores dos partidos, os comunicados dos porta-vozes, as jogadas de antecipação percebidas pela recusa de falar com os jornalistas, a quem - entretanto - se comunicou, evidentemente, a existência de uma reunião. O que é preciso é o folclore das câmaras.
Os editores das televisões ainda não perceberam que não vale a pena mandar o microfone com o respectivo pé - basta a câmara para filmar os senhores, umas vezes com berrantes gravatas, outras com fatos desportivos a evidenciarem o como estão confrotáveis na pel e de políticos em fim de semana e quase a entrar de férias.
O CDS/PP vai ganhando as várias jogadas a que já assistimos e ainda não mecheu nenhuma peça importante. O PPD/PSD parece um clube da Segunda divisão a tentar não descer à terceira e impossibilitado de fazer uma chicotada psicológica - vai ter que sofrer até ao fim com o mesmo treinador.
Para o PPD/PSD no seu conjunto este cenário é um verdadeiro pesadelo. É que este partido é apenas um agrupamento de interesses e de pessoas com especial apetência para o poder. Basta veririficar que dos quase 31 anos da democracia portuguesa, 24 foram inteiramente dominados pelas suas siglas. E mesmo os seis anos de governo do PS têm, em muitas áreas, especialmente em empresas decisivas, o seu carimbo.
Pela primeira vez - se os homens que representam os interesses que os têm segurado no poder, nada fizerem - os chamados sociais-democratas vão iniciar uma longa travessia do deserto, um deserto tão agreste que pode implicar consequências catastróficas para os tais interesses e para os tais grupos de homens.
E tudo isto porque não conseguiram perceber na altura certa que mais lhes valia perder o poder por uns tempos, do que apostar num líder em quem ninguém confiava, um homem sem obra, só com conversa, conversa sem ideias.
Nem como dirigente desportivo conseguiu realizar nada. Como Presidente da Câmara da Figueira da Foz deixou um buraco de dívidas tão grande que o seu sucessor não tem feito outra coisa que pagar os calotes que por lá ficaram. De resto, ao relatório do Tribunal de Contas sobre a gestão de Santana na Figueira da Foz nunca foi dada nenhuma publicitação.
Eram os tempos em que dominava, de uma maneira ou de outra, a comuniucação social, a mesma que julgava poder continuar a dominar como primeiro-ministro - mesmo que para tal tivessse que recorrer à JLM e Associados para montar uma central de comunicação.
Só que os métodos da JLM, se chegaram para tirar o Fernando Lima da direcção do DN, não conseguiram eliminar o José Rodrigues dos Santos - que conhece bem um dos associados do João Líbano Monteiro.
Se os tais métodos conseguiram manter no ar, quase em permanência, alguns dos ministros de Santana, foi porque, entretanto, as redacções foram sendo invadidas por jovens jornalistas PSD's desejosos de servir os chefes e, às vezes, mais do que chefes.
Todavia, nas redacções dos Órgãos de Comunicação Social, existe uma desconfiança generalizada relativamente aos "colegas" que mantêm contactos com os "associados", uma desconfiança que leva os profissionais com estatuto, com nome e currriculum a ignorar pura e simplesmente as "notícias" provenientes dos seus vários agentes
O resultado do falhanço da única estratégia que Pedro Santana Lopes tinha - o controlo da CS - é esta peça trágico-cómica em que, se por um lado o CDS, o partido mais pequeno da coligação, anuncia que está a elaborar o seu programa e as suas listas para concorrer sózinho, o PSD fala de uma plataforma eleitoral sem contornos definidos.
Os portugueses vão ficando esclarecidos e aliviados, já que o problema chamado Pedro Santana Lopes deixou de ser nacional- ele é apenas do PPD/PSD. Pode ser que os sociais-democratas portugueses se redescubram durante os caminhos que os hão-de levar à inevitável solução, ainda que demorada.
posted by M.Pedrosa

