quarta-feira, janeiro 05, 2005

Rosa Enjeitada

Há uma palavra que me bate na cabeça de há muito tempo a esta parte. Um dia, num ano destes, em casa de um intelectual de renome no Brasil, que me mostrava os tesouros da família, guardados desde gerações, dos tempos da colonização, quando a Igreja congregava a Fé e a riqueza, tive a ousadia de dizer que o Brasil só teria solução quando tivesse coragem de assumir a necessidade de uma rotura. Respondeu-me o meu interlocutor: "você quer dizer, guerra!".
Não, nada disso, a guerra não é solução para coisa nenhuma, mas, no caso brasileiro, há que entender que a sucessão de elites que foi governando o país o deixou sem solução. Não há terra para mais ninguém. O imperador distribuiu, distribuiu, tudo, o que conhecia (pouco) e o que não conhecia (muito) e os vindouros ficaram agarrados à propriedade e à não propriedade.
No Brasil é necessária uma rotura que redefina a propriedade da terra, pelo usufruto, pelo aproveitamento, por qualquer critério que rompa a definição social que vem desde os tempos da colonização, passou pela época dos coroneis e se instalou na actual burguesia, que, tal como os seus antecessores continua a ter necessidade de âncoras financeiras no estrangeiro. A burguesia brasileira não investe no país porque não acredita e nem o presidente Lula da Silva conseguiu, até ao momento, liderar o Estado para uma rotura que signifique a igualdade entre cidadãos e o fim da verdadeira guerra civil que ali existe - uma guerra da pobreza contra a riqueza.
A palavra rotura dança-me na cabeça todos os dias, quando me angustio com arealidade que me rodeia, evidenciada nos jornais que leio, nas rádios que ouço, nas televisões que vejo e - mais do que isso - no comportamento das forças políticas, dos dirigentes que temos.
Ora, exactamente, a palavra rotura saltou-me aos olhos, quando, abrindo este blog, deparei com um comentário a um dos meus últimos posts, aquele em que verberava o conteúdo da mensagem de ano novo do Presidente da República - também ele incapaz de romper com o discurso estupidamentre economicista que se instalou entre nós.
É isso, meu caro "comentador": é nececessário romper! Romper com os conceitos políticos, desde logo. Romper com esta elite medíocre, seráfica, que não tem, sequer, capacidade, para vender um sonho. Este país foi grande - vanguarda europeia - quando teve uma elite capaz de sonhar.
Há quantos séculos isso aconteceu? Que é feito agora dos homens e das mulheres da nossa terra que não se conformam com a mediocridade que a sua condição de portugueses lhes oferece? Rumam outros lugares, outras nacionalidades, outras culturas, esquecem...esquecem que foram portugueses e fazem dos filhos gente de outras nacionalidades, de outros valores, de outras línguas. Já nem o conceito de Pátria defendio por Fernando Pessoa é válido!
Enquanto isso, assistimos diariamente ao desfilar da imensa mediocridade de quem nos governa, de quem escreve nos jornais e os dirige, de quem se opõe a quem nos governa, de toda esta gente que, entretanto, vai destilando boatos, acerca da sexualidade dos outros, acerca dos hábitos de honradez do próximo. Um mundo escabroso sem saída, sem solução, a não ser uma ROTURA inteligente.
Que rotura será essa ?
Rotura de conceitos, em primeiro lugar. O mais pindérico jornalista do mais pindérico jornal da praça já é capaz de escrever que é necessário reduzir as despesas de saúde, diminuir o número de trabalhadores da Administração Pública, acautelar os custos da Segurança Social, porque a sociedade está a envelhecer... Que o Estado existe para pagar o que não dá lucro e ( isso, eles não escrevem) para proteger os poderosos, que continuam, como há séculos, a viver dos subsídios estatais e do não pagamento de impostos.
São os conceitos da direita mais retrógrada a fazer escola, a determinar comportamentos, a definir atitudes.
E o que faz a esquerda?
O PCP lança para o ar um senil grito de "Viva o Marxismo-Leninismo", dando, claramente, a indicação de que, depois destes anos todos, não percebeu que o leninismo afogou o marxismo.
O PS fala em "esquerda moderna", mas joga o mesmo jogo de sempre, dentro dos mesmos grupos, sem entender que a modernidade da esquerda se cola ao mais moderno dos conceitos da política e da economia de hoje : a globalização.
A globalização que os portugueses abriram ao Mundo. Antes que americanos e japoneses falassem do fenómeno, já os portugueses o praticavam, levando e trazendo, mercadorias e ideias, gente e tecnologia. A diferença está em que a globalização dos portugueses não foi nunca um projecto de estado, mas antes mil e um projectos individuais de aventura, de fuga à mediocridade, à pobreza, à humilhação. O Estado - as várias formas de estado - nunca conseguiu entender esta dispersão de vontades, de inteligências que foram construindo outros mundos, sob outras bandeiras, servindo-se de outras línguas, de outras linguagens.
Os vários estados implantados aqui à beira-rio ( a beira-mar é outra coisa) nunca quis saber desses milhões de pedaços espalhados pelas sete partidas. E mesmo o poeta que cantou a primeira gesta desses homens lançados borda fora por esse Mundo além, foi marginalizado e ainda hoje - para glória da sua poesia, da sua generosidade e das suas ideias - continua a ser marginal.
A tal "esquerda moderna" ainda não percebeu que as sementes da rotura já foram lançadas há séculos. Há, agora, que buscar os frutos e lançar aos portugueses e seus descendentes por esse Mundo fora as flores de uma auto-estima que fará de Portugal e dos Portugueses, não apenas a vanguarda europeia, mas um exemplo para outra forma de encarar o Mundo, fazendo da globalização não uma forma de pilhagem alargada, mas um sistema de solidariedade.
O PS está longe de entender isto porque trata os portugueses residentes no estrangeiro e que ainda se interessam pelo que acontece no país (uma vez que votam) como gente de segunda, a quem faz o favor de sugerir dois representantes. Que diz Maria Carrilho e Aníbal Araújo a esses portugueses?
Que espécie de ligações é possível fazer com esta gente? Como é que esta gente será capaz de mobilizar uma ideia de Portugal espalhado pelo Mundo, de um povo presente em toda a parte onde, para construir alguma coisa, foi necessária força, espírito de sacrifício e respeito pelo próximo?
E O BE - que faz ele? Espera o barco do descontentamento generalizado para embarcar numa boleia que o leve ao poder e possa, como todas outras forças políticas, fazer os jogos da pequena política e do poder. Por que razão não se afirma com um programa alternativo a todos os disparates que andam no ar. Por que razão não se abalançam a construir um novo sonho para os portugueses, para todos os portugueses?
Onde está a capacidade de rotura das nossas elites políticas? Vamos continuar a fazer o discurso da desgraçadinha? " Afinal, Rosa enjeitada, quem és tu ? Uma mulher que sofreu!"

