sábado, abril 19, 2008

Rangel - outras estórias, outros perigos

Em Abril de 2005, escrevi neste blog um texto sobre o Emídio Rangel, a propósito de uma daquelas entrevistas em que se apresentou, mais uma vez, como uma espécie de herói. Achei que era de mais e contei uma parte da sua fuga de Angola. O tempo passou, o Emídio continuou a sua vida, sempre feita de expectativas, de intrigas nos meios próximos do poder, numa atitude de permanente louvaminha , visível nas suas más crónias do Correio da Manhã.

Um dia destes exagerou, chamou "holigans" aos professores e algumas pessoas vieram a terreno negar que o senhor tenha autoridade moral para dizer o que quer que seja sobre aquele grupo profissional. Alguém, que não conheço, mandou para o meu e-mail e, seguramente, para outros, a estória do Emídio Rangel no Liceu Diogo Cão, onde chegou a rasgar o livro de ponto e outras barbaridades semelhantes.

Eu também não me contive e escrevi o texto que está publicado abaixo deste.

Ora, um dia destes, um amigo, que, certamente, não lê este blog mandou-me o meu texto de Abril de 2005, muito admirado porque tudo quanto estava ali escrito era verdade.

Ainda bem.

Agora que volta a falar-se do Emídio Rangel para altos cargos na RTP e outras coisas menos claras em Angola, repito aqui o texto de 2005 a que junto fotografias que ilustram alguns dos seus passos e recordam algumas das suas traições.


A primeira é um instantâneo do hastear da bandeira do MPLA no Lubango. O Rangel está na primeira fila da varanda da moradia que foi a primeira sede do então movimento de libertação naquela cidade. Como não podia deixar de ser estava junto da comitiva que tinha vindo de Luanda: o Dilolwa, o Alnaldo Pereira (Zé dos Calos) e o Pepetela. Os dois primeiros já morreram. Dilolwa suicidou-se e o Zé dos Calos acabou por ser mais um das vítimas do racismo do MPLA. O Rangel preparava-se para estar próximo do poder...


A segunda é do seu tempo da RDP, quando acompanhava governantes e se insinuava, mesmo que, para isso, fosse necessário denegrir o nome dos companheiros de profissão. Na RTP teve a coragem de ir a Espanha, sózinho, com a gravação de um programa que era trabalho de uma equipa em que ele dava pouco, concorrer a um prémio internacional - o qual ganhou.


A terceira fotografia é dos seus tempos da TSF, o homem todo poderoso, que, aproveitando-se da ingenuidade dos seus companheiros, os enganou - e de que maneira ! - quando foi o negócio com a Lusomundo...e não só. Antes já havia rumores de desvios de finanças.


Um última explicação: não voltarei a falar deste tipo e quero afirmar a quem me lê que não tenho qualquer sentimento negativo contra ele. O que acontece é que o conheço - e a alguns membros da família - e fico irritado quando percebo que ainda não entendeu que já devia ter metido a viola no saco porque corre demasiados riscos se algumas pessoas resolvem contar o que sabem.









Sábado, Abril 02, 2005

RANGEL- As Mentiras E Omissões De Uma Estória
Costuma dizer-se que uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser verdade: Há muitos exemplos na História e nas estórias de alguns homens públicos.Ao longo dos últimos anos, que, reparando bem, já são muitos, Emídio Rangel, quando é entrevistado, repete - sempre da mesma maneira - muitas mentiras que já fazem parte da sua biografia oficial.Não tenho nada contra o modo como ele tem construído a sua vida , a sua carreira ,e até reconheço e aprecio a sua marca nas principais mudanças na maneira de fazer Rádio e Televisão em Portugal.Por isso não me proponho analisar todas as mentiras repetidas sistematicamente - algumas delas são mesmo pequenas mentirinhas - nem alguns dos seus métodos de trabalho, onde os fins normalmente justificam os meios.Todavia, já estou cansado daquela estória - que está a virar História - da fuga heróica de Angola.A verdade é que Emídio Rangel fugiu como dezenas de milhares de outros colonos, no contexto de uma conjuntura política que não entenderam e com o medo natural de terem que suportar uma guerra que achavam não lhes dizer respeito.Estava, portanto, no seu direito - fugir.Mas, a fuga de Emídio Rangel não foi uma simples fuga. Foi, igualmente, uma traição, já que, ao contrário do que sempre vem afirmando ao longo dos anos, ele era um militante "engajado" do MPLA.Também ao contrário do que sugere em todas as entrevistas, os tiros que aconteceram na madrugada em que fugiu não eram surpresa para ele, uma vez que sabia dos planos para o início da guerra entre os então movimentos de libertação( MPLA contra UNITA/FNLA).Ele sabia dos planos e, nesse contexto, tinha assumido responsabilidades de comando de um grupo de soldados praticamente sem experiência, que acabaram por se bater sózinhos nesssa guerra, iniciada na madrugada de 20 para 21 de Agosto, altura em que ele fugiu, traindo os homens que deveria ter comandado.Apesar da fuga dele (planeada durante meses - soube-se depois), o MPLA ganhou a contenda e a 23 de Agosto UNITA/FNLA assinaram a rendição.Também contrariamente ao que ele sugere, o exército sul-africano não estava ainda em território angolano. É verdade que se tinha concentrado na fronteira, mas, do ponto de vista dele, o perigo acabava logo que passasse a linha.Quanto às ameaças - que lhe foram transmitidas "por um jornalista ainda hoje na RDP de Coimbra" não é, seguramente, mentira, mas uma verdade para dar côr à estória. É que todos os militantes do MPLA, sobretudo os que, por alguma razão especial se destacavam na vida da cidade, foram ameaçados, quer pela UNITA, quer pelas BJR's da FNLA. A alguns deles fizeram pior: ameaçaram-lhes os filhos.Só mais um pormenor relativo a esta estória, que sendo uma pequena mentira, não deixa de ser uma grande injustiça:; quem o salvou das garras da secreta sul-africana, que o tinha idenficidado como militante activo do MPLA, foi um outro colega de profissão, de nome Diamantinmo Pereira Monteiro, esse sim sem qualquer ligação política e que arriscou ficar preso em sua substituição, e por isso, teve que suportar por mais algum tempo as condições horríveis dos campos de "concentração" em que foram armazenados os colonos fugitivos de Angola.Como se vê, as omissões também fazem parte desta estória de Rangel, contada em capítulos oportunos.Além do nome de Pereira Monteiro, há o de Mário Gomes, o tal piloto que levou os pais de avião para Whindoek e o de Saraiva Coutinho, o "ainda hoje jornalista da RDP em Coimbra" .Na entrevista da revista "Sábado" que me fizeram chegar via Net, Rangel não se refere ao 25 de Abril de 1974, mas, já agora, não quero deixar passar uma outra mentira muito propalada em outras, nomeadamente uma feita por Batista Bastos. Emídio Rangel não era o director da Rádio Comercial de Angola naquela altura e, por isso, não deu instruções nenhumas para que a Revolução de Lisboa fosse noticiada.Por acaso até conheço a pessoa que era director daquela estação de rádio ao tempo e bem me lembro que ela se transformou, nesse mesmo dia, na primeira voz livre de Angola.Quanto a outras mentiras que "o velho leão" tem vindo a propalar: é preciso cuidado, porque as pessoas podem cansar-se. Tal como dizia Nheru, referindo-se à ocupação portuguesa de Goa, Damão e Diu: não se pode confundir pacifismo com cobardia.Alguém avise o Emídio que é melhor servir-se dos seus méritos, das suas qualidades de grande condutor de equipas (desde que não seja contestado), que são muitas, do que continuar a efabular com coisas que já passaram há muitos anos e que só já têm importância para os que, lembrando-as, voltam a sentir-se miseravelmente traídos. E depois, há um perigo de as verdades se trasnformarem em cerejas.E já agora: fico desejando que recupere completamente dos problemas de saúde que o têm afligido e que volte às lides, para, pelo menos, fazer justiça a alguns amigos (verdadeiros), de quem sempre se serviu para, depois, atirar para o caixote dos ostracizados, uma condição que agora reclama para si próprio, mas que não é verdadeira - outra pequena mentira...
Publicada por M.Pedrosa

quinta-feira, março 13, 2008

Oh! Rangel! E Se Dissesses O Que Queres?


