quinta-feira, janeiro 12, 2006

As Manobras de Bastidores

Apareceu na Televisão Portuguesa um anúncio da PT, com o Hino Nacional em fundo e com muita gente com ar sério, divertido ou sem ar nenhum. Um clamor de protestos e contraprotestos se levantou contra e a favor do uso do Hino Nacional em anúncio publicitário, para dizer que o Grupo Portugal Telecom é o que mais investe em Portugal.
Nada me move contra o uso do Hino Nacional, mas acho o tal anuncio de uma piroseira indizível. Uma pepineira, uma saloiíce. Tanto mais que as aparências, no que concerne ao investimento não confirmam o texto, já que o Grupo tem sido o que mais postos de trabalho tem eliminado e deixou, claramente, de investir em infraestruturas, tendo-se transformado numa empresa de especulação financeira, que paga o mais tarde possível e recebe o mais cedo possível.
Por outro lado, transformou um dos seus administradores numa espécie de globetrotter da destruição, porque tem corrido todas as empresas do grupo e, por onde passa deixa um rasto de destruição inapagável.
Refiro o venerável Zenal Bava, que deu cabo da PT Multimédia, da TVCabo, da PT Comunicações e agora se prepara para levar a sua gente, toda sem papéis e sem qualificações muito claras para a TMN, onde obviamente, vai instituir os seus métodos de gestão mais ou menos aterrorizadores, os mesmos que implantou por todo o lado, incluindo na PT Pro, a empresa que criou para dificultar o mais possível a vida dos trabalhadores do grupo
Pelo menos na TMN já está toda a gente assustada.
Que motivos estarão por detrás desta destruição sistemática de um grupo que já tem que recorrer ao Hino Nacional para se posicionar no campo da imagem?
Estará o Grupo PT a ser preparado para ser cada vez mais barato e ser vendido à Telefónica com a intermediação do BES?
É que tudo quanto o engº Bava faz - mesmo quando debita as contas do supermercado na contabilidade da empresa - tem o aval do BES.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A VER NAVIOS

Costumava vê-los, da janela das águas-furtadas onde morava morei na infância. A maior parte deles eram as canoas do Tejo à mistura com cacilheiros e umas quantas fragatas ancoradas. Muitas gaivotas a esvoaçar. O meu pai pagava duzentos e vinte paus de renda. Eu ia de manhã para a escola primária, na rua das Gaivotas, ao Conde-Barão. Ia a pé e, no entanto, o eléctrico custava cinco tostões. O «Mosquito» também. E ficam a perceber melhor a razão pela qual ia a pé.
Mas o título não tem a ver com isto. É mais sinónimo de «ficar a xuxar no dedo», que é como se fica quando se vai «no embrulho». Esta manhã, por exemplo, o «DN» deixava entender que o presidente do «metro» era um enorme malandro. O visado apressou-se a explicar que nem por isso. O sr. Vieira também disse que o Simão não saía...
Houve em tempos um sujeito que passava o tempo de lanterna na mão à procura da verdade ou da virtude ou uma coisa dessas, dessas a que já não se liga. No tempo dele, o petróleo era baratucho, mas mesmo assim a busca deu em nada.
Mas é ligeiramente diferente quando acontece connosco ou comigo, para ser mais específico. É que...
Pois, isso mesmo, comprei o «DN» esta manhã. Mas tinha uma boa razão: o sudoku de ontem.
Fiquei pendurado. Troquei um número qualquer e não arrangei meio de alinhar. Resolvi punir-me e ir espreitar a solução. E comprei o pasquim. Lixaram-me. A solução não era a do problema de ontem. Eles diziam que sim, que era de ontem, mas não era. E zanguei-me: então esta gente anda a enganar-me, a extorquir-me centimos que me fazem falta e ainda diz mal dos outros!

terça-feira, janeiro 10, 2006

A Loira da rua 48 no Bairro Fiscal

-... Oh! senhor, eu já não lhe disse que estou aqui para falar com o seu chefe?... Porque é que está sempre a perguntar se me pode ajudar... Parece que está a vender óculos ou cuecas num shopping... não estou aqui para comprar nada. Diga lá ao seu chefe que eu quero falar com ele.
- ... " E quem é a senhora?" - perguntou o senhor por detrás do balcão, com barba de dois dias, roupa descuidada, enquanto tirava umas fotocópias.
A assistência, composta por três funcionárias - todas com um computador à frente, tal como noutros tempos tinham máquinas de escrever - despertou, desejosa de ver o espectáculo...
- " Oh! moço, vá lá dentro e diga ao seu chefe que está aqui uma loira que lhe chamou, primeiro, senhor, depois, moço e que quer falar com ele... ande, despache-se... não tenho tempo a perder, porque o meu tempo é dinheiro e o seu nem para fazer a barba chega... vá...vá...
As espectadoras ficaram espantadas. O galifão da repartição, considerado o mau do pedaço, que punha todos os fregueses na ordem, não dissse nada e avançou para o gabinte do chefe.
Dois minutos depois o mesmo rapagão com barba mal feita e roupa pouco cuidada, apareceu ao balcão, desfazendo-se em mesuras...para que a senhora entrasse: "....por aqui, faz favor... à esquerda...
Correu a abrir a porta e, logo à entrada, lá estava o chefe: casaco à moda mas a sobrar(" o pronto a vestir é uma chatice"... ia pensando... "logo hoje que a loira resolveu vir à repartição...")
A Loira da Rua 48 entrou no gabinete do chefe, olhou de soslaio para a bombazine, de novo na moda, do casaco do pobre homem, fez um sorriso compreensivo, olhou o empregado de balcão com uma ordem nos olhos: desaparece!
E ficou, frentre a frente com o homem grande da repartição, que ameaçava, que mandava cartas, que assinava coimas, juros e estava ali, a olhar para ela, feito trapo, homem da rua, como que a dizer: "eu não tenho a culpa... são eles que mandam, eles querem cobrar..."
Não precisou falar, a Loira da Rua 48 percebeu o discurso só de olhar para os olhos daquele gordo, empaturrado com um bom almoço que alguém - não ele - pagou.
"... Olhe lhá, seu gordo embombazinado, estou aqui para lhe dizer que eu vou pagar. Tudo. Mas quando puder, quando os seus chefes puserem este país a funcionar! Quando o Estado resolver pagar os seus compromissos a horas, quando o Estado, que você e os seus chefes representam, pagar as suas contas a tempo e horas....
O chefe da repartição de finanças esboçou um gesto, ia dizer qualquer coisa. A Loira da Rua 48 silenciou-o com um dedo sobre os lábios: "... já sei o que vai dizer e não me interessa... Da próxima vez que me mandar uma carta a dizer que me vai penhorar não sei o quê, eu vou mandar aqui o pessoal da minha rua perguntar quando é que prendem os banqueiros que andam a lavar dinheiro de negócios esquisitos..."
- "Isso náo é comigo..." balbuciou o coitado.
- " Então deixe de fazer serviço de macaco e faça com que esses assuntos também sejam, consigo! E agora mande aquele seu lacaio mal lavado e mal vestido ensinar-me o caminho de regresso à rua, para ver se respiro algum ar puro..."
A loira da Rua 48 passou pelas secretárias das três "doutoras" olhando cada uma nos olhos, perguntando com um sorriso: " já descobriram hoje mais um devedor, daqueles que se sujam apenas veêm o carimbo da repartição de finanças...?

sábado, janeiro 07, 2006

SALDOS

É um mês chato para eleições. Em Março ou Abril seria menos caricato, por certo. Em Janeiro a conotação com os saldos é excessiva. Quando Soares abraça Valentim cheira a desconto. A ideia de que tudo se compra, desde que seja económico é mais intensa nesta altura do ano. Todos sabemos que o dr. Soares fala, de preferência a estar calado, fala, fala sempre, mesmo que não diga nada. Quando não foi capaz de se calar, ao perder para uma senhora uma eleição europeia, envergonhou todos os assumidos machistas do velho continente!
Nem era uma questão de idade, mas de incontinência. Alguns mijam-se, ele fala, não resiste, não se contém. Um sim a Valentim deve obrigá-lo a, pelo menos, uma nega a Fátima! Ou se perdoa tudo ou a democracia é uma batata e neste género de ideologia nada se perde, tudo se transforma ou, como diria o poeta, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Mas não é uma questão de tamanho é de reflexo. Até uma certa idade, um ministro pode dizer o que quiser, mesmo sobre tgv's, que são só asneiras, com mais idade é mais dolorosa a conotação: está
gá-gá! Por essa altura fala-se com toda a espécie de gente e diz-se o que vem à pinha! É triste, mas é a vida. E tanto mais triste quando há gente alegre pelas imediações...

Propriedade Intelectual - Os Assaltos

Quem, como eu, tem o hábito de, sempre que pode, viaja pela blogoesfera e, mais por obrigação profissional, do que propriamente por gosto, lê os jornais que se publicam neste cada vez mais pobre país, não pode deixar de ter a impressão do "já lido".
Nas minhas deambulações tenho um itenerário fixo e um outro aleatório. Do primeiro fazem parte, obrigatoriamente ,"Erotismo na Cidade" e " A Barca da Lyra".
A autora de "Erotismo na Cidade", que tem o cuidado de avisar que todos os seus textos e poemas são registados na Sociedade Portuguesa de Autores, denuncia desde há algum tempo um roubo descarado de um dos seus textos por um programa de Televisão, emitido na Dois, - "A Revolta dos Papéis de Nata" . A denúnica não pode ser mais clara.
Não parece que até agora tenha havido da parte dos responsáveis do programa ou mesmo da direccção do Canal 2 da RTP qualquer manifestação de reparação de tal roubo. Doutro modo, a autora do blogue já o teria sublinhado.
Hoje verifiquei que a autora do "A Barca de Lyra" resolveu inibir o acesso aos arquivos, porque já viu textos seus publicados noutros locais sem nenhuma referência à respectiva "maternidade".
Muitos outros casos existirão, seguramente. Tantos que o problema da propriedade intelectual já deveria ter sido analisado pelas autoridades competentes de modo a salvaguardar os legítimos direitos de quem cria, seja em que veículo for.
O que acontece é que essas autoridades fazem como os órgãos de comunicaão convencional: assobiam para o lado e consideram a blogoesfera um epifenómeno sem expressão e mesmo condenado ao desaparecimento.
Ora, a verdade é que não é assim. Um estudo objectivo e atento deste fenómeno não deixaria, concerteza, de constatar que aqueles cuja capacidade criativa foi sendo rejeitada pelos donos do negócio chamado comunicação, se foram refugiando na blogoesfera e hoje vão alimentando as pobres cabeças dos que, por obrigação contratual, profissional - a maior parte das vezes sem qualquer gosto especial - vão enchendo as pobres páginas dos nossos jornais e os ensanguentados telejornais das televisões dos espanhóis e de outros que não se sabe quem são.
Um tal estudo não deixaria igualmente de concluir que muitos dos que são impedidos pelos gestores do tal negócio de exercer os seus direitos nos órgãos em que trabalham, se refugiam em blogues onde expressam toda a sua criatividade.
Nos dois casos aqui apontados, o mais evidente é o do "Erotismo na Cidade", que já deveria ter levado a que os autores do tal programa fossem condenados ao pagamento de pesadas indemnizações à autora do texto lido abusivamente numa das emissões do programa. A condenação deveria ter igualmente uma componnente cívica impedindo os autores deste verdadeiro assalto de, durante um período de tempo suficientemente longo para ser considerado como uma punição a sério, de exercer qualquer actividade no domínio da comunicação social.

