Domingo, Setembro 18, 2011

VIDAS

A ideia é recordar o passado vivido, deixar algo para os que ficam. Recordar e explicar o caminho que percorremos até ao hoje. Cheguei em Janeiro de 35, do Século passado. Tinha uma irmã adorada pelo meu pai. Era ainda bebé quando a perdi. Causou alguma surpresa. Pensou-se que teria sido eu.


Quando dei por mim morava em Queluz, junto à estação de comboios. Numa vila, espécie de aglomerado de casotas térreas. A guerra na Europa estaria prestes a rebentar. Um irmão chegou-me por essa altura, a tempo de já cá estar quando rebentasse, como rebentou, a guerra na Europa.


Voltei a Lisboa com algum atraso, já com 7 anos, para entrar na escola. O meu prof. durante quatro anos ensinou-me a ler, escrever e contar. Era um transmontano convicto, director e morador da escola pública e pai do João Vieira, cujo dito eu só viria a conhecer, anos mais tarde, no café Gelo...


(continua)

Domingo, Junho 12, 2011

MEMÓRIAS

Pois é! Lembrei~me, um dia destes, quando, ao princípio da noite, um dos


Noticiários televisivos relembrou uma vitória portuguesa na final da Taça dos Campeões Europeus de 1961. Foi isso: o Benfica vencera o Barcelona. Era, lembravam-nos, o primeiro grande triunfo do futebol português. Foi giro, relembrar, pois, mas ninguem se relembrou de explicar que era a sexta edição da Taça europeia. As cinco anteriores haviam sido ganhas pelo Real de Madrid.


É verdade que o Real tinha o Di Stefano, um argentino espanholado, ao qual ajuntou, algum tempo depois, um tal Puskas, fugitivo do seu país, por mór de um levantamento político.


Mas o que eu pretendi trazer foi a ideia de que relembrar o passado faz sentido


com algum equlíbrio. O Benfica ganhou e foi bonito. Mas, senhores meus, nesse mesmo dia, em Setubal, o Eusébio estreou-se, no Benfica, após uma longa disputa. O jovem tinha vindo de Moçambique de autocarro, perdão, no paquete


que fazia a ligação das colónias com a capital da nação. Tinha como destino o Sporting, mas um dos tripulantes achou por bem, à chegada a Lisboa, fechá-lo num camarote do barco e ir ao Benfica, por amor clubístico.


Foi longa a disputa. O treinador dos encarnados sofria de raiva, mas a luta era tremenda entre os, então, poderosos clubes lisboetas. O jovem treinava, lá isso treinava, mas não jogava. ´


No final da época a decisão federativa contemplou o Benfica. E o Eusébio estreou-se justamente na quarta-feira da final da Taça dos Campeões, mas em Setubal, num jogo de reservas.


Eu vi o jogo europeu, numa tasca do Bairro Alto. Vi o Benfica ganhar. Não soube se o Eusébio ganhou ou perdeu o jogo de estreia dele. Na época seguinte


ele ganhou tudo, até a Taça dos Campeões, ao Real de Madrid.


Segunda-feira, Junho 06, 2011

FORÇA! É Fartar Vilanagem

De um dia para o outro sinto-me noutro mundo, noutro país, com outra gente.

De um dia para o outro adivinho o passado, com mais de sessenta anos, em que ia à escola a pé, ou pendurado nos camions que passavam devagar nas ladeiras... com os mesmos calções, lavados de um dia para o outro, a mesma camisa, sujeita ao mesmo tratamento, de botas - que era preciso descalçar para jogar futebol .


É isso que espera este povo, quando um rapazote, a mando de uma cáfila de abutres presididos pelo chefe de sempre, pede paciência ao povo porque "afinal vai ser ainda pior do que se falou durante a campanha...

Lá se vai o subsídio de desemprego, o apoio à pobreza dos mais velhos, o subsídio de reinserção social. Lá se vão os apoios sociais que, segundo a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, preverteram o Estado Social.