Não sou professor, embora já o tenha sido. Desses tempos lembro-me de algumas disputas verbais com os colegas de então sobre o estatuto que imcumbia aos professores. Os anos vieram a confirmar que eu tinha razão: um dia destes os professores vão ter que arranjar sítio para colocar a vassoura e varrerem as salas de aula...

Não sou professor, mas algém me fez chegar um texto do Emídio Rangel publicado no Correio da Manhã com um título sugestivo: "Holigans em Lisboa". Os Holigans são os 100 mil professores que vieram à capital dizer que não concordam com a Ministra, que não aceitam as suas políticas e que estão fartos.

O texto do Rangel atinge as raias da loucura. O homem já não sabe o que fazer para chamar a atenção do governo para as suas ansiedades. Ele queria ser, primeiro, director da RTP, depois, ficou com a esperança de um lugar na Administração, agora deve estar a fazer-se a outra coisa qualquer.

Que diga rapidamente o que é. Será o quinto canal? Ou secretário de estado da comunicação social, sei lá, adjunto da ministra da educação. Essa talvez não porque alguns dos professores de que ele tanto se orgulha, podem lembrar-se dele e interrogarem-se sobre a maneira lépida, veloz, ágil, perfeitamente alucinante, digna de um registo do livro do "guiness", como ele tirou o bacharelato em História.

sábado, fevereiro 09, 2008

NO ANTIGAMENTE

Algum passado deixou recordações. Apetecia-me mais dizer que deixou lições. Umas vão-se esquecendo, outras se vão perdendo. Porque havia guerra na Europa, Lisboa não tinha muitos automóveis.Mas tinha carros eléctricos. Uma rede interessante, de uma ponta à outra da cidade e no sobre e desce das colinas. Com o fim da guerra, a cidade perdeu muita da sua quietude. Começaram a chegar os automóveis e a nova mentalidade. Até aí,além dos eléctricos e dos poucos automóveis, carroças puxadas a cavalos eram frequentes. Iam e vinham das hortas para abastecer os mercados. Nas calçadas,por vezes, os animais escorregavam e, por vezes caíam, atrapalhando o tráfego.Algumas vezes saía gente dos eléctricos para ajudar.
A indústria automóvel que irrompeu no pós guerra afirmou-se como a grande vencedora do conflito. Exigia mais e melhores ruas, mesmo que para tal se descurasse o caminho de ferro. Refilaram contra os eléctricos,porque não deixava escoar o trânsito (automóvel)!
Em Lisboa, como no Porto, o eléctrico perdeu espaço, até porque o automóvel trouxe consigo o autocarro. Depressa o trânsito se tornou uma dor de cabeça e obrigou a um incessante alargar de faixas, a improvisar estacionamentos. Pior foi ter desmantelado as linhas do eléctrico. O «metro» resolve alguns problemas, mas não é compatível com uma cidade eregida sobre colinas.
Nem será preciso falar da poluição que o automóvel fez o favor de nos trazer. E dou de barato os acidentes terríveis que chegaram com o tráfego automóvel. Como é possível pactuar com tudo isto? O automóvel tornou-se uma droga letal e o cidadão comum o pior dos toxico-dependentes,quer fume ou não.
Urge alterar o conceito de mobilidade dos cidadãos. São indispensáveis percursos próprios exclusivos para transportes colectivos, de preferência não poluentes. Que se proíba o estacionamento urbano em passeios. O cidadão apeado também é digno de ter direitos,como seja o de andar pelo seu pé sem correr risco de vida. Imaginem
que tenha uma mesa de cozinha a mais, porque a avózinha me deixou a dela em testamento.Não tenho nem sotão, nem cave. Bom, decido-me. Vou pô-la,com duas cadeiras
e um banco, no passeio,junto à árvore. Um jarro com um ramo de malmequeres,para amenizar. Querem apostar que o xui aparece num instantinho? Não posso utilizar um passeio público como é lógico e sabido. Mas se for um automóvel?...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

IDA E VOLTA

...Se há ar e ar
há ir e voltar...

Caiu a Ota, viva Alcochete. Não vejo que seja tão simples como isso. Se Alcochete é melhor que a Ota,não é seguro que não exista outro espaço melhor adequado e mais em conta, sei lá, em Paio Pires ou Aljubarrota. Olhando em volta fica a ideia de que Cavaco deu uma mãozinha a Sócrates para que este pudesse desmarcar-se do propósito de Cravinho, anunciado por Gueterres. Resta agora uma outra questão: a Portela? Fica ou não fica?
Esta não é ainda uma questão. É um devaneio. Desde que o governo de Guterres anunciou a Ota, saí em defesa da Portela. Ainda ninguém me convenceu no ganho da troca. O actual aeroporto lisboeta já será exíguo, aceito,mas isso não é defeito. Arrange-se outro e escale-se o tráfego.Em Paris fizeram o C. De Gaulle mas não destruiram Orly.Por acaso até o alargaram, mas isso não interessa. Ainda dispõem de um terceiro para mercadorias, E Londres? Tem tantos que lhes perdi a conta.
Orly fecha à noite, decerto para não chatear os que não gostam de aeroportos à porta de casa, quando lhes chega o sono.
Uma parte da comunidade europeia devia achar simpático poder descer na Portela de manhã e zarpar antes do jantar. Depois a Portela que fechasse a luz e adormecesse.
A Ota ou Alcochete,mais maneirinhos, que aturassem os das jantaradas ou de horizontes longinquos.E quando o segundo ficasse curto montava-se o terceiro, não sei onde, talvez em Badajoz,para apoio de grávidas parturiáveis. Sempre se poupava nas ambulâncias.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