terça-feira, janeiro 04, 2005

Instrumentos de Comunicação de Massas

Os intrumentos de comunicação de massas raramente falam, mostram ou escrevem o lado mais positivo dos portugueses. De resto, para se ser objecto de notícia em Portugal é preciso ser político ou futebolista. As alternativas são mesmo más: ladrões, vigaristas, bêbados, violadores, pedófilos, prostitutas e coisas assim.
Poucos portugueses, dos que se ficam pela atenção aos instrumentos de comunicação de massas, saberão, por exemplo, que as tecnologias da via verde e do sistema de pré-pagamento dos telemóveis são criações portuguesas.
Por outro lado, os mesmos portugueses desconhecerão que grande parte dos portugueses e portuguesas com capacidades para além do normal têm que sair do país para realizar os seus projectos, cumprir os seus planos de investigação.
A maior parte deles acaba por ficar pelo estrangeiro, contribuindo para o enriquecimento das suas terras de acolhimento. Muitos ficam contra a sua vontade, porque a sua terra, Portugal, os rejeita.
Conto-vos a história de uma doutorada em Biologia nos Estados Unidos. Depois do doutoramento imaginou que a sua especilização poderia ser útil à sua gente e rumou Lisboa. Difilmente conseguiu entrar na Faculdade de Ciências, em Lisboa, onde nada lhe davam para fazer - nem sequer um lugar para estar.
Cansada da situação mandou o seu curriculum para Universidades americanas e inglesas. Quinze dias depois teve que escolher entre uma de Londres e outra da Califórnia. Optou por Londres, uma vez que lhe ofereciam um contrato permanente. O seu curriculum era muito bom, brilhante, consideraram os ingleses. E lá foi a nossa doutora. Tem saudades? Certamenmte terá, mas passam.
Porque é que isto acontece? por muitas razões, mas uma delas é, seguramente, a atenção desmedida que quem decide sobre coisas importantes na nossa terra, dá aos instrumentos de comunicação de massas. Quem decide não tem informação, não tem cultura, só se preocupa com os jogos da pequena política e de conservação de poder. Ora, como dizia a Engª. Pintasilgo, a política tem de ser sempre um acto de cultura. Por isso ela lançou a ideia das presidencias abertas, que outros aproveitaram para se manterem nas primeiras páginas dos instrumentos de comunicação de massas.

Solidariedade

O Mundo ficou chocado com a catástrofe do Sudeste Asiático e esse choque tem tido reflexos claros nos movimentos de solidariedade que, entretanto, se geraram e que se traduzem no envio dos mais variados artigos, considerados de primeira necessidade naquelas circunstâncias e na abertura de contas nos bancos por iniciativa de organizações de índoles diversas. Entre elas contam-se Bancos, associados a órgãos de comunicação social.
Estas contas são importantes para se concretizar a ajuda humanitária e, por isso mesmo, é curial imaginar que há já montado im sistema de controlo, de modo a que os dinheiros reunidos desta maneira não vão parar aos bolsos já treinados em recolher o que não devem.
Por outro lado, aos bancos que movimentam estas contas, também não ficava nada mal que, ao abri-las publicitassem o montante com que contribuem para elas. O mesmo se esperaria dos órgãos de comunicação social que anunciam insistentemente as suas iniciativas. Que tal ? Desse modo, nem os bancos, nem os seus associados estariam apenas a explorar a desgraça alheia.

domingo, janeiro 02, 2005

Um Presidente-Contabilista

No princípio de cada ano aí os temos, os presidentes da República a enviar mensagens, com votos de um bom ano. Os cidadãos vão ouvindo, cada vez menos, mas lá vão emprestando um ouvido no meio do habitual "zaping". Este ano, graças às guerras entre as televisões, não foi necessário um ouvido inteiro - meio chegou - para ouvir a comunicação de Sua Excelência. Somados os excertos que se foram anotando aos pedaços de prosa lidos nos resumos da impensa, a conclusão parece óbvia: não foi neste homem que os portugueses votaram para presidente da República.
Este não é o dr. Jorge Sampaio, que chegou a ter o cognome de "Rocard português", este homem preocupado com as contas do Estado, tal como os partidos e os economistas lhas apresentam não é o político brilhante de há doze ou quinze anos atrás. Também ele se deixou amolecer na convivência fácil com os verdadeiramente poderosos, que se apoderam da riqueza criada pela labuta diária dos portugueses - a quem o presidente dirige as mensagens. Também ele deixou de fazer as perguntas certas e nos atira com as mesmas palavras usadas por todos os outros que têm acesso às televisões, aos jornais, às rádios: "competitvidade", "produtividade".
Também ele faz o apelo ao entendimento entre os partidos de poder em Portugal, esquecendo-se - como? - de que eles estão coligados há mais de vinte anos, com os resultados que se conhecem: um país cada vez mais pobre, com cidadãos cada vez mais incultos, cada vez menos informados; um país com cada vez menos perspectivas de garantir à sua gente melhores condições de vida, mas com dirigentes políticos a quem, de repente, são detectadas contas secretas na Suiça.
Também ele faz o apelo a medidas que diminuam as despesas na saúde, esquecendo-se de referir a necessidade óbvia de verificar as relações entre os vários agentes que têm a responsabilidade da sua manutenção e administração, incluindo laboratórios farmaceuticos e o Ministério da Saúde, na sua globalidade.
Também ele faz apelo aos pactos sociais, esquecendo a evidência da necessidade de reestruturação do empresariado nacional, exigindo-lhes o pagamento dos impostos devidos, a actualização de métodos de gestão, a actualização tecnológica; esquecendo os números que indicam os gestores portugueses como os mais bem pagos da União Europeia.
Também ele se esquece de exigir que as autoridades do chamado bloco central, que governam, há mais de vinte e cinco anos, as estruturas da Educação, parem de desenvolver esquemas para cumprir números exigidos pela União Europeia e introduzam no sistema educativo normas de verdade, regras de disciplina, de rigor na avaliação, obrigando os nossos jovens a perceber que não se aprende sem esforço, que não se pode viver em sociedade sem respeito pelos outros.
Que presidente é este que apela aos pactos sociais em nome da competitividade e se esquece que os portugueses são, na Europa, os que mais trabalham e menos ganham?
Não foi neste líder que eu votei. Eu votei num homem a quem reconhecia qualidades excepcionais, capaz de, nesta altura, ter a coragem de dizer: o que está mal é a injustiça galopante que a globalização tem vindo a criar. Temos que lutar para que, pelo menos no espaço em que nos inscrevemos, na União Europeia, termine a ideia de que as empresas têm que apresentar, todos os anos, mais lucros do que o ano anterior. Temos que derrotar o deus "lucro".
Sr. Presidente, há mais vida para além da competitividade! E há mais verdades para além da dos contabilistas.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Os Céus e os Infernos do Nosso Tempo