sábado, abril 09, 2005

A Igreja Católica

Agora que o Papa João Paulo II foi a enterrar e os cinco milhões de peregrinos voltaram a casa, analisemos, ainda que muito ligeiramente, os últimos 26 anos da vida desta Humanidade que, na sua quase totalidade, prestou, ao que parece, sentidas homenagens ao chefe da Igreja Católica.
Dizem os correspondentes que pelo Vaticano passaram representantes dos maiores estados do Mundo - e dos pequenos também - numa demonstração inequívoca de admiração pela figura do Papa dos últimos 26 anos.
E o que aconteceu à Humanidade nestes últimos 26 anos apesar dos apelos incessantes do Papa à Paz, contra a pobreza, a favor dos explorados, da dignificação da pessoa humana, contra ódios rácicos, religiosos. O que aconteceu?
A prática da guerra preventiva foi um facto ocorrido por diversas vezes, umas mais evidentes e destruidoras que outras. Vários povos foram praticamente dizimados com o assentimento dos estados poderosos que mandaram os seus representantes ajoelhar junto a Karol Jtyla, já despojado de todo o poder, mesmo o da sua grande capacidade crítica.
A fome não pára de aumentar. Os números já são tão assutadores que as estatísticas oficiais apenas os referem vagamente ("à volta de...cerca de...").
As diferenças sociais cavaram nestes últimos 26 anos um precipício ainda maior. A Humanidade está cada vez mais dividida entre os muito poderosos (cada vez menos) e os completamente deserdados (cada vez mais).
Ora, tendo sido o Papa João Paulo II o grande arauto dos valores sociais da Igreja - reconhecido por todo o Mundo na hora da sua morte, temos, necessariamente, que perguntar pelo real poder desta Igreja, que nada conseguiu mudar apesar de o seu chefe ter tido, depois de morto, o mundo de joelhos perante a sua memória.
A Igreja Católica não passa de um palco para representação de grandes e pequenos espectáculos, sempre cheios de rituais desligados da realidade e onde a riqueza espanpanante demonstra que os actores em cena não conhecem as misérias dos bastidores, mas combinan perfeitamente com os rituais dos senhores da guerra, dos criadores da pobreza e dos pobres. A Igreja Católica, se com um chefe tão prestigiado, não conseguiu alterar nada, vai fazer o quê a partir de agora?
Não estará na altura de jogar o guarda roupa e os cenários fora e montar outro tipo de espectáculo?

SEMANA DE LUTOS RUIDOSOS

Já muitos papas morreram. Já muitos deuses até, alguns caídos em completo esquecimento. Nenhum porém com morte tão troante como João Paulo II. Um papa de multidões, verdadeiramente "urbi et orbi". Já muitas insignificâncias morreram. Até muitas significâncias também. Aliás, uma vida que é de morrer, a morte mora com ela. É o seu outro lado. A Terri Schiavo, que não era morte nem vida, o que lhe aconteceu dois dias antes de Karol Jtyla?Nada que ela soubesse, mas um nada que correu mundo em barulhenta discussão.O homem adora casos.

O Papa Pop

K.J., depois de Papa, arrastou multidões. Nessa elevada função, comparativamente, teria sido mais popular que os Beatles. Tão contestado como eles, foi talvez mais adorado.E com razão.Correu extremos: teve a coragem de pedir desculpas pela violência da Igreja, faltou-lhe a coragem para colocar a mulher no lugar que lhe compete como ser humano. Deixou-a tão ostracizada na Igreja como a encontrou quando chegou ao seu cimo.Festejou a queda do comunismo e ao mesmo tempo que alertava para o capitalismo selvagem.Foi um herói quando afirmou que, enquanto as igrejas se mantiverem em guerra, não haverá paz no mundo. Faltou-lhe todavia centelha para, em simultâneo, divulgar que, enquanto as economias se encontrarem em guerra, a paz é um impossível.Em verdade foi o que foi, aquilo que era. Alguma coisa ou coisa pequena, depende.

A vida da morta

Terri Schiavo tinha uma vida vegetativa, ou viveu a sua morte como vegetal?Ninguém sabe, nem ela própria soube.Um dia a ciência saberá. Agora, porém, como as coisas estão, não vale a pena gastar latim com isso. O espanto é neste mundo, nesta carnagem diária, no preciso momento em que balas matam vidas, a histeria colectiva por se deixar morrer uma morte!Os rogos, os choros, as indignações, os insultos até, a tanta coisa por nada, num viver desumano em que se mata por tudo desde o petróleo à raiva, e se morre enquanto se espera pelo pão que não virá.Se toda a histeria pela morte duma morta tivesse graça seria humor negro, não tendo nem ponta de chiste será apenas negra da cor da tristeza. Pena desta gente, desta multidão que vive metida na crueldade e colabora nela activamente ou com a indiferença. O homem continua tão pequeno que a sua moral não passará de tão vegetativa como a vida de Terri Schiavo acabada de morrer.Ou seja, continua a viver por caminhos longe da pessoa humana.

A reza do falcão

W. Bush terá sido dos cristãos que menos importância deu a João Paulo II. Relativamente à função que lhe calhou por ser filho de seu pai, a Presidência dos Estados Unidos da América, foi-o com certeza.Nunca lhe tomou um conselho, nunca lhe satisfez um pedido, ignorou-lhe a palavra, e desprezou pura e simplesmente as críticas, umas claras outras implícitas, com que o Papa procurou amaciar um pouco a dureza cerebral que, segundo os cristãos, Deus lhe ofereceu para ser o homem menor que é.Pois não obstante, ainda o corpo de Karol não tinha partido desta para melhor, já corria mundo a notícia de que W. Bush rezava pelo Papa. Rádios, televisões, jornais, todos os comunicadores sociais informaram. Era bom que Deus existisse, era. Para julgar a ofensa. O mal do mundo é que os cristãos não acreditam nEle. E não têm medo dEle nem enquanto palavra nem como Ser Divino.