O Todo e a Parte

A arte fascista faz mal à vista - disseram os entusiastas do anti-fascismo, a festejar a revolução de Abril, enquanto destroçavam obras demoníacas de autores até então acomodados ao regime paternalista. Daí em diante a arte deveria passar a ser obrigada a mote.
No Ensino, a educação moral e cívica fechou-se para obras. Que bom!,que bom! Pena que o mais no Ensino tenha caminhado como caminhou e descambado no que descambou!
Hoje, o fascismo volta a andar por aí.No «DN», Batista Bastos não acredita «que Sócrates seja fascista. Mas que o fascismo andar por aí...»
As reticências valem o que valem. O cronista que tem muitos anos disto tentava, creio eu, pôr alguma contenção na crónica de António Barreto («Público») ao encostá-lo ao de leve a Pacheco Pereira, a propósito da «tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder» que, na sua - deles óptica, manifesta o Executivo.
Por muito respeito e simpatia que nutro pelo cronista não me inibo de recordar que o fascismo não é uma coisa,ponto final, parágrafo. É a soma dos fascistas! Sem fascistas não há fascismo!
Com toda a moderação moderada recorro à poesia alheia de forma aldrabada:
fascistas são eles todos ou ainda menos/ fascistas são eles todos desde pequenos!
E, deste modo, não se deixa Sócrates isolado. Ele sózinho não faz a Primavera.
Fez-se engenheiro. E montou um governo engenhoso.
Não, não senhor, o poeta não explicitava fascistas,bolia de burgueses.
De burgueses acomodados ou subjugados. De um tempo em que a Censura fechava às três da manhã, mas conservava a liberdade de expressão fechada a sete chaves. Os censores
sabiam, tanto ou mais que os ministros, que os burgueses da poesia eram fascistas e os fascistas propriamente ditos eram eles e os que mandavam, neles e no resto, enquanto nós ficavamos à espera da nossa vez de vir a ser ou de ficar.
É bom saber e bom lembrar que alguns dos que ficaram eram gente e gente que fez História, porque há sempre alguém que resiste...
Pois, pois, isso era dantes, como quando o QG era em Abrantes!
Agora, em democracia, já podemos ser burgueses, malteses e, às vezes, um fascismozinho desenfreado,praticado, é bom de ver, por democratas congénitos ou pior que isso.
Pacheco chegou à miséria no Estado Novo, a que sobreviveu como é sabido na democracia reinante.No passado sombrio comia o pão que o bom Diabo amassava.Mas, depois,no País reencontrado não teve dentes para saborear o pão para Deus, nem as nozes Dele.
Pudesse o defunto espreitar, enquanto ardia, e decerto estremecer de ternura ante tanto palhaço, tanto acrobata, aos pulos e aos pinotes, a botar no ar radialeiro, televiseiro ou afins as imprescindíveis chicotadas no charco.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Scolari

O homem chegou há já não sei quantos anos a Portugal e os portugueses ainda não o perceberam, sobretudo os jornalistas e os comentadores desportivos.
De resto, os jornalistas desportivos portugueses em Portugal, tirando a geração fundadora de " A Bola" foram sempre maus. Vão escrever sobre desporto porque ninguém os quer noutras secções. Claro que há excepções, mas são muito poucas.
A última conferência de imprensa, depois do jogo com a Finlândia é esclarecedora. Conseguiram irritar o treinador, seguramente porque fizeram as velhas perguntas idiotas, sem qualquer ligação com o que se passou no terreno do jogo.
Devo confessar que a mim também não me agrada um certo "medo" com que Sclori armas as equipas. Acho mesmo que foi esse medo que o fez perder o Europeu de 2004, assim como o Zagalo perdeu o Mundial de França, porque proibiu os então dois melhores laterais do Mundo de ultrapassar a linha de meio-campo. É uma espécie de herança brasileira que vem dos tempos em que o Brasil tinha grandes jogadores de meio campo e ataque, mas não tinha nem defesas nem guarda-redes da mesma qualidade.
Mas, voltando a Scolari: a verdaede é que ele cumpriu os objectivos pré-fixados: a passagem à fase final do Europeu de 2008. E é verdade que ele também tem razão que o adversário, a quem só interessava ganhar, nada fez para isso.
Ele também teve razão com a equipa que apresentou por uma razão: é que ele já descobriu que as restantes equipas, quando jogam contra Portugal, sobretudo se são conjuntos considerados menos importantes, fazem o mesmo que os chamados "pequenos" clubes portugueses fazem quando jogam com os chamados "grandes".
Esse é o factor psicológico mais perigoso e não vale a pena arriscar. Fez bem o treinador, mas os jornalistas queriam, além dos objectivos cumpridos, uma bela exibição e uma goleada. Quem, entre os portugueses, não o quereria?
Tal não aconteceu por duas razões: primeiro, Portugal chegou ao último jogo a precisar de pontuar e segunda, a Finlândia veio a Lisboa à espera de um milagre do pai natal.
Voltando a Scolari: com os seus defeitos e virtudes, há que reconhecer a importância da sua estadia em Portugal à frante da selecção nacional. De resto, ele está para a Selecção Portuguesa de Futebol, como Otto Glória esteve para o Futebol Português nos anos 50.
Naquele tempo, Otto trouxe para Portugal a modernidade e lançou os alicerces do novo futebol nacional, que haveria de chegar ao terceiro lugar do Mundial de 66 e, no domínio dos clubes, lançou igualmente as bases para que, ainda antes, o Benfica levasse o nome do país bem longe.
Scolari, em termos de selecção veio acabar com os lobies, a indisciplina crónica, mobilizar os jogadores e os portugueses em torno da Selecção. Ele conseguiu fazer com que os portugueses deixassem de lado a velha ideia fascista segundo a qual a bandeira nacional só podia ser exposta em situações muito especiais e em locais determinados.
O futebol de selecção em Portugal ganhou ambição, projectou-se a nível internacional onde é respeitado como nunca foi . E isso deve-se a Scolari. Não nos fica mal reconhecer os factos e, inclusivé, perceber que tudo isso se deve ao seu temperamento de "antes que quebrar que torcer" e à sua grande auto-confiança - que ele procura transmitir aos jogadores e aos portugueses.
Aquela cena de Alvalade em que ele quis agredir um jogador da equipa contrária não pode ser julgada como o tem sido. Quem a provocou foi o "quase agredido" e os portugueses, através da sua opinião publicada deveriam ter mostrado solidariedade com o seu seleccionador.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Onde Vivemos Nós ?

Viver é cada vez mais complicado, mais confuso, mais difícil. Por todas as razões; a começar pelo tempo, pelas Estações que já não existem e a acabar no grau de confiança com que podemos sair à rua, passerar com os filhos, abrir a porta a um desconhecido, ajudar um aparentemente necessitado.
Por detrás de tudo isto e do resto pode estar uma armadilha, um engano, uma mentira...
Armadilhas, enganos, mentiras que nos chegam também pela boca dos responsáveis deste país.Vemo-los na TV, lemos o que dizem nos jornais, ouvimo-los nas rádios e ficamos estupefactos. Será que vivem na mesma terra, no mesmo país?
E não me refiro apenas às afirmações dos governantes que continuam a falar de dificuldades, a pedir sacrifícios, para manter impostos altos, pressão sobre os cidadãos sem defesa, ao mesmo tempo que colhem (eles) os benefícios dos já poucos mas muito ricos. Ao ouvi-los, todos sabemos que eles estão a pensar em 2009. É tudo uma questão de poder. Nos Estados Unidos grita-se por "mais quatro anos", aqui engana-se o povo.
E o que faz a oposição?
O PSD e o CDS/PP Chamam velhos e gastos protagonistas para afirmarem apenas a sua resistência ao desgaste dos disparates.
O PCP continua com o velho processo das expulsões. Se há alguém com pensamento próprio e capacidade de afirmação política, independentemente dos chefes, é pecador(a).
O BE, por sua vez, fechou-se numa lógica de beco sem saída e fala para si mesmo, dando espectáculo na Assembleia, mas não acrescenta esperança, verdade à vida política nacional.
E nós, o Povo?
Vamos pagando, ralhando. E quietos. Não somos capazes de nada que convença, que assuste os arrogantes que nos governam e os que nos querem governar. Nós, o povo, continuamos no rebanho, sem saber onde vivemos, para o que vivemos e qual será o futuro dos nossos filhos. Por isso, os que já os têm, estão arrependidos e os que ainda não os fizeram vão adiando...
Um dia destes não existiremos tal como os nossos pais disseram que seríamos. Alguém tomará conta de nós, a troco de serviços menores. Em toda a Europa somos os primeiros candidatos a escravos da era moderna.
Sempre que olho ou penso nos meus filhos apetece-me voltar a pegar numa espingarda.

