terça-feira, março 01, 2005

Quem Deve Desculpas A Quem

Ontem, ao almoço, um velho amigo contou-me, meio estupefacto, meio displicente, que o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, depois de uma cerimónia na Universidade do Minho, onde foi agraciado com o grau de doutor honoris causa, lançou para o ar a ideia da necessidade de desculpas, por parte das sociedades que, alegadamente, teriam beneficiado da escravatura, aos alegados descendentes dos escravos.
É uma ideia velha, que, de vez em quando, faz o seu caminho entre sectores conhecidos nos Estados Unidos - os mesmos que acusam D. Catarina de Bragança de ter fomentado a escravatura e impediram, por isso, a inauguração de uma estátua sua em Nova Yorque.
O tema é vasto, complicado e conduz-nos, sinteticamente, a algumas conclusões, sobretudo no que ao dr. honoris causa diz respeito.
Uma das questões que se pode levantar sobre a eventual escravatura de naturais de Moçambique noutros séculos tem a ver com africanos e, quando muito, com os mercadores muçulmanos, já que os colonizadores das Américas, do Norte e do Sul, não se arriscavam a ir procurar escravos para além das Costas Ocidental e Central Africanas. Não dobravam o Cabo das Tormentas
De resto, a escravatura era uma instituição em toda a África, praticada pelos próprios africanos, pelo que as desculpas deveriam começar pela família.
E, por falar de família: entre os moçambicanos, quem deve pedir desculpa a quem?
A FRELIMO e a RENAMO receberam dos colonizadores um país próspero, com um grande nível de desenvolvimento, com uma sistema de saúde operacional, um sistema de educação que só perdia para Angola numa comparação alargada a toda a África. Herdaram um país organizado, com sistemas rodoviários e ferroviários operativos e eficazes, com uma indústria de turismo próspera.
Receberam das mãos dos colonizadores um projecto de desenvolvimento para o Vale do Zambeze que só tinha paralelo com o plano de desenvolvimento para o Rio Cunene, em Angola, uma barragem absolutamente extraordinária, mesmo se comparada com as grandes obras do Mundo inteiro: uma das suas previstas dez turbinas produz mais energia que todas as barragens juntas em Portugal.
E o que fizeram os moçambicanos (poder e oposição) que receberam este país: começaram por perseguir os não negros, criaram centros de recuperação paras os chamados reaccionários, um projecto levado a cabo pelo actual presidente do Projecto do Zambeze, ex-ministro de estado da segurança nacional, Sérgio Vieira e protegido pelo actual presidente da República de Moçambique, general Guebuza.
Fizeram mais o quê?
Transformaram o país numa terra de muito ricos e miseráveis, mandaram assassinar pelo menos um jornalista que se propunha lutar pela justiça, Carlos Cardoso.
Será que Joaquim Chissano e todos os outros, trinta anos depois da Independência, se sente autorizado a exigir que alguém peça desculpas ao seu povo. Porque não fazer, ele e todos os outros, no próximo dia 25 de Junho (dia da Independência de Moçambique) um acto de contrição público, pedindo desculpas sinceras ao seu povo.
E já agora, porque não aproveitam e explicam onde foram buscar o dinheiro que lhes permite ostentar tanta prosperidade pessoal. Obriguem mesmo o ex-ministro-governador do Banco de Moçambique, Sérgio Vieira a explicar as suas relações com algumas figuras europeias, nomeadamemte portuguesas.
Este ano também se comemoram os trinta anos das Independências de Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Princípe. A Guiné Bissau comemorou já esssa data ( 24 de Setembro de 2003), mas não ouvimos ninguém pedir desculpas ao povo pelo mesmo tipo de destruição que foi levado a cabo em Moçambique, ou mesmo pior, já que aquele estado corre o risco de desagregação pura e simples.
Esperemos que os angolanos exijam desculpas públicas a todos os responsáveis pela destruição de um país que em 1973 era autosuficiente do ponto de vista alimentar, que, inclusivé, exportava alimentos; um país onde tinham sido definitivamente erradicadas doenças como a tuberculose e onde a malária estava a ser combatida com grande eficiência; um país que tinha uma rede escolar impressionante, a ponto de a própria OUA ter reconhecido no sistema implantado o melhor de toda a África. Um país que fez tudo isso sem o petróleo, que apenas depois entrou na economia.
Esperemos que os responsáveis de agora se atrevam ao pedido de desculpas, mesmo em nome de alguns fantasmas que por lá andam ainda.
O único país cujo povo não deve esperar desculpas pela Independência é o de Cabo Verde, que, apesar de pobre, ou talvez por isso, conseguiu fazer da independência uma arma de progresso e dignificação.
Os sãotomenses também devem erguer-se e exigir às várias cliques que lhes expliquem para onde foram as promessas de uma vida melhor. Sãos dirigentes de São Tomé e Princípe, de ontem e hoje, que devem pedir desculpas pela maneira infantil como governaram, no princípio, o pais, e pelos negócios pouco claros com que o governam actualmente.
Afinal, quem deve pedir desculpas a quem?
Como conclusão para reflexão ainda acrescento que, afinal, os descendentes dos escravos de há séculos vivem hoje uma vida com muito melhores perspectivas do que os descendentes daqueles que, tendo ficado nas suas terras, vivem na escravidão da pobreza e da corrupção.
É uma conclusão quase cínica, mas a responsabilidade dela é de homens como Joaquim Chissano, que entendem que a sua condição de negros lhes atribui um estatuto de imunidade congénita.

3 comentários:

l.c. disse...

Para escrever este texto o autor pode olhar o outro nos olhos e sabe respeitá-lo como igual. A demagogia é o inverso da fraternidade.

M.Pedrosa disse...

Meu caro L.C.

Não percebi o seu comentário. Ele remete-me para uma expressão muito usada entre angolanos: "afinal vamos fazer mais o quê se esse é o problema que estamos com ele?"

J disse...

Saibamos chamar as coisas pelos seus devidos nomes. Não precisamos de esperar eternidades pelo definitivo julgamento da história.Hoje, temos o peso incontornavel de uma geração de africanos queimada, sem evidências visíveis que exceptuem a morte generalizada e a destruição , o retorno á esperança de vida medieval e, claro todos os novos ricos parasitários que, herdando a tradição dos negreiros, vivem e prosperam à custa do sangue dos outros.Desculpas? Vampiros!!!!