quinta-feira, abril 26, 2007

GOSTOS E DESGOSTOS

A princípio foi quase com comoção que dei pela quantidade de portugueses a participar nas eleições francesas, dividindo-se pelos diferentes partidos, em contraste com o que na matéria se passa cá por casa. Depois deixei-me disso.Diverti-me mais com os resultados, confrontados com as previsões e análises. É sempre a mesma festa. Mas se a leitura, que se faz por cá, do que acaba de acontecer faz algum sentido, a caseira, as dos meios de comunicação franceses deixam alguma coisa a desejar...
Mas faz sentido misturar, afinal somos muitos por lá e de algum modo,já no passado meio recente, tivemos alguma interferência, alguma responsabilidade no resultado de eleições gaulesas.Lembram os jornalistas que já aconteceu antes o ganhador da primeira volta não vencer as eleições. A primeira dessas situações ocorreu em 74.Ano histórico, não apenas para nós portugueses de cá, mas para a França, que vivia o momento especial: a esquerda aparecia definitivamente em condições de triunfar e as querelas à direita pareciam insanáveis. A perspectiva de mudança empolgou os franceses e o facto de não ser já o desgastado partido comunista a comandar a oposição, mas sim o PS, com Mitterrand à frente, inebriava grande parte do eleitorado.Mas...
Mas as notícias alarmadas que chegavam de Lisboa, sobre o Portugal revolucionado, com a muito estridente viragem à esquerda, a par do afundamento de economia, foi pesado e badalado e surtiu efeito:a direita, em França,reunificou-se, Giscard passou uns pinguinhos dos 50%!
Mitterrand iria esperar sete anos para entrar na História. Da vez seguinte, Chirac ficou surdo aos apelos e Giscard caiu. Pelo contrário, Mitterrand acabou por aceitar um discreto acordo com o PC.
Por essa altura, andei por lá e diverti-me. Em casa dos outros tudo tem graça.Houve, bem entendido, nacionalizações mais a torto que a direito, mas, sobretudo, muito paleio festivo e a promessa de que tudo ia mudar.Como jornalista,o que me divertiu mais foi vendaval na comunicação social. Havia,por essa altura, três canais televisivos. Dois com pub e um limpinho, sem muita graça, mas sem a pub. Quase tudo eram discuções infindáveis sobre política e políticos. Aventou-se que era preciso um canal só para cultura «pró povo». O povo precisava. A Esquerda ia dar.
O que acabou por aparecer foi um canal comum, mas codificado, quer dizer: a pagar! Foi quase um escândalo. Então o povo, a cultura? Como é isso?, diziam os descrentes desconcertados. Bom, vai haver cultura e isso em sinal aberto. E houve: 15 minutos por dia!
Houve mais, muito mais. O governo inicial não durou muito.O PC depressa tomou conta
da administração pública, dificultando a acção do governo. Mitterrand foi aguentando o barco, até às eleições governativas. O esquerdismo morreu, com a chegada de Chirac. Fez-se a desnacionalização das nacionalizações, privatizou-se a maioria dos canais televisivos, criaram-se novos e manteve-se na posse do Estado o canal-2.
Mitterrand manteve-se tranquilo, à espera que Chirac arrumasse a casa. E nem precisou de nenhum veneno para se livrar do primeiro ministro: o crash da Bolsa esvaziou a euforia renovadora. Nas presidenciais que se seguiram, Chirac ficou a quatro pontos e o seu governo foi à viola. Finalmente, Mitterrand «reinava». Seguiram-se alguns ajustes de contas, entre iguais, com ministros sonantes a ir à vida. Para o fim, o Presidente arrumou os seus assuntos pessoais e familiares e deve ter-se divertido a assistir ao desvario do destroçado PS para arranjar um candidato.
Lionel Jospin foi quase inventado. Não havia nome que aceitasse gerir o partido.
Quase desconhecido e com o partido nas covas, Jospin entrou na corrida e obteve uma inesperada supremacia na primeira volta, face a Chirac, que viria a ganhar a segunda volta. Mas o líder socialista recuperou o partido e impôs-se na cena política. Chirac acabou por imitar Mitterrand,para evitar ser arranhado pelos seus pares: demitiu o governo e convocou novas eleições. Jospin chegou assim à segunda cohabitação. Mas acabou por ter um fim inglório, quase caricato: foi derrotado pela comunicação social de esquerda!
Também assisti e custou-me a acreditar. Mas foi simples:as eleições eram muito participadas, com os partidos do costume, mais os pequenos partidos, mais os grupelhos e de que é que se foram lembrar os jornalistas e os afins? «Bom, meus senhores, todos sabemos que Chirac e Jospin vão à segunda volta. Agora o que é preciso é aproveitar para referendar os outros. Vamos ver de maneira clara o que é que vale cada um deles, sem preocupações, sabendo todos que Chirac e Jospin vão à segunda volta!» Isto,sim, isto foi explicado até à exaustão pelos jornais e semanários! Foi, sim senhor. E nesse domingo, quando cheguei a casa do Yanne,para ver com ele a noite eleitoral, levei com a bomba, dez minutos antes das oito o canal do cabo furou o esquema e anunciou: Jospin está de fora!E estava! Nenhum jornal, nenhum jornalista, entendeu explicar ou justificar.Brincar com o fogo queima, lá isso queima! Mas, enquanto queimar os outros,que se lixe...

terça-feira, abril 17, 2007

SE UM AEROPORTO INCOMODA TANTA GENTE...

... Dois talvez incomodasse menos! Desta vez o ministro irritou-me. Nem um ministro socialista tem o direito de ser tolo, de um tipo de arrogância saloia.
Pessoalmente nunca ma manifestei anti Ota. Não fui, nem quero ser. O que eu defendi
desde sempre, desde que o governo de Guterres se propôs levar para ali o aeroporto da cidade,foi o de manter o da Portela; comentei sempre o assunto ao contrário: isto é, outro aeroporto, sim;na Ota, tanto me faz; mas manter a Portela onde e como está. Defendi que o actual aeroporto podia e devia servir unicamente a Comunidade Europeia. Um aeroporto caseiro, por assim dizer, sem fronteiras e sem formalidades fronteirosas,logo mais despachado. Que fechasse à noite. Na Ota ou noutro sítio qualquer construissem outro, sem grande aparato, mas funcional, cheio de alfandegagistas, de polícias super secretos e uns quantos maus como as cobras.
Disse ao DN o senhor ministro no poleiro: a Portela é para fechar, não é viável, não faz sentido! Para reforçar a tese acrescentou: «Veja o que se vai passar em Berlim e Xangai,quando os novos aeroportos estiverem prontos, os outros fecham».Não é um argumento, é uma chico-espertice de ministro pouco dotado. Não é por ser berlinense
que ele quer despachar a Portela, mas porque precisa do taco para se permitir uma Ota dispendiosa, para espantar os burgueses. Provavelmente os franceses são todos parvos, com aqueles três aeroportos à roda de Paris. A rainha dos ingleses é, pelo menos, pateta por autorizar aqueles aeroportos todos em Londres.
Lisboa com a Portela aliviada de voos nocturnos e de formalismos alfandegários muito depressa seria um dos mais apreciados da Europa. Se, porventura, a Ota vingar, melhor para todos nós. Pela minha parte o senhor ministro até pode botar lá, bem no meio uma estátua com a sua figura arredondado e com espírito a condizer, mas deixe, sff, a Portela em paz...