Vamos entrar, dentro de algumas horas, no sexto ano do sec. XXI da era cristã. As comemorações da passagem atravessam o Mundo, independentemente do tipo de civilização vigente nas diversas latitudes e toda a gente formula votos de que os próximos 365 dias sejam melhores do que os anteriores.
São já desejos formulados mecanicamente, porque, no fundo, as práticas do chamado mundo cristão, que define as datas e os ritmos de crescimento, não auguram nada de bom. O que aí vem é mais descriminação, mais exclusão, mais miséria, mais fome. E também mais riqueza acumulada, mais desigualdade, mais arrogância, mais hipocrisia.
E mais pilhagem.
Ao longo de todos os últimos vinte séculos desta nossa era se registaram acções de pilhagem, feitas em nome dos mais variados desígnios: a expansão da fé foi um dos mais evocados e também o que deu origem à maior acumulação de riqueza e, em consequência, à criação de grandes polos criadores de pobreza e exclusão.
Por isso, o Mundo ainda se divide - em primeiro lugar - em ricos e pobres. Uns são tão ricos que é impossível, sequer, imaginar como vivem, onde vivem, que rosto têm; outros são tão pobres que só os podemos ver descendo aos infernos que a nossa civilização foi criando.
Com o feroz abandono de alguns dos valores que classificavam pela positiva o cristianismo, como o amor pelo próximo e a caridade; com o atropelo permanente das regras que ao longo dos séculos se foram definindo para a convivência entre os homens, tais como a liberdade, igualdade, fraternidade; com tudo isto, assistimos à edificação de um Mundo em que os mais fortes esmagam os mais fracos, umas vezes em directo, à vista de todos, outras às escondidas, sem vergonha e também sem ética.
O sistema capitalista, que tomou conta do mundo cristão, no começo regido por princípios da ética protestante, foi perdendo referências e hoje tomou o freio nos dentes: não tem regras e executa a maior pilhagem de todos os séculos, apropriando-se de toda a capacidade de produção que a Humanidade foi criando, sempre na esperança de melhores dias para todos os Homens.
A verdade é que a riqueza criada pela capacidade tecnológica do nosso tempo, pertença da humanidade, pelo trabalho de milhões e milhões de homens e mulheres está a ser apropriada por meia dúzia de criadores de céus e infernos, gente que já não tem rosto nem nome
São eles que determinam o futuro, pelo que os desejos dos simples mortais, como eu, são apenas pequenos instantes de ilusão, desfeitos nas pequenas bolhas de um espumante, a fingir de champanhe, que partilhamos com os que nos rodeiam.
Para os portugueses, em especial, o futuro não é tranquilizador: porque, sem conseguirmos ver o tamanho da nossa Nação, continuamos a achar-nos pequenos e a confiar numa elite sem capacidade, sem imaginação e sem coragem para fugir aos desígnios da globalização da pilhagem.
Por cá também existem os pequenos pilhadores, os criadores de céus e infernos, gente sem rosto, que molda as ambições das novas gerações.
Uma nova geração de dirigentes políticos está a chegar ao poder. Na perspectiva da gestão do poder dos próximos tempos, seja o lado para que se olhe, não se vislumbra nada de bom ou de novo. Não há sequer a perspectiva de alguém anunciar a intenção de romper com o actual estado de coisas: o sistema político vai continuar a ser gerido em círculos fechados, dentro da lógica dos compadrios e amiguismos.
Esta nova geração vai ajudar à criação de mais céus e muitos mais infernos.
De qualquer modo, e porque estamos a poucas horas das borbulhas do espumante, não quero deixar de formular o meu desejo: que estas novas gerações de políticos reconheçam que precisam de introduzir na sua prática alguns dos valores que se foram perdendo e tenham a coragem de defender alterações no nosso sistema político: por exemplo, redução do número de deputados e a criação de um Senado, uma espécie de Conselho de Sábios, com as competências necessárias para garantirem que a República não se afunda num grande inferno.