Já agora, sra. dra., acabe-se também com o Banco Alimentar, com a Industria a montante e a juzante da pobreza.


Deixemos o povo pagar pelos seus pecados, um dos quais, segundo Cavaco Silva, é o de não votar. Acabemos com a Escola Pública,( mas antes, atenção! transfiramos as filhas do novo primeiro ministro para um colégio de alta linhagem...)

Não tenho paciência para os "pseudo-jornalistas" da nossa terra, para os políticos-galinha que povoam o galinheiro que começa na Assembleia e acaba nas televisões, mas muito menos ainda para estes industriais da pobreza que reclamam da "fartura".

Vá, meus senhores, tendes tudo do vosso lado: fazei regresar o país aos tempos de Salazar. Talvez assim consigam dormir tranquilos: os pobres no seu lugar, os ricos cada vez mais ricos e umas quantas senhoras a praticarem as" caridadezinhas", tão do agrado dos patriarcas,

Força!

Sexta-feira, Maio 06, 2011

O Jornalista-Polícia

Os últimos dias têm sido angustiantes. Ao ouvir as rádios, as televisões e ao ler os jornais, percebemos que a nossa gente da comunicação social está toda de joelhos. A alegria com que as desgraças foram sendo noticiadas - quanto pior melhor - foi uma verdadeira tristeza para os que continuam a ter consciência cívica, para os que não se isolaram neste pequeno espaço geográfico e continuam a olhar para o Mundo global em que - quer se queira ou não - existimos.

O culminar da angústia foi a conferência de imprensa dada pela chamada "troika"( três funcionários de instituções internacionais) em que, empurrados pelas perguntas dos jornalistas nacionais, estes três homens, com o ar de quem manda, foram ganhando coragem para fazerem considerações de carácter político acerca do nosso país.

Que nos interessa a opinião destes ficais da União Europeia, do Banco Europeu e do FMI? Por que razão temos que os ouvir. Que leva certos jornalistas a fazer determinadas perguntas? São os porta-vozes daquelas organizações que, com o ar feliz de quem foi fazer queixa ao patrão e fez todas as reivindicações e foi ouvido...?

O pior, todavia, para mim, aconteceu ontem à noite na RTP 1, com o "jornalista"- escritor José Rodrigues dos Santos - o tal que vai às guerras mas fica sempre longe - a fazer uma entrevista ao ministro das finanças. Sei que o homem dá aulas de jornalismo em algumas faculdades. Espero que os alunos dessas aulas não tenham visto a pseudo-entrevista para que não repitam nas suas vidas futuras o que aconteceu: um interrogatório mal-educado, semelhante ao de um polícia disposto a arrancar, de qualquer jeito, uma confissão ao presumível culpado.

Uma verdadeira vergonha, a somar a tantas outras que todos os dias se repetem, trambém na televisão pública, em que se nota uma "fúria" particular contra o actual poder, como que a querer libertar-se da subserviência de ainda há poucos meses...

Segunda-feira, Maio 02, 2011

Memórias Curtas

Eduardo Catroga apareceu um dia destes a fazer declarações verdadeiramente espantosas: que as novas gerações deveriam levar a Tribunal o actual Governo, que "o fartar vilanagem" de Sócrates foi a desgraça e, nas televisões, para melhor convencimento, ensaiou uma emoção húmida.

Este é o mesmo homem que - seco - foi ministro das finanças de Cavaco Silva entre Dezembro de 1993 e Outubro de 1995, o final do mandato da desgraça, em que o "fartar vilanagem" de Cavaco deu origem a vários gangs de assalto selectivo ao esforço português. Se este Catroga tivesse memória lembrar-se-ia do déficit das "suas" finanças públicas e da destruição de todo o aparelho produtivo nacional levado a cabo pelos dois governos de maioria do seu actual patrão e cujos efeitos se continuam a fazer sentir. É que, senhor economista laureado, nem sequer nos deixaram alternativa.
A haver julgamento seria para ele e muitos outros também.