terça-feira, janeiro 03, 2006

LIXO

À medida que os anos passam aprendo a não perceber e vou aprendendo a não me espantar. Não me envergonhei quando o Benfica eliminou o Manchester. Não tive culpa! E como profundo entendedor de bola nem me passou pela cabeça que pudesse ser possível. Encolhi os ombros e não deixei de beber o meu copo. Outra vez, já há uns anitos largos, vi o chui a mijar a uma esquina. Fiquei fulo, pensava que «aquilo» era um direito exclusivo de cidadãos não chuis.
Os espanhois não podem fumar hoje onde fumavam ante-ontem. A bem da saúde. A bem da saúde conspurca-se a atmosfera e poluem-se os rios. O «tabaco mata» lê-se na embalagem. Parece que mata devagar, o que não faz mal porque o cliente não é apressado. A minha «câmara» aumentou o preço da água, de potabilidade duvidosa, aí uns quinhentos por cento ou mais. Tal faz um mal à saúde e ao porta-moedas que nem queiram saber, mas a municipalidade não se importa.
Tudo acontece, sobretudo o impensável. Deve-se estar preparado para tudo. de preferência contra os espertos e fazer o que o Barbas manda: perdoar as ofensas, aceitar a tragédia e outras bençãos do céu. Olhar o marmoto todos os anos e vomitar quando não se aguenta tanto.
Se Soares dança com peixeiras é porque gosta de peixeirada. Já se sabia...
Eu já devia saber que não sabia. Acho que foi um sábio que assumiu: «sei que nada sei», como tinha de ser um poeta a saber «sei que não vou por aí». Eu saí pela porta fora quando, distraído, a olhar a televisão, esbarrei com a publicidade a uma merda qualquer com o hino nacional em fundo! Não era reclame a farturas de papar, nem a papel higiénico, nem a cuequinha
para rabos bonitos. Uma maneira manhosa de tentar passar a ideia de que a PT é do caraças!
Sempre entendi a pub como uma matreirice, uma forma evidente de vender gato por lebre, de
enganar o próximo, mas com limites. É verdade que o problema não está na pub, está no entendimento de que tem das coisas sérias, que se calhar nem são tão sérias como isso. Nem sei se o Hino Nacional faz parte da Constituição ou não passa de mero sucedâneo de fado corrido.
O pior lixo deve ser o que temos na cabeça, por dentro, porra, os piolhos não são para aqui chamados. Que se lixe o Hino. Viva a PT. Morra o Dantas, morra!

terça-feira, dezembro 27, 2005

A Loira Virou Speacker da Rua 48

No dia seguinte ao do Natal, a Loira da Rua 48 saiu de casa com um escadote numa mão e na outra um megafone. Escolheu um sítio bem alto da rua, subiu o escadote.

À sua volta já estava parte dos habitantes da 48. Pela primeira vez, o velhinho que aparece rua acima rua abaixo, a passear um cão com ar enfesado deixou o animal em casa e os olhos brilhavam-lhe de contentamento. "Que mais iria fazer aquela loira...? - interrogava-se ele e todos os demais.

O pássaro prisioneiro ralhou porque a família lá de casa se tinha esquecido de lhe dar comida e ele se recusava a comer a que estava no chão.

O chinês da loja do chinês cometeu um pecado mortal e saiu do estabelecimento. Aquela loira - que sempre ralhava com ele e lhe imitava o linguajar - fascinava-o.

Em volta do escadote ia crescendo a multidão: a velhinha franzina e linguaruda lembrou-se que aquele megafone talvez lhe servisse para, finalmente, dizer a toda a gente o que pensa da nora.

O marido que estava à janela a fumar, veio a correr escadas abaixo e, assim que viu a mulher, já entre os espectadores, deitou o cigarro fora.

Aos tropeções chegou a senhora alta e um pouco disforme que sempre chega a casa de taxi. Tinha um ar meio alheado, de quem não sabe bem onde está.

E até aquela velhinha simpática que todos os dias desce a rua carregada de sacos com comida e depois, a custo, arrastando uma perna, volta a subir para casa, se aproximou, meio assustada.

Ouviu-se então a voz da loira, amplificada pelo megafone:

- "Fiquem a saber que, a partir de hoje, esta rua tem uma speaker, tal como em Londres, onde toda a gente pode dizer o que quiser - desde que tenha alguma coisa para dizer - aqui estou eu para vos falar de vocês... sim de vocês e daquilo que vos acontece".

Pequeno murmúrio entre os circunstantes...

- " Olhai uns para os outros.... assim, de frente, olhos nos olhos. Há quantos anos vivem juntos, paredes meias ? Há quantos anos se cruzam todos os dias uns com os outros?.. Acham que se conhecem?

Uns quantos abanaram a cabeça, que sim, outros ficaram atentos, para ouvir mais e nem sequer olharam para o lado.

- "Então se se conhecem porque não conseguem fazer desta rua um sítio onde se possa viver em paz, em harmonia, com todos a ajudarem-se uns aos outros. Se se conhecem, porque não conseguem convencer o presidente da junta a arranjar espaços de convívio, onde os mais velhos possam estar com os mais novos e as crianças aprendam com todos, incluindo umas com as outras?"

Quem é o presidente da junta ? - perguntou alguém.

- "Estão a ver?... nem sabem quem é o presidente da junta, mas, seguramente foram votar nas últimas eleições que o elegeram.. Votam...votam, mas nunca sabem o que estão a fazer. Aposto que nas próximas eleições para presidente não conseguem libertar-se do que as televisões vos impingem... "

Alto lá!... disse uma mulher que se aproximou do escadote.

- "Alto lá o quê?" - interrogou a Loira da Rua 48 - "Para falar, primeiro tem que fazer as raízes e, depois, comprar um escadote e um megafone. Isto aqui não tem vox populi. A speaker sou eu e acabou-se. Portem-se bem, deixem de olhar uns para os outros como se estivessem num campo de batalha. Olhem para as minhas filhas, como estão lindas, maravilhosas...simplesmente porque são bem tratadas..."

Como não podia deixar de ser, começou o concerto de buzinas dos automobilistas bloqueados pelo discurso da speaker. A seguir, ouviram-se as sirenes da polícia. Estava instalado o pandemónio.

- "Estão a ver?...estão a ver?... a polícia só aparece para nos desmobilizar e proteger os automóveis que tomaram conta de tudo. Quando é que vocês despertam, bando de carneiros...?

Foi a debandada.

- "Oh! sr. agente, faça-me um favor: segure-me aqui no megafone para eu descer do escadote... e já agora, se não se importa, leve-me o escadote até ali a minha casa, porque eu tenho que tomar conta das minhas filhas. Com tanto automóvel aqui, nunca se sabe o que pode acontecer..."

O polícia ficou meio surpreendido, sem saber o que fazer ou dizer, mas agarrou o escadote... " Que loira!- foi pensando..."

"- Marilú, Francisa, vamos, minhas filhas..."

E lá foi a família, com o polícia atrás, carregando o escadote e o megafone.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

"Post it"

Post It para a última folha do telejornal de hoje, dia 26 de Dezembro, lido pelo director de informação do canal público de televisão de Portugal (RTP), José Alberto Carvalho:

" Não te sentes envergonhado pelo Telejornal que acabas de servir à mesa dos portugueses, um dia depois de um Natal aparentemente tranquilo? Não te sentes mal por recuperar tanta tragédia que não tem culpados, quando nos corredores por onde transitas, com ar de homem importante, se passeiam displicentemente, como senhores do mundo - do teu próprio mundo - os autores das verdadeiras desgraças que atinjem as pessoas que entretiveste com a repetição exaustiva de imagens de uma catástrofe natural inominável e - esperemos - irrepetível?"
A tua especialidade é a desgraça, a miséria, a fome, o desordenamento? Então, como director de informação, exije ao teu PCA que pague para mostrares as misérias de que ele e os amigos dele são responsáveis. Hoje fizeste um telejornal com imagens já pagas. Ele riu e tu foste contente para casa. Espero que o jantar não tenha marisco".

domingo, dezembro 25, 2005

As Estatísticas da GNR

Já o ano passado fiz aqui alguns reparos ao modo como são apresentados os números das operações Natal e outras similares, por parte da GNR, relativas ao trânsito. E nada muda, nem mesmo o barrete idiota que um oficial da corporação usa durante "o boneco" que todas as televisões querem para darem credibilidade aos disparates que entretanto vão dizendo.
Quando a GNR tutela uma afirmação, segundo a qual este ano houve não sei quantos mais mortos e desastres do que no ano passado, em igual período, está a comparar o imcomparável. O período de tempo não conta nada para esta informação, porque se desconhecem dois elementos fundamentais: o número de veículos que circulou num e noutro ano e a sinistralidade média de iguais períodos de tempo em épocas sem festividades.
Como complemento da informação faltam, igualmente, as condições climatéricas de um e de outro ano e as quantidades de combustível gasto.
Se a GNR e as televisões querem assustar a população com números de mortos, acidentes e outras coisas, então façam-no de um modo correcto. O que fazem actualmente e nós todos temos de aturar, é uma verdadeira palhaçada.

A Mudança dos Tempos

É interessante verificar o modo como a vida à nossa volta vai mudando. Há uns anos - não sei quantos, nem é isso que interessa - as revistas chamadas de sociedade incluiam reportagens sobre a vida das figuras gradas das diversas comunidades: banqueiros, grandes comerciantes, industriais, políticos...
Com o andar dos tempos, os banqueiros, os grandes industriais e os grandes comerciantes foram desaparecendo das páginas das já denominadas revistas "cor-de-rosa". Ficaram os políticos, para pagar os escândalos, os artistas porque esse é o seu modo de vida e desapareceram os donos do capital.
Hoje ninguém sabe como é que eles vivem, mesmo os que, tendo sido toda a vida funcionários públicos e se transformaram, por obra e graça do espírito santo, em gente rica, com aspirações a ligações de tipo "sangue azul". O segredo é a alma do negócio e as revistas de sociedade, "cor-de-rosa", ou o que quer que sejam, vivem de gente que não é nada do ponto de vista social e de notícia. Existem porque estão permanentemente dispostas a ser notícia...
Todavia, esta semana alguma coisa surpreendente aconteceu. Depois que as notícias começaram a falar de uma mega fraude que engloba vários grupos bancários e os rumores foram ao ponto de esclarecer que um dos grupos envolvidos tem grandes somas de dinheiro em cofres distribuídos pelos seus funcionários - sem que estes tenham acesso aos respectivos segredos...
....Imaginem, o dr. Ricardo Salgado apareceu em reportagens de revistas cor-de-rosa a acariciar crianças e outras coisas do género.
O tempo está a voltar para trás. Esperemos que a Judite não fique especada a olhar.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

VIDAS EM DIRECTO

De vez em quando aparece alguém a descobrir a pólvora. Um jovem advogado está a causar sensação e alarme pela Europa pela iniciativa que tomou de abrir processo contra canais de televisão que promoveram os tais realties show. Não tanto pela exploração de ingenuidades, de falsos realismos ou de qualidade de produção. O que está a levar alguns canais de tv ao tribunal, de onde estão a sair altamente penalizados, são meras relações de trabalho. As acusações têm provado que os programas televisivos não assinaram contratos de trabalho com os chamados concorrentes. Os contratos firmados com os concorrentes eram tudo menos documentos legais e incluiam diversas clausulas secretas ilegais, que sublinhavam a exploração criminosa de mão de obra.
A informação televisiva foi ignorando o facto como notícia. Mas as queixas e as condenações foram-se repetindo. E aumentam de dia para dia. E à medida que as setenças vão sendo conhecidas, aumentam as queixas. Há indicações que apontam para milhares de processos a caminho dos tribunais.Por cá, nem os jornais, me parece, deram eco. Mas vão dar, por certo, um dia destes, quando já não for possível fazer ouvidos de mercador ou quando queixas venham a ser formuladas. Em todo o caso é para já uma chamada de atenção aos organismos laborais. No fim de contas não são só os chineses a explorar a mão de obra; há por aí muitas quintas a violentar a saloiada e a privar o Iva do que eventualmente lhe pertença!