domingo, abril 15, 2007

ANTES DO DEPOIS

A RTP entretem-se e entretem-nos a rememorar os seus dela cinquentas.Podiam ter começado pelo milenário «era uma vez», porque surgiu como um conto de fadas. Vinha aí uma jovem rainha. Salazar aceitou abrir os cordões à bolsa e dar ao povo a televisão, de que se ouvia falar.
Era, bem entendido, a preto e branco.A emissão,se a memória não me falha,começava ao fim da tarde, depois do Sol posto, e prolongava-se até cerca da meia-noite. Não debitava publicidade. Alimentava-se da portagem, quer dizer, da licença. Licença era uma das predilecções do governo. Pagava-se licença para ouvir Rádio e, também licença para usar isqueiro ou por porte de arma.No caso da Rádio era preciso ter aparelho, como para os isqueiros e nem sei se por atavismo ou vergonha. Não é como agora, que se paga licença de Rádio, mesmo que se não oiça. Vem incluida na factura da luz e nem se dão ao incómodo de explicitar o valor da mensalidade. É certo que um sujeito pode ter uma porção de rádios, que só paga por um, mas paga à má fila, lá isso paga. Mas já lá vamos. Por agora vamos recordar a alegria de ver. Mas antes de muita gente ter aparelho, caro, para o nível de vida, podia ver-se sentado nos cafés de bairro e, depois, nas tascas da noite.Mas com o andar da carruagem os televisores entraram em casa das pessoas e os cafés começaram a perder pedalada.
Aos poucos a cidade, as cidades, vilas e aldeias, mudavam. Em vez de cafés viam-se, agora, bancos, muitos bancos. Quando o Royal fechou no Cais do Sodré foi como se um tipo tivesse enviuvado, meio perdido. O Rossio deixou e ter noite, virou uma aldeia.
E, de súbito, o profissionalismo do pessoal da televisão deu um sinal. Atarefados e voluntariosos apostaram a ser capazes de transmitir a final do campeonato do mundo de hoquei, a partir de Madrid. Tiveram que estender cabos e linhas e nem sei que mais, por campos e vales, mas conseguiram. Nessa noite, no restaurante, onde hoje a Caneças faz pão, sentei-me para jantar e ver o Portugal-Espanha, que os portugueses de Moçambique ganharam.
A par do arreganho surgiram outros apetites. A publicidade despertava e pressionava.
Colocava-se um problema: a taxa. Para o governo a taxa era coisa certa e segura a pub seria o quê?
A solução foi, como se sabe, criar um segundo canal, esse, sim, sem pub. Não que fosse novidade. Em França, ainda que não houvesse taxa, a TV, já a cores, não passava publicidade e a ideia de vir a fazê-lo alarmou a Imprensa e outros meios de comunicação. Foi preciso negociar e assumir restrições. Não se podia interromper um programa, para inserir pub, nem debitar anúncios mais do que xis tempo por hora e, claro, mais um canal,neste caso o terceiro, sem publicidade. Mas era, digamos assim, um canal saloio. Repartia-se por regiões, cada qual com programação regional própria. Apenas se unificavam para dois noticiários de âmbito nacional, enquanto a imprensa escrita beneficiou de tributação aligeirada.
E foi assim até à chegada de Mitterrand ao poder. A publicidade explodiu e os canais multiplicaram-se, com mais ou menos sucesso.Lá como cá,a Imprensa escrita emagreceu as tiragens e foi perdendo espaço.
Foi um pouco por tudo isto que apareceu a TV por cabo. Apareceu, não nos esqueçamos, para emitir programação e filmes, sem publicidade,mas com a santa taxa. Até eu fui na conversa e no fascínio de me livrar dos anúncios e deixei o Cabo instalar-se.
Se não fosse pelo Mourinho provavelmente já teria desistido...

segunda-feira, abril 09, 2007

HOJE

Suponho que vai ser hoje que o ministro-mór vai mostrar os diplomas, incluindo o domingueiro. Não imagino o que poderá ganhar com isso. Além do mais, os independentes são, como se sabe, cada vez mais dependentes e só um «Gago» pode cuspinhar tanto antes de dizer o que lhe vai, decerto, na alma. E como se não bastasse, a Caixa, naturalmente dependente, tem um tremendo deve haver com a Independente.
Marcelo carregou na tinta ao dizer alto o que se murmurava sobre a africanidade Independente.
Explicada a idoneidade moral e cívica, o que é que sobra?
Independentemente das razões que levem a senhoras a ir parir Badajoz pode-se na mesma obter um canudinho da universidade do lado e vir a correr, para cá do Marão, mandar nos que aqui estão...
Quem é que mais vai querer ser prior na freguesia?
Vem-me à memória um dos poetas do Gelo: «Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa»...
Pessoalmente não os estou a ver passar, e muito menos depressa. Basta ver o empenho que mostram a tratar-nos da saúde. De uma coisa porém o governo não pode ser responsabilizado: a qualidade da oposição que tem em face...

sábado, abril 07, 2007

O Túnel do Marquês e as consequências

Lá mais para trás escrevi alguns textos sobre o Túnel do Marquês. Expliquei que havia beneficiados das infraestruturas pagas pelos impostos de todos: João Pereira Coutinho, amigo de Durão Barroso e de Santana Lopes; que iria ser construía uma urbanização, dividida em duas fases.
Pois bem, a construção da primeira já principiou e vai ocupar uma superfície verdadeiramente insuportável na área pertencente há anos a um Colégio dos Maristas, atrás do edíficio ocupado pela estrutura administrativa da RDP, que, entretanto, também está a ser incorporado na nova urbanização.
O que se está a fazer naquele sítio é um verdadeiro crime contra a cidade, contra os seus habitantes , porque vai transformar uma área já muito sobrecarregada numa zona com uma densidade demográfica aterrorizadora. Tudo isto à sombra do Túnel do Marquês, que promete desanuviar as Ruas Joaquim António de Aguiar e Artilharia Um do tráfego actual. Ora, a verdade é que vai ficar tudo pior. Primeiro, porque as viaturas pesadas vão continuar a passar à superfície, incluindo os autocarros e, depois, porque com a construção da segunda fase da urbanização nova, a Artilharia Um vai ficar uma espéceie de Telheiras dois, outra das desgraças urbanísticas de Lisboa causada pel corrupção do chamado poder local.
Por este andar, Lisboa, em breve ficará uma cidade tão insuportável como qualquer capital do terceiro mundo.

sexta-feira, abril 06, 2007

As Licenciaturas

Portugal é um país de vigarices e de vigaristas - pequenas ou grandes - mas viagrices e vigaristas.
Para que se perceba é preciso saber que, por exemplo, um assessor de um Ministro pode ir, em nome do seu patrão, pedir um serviço a uma empresa e, depois, quando chega a hora de pagar, negar a missão de que se encarregou com grande orgulho. E assim, o Estado vai poupando, reduzindo o deficit - essas coisas... - , mas não da maneira correcta, que seria deixar de contratar os amigos dos primos e as primas dos amigos e mais aquelas que não sendo primas nem coisa nenhuma prometem o paraíso com os olhos..
O Estado está entregue à gestão de um série de vigaristas, que usam como principal arma precisamente o facto de servirem o Estado.
Ouvi dizer algures que o Governo ia estar atento aos blogues. Pois então, se é verdade, investigue o que se passa com o Gabinete de Imprensa do Ministério da Agricultura...
Isto, do Ministério da Agricultura é apenas um parêntesis, porque eu queria era falar das vigarices das licenciaturas, um fenómeno que principiou em 1974 e se prolongou pela década de oitenta e noventa. Provavelmente ainda continua...apesar da defesa acérrima que o Ministro da Ciência e Ensino Superior faz da honorabilidade da Universidade Independente, precisamente aquela ácerca da qual não há dúvidas; é muito fácil obter ali uma licenciatura, do que quer que seja... mesmo de engenharia civil em ano em que não se ministrou o curso, com diploma passado ao domingo ( trabalhava-se a sério...)
É um mal português que nunca vai acabar. Somos todos doutores, engenheiros e, mais raramente, arquitectos. Eu gosto mais de arquitecto. Por exemplo, ao Jorge Coelho ficava melhor. Com o grau académico de arquitecto até poderia chegar a professor doutor, não tinha que saber falar português e pronto.
Agora, o "engº. Sócrates está numa "fria". Com a gula de entrar para a política a todo o custo, de qualquer maneira e por cima de todos, lá beneficiou dos favores do amigo pessoal, um tal Arouca, reitor de uma Universidade onde há demasiados angolanos, outros que têm uma atracção especial pela vigarice, pelo fácil... enfim: é o destino. Já o D. Afonso Henriques enganava toda a gente, bateu na mãe e mentiu ao papa... Confiemos em que a vigarice se transforme numa virtude e já não teremos que andar a investigar toda a gente: por exmeplo, o director da SIC, irmão de um ministro e que é sócio do Paulo Camacho numa produtora independente e de quem recebe comissões por programas que a "Fim do Mundo" coloca na estação do dr. (?) Balsemão.
Já perceberam?

sábado, março 31, 2007

Como estar bem?