O lobo Wolfowitz

Wolfowitz foi o rosto, talvez mas lupino, da administração Bush na fase agressiva do seu imperialismo. Fracassada a experiência imperial, houve que recolher a agressividade, abrandar a velocidade, serenar os ânimos, mudar de política. E abandonar o papel do lobo-mau. Por enquanto.Em consequência do que houve também que escolher cantos onde acoitar os lobos. Tarefa de onde resultou a nomeação de Wolf para chefiar o Banco Mundial. Lugar que aceitou com a boa vontade que o vencimento que vai auferir desperta.Razão por que a luta contra a pobreza passou a ser a sua grande prioridade. Já não o fazer a guerra, já não o fazer pobres, a imensidão de pobres que fez com a aventura no Iraque. Agora, esse fazedor de pobres trata da luta contra a pobreza.Já agora, ao menos que aproveite o lugar a ver se acaba com a pobreza, já nem se pensa no mundo, apenas nos Estados Unidos. No seu país. Na pobreza de que curiosamente ninguém fala. Mas que, dizem os presidentes de câmaras como as de Nova Iorque, Filadélfia e mais cidades importantes, assume números cada vez maiores. Para eles assustadores. Quem diria ?...

Pouca-terra,pouca-terra...

Nestas coisas ferroviárias não sou de fiar. Sou um doido por comboios. Fiquei atento quando ouvi que a CP (façam o favor de não me lembrar que já não é, já não há, ou há mas pouco) é a CP e pronto.O pronto quer dizer que sou retrógado compulsivo, mas de comboios, já entenderam que eu gosto. Isto a propósito de ter ouvido num dos noticiários que extravasaram do óbito papal, em que se dava conta que a CP ia dar bilhetes à borla para promover o tráfego ferroviário entre Sintra e Lisboa. A ideia, tanto quanto dá para perceber é mostrar como os comboios são mais cómodos e as linhas permitem melhores perfomances.
Mas o problema não é esse. O comum das criatures que viaja de carro, dos arrabaldes para a cidade e, depois, ao fim da tarde, em sentido inverso, fá-lo porque, efectivamente não tem alternativa.Porque para o comboio, Sintra é a estação. Sintra, Cacém, Queluz, Amadora, eu sei lá, não são uma coisinha à volta da gare do comboio. Os municípios locais estão preocupados com as urbamizações intestinas, e não muito com o comboio que vai para Lisboa.
O comboio da ponte também é giro, mas Almada não é o Pragal. A questão não está no comboio. esse circula bem, sem engarrafamentos medonhos. Mas como chegar à estação, de forma expedita? Metro por baixo não há e por cima não há muito. Sítio para deixar o carro é o chamado inferno, para encontrar e parking a pagar. Quem se pode dar a esse luxo, não mora daquele lado do Tejo. Ninguém vai habitar para lá de Oeiras, para ter um jardim. Ninguém vai para o Cacém por apreciar o urbanismo tresloucado e quase criminoso, que por lá se pratica.
Para retirar os carros da IC não sei quantos é preciso ter onde deixá-los, junto à estação. Sendo as coisas o que são, os autarcas locais, as CP's, não conseguem, por si, ir longe. A mentalidade dos senhores engenheiros e doutores não é a de fazer o bem sem olhar a quem. Hoje em dia um parking só se entende como um negócio.
É altura de entender e procurar resolver o problema. Um problema que não é só dos arrebaldes de Lisboa. Um bilhete gratuito no comboio não leva longe. Um passe mensal, cujo preço incluisse um lugar no parque de estacionamento, isso sim, isso podia mais facilmente descongestionar a IC19.
E uma data de outras IC's