domingo, dezembro 18, 2005

As Filhas da Loira da Rua 48

A Rua 48 está sempre à espreita. Uns e umas por detrás das cortinas, outros, de janela aberta, a mulher proibe de fumar dentro de casa, por isso há que poluir a Rua 48. E aproveitam para ver quem passa, quem chega. Vão contando estórias sabidas . Quando não sabem, inventam. Quando pára um taxi os voyeus ficam à espera de ver sair uma senhora a cambalear e lá voltam a contar os trambolhões de outros tempos.
Sobem e descem a rua sem se olharem, como se não se conhecessem, mas fazem pequenas reuniões sociais nas escadas dos prédios, comentando os últimos acontecimentos.
Ontem, de manhã, pequenos grupos foram saindo aos poucos dos prédios, portas escancaradas, bocas abertas. A Loira da Rua 48 saía de casa com duas lindas crianças (loiras) pela mão. Vistosas, sorridentes.
- Esta é a Marilú - e apontava para a da mão direita.
- E esta é a Francisquinha - a da esquerda
Explicava ela à rua. Já toda a gente se aproximava para tentar perceber como é que tal tinha aocontecido... a Loira da Rua 48, mãe, se nunca ninguém a tinha visto, ao menos, inchada?...
- São minhas filhas, adoptivas. Lindas...não são? - perguntava sem esperar resposta
- A partir de agora, não quero caixotes de lixo a impedir a passagem das crianças nos passeios, nem carros mal estacionados. A partir de hoje, todos os dias vou dizer ao presidente da Junta que quero espaços livres para as crianças poderem brincar na Rua.
Ninguém dizia nada. Que acontecimento!!! De facto, aquela Rua devia fazer parte do filme do Ricardo.
Mas o discurso ainda não tinha terminado.
- A partir de hoje não quero ouvir mais barulho depois das dez da noite - é assim que a lei manda.
A Marilú e a Francisquinha olhavam para a sua mãe com enormes sorrisos, de olhos brilhantes. Há tanto tempo que esperavam uma mãe assim...
- Vamos, minhas filhas, agora que a Rua vai entrar na ordem, vamos redefinir as leis de utilização dos transportes..
Toda a Rua foi atrás da Loira e de suas filhas.
Na paragem, as amigas ficaram a olhar para o cortejo. Festejaram exuberantmente a Marilú e a Francisca.
Chegou o autocarro e o motorista parou a medo. "...O que seria aquilo...tanta gente...uma manifestação de protesto por causa da carroça?..."
A Loira da Rua 48, mais as suas filhas, foram as primeiras a entrar. E o motorista ouviu, petrificado, a sentença:
- A partir de hoje, neste autocarro, quem vier acompanhado de crianças, tem direito a lugar sentado e e não paga título de transporte. Isto é apenas a adaptação de uma lei que vigora na Suécia desde os anos 60. Foi de lá que vieram as minhas filhas... vá... vá... ponha a carroça a andar, ou quer que eu grite?
O pessoal da Rua, que tinha acompanhado a nova família, irrompeu numa salva de palmas. E até o pássaro que permanece na gaiola e só fala asneiras, gritou do alto do seu poleiro: "Viva a Loira da Rua 48". O dono não gostou nada e ameaçou-o de não voltar a dar-lhe comida enquanto ele não comer a que está no chão. Ouviu das boas, irrepetíveis num blogue honrado. Até ficou a saber que o pássaro sabe que ele anda a pintar o cabelo às quatro da manhã...
"Ora, até que enfim aparece alguém com capacidade de mando nesta Rua" - disse o senhor alto e bem vestido e que à tarde traz consigo sempre um saco de plástico de marca sonante.
"Podemos criar aqui um espaço livre de exploração...livre da imprensa capitalista... livre de armas nucleares..."- entusiasmou-se o senhor da garagem.
"Mau!..." ouviu-se uma voz entre dentes dizer.
"Querem lá ver que ainda vamos ter um PREC exclusivo da Rua 48..." - disse outra voz desconhecida.
E, de repente o grupo desfez-se. Voltaram às suas reuniões privadas, nas escadas do prédio.
No autocarro a viagem prosseguia animadíssima. Toda a gente, finalmente, discutia alguma coisa e abandonava aquele ar de cordeiro a caminho do sacrifício. De facto, as crianças deviam determinar regras.
A discussão foi-se prolongando durante todo o dia naquela linha, porque à medida que iam entrando passageiros, assim que tomavam conhecimento do tema entusiasmavam-se e contribuiam com achegas importantes... até que o motorista, quase aterrorizado, telefonou para o chefe, que mandou colocar na indicação do destino a palavra "reservado". A carroça voltou à garagem e o Conselho de Administração da empresa de transportes reuniu de emergência, porque a cidade toda clamava por novas regras na utilização dos transportes públicos.
Conta-se à boca pequena que mandaram uma delegação falar com a Loira da Rua 48 para lhe oferecer um carro, ao que ela respondeu: "nunca na minha vida terei um monte de lata desses...um instrumento de poluição, uma arma perigosíssima".
PS. - Um dia destes voltarei com outro episódio, este já vai muito longo...

sábado, dezembro 17, 2005

O "Desenterrado"

Confesso que tenho andado a evitar o tema. A vida não me permite assistir a todos os debates, acompanhar toda a intriga da rádio e da imprensa e sinto-me, por isso, fora da questão.
Todavia, alguma coisa do que tenho ouvido, lido e ouvido tem-me perturbado.
Dantes falava-se do quarto poder para referir a comunicação social ( havia mesmo quem falasse do poder do quarto).
O que me parece é que o quarto já cumpriu o papel e agora a comunicação social é "O PODER".
E nós aceitamos.
Mais grave do que isso, os candidatos à Presidêncida República - todos eles - aceitam.
Tenho no meu curriculum a realização de um primeiro debate - na Rádio, TSF - em que o moderador só deu a partida. Acho que este debate marcou o próprio arrannque da TSF, então um projecto generoso de Rádio a que alguns "papalvos" como eu correspondiam não cobrando colaborações... Enfim, águas passadas.
Lembro-me disto por causa dos debates (parte deles) a que tenho assistido de candidatos muito certinhos, sujeitos às regras de 2 (dois) "jornalistas" (sei do que falo quando escrevo aspas)...
Este país (esta Pátria) já não tem ninguém capaz de entender que as regras foram feitas também para quebrar?
Vamos continuar a assistir ao passeio do "desenterrado" ?

sexta-feira, dezembro 16, 2005

AVISAR A MALTA

Talvez não fosse conveniente. Mas isto dos jornais pespegarem em letra de forma que a Polícia sabe quem foram os assaltantes que mataram um chefe da PSP, onde é que se refugiaram, que uma câmara os captou, que devem estar algures aqui ou acolá, devem ter origem em informações prestadas por quem, se calhar, não devia prestar e que provavelmente não presta para estar onde está.
Também é estranho que preste para alguma coisa alguém que achou por bem dispensar da cadeia alguém que estava a ser procurado pelas autoridades espanholas. O felizardo aproveitou a mercê para um pequeno assalto à mão bem armada, com o resultado deplorável que se conhece! Há semanas haviam sido dois assassinos, já condenados, que foram libertados à pressa, para não incomodar os criminosos, que não têm culpa da lei ser lei e os juizos lentos e, pelos vistos, irresponsabilizáveis.
Dantes, quando isto era mais arrumado, o início da investigação assentava no primado: a quem aproveita o crime? Logo que se percebia, até o aproveitador percebia que estava lixado. Nos dias de hoje as coisas são aparentemente diferentes: quem não aproveita é parvo. A sociedade evoluiu: cada vez há mais crimes e menos parvos. A Justiça parece ter aderido à solução capitalista: despedir para reinar. Despedem-se os presos e desse modo diminui-se a despesa e aumenta-se a receita. É o princípio activo do nada se perde, tudo se transforma. No fim de contas talvez a Casa Pia, com o rumo que as coisas levam, acabe por transformar-se num moderno e inovador Instituro de Iniciação Sexual...

sexta-feira, dezembro 09, 2005

A Loira na Loja do Chinês da Rua 48

É uma loja apertada. Não chega a perceber-se se o espaço é grande ou pequeno. Só se veêm mercadorias. Penduradas, expostas em mesas pequenas,espalhadas a esmo, mesmo pelo chão; apitos dourados, ao lado de cachecóis de chachemira, chaleiras misturadas com soutiens. Cuecas por aqui e por ali. Com rendas, de gola alta, de tudo.
Por detrás de toda aquela confusão está a família do chinês e o chinês plópiamente dito.
A Loira da Rua 48 entrou na loja do chinês e foi afastando a mercadoria para tentar descortinar entre toda aquela quincalharia, um chapéu de chuva. Tinha sido surpreendida por uma chuva não anunciada pelos serviços de meteorogia, a caminho do autocarro. As amigas já a esperavam impacientes...
O chinês, meio escondido por detrás de um roupão cheio de figuras assustadoras, dragões que deitam fogo, olhava com curiosidade aquela figura exuberante, cabelos loiros, compridos, a cairem sobre os ombros, óculos escuros e um jeito desafiador.
O chinês estava a atender uma senhora de alguma idade, que lhe contava os seus próprios achaques para o tentar convencer a vender-lhe um chá que lhe curasse a prisão de ventre e ajudasse a aliviar as dores provocadas pelos bicos de papagaio.
No momento em que a loira entrou, a senhora, pequenina e franzina, insisitia que ele - o chinês - também podia vender comida para os gatos e para os pássaros. Para os cães não, porque engordavam muito.
A loira da Rua 48 ia sorrindo a ouvir a conversa, que o chinês já não ouvia. Só olhava a Loira. Veio a mulher do chinês e mais dois filhos e até aquela miúda mais pequenina, que parecia uma boneca para venda, se levantou e veio a correr a olhar aquela senhora que mexia em tudo.
Finalmente encontrou um chapéu de chuva. Abriu-o, voltou a olhar e atirou-o para o lado - não dava com o casaco verde que levava naquela manhã para o autocarro chamado desespero.
Deu mais umas voltas e não sei quantos pares de olhos seguiam-lhes os movimentos. Apenas a velhota continuava a falar: que a nora era uma malvada, não comprava comida para o gato e não deixava a filha sair à noite e até a obrigava a fazer a cama. A Loira gargalhou. Não pelo que a senhora velha tinha dito, mas porque, finalmente tinha encontrado o guarda-chuva da cor certa: verde musgo, verde-tropa, verde, verde...
O chinês aproximou-se, a medo e disse: "chinês não tloca..."
E a loira da Rua 48 respondeu: "...chinês tloca senão não complo!
"...chinês tloca..."
Com a cabeça loira protegida pelo verde musgo do seu novo guarda-chuva foi ter com as amigas.
"...Encontrei na loja do chinês uma velha chata só a falar de cães e gatos...eu acho que conheço aquela cara e aquela conversa, mas há muito tempo que a não via nem ouvia..."
"E que nos interessa isso?" - perguntou a vizinha.
"Que foste fazer ao chinês?"- acrescentou a brasileira. " Não se consegue comprar lá nada... é uma confusão..."
"Vocês é que são umas atadas. Olhem para o meu guarda-chuva novo. Verde. Verde musgo, verde-tropa, verde pila-jovem, porque é verde..."
O autocarro estava a chegar. Vinha a abarrotar e a vizinha começou logo a protestar: " vamos outra vez ser prensadas..."
O motorista sorriu, mas nenhuma delas o cumprimentou. Ninguém está interessado na amizade de um tipo que conduz uma carroça daquelas.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