Não lhe fica bem o ar de "pai natal" comovido com as criancinhas que estão a crescer. As gerações que, licenciados por Universidades enxameadas de cursos de papel e lápis com que Cavaco povoou o país, deviam pedir um julgamento sumário aos governos de finais de oitenta e meados de noventa.

Oh! Senhor Catroga! Não se preocupe com os seus netos. Com o seu curriculum, que o exibe sempre encostado ao grande capital, e com a reforma que entretanto fabricou para si próprio vão passar a rir pela crise dos outros.

Só mesmo este homem assustado com a possibilidade de continuar longe do poder me faria voltar agora a este blogue...

Domingo, Julho 04, 2010

O Regresso da Loira da Rua 48

Durante os últimos anos, abateu-se sobre a Rua 48 uma tristeza estranha; os vizinhos deixaram de sorrir quando se cumprimentavam. Parecia uma viela triste, sem sol e sentimentos. O Presidente da Junta fez todos os possíveis para, primeiro, perceber as razões por que a sua gente tinha mergulhado em tamanha tristeza. Infrutíferas, tais diligências motivaram o efeito contrário: os eleitores deixaram de apreciar o seu presidente e as eleições que, entretanto aconteceram, foram um desastre para o "dono" do bairro onde se situa a Rua 48.
Outro presidente que, sem conhecer a alegria da Rua anteriormente, não se preocupava com o ar macambúzio dos seus eleitorees. Ele já tinha como certo o cargo de presidente da Junta. E a vida foi correndo, "apagada e vil tristeza" (Camões) que foi contagiando as gentes das ruas mais próximas.
Aí, o novo presidente, a quem é preciso dar um nome para entender as razões da vitória eleitoral, portanto o Sr. João Pinto (nome igualzinho ao célebre futebolista que jogou no Sporting e no Benfica e de quem toda a gente gostava) começou a dormir mal. Por mais obras que fizesse na Freguesia, nada melhorava o ânimo dos seus ex-eleitores que, seguramente - temia ele - o não seriam nas próximas eleições.
Levantava-se cedo e percorria, muitas vezes a pé, parte do bairro para auscultar as populações e tentar descobrir o que fazer que lhe garantisse a continuação no cargo.
Um dia, já o Sol mergulhava lá para os lados do mar e ele ouviu um murmúrio indicativo de muitas vozes alegres que se misturavam na brisa de fim de tarde e que aos seus ouvidos soavam como uma partitura semelhante ao "Adágio" de Albinoni. Porque se terá lembrado ele desta melodia? E só pela lembrança sentiu-se feliz. Ele era, afinal, um presidente erudito. Albinoni. Que raio!
Aproximou-se e viu um aglomerado de algumas dezenas de pessoas que se riam e falavam, atropelando-se, tal era a ansiedade com que queriam exprimir a sua alegria. Entretanto, outras pessoas se aproximavam do meio da Rua 48 e aligeiravam o passo.
O Sr. João Pinto começou a correr e, quando chegou junto daquilo que já era uma verdadeira multidão, descobriu, no meio, uma mulher loira e bela, com uma sorriso magnético e do qual toda a gente estava suspensa.
A Loira da Rua 48, mais bela do que nunca tinha regressado à Rua da sua infância, dos seus amigos e os vizinhos exultavam. Finalmente a crise seria nada, já que a Loira anunciava aos quatro ventos o seu noivado.
Tinha regressado porque queria que seu noivo partilhasse com ela as alegrias de viver entre gente tão especial: lá estava a senhora que aos fins de tarde chegava de taxi. E também ela sorria. Aquele senhor, sempre mal disposto, sempre a protestar contra os capitalistas, tinha deixado a pena com que zurzia financeiros e governantes, para ir cumprimentar expressamente a Loira da Rua 48, que mostrava, com requinte nos gestos e elegância nas palavras e até com pudor nas atitudes, o seu belo anel de noiva.
Toda a gente queria saber do noivo. A Loira prometeu apresentá-lo na melhor altura.
Entretanto, a correr e ofegante, chegou o antigo presidente da Junta e depressa percebeu a razão da sua derrota eleitoral. A Loira era a vida daquele bairro e não só da Rua 48. Foi ela que lhe faltou durante todo aquele tempo. E não resistiu. Pediu a palavra para se dirigir à bela noiva:
Percebo agora que és uma benção que nos calhou e não apreciámos devidamente. Eras como o Tejo para o qual já não olhamos embora seja um rio tão belo como os mais belos, daqueles que levam as pessoas a percorrer milhares de quilómetros para ver; percebo agora o teu brilho, igual ao da luz de Lisboa indiferente aos lisboetas porque a têm todos os dias, mas que maravilha as gentes de fora, mesmo as que aqui chegam vindas de outras terras com luzes igualmnente cantadas pelos poetas.
E continuou o antigo presidente da Junta: acho que posso afirmar, em nome de todos os nossos vizinhos que te AMO e não te quero perder.
Amo-te na pureza do teu olhar
Amo-te na verdade das tuas palavras
Amo-te na justeza das tuas atitudes.
O povo irrompeu em aplausos e a loira deixou que uma lágrima lhe acontecesse no canto dos olhos verdes, lindos, felizes e ao mesmo tempo nostálgicos.
E disse a Loira da Rua 48: "Gente da minha rua e do meu bairro, percebo agora que fosteis injustos com o nosso presidente. Temos, todos, que rectificar o mal feito. Nas próximas eleições vamos querer o "nosso presidente".
Já se ouviam palmas e verdadeiramente a rua entrou em delírio com o regresso da Loira da Rua 48. A vida ia voltar a ser bela.