quinta-feira, novembro 08, 2007

CAMINHOS

Tinha uns nove anos de idade,não mais, quando as auto-estradas entraram no meu, no nosso, quotidiano. A Europa estava em guerra, mas tal pouco me dizia, nem seria o tipo de guerra que empolgasse o Quim Furtado, se ele já fosse vivo! Os automóveis eram poucos e não se falava de estacionamento. Os motoristas dos taxis tinham de dar à manivela, à frente do carro, para este arrancar.
Estou em crer que a primeira via de luxo foi a que, das Amoreiras, levava ao Estádio Nacional, ainda o Século passado não chegara a meio. Mesmo assim não acabou a tempo de inaugurar o Estádio. Tão pouco o desvio do comboio de Cascais chegou a tempo à Estação do Estádio, nesse dia de Camões.
Desceu-se na Cruz Quebrada e foi-se a pé. Não me recordo se o Eléctrico já estava operacional, mas creio que sim - não interessa: fui de comboio. Salazar também foi, mas deve ter ido de carro.
Nesse tempo não havia ainda autocarros na Carris. Só chegariam depois do termo da Guerra. A auto-estrada era coisa séria. Só se podia circular por ela de automóvel. Nada de camions nem camionetas, nem carros comerciais. Vá lá que não tinha portagem. Aos domingos era uma festa. As famílias iam ver como era. E era, imagine-se, como se via nos filmes das américas, que eu costumava ir ver aos sábados no Chiado Terrasse.
O Estádio inaugurou-se a 10 de Junho e a festa culminaria com um Benfica-Sporting a dirimir a primeira «taça império», que haveria de mudar de nome e gerar o mito lusitano: «a merda é a mesma/as moscas é que são outras».Pois, pois, as colónias passaram a províncias Ultramarinas, mas manteve-se na 24 de Julho a Companhia Portugal e Colónias; na Baixa era a sede da Companhia Colonial de Navegação, que partilhava com a Nacional a exploração marítima.
Não me recordo se houve ou não, nos anos seguintes, qualquer outro pedaço de auto estrada; creio que não.
A ser assim, a seguinte, uma data de porção de anos depois, alongou-se até Vila Franca, terminando junto à nova ponte, nascida como acesso à barragem do Bode. Ah! , pois, acho que bode tinha Castelo de seu nome. A parte chata era a portagem: cinco paus, para a estrada, e sete e meio, para a ponte.
Não me teriam caído os parentes à lama se tivesse feito referência ao formidável viaduto,no início da autoestrada para o Estádio.
O«formidável» é para ser colocado na devida antiguidade. Começaram cedo as mortes. Ainda a autovia não se via, quero dizer, não estava pronta e já os suicidas se lançavam do excelso viaduto. Premonitório! Desde então não mais deixou de morrer-se nas diversas auto-estradas que foram aparecendo.É a epidemia mais notória dos tempos modernos. Volta que não volta faz-se campanha moderadora e aumenta-se o valor da multa.Sem grande efeito. Por muito que pregue o padre na missa, nem por isso se deixa de olhar de soslaio para a esposa amantíssima do vizinho! A solução não reside no condutor ávido. Há que punir o culpado, por muito inocente que seja -- o carro, a viatura. Se os veículos tiverem, eles, velocidade controlada, os acidentes não vão acabar mas iriam decerto diminuir e presumivelmente aligeirar a gravidade dos sinistrados.Isso, claro, deixaria os condutores furibundos e haveria de levá-los
ao TGV mais próximo para as seguintes viagens!
Sempre seria uma solução mais viável do que obrigar os cidadãos das cidades ou os aldeões das aldeias(por razões óbvias abstenho-me de citar vilas!) a ir viver no mato ou no pinhal mais próximos.

segunda-feira, outubro 22, 2007

SACARROLHAS...

A Televisão revelou este fim de semana que,cada vez mais, os americanos se vão interessando pelo negócio do vinho. À boa maneira americana, bem entendido.Compram vinhas pela Europa fora, onde quer que as haja e compram, já se vê, procurando absorver as casas agrícolas e as grandes marcas. Foram alternando na Itália e na França e têm já debaixo de olho a Espanha. Já «ocuparam» a Argentina e andam a patinhar pelo Chile. Já espreitaram a África do Sul e praticamente já dominam a Austrália...
Enquanto isso fizeram o trabalho de casa. Muita promoção, muitas revistas sobre vinhos
com tabelas de qualidade fantasistas, que influenciam os leitores e muitas e muitas
plantações de cabernet-sauvignon plantadas nos quintais do Tio Sam. A parte chata é que tendem a adocicar o nectar mais ao gosto americano.O vinho adormece em barris de carvalho novinho em folha, o que desde logo altera o sabor e faz perder qualidade. Mas isso não tem importância, as revistas juram que o vinho é óptimo e agraciado com muitas estrelas. Também se sabe que para americano bem remunerado o preço é por si só uma garantia de qualidade!
Há alguma reponsabilidade europeia, designadamente francesa. Os franceses gostam de vender. É a parte do negócio que eles gostam mais. As vinhas de Bordeus estão a mudar de mãos com grande velocidade.Por ora a Borgonha vai resistindo, ainda bem!
Ocorre-me um caso afim, no princípio dos anos 80, quando os holandeses, confinados ao seu «quintal» procuravam alargar a agricultura. Começaram a tentar comprar terras para cultivo, com mais ou menos espaço, com vacas ou sem elas.Foi uma festa, os hortelãos gauleses esfregaram as mãos e venderam. Depois juntaram-se para fazer marchas de protesto público contra os malandros dos holandeses que lhes tinham ficado com as hortas e exigiam do governo que lhes desse outras terras!
Existe alguma semelhança. Com todos os seus defeitos, os americanos não entraram na Europa armados, nem nos ameaçaram com devaneios nucleares. Não espoliaram. Exibiram
dolares e compraram pelo preço que se lhes pediu.
Quando cá chegarem não sei como vai ser, mas como dão muito arriscamo-nos a ter o Dão a saber a merda!
A propósito, também me lembro de que também nós sonhamos «ocupar» os states com vinho de cá a vender lá, aí por alturas de 70. Foi tudo estudado. Cor e sabor para americano consumir. Um «Faísca» perfeito, engarrafado numa botija de barro vidrado.Um luxo. Só que...
Não se vendia. Ninguém tido por americano o comprava. Quando convidado a provar, bebia e gostava, mas não comprava. Solicitou a uma empresa local que encontrasse explicação.Não tardaram a percebere a revelar: nenhum americano conseguia proferir
«faísca», mesmo que se torcesse, não conseguia. E assim nasceu o bem sucedido
«Lancers»...