quinta-feira, abril 07, 2005

Primavera

Dei por mim a ir à cidade e não comprar um jornal. Estive a olhar para imagens do passado e deixei passar os telejornais, sem enfado. Não tive grande pachorra para ver a bola e no intervalo
fui jantar. De manhã espreitei um matutino e só vi os títulos. Rainier foi-se, na sua vez.
Manhã amena, tarde soalheira e dei por mim tranquilamente a interiorizar que não dei por que se falasse do governo, pelo menos que despertasse a atenção. Patinhei pelo jardim da patroa, florido. Rainier? Ah!,pois! Foi o sujeito que casou com Grace Kelly. Tiveram duas filhas castiças e um filho, menos badalado, que vai ter que ser príncipe. Pois, pois, cada um é para o que nasce.
O mais surpreendente é que me senti bem disposto. Nem me ocorre o nome dos ministros. Deve ser chato um ministro da Educação chegar, praticamente com as escolas no último terço do ano ou um ministro do trabalho entrar com meio mundo no desemprego. Um ministro que manifestamente já começou a trabalhar é o das finanças. Já me escreveu a mandar-me uma factura sobre um vago imposto municipal sobre imóveis. Onde é que está a pressa, homem? Se são imóveis, não se mexem, não fogem. E os municípios, coitados, que é que eles vão cobrar, o custo da insularidade ou o imposto sobre valor acrescentado? Nisto de valor acrescentado são todos bons, é vê-los a acrescentar zeros a torto e, sobretudo, à direita!
E por falar na direita, o sr. Berlusconi está a aprender a não se rir de santa Ana, porque, não tarda nada, vai precisar de todos os santos ou de uma câmara qualquer, embora ele, como está cheio de SIC's, pode experimentar dar uma de comentador à maneira de um que a gente cá tem, mas que já teve mais saída do que vai tendo.
Estava a tentar não me esquecer de não me lembrar dos chineses. São muitos e não dá jeito falar deles, mas como Bush vai ao funeral e Fidel é como se já tivesse ido, os pêsames da China são qualquer coisa. Acho que está certo, sempre assim foi.O que melhor define os artistas è a lata. E a este trio, lata é o que menos falta...
E de lata estamos falados, E se um dos ministros que lá vai cumprimentar George Bush...Paciência!

terça-feira, abril 05, 2005

Ricardo Salgado Quer Ser o Dono do Negócio

O "Jornal de Negócios" de hoje reproduz partes da entrevista que o presidente do BES, Ricardo Salgado, deu à RTP 2, no último Sábado, destacando as afirmações respeitantes à PT, "à vulnerabilidade da PT".

Ricardo Salgado traz, de mansinho, de novo, à baila o fantasma espanhol, avisando que a PT pode vir a desaparecer, evidentemente, sob o gigantismo da Telefónica.

A estratégia do banqueiro, que aparece envolvido em todos os grandes negócios deste país e doutros, como por exemplo do Chile de Pinochet, é óbvia.

Este governo - ou outro qualquer, isso não interessa - tem que perceber o fundamental da sua mensagem , repetida o número suficiente de vezes para ser entendida: o BES não pode fazer nada para contrariar o que parece inevitável (tomada da PT por um operador estrangeiro, particularmente pela Telefónica), a menos que sejam levantados "os constrangimentos impostos aos bancos" nas participações não-financeiras.

Isto é, o BES não quer limites à sua participação financeira na PT - e o mesmo em outras empresas - para poder determinar o seu futuro.

E que futuro será esse?

Com mãos livres, o BES fará o que sempre faz: vende com grandes lucros aquilo que reivindica do Estado a baixos preços, como estratégia para a" salvação nacional".

De resto, não deixa de ser curioso que Ricardo Salgado saliente o facto de a "PT se estar a bater contra gigantes", citando a Vodafone, quando toda a gente sabe que ele foi um dos que vendeu à Vodafone a sua participação na Telecel, uma empresa congeminada a partir de um a licença gratuita, concedida pelo Governo de Cavaco Silva, com o objectivo de desenvolver as telecomunicações em Portugal.

Só que a proibição da sua venda tinha um prazo e no dia seguinte o BES e o Grupo Amorim realizaram as suas mais valias.

Mais valias conseguidas à custa de um Estado suficientemente ingénuo para dar o que devia ter vendido, mas, mesmo assim, legítimas à luz das leis do mercado.
Ora, se o mercado se regula por compras e vendas legítimas, onde está o problema de a PT ser adquirida por um grande operador de telecomunicações estrangeiro?

Não foi essa a lógica da privatização da PT? Quando o Estado afirmava querer ficar com , pelo menos 25 por cento do grupo, para o poder defender das ameaças agora evocadas, bancos e banqueiros protestaram.

Que melhor protecção pode ter a PT do que ser integrada num grande grupo de telecomunicações, com capacidade de eliminar as participações que implicam mera especulação financeira?

Parece evidente, para quem tem acompanhado os últimos anos da empresa que a PT já não é uma unidade de excelência no domínio da tecnologia, mas antes mais um grupo financeiro, que gere os seus activos de acordo com as tais leis do mercado.
O que o BES quer parece claro: aumentar a sua participação directa no Grupo Portugal Telecom, com as acções a baixos preços, e vender, quando os tais gigantes, agora adormecidos, despertarem.

Nessa altura, Ricardo Salgado aparecerá a defender o negócio com as máximas de sempre: são as leis do mercado; vivemos num mundo globalizado.

