domingo, maio 21, 2006

Um "Presunto" na Carreira da Loira da Rua 48

O homem começou a ficar pálido, verde, e a escorregar sobre uma senhora gorda que já não devia sentir mão de homem há um par de anos.
- " oh! senhor!!! está a meter-se comigo???
Não sabia se fugir ou se o puxar (falta de treino...)
E o senhor, de fato cincento, gravata encarnada, de pasta de executivo, espalhou-se pelo chão, de olhos arregalados e brancos... sem cor, desfalecido, braços sem força, a abanar.
"pahh" - a pasta despencou no soalho do autocarro da Carris atolhado de gente.
Gente que transpirava, suspirava e apenas uma entre tantas gritava:
- " Mas, afinal o que é isto, o meu passe diz que tenho direito a lugar sentado e com ar condicionado.-.. oh! senhor motorista, ligue lá essa porcaria que ainda morre p'ra aqui alguém!"
" Shhhlaapp". Homem ao chão.
Um alvoroço.
- "oh! senhor motorista, pare lá a carroça e chame um ambulância que está aqui um sujeito esticado..."
- " Isso passa" - diz o motorista, naquele jeito que todas as autoridades têm sobre todas as matérias, mesmo as que não lhes dizem respeito.
- "Qual passa, qual carapuça..." levantou-se uma voz que todo o autocarro conhecia. Era a loira da Rua 48 a comandar a rebelião da carreira da Carris.
- "faça o favor de parar já essa traquitana, ligar o ar condicionado e telefonar a pedir uma ambulância. Está aqui um cidadão esticado, que desmaiou, seguramente por causa do calor que aqui faz dentro e pela falta de circulação de ar puro que vocês já nos negam para pouparem uns míseros tostões no combustível destas carroças..."
O motorista parou o autocarro (ou seria uma camioneta, ou um machimbombo?) e telefonou para a central:
- " Oh! colega, estou aqui com um problema, tenho um passageiro no chão, parece desmaiado, acho melhor chamar uma ambulância..."
E, do outro lado:
- "oh! colega! isso é uma carga de trabalhos... abanem o homem que isso passa.... a gente liga para a ambulância e fazem-nos um monte de perguntas..."
Enquanto isso, alguns dos circunstantes propuseram-se ajudar o cavalheiro estatelado, pediram lugar para o sentar, abanaram-no e perguntavam-lhe coisas.
- " para onde é que o senhor vai...?"
- "será que tomou o pequeno almoço...?"
- "É melhor deixar o senhor aqui perto daquele posto clínico. Alguém pode ir lá com ele. Rápido, rápido..." dizia a Loira da Rua 48, que tinha reconhecido, naquele homem, com ar de executivo, um dos habitantes da sua rua.
- "Vá, senhor motorista, andando, andando... será que vocês não têm normas de execução para casos de emergência como estes? Que raio de companhia é esta que transporta milhões de pessoas, entregues a gente que acha que o ar condicionado dos autocarros só deve ser ligado quando eles próprios se sentem incomodados...?
A Loira protestou e o resto do pessoal assentiu (só com a cabeça - os portugueses estão a ficar mudos).
O senhor executivo, todavia, conseguiu, entretanto, recuperar do que parecia ter sido uma quebra de tensão, desceu do autocarro e pegou num telefone portátil. Os passageiros, que ficaram a olhar para trás perceberam que ele não falava e ficaram com a sensação de que não sabia, sequer, onde estava.
Continuou a viagem e, de repente, ouve-se o motorista, que, entretanto, tinha parado o autocarro (ou seria uma camioneta, ou um machimbombo?) no meio da estrada e estava a perguntar ao interlocutor do outro lado da linha: "mas, ouve lá, achas que aquele cinquecento vale alguma coisa...?
Foi preciso, de novo, a intervenção da Loira da Rua 48:
- " Mas, então o que vem a ser isto?... agora temos que estar aqui à espera que o sr. motorista feche o negócio do cinquecento?...não pode esperar por mais logo, quando não tiver a obrigação de conduzir esta gente aos seus destinos..."
O homem desligou o telefone, mas, entre dentes, sempre foi murmurando qualquer coisa contra aquela loira que lhe apoquentava quase todas as viagens daquelea hora da manhã.
Hoje, fim da tarde, estava a Loira a comentar o incidente com a sua amiga de todas as manhãs, quando, correndo e com ar bem disposto, com um saco de desporto ao ombro, apareceu ao cimo da Rua 48 o tal "presunto da carreira".
- "O homem deve andar a fazer exercício demais..." comentou a Loira

1 comentário:

Penélope disse...

Fabuloso.
Já tinha saudades da loira.