domingo, outubro 21, 2007

QU'A PAZ SEJA CONVOSCO

Assistia placidamente sentado,no meu quarto, à final de Londres,com o copinho do tinto, meio cheio,na mão e um pires com quadradinhos de queijo nas imediações. Os ingleses esfalfavam-se animados, mas os sul-africanos iam controlando.
De vez em quando espreitava o Sporting,que cumpria calendário, em casa emprestada! Que mais desejar para um princípio de fim de tarde? Não sei se pelos contornos que os jogos levavam, se pelo efeito do nectar do Douro, ia sorrindo da maneira como estava sentado: placidamente. Nem dei por me terem trazido o excelente assado,que me puseram à frente,que jantei com gosto! Por isso a segunda do Douro teve de ser aberta.
Quando o vizinho bateu,nervosamente, no vidros da janela.
- Você viu aquilo? . gritou-me, furibundo...
- Aquilo.o quê?
Bom, resumindo, «aquilo» era o Benfica dele (vizinho). Tinha empatado Empatado por mór do árbitro, admitiu ele, que tinha esperado, cheio de paciência, pelo golo do empate.Ele (vizinho) pretendia que eu lhe explicasseo que se devia fazer àquela cambada? Isso lembrou-me que eu devia telefonar ao meu compadre,que foi à bola,porque mora perto do Restelo, embora seja lagarto,desde pequenino!
E fui partilhando o resto de garrafa, com o vizinho, que continuava a perguntar«o que se deve fazer?»
-Ò homem, converta-se,porra, converta-se. Só a fé é que vos pode salvar...
Verdade se diga,que o vizinho não deu ares de ter achado graça e como não havia mais na garrafa abalou a resmungar.
Telefonei ao compadre, ateu confesso, a repetir a graçola e ele acabou a vacilar
--Não, não acredito em milagres, mas...depois do Porto o Sporting...

segunda-feira, outubro 15, 2007

AO FIM DA NOITE

Cheirou-me a papeis rasgados, quando o locutor da Tv-Cabo,a propósito das meias finais do mundial de râguebi, anunciou a transmissão «em directo» para o...«fim da noite»!
Ainda sou, confesso, um sujeito capaz de se espantar e como a mulher é francesa, queria, com ela, ver o jogo. Aparentementeo «fim da noite» esteve previsto para as 20 horas lisbonenses, que são 21 em boa parte da Europa, para lá de S.Sebastião da Pedreira,perdão,perdão, queria Vilar Formoso.
Por aqueles lados europeus dão-se ao luxo de fixar o horário de ver a bola para as 20-45, após o noticiário nobre das 20, que termina antes das oito e meia. Segue-se a pub mais umas quantas informações televisórias. Nós por cá, como se sabe, não: a bola «lixa» o noticiário das 20 e valoriza o Cabo ou o «vizinho» que der o jogo!
O mundial de râguebi contou na primeira fase com a presença entusiástica da equipa portuguesa e prosseguiu, depois, sem ela. Desse modo, para a Sport-Tv,o directo tornou-se dispensável. E assim surgiu o adequado horário:«lá para o fim da noite».
Estou em crer que «fim da noite signifique «menos oneroso»!
É certo que, no meu esquema onerado eu tive direito a ver o directo, através de um dos canais franceses disponivel,o que me permitiu ver a França baquear face à «pérfida Albion» como se dizia na rádio de onda curta espanhola, nos idos tempos do generalissimo. E vi também a África do Sul arredar a animosa Argentina. Não vou, tranquilizem-se, comentar os jogos. Quanto muito daria conta de algum pasmo por ver
no conjunto africano um elemento quase escuro. Lembrou-me o Ben David, que jogou foot
no Atlético e era tão português como eu, nascido na +Alfredo da Costa+. O Atlético
aproveitouo defeso e abalou em digressão por África, dita, então, portuguesa. Na hora do regresso um convite simpático da África do Sul o derradeito jogo da digressão. Ben David,obviamente não podia jogar, mas o Atlético, que era alcantarense por alguma razão, alegou que, sim senhor, Ben David podia jogar. O seu (dele) passporte rezava que o nascido em Cabo Verde era branco, tal como era português.E sem ele não haveria jogo. Jogou, claro, no centro do ataque.Ontem, em Paris, o escurinho brilhou e participou em alguns dos empolgantes ensaios.Um em quinze! Ora, digo eu, tal como o fazia Tavares da Silva,quando beijava a mão às senhoras: «Tem que se começar por algum lado»...

quinta-feira, outubro 11, 2007

SANTO DEUS...

Ora bolas! Mal da fé quando um milagre necessita de certificado de origem.Diante de um milagre pasma-se, reza-se. Para canonizar os pastorinhos são precisos mais milagres!
Mais?
Vamos lá e com alguma calma. Fátima eliminou da Taça o Porto e se tal não é um milagre divino, não faço ideia que mais possa vir a sê-lo!
Atentem, por favor, que se eliminar o Porto como foi, não fosse milagre, o «prior» da freguesia das Antas ter-se-ia deitado ao árbitro, fosse ele quem fosse, como gato a bofe. Em boa verdade, Pinto nem piou. Alguma vez se viu?
O Fátima ganhou. Ganhou, sim senhor e ganhou em Fátima. O Porto perdeu e Pinto não piou. Ó céus, benditos crentes, que mais se pode desejar?
Não brinquem comigo: o Porto só perde se Deus, na sua infinita misericórdia, quiser...
É milagre, sim Senhor!
Querem ver que os bispos de Roma são um súcia de lampiões frustrados?...

segunda-feira, outubro 08, 2007

Se o Ridículo Matasse...





















Neste fim de semana, a revista "Tabu", do semanário "SOL" publicou uma entrevista com a drª Catalina Pestana. Ao lê-la fiquei, finalmente, a perceber o que move esta senhora que destruiu uma das mais importantes instituições de solidariedade do país, uma destruição que, segundo ela e os seus amigos, foi a única solução para resolver um problema grave que, - sabemos agora - pelos vistos continua.





Só que não se sabe como. Dos internatos quase nada resta, O Colégio Pina Manique -o centro de todos os problemas - deixou de receber alunos dos 2º e 3º ciclos do Ensino Básico, o que significa que dentro de dois ou três anos aquelas magníficas instalações também estarão disponíveis para venda - tal como aconteceu agora com o Colégio de Santa Clara.






o que está a acontecer na Casa Pia pós Catalina é a venda de património, muito do qual foi doado por particulares a troco de contra-partidas.






Enquanto isso, o Sr. Ministro da tutela foge a sete pés de falar do futuro da Casa Pia e a drª Catalina pavoneia-se nas revistas, com posturas ridículas e ameaças de contar mais coisas a respeito do famoso processo de pedofilia. Toda a gente espera que venha dizer, por exemplo, porque protegeu tanto determinados "meninos" - como ela lhes chamava - que deixavam os livros à guarda de funcionários e iam para o Parque Eduardo Sétimo.






As imagens que ilustram a entrevista da drª Catalina são a grande revelação; a srª sempre quis dar nas vistas, fazer pose para a fotografia, dar a conhecer a sua estória de "menina pobre", de "cultura operária".






Talvez esteja mesmo a pensar nesta entrevista no começo de uma brilhante carreira como modelo fotográfico ou - quem sabe ? - a musa inspiradora para uma telenovela daquelas que conta as desgraças de uma menina pobrezinha mas tenaz e com capacidade para chegar ao topo. Quem sabe o que significará aquela pose ridícula num dos acessos ao CCB?