Segunda-feira, Junho 14, 2010

Recuperar Che contra a fatalidade da escravatura

Ernesto Guevara, o argentino que se juntou na Sierra Maestra a Fidel de Castro para derrubar Fulgêncio Bapptista, faria hoje 82 anos. Foi assassinado em 9 de Outubro de 1967, na Colômbia, quando tentava, de um modo desastrado e demasiado voluntarista para um homem com a sua formação e as suas responsabilidades, convencer os camponeses colombianos que tinham direito à revolta

Foi traído- como era de esperar - e as forças da direita de todo o Mundo saudaram a morte do Homem que, entretanto, sem se saber bem porquê se transformou num símbolo romântico da revolução, e todas as revoluções.
Lembro-me quer, em 1969, eu tinha na parede do meu escritório da minha casa do Lubango, sempre de janela aberta, um poster vermelho do Che. A propósito daquele retrato fui conversando com gente jovem, que, desse modo, ficava a saber o outro lado da realidade que se lhes apresentava.
Hoje, 43 anos depois da sua morte, o mito continua. Ora, eu acho que devia olhar-se para o Che doutro modo e esquecer o romantismo da boina, para o encarar como um exemplo para resolver a actual situação em que todos nos encontramos: sem Estado, entregues a um grupo de financeiros abutres e sem ninguém que ponha ordem no que quer que seja. São eles que mandam e não dão a cara. Alguns - sabe-se - que têm lindas testas, desde que os jovens da nossa terra e não só, de todo o Mundo comecem a perceber a armadilha em que caíram - bem pior do que a que foi montada para matar Che.
O Che sem boina e com um sorriso de confiança e de esperança no futuro. É para essa fotografia que é necessário olhar para acreditar que a escravatura não é uma fatalidade.
Saudemos a memória de Ernesto, o Argentino, de quem se disse, igualmente, que mandou fuzilar muita gente. É capaz de ser verdade...