quarta-feira, dezembro 06, 2006

...MÁS COMPANHIAS

Quando eu era pequeno lembro-me que havia companhias. Ele era a companhia das águas, ele era a companhia das luzes e do gás ou a companhia dos carros eléctricos. É verdade que também havia a Real Companhia Velha, mas disso ainda não sabia. E havia o Alfredo, que me fazia companhia quando cavávamos da escola para ir jogar à bola. O prof. não achava graça e, às vezes, levantava-me do lugar por uma orelha. A minha mãe procurava desculpar-me com «as más companhias», para acalmar a ira do meu velho, o qual, verdade seja dita, ameaçava mais do que batia.
Aos domingos ia-se à bola, quer dizer, levava-me o meu pai ver o Benfica. Por esses dias o Benfica era, claro, o que jogava mais e melhor. Era, bem entendido, o que tinha mais azares. Por isso é que o Sporting ganhava mais vezes. O Benfica era, de longe, o que mais vezes ficava em segundo. Até foi segundo no ano em que o Belenenses ganhou o campeonato. E eu só tinha olhos para a bola. É verdade que lia amiúde o «Mosquito», mas a bola via-se com tudo, olhos, sentidos e coração.
Mas o futebol era, provavelmente, como hoje em dia, o que era a sociedade desse tempo: uma ditadura fascista. Mesmo o Benfica, suspeito de populismo suspeito, não se coíbia de uma ou outra prepotência sobre os seus atletas. O futebol era, já o disse, aos domingos. Começava logo pela manhã, para ver os juniores. Mastigava-se qualquer coisa no Quebrabilhas e ala, ver as segundas categorias e depois as reservas, para acabar nos mais custosos.
Foi assim anos a fio, com o Benfica a esgalhar num campo minúsculo de terra batida, a que se chamava «estância de madeiras» em razão das suas bancadas todas feitas de pau, mas o peão era empedrado. Pelo menos não tinha lama, como nas Salésias ou no Lumiar. Os jogos «grandes» começavam às três da tarde, salvo no verão de Setembro, que era às 16 , até mudar a hora.
O resto da semana era para discutir os «ofessaides» e as diferentes malandrices dos árbitros, todos suspeitos, na casa do meu pai, de serem lagartos.
Já no fim da adolescência tive o primeiro choque ideológico. O presidente encarnado que era cambista na Rua do Ouro, puniu o Felix com um ano de suspensão. Com Rogério condescendeu-se que fizesse a festa e fosse à vida. Qualquer manda chuva de trazer por casa se podia dar ao luxo de armar aos ditadores porque os jogadores eram zés-ninguém e não havia profissionalismo. Ocorreu-me que um xui numa madrugada, junto a um café razoavelmente mal frequentado, deteve e levou para a esquadra, onde acusou de vadiagem, um jogador de futebol.
Futebol não era profissão reconhecida, não obstante os jogadores descontarem para o desemprego, como salientou a notícia do jornal, visado pela comissão de censura.
O Felix cumpriu seis meses de castigo. A amnistia do Natal, que sua excelência o presidente do conselho de ministro, prof. dr. etc. e tal promulgava por essas alturas, engoliu o restante semestre. O Rogério foi para o Oriental, de onde saiu desiludido. Tinha proposto aos colegas uma greve porque não pagavam há um ror de tempo os prémios prometidos e devidos. O senhor director lembrou aos malandros dos jogadores que no país não havia direito à greve.
Posso garantir-vos que, tanto o Rogério como o Felix foram seguramente dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos. O Passos do Sporting, já veterano, teve sorte semelhante, foi posto a andar de forma humilhante.
Com o advento do profissionalismo profissional que Otto Glória impôs ao Benfica e por acréscimo
ao País ainda salazarado, o dirigismo no futebol foi-se modificando até chegar aos dias de hoje.
Já não vou à bola. Vejo em casa. E vi, na sexta-feira, à noite, o presidente do Sporting e o presidente do Benfica a fazer companhia um ao outro. Ah! Se um deles tivesse uma mãe como a minha...

1 comentário:

Anónimo disse...

Um excelente post sobre uma triste realidade. Boa semana.