Éramos três. Tínhamos vários terrritórios com diversas autorizações e diferentes graus de perigosidade, para percorrer. Éramos como os três mosqueteiros. Onde estava um estavam todos. Tanto como lembro havia outros, da mesma idade, com quem, de vez em quando brincávamos. Mas, nós os três, estávamos sempre do mesmo lado. Ajudavamo-nos a fazer as espadas com que lutávamos lá no Cruzeiro da terra, atrás do qual havia uma espécie de floresta - para nós, naquele tempo, era mesmo . Anos mais tarde estragaram tudo: fizeram lá uma capela: entre a estrada a e a linha de combóio da Beira Alta. Desconfio que os fiéis são poucos.
Até ao Cruzeiro era território autorizado. Nesse tempo não havia automóveis. Passava um por dia, se tanto, e as bicicletas também eram poucas. Toda a gente andava a pé. Para nós havia uma distância que nos servia de medida para todas as a outras. Tínhamos que ir à Loja do Bernardino buscar o vinho para o avô. Ele era o avô dos três, embora fosse pai de um, que, por isso, era tio dos outros dois.
Um tio mais novo quase um ano do sobrinho mais velho e com quase um ano a mais do mais novo - eu.
Para os primos e primas que vieram depois ele fazia questão de ser o "tio Rui". Para nós, os outros mosqueteiros era simplesmente " o Rui".
Eu e ele sabíamos todos os caminhos que levavam a todos os quintais da fruta. Conhecíamos os hábitos de todos os habitantes da terra, a hora da sesta de uns, o tempo que outros levavam da estação até casa. Éramos sempre os primeiros a provar a fruta. Daí ter-me ficado o gosto pela fruta um pouco verde.
Um dia, as ameixas de Santo António brilhavam na ameixieira do Sr. Eugénio. Sempre que lá passávamos avaliávamos a altura em que estariam boas para uma primeira colheita.
Naquela tarde fazia calor e o sr. Eugénio dormia a sesta - de certeza. Saltámos o muro. O terceiro mosqueteiro ficou do lado de fora, para avisar se aparecesse alguém.
Esquecemo-nos que havia um cão e quando já estávamos a colher as nossas primeiras ameixas de Sto. António o cão apareceu a ladrar furiosamente e, logo atrás, o sr. Eugénio, de cuecas e com o cinto na mão. Éramos leves, lépidos e, no mesmo intante estávamos a correr estrada fora, com o terceiro mosqueteiro a gritar por nós.
Tivemos que planear a coisa de outra maneira e fomos lá buscar as ameixas quando o dono estava no combóio, já quele era funcionário da CP. Ali toda a gente trabalhava nos combóios - com eles a andar ou parados.
O avô não. Era independente - ferozmente. Tinha o seu quintal e a sua oficina, vivia entre duas épocas, foi agarrado pela revolução industrial e ficou entre dois mundos, o dos operários - que rejeitou - e o dos camponeses, que o libertava.
O avô era um poeta, contador de estórias. Naqueles dias quentes de Verão, quando não tinha que fazer na oficina, agarrava na enxada, colocava-a ao ombro e, debaixo do braço, levava um livro. Quando se cansava da enxada, sentava-se em cima de um monte de terra e lia...lia, até que o Sol se escondesse lá para os lados da Figueira. Por essa altura passava um combóio a apitar angústias e a avó chamava para a ceia.
Os três mosqueteiros circulavam entre as casas da família, das tias, da minha própria, onde sempre estava a minha mãe e da do avô. Era aqui que nos sentíamos melhor.É verdade que tinha aquela tarefa do Bernardino, do vinho que era preciso ir buscar.
Cá por mim, um dia, recusei: "não vou mais..."
"- Ah sim???!!!.. Então, no domingo, não te levo ao cinema".
"...Quero lá saber..." E fui para casa. Minha mãe estranhou e até fez comentários. Foi perguntando porque é que eu estava tão triste. Acabei por lhe contar a estória, mas fui prevenindo que nada me faria mudar de ideias: " não ia mais ao Bernardino buscar o vinho do avô.."
O incidente, segundo alguns anos mais tarde percebi, perturbou a nossa comunidade e toda a gente se mobilizou para repôr a harmonia. Eu deixei de subir a casa do avô. Agora era ele que passava na minha casa a caminho do Bernardino. Quando o via, sempre ia ter com ele para lhe pedir a benção: "a sua benção, meu avô..."
"...Deus te abençoe, meu filho..." e lá seguíamos cada um o seu caminho.
À medida que se aproximava o domingo a pressão aumentava, mas eu mantinha-me imperturbável. Até que, no domingo, à tarde, estava eu no cruzeiro numa batalha de capa e espada com os amigos da vizinhança, quando apareceu o Rui, de falinhas mansas. Ele e o meu irmão: "...então, não te vais vestir...?"
"para quê?"
"para irmos ao cinema..."
"o avô disse que não me levava... vão vocês os dois".
Começou então o enredo que o avô lhes tinha ensinado: eu iria com eles, atrás do avô, por forma a ele não me ver e quando chegássemos ao Cinema ele acabaria por me ver e comprar os bilhetes para todos. Acabei por embarcar mas - confesso - um pouco contrariado. Não me sentia muito à vontade.
Quando chegámos à bilheteira do Cinema da Pampilhosa, uma pequena maravilha, cópia do S. Carlos, e onde passei alguns momentos mais fascinantes da minha infância, o avô pediu três bilhetes, mas, de repente, como se tivesse descoberto, naquele instante, que eu estava ali: " Ah!... estás aí... ?" e, para dentro da bilheteira: "afinal são quatro"
Enquanto me diverti com o Errol Flyn, acho que no Robin dos Bosques, esqueci a sensação de que tinha sido enganado. Depois que voltámos a casa, estava tudo saneado e o avô continuava com aquele sorriso maroto de quem tinha ganho uma partida de xadrez em vários tabuleiros. E o Rui, o meu companheiro, era o mais contente de todos, apesar de, habitualmente, ser o mais fechado.
A felicidade das brincadeiras, das fisgas, do futebol com bola de meia ou mesmo de papel, haveria, todavia de terminar. Um dia, a família resolveu ir para Coimbra. O Rui ficou com o avô e, a partir dessa altura, viamo-nos de vez em quando apenas. Eu sempre proveitava as férias para voltar à fruta, às estórias do avô e, quando o Rui ia a Coimbra aproveitávamos para ajustar algumas contas com os que nos dificultavam ( a mim e ao meu irmão) a adaptação ao novo meio.
O Rui passava a ser o nosso D'Artaghan e, com ele, punhamos tudo na ordem.
Em Coimbra criámos novos hábitos: íamos ao futebol todos os domingos; ver a Académica e o União de Coimbra.
Depois de convencermos o nosso pai a deixar-nos ir, era fácil: chegávamos junto à porta e penduravamo-nos num adulto. As crianças, naquele tempo, não pagavam bilhete, mas só podiam entrar desde que acompanhadas.
Um dia, o V. de Setúbal jogava no Calhabé e o Rui estava em Coimbra. Queríamos que ele fosse connosco, mas havia um primeiro problema: um dos sapatos dele tinha a sola descolada. Era uma sola de borracha e ele não podia andar com aquilo assim. Resolvi fazer de sapateiro e, com um arame agarrei a parte de baixo à parte de cima do sapato. E lá fomos.
Só que ele não conseguiu a habilidade para se "pendurar" num adulto. Eu entrei e fiquei à espera que ele aparecesse. Nunca mais... e o jogo ia começar. Fui até à porta e o Rui estava encostado ao muro, triste como a noite. Que fazer? Fui ter com os porteiros e pedi-lhes que deixassem "entrar o meu tio...". Acharam piada ao parentesco, tive que lhes explicar, assim a correr, que ele era o filho mais novo da minha avó e ele lá entrou, com um sorriso enorme. A Académica ganhou e nós os três voltámos para casa felizes como noutros tempos. O sapato aguentou e tive, depois, que ouvir o meu avô dizer-me que o tinha estragado . "Estragado...?"
Enfim, coisas de adultos...
Sei agora que teria gostado de ter ficado na Pampilhosa para andar na Escola com ele, para detestar da mesma amaneira que ele detestava o professor que o obrigava a escrever com as letras todas pegadas umas às outras. Eu tive que aguentar sózinho uma professora que tinha a mania das reguadas.
Mas a vida era difícil e não podia ser como nós queríamos. Lembro-me que, de vez em quando, à noite, debaixo dos lençóis, chorava a saudade do meu companheiro de brincadeira do mais que amigo.
Pior foi quando a família resolveu ir ainda para mais longe, para Angola. Aí foi despedida a sério e ficou um vazio enorme. Sempre que pensava no Rui entristecia.
Voltámos a ver-nos éramos já quase dois homens. Ele foi a Lisboa esperar-nos em Alcântara. A família toda estava lá. Ele já trabalhava, tinha obrigações, não podíamos estar sempre juntos, mas conseguimos que alguns dias ficasse na nossa casa. Mas, depois casou e tudo se complicou mais ainda. Vieram os filhos. Fui padrinho do primeiro.O Rui era, agora, um chefe de família e encarava a função "by the book".
Quando regressei a Angola ele foi comigo até Lisboa e estava lá na Rocha de Conde de Óbidos a ouvir o Infante D. Henrique a apitar e a ver os lenços brancos da gente que se despedia lentamente, tão lentamente da amurada que era difícil não chorar. E nós chorámos, cada um do seu lado.
A vida foi-nos separando cada vez mais, mas nunca deixámos de pensar na felicidade dos nossos primeiros anos de vida, das nossas aventuras -umas vividas, outras sonhadas. Não nos víamos, mas sabíamos que estávamos algures, fazendo parte da vida um do outro.
Entretanto, emigrou para a Alemanha. Vinha a Portugal de vez em quando, mas sempre com muitas tarefas, tinha sete filhos. Só nos vimos mais uma vez. Mas eu sabia que ele estava em Hannover e ele tinha a certeza de que eu estava por aqui.
Esta semana, o telefone tocou e do outro lado uma voz triste disse:"tenho uma notícia triste para te dar...?"
"...O que foi? o que é que aconteceu?..."
"...O tio Rui morreu...!!!
Não pode ser, ainda há pouco ele aqui estava comigo, planeávamos não sei o quê, mas era qualquer coisa em que nos iriamos divertir muito. A ligação caiu. Voltou a voz, preocupada comigo: "...estás bem...?"
Como posso estar bem se agora sei que há uma parte de mim que já não existe? Que há luto nas minhas mais recônditas ecordações, nos momentos mais felizes da minha infância... Como estar bem?