FORMITROL,FORMITROL, FORMITROL

Para o mal cujo motivo está na chuva frio ou Sol, qual o melhor preventivo?
Formitrol, formitrol, formitrol. Não sei, confesso, se o formitrol era ou não do caraças, mas era o pub do meu tempo de menino. No meu tempo de menino o sr. Alfredo dava o relato do jogo da bola às sete e cinco. O que dava tempo ao meu pai de me arrastar até ao eléctrico, me despejar nos Restauradores, me arrastar até ao Leão D'Ouro, mastigar umas ameijoas e provar a cerveja.
A subir o Chiado já se podia comprar a segunda edição dos vespertinos, que traziam os resultados da bola.
Algumas vezes escutavamos envecidos o relato do jogo que tinhamos vistos à tarde. O resumo da primeira e o relato da segunda parte, por Alfredo Quádrios Raposo! Havia outro: Domingos Lança Moreira, no RCP. Mas era menos frequente e talvez fosse menos trapalhão e, talvez por isso, tivesse menos audiência!
O meu pai umas vezes gostava do senhor Alfredo, outras não gostava, dependia do árbitro. Eu gostava mais de ir às Salésias, porque à saída ia-se aos pasteis de Belém.
Hoje fui à SIC e foi como ir à merda. Ia ver um poeta e um economista e queriam que eu passasse horas a ver a merda a que eles chamam publicidade. Os patetas dos candidatos discutiram tudo menos o lado feio: serem vendidos como mercadoria de consumo semestral.
Prefira o candidato das gravatas luzidias; escolha o das botas grossas. Encafuaram os candidatos no meio da pub e tiveram o cuidado de mostrar que o importante era a pub. É para isso que serve a TV, para promover os laxativos, quaisquer que sejam. O Estado podia fingir que leva isto das eleições a sério. Talvez nem valha a pena. Deu para ver que o poeta é um fingidor e que um economista não sabe sonhar.
É uma pena o senhor Alfredo não ser candidato e o senhor Domingos não ser poeta!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

ABAIXO DE TUDO

Ainda há dias me insurgi contra a forma displicente como a magistratura encara os devaneios da justiça e as trapalhadas que saiem dos tribunais. Achei excessivo que dois condenados por crime de homicídio a penas superiores a 20 anos tivessem sido libertados devido a irresponsabilidade do tribunal de recurso.
Hoje vi a manchete de um matutino de Lisboa a salientar que apenas meia dúzia, entre quase centena e meia de juizos cíveis em Portugal «são considerados eficientes». Não faço ideia se o sr. Cavaco ou o sr. Soares vão perder algum tempo a comentar isto, nem espero que o sr. ministro do pelouro perca tempo com isto. Mas li pior numa das páginas do jornal. Um processo por assédio, com violência e ameaças de morte, já com cinco anos de instrução, foi deitado no caixote do lixo. A explicação «é de que foi por engano e por uma brasileira, que trabalha para uma empresa que faz limpeza no tribunal». O processo estaria perto do caixote do lixo e a expedita limpadeira despejou-o no caixote e ala com ele, que se faz tarde. Creio que a cuja dita do Brasil teria toda a razão para ser asseada, «aquilo» ou era lixo ou porcaria e com cinco anos de pó até devia cheirar mal. O problema de resto parece ser esse: os tribunais, palácios de justiça e similares estão repletos de excelências excelentissimas a fazer o que faziam dantes os burros na nora: andar à roda, à roda, sempre as voltas, sem sair do mesmo sítio. Mas, ao menos esses, traziam a água à tona. Na Justiça, não, quase nada aparece à tona e nem já o «apito dourado» se consegue ouvir. Atafulha-se pelas gavetas e um dia destes vão aparecer à mão de semear para acabarem na chaminé de uma qualquer cimenteira...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A Loira da Rua 48- II

"... A senhora devia ir pintar as raízes...está a perceber? Pintar as raízes!!!
No autocarro, a abarrotar de corpos adiposos e habituados a uma certa larguesa, toda a gente virou a cabeça para o lado donde vinha aquela voz, aparentemente zangada, mas, no fundo, com um ligeiro tom de imitação do Herman louro.
"... e sabe que mais?... não vou perder tempo consigo...Vá...vá pintar as raízes..."
Mesmo o motorista do autocarro tentou saber, olhando pelo retrovisor, o que se passava. " Só podia ser ela, aquela loira que reclama sempre lugar sentado e espaço para se movimentar. Ela e a outra, a vizinha. Falam uma com a outra, riem-se e parece que estão a gozar com toda a gente. Agora está a dizer áquela desgraçada que devia ir pintar as raízes. As raízes do cabelo, claro...de facto, a senhora devia ter mais cuidado...aquilo está com um aspecto... benza-a Deus..." - Assim pensava o motorista, enquanto olhava de esguelha para os passes que lhe iam mostrando.
Todavia, ninguém se atrevia a dizer como a loira: " com direito a ar condicionado e a lugar sentado, porque pago adiantado". Lá voltava ele a pensar na loira.
Lá atrás a conversa estava acesa entre a Loira da Rua 48 e a vizinha da frente, cujo marido protesta sempre contra tudo e todos. Até com o Bush se mete. Se um dia a CIA o descobre, fica ele sem direito de acesso à garagem e até corre o risco de ir para Cuba, isto é, para Guantanamo.
"... Então não quer saber?...tive um pesadelo esta noite... um horror...eu morava no bairro da Penitenciária, aquele ali por detrás, está a ver? e só tinha vizinhos pirosos... até o João Pinto e a Maria Cruz, imagine...lembrei-me agora porque a velhota das raízes ao léu me sugeriu uma projecção da mulher do João Pinto... Imagine..."
A vizinha, senhora recatada e pouco habituada a conversas públicas no autocarro, sufocava o riso e olhava em redor a tentar perceber as reacções do pessoal.
Muitos ainda dormiam, outros tinham cara de quem não tinha comido o pequeno almoço e ia gastar, na pastelaria ao lado do emprego, uma percentagem razoável do dinheiro que iriam ganhar em, pelo menos oito horas de trabalho, isto se o patrão não os obrigasse a mais duas ou três, ou mesmo quatro extra, sem remuneração ameaçando com um despedimento possível, para reestruturação da empresa.
E a loira continua a contar o "pesadelo":..." ora, a vizinha não quer saber, aqueles safardanas todos, divirtiam-se a sério, tinham salas de jogos, horas para o sol, onde trabalhavam para o bronze, cuidavam dos cabelos uns dos outros... todos os dias! O trabalhão! e, seguramente, ainda recebem algum no final do mês...é ou não um verdadeiro pesadelo?
A vizinha continuava a sufocar o riso.
Ao lado, uma brasileira de ar ligeiro, ficou interessada na conversa: "... me conta, vai...eu posso entrar nesse jogo...? Sabe, cara, tou mêmo precisada de ganhar uma nota... me conta..."
Chegou a paragem da loira. Enquanto calcava forte o chão do autocarro em direcção à saída toda a gente a olhava. Alguns com alguma admiração, outros com raiva. Como se atrevia aquela mulher, loira e bonita, confrontá-los com a sua própria impotência, que em alguns casos se transformava em gaguês?
A brasileira ainda pediu: "me liga, vai... quero saber desse jogo".
A loira riu e acenou que sim: "eu te ligo..."

Um Ano Já passou

De repente, reparo que há um ano que ando nestas andanças. Este blogue foi criado a 29 de Novembro de 2004. Talvez fosse tempo de um pequeno balanço, mas não o farei. Teria, primeiro que "fechar", além de que os balanços cheiram sempre a fim e não é o caso. Eu e o Rafael Soares aqui estaremos a alimentar o "papel" em branco e a vencer a respectiva angústia. O Henrique há-de regressar, quando acabar a sua obra prima, que lhe ocupa todas as horas de todos os dias, excepto aquelas em que, com "grande trabalho" se põe a ouvir ópera.
Todavia, não resisto a republicar aqui, hoje, dois dias depois do primeiro aniversário do Toupeira aqueles que foram os seus dois primeiros dias:

Tuesday, November 30, 2004

Faltou o buzinão

Esta noite, ao fim da tarde, fiquei atento, à espera de ouvir as buzinas, de presenciar da minha janela a confusão de muitos automóveis na rua, com toda a gente a acenar uns aos outros e a rir, assim como quando, depois de 18 anos, o Sporting ganhou o campeonato. Ou melhor, como quando toda a gente, há trinta anos, saiu à Rua para se encontrar a si mesma e descobrir-se nos olhos de todos os outros. Mas não, não houve buzinão, nem alegria na rua, nem cumprimentos sorridentes. Toda a gente ficou em casa a confraternizar com as suas esperanças. Um dos meus amigos, a quem telefonei, todavia, tinha saído. A mulher dele, minha amiga também, disse-me que lhe parecia que ele teria ido a correr, para votar.
posted by M.Pedrosa at 10:13 PM 0 comments

O Estado atira a Nação para o lixo

O primeiro-ministro cabo-verdiano, dr. José Maria Neves está em Lisboa. Ter-se-á encontrado com o ainda primeiro-ministro dr. Santana Lopes e com o presidente da República dr. Jorge Sampaio.A agenda da visita era, do lado cabo-verdiano, importante, não apenas por razões de negociação bilateral com Portugal, um dos principais parceiros do estado-arquipelago, mas também porque o principal responsável pelo governo da Praia, trouxe a Lisboa a sua preocupação de obter da parte da União Europeia um estatuto privilegiado, que lhe permita ultrapassar a sua actual e principal dificuldade com a comunidade internacional: é que o facto de ter crescido de modo a ultrapassar a definição de país subdesenvolvido implica o fim, em alguns casos, e a redução, noutros, da ajuda externa.Alguém viu, ouviu ou leu alguma coisa a respeito desta questão?Alguém já percebeu que política segue o actual governo relativamente aos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente os africanos?Alguém já vislumbrou, neste e nos anteriores governos, uma preocupação real com a salvaguarda dos valores culturais portugueses espalhados pelas sete partidas do Mundo, que fazem de Portugal uma das maiores Nações do Mundo?Relativamente a esta Nação, que medrou entre mares, florestas e desertos, graças ao espírito inconformado de alguns portugueses, o Estado, com sede no Terreiro do Paço, sempre foi ignorante, pequenino e invejoso. O Palácio das Necessidades vai fechando, por esse Mundo fora, algumas portas que ainda se podiam abrir aos portugueses de primeira, segunda e, talvez, terceira geração. O mesmo palácio, com a sua estrutura ainda napoleónica, vai olhando para as novas nações, nascidas do esforço de antigos portugueses, com um olhar de superioridade balofa e não é capaz, sequer, de influenciar a central de comunicação do todo poderoso Morais Sarmento para explicar as razões de uma visita de estado de um" país irmão", a quem se estendem os braços sem nunca os apertar.Acredito, todavia, que o Palácio das Necessidades esteja atento às imagens televisivas que reportaram a recente cimeira francófona, onde, em lugar de destaque estavam sentados os presidentes das Repúblicas de Cabo Verde e de S.Tomé e Príncipe.Acredito, igualmente, que tenha arquivo das imagens de Joaquim Chissano nas cimeiras da Commonwealth e das suas afirmações, de há uns tempos atrás, sobre a importância da língua inglesa em Moçambique.Desejo ardentemente que estes hipotéticos arquivos não existam apenas para, um dia destes, se atirarem mais umas pedras aquelas comunidades que terão de desenhar estratégias de desenvolvimento que fujam ao nosso convívio, tal como os nossos emigrantes, que preferem falar as línguas de adopção, mesmo com os filhos, do que sofrer a vergonha de serem tutelados por tal Estado - que não sabe, sequer, a Nação que abarca.
posted by M.Pedrosa at 3:36 PM 0 comments
Monday, November 29, 2004