Este conjunto de fotografias em que aparece a menina e já senhorinha e também com uma clebridade do PS - não se vá pensar que a cultura operária fez algum estrago na cabeça que até usa lenço... -terá, seguramente, a intenção de despertar a imaginação de um escrevinhador de telenovelas.




Terá, todavia, que ser na TVI, porque, ao dar a entrevista ao "Sol", queimou a possibilidade de se ver na SIC e não acredito que, apesar de tudo, de todas as cópias do modelo da América do Sul que a RTP tem vindo a fazer faça passar uma telenovela com, por exemplo o título "Catalina, a Grande".

domingo, outubro 07, 2007

PENSAR MELHOR

Achei bem que o primeiro ministro tivesse entendido explicar a premência na construção de novas barragens. Espero que ele não se sinta constrangido em recuperar a que Guterres mandou para o lixo, para poupar as gravuras razoavelmente milenárias.
Li qualquer coisa sobre a falência do projecto cultural e turístico. Quero crer que a barragem, ela, podia ter apoiado com vantagem o fenómeno, conservando as gravuras, sem as afundar. E teria sido mais útil para o País, fosse qual fosse o sucesso da exposição das gravuras.Os primeiros-ministros podem dar-se ao luxo de ser generosos. Podem, claro! Sobretudo quando o dinheiro é do povo. O obscuro jornalista que eu era,por essa altura, criticou a decisão de mandar uma barragem, praticamente pronta, para o lixo. Tanto mais que havia meios para salvaguardar as imagens gravadas na pedra. Prevaleceu a fé de quem mandava. Foi demais, mesmo levando em conta que Guterres era católico assumido!
Não deve ter sido por mór da fé que o governo de então anunciou de seguida um aeroporto para a OTA.O pobre jornalista, acima referido, bramiu contra, claro. Mas ele, recordo,nada tinha contra a Ota, até achava bem. Não queria, e ainda hoje não quer, era o fim do aeroporto da Portela.
Como está,o projecto cheira a papeis rasgados.A decisão de apressar o «Metro» para a Portela não visa melhorar os acessos. Afigura-se mais como meio de valorização de vasta área destinada à especulação imobiliária.
O país não tem necessidadede um imenso aeroporto em parte alguma.O que Lisboa necessita é de dois ou três aeroportos pelas cercanias e da «Portela» bem no centro, onde está. E não estou a dar nenhuma novidade. Imaginem quantos aeroportos rodeiam Londres! E de quantos conta Paris!
Quando o «Charles de Gaulle» abriu, lembro-me, «Orly» deixou de ter voos nocturnos.
Foi isso que «pobre jornalista» lembrou e sugeriu para a «Portela», quando o novo aeroporto de (ou para) Lisboa estivesse pronto, para que os lisboetas pudessem, todos, dormir em paz.
Receio que este país não tenha, de facto, jeito para aeroportos. Quando absorveu o aerodromo de Beja, imaginei que iria alargar-se à volta de Beja uma rede de acessos, mais virada para os lados de Espanha. Haveria por ali mercado para alargar o tráfego aéreo. Beja era bem mais perto do que Madrid. Imaginar,imaginei, mas estava a sonhar...

quarta-feira, setembro 19, 2007

MAIS EURO MENOS EURO...




É evidentemente uma graçola de mau gosto,uma montagem perversa ou uma canalhice acanalhada. Nada que não se espere de um governo de direita, camuflado de esquerdismo
baratucho. Seria muito bem feito que espetassem com estes gajos no tribunal, como se fez com o outro, do burgo intestino, e sem piedade! Que vão fazer gracinhas p'ra casa deles...

sexta-feira, agosto 24, 2007

ANDAR À TOA

Nem me lembro quem escreveu a frase que mais me vai marcando à medida que envelheço:«Quanto mais se avança no futuro é o passado que encontramos!».
Mas é o presente que mais me baralha e me remete para o que foi e se acabou.
Em Santa Apolónia havia um balcão de Informações. Havia, já não há.Perguntei ao da bilheteira onde perguntar.
- Lá dentro -, disse-me ele. - Junto ao gabinete do chefe da estação.
Num hall pequeno, duas mesas tipo secretária, cada qual com sua ocupadora. Pedi informação sobre comboios para e de Santarém.
-Ora aqui tem - disse-me ela, estendendo-me um pequeno horário desdobrável. Folheei e surpreendi-me.
- Aqui só mencionam comboios para Tomar e Entroncamento - disse-lhe. - Os «Alpha»
ou os «inter cidades» também lá param... Ou já não?
- Param, claro -- respondeu, com um sorriso. - Mas esses são com a minha colega, daquela mesa...
Uns dias depois, no feriado, tentei telefonar.Só se descortinam números esquema, «se for para isto carregue no...se for para aquilo, carregue no... Se não for para «isto» ou «aquilo» ficas a falar sózinho. Fui-me á lista anterior e lá vinha o número da Estação tal e qual. Mas qual quê...Logo que se estabelecia a ligação apareciao sinal de ligado ao fax. Transcorridos 21 quilómetros até à Estação, perguntei o porquê. Não há porquê. É assim.
Quando um dia destes quis ligar à cia seguradora (agora sou eu que falo assim)esbarrei com...«a sua chamada está em fila de espera. Deverá aguardar cerca de l8 minutos». Passados uns intantes a voz monótona avisou: «Tem 17 pessoas à frente e deverá aguardar 17 minutos». Foi repetindo, repetindo, até faltarem 8 pessoas e dois minutos. Cinco minutos depois ainda faltavam 6 pessoas e os mesmos dois minutos. Desisti. Telefonei para um amigo de um sobrinho do cunhado de um chefe de serviço. Passado meia hora o meu amigo ligou-me para me tranquilizar:o seguro já tinha sido pago.
Uma noite destas foi o telejornal a falar da balbúrdia nos serviços de estrangeiros, com os telefones na merda.
Lembro-me do primeiro telefone caseiro. Morava num sexto andar da Victor Cordon.Custava trinta paus por mês,o aluguer, e as chamadas cinco tostões. Era preciso pedir ao pai ou à mãe para telefonar. Como era adolescente, um dia telefonei para uma pequena, que morava perto da Covilhã. Na factura apareceu uma chamada de quinze mil reis e isso custou-me um arraial de porrada paterna. Eram bons tempo.O prédio tinha uma modernice: campaínhas na porta da rua. Mas uma vez esqueci-me da chave da dita porta. Passava um pouco da uma da manhã e a minha autorização para voos nocturnos terminava às dez!Uma vez fui apanhado às 0nze e cinco, e isso valeu-me duas semanas sem saídas pós jantar.
Bom, bate palmas, rapaz, bate palmas. O guarda nocturno lá apareceu, quando eu desesperava. Quem, hoje, se lembrará destes personagens típicos?
Estava a matutar nisto e desandei para as nuvens. E foi por me lembrar de chinelos de trança e de como eles deviam hoje constituir um sucesso, se alguém os soubesse fazer, que me lembrei das varinas, desta cidade, que me viu nascer. Vejo-me na «24 de Julho», quando ainda tinha bancos,alta madrugada, a descer com o Gonçalo Duarte,os dois, claro, com um grãozito na asa, quando começamos a ouvir a discussão de varinas da Madragoa, a caminho da Ribeira, e sentamo-nos num banco a apreciar. De súbito, no meio do sururu, uma das varinas gritou:«Fressureira, eu?Eu fressureira». E caiu num desatino. Imobiliza-se. Com a mão esquerda levantou as saias e com a direita dava palmadas no fundo da barriga, entre as pernas e gritava:«Olha pr'aqui, minha cabra, olha pr'aqui, pró calo dos colhões do meu marido!».
Eu e o Gonçalo ficámos desvairados e só mais tarde, na tasca da Ribeiro, conseguimos rir. Depois do copo senti-me deprimido
- Qu'é que tens,pá? - perguntava-me. - Tás com sono?
- Não! Não tenho sono. Mas... pois...é que...nenhuma das minhas namoradas tem calos
ali...

sexta-feira, agosto 03, 2007

SIM...MAS...