Os Recuos das Demissões

Em Portugal ninguém se demite. Toda a gente aguarda a demissão, de papel passado. Dá garantias, indemnizações, reparações futuras, novas funções outros cargos e, "se Deus quiser" novas demissões. Não admira, portanto que o Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) tenha recuado na sua demissão depois de o governo se ter apropriado indevidamente dos valores do fundo de pensões dos trabalhadores da instituição.
Este recuo é ainda mais perceptível ao cidadão normal se ele entender os poderes de um membro do Conselho de Administração ( CA) do mais importante grupo financeiro de Portugal.
Apenas uma estória simples: Celeste Cardona , ex-ministra da Justiça, esposa de uma deputado europeu, sócia de uma firma de advogados especialista em encontrar saídas para as fraudes fiscais, logo a seguir aos primeiros dias da sua nomeação para membro do CA da CGD reuniu alguns directores responsáveis pela resolução de hipotecas nas Caldas da Rainha e disse: "há o caso do F... , em Óbidos, que é preciso ser resolvido...".
E foi. Tratava-se de uma hipoteca. A Caixa perdeu uma percentagem substancial do valor do bem hipotecado que voltou à posse de F...
Um poder destes não pode trocar-se pela palavra de um compromisso. Em nome do patriotismo, do interesse nacional ( estamos com sorte que já não se evoca a defesa nacional) , os srs. administradores continuam em funções. O próximo governo, se os quiser demitir, terá que lhes pagar as indemnizações previstas nas linhas e nas entrelinhas dos contratos, feitos e assinados a pensar no papel passado da demissão.

A Universalidade Da Estupidez

Não é possível fugir ao tema do momento: a Tragédia do Sul e Sudeste Asiáticos. Ninguém pode ficar indiferente ao verdadeiro holocausto provocado pela Natureza, com um número ainda indeterminado de vítimas , mas que, no final, vai seguramente, surpreender toda a gente. O Homem não foi feito para acreditar em semelhantes números - o Homem do nosso tempo (já ultrapassámos as verdades bíblicas...)
As análises técnico-científicas, as especulações filosóficas, as previsões, etc., etc., deixo-as para os epecialistas. Eu não posso deixar de notar que as televisões portuguesas não se cuibiram de transmitir imagens verdadeiramente indecorosas, sob a capa de grandes histórias humanas.
Assisti verdadeiramente compungido a uma entrevista de uma mãe que explicava com um ar perfeitamente normal ao repórter que registava o seu depoimento a grande angústia da sua necessidade de optar entre o filho mais novo e o mais velho, enquanto este a olhava e chorava convulsivamente.
Aquela mãe é, verdadeiramente, uma não-mãe, já que expõe a sua opção de forma clara ao excluído, sem nenhuma manifestação de afecto - sempre exibida perante o preferido. E aquele jornalista - será? - regista o momento, permitindo que ele passe à posteridade e amplie o sentimento de rejeição daquela criança, cuja recordação mais amarga do marmoto do Srilanka não vai ser a força das ondas mas a escolha da mãe.
Que tudo isto se registe numa câmara de televisão, num gravador, a quente, entende-se, mas que, depois, a frio, se sirva ao público, sabendo que, daqui a a alguns anos aquela criança vai ter uma prova inexorável para apresentar à mãe, responsabilizando-a por todas as brigas com o irmão mais novo, por todos os conflitos com os camaradas da Escola, etc., etc., é demais e não vale carreira nenhuma. Isto, no caso de ele ter consciência de que o seu comportamento é fruto de tal rejeição evidente, publicitada aos quatro ventos e conhecida de todos os cinco continentes. Porque se não tiver essa consciência, pode fazer coisas verdadeiramente bíblicas, assim como a catástrofe Asiática.
No meio de tudo isto, custa perceber que um apresentador de telejornal ainda se dê ao desplante de se apresentar comovido (só lhe faltam as lágrimas...) perante a cena.
Na verdade, o que se exigia ao cabeça de cartaz (neste caso, o Carlos Daniel da RTP) era rejeitar tal reportagem, ainda que corresse o risco de quebar uma cadeia internacional de iditotice. A verdade é que, infelizmente para a Humanidade, não existem mentecaptos apenas em Portugal.l

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Castração

A palavra castração é exacta para descrever o actual estado PSD. É espantoso como um partido que sempre soube reagir perante a possibilidade de chegar ao poder ficou parado frente à grande probabilidade de o perder.

Toda a gente perde muito tempo com Santana Lopes. Nos jornais, nas rádios nas televisões, os comentadores encartados e desencartados. Por mim, já escrevi aqui que Santana Lopes, felizmente para o país, é um problema do PSD. Todavia, quando tal escrevi ainda tinha a esperança de ver o PSD reagir e encontrar uma solução que lhe permitisse recuperar alguns dos estragos provocados pela sandice de Santana Lopes e da sua equipa.
Passado algum tempo, concluo que o PSD está mesmo manietado, sem capacidade de recuperação com toda a gente, no partido, a confiar numa coisa espantosa: na capacidade de "combate" do Pedro. Francamente! o homem até a ler os papéis que lhe dão se engasga... E quando fala de improviso só lhe vem lixo à boca!
Os profissionais do marketing político não fazem milagres e alguns, de tanto se esforçarem, acabam mesmo por conseguir os efeitos contrários ao que programaram.
Este PSD está mesmo castrado e isso não é bom para a democracia portuguesa, até porque, depois das eleições, os ajustes de contas não vão ser rápidos. Santana Lopes não é o único responsável. Quem o deixou chegar à liderança também vai ser julgado. Por quem? haverá gente limpa neste processo de destruição de uma força política com a história do PSD?

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Um Regresso

A notícia tem alguns dias - diria mesmo algumas semanas - mas não foi devidamente comentada por ninguém (pelo menos de forma notória). E merecia pelo menos um nota de rodapé a lembrar alguma da história recente da única agência de notícias portuguesa e algumas das suas vicissitudes.