As Perguntas

Já não são necessárias muitas considerações sobre a importância da chamada comunicação social na vida das comunidades. Em Portugal, essa importância ultrapassa os limites. Basta constatar a promiscuidade obscena que existe entre os títulos dos jornais diários, nas aberturas dos jornais das rádios e das televisões, para perceber que a comunidade informativa se controla de forma obsessiva. Uma obsessão que evidencia, pelo menos, medo. Medo de quê? Seguramente de ser considerado desenquadrado, de" estar fora do Mundo", de ser chamado à atenção pelo "chefe", pelo "patrão", pelo"dono". Porque será que todos os dias as notícias são as mesmas em todos os órgãos de comunicação social ?Estaremos perante uma operação de "intoxicação social"?E, por falar em promiscuidade: como é possível admitir que ex-jornalistas, promovidos à condição de administradores de empresas proprietárias de órgãos de comunicaçlão social,( refiro-me ao presidente e vice-presidente da Lusomundo, Luís Delgado e Mário Rezendes) continuem a emitir opinião como se nada tivesse acontecido com eles. Será que a condição de comentadores de política que ostentam na SIC Notícias faz parte do contrato que liga aquele canal à PTMultimédia, sua accionista-pagante ao mesmo tempo que é accionista maioritária da Lusomundo?
posted by M.Pedrosa at 5:00 PM 0 comments

AS RAZÕES

A partir de agora, de vez em quando, eu e - espero - mais alguns amigos, vamos divulgar a nossa "verdade", juntando-a a de tantos milhares de outras, contribuindo para a demonstração de que no Mundo já não cabe apenas uma verdade e que os chamados donos dela já andam a falar no deserto. Inicio este blogue com o mesmo entusiasmo com que - imagino - se começa um livro, um jornal, uma estação de rádio ou de televisão. Todavia, ele é um entusiasmo sem ansiedades, já que do outro lado do que escrevo estou apenas eu. Já nem caibo na anedota do autor admirado por ter encontrado o seu único leitor. Sou apenas uma voz cansada de não ter representação. Veremos se sou capaz de ser honesto comigo mesmo e representar-me perante este ecran colocado tranquilamente à minha frente.
M.Pedrosa
posted by M.Pedrosa at 4:14 PM 0 comments

ESTIMO AS MELHORAS

Estimo, sim senhor, de quem estiver doente. Desde pequeno que fui fazendo o circuito dos hospitais, visitando familiares, amigos e conhecidos. Recordo-me por vezes de uma prima, da minha idade, que fui ver ao hospital de S.José. Éramos miúdos e frequentavamos a escola primária. Chamava-se Caudete. Fui vê-la algumas vezes. Dantes passava-se muito tempo acamado, em enfermarias imensas, cheias de camas, alinhadas, contra as paredes, e algumas filas no centro. Deixei de ir, quando ela morreu. Mas vi muita gente que curou as maleitas.
Já sexagenário avançado é que me coube, a mim, ser o visitado. Passei três longos dias num hospital privado, fruto do sistema de previdência mais providencial do que o comum. Um dia destes, dei por mim a meditar sobre o que efectivamente foi mudando na assistência hospitalar e nos próprios hospitais. As grandes enfermarias desapareceram e preserva-se melhor a intimidade. O hospital humanizou-se, ainda que tivesse permanecido a dificuldade de acesso. Ao longo dos anos fomo-nos habituando ao drama que era conseguir vaga nos hospitais. Não raro se dava conta do excesso de doentes acamados nos corredores do Banco.
Evoluiu-se. Mas evoluiu-se também noutro sentido. No sentido comercial. Hospitais comuns e hospitais privados. Presumia-se que os segundos viessem aliviar as enormes e demoradas listas
de espera.
Não foi bem isso. Na génese esteve o negócio. Um negócio como outro qualquer. Cuidados médicos imediatos, sim, mas com preços a condizer. Como qualquer negócio acentava na procura. Procura inicialmente elitista. Não estaria em causa a doença, mas o porta-moedas do doente. Mesmo os doente com porta-moedas recheado não gostavam e não gostam de gastar
o taco no hospital e nessa altura gostam mais de exigir direitos de cidadania e preferem o tratamento prestado pelo Estado. Os privados optaram, então, por infiltrar os esquemas ditos sociais, através de seguradoras e associações sócio-profissionais.
Aos hospitais do Estado já não bastava a complexa batalha que é preciso travar continuamente para evitar os abusos dos laboratórios e outros fornecedores. Há, agora, uma nova frente. Os hospitais tradicionais estão a perder doentes. De repente descortina-se que há menos doentes que camas. Num período curto fui três ou quatro vezes as hospitais distintos e tive ocasião de constatar isso mesmo. Muitas camas vagas.
Pressente-se mãozinha dos privados. Pressente-se que presumivelmente as listas de espera não diminuiram, mas a crise talvez afaste doentes dos hospitais privados e seja necessário um estímulo extra. Seja o que for deve ter explicacão e o que tem explicação deve-se explicar.
Talvez o governo pudesse interessar-se mais e melhor pelos assuntos do Estado, ainda assim a melhor maneira de influir nas eleições...

terça-feira, novembro 29, 2005

IDAS E VINDAS

Vão e vêm quando lhes apraz e pelo caminho vão deixando muito da bagagem que levaram. Falo de ministros, de líderes ou presidentes, que não aguentaram a obscuridade da rectaguarda e voltam à boca de cena, plenos de revigorada aptidão. Guterres e Durão Barroso sairam, cada um deles, pelo seu pé. E sairam por falta de condições para governar. A ambos faltou golpe de asa para dar a volta por cima. O golpe de asa que permite o sucesso e garante um lugar na História.
Em 1926, o país estava de rastos, económica e politicamente. Cinquenta anos depois repetia-se o caos. A instabilidade económica e a intolerância política paralizava o mercado de trabalho. Em ambos os casos foi possível dar a volta. No primeiro nem sequer havia democracia, a moda de regime político era outra; no segundo, a democracia foi preservada. E em ambos os casos, embora mais num do que no outro, as personalidades foram e são contestadas. O homem que capturou Gungunhana passou à História como heroi nacional, embora tenha reagido mal e sem sucesso à proclamação da República.
E ministros com sucesso não são lembrados por serem castos e puros, mas justamente por terem sucesso político, com reflexo na economia. Mário Soares foi Presidente da República e teve como primeiro-ministro Cavaco Silva. E Mário começou por oferecer a Cavaco o primeiro governo maioritário. Durante quatro anos Cavaco Silva governou, enfrentando com sobranceria o Parlamento hostil, e sem críticas do Palácio de Belém. Durante esses quatro anos, o Presidente dos portugueses entreteve-se a ajustar contas outros adversários políticos; primeiro entre iguais, como se costuma dizer. Victor Constâncio, que lhe sucedeu como secretário geral do PS, foi o primeiro a pagar a factura e a ficar isolado. Não lhe restou outra saída que bater com a porta, mas fê-lo com estrondo. Sampaio não teve a vida facilitada e também saiu da liderança do PS, mas a Câmara de Lisboa ganha com souplessse ao prof. Martelo, heróico flutuador do Tejo, foi o suficiente para manter o engenheiro no escalão dos notáveis.
A recusa do líder do PSD, Cavaco Silva, em apresentar um candidato a Belém não agradou a Soares. Ele queria uma vitória que reforçasse a sua postura, no segundo mandato, não desejava uma recondução desluzida. Nem que tivesse que o comprar na Feira do Relógio tinha que ter um candidato à sua direita. E lá arranjou um, na dispensa do CDS.
Para um homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, Cavaco iria ter grandes surpresas. Foram quatro anos a esbarrar com «forças de bloqueio». Muitas dúvidas lhe devem ter povoado o sono para se enganar tanto em tão pouco tempo e nas legislativas que iam anteceder as presidenciais optou por deixar a chefia do governo e do partida a Fernando Nogueira.
Claro que Guterres ganhou e por muito. E claro que Cavaco Silva se perfilou. O presidente da Câmara era um homem discreto e se alguém se enganou não foi ele!
Dez anos passados, Cavaco e Soares reaparecem na actualidade. Um já idoso e outro com idade para ter juizo. E panos de fundo, muitos. Alegre inconformado e ofendido. Miguel Cadilhe, que me parece um economista brilhante, foi um ministro eficiente, mas era jovem e exibicionista e os jornais deram cabo dele por causa das habilidades para não pagar cisas, nas frequentes trocas de residência. O austero primeiro-ministro deixou-o cair na primeira oportunidade. E ele comentou:«a solidariadade é como o chapéu de chuva. Só se dá pela falta, quando chove»...
É mais um que não esquece, nem perdoa.
Perdoar não é problema para Almeida Santos, nem escolher entre amigos. Alegre é amigo, sim senhor, mas «estive sempre com Soares, sempre», e Soares sempre esteve com todos, mas quando foi preciso não esteve. Salgado Zenha é uma referência e também devia ser amigo de Almeida Santos. Mas o inverso também é verdade. Quando foi necessário nem Zenha nem Alegre se vergaram. Talvez seja por isso que os notáveis se esfalfam tanto a defender os fracos e oprimidos: os outros são chatos e refilam...

segunda-feira, novembro 28, 2005

A Loira da Rua 48

Hoje , logo pela manhã, a Rua 48 entrou em alvoroço. Uma verdadeira confusão , daquelas que a rua já não presenciava desde o último Verão, quando por lá passou aquele senhor que parece uma senhora e foi grande vedeta numa das televisões cá da terra e é muito vista na Rua 48.
Tal como para ver o senhor/a a descer do carro, todo vermelho e ele com um lenço de seda branca, a passar as mãos pelo cabelo e, ao mesmo tempo, a dizer adeus a uma senhora velhinha que parecia escondida no fundo da viatura... tal como naquele dia glorioso, hoje também as vizinhas, logo pela manhã, pucharam as cortinas para o lado e puseram-se, descaradamente à janela.

A D. Ernestina, ainda sem os dentes e completamente desgrenhada, exibia um roupão às flores, com papagaios pendurados em algumas delas. Estava perfeitamente boqueaberta e fazia sinais para a vizinha da frente, a D. Rosa, junto de quem já estava o sr. Seabra, ainda com meia cara ensaboada e com a gilette na mão.
O sr. Seabra foi obrigado a voltar para a casa de banho, porque a sua esposa, é verdade que queria saber exactamente o que se passava e ainda não tinha entendido a gesticulação da janela da frente, mas já o tinha avisado que andava com prisão de ventre e não queria ninguém ao pé dela nas próximas horas.

E mesmo aquele cavalheiro, sempre impecavelmente vestido e que, ao fim da tarde, quando regressa a casa, traz um saco de plástico daqueles de marcas sonantes, mas cheio das compras da mercearia do princípio da rua, se quedou com um ar interrogador dirigido a toda a gente, parada na Rua 48. Havia, de resto, já um enorme engarrafamento, com buzinas à mistura.