sexta-feira, março 30, 2007

ADAMASTOR

Vou um pouco mais atrás, ao lembrar-me do Afonso, que viria a ser o primeiro rei de Portugal, que comprou ao chefe dos católicos o reconhecimento. Possuia, como se sabe, todos os requisitos para ser reconhecido pela hierarquia romana. Prendera a mãe na masmorra do castelo e traiu a confiança do aio. Não foi eleito pelo povo, mas foi por ele aclamado.
Já Pedro era de outro filme. Perdeu-se de amor por Inês, apesar de casado, por interesses do reino, com uma princesa castelhana e porque rei é rei coroou a defunta, que se tornou rainha sem reinar, mas ficou na História. Dela se lembrou Camões e mais tarde Alegre, a propósito de um devaneio amoroso.
Mas do que ninguém parece lembrar-se é do período conturbado que antecedeu o Estado Novo salazaresco. Há como que uma cortina de fumo sobre aqueles anos travados pelo o 28 de Maio.
Sei alguma coisa desse tempo por descrições dramáticas da minha avó. Ela, com o marido e o rancho de filhos, e ainda um cunhado, fugiram de Porto, alucinados. Não eram nem fidalgos nem burgueses endinheirados. Operários da construção civil. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam e eram ourives. As duas meninas e o mais novo frequentavam a escola. O garoto, que viria a ser o meu pai,tinha acabado a segunda classe e em Lisboa já não voltou aos bancos da escola; foi trabalhar no comércio. Instalados numa parte de casa. Duas salas, só uma com janela para o exterior, para todos. A mãe dispunha de uma máquina de costura "singer" e costurava dia e noite. O rapaz mais velho tornou-se alcoólico e viria a morrer de cirrose; as meninas foram evidenciando pouco recato. A mais velha casou e teve duas meninas, mas perdeu o marido. A outra foi trabalhar para as tintas, num velho armazém, em S. Paulo. Casou, teve uma filha e virou, até ao fim dos seus dias, dona de casa.
A minha avó era salazarista, Enquanto fui miudo não me ralei com isso. Ia vê-la amiude por mor dos dez tostões que ela me dava de cada vez que lá ia. Já adolescente despertou-me a curiosidade. O meu pai ou os meus tios nunca souberam ou quiseram explicar-me. A minha avó era uma mulher sólida e independente. Teve de assumir o barco desde que o marido morreu poucos anos depois de se instalarem em Lisboa. A filharada foi saindo, incluindo o último, já nascido na capital e ela acabou só, na sua parte de casa.
O que me descreveu do seus tempos no Porto foi, de facto, impressionante. Um clima policial, sombrio. Rusgas permanentes, prisões arbitrárias. Tortura. Uma forma de ameaça permanente que aterrorizava especialmente as mulheres, mães de família. A situação não diferia muito em Lisboa, mas poupava de algum modo os forasteiros, desde que não conotados com facções políticas. Ainda assim contou-me casos de violência notórios, que hoje me parece estranho que se hajam volatilizado, como que durante muitos anos fez com que a rua Serpa Pinto fosse conhecida por «rua da leva da morte». Um desses grupos de cidadãos suspeitos de actividades políticas ilícitas, detidos por rusgas nocturnas, alguns dos quais em casa, levados para as instalações policiais, onde se instalou depois o Governo Civil, esbarrou com uma manifestação tumultuosa e não foi de modas: encostou os detidos à parede da rua e fusilou-os.
A minha avó, que trabalhava desde as oito da manhã até não sei às quantas da noite, quis crer que a situação no país foi melhorando desde o «28 de Maio». Quem não devia, não temia, achava ela.
Tive sorte, pelo meu lado, em ter tido um prof na instrução primária que não alinhava pelo conceito do Estado Novo. Era trasmontano e não sei o que é que ele pode ou não ter sofrido, mas não alinhava, não vendia: ignorava. Nunca o ouvi falar de Salazar, nem do Estado Novo. Fomos poupados a isso.
Eu sei que do meu tempo muita gente sofreu agruras. O Tarrafal é uma bandeira do Estado Novo, significativa. Provavelmente não tão significativa como Guantanamo. E sei que o Santa
Maria existiu e sei que por cima de nós um avião despejou um grito de revolta, em forma de panfletos. Fomos inovadores na matéria.
Mas Salazar era uma triste e solitária criatura. Era o rosto do regime. «Reinou» até ao fim, porque o deixaram conduzir a viatura. A par dele, Franco dominou toda a Espanha. Tal como o vizinho mais antigo, morreu mo seu posto. Mas, quer um, quer outro, não poderiam ter exercido o poder sem amparo. Existiu, de ambos os lados, muito boa (ou má?) gente que apoiou e segurou o poder. Era possível derrubá-los, se tivesse sido essa a vontade dos que podiam fazê-lo e que o fizeram quando lhes deu na gana. Curiosamente, nem Franco nem Salazar foram derrubados, mas os regimes sossobraram após a morte natural dos manda-chuvas.
Ainda hoje, a propósito do «manholas» ter ganho um prémio, ouvi uns artistas falar da emancipação das mulheres, como se também disso ele tivesse culpa.
A concordata era um (péssimo) acordo entre duas partes, mas dá mais jeito condenar só uma delas. A guerra em África foi tida como uma causa que acelerou positivamente a emancipação feminina. Exagero, claro. Não foi por ser a de África, mas por ser a guerra, como se viu na Europa, mais precisamente. Mas independentemente dos divórcios ou das guerras, o que despoletou a explosão libertadora da condição feminina foi a pílula, meus senhores. O aborto só se tornou o dilema monstruoso a que chegou a partir do 25 de Abril. E muito por culpa de quem sabia, porque podia, ultrapassar obstáculos e não foi capaz de fazer a cama!

quinta-feira, março 22, 2007

DIREITOS...

