terça-feira, setembro 19, 2006

PERDER OU DESPERDER

Perco-me frequentemente a ver a bola. Admito que já lá vão uns anos desde que vi o último jogo, no seu habitat natural - no estádio, isto é: no campo, como se dizia, no tempo em que eu ia à bola. Dizer campo do Benfica tinha a vantagem de não dizer «campo 28 de Maio»! Mas aconteceu ao Braga, vejam lá, jogar num sítio que se chamava «estádio 28 de Maio», inaugurado, creio eu, em ano redondo:1950. E foi precisa muita imaginação para lhe mudar o nome, logo a seguir à revolução de Abril!
Por essa altura, o nosso clube quando perdia era sempre por culpa do árbitro. O meu vizinho dizia a mesma coisa, mas o clube dele era outro. Não havia televisão e, por isso, eramos todos
ferrenhos do nosso clube e os árbitros uma boa e honesta desculpa para as derrotas. Nunca um clube nosso ganhou por ajudas alheias. Era assim. Foi assim um monte de anos. Uma vez um árbitro desapareceu de cena. Creio que se esforçou demais para que o Benfica fosse campeão. A influência vinha de cima. Nesse ano os encarnados empataram no Restelo, logo no início do campeonato. O Benfica protestou. A decisão foi-se diluindo no tempo até que, já perto do fim,
os encarnados complicaram e ficaram à mercê do Porto, que igualara o Benfica no topo da tabela, mas com melhor saldo.
Por esses anos «gloriosos» a Federação era isenta até dizer chega. O presidente ou era do Benfica ou do Sporting, salvo uma vez por outra que podia ser do Belenenses. A democracia de então não dava para mais. Nesse ano a Federação acabou por dar razão ao Benfica. O tal jogo com o Belenenses foi anulado e repetido, uma quarta-feira antes da última jornada!
Por acaso eu vi o jogo. O que o futebol tem de bom é que por vezes passa a imagem de que no seu seio tudo se perde nada se transforma! O Benfica «arrancou» um empate a um golo, exactamente o mesmo score do jogo recorrido. Tudo ficou na mesma. Aos lisboetas bastava ganhar à Cuf aí por uns seis ou sete golos e o Porto ir a Torres Vedras não ganhar mais do que por um. Os rapazes do Torreense iam-se encher-se de massa se empatassem. Mantiveram o empate bastante tempo e, depois, o zero-um até quase ao fim. Na Luz, o árbitro acho que assinalou uns dois penaltos e os encarnados conseguiram falhar um. Na ânsia de marcar golos, os encarnados remataram muito para muitos lados menos a baliza. Mesmo assim, e com a pertinácia do árbitro, o Benfica chegou aos sete, se a memória não me falha. Mas a Cuf ripostou com três. O Porto foi campeão. O árbitro nunca mais apitou. Também não foi convidado para fazer comentários. Sumiu-se...
O árbitro que validou o golo do Paços, obtido com a mão, não deve ter visto a falta. Também Maradona usou a mão. Acontece, não é o fim do mundo. Não será por isso que que Pinto da Costa lhe oferecerá umas férias noutro Continente. Ao intervalo o árbitro soube que tinha metido água. Em todo o jogo o Sporting meteu água e não meteu nenhum golo. Eu e os senhores da Televisão só vimos a mãozinha marota na segunda repetição do lance. O juiz não tem TV.
Eu tenho e no dia seguinte voltei ao sofá para o Nacional na Luz. Vi um bocado. Quando a mulher me acordou o jogo já tinha acabado. Pela manhã vim ao computador e fiquei a saber e o amigo que me telefonou foi mais explícito: «Sim,sim, o Benfica ganhou, mas tu não perdeste nada»...

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