No meio da confusão havia gente que aproveitava para insultar as mãezinhas dos da frente. De repente, saltou de um Corsa um homem com ar patibular e correu para um outro Corsa, mais à frente e começou a berrar com o condutor. Tratava-se de uma cobrança antiga...eles ainda falavam em vinte contos e, pelos vistos, de um tempo em que era dinheiro.

Nem isso desviou a atenção do principal acontecimento desta manhã: a loira da Rua 48 interrogava toda a gente sobre o paradeiro do seu automóvel.

- "Claro, seu imprestável" ... dizia ela ao vizinho do 1º esqº "... o carro devia estar aqui...aqui, junto à minha porta...e tinha lá dentro um chapéu de chuva que me vai fazer imeeensaa falta..."

- "mas..." respondia o sr. Inácio, verdadeiramente aturdido.

Em seu socorro veio a médica do rés do chão: "... a sra. deve estar doente...o melhor...."

- " o melhor o quê, sua atrasada mental, eu quero saber onde está o meu carro..."

???????????

- "... esperem lá, mas eu não tenho carro,o que eu tenho é de ir apanhar o autocarro... O que é que esta gente toda está aqui a fazer? São doidos ou quê?

Nesse entretanto, chegou a polícia por causa do engarrafamento e aproveitou para prender os dos dois "corsas", que já andavam à galheta por causa de dívidas antigas.

A loira da Rua 48 foi protestando:

"- está a ver, senhor guarda, este povo vai impedir-me de apanhar o autocarro a horas... que horror! está cada vez pior , esta rua..."

domingo, novembro 27, 2005

Felipe Gonzalez

A RTP apresentou na última sexta-feira, a horas impróprias, como sempre, uma iniciativa muito meritória: uma conversa com Felipe Gonzalez e Jorge Sampaio, moderada por Judite de Sousa. Os trinta anos de democracia em Portugal e Espanha, a adesão de ambos os países à então CEE, as questões do desenvolvimento ecnómico, dos regimes democráticos, emigração clandestina, relações bilaterais, foram alguns dos temas deste encontro.
Ao escutar Felipe Gonzalez, seguindo-lhe o pensamento claro , percebe-se a razão principal do sucesso espanhol em comparação com Portugal. Os nossos políticos, mesmo os que chegam aos mais altos postos da hierarquia do Estado só dizem vulgaridades, sempre embrulhadas numa linguagem cifrada.
Com Felipe Gonzalez é tudo claro e é possível equacionar os mais graves problemas do nosso tempo.
Foi pena que tal iniciativa fosse apresentada apenas depois de uma série de programas de entretenimento de mau gosto, o que também evidencia o papel menor que a RTP atribui à informação, desde que não tenha sangue e lágrimas.

sábado, novembro 26, 2005

ONDE ESTAR...

... Se o futuro nunca começa onde o passado nem sempre acaba, onde se situar o presente? É um dilema pior que o su doku ou melhor, sei lá. Alegre é um amigo, disse Soares, não há muito. Diria, depois, Soares que Alegre é triste. Alegre não disse de Sócrates mas disse que Sócrates. Sócrates não tem dito que não disse mas tem deixado entender que não disse. O «Público»
disse o que o «DN» não disse, mas vice-versa.
É fácil. Basta entender ao contrário ou, pior ainda, entender às avessas. Melhor é fingir que não se entende o que deveras não se entende, porque o poeta explicou isto melhor justamente porque era poeta. A gaita é que o poeta é um fingidor.
Que fazer? Não fazer? Deixar fazer! Nunca, sobretudo nunca deixar, mesmo que façam. Cuspir!
Isso sim, cuspir, salivar, se o ambiente for mais elevado. E ter fé. Muita fé. Fé no que há-de vir. Fé que acabe, que termine a fé dos outros. Todos. E todos nunca serão demais. Que se lixem os próximos e os quase próximos e de preferência os longínquos!
Corram a ajudar o que não precisa de ajuda e ajudem-no à força e façam-no engolir a verdade. Porque só as verdades devem ser engolidas, porque são verdades, quase sempre indigestas. Mordam o profeta, mordam. Acabem com ele. E paguem aos árbitros, porque eles merecem e não sabem que o sonho, que vai à frente, comanda a vida, se houver vida. E porque carga de água deve haver vida, há-de perguntar o Jerónimo, se cada vez há menos comunas? Mas que raio têm os comunas a ver com isto?- haveria de perguntar uma virgem, se por acaso houvesse alguma aqui à mão, mas parece que cada vez há menos. Restavam os virgens. Restavam, mas o Bibi vai sair e se não o agarram vai ter muita saída...

sexta-feira, novembro 25, 2005

Plano Tecnológico

O Governo apresentou ontem o "Plano Tecnológico", uma das bandeiras eleitorais do PS. Velharias. Nada que não tivesse sido já anunciado. Algumas das "novidades" chegam mesmo a ser anedota, como, por exemplo, o aumento do número de licenciados e doutorados. Os primeiros para, seguramente, aumentarem o número de desempregados com licenciatura. Os segundos para fazerem as malas e engrossar o número dos portugueses altamente qualificados a trabalhar fora do país.
É que o Estado está à espera que os privados aumentem o investimento na formação e os nossos empresários, no fundo, não passam de merceeiros a contar o "apuro" ao fim do dia.
Este plano não passa de uma síntese de tudo quanto se tem dito nos últimos dez anos sobre a matéria e não vai, seguramente, mudar nada. É a velha fatalidade do "ser português".

quinta-feira, novembro 24, 2005

ACIMA DE TUDO

Li a notícia num matutino de segunda-feira e fiquei a ruminar. Nem quis saber da Ota, dos 23 anos que vou levar a pagar, nem com receio que com tanto emprego garantido me ponham a mim a trabalhar. Nem consegui perceber se o Benfica não ganhou ou se não perdeu. Pior que ser do Benfica é perder a fé na Justiça. Se o Benfica perde, um gajo pode dizer mal do árbitro. Mas quando dois presos condenado por crime de homicídio a penas superiores a 20 anos são postos em liberdade por se ter esgotado o prazo de apreciação pelos tribunais superiores, de quem é que um tipo tem direito a dizer mal?
Era um simples trabalhador imigrante, que pernoitava com outros num contentor junto da obra. Foram assaltados por seis meliantes. Recusou entregar os seus objectos pessoais. Foi espancado e morto. A polícia identificou a prendeu os assaltantes, dos quais dois foram condenados por homicídio. A Relação de Lisboa manteve as condenações e, segundo o matutino, não deu provimento aos vários recursos. Mas os arguidos já tinham saído em liberdade.
Não faço ideia se algum ministro leu a notícia, nem sei se o Supremo se incomodou ou se a PGR
se lastimou. Na véspera da notícia do matutino, e já agora adianto que foi o «público», o prof. Martelo tinha feiro alusão ao desvario que ia pela dita pgr com a deslocalização das escutas telefónicas. Pior é que a divulgação das escutas deixou entender alguma cumplicidade comprometedora entre o comum dos políticos e o incomum dos «excelências». Viram alguém incomodado com isso?. Durante uns dias houve por aí gente incomodada e a querer saber se os juizes tinham ou não direito á greve. Tanto me faz que tenham como não. O que eu gostava era de ter a garantia de que eram todos honestos e todos competentes, mas estou em crer que o TGV seria bem vindo para mandar embora mais depressa alguns ilustres homens das leis...

sábado, novembro 19, 2005

Escroquerie

Um jornal diário, considerado como "de referência, ", o Diário de Notícias, publicou hoje na sua primeira página uma notícia, segundo a qual os professores teriam faltado a mais de 7,6 milhões de aulas no anterior ano lectivo.
A mudança de direcção do matutino, pelos vistos, não alterou coisa nenhuma nos métodos...

O número é fabuloso. E escabroso, se considerarmos que a notícia é publicada no dia em que os professores cumpriram um dia de greve em sinal de protesto contra uma série de medidas tomadas pelo Ministério da Educação, que, evidentemente, não favorecem a actividade docente, segundo os professores, afinal os mais entendidos e interessados na matéria.
É curioso que seja o Ministério da Educação, governado pelo Partido Socialista, a divulgar este número astronómico de faltas dos professores, quando é sabido que uma parte dos votos que deu a maioria absoluta ao PS foi obtida pelo reconhecimento da imcompetência do governo de Santa Lopes na colocação de professores.
Ora, além do estudo hoje divulgado não estar completo, ele traduz em grande parte o desnorte criado nos erros do anterior Ministério da Educação, da srª. não sei quantos Seabra.
Como mera curiosidade, é interessante saber-se que o sr. Secretário de Estado da Educação, responsável pela divulgação destes números, Walter Lemos, perdeu, em 1993 o mandato de vereador pelo CDS na Câmara de Penamacôr, por ter excedido o número de faltas permitido.
Oh! Senhor Walter Lemos, o sr. é um desbocado!. Veja lá se ainda lhe atropelam a dentadura. Tenha cuidado.
Quanto ao DN... diário de referência... está a andar! Estão mais para o lado do Diário da Manhã.
Tudo isto é uma escroquerie, que começa no Ministério da Educação e na sua mais alta responsável e termina na direcção do DN.
Que porra! Já chega de manipulação. Discutam os problemas de maneira séria. Deixem-se de manobras. Quando, um dia destes, já ninguém acreditar em ninguém, quero ver esses ministros, esses secretários de estado e esses directores de jornais a esconderem-se debaixo das saias do primeiro travesti que encontrarem na rua.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Exploração de Trabalho Emigrante

O actual ministro do trabalho sempre me inspirou alguma confiança. Tem um ar sério e parece realmente preocupado com as questões do trabalho - as mais complicadas da nossa actualidade.
Por um lado, há uma legislação demasiado pesada que não leva em consideração a necessidade de diferenciar a competência, a utilidade e a produtividade dos trabalhadores, prejudicando, obviamente, sobretudo as pequenas e médias empresas, muitas vezes colocadas perante situações verdadeiramente insolúveis do ponto de vista legal.
Por outro, a política neo-liberal que tem vindo a ser seguida permite às grandes empresas usar todos os truques, arrecadar lucros de toda a maneira e fugir aos impostos de forma descarada.
Há por exemplo, grandes grupos empresariais que suportam as suas necessidades de trabalhadores contratanto serviços a empresas especializadas em trabalho temporário. O que é que isto quer dizer? Que a empresa empregadora se liberta dos encargos com os trabalhadores contratando os serviços de alguém que tem um contrato com uma outra entidade.
Ora o que está a acontecer com grandes grupos empresariais especializados nesta prática é que estão a recorrer a trabalhadores emigrantes que sabem ilegais. E por causa dessa condição, embora façam os devidos descontos para a segurança social, não fazem a respectiva entrega, pelo ganham, para além das comissões legalmente consentidas, o correspondente a 34,7 por cento dos salários pagos.
Quando por razões legais ou de saúde os tais trabalhadores necessitam de uma certidão ou de um qualquer outro documento, os Serviços de Segurança Social não têm nenhum registo.
A isto chama-se exploração escrava e há empresas nacionais, com vistosas páginas na Net a fazê-la.
Que tal, senhor ministro do trabalho, mandar inspeccionar rigorosamente todas elas?

sábado, novembro 12, 2005

Justiça!!!!