Um grupo de cientistas de renome internacional, entre os quais um portuga, reuniu-se numa loja de ciências americana para um estudo sobre que fazer em caso de...
Não faço ideia a que conclusão chegou porque não tive pachorra para ler a notícia toda. Não pretendo insinuar nada sobre o matutino e as pessoas que alinhavam as notícias ou os comentários. A ideia era a de saber se deve ou não matar-se quem represente perigo para terceiros e dava como exemplo a hipótese de uma pessoas infectada com um virus aterrador poder cascar em cima de terceiros o filho de puta do virus.
Não fiz,pois, ideia a que conclusão chegou. Mas presumo que provavelmente os cães que mataram uma mulher, em Sintra, sejam abatidos. O dono dos cães vai ter que comprar outros ou mudar a sua ternura para os gatos, que só arranham, não matam...
A legislação de países ditos civilizados não pactua com a pena de morte. Matar o próximo não é permitido. Noutros casos, ainda persiste a pena de morte. Com ela é necessário alguém que carregue no botão, que enfie a corda ou dispare a bala, que mate o condenado.
Não discuto. Aceito que seja bárbaro. O Iraque não é exactamente uma colónia de férias. De momento, os estrangeiros não são turistas. Vão lá matar e ser mortos.
Qualquer pessoa que tenha um carro pode matar o semelhante e esperar que a companhia de seguros pague e os outros semelhantes não refilem.
É bem mais difícil morrer, quero dizer: mais difícil querer morrer. Um tipo tem direito a ter carro, a ter o feitio que tem, a ir para a guerra ou ir à bola. Tem direito a férias ou a ser despedido. Pode eleger o António da caçada ou agredir Maria José e, se quiser, dizer que não.
Só não se pode querer morrer, pedir que o poupem ao sofrimento. Um velhadas, como eu, não pode responder: não senhor Sócrates,não quero os dez por cento para nada. Prefito morrer de morte serena. Em Espanha anuiram, ao cabo de dez anos, aliviar o sofrimento de uma paciente ligada à máquina, mas a santa igreja pediu que a tirassem primeiro do hospital com nome católico. Em França, uma médica teve uns tempos suspensa do exercício da medicina porque, num hospital uma enfermeira denunciou uma colega de ter injectado uma doente, com intenção de provocar a morte. A enfermeira foi acusada e foi a médica que assumiu a responsabilidade de ter prescrito o fim do tormento da paciente. Médica e enfermeira tiveram honras de TV. Mas eu bem gostaria de ter visto a fuça da vil denunciante!
O país anuiu conceder às mulheres, e a meu ver bem, o direito decidir o que fazer da gravidez.
Então porque insiste em retirar-me, retirar-nos a todos, o direito de partir quando cada um de nós o entender, o desejar?
Não pretendo interferir na discução do como e em que ciscunstâncias se pode matar. Mas o direito de cada qual sair de cena quando lhe aprouver. O suicídio é uma fuga. A decisão de acabar
a vida é, deve ser, um direito. E não há o direito de não reconhecerem esse direito, que é de todos nós!

terça-feira, março 13, 2007

O PREÇO DAS COISAS

Até pode ser que o assunto seja sério, mas dei por ele com um sorriso, expontâneo: o custo zero dos «metro», distribuidos na rede de Metropolitano, está a ocasionar dissabores nos quiosques ou lojas afins. O matutino, que referia carinhosamente os ardinas (onde eles já vão!...), criticava abusos na distribuição dos «gratuitos», uma espécie subterrânea, como se sabe. O jornal não se assumia como parte interessada. Limitava-se à reportar os prejuizos nos postos de venda, onde a freguesia parece escassear.
Sou do tempo em que os jornais, matutinos e vespertinos, custavam uma «c'roa» ou cinco tostões, se preferirem. Não havia metro, debaixo dos pés, nem jornais gratuitos, e os ardinas esfalfavam-se, a correr pelas ruas, a trepar pelos eléctricos, Quando os autocarros fizeram a sua
(deles) aparição já os diários custavam oito tostões. Vendiam-se bem, os jornais, que criaram o hábito de ler quase tão natural como o de fumar.
Bom, vamos lá a ver, não havia, por esses tempos, um monte de coisas, que vai havendo agora e que ajudam as pessoas a prolongar-se no tempo. Morria-se por dá cá aquela palha. Os antibióticos ainda não tinham encetado carreira. Nem se cuidava saber dos malefícios do tabaco.
A necrologia era muita lida, apesar dos acidentes de viação serem escassos. A opinião de fundo era ligeira; as novas sobre as guerras eram confusas e a moral muito convencional. Já devem ter percebido que nem se imaginava por estes lado que houvesse, ou viesse a haver, televisão.
Pelo lado mais popular, havia o futebol, que levava as pessoas à bola e a ler jornais; e, o que não era pouco, o ciclismo, que tinha muitos adeptos e muita leitura nos jornais. Nem só pelo «volta a Portugal», as diversas corridas em pista tinham muitos entusiastas. Por um jogo de futebol ou por uma etapa da Volta consumiam-se edições e edição de vespertinos. Era frequente algumas das etapas mais alargadas justificarem três e por vezes quatros edições suplementares, até se saber quem ganhou a etapa. Nem a Rádio se metia nisso. No Rossio, ficava-se horas à espera
de ver no placar os resultados do futebol ou das etapas da Volta.
A Rádio transmitia, aos domingos, às sete e cinco da tarde/noite o resumo da primeira e o relato da segunda parte de um jogo de futebol do campeonato português e, em diferido, já se vê, que nesses idos, não havia nocturnos. A referência ao «sete e cinco» teve a intenção de sublinhar que às 19h05 já havia terminado o bloco de notícias.
Mas, meus senhores, entre as 17 horas, na rua, e as 19 na Rádio, muito jornal aparecia fresco a apregoar o «traz-a-bola».
Nesses tempos épicos um jornal era coisa séria. Uma empresa gráfica, que entre coisas várias, editava um jornal, possuia uma distribuidora própria para colocar no mercado o seu produto. A redacção de um matutino quase não parava. A redacção «fechava» entre as três e meia e as quatro de manhã. A Censura dava por encerrada às três da manhã. Depois disso só notícias sob responsabilidade do director. Mesmo assim, os acontecimentos chegavam frescos aos leitores, ávidos por novidades, pelas notícias.
O progresso foi madrasto para a imprensa escrita. Primeiro a Rádio, depois a Televisão, deram o salto. As notícias e os resultados do futebol chegavam primeiro pela Rádio e, mais recentemente,
pela Rádio e Televisão. Só depois surgem no papel. Ao princípio nem se registou quebra nos jornais. Quem ouvia o resultado na Rádio ou´na TV ficava impaciente para ler o que iriam explicar os jornais. Aliás era assim para quase todo o género de notícias. Não havia o hábito de digerir pelo som ou imagem. Era preciso ler no jornal. Eles lá explicavam de maneira que se entendesse!
Lembram-se quantos diários havia em Lisboa no Abril de 74? Quantos matutinos? Quantos vespertinos?
Em 76, Manuel Alegre jurava que o Século não podia fechar. Alguém se lembra do Jornal Novo?
E do Diário de Lisboa? Da República? Do Popular? E outros, sei lá quantos. Tentaram diminuir o peso. Perderam as oficinas; a distribuidora própria. Perderam sobretudo leitores. Aos poucos os jornais começaram a ser claramente o jornal de ontem. Os temas principais já são conhecidos de véspera. Qualquer notícia que irrompa depois das nove da noite e que movimenta todos os meios de Rádio e Televisão é muda na imprensa matutina.
O «metro» não é uma novidade lisboeta. Creio ter sido por iniciativa nórdica. O primeiro exemplar que li foi no Metro de Madrid. Anos depois assisti à manif dos sindicatos franceses, que incendiaram uma das primeiras edições a distribuir nos subterrâneos de Paris. Estava a começar a campanha para as presidenciais. Três dias depois o matutino começou a circular livremente. Por acaso com uma banca à porta de um café, no «meu» bairro. Quando por lá estou, e de manhã vou aos croissants, abicho um pasquim, sem me incomodar. De vez em quando compro um «Canard» e sonho com os «Rídiculos», quem se lembra?

sábado, março 10, 2007

Ei-lo, o D. Sebastião

De implantes no cabelo, com dentes novos, um novo estilo no andar, provavelmente com novos amores, ei-lo que volta numa noite de nevoeiro a anunciar a manhã da esperança, quando ele, montado num carro novo, comprado por ele - já não pela Universidade Moderna (para que se compraram, afinal os submarinos e tantas outras coisas?) - voltar ao Largo do Caldas para daí dirigir já não a direita pura e dura, mas o centro direita.
Sim, porque um homem como ele não se nega, não pode ficar indiferente à ruina da direita, do centro direita e até da esquerda. Ele não quer saber de ruínas, nãos as tolera e, por isso, vai voltar. Com directas "Já", tal como o Tancredo Neves em 1983, no Brasil.
D. Sebastião ( o do centro-direita) está de volta e ao ataque. Eo pior de tudo é que todas as perguntas que havia para lhe fazer, nunca ninguém as fez. Será que este D. Sebastião gastou todo aquele dinheiro em cavalos para nos defender dos mouros?

POR MORRER UMA ANDORINHA...