Para Salgado este é ainda o tempo de esgrimir o pior fantasma que se pode agitar em Portugal: Espanha.
E diz ele que não é político.Também não é piloto e usa aviões especiais para negócios especiais.

segunda-feira, abril 04, 2005

O pranto

Pronto para o funeral. Fica-se assim no fim, inevitável. Nem sei quem foi que disse que a morte é a única certeza da vida. A vida, sim, a vida é um mistério. Depois de ter feito milhares de quilómetros de avião, de barco e de comboios, de tantos e tantos nos autocarros e eléctricos da Carris e de patinhar a pé tanta e tanta rua de tanta parte do mundo, descanso tranquilamente em casa, sem pensar nos mistérios nem no inevitável, ainda sem pressa, mas sem ilusões. No entretanto, com natural desgosto fui perdendo os antecedentes familiares e numerosos amigos.
Com mais ou menos surpresa, com mais ou menos desgosto.
Mas esta naturalidade, do nascer, crescer, casar, ter filhos e depois netos e por fim morrer, já não vai sendo muito comum. Cada vez há mais excessos de velocidades ou de mau humor. Cada vez há mais armas com mau uso, extremismos sanguinários ou alcoolismo desordenadado. Em nome de tudo, da liberdade, da fé ou da esperança se mata e se morre. Tanto se mata por ciúmes como para almejar uma carteira.
Mas se, efectivamente houvesse uma vontade divina de pôr termo à violência, de nos privar do desejo pelo fruto proíbido e encher de beatitude e desportivismo os adeptos do futebol, mesmo assim, todos nós acabaríamos de igual modo, na hora que nos estivesse (esteja) determinada. De facto é justamente para isso que viemos e por cá vamos andando.
É por isso que o mediatismo pela morte do Papa me exasperou. Não havia jornal e ainda menos telejornal que se pudesse suportar. Não havia notícias, nem intrigas, nem chegadas e partidas, nem jogadores lesionados ou cheios de saúde. Só a morte de um ser humano, de há muito preparado para o desenlace.
Para as TV's foi, vai sendo, uma festa. Um explorar entre o mórbido e o excessivamente comercial e sem contemplações por quantos querem saber como é que o mundo vai pulando e avançando.A resposta do outro lado era a esperada:quem quiser, que espere. Notícias só depois da pub, dos quilos e quilos de pub.
Pelos jornais tem sido o mesmo. Notícias e comentários, como se definitivamente a oeste nada de novo. Bom, se estás em Roma, sê romano.O problema é que não posso. Não sou crente e tudo quanto sei sobre papas foi o que li de Roger Peyrefitte, pouco recomendável para citar nesta altura. E do que me recordo de João Paulo II é das viagens, de o ver nos noticiários a descer de aviões e beijar o chão das aerogares. Retive de memória (e a minha já não é o que era) que ele
ficou a dever e muito a Less Walesa a nomeação, embora do sindicalista polaco já não reze muito a História
A saltitar de canais, à pesca de algo e como via o mesmo, dei por mim a cair no fado e trautear como Carlos do Carmo "por morrer uma andorinha, não acaba a primavera". Valeu que, finalmente, deparei com a TVI a dar o Benfica-Marítimo e lembrando-me da opção devota de Cavaco Silva pela TVI, senti-me no dever de concordar com a crença popular que assegura que Deus é bem capaz de escrever direito por linhas tortas...
Mas foi já bem à noite, quando fui ler a entrevista deliciosa de Cruzeiro Seixas, num dos suplementos do DN, que me reconciliei com a vida. Um dos raros sobreviventes do movimento surrealista, trazido para Portugal, que está, agora, a trazer a lume a sua poesia, tantos anos escondida, dizia: "Eu já não tenho futuro. O meu futuro é o cemitério. Com oitenta e quatro anos
já não há futuro. Agora, gostava de me ir embora com uma visão melhor das coisas e do mundo"...
Quem é que não gostava?