Refiro-me ao regresso de José Manuel Barroso (sem Durão no meio) à tal Agência, agora Lusa, chamada de ANOP no tempo da sua direcção, quando tinha a força da principal e melhor Redacção do país.
Essa força custou-lhe a extinção, como sempre acontece em Portugal a qualquer projecto que ultrapasse os limites da mediocridade das elites governantes deste país há séculos. Foi extinta, depois de ter tido de conviver com uma outra, chamada NP (Notícias de Portugal), cuja criação foi da responsabilidade do primeiro-ministro de então, Pinto Balsemão, do secretário de estado da comunicação social, José Alfaia e do seu homem-todo-poderoso, José Manuel Barroso.
Barroso transformou-se no principal adversário da ANOP, levada a fundir-se com a NP neste projecto de agora, num processo verdadeiramente kafkiano, com os principais quadros da ANOP a dizerem-se dispostos a lutar pela sua manutenção, mas nos bastidores a negociarem com a administração da NP, isto é, com Barroso, o seu fim.
Barroso acabou por pagar os zig-zags das suas alianças políticas, mas regressa agora à gestão da Agência que substituiu a ANOP, cujo fim ele preconizou. Este seu regresso tem alguma coisa de errado. Parece o "making off" de alguns editoriais da breve direcção interina do Diário de Notícias. Se assim é, os anos não mudaram o homem. Esperemos que, do ponto de vista técnico, não tenha perdido capacidades e se tenha actualizado para colocar as novas tecnologias ao serviço da única Agência portuguesa num Mundo cada vez mais globalizado, mas com uma comunicação social cada vez mais controlada pelos grandes interesses internacionais (ele sabe do que falo).

O Partido-Estado

A vida dá muitas voltas. Umas esquecem-se, mas outras são como que marcadas a fogo na memória de quem as deu. Viver numa sociedade em que não se sabe muito bem quem manda, se o partido no poder, se o Estado, é uma delas

Hoje assaltou-me um temor ao ver um homem, com uma gravata flamejante, chamado Relvas, a falar em nome do PSD e a desmentir uma notícia que dizia respeito ao governo.

Garantia o sr. Relvas que a notícia publicada pelo "Diário Económico", segundo a qual o governo tinha protelado o pagamento dos subsídios de desemprego e de saúde até ao início do próximo ano, para, dessa maneira, equilibrar ainda mais o défice, era mentira e quase insultava o jornal que a tinha publicado.

O que é que o sr. Relvas tem a ver com o assunto? Porquê um desmentido tão veemente?

Não sabe o sr. Relvas que o truque já é velho e que até algumas empresas cotadas em bolsa, que não podem deixar de pagar aos seus fornecedores no prazo máximo de sessenta dias, deixam de cumprir os seus compromissos a partir de Setembro para, dessa maneira, enganarem sobretudo os accionistas, que, depois, sancionam os chorudos prémios que os administradores distribuem entre si?

Teve azar o governo e foi apanhado em mais uma trapalhada. E o que é que o PSD e o seu secretário geral têm com isso? Estamos a caminho de um regime ML, de partido único, em que o partido manda no Estado? Se assim é, avisem com antecedência, porque a emigração não está fechada para todos os lados e ainda há uns onde se pode viver, sem a escravatura do capital e sem a ditadura do proletariado.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Um Hora Certa

Corro o risco de transformar este blog numa peça de tema único. Não era essa a intenção, mas a verdade é que - tenho que o admitir - reajo às agressões do meio social com toda a minha energia.

A chamada comunicação social ( sobretudo a televisão) é hoje o principal meio de agressão dos cidadãos que se disponibilizem a dar-lhe atenção.

Para esses, as doses estão calculadas: todas as televisões generalistas têm jornais de horas certas: das 13 às 14 h e das 20 às 21 horas. Uma hora certa de notícias, dê por onde der.

Há uma das televisões de canal aberto, a SIC, que termina o telejornal das 13 sempre às 14 (em ponto), porque a essa hora principia a série do cão polícia REX, que, nem o facto de ir já na enésima repetição lhe retira o mérito de ser melhor do que a hora inteira de notícias e palhaçadas, apresentadas com o ar de coisa importante que todos os pivots dos jornais televisivos fazem para introduzir mais um desgraça, um desastre ou uma violação.

Este é outro dos aspectos caricatos dos telejornais : o ar compungido, sério, trágico, que os apresentadores de notícias das nossas televisões fazem para ler os telepontos. Com um pouco de atenção percebe-se que a responsabilidade que o espectador lhes atribui não existe, mesmo quando o dito leitor é o próprio director de informação.

O texto é o mesmo de todas as outras e foi fornecido pela mesma Agência, normalmente, a Lusa, que já fez o trabalho de tradução - e agora até imagens fornece.

Quando ficamos minimamente atentos percebemos que aquele ar interessado que o José dos Santos ou o José Alberto, ou a Clara não sei quantos e o Rodrigo Carvalho e mais a Alberta e até o Henrique Garcia... fazem é apenas representação. Não têm nada a ver com os textos, não visionaram nada antes, não têm e a mínima responsabilidade do que leêm ou das reportagens que introduzem.
Apenas têm que aguentar o jornal o tempo determinado. Depende da publicidade que têm ou não têm - e da que o patrão gostaria de ter e da que a concorrência exibe. E se, para estar no ar mais cinco minutos têm que ouvir um iditota qualquer que foi apanhado desprevenido na rua, então ouça-se o idiota!
Bem poderiam aparecer com outro ar, mais descomprometido - é que ainda há gente que acredita nas notícias que leêm. Esta crença complica tudo, quando aparecem com a mesma cara interessada e até com a mesma gravata a dar voz a coisas realmente importantes. Ao menos, mudem de cenário, de guarda-roupa ou tão só de gravata!
Para o caso de alguém que me lê achar que exagero, um pormenor: há cerca de um mês, soube que, finalmente, a NASA tinha conseguido pôr no ar um avião que consome como combustível o hidrogénio da atmosfera e anda a uma velocidade de 10.000 quilómetros por hora porque vi o Telejornal do GNT às 00H15. Foi a notícia de abertura daquele canal da Globo. Algém viu essa notícia na Televisão Portuguesa?... AS IMAGENS DEVIAM SER MUITO CARAS.


