terça-feira, abril 18, 2006

FICÇÃO (?)

Recebi uma carta razoavelmente injuriosa, com um rabisco indecifrável no fim. O papel tinha manchas de dedadas. Lamentei não conhecer ninguém no CSI, havia de ser canja. Em todo o caso é reconfortante ter quem nos leia, ainda que seja alguém pouco recomendável. Passo a transcrever, depois de excluir alguns palavrões e semear algumas vírgulas:
Olá, meu - Vocês têm a mania, é o que é. São uns safados uns filhos da...Passam o tempo a falar mal do governo e dos ministros. Porquê? O que é que vocês, cambada de velhadas sabem do sistema? Nada!
Eu sei. Sou gatuno, vivo, e não vivo mal, de gamar. Não trabalho muito, não preciso. Preciso é de trabalhar bem. De ser avisado e exigente e de tar a pau! Quando compro um jornal gosto de ver a informação que dá conta das preocupações do xuis, das prioridades deles. A «liberdade de expressão» faz-me um jeito que vocês nem imaginam! Deu-nos uma trabalheira aprender formas de prevenção e de cautelas. Temos de ser pacientes com a bófia.Quando eles avisam que vão fazer isto ou aquilo, a malta percebe. Toca a arranjar uns excedentes e encafuam-se num camion manhoso mal guardado, de modo a ter ar suspeito. Atrai-se alguns do «problemáticos», daqueles que exageram no consumo, dão barraca e estragam o mercado, para as imediações do camion e os xuis juntam o útil ao agradável. E, claro, o malão a sério,esse, passa,tranquilamente!
Os gajos do lado de lá também fazem isso aos agarrados. Metem dois ou três num Boeing-tamanho família. Os patetas escondem o produto nas cuecas ou na barriga. Seja onde for estão lixados. São denunciados sem piedade. Um gajo qualquer dos jornais disse uma vez que eram carne para canhão. O que eles passam a ser é mão de obra. Na choça tem que se trabalhar, sem preconceitos, para se sobreviver e fumar.
Cada vez há mais sítios para vender e mais malta para comprar. Não se pode andar nesta vida e ser piedoso. Há que alimentar o mercado e dar abébias às polícias e tem que se dividir o mal pelas aldeias. Os xuis que consomem não são de fiar. Mesmo que seja preciso rezar, há que evitar que nos apareçam nas aflições. É malta lixada que só arranja caldinhos. Sáo como o Freitas: não têm sentido de estado...
Trabalho frutuoso tem sido o do governo Sócrates. Graças a isso, volta que não volta os xuis entram em greve e enquanto dão asas à dita a mercadoria expande-se não sei quantos por cento: uma festa!
A mim até me deu, um dia destes, para comprar um bilhete para a bola na candonga, no mercado negro, é melhor dizer assim, porque não convém muito usar o calão senão topam-nos à distância. Custou-me quase três gramas, mas deu para ir a Barcelona!
O Koemans é um merdas, não percebe patavina daquilo! Se ficar mais três meses na Luz ainda acaba cliente da malta e vai ter que pôr os rapazes a fumar se quer que eles façam alguma coisa.
O patrão dele devia saber isso melhor, olá se devia! Isso de apalavrar uns árbitros foi chão que deu uvas. É preferivel um traficozinho do que acabar em terceiro...
Vê lá, meu, se abres os olhos e deixa-te de lérias. Quem te avisa...

Não entendo se é um recado ou uma ameaça. De facto fez lembrar uma velha, muito velha, anedota, ainda do tempo do antigo regime. Numa empresa magestática um funcionário recém admitido é censurado pelo chefe, por ter entrado tarde e deixado dois terços do trabalho por fazer. «Oh, homem!» disse o burocrata «Vá cortar o cabelo!». O chefe dirige-se ao director, ao qual expôs o assunto. O director chama o subordinado ao gabinete e na presença do chefe interroga-o. O interrogado responde-se «Vá levar no c...oiso»! E sai. Dentro, os dois homens fixam-se. O director telefona para a direcção de pessoal e pede a folha do artista. De posse dela descobre que o sujeito vinha recomendado por Salazar. «E, agora?», pergunta o director. «Olha, eu vou cortar o cabelo, tu faz o que quiseres!», respondeu-lhe o chefe. Talvez me vá deixar de lérias, estou em crer.