Sempre foi a questão mais delicada de todas as sociedades, de todos os sistemas de poder, a Justiça. Sempre houve a tentação de quem a administra de o fazer a seu favor e dos seus. Por isso, a democracia de um Estado se avalia pelo "estado" da sua Justiça. Uma justiça corrupta, com agentes manobráveis, compráveis, inviabiliza o cumprimento dos preceitos de um regime democrático.
Se, por hipótese, entre os elementos executores da Justiça, por exemplo, entre nós, alguns dos agentes da Polícia Judiciária ou de qualquer outra, ocupar o tempo a compilar informações sobre pessoas notórias e que, previsivelmente, poderão vir a desempenhar papéis importantes neste ou naquele sector do Estado, e a elaborar dossiers prontos a vender, estaremos perante o quê?
Não seria interessante saber que os magistrados públicos, o Ministério da Justiça e não sei quem mais, ponderasse estas hipóteses e aceitasse que as várias denúncias que lhes vão chegando têm algum fundamento?
Não compete aos Tribunais e ao Ministério Público garantir aos cidadãos as condições indispensáveis ao exercício de todas as liberdades cívicas, incluindo o direito à vida privada?
Será que essas condições estão a ser garantidas em Portugal e que o Estado não está a pagar a gente que faz da investigação da vida privada dos outros um modo de vida?

quarta-feira, novembro 09, 2005

Sacrifícios

Observe-se a diferença entre estas duas Leis, ambas aprovadas na Assembleia da República no dia 28 de Julho de 2005:

Lei n.º 43/2005:
Determina a não contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão nas carreiras e o congelamento do montante de todos os suplementos remuneratórios de todos os funcionários, agentes e demais servidores do Estado até 31 de Dezembro de 2006.
Foi publicada no dia 29 de Agosto, entrando em vigor no dia seguinte à da publicação: a partir de 30 de Agosto, o tempo de serviço não conta e por esse motivo os funcionários não progridem na carreira.

Lei n.º 52-A/2005:
Altera o regime relativo a pensões e subvenções dos titulares de cargos políticos e o regime remuneratório dos titulares de cargos executivos de autarquias locais.
Foi publicada no dia 10 de Outubro, entrando em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação: entretanto os autarcas já tomaram posse e não são abrangidos pela Lei.


Esta Lei "esteve de férias" e voltou ao parlamento para aprovação final (?) a 15 de Setembro (nesta altura o tempo de serviço e o consequente congelamento de carreiras dos funcionários já estava em vigor há mais de quinze dias!!!). Depois "esteve na gaveta" e só foi enviada ao Presidente da República a 4 de Outubro (mas salvaguardando que "a presente Lei entra em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação").

Recorde-se finalmente a euforia do Eng.º Sócrates a anunciar à comunicação social a alteração da Lei, explicando que agora os sacrifícios eram para todos, a começar pelos políticos!...

terça-feira, novembro 08, 2005

O Ridículo

VALENTIM Loureiro vai enviar uma carta a Cavaco Silva manifestando-lhe apoio, mas deixará nas mãos de Cavaco a opção de tornar conhecida esta declaração...
É este o lead de uma notícia da primeira página do Primeiro Caderno da última edição do "Expresso". Isto é o quê? Brincadeira? O Arquitecto a "vingar-se" do despedimento, ou um processo habitual do chamado semanário de referência, que não consegue libertar-se das suas ligações perigosas?
Seja o que fôr, é de um ridículo que só já não assusta o Francisco Pinto Balsemão. E não vale mais um comentário sequer.

domingo, novembro 06, 2005

Paris Já Está a Arder

O que começou há dez dias em Paris não pode ser resolvido com declarações bombásticas de autoridade no parlamento por um primeiro-ministro que se limita a repetir a ideia de que " a República não vacilará..."
O fantasma da monarquia já lá vai há alguns séculos, senhor Villepin. A República é hoje um instrumento de exploração como o foram todas as monarquias. Os bairros que hoje estão a ferro e fogo são habitados pela mesma gente - porque com os mesmos problemas - que tomou a Bastilha, a cidade de Paris no sec. XVIII, que assistiu com entusisamo à decapitação de Luis XVI e de Maria Antonieta.
Senhor Villepin, primeiro-ministro de França, a sua República, em nome da qual garante que não vai vacilar, já não tem a força moral para usar o conceito de um governo do povo para o povo, em nome da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
A sua República abastardou-se e só cuidou da liberdade de alguns, da igualdade dos mesmos e da fratrenidade de ambos.
O que começou há dez dias em França é o princípio do fim de alguma coisa. Por mim, espero que o senhor, senhor Villepin, consiga, com o mesmo entusiasmo com que fala de ordem no seu parlamento, convencer os seus pares europeus de que a burguesia está em maus lençóis. Já não por causa dos bolcheviques, dos soviéticos, dessa gente organizada em rebanhos coloridos, mas por causa - de novo - dos famintos, dos marginalizados, dos desprotegidos, dos injustiçados, dos explorados.
Sobre si, senhor Villepin, impende a enorme responsabilidade de evitar a demonstração de um teorema histórico: todos os grandes movimentos sociais de contestação violenta começam em Paris, estendem-se a toda a França e contagiam o resto da Europa.
Estou longe, não ouso sequer aproximar-me de si, cidadão Villepin, mas se pudesse, apostava consigo, dobrado contra singelo, que em Paris, neste ano da graça de 2005 , principiou algo importante. E não lhe chame terrorismo, por favor. Lembre-se antes da história de Spartacus, sei lá... de Cristo, mas não o misture com JP II ou com Bento não sei quantos
Olhe, eu, se fosse a si, reformava-me e ia para a Bretanha. As notícias chegam lá mais tarde e todas as Repúblicas de hoje cometeram os mesmos erros, diria até, os mesmos crimes da sua.

sábado, novembro 05, 2005

"...Digamos..."

Zapping displicente ontem à noite e, de repente, Miguel Horta e Costa, com todo o peso da sua figura fora de tempo, gestos a mais e bengalas de linguagem repetidas: "...digamos que... digamos que..." e nada de concreto.
Aquele jeito ...oh Zé Gomes Ferreira...a denunciar algum nervosismo. Quase todas as frases a principiar por "...veja que..."
E às perguntas, nada de concreto. Mesmo quando se percebia que elas tinham sido ensaiadas, combinadas (desculpa lá, oh Zé Gomes Ferreira, mas ando nisto há muitos anos...)
A única resposta clara foi a do seu enorme desejo de continuar a ser o CO do Grupo Portugal Telecóme, como ele gosta de acentuar).
Do meu zapping concluí que a PT está mesmo aflita: cotação na bolsa a baixar, fundo de pensões ao fundo, dinheiro a rodos para despedir gente que depois faz falta, clientes descontentes, demonstração - nos números - de uma onda de mudança de operador por um grande número de clientes que pareciam fidelizados.
Era necessário levar o barão à televisão. Bastava pedir ao tio Balsemão, convencer o Ricardo Costa e o José Gomes Ferreira. Imaginem os trabalho$ !
Mas, Miguel lá teve direito ao seu tempo de glória para anunciar que quer continuar a ser presidente da PT.
Balsemão, Costa e Ferreira fizeram a boa acção do dia e, ainda por cima em cenário piroso, a condizer com a figura.
Um verdadeiro sucesso.

terça-feira, novembro 01, 2005

As Associações de Mal-feitores

Este país não deixa de me espantar. Confesso que, de vez em quando, sinto mesmo a minha alma "ficar parva".
Enfim, para não concluir que a minha terra é uma espécie de Chigago dos anos 20 transposta para o sec.XXI, admito que os assaltos se verificam um pouco por todo o Mundo.
Mas, eu conto:
recebi hoje uma carta de uma empresa totalmente desconhecida para mim a comunicar-me que o meu seguro de vida , subscrito em determinada Companhia de Seguros sofreu um acréscidmo de cerca de 3 por cento, "em função da análise dos elementos indicados no questionário clínico e dos resultados dos exames médicos realizados..."
A carta acrescenta que, no caso de querer algum esclarecimento, me devo dirigir a um sr. dr. da citada companhia de seguros, numa outra direcção, perfeitamente distinta daquela que indica o endereço de quem me comunica o tal aumento.
A carta é assinada por um outro senhor e não por aquele que, supostamente, me dará os esclarecimentos que lhe vou pedir.
E os esclarecimentos a pedir são muito fáceis: quando e quem me realizou exames médidos ou me fez inquéritos? A resposta só pode ser: ninguém, em tempo algum.
Isto é ou não um assalto, uma trama combinada entre vários agentes, com endereços e responsáveis diversificados? Isto é ou não o indício de que o roubo institucional, assegurado pelas companhias de seguros, já passou à classe de práticas de associações de mal-feitores?
O Procurador Geral da República faz o quê nestas circunstâncias? Pode fazer alguma coisa? É seguro viver em Portugal?

sábado, outubro 29, 2005

O QUE É DEMAIS NÃO CHEIRA BEM...

Causa-me algum desalento que o país esteja entregue a esta gente. Impressiona-me que tudo e todos estejam subjugados a condicionalismos eleitorais. Foi claro, em meu entender, que Sócrates tenha ido à gaveta repescar o dossier «aborto» por considerar que podia representar um trunfo forte para as autárquicas. Sampaio deve ter entendido o mesmo e não deve ter achado graça. Remeteu o caso para o Tribunal Constitucional. O problema real, o «aborto», esse, ficou de fora. O que entrou em análise foi uma discussão académica sobre o sexo do anjos. O sexo dos anjos é doce, não escorre semen, não engravida. O grave e delicado problema era, afinal, saber como e quando se podem fazer referendos. Por outros termos: esta gente, como vai sendo costume, entreteve-se a gozar connosco, misturando alhos com bugalhos.
Sejamos coerentes: o assunto que o TC analisou e sobre o qual se pronunciou foi o referendo, não foi o aborto.
Hoje, alguém no «Público» defendeu melhor esta tese e insurgiu-se naturalmente contra o chefe do governo e o presidente da República. A minha mira aponta noutra direcção: aos membros do TC, não à instituição, mas a eles mesmos. E deve ser bom que se coloque a questão. Têm eles o direito de fazer asneira e ficar incólumes? Pode aceitar-se que os (ou um ou dois) altos magistrados tenham pedido à senhora da limpeza do tribunal que fosse dizer aos senhores dos jornais que iam chumbar o referendo, uma semana antes de dar disso conhecimento à Presidência da República? Mais: pode o Presidente da Nação aceitar? O Presidente que pode dissolver a Assembleia legislativa, mesmo com maioria parlamentar, não pode «despedir» os conselheiros do TC, que adulteram de modo grosseiro as «regras do jogo»? Será isto razoável?
Não sei. Sou pouco culto. Mas considerando, o que me parece improvável, que o PR não dispõe de poderes constitucionais para «despedir com justa causa» os membros do TC, deveria, ele próprio, demitir-se da função, por respeito ao cargo desrespeitado. E nem devia ser eu a chamar a atenção: os senhores deputados é que já deviam ter-se manifestado. Tem de entender-se de uma vez por todas que há orgãos que não podem permitir-se abusos de poder ou deselegâncias ranhosas...
E o governo? O governo encolheu os ombros. A motivação eleitoralista que levou o governo a avançar é a mesma que o leva, agora, a recuar, apesar de a Sócrates «não ser indiferente o sofrimentos e a defesa da dignidade das mulheres». É só paleio. Há mulheres no governo. Espero que estejam coradas...