domingo, dezembro 26, 2004

A Solidariedade Natalícia

A Solidariedade Natalícia transformou-se em operação de marketing de imagem. Faz parte dos manuais de qualquer assessor : o Natal é uma época excelente para fazer passar a ideia de que as grandes empresas não existem apenas para capitalizar lucros, fugir aos impostos, arrecadar percentagens excessivas dos índices de produtividade alcançados por toda a sociedade em que e de que vivem. Não. Elas também são solidárias com as desgraças que fomentam ao longo de todo o ano. Desempregam e desalojam gente, exploram o trabalho até ao limite do possível, sugam as capacidade do Estado, obrigando-o a privatizar os serviços que dão lucros, depois de livres das despesas de caracter social, etc., etc. E, na época natalícia (ou natalina, como dizem os brasileiros), aparecem vestidos com a capa de solidariedade, a divulgar as suas preocupações com a desgraça dos outros...
Este Natal a preocupação atingiu o limite da hipocrisia e já parece uma anedota de mau gosto, contada no Ri-te Ri-te da SIC.
O presidente da BES , Ricardo Salgado, ele mesmo em pessoa, apareceu numa das televisões nacionais, de canal aberto, a divulgar a sua brilhante ideia: abriu uma conta no seu banco para que as pessoas se solidarizem com os desgraçados, com os enjeitados, com os desprotegidos da sorte, com as criaturas que não conseguiram resistir às pressões que a Banca, no seu conjunto, desenvolveu durante o resto dos dias deste e de todos os outros anos em que todos eles ficaram cada vez mais ricos.
Esta operação vergonhosa de marketing de imagem só se percebe num contexto de senilidade de de mau aconselhamento. Porque não aparece o dr. Roberto Salgado a fazer uma verdadeira notícia, anunciando que o seu banco disponibilizou uns tantos dos muitos milhões que ganhou durante este ano apenas em operações de off shore ou em contratos que obrigaram empresas que controla de forma ilícita para assistência dos muitos dos sacrificados no seu próprio altar de lucros desenfreados?
Assim, sim, estaríamos a assistir a uma operação de genuína solidariedade e não apenas a mais uma manobra de marketing de imagem, associada a um último esforço para compôr os números do ano de 2004.
Depois de uma destas só resta um conselho: mude de assessor de imagem, mas não contrate a JLM & Associados porque essa também está a cobrir de ridículo algumas das grandes empresas deste país. Além de que já obrigou o dr. Ricardo Salgado a aceitar como presidente da Lusomundo o Luís Delgado...

As Propostas da Vergonha

Hoje é dia de Natal e, por isso, é a altura certa para falar de coisas sérias. Há, nesta Terra de Deus gente sem vergonha a desempenhar papéis destinados a gente honrada e séria. Refiro-me à direcção de alguns jornais que não têm vergonha de tentar contratar jornalistas licenciados, com experiência profissional, com curriculo a que associam capacidades evidentes, oferecendo títulos de alimentação e transporte, num montante de 125 Euros, ou seja, 25 contos por mês. E são direcções representadas por gente que depois se apresentam em público defendendo as chamadas ideias de esquerda.
Enquanto esta vergonha continuar a comunicação social será o que é, porque sujeita às pressões das agências de comunicação, que já tomaram conta das editorias dos jornais das rádios e das televisões a troco de carteiras de publicidade que lhes foram entregues de mão beijada pelas administrações das grandes empresas.
Por isso, os presidentes podem aparecer a dizer que nunca fizeram pressão sobre ninguém. Pois não: pagam - e bem - a quem faça o trabalho sujo por eles.
Não há melhor dia do que o de Natal para lembrar que este país se está a reestruturar em cima de gente sem escrúpulos e com muito poder e que a chamada liberdade de imprensa não é mais do que uma peça de um leilão feito em feiras semelhantes à de Carcavelos.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Défice e Produtividade

Ouço políticos, economistas e professores de uma e outra coisa e não posso deixar de ficar surpreendido. A conversa de uns e outros é sempre a mesma. Alguns jornalistas da área económica (os tais, que, por determinação da Comissão Europeia deveriam fazer declaração de património) dizem que sim, abanando a cabeça. As soluções apresentadas traduzem-se sempre na necessidade de reduzir trabalhadores da função pública, subtrair gastos à saúde, à educação, na obrigação de fazer os cidadãos pagar mais pelos serviços, pelas auto-estradas, mais impostos, etc.
Como nunca aparece ninguém a defender outra saída, já que os meios de comunicação foram tomados de vez por gente clonada de algum cifrão, fico com a certeza de que é isso mesmo que vai acontecer. Num futuro não muito longíncuo vamos pagar mais por tudo. Teremos mesmo alguma sorte se não aparecer ninguém a inventar um imposto que cubra os desvarios de governantes e autarcas, tipo ex-presidente da Câmara da Figueira da Foz, que, com os quilómetros que debitou durate o seu mandato teria dado várias voltas ao Mundo.
Todavia, a desgraça, a calamidade, a fatalidade não está, seguramente, no excesso de trabalhadores e nos "baixos" impostos que pagamos.
Atente-se neste facto: os CTT, por exemplo, há trinta anos, ou menos, tinha um complexo sistema de selecção de correspondência, com centenas de trabalhadores que se ocupavam dessa tarefa - para só falar desta. Hoje - uma das televisões apresentou há poucos dias uma reportagem sobre o tema - a selecção das cartas é toda automatizada. Quantos trabalhadores desapareceram com o sistema?
Qual é o índice de produtividade entretanto atingido? Nesta e noutras actividades - em todas elas (indústra, comércio, serviços, etc., etc.) ?
O resultado desse aumento espectacular - inimaginável há trinta anos - de produtividade está aonde? porque é que temos um Estado miserável, governado por parolos que se fazem transportar em viaturas de topo de gama, protegidos por um pelotão de seguranças e por um sistema de emergência médica complicado?
Para onde(foi) vai o produto desse aumento de produtividade? Voltando ao exemplo dos CTT: não foi para melhorar a qualidade dos serviços ou para os embaratecer.É que, por exemplo, uma carta enviada de Lisboa para a Finlândia, em correio azul, custa 1,30Euros. O mesmo tipo de serviço, da Finândia para Lisboa custa 0,65 Euros.
A Finlândia é, como se sabe, o primeiro país do Mundo em matéria de satisfação dos seus cidadãos.
Insistindo ainda nos CTT: a transferência do respectivo fundo de pensões, levada a cabo por Manuela Ferreira Leite e tão criticada agora por Bagão Felix, retirou à respectiva administração um enorme encargo, transferindo-o para o Estado. Esse facto vai aparecer reflectido nos resultados e, seguramente, permitir a Carlos Horta e Costa mandar rezar mais uma missa de acção de graças.
Fugindo da anedota: porque é que os homens da chamada comunicação social não aprofundam estas questões e se ficam a pontuar as conversas dos "sábios"?- tão sábios que já nem conhecem a realidade dos pobres mortais.
Será que os "pontos" da chamada comunicação social também se identificam com os problemas dos administradores, que fazem as empresas pagar todas as suas despesas, incluindo as do super-mercado e depois anunciam "ambiciosos projectos de reestruturação", que, no essencial, consistem na redução de mais uns milhares de trabalhadores?
A verdade é que, ao ouvir alguns directores de jornais, temos a sensação de estar a ouvir directores comerciais. Isto para já não falar dos auto-intitulados jornalistas e que são presidentes e vice-presidentes de empresas e comunicação social e de jornalistas que colaboram com as entidades patronais em mais do que uma função, sendo que a de jornalista é claramente prejudicada pelas outras.
Concluindo: é necessário levar a discussão sobre o défice do Estado para outro nível, escolher outro patamar e outros interlocutores e deixar de atormentar o cidadão que vive (mal) do seu trabalho, que tem que pagar tudo e ainda se preocupa com as asneiras dos governantes. Asneiras, isto é, descaminhos, porque quando se trata dos seus interesses e dos respectivos amigos só há operações de sucesso.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