Como o comum das criaturas do meu tempo, fui para a escola aos sete anos. Já vos devo ter contado que tive um prof. trasmontano e tinha um presidente do Conselho de Santa Comba.
Um colega de carteira haveria de malhar com os ossos na Índia. Da confusão só teve o prelúdio. A parte dura seria depois, já ele regressara ao Século, onde trabalhou nas oficinas. Ainda a tempo da guerra que por lá estalou, quando o governo de então tinha metido «o socialismo na gaveta», para entre outras coisas fechar o jornal dos sapateiros e publicações afins, numa das cujas directava Natália Correia. O então ministro Alegre, também poeta, diria nas vésperas que o «Século» não podia fechar.
Já me perdi. Estava na escola para aprender a ler, mas comecei a falar disso por mor dos electricos. É que, de vez em quando, com uma «croa» (cinco tostões) lá ia até ao Conde Barão.
Havia, claro, outros mais desembaraçados que se penduravam no estribo e os cinco tostões davam para duas doses de tremoços. Aquilo dos eléctricos era negócio inglês. Não sei se era estúpido, mas tinha muita, muita gentinha a trabalhar. Começava cedo a circular e terminava pela madrugada. Havia, bem entendido, problemas de trânsito. Não que o tráfego fosse intenso. Durante a guerra na Europa os automóveis eram escassos e autocarros não os havia na Carris. A chatice advinha dos burros, cavalos ou éguas que puxavam carroças e que, por vezes, caiam sobre a linha, causando efervescência mais ou menos divertida e que também servia para justificar alguns atrasos.
E também havia comboios, que consumiam carvão. Nos comboios e nas estações deles também trabalhava muita gente, muita. Na minha terra, nesse tempo, podia-se ir até ao Porto ou a Sintra. E também a Cascais, mas nesta linha o comboio não ia a carvão e, nele, eu ia para a praia.
Na estação do Cais do Sodré havia muitas bilheteiras e para passar do hall de entrada para a gare, pelas diversas portas em cada qual estava um vigilante a vigiar as entradas.
Havia, é certo, outros circuitos à roda de Lisboa, que não conheci em pormenor.
Tal como os eléctricos, em Lisboa ou no Porto, os comboios desempenhavam um serviço público e eram economicamente rentáveis. Depois da guerra, quando a indústria automóvel irrompeu
em força, obrigando os governos a desviar verbas para construir estradas, auto-estradas e
outros caminhos asfaltados, foi sendo travado o desenvolvimento dos eléctricos citadinos bem como dos comboios urbanos ou interurbanos. Não se procurou conciliar, mas substituir. Foi assim até o caos se instalar.
As mudanças não ocorreram apenas nos meios e sistemas de locomoção, mas na economia de subsistência que se foi gerando e que levou ao esvaziamento dos empresas transportadoras e não só...
Além dos eléctricos, os ingleses exploraram por cá os telefones; mas os CTT também dispunham de redes. Quer os ingleses, quer os de cá, empregavam toneladas de criaturas. Deviam ser burros. Os novos directores-gerais, engenheiros, doutores e correlativos, acharam por bem reduzir os quadros ao mínimo possível. Nos transportes, por exemplo, só há alguns bilheteiros e muitas máquinas a fazer de. Nos comboios ainda subsiste o chefe da estação a agitar a bandeira e a apitar para a saída do Alpha ou do regional, mas no «metro» ou nos autocarros é só maquineta a controlar. Evidentemente que há muita balda e «eles» sabem. Sabem e contabilizam, agravando os preços. De facto esforçam-se por assegurar os sistemas de modo a travar os borlistas, mas estes também se esforçam, mas como a manutenção dos sistemas é onerosa e, claro, quem se lixa é o mexilhão. A opção pelos sistemas maquiavélicos não limita os custos empresariais, mas evita, isso sim, os diferendos laborais.
E vou voltar ao meu eléctrico de menino e moço. Custava cinco tostões quando ia para a primeira classe aos sete anos. Custou cinco tostões aos vinte anos, quando fui às sortes...

quinta-feira, agosto 02, 2007

IR E VIR

Já confessei que a ler jornais não vou lá, não entendo este mundo que me rodeia. Volta que não volta espanto-me, como me aconteceu em Paris, face à aterradora má vontade da comunicação social para com Sarkosy, desde que tomou posse da presidência. E como já vos contei não levou muito a perceber que não era o personagem em si, recentemente eleito, que estava em causa, mas a carência de temas apelativos que conduzam à compra, ou à venda, se preferirem, de jornais.
Como acontece noutros países, a oposição francesa está em crise aguda. Praticamente não existe. Melhor dizendo: existe mas fracturada, desiludida e descomandada! Façam o favor de notar que estou a referir-me especificamente a França. Nem me ocorrem outras crises do género pelas proximidades!
Não tardou que outra, noutro Continente, nos pusesse no mesmo rumo: a premência de vender papel. Nada melhor do que trazer à ribalta política o decote de Hilary Clinton. Mas desta vez reclamo: gaita, na foto dos jornais cá do burgo nem um bocadinho do decote se vislumbra. Mas que raio de história! Para que Diabo as mulheres têm mamas se não é para encher decote? Oh!Oh! como era diferente nos tempos de Kennedy! Esse até a Marylin consumia sem que jornais e jornalistas dessem um pio!
De facto, parece que falta jeito a muita gente para vender jornais.
Vale que por cá tudo bem. Os jornais vendem pouco e os gratuitos vão sobrando. Um dos matutinos pôs no lixo o soduku e as cruazadas; o vizinho alargou o espaço. Na estação onde apanhei o comboio vendem só o matutino que não e como não sabia, lá tive que ler o jornal e ficar a saber que «o cabo só deve cumprir 12 anos e meio»! É,claro, uma conclusão filha da mãe, mas os jornais, agora, são assim, cheios de criatividade. Como o juiz não fez o favor de arranjar uma condenação minúscula, que permitisse uma parangona a toda a largura, houve que improvisar...
Mas a Justiça não está livre, de facto, de ser posta em causa. Nem tanto pelos juizes e por algumas sentenças, mas por tudo à volta. Não se pode revelar o nome do menor que matou o irmão mais novo, mas como não é proíbido, por certo, divulgar o nome da vítima.
Permite-se, por exemplo, às televisões, entrevistar criminosos confessos ou acusados, como aconteceu com um religioso que assassinou um jovem na Madeira e já condenado, numa saída precária participou num programa de TV vergonhoso, que incluia uma maquineta detectora de falsidades. Narcisicamente, o criminoso saiu «inocentado». Na precária seguinte,o recluso sumiu-se com a mãe para o Brasil, via Espanha.
Este mais recente, também foi à TV dias antes do julgamento e acusou o vizinho, como quem vende banha da cobra.
Matar uma jovem e deitá-la ao poço é uma coisa, matar, atropelando uma jovem que atravessava a rua, na passagem para peões, é capaz de ser outra, mesmo que o tribunal tenha entendido condenar o automobilista em dois anos de prisão. Mas com pena suspensa!
Até para matar pessoas é preciso sorte e jeito.
Se um tipo acreditar nas paragonas dos jornais pode fazer projectos, pesando prós e contras.
Matar a vizinha do rés-do-chão, que é uma chata, custará quanto? Dez anos? Doze? Se for com carro talvez seja mais barato que matar à machadada. Se alegar que foi ela que pediu, haverá desconto? Poderá negociar-se a dispensa de recurso em troca de duas «precárias» por semana?
Parece uma espécie de roda da sorte, em que tudo é possível e nada está determinado. Um juiz diz vinte cinco, e o repórter contrapõe. 12 e meio!
Se já não há ética, que se ponha ordem...