Proíbir tornou-se uma tentação neste país, mesmo se o ministro da saúde desproibe hoje o que proibiu ontem. Para ele tornou-se urgente. Mexe e remexe nas urgências e nos cuidados de saúde e, agora, no uso do tabaco.
É preciso não fumar aqui e além e mais além e mais ali. E em não sei onde também. A ideia aparece como cuidados de saúde: o tabaco mata. Mata, sim senhor, mas também os automóveis matam e não se proíbe a sua deles circulação pela vielas, travessas e outros arruamentos, nem de estacionar sobre os passeios. A minha tia ia todos os dias à missa e quando fez oitenta anos morreu. E ninguém, nem o senhor ministro da saúde se lembrou de proibir as pessoas de ir à missa. Julgo saber que D.Afonso Henriques nunca fumou e não deixa por isso de ser um dos dez mais!
Acredito piamente nos malefícios do tabaco. É uma droga semelhante a umas tantas outras que são proíbidas e sobrevivem à custa de tráfego ilícito. Mas o tabaco é um negócio lícito. Não sei porquê, mas é. É um negócio empresarial como tantos outros mais ou menos discutíveis. Como o alcool,por exemplo. Quem mais aproveita dos vícios (fumar ou beber) é o Estado. Essa é que é essa! O que o Estado arrecada é uma festa. Como todos os pecadores, o Estado envergonha-se de extrair vantagens com o crime e, de vez em quando, faz o zelador. Assume que o tabaco faz mal. Proibe os deputados de fumar no hemiciclo, mas permite-lhes que se satisfaçam no Passos Perdidos. Não se pode mais fumar nas tasquinhas, nem nos carros eléctricos, mas pode-se fumar onde o espaço não seja problema, nos enormes e caros restaurantes, bares matulões. A cada restrição que ciclicamente o Estado impõe, segue-se o agravamento do preço da venda de tabaco e, bem entendido, o aumento das taxas a favor das finanças ditas públicas.
Será razoável exigir do Estado que não autorize o fabrico de tabaco, nem a importação do dito?
Será humano sugerir sequer que o Estado reduza a taxas que cobra pela comercialização do vício?
Não seria mais creativo sugerir que o Estado proibisse apenas a comercializacão interna e autorizasse a exportação para os talibans ou outros árabes afins, com o compromisso solene de todos os sábados ir à missa perdir perdão?
Não sou parte interessada. Há muito que deixei de fumar. E não é meu hábito chatear os que fumam à minha beira. Começa é a faltar paciência para tanto cuidado de saúde humanista do governo.

sexta-feira, março 02, 2007

DESTINOS

O autocarro do costume (do meu) mudou de número e de percurso. A Casa da Imprensa também mudou. O número da porta é o mesmo e o posto médico no quarto piso, como dantes. Não foi isso que mudou, quero eu dizer. O governo entendeu fechar a caixa de previdência dos jornalistas, os ditos quais ficaram desprevenciados ou desprevenidos, isto é: sem o amparo da Caixa prestado à Casa. Jornalista sofre. Nem sequer pode recorrer, melhor dizendo: ir a correr, a Badajoz, para arrancar um dente ou parir, se for o caso do jornalista ser fêmea.
Frustrados, lixados e ofendidos, os jornalistas vão ser implacáveis. Vão atacar o Benfica e denuciar os encarnados de viverem à custa do Simão; insultar Pinto da Costa por apitar demais e acusar o Sporting de ter Paulo Bento a mais e vento a menos. Com jornalistas não se brinca. Claro, vai decerto reconhecer Sócrates. O governo não brinca e muito menos com os jornalistas! É a sério, pois! Sim senhor, muito a sério, como eles merecem, há-de ele dizer à Televisão e reforçar o carisma.
O que vale é que a oposição não dorme: come e cala, crente no efeito aterrador do silêncio, sobretudo se for um silêncio silencioso e minúsculo. Não se espere cataclismo do largo das Caldas, nem de Buenos Aires ou reacção dos destemidos de António Serpa.
Há excepções. Não viram o prof Martelo a criticar o desvio do pasquim que publica a súmula das marteladas domingueiras?
E, no dia seguinte, o matutino pespegava logo na primeira página a revelação cuidadosa do tamanho dos pirilaus dos portugueses, quer em condições de soberba ou na hora do sono.
Desconheço se o governo tremeu de emoção e face a isso tenha recuado nas urgências. O referendo recebeu um apoio prometedor e por seu lado concede um estímulo apreciável.
E, ontem, foram os polícias a fazer espera na auto-estrada. Entre motoristas enebriados e outros quase embriagados apareceu por lá Marques Mendes, que conversou com os guardas com amenidade e teve suficiente malícia para sublinhar a presença dos meios de comunicação social.
De facto o que melhor assegura o sucesso de uma operação sigilosa é a presença dos jornalistas.
Outro tema jornaleiro em foco é o dos diários gratuitos. A coexistência, pois... Nem vale a pena discutir: Ninguém é obrigado a ler jornal gratuito, pode comprar os que quiser. Pela minha parte nem borla perdia tempo a ler alguns dos que se pagam, apetecia mais dizer dos que se vendem, no sentido pejorativo do termo. Dêem os jornais, quanto mais à borla melhor. Em vez de suplementos ofereçam «camisinhas» perfumadas ou a pílula do dia seguinte. Em tempos de guerra não se limpam armas e se não há paz entre os Oliveiras, armai-nos, Senhor...

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

FRASES FEITAS

Devem provir da sabedoria popular, como espuma confeccionada ao longo de séculos. Não me conforta saber que viemos do nada, nem me tranquiliza saber que já não podemos ir de urgência para o além, via hospital tradicional. Mesmo Jesus teria pouco mais de dois mil anos, quando foi pregado na cruz. Não se salvou, nem nos salvou de outras violências posteriores. Ainda teve de assumir os excessos dos descobridores ou dos cruzados que, em seu nome, espasmavam sobre as negras atónitas e outras barbaridades sobre os seus (delas) machos infieis, se bem que a infidelidade, tal como a entendemos, não fosse para ali chamada! Tão pouco a civilização, que era o que era, como era, como sabia e, acima de tudo, como podia, quiçá fruto de vontade divina!O homem podia ser vivo como qualquer gato ou cachorrinho por mór da Natureza e não por direito. Muito antes dos matadouros serem municipalizados já se mandavam cristãos para o Coliseu para festim de leões e minorar o enfado das cortesãs. Os Césares imperavam, não eram fascistas porque o fascismo não tinha nascido ou então andava disfarçado. Terá sido a falta de espaço vital que os levou por esse mundo fora a exibir a natureza deles, que como se sabe não era cristã. Talvez por isso os chineses construiram a muralha, enquanto os portugueses pensaram que o Viriato chegava e era mais económico que fazer um muro. E Sertório ainda tentou improvisar um 25 de abril mas lixou-se. Que falta lhe fez o Otelo!Mas romanos leva-os o vento, se é que não foram embora por falta de urgências!Mas foi o Adolfo quem mudou o mundo ou o fez mudar. À custa da guerra e do terror que dela emana. Não ganhou, mas livrou-se de ser pregado. Um iraquiano recente não teve a mesma sorte. O que resta de iraquianos sofre.Desde que me lembro, e eu sou do tempo de Adolfo, nunca o mundo deixou de ter guerra e nos países onde não há guerra morre-se atropelado! Pior: mata-se o próximo, o mais chegado; abusa-se do menino ou da menina. Numa sociedade de direito matar é um direito. Tem preço, bem entendido. Por vezes sai caro. Se for com carro sai mais barato...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