APITA O COMBOIO

Não sei de que madeira são os comboios feitos, mas aprendi que os ministros, hoje em dia, são feitos de lata. Deve ser por isso que alguns enferrujam! A meio da manhã ouvi dizer que OTA, sim senhor. TGV vai ter não quatro, mas duas linhas: uma Lisboa-Porto, outra Lisboa-Madrid. Pobre desta, só lá para dois mil e dezassete. Não ouvi denhum jornalista perguntar o que é que aquilo queria dizer. Porto-Lisboa com quatro paragens, não obrigatórias. Não mencionou a data prevista e todos sabemos que chegar ao Porto não é fácil. Talvez lá para dois mil e trinta e seis, se não chover. Como se vai de Lisboa ao Porto de TGV?
Em 2017 já o tgv deve estar no museu e a OTA provavelmete na Judiciária.
Vou começar pelas portagens. Em 85 o businão na ponte fez história. Praticamente demoliu o governo. Pedro Cid, novissimo director de informação da RDP ainda lembrou que era uma manobra do Partido Comunista. O PS colou-se e desatou a protestar contra as portagens, escolhendo como modelo a CREL.
Algum tempo depois, já no governo e com Jorge Coelho muito activo desportajou a portagem da CREL. Bonito! Vamos entender melhor. A política de estradas rápidas do cavaquismo teve origem em compensações comunitárias, que praticamente chegaram a par do prof. Anibal. Sem grandes projectos projetados as auto-estradas eram o caminho mais rápido. Tal como já vinha
acontecendo em Espanha. A auto-estrada para o Porto foi crescendo e a portagem também. A
par de outros percursos, uns de borla, outros nem tanto. A ideia que se pretendia fazer passar era a de que as vias comparticipadas pela CEE eram de borla, enquanto as pagas pelo O.E. tinham portagem. Acredito que houvesse batota no percurso e na avaliação. A CREL foi justamente uma das entregues à Brisa, que se responsabilizou pelo encargo.
Entretanto o troço Caldas-Torrres Vedras era de borla. Outra via, que na altura saía de Abrantes e estava prevista chegar a Peniche, também devia ser gratuita. isto só para dar uma ideia de como se passavam as coisas.
A decisão de retirar o pagamento de portagem na CREL foi fogo de vista. A portagem manteve-se, continuoua tirar-se o talãozinho e a Brisa a estender a mão ao governo. Perante o encargo, o ministro foi-se à auto-estrada das Caldas e toma lá, paga portagem. A auto-estrada destinada a Peniche, encurtou e levou com portagem. É a política do fogo de vista!
Receio que a OTA e o TGV seja um segundo episódio. Receio pior. Receio que mais obras seja prenúncio de esquemas cruzados com vista a financiamentos obscuros, que isto de andar a promover candidatos pouco rentáveis depaupera os cofres.
O TGV que o senhor ministro prometeu fazer para Madrid quer dizer o quê? Madrid é, afinal de contas, onde? Em Badajoz? A seguir a Marvão?
E a OTA? Vai ser onde, como e porquê?
Lembram-se das gravuras rupestres? Lembram-se?
Não sabiam nadar. Não se acabou a barragem. Perdeu-se uma fonte energética. Perdeu-se uma reserva de água! E se a água vai fazendo falta! Que importa? Ganhou-se em turismo. São milhares e milhares a espreitar as gravuras e a encher os hoteis novos e velhos. Obras e obras científicas se publicam todos os meses sobre as rupestres...
O problema com a irresponsabilidade é que tanto pode acertar na mouche como cair no ridículo.
Muito do problema podia morrer à partida se à promessa ministerial os jornalistas logo pedissem esclarecimentos. Ota?! Como? Como se vai até lá? E como se vem até aqui? Há uns anos, inquirido a esse respeito, Jorge Coelho disse: «Faz-se um tgv»!
Sim, senhor, faça-se um tgv, quentinho, para a mesa do canto...

quarta-feira, outubro 26, 2005

SUBMARINO AO FUNDO

Era o que faltava e se notava mais. E vai ser a seguir.Mas já a seguir. De repentemente, que é o mais de repente que me vem à memória: um santuário para Felgueiras! Pois! E onde mais podia ser? Que as fátimas sejam como as cerejas e os milagres destapem o pão e as rosas que se lixem!
Um santuário dourado e que o altíssimo lhe ponha a virtude, que eventualmente lhe falte.
Peregrinos unam-se! Peregrinações organizem-se, Felgueiras, o paraíso santificado, espera por todos e todos não serão demais para encher caixinhas e caixinhas de esmolas. Pobrezinhos, pobrezinhos, esperem pela sopa, porque a sopa vale a pena se a alma não for forreta!
E o governo, por uma vez, pode sair a ganhar se fechar a Justiça, despedir os magistrados e desistir do ministro e do ministério. Ninguém precisa mais deles. Desde ontem o conceito mudou. E sabe-se hoje que sai mais barato ser-se assaltado no Pinhal de Leiria do que ir a tribunal; o que se poupa com seguros contra roubo chega e sobra para pagar aos ladrões e salvam-se portas, portões e os vidros das janelas. Justiça nunca mais. E não é preciso estragar ou demolir o palácio da justiça: bem limpo dá um excelente abrigo para os sem abrigo! O tribunal das boas horas pode passar a centro cultural de marionetas, para preservar a imagem de solenidade que sempre desejou ter! Aquele outro da rua do Século, que nem me lembra o nome daria, por certo, um bom estádio para luta de galos, desporto muito na moda lá por casa!
Devia, isso sim, guardar-se o austero guarda roupa judicial para pôr algum sal nos cortejos carnavalescos, mas sem os martelinhos. Esses distribuidos pelos senhores deputados, para sublinhar-se melhor, e de maneira mais comedida, a concordância com a desavença, o som com a fúria, sem palavrões, nem irritação de gargantas!
Sem castigo deixa de haver crime. Pode roubar-se democraticamente à vontade, como de resto se tem vindo paulatinamente a fazer, e atropelar a toda a brida, mesmo sem carta de condução!
Tudo o mais que ponha em risco a vida de pessoas e ou os bens do Estado resolve-se por meios místicos, acendendo velas às santas...
Mas, cuidado, sem invocar em vão o santo nome da imaculada de Felgueiras, senhora cheia de graça, nem dos benditos juizos que dela se fazem...
Quem é que precisa de juizes ou juizos num paraíso destes?

terça-feira, outubro 25, 2005

A Caminho...

Para quem, como eu, durante anos e mais alguns, seguiu com enorme interesses a política nacional e internacional e, a dada altura, para não ficar louco, resolveu desistir, começa a ser engraçado - dá mesmo vontade de rir - verificar o carácter aleatório de tudo quanto os políticos dizem e determinam.
Nunca nada bate certo. Ou com o que se prometeu, ou com o que se esgrimiu. Está sempre tudo errado. Não há regras. E já nem se consegue vislumbrar o jogo dos interesses.
O recente escândalo do envolvimento de bancos em negócios duvidosos - quanto a mim uma notícia para disfarçar envolvimentos bem mais criminosos - imediatamente "abafado" pela grande comunicação social, deixa a descoberto o desnorte do sistema. .. pois, se até já Ricardo Salgado pode ser surpreendido por uma notícia desastrosa num dia em que, mais uma vez, convidado pela Judite de Sousa, vai fazer o papel de primeiro-ministro sombra...
Quais vão ser as consequências desta escandaleira?
Alguns inspectores da Judiciária vão ser despedidos? - 1ª hipótese.
Ricardo Salgado vai ser preso preventivamente ?- 2ª hipótese.
José Sócrates vem defender a honorabilidade da banca portuguesa - 3ª hipótese.
Mário Soares ganha as próximas eleições presidenciais - 4ª hipótese.
Posso fazer um concurso. Quem acertar, ganha a possibilidade de fazer um comentário à situação portuguesa, desde que a titule " A caminho da Ibéria".

sábado, outubro 22, 2005

VERDE QUE TE QUERO VERDE

É quase preciso ser poeta para entender o Sporting. O Sporting, como depois o Belenenses, nasceu do Benfica e isso já ajuda a entender alguma coisa. Mas pouca. O Benfica nasceu popular, popular no sentido de ser da ralé, do povo, quando povo significava operariado. O operariado tinha manias e por isso os homens que trabalhavam nos jornais desportivos não eram jornalistas e por isso não podiam falar de «vermelhos» fosse ele o Victor Silva, o «Tamanqueiro» o Albino ou o lisboeta Espírito Santo. Cândido de Oliveira era suposto ser comuna e era, portanto, mal visto pelos de cima. Que eu me lembre foi a primeira grande vitória do futebol português. Além de ser prestigiado na Europa, treinou o Sporting (e a Académica!) com sucesso. Foi treinar, imaginem!, ao Brasil. Por mór do futebol deixou de ser perseguido e até acabaria por ser escolhido para seleccionador!
Voltemos atrás, os alvalades eram ricaços e conservavam títulos da nobreza e acomodavam-se mal no Benfica. Sairam e formaram o Sporting. Os azuis já foi por outras razões e zarparam para Belém. Havia o Casa Pia e havia os Unidos, o Carcavelinhos, de onde brotou o Atlético, o Chelas e o Fósforos, que se uniram no Oriental.
E, bem entendido, o futebol era coisa de domingo à tarde. Quando eu cheguei ao futebol (de bancada) o Sporting é que estava a dar. O Benfica era como o Carlos Carvalhas: parra em demasia e uva nem vê-las! Vi o Benfica ganhar algumas Taças, mas campeonatos só os lagartos: sete em oito anos e eu vi-os todos. Ainda hoje tenho complexos!
Há uns interregnos divertidos: o Benfica foi campeão latino, em 50, no meio dos campeonatos todos do Sporting.
Quando a CUF de Lisboa acabou O Felix foi apara o Benfica, que não aceitou o Travassos, porque era pequenino! Era, sim senhor! Mas que enorme jogador ele foi! Quanto dele sairam tantos títulos para o Sporting! O Azevedo já vinha de trás. Tinha tapado o Martins, que foi no Benfica (linguajar africano), e depois Barrigana, que zarpou para o Porto (F.C. do). O suplente era,foi, Dores. Naquele futebol não cabiam suplentes. Nada de substituições, nem de guarda-redes. Lembrem-se que em 65 (se a memória não me lixa) o Benfica perdeu a final europeia, em Milão, com Costa Pereira na cabina e Germano na baliza. Creio que acabou aí a rigidez do sistema. Depois passou a poder mudar-se de guardião. Depois, um, depois, dois...até aos nossos dias.
A intenção foi (era) falar do Sporting. Melhor: entender o Sporting. Podia lembrar que o Sporting começou por ser levado ao colo. Devia ser necessário travar o populismo «encarnado». Mas, sinceramente não me consta que Peyroteo fosse fascista, nem o Manel Marques fosse da União Nacional.
Mas um gajo do Benfica precisava de ter desculpas. Mas lá que o Sporting teve um presidente que marcava «gois» aos intervalos, lá isso teve! Pelo menos a graçola perdurou desde que o o presidente leonino, de seu nome Gois, foi à cabina dos arbitros, na Tapadinha, "mandar vir"
com os artistas do apito. A partir de 60, o poder político aceitou o Benfica que luzia na Europa.
Salazar recebeu os jogadores encarnados, deve-lhes ter ofertado calices de vinho do Porto. E por essa altura já o Sporting andava aos papeis. Não tenho ficheiros, mas estou em crer que desde 54 o Sporting nunca mais repetiu dois campeonatos nacionais seguidos. Vou ficar por aqui, mas não sem lembrar que há muito, muito tempo, que um lampeão não podia falar de Sporting, ou vice versa, sem pedir licença a Pinto da Costa, que andou com a sua equipa às costas a ganhar campeonato atrás de campeonato, numa manifestação prepotente de abuso de poder...