sábado, abril 02, 2005

RANGEL- As Mentiras E Omissões De Uma Estória

Costuma dizer-se que uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser verdade: Há muitos exemplos na História e nas estórias de alguns homens públicos.
Ao longo dos últimos anos, que, reparando bem, já são muitos, Emídio Rangel, quando é entrevistado, repete - sempre da mesma maneira - muitas mentiras que já fazem parte da sua biografia oficial.
Não tenho nada contra o modo como ele tem construído a sua vida , a sua carreira ,e até reconheço e aprecio a sua marca nas principais mudanças na maneira de fazer Rádio e Televisão em Portugal.
Por isso não me proponho analisar todas as mentiras repetidas sistematicamente - algumas delas são mesmo pequenas mentirinhas - nem alguns dos seus métodos de trabalho, onde os fins normalmente justificam os meios.
Todavia, já estou cansado daquela estória - que está a virar História - da fuga heróica de Angola.
A verdade é que Emídio Rangel fugiu como dezenas de milhares de outros colonos, no contexto de uma conjuntura política que não entenderam e com o medo natural de terem que suportar uma guerra que achavam não lhes dizer respeito.
Estava, portanto, no seu direito - fugir.
Mas, a fuga de Emídio Rangel não foi uma simples fuga. Foi, igualmente, uma traição, já que, ao contrário do que sempre vem afirmando ao longo dos anos, ele era um militante "engajado" do MPLA.
Também ao contrário do que sugere em todas as entrevistas, os tiros que aconteceram na madrugada em que fugiu não eram surpresa para ele, uma vez que sabia dos planos para o início da guerra entre os então movimentos de libertação( MPLA contra UNITA/FNLA).
Ele sabia dos planos e, nesse contexto, tinha assumido responsabilidades de comando de um grupo de soldados praticamente sem experiência, que acabaram por se bater sózinhos nesssa guerra, iniciada na madrugada de 20 para 21 de Agosto, altura em que ele fugiu, traindo os homens que deveria ter comandado.
Apesar da fuga dele (planeada durante meses - soube-se depois), o MPLA ganhou a contenda e a 23 de Agosto UNITA/FNLA assinaram a rendição.
Também contrariamente ao que ele sugere, o exército sul-africano não estava ainda em território angolano. É verdade que se tinha concentrado na fronteira, mas, do ponto de vista dele, o perigo acabava logo que passasse a linha.
Quanto às ameaças - que lhe foram transmitidas "por um jornalista ainda hoje na RDP de Coimbra" não é, seguramente, mentira, mas uma verdade para dar côr à estória. É que todos os militantes do MPLA, sobretudo os que, por alguma razão especial se destacavam na vida da cidade, foram ameaçados, quer pela UNITA, quer pelas BJR's da FNLA. A alguns deles fizeram pior: ameaçaram-lhes os filhos.
Só mais um pormenor relativo a esta estória, que sendo uma pequena mentira, não deixa de ser uma grande injustiça:; quem o salvou das garras da secreta sul-africana, que o tinha idenficidado como militante activo do MPLA, foi um outro colega de profissão, de nome Diamantinmo Pereira Monteiro, esse sim sem qualquer ligação política e que arriscou ficar preso em sua substituição, e por isso, teve que suportar por mais algum tempo as condições horríveis dos campos de "concentração" em que foram armazenados os colonos fugitivos de Angola.
Como se vê, as omissões também fazem parte desta estória de Rangel, contada em capítulos oportunos.Além do nome de Pereira Monteiro, há o de Mário Gomes, o tal piloto que levou os pais de avião para Whindoek e o de Saraiva Coutinho, o "ainda hoje jornalista da RDP em Coimbra" .
Na entrevista da revista "Sábado" que me fizeram chegar via Net, Rangel não se refere ao 25 de Abril de 1974, mas, já agora, não quero deixar passar uma outra mentira muito propalada em outras, nomeadamente uma feita por Batista Bastos. Emídio Rangel não era o director da Rádio Comercial de Angola naquela altura e, por isso, não deu instruções nenhumas para que a Revolução de Lisboa fosse noticiada.
Por acaso até conheço a pessoa que era director daquela estação de rádio ao tempo e bem me lembro que ela se transformou, nesse mesmo dia, na primeira voz livre de Angola.
Quanto a outras mentiras que "o velho leão" tem vindo a propalar: é preciso cuidado, porque as pessoas podem cansar-se. Tal como dizia Nheru, referindo-se à ocupação portuguesa de Goa, Damão e Diu: não se pode confundir pacifismo com cobardia.
Alguém avise o Emídio que é melhor servir-se dos seus méritos, das suas qualidades de grande condutor de equipas (desde que não seja contestado), que são muitas, do que continuar a efabular com coisas que já passaram há muitos anos e que só já têm importância para os que, lembrando-as, voltam a sentir-se miseravelmente traídos. E depois, há um perigo de as verdades se trasnformarem em cerejas.
E já agora: fico desejando que recupere completamente dos problemas de saúde que o têm afligido e que volte às lides, para, pelo menos, fazer justiça a alguns amigos (verdadeiros), de quem sempre se serviu para, depois, atirar para o caixote dos ostracizados, uma condição que agora reclama para si próprio, mas que não é verdadeira - outra pequena mentira...


sexta-feira, abril 01, 2005

DEPOIS DA SEMANA SANTA

A Páscoa, para os cristãos, normalmente os que se dizem isso, é um segundo Natal. Um lavar de consciências. Um sossegar o espírito com uma lágrima vertida à lembrança do sacrifício do Cordeiro de Deus. Depois dela é o que se segue. O que se sabe. O pecado nosso de todos os dias. Meses, anos, com um Natal e uma Páscoa para quietação nossa.
Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós agora e na hora da nossa morte. Amém.