COMBOIOS DA MINHA VIDA

Não sou um furioso. Simplesmento carrego comigo o comboio que me viu nascer ou, melhor dizendo é do comboio de Sintra a minha primeira memória. Morava à beira da linha, em Queluz.
Do pátio avistava o comboio que passava a apitar. Corria para dentro de casa e do postigo das trazeiras via-o sumir-se. As vizinhas enchiam-me a cabeça de cegonhas. Nem sei se foi alguma delas que me trouxe o irmão, que vi de manhã, ao acordar. Acho que se chamava«Vila Moreira»,
o pequeno aglomerado de pequenas casinhotas, o que não se chamava, de certeza, era condomínio fechado. Tinha um dono, que vendia couves e hortaliças na praça e era muito murmurado porque tinha tido um filho da mãe da filha que vivia com ele e de quem, também já tinha descendente. E viviam em família, todos juntos.
Como não havia «apitos dourados» o tema era muito badalado com quem ia e vinha de visita às criaturas do conjunto habitacional. Nem a porcaria da +grande guerra+ ainda tinha começado quando da cegonha...
Giro é que não guardo memória de ter andado de comboio, enquanto miudo. Lembro-me, isso sim, de os ver e ouvir. Até que dei por mim em Lisboa. Numas águas-furtadas da Victor Cordon via-se o Tejo e as barcaças e uns dois ou três caricatos «vasos de guerra» presos a boias. Como os comboios, a guerra na Europa não me dizia nada. Ainda nem sequer lia o «Mosquito»! Mas no Verão ia-se de comboio para a Cruz-Quebrada, fazer praia! Quando explicaram ao meu pai que aquilo não era sítio para onde se fosse, passámos a ir para a Trafaria ou para Carcavelos. Um dia,
quando cheguei da escola, a minha mãe disse-me que íamos ao Porto ver um vago parente do meu pai e que, por obra provável do acaso, se chamava Benfica. Nós chamavamos-lhe Alfredo. Mas fui de comboio. Por essa altura, os comboios saiam quando calhava e chegavam sabe Deus quando. Era complicado ter lugar sentado ou mesmo de pé. Mas o meu pai evoluira e comprou bilhetes em segunda-classe. Era giro, juro que era, passear no comboio, sobretudo quando se atravessava de uma carruagem para outra. Perigoso era espreitar pela janela aberta. Faúlhas acesas não era brinquedo.
Para andar de comboio tinha de se comprar bilhete. Depois de comprar o dito, mostrava-se ao sujeito da porta, para ele deixar passar para dentro da gare. Depois mostrava-se, no comboio, ao senhor do alicate, que furava o bilhete. Tinhamos de guardá-lo porque, à saída um teimoso queria o bilhete furado. . Algumas das estações eram edifícos bem bonitos. Alguns perduraram até ao nossos dias. Outros perderam viço, perderam uso. Viraram ruinas. Ainda hoje quando passo de carro por Vilar Formoso, dou sempre desculpa de ter que comprar o jornal, para ir ao largo da estação. Nunca entrei no edifício. Por lá passei algumas vezes no comboio para Paris.
Tempos houve em que os comboios para (e de) Paris tinham história: as carruagens de cochettes eram as únicas que, saídas de Lisboa, prosseguiam de Hendaya até ao destino. A bitola estendia e encolhia conforme a conveniência, o que permitia despachar as velharias sem problema.
Lembro-me de algumas viagens soberbas, a começar por Angola, onde o comboio ia do Lobito
ou Benguela até onde se quisesse. Fui uma vez até ao Luso, mas habitualmente descia em Nova Lisboa. Lá estava: era um serviço e peras e o jantar uma delícia! As histórias que se contavam do Expresso do Oriente não me impressionam.
Divertido também era o comboio das minas, que saía de Moçâmedes e me deixava em Sá da Bandeira.
Foram, de algum modo, os comboios da História. Comboios que andavam como comboios. Os TGV e outros que tais são de outro filme. Não podem descer, como eu desci, de Berna para Milão não como eu tanto adoro, nas voltinhas do Marão, mas de outras tremendas encostas alpinas.
Os automóveis também se abatem; também se perdem e custam vidas. E não param. Os autocarros também se viram. E cada vez há mais. O comboio do Tua é (era?) uma relíquia. Fascina-me que tenha sido concebido em mil oitocentos e troca o passo. Os jornalistas televisivos
procuraram uma causa e recuperaram meia dúzia de acidentes com comboios.
Durante seis anos reparti-me entre Lisboa e Madrid, quase sempre de comboio. Ainda havia fronteiras, como havia pesetas e escudos. No início a peseta custava cinco tostões, depois seis, depois sete... Quando dei por ela custava um escudo e vinte!
Uma tarde fui surpreendido com as notícias de um acidente. Em linha única dois comboios não podem circular em sentidos opostos. Mas circularam. E bateram. Foi terrível. E foi erro humano. Impossível de remediar porque nesse tempo, esse tempo é tempo recente, já foi nos anos oitenta!, nesse tempo, dizia, não havia comunicações entre e com os comboios.
O comboio do Tua não tem, hoje em dia, sentido como meio de transporte. Já nem é comboio é uma trotinetezita. Não tem passageiros. Pior não tem estações operacionais. Quer dizer as estações estão lá, mas foram desactivadas e recentemente. É o revisor que revisa a estação fechada, quando a automotora estaciona. A CP, ou o que dela resta, faz como o governo: o que não dá fecha. Já se vira o que deu com as ambulâncias. Agora deu com o comboio. O alerta laranja devia obrigar a alguma prudência. Com estações operacionais poderia vigiar-se um pouco melhor a linha. Sem elas, a interrupção do serviço devia ser óbvia. Mas sejamos realistas: um acidente não faz a primavera. O trajecto é um mimo turístico, sobretudo se for usado, como tem sido de vez em quando, por comboio vetusto, o de antigamente. Nos meses favoráveis ao veraneio, no interesse das agências de viagens, dos turistas e do turismo. E no meu, que gosto. O Verão passado levei lá a minha filha e depois o meu filho e o meu irmão a ver a Régua e do quarto da pousada o Douro serpeteante.
Este Natal ofereci à neta e à mãe bilhete especial de comboio para Madrid. A minha vizinha horrorizou-se: «Oh! É muito mais caro que o avião para Barcelona»!...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

A Cidade Sem Governo

Há longos meses que passo por esta Lisboa com a clara sensação de viver numa cidade sem governo. Vale tudo e nada se cuida. São os estacionamentos em segunda fila, os jardins descuidados, os semáforos avariados e/ou mal regulados, é o lixo voando, eu sei lá...um sem número de coisas, assim como numa casa com a loiça por lavar, as camas por fazer e o chão por limpar, enquanto duas ou três pessoas se cruzam e não se falam, fumam sem cinzeiros ou janelas abertas.

Lisboa é uma casa desarrumada, caraterística de uma família desavinda.

Ao ouvir e ler sobre o que vai nos bastidores, percebi que a minha sensação tem toda a razão. Quem governa a Cidade apenas pensa nos grandes negócios onde poderá ganhar o seu dinheiro e dar algum a ganhar aos amigos. Os cidadãos, aqueles que pagam e, de vez em quando, votam em listagens e boas intenções e de mentiras, esses não interessam. Se querem qualidade de vida, emigrem. A cidade foi feita para eles ganharem dinheiro.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Taxas Bancárias

Corre na Net uma petição contra uma eventual taxa de utilização do Multibanco de 1,5 Euros por cada operação electrónica.
Cá por mim assino e faço mais: vou já fazer do colchão o meu banco. Pelo menos se for roubado, sê-lo-ei por alguém a quem se chama ladrão. O que se passa agora é que os Bancos não passam de associações de malfeitores que nos roubam de todas as maneiras.
Se todos voltarmos a usar o dinheiro no bolso, os bancos terão que se transformar em instituições credíveis e, além disso, criadoras de emprego e não de desemprego.
Vamos todos voltar a ter o dinheiro no bolso. Os Bancos ganham demais, roubam demais e têm consideração de menos pelos seus clientes, aqueles que lhes permitem a utilização dos seus dinheiros.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

JUSTOS E PECADORES

O que quer que sejam que o bom Deus os livre da Justiça, essa coisa cega e surda que se perde por falar! Hoje li sobre um levantamento popular contra uma juiza e sobre machismo exacerbado de alguns magistrados. Os juizes, quer sejam de instância do rés-do-chão, quer do mais acima que julgar se pode, podem ser bons ou maus profissionais, tal como acontecerá com as senhoras juizas, se assim se pode dizer, simplesmente para facilitar.
E ocorreu-me um caso extremo, que segui pela imprensa, em Espanha, onde residi algum tempo: um par de jovens namorados namoriscava num banco de jardim. O enleio juvenil desagradou a um outro casal, mais idoso, que noutra banco desfrutava do calor da noite. A admoestação não terá surtido efeito e o idoso consorte, que era juiz, mandou prender o adolescente. A jovem acompanhou o namorado até à esquadra e rumou a casa.
Nunca mais voltaria a estar com ele.
O jovem enforcou-se na cela!
Imagine-se a reacção, numa gente tão expansiva! Talvez não se possa imaginar aqui, foi o efeito lá. O juiz foi posto a andar para o mais longe possível, e nesse mesmo dia zarpou.
O hábito não faz o monge. Qualquer cidadão, ou cidadã!, tem o direito de ser burro (que os pobres quadrúpedes me desculpem) mesmo que envergue toga.
Claro que terem passado mais de dois anos para efectuar o julgamento é de somenos e não tem importância para o caso. Qual é a pressa em saber se uma criança deve estar aqui ou ali, se é bem ou mal tratada. Ora, ora! Se morrer prende-se o vilão...
No caso descrito por Fernanda Câncio no «DN» de uma corrente judicial e judiciosa que recusa considerar de crime a «importunação sexual», o que deixa espaço para acariciar, apalpar e o roçar gente alheia, eu não resistiria a sugerir ao juiz que inquirisse sobre a matéria senhora sua esposa, no caso de a ter, ou a quem o acompanhe no leito...