A "Season" da GNR

"Começou a operação Natal" - ouve-se em todas as Rádios. Mil e não sei quantos agentes da GNR vão para a rua - lê-se nos jornais. Teve início a "season" da GNR-BT - digo eu.

Com que ansiedade alguns dos majores e capitães da corporação não mandam limpar as fardas, os bonés, engraxar as botas. Os tempos de antena deles estão a chegar - para dizerem sempre as mesmas coisas.
Eu só os vejo nas televisões ou em locais estratégicos, naqueles onde, habitualmente, não há dificuldades de circulação, em operações de verdadeira caça às multas e a mandar parar, sempre, os cidadãos com aspecto de cumpridores. Em toda a minha vida nunca vi um GNR a aparecer no momento certo, quando um daqueles desvairados que andam na estrada faz tropelias durante quilómetros e quilómetros, pondo em risco a sua própria vida e a de todos os outros que com ele se cruzam.
A BT da GNR nunca está nos sítios onde há dificuldades, para ajudar os cidadãos, como compete a uma polícia de um país democrático. A BT da GNR ainda não conseguiu ultrapassar a noção de autoridade que lhe foi atribuída a quando da sua formação. É verdade que hoje cumprimentam com ar educado (fingido, irónico) o incauto apanhado nas emboscadas que eles montam, escondidos atrás de um carro, de uma árvore ou a bordo de potentes viaturas com sofisticados meios tecnológicos, mas, no fundo, apenas conhecem a repressão como meio de actuação.
Agora, que a" season" deles voltou, vão continuar a acusar os condutores dos mais variados erros, generalizando o conceito de que são todos uns prevaricadores. Jamais referem as más condições das estradas, a deficiente sinalização ou a evidente armadilha de um código completamente desajustado da realidade e que nos obriga a viver uma hipocrisia colectiva para a qual aquela instituição contribui denodadamente.
Enfim... lá vamos ter que os aturar mais um ano, debitando números sem interesse nenhum uma vez que não têm um termo de comparação ajustado. De que interessa saber o número de desastres ocorridos na época de Natal, se o termo de comparação é o Natal anterior e nunca um período de tempo igual em circunstâncias normais? O número que ultrapassasse as condições normais é que seria atribuído ao Natal, e serviria de comparação com os outros Natais.
Os homens de farda impecável, de boné de apresentador de circo e de botas de montar muito engraxadas, mais os bustos falantes das televisões (às vezes caras larocas de cabelos ao vento) vão começar a invadir-nos o sossego das nossas casas para nos assustar, para nos impressionar e nunca para nos ajudar, para serem úteis. Para eles, UMA BOA "SEASON".

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Título de Jornal

Ouço na Rádio a notícia sobre a publicidade que o governo Santana/Portas mandou colocar e pagar nos jornais, sob a forma de encarte a cores com o objectivo de publicitar o orçamento de Estado para o ano de 2005.

Quedo-me e imagino qual seria o título de o "Independente" nos tempos da direcção turbulenta de Paulo Portas:

FAMÍLIA SURPREENDIDA PROTESTA
DEFUNTO PAGA A CORES PÁGINA DE NECROLOGIA

João Lóio

Ouço o CD "ENCONTROS", com música e letra de João Lóio, uma colaboração variadíssima de artistas portugueses. Pergunto-me: por que razões nunca ouvi isto na Rádio Portuguesa? Não houve nenhuma editora com coragem suficiente para apostar na qualidade e pagar aos dg's do país radiofónico, transformado no mundo dos pirosos e das pirosas?

terça-feira, dezembro 21, 2004

Ingenuidades (?)

A propósito do regresso da polémica da co-incineração, provocada pelo candidato do PS a primeiro-ministro, uma parte da comunicação social portuguesa foi fundo e voltou a congregar todos os demónios, com entrevistas a gente vivamente interessada no problema e nas consequências das diversas soluções.O desassombro de alguns dos protagonistas não é nada claro. E a ingenuidade deles também não assenta bem.

As entrevistas de rua são um dos males do nosso tempo. Com equipamento que lhes permite, de qualquer lugarejo enviar um sinal em directo, os profissionais da comunicação social, sempre que têm oportunidade, recorrem a ele. Algumas vezes, simplesmente, para dizer que não há nada de novo.