Má Páscoa - I

Má para algumas terras desta aldeia portuguesa. Constou que bastantes. Mas isso foi um constar. Ao certo nunca se sabe.
É que com a chuva que molhou o dia da Ressurreição, e com os salpicos de antes, falhou a luz. Em duas importantes vilas (quase cidades) seguramente que sim.
Tal como nas vilórias perdidas pelos matos do Antigo Império Colonial Português. Iluminadas, quando eram, por um motor a gasóleo, que o senhor Gonçalves ou Tavares, seria Mendonça?, comandava com mão de mestre feito pela prática.
Falava-se com ele, ele estava ali, Senhor Mendonça, então?- Vai já, ou então, ainda demora um bocado, eram os dois tipos de resposta mais frequentes. Quando não estoirava uma peça e havia que esperar pela de substituição, que talvez chegasse num depois, que ele, Gonçalves ou Tavares, calculava. Mais mal que bem, mas falava, explicava, dava esperanças.
Agora não há o senhor. Há o não se sabe quem, duma escala hierarquica, que não se sabe qual, encimada por uma desconhecida trupe administrativa. E a luz vai faltando por tempo indeterminado sem responsáveis. E sem responsabilidades.
Os prejuízos também são indeterminados, porque ninguém faz as contas. E indetermináveis porque ninguém se queixa.
Esta ex-metrópole do ex-império do que precisa mesmo é duma colonização da responsabilidade.

Má Páscoa - II

E, faltando a luz, os telefones desregulam. Alguns, porque apenas uns. E, se uns, os outros não. Então telefona-se do vizinho do lado ou da vizinha da frente.
Não ao senhor Gonçalves ou Tavares, talvez Mendonça. Telefona-se a uma máquina que nos manda carregar no algarismo 1 se tem problemas no útero, no 2 se se sofre da próstata, no 3 se a erecção fraqueja até que se vai dar a um cemitério onde uma fala de cangalheira pergunta do que é que se queixa e, depois de ouvidas as queixas, com voz maquinal-tal-qual recita que o seu pedido vai ser atendido logo que possível.
E pronto. Estou à espera do que é possível com o telefone avariado desde sexta-feira. Hoje é quinta e continuo a receber chamadas sem poder fazer chamadas. Quem responde por isso? Quem me indemniza por isso?
A EDP e a PT respondem, com os bastos lucros que arrebanham anualmente, pelos prejuízos que causam aos portugueses e à Nação portuguesa? Há alguma forma expedita de pedir responsabilidades? Os senhores da privada que quase já tomaram conta dos bens públicos, porque competentes, eficientes, convenientes não pensarão ao menos ser um dia tão esclarecedores e eficazes como o talvez Mendonça?

Boa Páscoa

A propósito de um negócio qualquer com armas, compra de armamento ou coisa assim da guerra, a televisão, talvez a oficial, correu imagens do ex-ministro-da-guerra, ex-Paulinho-das-feiras, actualmente Paulo Portas a passar revista a uma guarda de honra.
Aquilo é que era farfalhudo! De fato domingeiron(o senhor deve ter mais fatos que domingos tem o ano) olhar ausente, estatal, cerimonial, as aletas do nariz em pose solene, a zabumba rufando a preceito e ele de glúteos a dar-a-dar, tão ao som das pancadas do bombo que aquilo era a imagem do fingimento a fingir. Correcta.
Um espectáculo.
Graças a Deus sem repetição. Que Deus repita o milagre de todas as Páscoas como esta. Dele só em imagem.

Péssima Páscoa

A Europa anda em guerra, primeiro com os Estados Unidos, depois entre alguns dela com toda ela. A questão é a criação do mercado único de serviços, e o resultado seria (se conseguissem) a passagem de tudo o que dá riqueza ao Estado para as mãos dos privados.
A riqueza do mundo foi criada à conta da exploração dos pobres. Dos trabalhadores. E os países que ficaram ricos não viram, e não vêem, com bons olhos que os demais (ex: China, Coreia) quisessem, e queiram, fazer o mesmo.
Argumentam que a concorrência desses países em vias de desenvolvimento é ilegítima porque é feita à custa dos baixos salários dos trabalhadores. Ou seja, que é feita imitando o que ela fez: à conta da pobreza portanto.
Mas a riqueza não pode hostilizar uma China, uma Índia, por exemplo. Então resolveu ressuscitar-se: voltar a explorar a sua pobreza: dum lado com flexibilizações e coisas parecidas, e doutro pondo fim às regalias sociais que, no passado, ofereceu aos trabalhadores. E agora já não quer.
O exemplo vem dos Estados Unidos, quer dizer da chusma de neos (neo-isto e neo-aquilo) componentes da camarilha Bush, assanhada privatizadora e pouco preocupada com a coisa estranha de o país mais rico do mundo ser também povoado por uma notável, em número, camada de pobres.
Esse o exemplo. Mas na Europa já se discute como seguir tal exemplo: fazer com que uma nem-crise (porque os ricos estão cada vez mais ricos) seja sustentada por quem não tem defesa: a pobreza.
Querem fechar, assim, a pescadinha de rabo na boca: com a pobreza enriqueceu a sua riqueza, e com a pobreza pensa combater a concorrência, a qual, por sua vez, à conta da pobreza própria está a enriquecer.
Pobre sofre...