sábado, janeiro 13, 2007

CAROLINICE

Jantei uma vez com Pinto da Costa. Aconteceu-me em Marselha. Ia de férias, que me ofereci, para assistir ao Europeu de futebol, em França, pelos anos 80. Instalei-me em Versailles, em casa de amigos e no dia seguinte fui tratar da papelada para os ingressos. Saiu-me em sorte uma jovem senhora que não só fez um esforço imenso em entender o meu linguajar estrangeiro, como me ofereceu uma entrada mágica para ir assistir, daí a nada, à final de Roland Garros, que estava mesmo a começar.
O primeiro jogo de Portugal foi com a Alemanha, em Estrasburgo, claro, ali mesmo encostadinho à porção alemã ocidental. Já se sabe que isenção e receitas são coisas distintas. Deu para ver uma porção de loiraços embriagados, acalorados pelo sol radioso, a fazer arruaças próprias da época. Almocei choucroute. Os restaurantes estavam à espera de imigras portugueses, mas nenhum se deu ao incómodo de assar sardinhas. Fui de avião, que ainda não havia tgv para aqueles lados.
O jogo foi ligeiramente mau, mas deu para empatar. Nem me lembro se houve golos, creio que não. Mesmo assim o Chalana foi badalado. Até porque a mulher estava lá e esforçava-se por ser notada. Era, mas ainda não se sabia, uma forma acarolinada de estar no futebol. Esteve à guarda de Neves de Sousa, que também ia de esposa!
Mas foi em Marselha, onde ia ter lugar o segundo jogo da equipa portuguesa, que encontrei um colega angolano, que ia relatar para a Renascença, Ribeiro Cristóvão. Como estar em serviço não é o mesmo que estar de férias, combinamos beber um copo ao fim da tarde e entretanto ele foi à vida e eu aturistei-me pelas colinas. E quando dei por mim estava a jantar. Fui ao balcão e pedi para telefonar (ainda não havia telemóvel!) para o hotel do Cristóvão. Ele e o comentador ainda estavam à espera de uma chamada, para gravar serviço. Eu que não estava à espera de nada fui acabar o meu jantar e desci a avenida até ao mar, onde estava o restaurante onde se ia jantar, onde fiquei à espera. Em vez de um par, chegou um trio...
Fui beberricando o meu café, enquanto eles lutavam contra o menu. Pinto da Costa contava com alguma amargura como fora avisado pelo médico da doença de Pedroto. Tinha sido um choque. E não se sabia ainda como ia ser. Perguntaram-lhe se já havia algum treinador em vista. Que não, que não, disse Pinto da Costa, Pedroto ia continuar...
Mas... Qual mas, o homem ainda está vivo e tem contrato... E foi assim, se a memória não me falha. O Porto chegou à final da Taça Uefa, com Pedroto no leito.
Recordo-me deste jantar, que Pinto da Costa pagou, incluindo o meu café, porque me impressionou. Aquele Pinto da Costa era ainda do tempo em que o poder ainda se concentrava em Lisboa. Por isso, durante o estágio de preparação para o Europeu, em Palmela, contra tudo quanto estaria estabelecido, dirigentes leoninos foram ao centro e aliciaram Sousa e Pacheco!
Data daí as tremendas mudanças no futebol dos portugueses. De meio mundo vieram estímulos em forma de fundos. E de repente Futre vai para as Antas; uns quantos Pintos saiem das cascas. É o assalto estratégico à Praça da Alegria. Dá-se de barato a presidência, mas fixa-se a comissão dos árbitros, a junta dos justos, o poder, esse. Lisboa desapareceu. Perdeu poder e decisão. De tudo isso, de muito e muito campeonato levado para o Norte, iria nascer a Liga. Mas os impetos «liguistas» foram criteriosamente prolongados no tempo. Até arrefecer os ânimos, até permitir um controlo controlado. Desde então o Porto nunca deixou de estar no alto e sózinho ganhar mais do que os outros todos juntos. Os outros, bem entendido, é que são ilustres, mas ele é que foi ganhando. Provavelmente irá ter que sair de cena e de momento não se vislumbram outros Pintos à vista.
E não é que Figo está a cair de maduro!...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A MUITOS À HORA

Anda tudo zangado. É do radar, mesmo que não haja radar. Eu, que não conduzo, vejo coisas divertidas e algumas sem graça nenhuma. A questão é simples: somos desastrados na estrada. Não direi os piores do planeta, porque é preciso passar pelo Cairo para ter-se a certeza que não somos, mas porque, de facto, somos maus como as cobras, exceptuando um tal M.Pedrosa, que, como se sabe, é quase bom a andar no carro dele!
Ouvi um desalmado barafustar por mór dos carros. A culpa é do senhor que faz os automóveis que andam que se fartam, acima dos 120 kh! O que o Sócrates devia fazer era obrigar o gajo a fazer carros que só andassem a cento e vinte! Parece elementar, parece. Mas não é. Em Alfama não se pode andar a cento e vinte, nem mesmo a cento e dezanove; nem a noventa. Teria que haver uma oficina de fazer Mercedes em Alfama que só andassem a trinta e sete e meio, mais coisa menos coisa.
Não se fazem carros em Alfama e mesmo que se fizessem não era para andar devagarinho. Ocorre-me lembrar que nos finais do Século XIX ainda não havia automóveis e o grande receio era que como aumento incontrolado da caleches, carroças e afins, cada uma das quais com mais cavalos que as do vizinho, as bravas criaturas de então pudessem sucumbir a estrebuchar na merda! Em boa verdade de cavalo sai o mesmo que de cu de menino.
O problema não é de hoje e não é só nosso. O nosso é pior que muitos outros porque nós somos bem piores. Se fizerem o favor de visitar um ou dois psicólogos e outros tantos psiquiatras hão-de acreditar nisto. Mas se os outros são menos piores não significa que sejam bons e mesmo os muito bons têm acidentes do caraças, até porque de bons que são têm turistas pouco recomendáveis!
Há por aí uns dois anos a sinistralidade rodoviária alarmou a França e a França respondeu, partindo do princípio badalado de que o drama resultava de excesso de velocidade. Não diminuiram as tabelas, antes procuraram formas de evitar excessos. Criaram pontos nas cartas de condução e além de multas elevadas retiram pontos à quotação. Perder um ponto ou dois não parece grave, mas ao cabo de meia dúzia ou coisa assim perde-se a carta e será preciso muito, muito tempo até obter outra. Isto sim! Isto dá resultado. O medo de ficar sem carta pesa bem mais do que a chatice de pagar uma multa.
O resto, os radares são ultrapassáveis, com gps's ou com memória qualificada. Mas o risco de perder pontos trava. Das últimas vezes que circulei a caminho de Paris bem que encontrei um tráfego mais tranquilo. Passo a maior parte do tempo a refrear o entusiasmo da patroa, que refila que se farta logo que passa a fronteira dos Pirineus.
Um xui patriota dizia ontem num canal televisivo que passou alguns dos dias de feriados a passear por Espanha e não viu brigadas de polícia na estrada, ao longo dos 150 km que percorreu! Oh rico! Isso em Espanha é o mesmo que ir a Bucelas. Não, não falta controlo rodoviário nas estradas espanholas, nem nas francesas e são prontos a chegar quando é preciso e o que é realmente preciso é conduzir com precaução, expandir quando se pode e reduzir quando necessário. E talvez não faça mal saber o que realmente acontece aos que prevaricam. Não haverá por aí gente a mais com algumas mortes às costas? Ainda não há muito, um ministro foi referenciado numa auto estrada a mais de duzentos à hora e com uma desculpa razoável: o primeiro ministro quer apanhar os paises da frente! Economia, economia! A quanto obrigas...