Como é o caso desta requentada polémica: não há nada de novo. A não ser o acumular dos resíduos tóxicos perigosos, cuja tonelagem aumentou significativamente nestes dois anos e meio de governação coligada.
Também não é novo o facto de nenhum órgão de comunicação social (televisão, rádio, jornal) se ter referido ao problema durante este lapso de tempo.
Porque é que José Sócrates levantou tal questão, sabendo, concerteza, que ela seria aproveitada como uma verdadeira manobra de diversão para desviar as atenções do que está em causa neste momento? Terá sido por ingenuidade?
Logo apareceram algumas vozes a dizer que está a decorrer um concurso internacional para uma solução alternativa, muito mais eficaz e menos perigosa. Mas, se assim é porque não foi ela posta à discussão pública e, como seria de esperar, apresentada como uma das bandeiras do governo PSD/PP, já que nasceu da anulação de uma decisão muito polémica do último governo PS? Terá sido por ingenuidade? Logo agora que iam começar...
Das várias entrevistas a que assisti destaco duas: a primeira, durante um dos jornais da RTP - o das 13 - com um dos signatários dos relatários que recomendou a António Guterres a co-incineração e que, no final, perguntou ao profissional da comunicação social que o interrogava se, ele, por acaso, sabia o que significava a tal sigla que identificava a alternativa, sem indicar nenhuma tecnologia.
O profissional da comunicação social respondeu que nos próximos dias se saberia. Ficámos a saber que ele - profissional da comunicação social - , apesar de ter feito uma entrevista sobre o assunto, não conhecia o significado de uma sigla - que eu também não percebi. Terá sido ingénuo, ao prometer para os próximos dias o conhecimento de assunto tão momentoso? De certeza que vamos ouvir a tal sigla o número suficiente de vezes para a decorar. Os anti-co-incineração não se esquecerão de a lembrar. E a RTP também.
A outra entrevista é a de uma Souselense, que, em síntese, dizia que o engº. Sócrates, ao anunciar a sua decisão tão precocemente demonstrava que "os tinha no sítio" e garantia que os de Souselas também. Terá sido por ingenuidade?
De repente, lembrei-me da estória dos órgãos da Igreja de Souselas que tanto irritava os souselenses de outros tempos, dos tempos em que a cimenteira ainda não despejava por cima das hortas, das casas e das cabeças baixas o seu veneno branco.

sábado, dezembro 18, 2004

É Necessário Responsabilizar

O Engº. José Sócrates disse ontem, em Lisboa que, no caso de o PS ganhar as eleições de 20 de Fevereiro, não vai passar o tempo a criticar os anteriores governos, a fazer apelos ao passado e não vai desfazer o que, eventualmente esteja bem feito, só porque foi feito por outros.

Tudo bem. A conversa da herança do passado faz lembrar os poderes africanos, que, trinta anos depois, ainda atribuem as culpas de todas as desgraças ao colonialismo.

Todavia, é necessário responsabilizar os autores de erros graves, começando pela sua denúncia, para que não aconteça o que sucedeu ao PS, quando, em 1995, subiu ao poder e se esqueceu(?) de denunciar todos os atropelos cometidos pelos governos de Cavaco Silva. Apenas dois exemplos: o PSD de Cavaco Silva matinha milhares de trabalhadores da função pública a recibo verde, em situações verdadeiramente kafkianas e o PS admitiu-os nos quadros que comportavam as vagas para tal.

Pois bem: alguns meses depois já o PS estava ser acusado de ter sobrecarregado a função pública.

Houve muitas auditorias levadas a cabo em diversas estruturas empresariais da responsabilidade do Estado e em diversos níveis da administração pública e que demonstravam erros e falcatruas dos anteriores gestores e que foram silenciadas. Porque razão? por causa das eventuais cumplicidades do chamado lobi dos gestores públicos - que fazem todos parte do bloco central?

Não interessam agora as razões, mas importa lembrar ao engº. Sócrates que o PS, mais tarde, acabou por pagar esse branqueamento.

O Beneficiário do Regime Durão-Santana

Um dos jornais de hoje avança com a ideia de que o empresário Pereira Coutinho pode vir a comprar a Lusomundo.
Depois que A JLM, por intermédio de Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes tomou conta daquele activo da PtMultimédia, beneficiando da acção política de Morais Sarmento, que ameaçou o BES de mandar retirar daquele Banco todas as contas do Estado e das empresas públicas, no caso de aqueles administradores não serem aceites (v. post anterior: "Administradores-Comentadores" e respectivo comentário)... desde essa altura que se têm visto na praça muitos potenciais compradores.
Mas este nome nunca tinha aparecido, pelo menos publicamente... Ao aparecer agora, naquele que parece o último fôlego do regime Durão-Santana, pode significar jogo perdido para os outros, inclusivé para a PTMultimédia e, por conseguinte para a PT, cujos accionistas, ou estão demasiado longe ou demasiado distraídos para perceberem as jogadas que por aí vão.
Pereira Coutinho é o mesmo que comprou a Quinta da Falagueira, que desenhou e já vendeu as urbanizações da Artilharia 1 e do ex-Colégio dos Maristas, beneficiando das mais valias do Túnel do Marquês, pagas pelo dinheiro de todos os contribuintes.
Ao propor-se como candidato à compra da Lusomundo tem a companhia de Morais Sarmento e outros políticos do actual circo político - o que quer dizer que um leque importante de órgãos de comunicação social sai da esfera de um grupo económico poderoso, mas respeitável, e ainda com alguma intervenção de um accionista - o Estado - que tem a obrigação de manter as distâncias necessárias, para a de um grupo económico que joga, aparentemente, na troca de favores e no compadrio político.
Por isso se estranha que o actual secretário-geral do PS, numa aparente posição de ignorância do jogo que se joga entre a JLM, Luís Delgado, Morais Sarmento e os eventuais financiadores de tal compra, venha defender que a PT se deve libertar da Lusomundo. A favor de quem?
O que deve ser defendido, antes de mais, é a clarificação dos interesses que se jogam através da João Líbano Monteiro e Associados, bem como de toda a rede dos seus interesses ( em que se incluem antigos e actuais ministros do PSD), com a colocação de gente sua em todas as grandes empresas ainda ligadas ao estado, mesmo que seja apenas por simples golden shares.
Defender a venda da Lusomundo nas actuais circunstâncias é favorecer, seguramente, o aparecimento de mais um grupo de comunicação social virado apenas para a defesa dos seus interesses.
Que os políticos não se queixem depois que o poder da comunicação social fragiliza o poder político. É que o poder económico paga ... enquanto o poder político aposta na sua capacidade de manipulação pela militância. Onde é que isso já vai?!