Via longa

Choraminguei, ontem, por me sentir impotente face aos abusos publicitários, uma espécie de praga, surgida no Século passado, transmissível via televisão, rádio e outros meios de CS, e cuja irradicação não se me afigura possível no decurso dos anos que se vão seguir.
"Praga" é uma forma de expresão, não é uma doença, antes uma maleita que tortura a paciência e a tranquilidade do espírito.
Para entender melhor o flagelo talvez seja útil recordar os primórdios e reflectir sobre a responsabilidades dos governos dos diveros países, que aceitaram de bom grado ver alienados do Estado os custos da modernidade, que constituia a recém chegada Televisão. Isto porque não foi em Portugal que o eixo do mal começou. Na Europa, àquem- cortina de ferro, a Televisão era propriedade estatal. O Estado, o nosso, como muitos outros, lançou mais uma taxa, a da televisão, que perdurou alguns anos na maior tranquilidade, penso eu, porque são os meus anos de África, dita portuguesa, onde não havia nem taxa, nem sequer TV. Soube pela imprensa da época da primeira investida para vender espaço televisivo à Pub. A Lei vigente opôs-se, ao reconhecer que a cobrança da taxa interditava o recurso a receitas publicitárias, como já acontecia na Rádio (Emissora Nacional).
A chico-espertice à época não perdeu tempo a avançar com a solução: abrir um segundo canal, esse, sim, sem pub (e também sem outras coisas). Nada de novo. Nada que não tivesse ocorrido, em França, por exemplo, onde, e embora já dispusesse de dois canais, avançou com um terceiro, regionalizado, mas com noticiários nacionais, a hora nobre.
Em França, lembro-me, foi uma luta. Com a saída de De Gaulle, o regime democrático existente
democratizou-se um bom pedaço mais. Até então a mão segura do governo mantinha a TV na ordem e chegou a pesar sobre um dos mais populares palradores desportivos da época, que cobria os jogos da França, no torneio das 5 nações, em rugby, que foi despedido. Estava-se na ressaca do Maio de 68. O homem foi trabalhar para uma rádio, estrategicamente sediada fora das fronteiras francesas, mas que emitia para dentro delas. E quando havia jogos, transmitidos em directo, a malta em casa, baixava o som da televisão, e escutava a transmissão pelo popular locutor, que nem hesitava pôr alguma malícia na expressão, frequente; "como os senhores telespectadores podem ver"...
Haveria de regressar à TV, mas noutro canal, que não o primeiro, o que se tornou ainda mais rídiculo, pois ambos os canais passaram a transmitir os jogos da selecção francesa. Era manifesto que a maioria da audição estava na 2...
Mas foi com Giscard (estou em crer) que começava, então, a operação publicidade na tv. Os jornais e as rádios, orgãos que não sentiam qualquer peso censório, eram, por isso mesmo, poderosos e não muito receptivos a mudanças, nesse domínio. O governo viu-se forçado a negociar e fazer cedências, nos impostos, nas tarifas dos correios e outras artimanhas, mas conseguiu entrar na nova era.
É bom recordar que, nos termos do acordo, a pub não podia interromper nenhum programa, nem intervalar qualquer noticiário. Cada espaço publicitário tinha dimensão máxima perfeitamente suportável. Não durou muito. Assim que Giscard perdeu o lugar para Mitterrand
tudo mudou e continuou a mudar, e de que maneira, com Chirac no governo de Mitterrand, quando se abriu a televisão aos privados, alienando-se inclusivamente o primeiro canal.
E foi assim... Por cá foi Cavaco Silva que abriu a porta e que extinguiu a taxa de Televisão. Não ganhou com isso o reino dos céus, antes a ira de quantos lhe sucederam, que tinham de pagar a factura dos canais do Estado, que não parava de crescer. Mesmo enorme como era, o prédio da 5 de Outubro já nem tinha onde alojar os trabalhadores que não tinham que fazer. Seguia-se a saga da rescisão dos contratos de trabalho. Mas isso é outra história.. O resto todos sabem..
O último sinal de progresso, do andar prá frente deve ter sido da responsabilidade de Morais Sarmento, que inventou o regresso ao passado, acasalando a RTP com a RDP, mordendo-lhe parte da taxa da Rádio.