sexta-feira, julho 27, 2007

DESAPRENDER ATÉ MORRER

Eu ignorante me confesso. Absoluta ou absurdamente, nem sei. Sei que não entendo. Ler jornais não é, de maneira nenhuma (alguma?) modo de saber mais. Duas semanas e meia de Paris e arredores chegaram e sobraram para entender isso. Todos os jornais e televisões, grosso modo, dizem mal ou ridicularizam o personagem presidente da República, eleito com apreciável maioria.Digo grosso modo porque o canal do Estado abstem-se. Quando não se tem à mão um qualquer caso objectivo improvisa-se. Tem é que se dizer (ou escrever) mal. Objectivamente mal ou caricato. Ainda esta semana, um editorialista improvisou a cena que seria o despertar de Sarkosy, deslumbrado com o cargo, a acordar a esposa para lhe lembrar que ele era o Presidente. Uma cabotinice reles, porque não foi estampada no «inimigo público» do pasquim, mas nas páginas de política comum.

Mesmo o desfecho do caso das enfermeiras cativas e condenadas à morte foi asperamente criticado pelo facto da mulher do Presidente ter participado; e não obstante o facto do ministro dos assuntos exteriores ter explicado os contornos das negociações e da recusa do Khadafi em receber ministros ou executivos da comunidade europeia.
Durante quase oito anos as enfermeiras e um dos médicos tiveram presos a sujeitos a
torturas físicas e psicológicas e a ser condenados à morte. Médico e enfermeiras foram acusados de injectar crianças com o virus da sida, mas são os hospitais que adquirem os produtos farmacêuticos, importados do estrangeiro, não são nem os médicos nem os enfermeiros. Ninharias para Khadafi, os altos interesses de Estado não se compadecem.
E em Espanha é o herdeito do trono a não ter direito à ira, quando um pasquim qualquer, presumivelmente humorístico, sugere o príncipe desnudado a tomar por tràs a esposa. Mas se, ao invés, se tivesse exibido o director da publicação a ser papado por um cigano bem apessoado, como alguns deles gostam de ser, ( não sei se entenderam que eu quis dizer "apessoados" e não a expressão "papados"), talvez a reacção fosse diferente, sem pôr em causa a santificada liberdade da imprensa, que como qualquer outra liberdade tem limites apropriados, qualquer que seja a moral convencionada. Ele há merdas que se não dizem e brincadeiras de mau gosto.
Pessoalmente não sou monárquico; como não sou de esquerda e menos ainda de direita. Sou descrente por convicção.Mas pelo facto de não gostar do ex namorado da senhora Segolene não tenho o direito de lhe chamar filho da puta, apesar de ser notório que pelo tacho ele se tem sujeitado a tudo.
Suponho que ainda não se saiba ao certo se Chirac vai ou não ser acusado de filhas de putice reles, que poderão afogar Villepin, que creio ter alguma dificuldade em nadar fora de pé. Mas antes destes já um presidente de outra família política tinha mandado afundar um barco pacifista
que se opunha a experiências nucleares, no Pacífico e que, imagine-se!, também tinha descendência ilegítima, ainda que tivesse um bon ami em Lisboa!
Quando a ministra demitiu o funcionário por dizer graçolas deu para perceber que a liberdade de expressão é uma treta e coisa que nem o governo legítimo tolera. Pois que se lixem e fiquem
com toda a opressão de que forem capazes. Estou-me borrifando. Já passei dos setenta. Não preciso de cautelas nem caldos de galinha. Em qualquer circunstância morrerei de velho...

quinta-feira, julho 12, 2007

Defice Democrático

O tema da democracia em Portugal está na ordem do dia - de resto, nunca deveria ter deixado de estar - não porque o presidente da República chamou a atenção para eventuais atitudes de abuso do poder e evidentes carências dos partidos da Oposição, mas porque o nosso sistema não é um sistema democrático.
Eu explico: a estrutura de poder saída de eleições que, segundo tudo indica, decorrem dentro das regras democráticas vigentes em grande parte dos países europeus (pelo menos), regra geral, não cumpre o programa com que se candidatou às eleições.
Esta verdade, verificada desde o 25 de Abril, representa uma fraude insanável, com repercussões catastróficas em toda a vida nacional, a primeira das quais é representada pela desconfiança generalizada dos cidadãos em relação a todos os políticos.
Quando um povo, na sua quase globalidade, não acredita nos dirigentes que escolhe para o governar, está tudo errado, sobretudo porque esta desconfiança cria, primeiro, o descrédito das alternativas e, depois, afasta os cidadãos da pouca participação que o sistema lhes permite.
Este alheamento permite, por outro lado, que os sucessivos governos saídos de eleições, cada vez menos participadas, esqueçam facilmente os grandes problemas das populações em geral e dispensem especial atenção à satisfação dos interesses dos mais variados lobies, como a banca, os petróleos, os automóveis, os construtores, etc. etc.
A certeza de que o programa com que os partidos concorrem às eleições não vai ser cumprido, transformou, de resto, as eleições legislativas, não na escolha de um programa de governo, mas na votação numa figura para primeiro-ministro e as campanhas trasnformaram-se na "venda" de um leader.
Por isso, a população, de uma forma geral, não lê, não compara os programas dos diversos partidos concorrentes e guia o seu voto pela simpatia que tem por determinada figura, pela "necessidade" que sente em desalojar quem está no poder ou porque, assim como é do Benfica ou do Sporting, milita neste ou naquele partido.
O resultado é uma tensão permanente entre oposição e governo, tendo como único objectivo a disputa do poder e uma instabilidade social perigosa, que coloca em causa os fundamentos da ordem e da legalidade.
A continuidade da mentira não deveria poder continuar. Os programas apresentados ao sufrágio popular deveriam ser rigorosamente cumpridos, pelo que deveria existir uma instância constitucional com a possibilidade, diria mesmo, com a obrigação, de demitir o governo que não cumprissse o programa sufragado.
Esta possibilidade/obrigação poderia ser partilhada pelo presidente da República e pelo Conselho de Estado, cuja composição não poderia continuar a seguir o actual sistema.
Este modelo poderia ser substituído pela existência de um Senado, que partilharia tal responsabilidade com o presidente.
Ou uma outra solução, ou qualquer outra mais elabora e eficiente. O que é importante é acabar com a enorme mentira a que chegamos através de um processo aparentemente democrático.