segunda-feira, abril 17, 2006

DEPUTAR

Que fique claro que não se trata aqui de ir de visita a meninas, qualquer que seja o estrato social das ditas. Disso um cavalheiro não fala -- a não ser em surdina! De facto vou ter alguma dificuldade em expressar-me. Além do mais nem sei ao certo como são os deputados nos outros países. Não sei se quer se são como os nossos, na semelhança com o comum dos cidadãos. E como cidadãos quero dizer criaturas que vivem de saber viver, que cedo aprenderam a arte de sobreviver. E isto não tem a ver com política, políticos ou politiquice.
Sobreviver na política é outra arte. O desenrascar é arte portuguesa típica. Não se falta ao trabalho, não senhor, mesmo que seja o de estar sentado a ouvir os outros: mete-se baixa. Nenhum contribuinte cá do burgo se esquece de declarar o que deve. Às vezes não se lembra.
Talvez o problema mais agudo seja a ponte. É isso, é! A ponte é um vício nacional e é já um direito adquirido e tão legítimo como qualquer outro, ainda que de legalidade duvidosa. Um feriado à terça está mesmo a pedi-las e se for à quinta é o mesmo. Não vale a pena atirar as culpas aos deputados pelas leis não discutidas ou por aprovar.
Naquele ambiente produtivo em que habitam os deputados, que nos habituaram a vê-los sentados no hemiciclo ou a patinhar pelos passos perdidos, quando lá vão... Ponte? Não senhor!
Ponte não perdem, nem que chova, nem que se vote. Quem quer que se vote «debaixo da ponte» ou é aquilo que parece ou não tem arte...
Bem vistas as coisas, a Assembleia é o que os deputados querem que seja e como está. E isso dá muito jeito ao governo na maior parte do tempo. O senhor Presidente da Assembleia podia sugerir que se instituisse um regimento mais austero. Que se fugisse da ponte com o mesmo empenho que o Diabo foge da cruz. Que se deputasse com zelo, que se votasse em consciência ou de olhos vendados. Tem que haver latitude, deputado não tem que ser mártir, nem santo, sete dias na semana. Mas não deve andar a saltar de ponte em ponte, que dá nas vistas e entristece o dr. Gama...

domingo, abril 09, 2006

JORNALAR

Quando eu era pequeno (de idade) matava-se o bicho pela manhã, no Cais do Sodré. Haveria, por certo, outros sítios onde fazê-lo, mas na minha pouca idade não os podia ver a todos. Mas sabia. Era gente de trabalho masculina de lide matinal, pela Ribeira (mercado abastecedor) ou junto à beira rio. Havia frio e humidade que o calor do trabalho só por si não eliminava. Era necessário aquecer a alma e o estômago. Nada que um bagaço (ou dois) não acalmasse. Era a isso que se referia o mata-bicho. Os quiosques no Cais do Sodré abriam pela madrugada, à espera da manhã e praticamente só vendiam ginjas e bagaços, além de um ou outro «copo de três». É verdade, confesso, que também se comercializava algum moderado «copo de dois», mas menos. O frio (e a sede) eram impedernidos.
Foi só quando cheguei a Luanda, à beira dos trintas, que dei pela expressão «mata-bicho» como pequeno almoço. E mais pelo verbalizar da expressão. Dizia-se «mata-bichar» no presente (do indicativo), no pretérito, mesmo que «mais-que-perfeito» e até no «condicional», tanto no singular como no plural.
E havia, logo de manhã os jornais. Os matutinos, bem entendido. Quando falo de matutinos vem-me à memória o João Rodrigues, desenhador fabuloso, que por acaso veio a ser ilustrador num pasquim que nem era matutino nem vespertino, ainda que fosse o diário da hora do almoço, era o «Diário Ilustrado» se a memória não me trai. Tinha dormido no quarto de alguém, à Praça do Chile e acordou ao som inexplicável de um monótono pregão: «Selos e cortiça, selos e cortiça, selos e cortiça». Que seria aquilo? Depois de levantar-se, arranjar-se e sair, deparou com um
ardina razoavelmente idoso, que vendia o «Século» e o «Notícias»!
(continua - há-de continuar, sDq)


ESTAMOS FALADOS
Era mesmo de jornais que eu ia botar paleio. É fácil, lá isso é, descortinar que os pasquins já não são o que eram, nem como eram. Pois! No tempo em que a Rádio não dava notícias, apesar de cobrar taxa (imaginem!) e nem se sonhava com a Televisão, os jornais eram uma coisa. Tinham o necessário. Era necessário dispor de uma oficina: os jornais tinham, cada um a sua!
Era premente uma distribuidora para distribuir. Os jornais tinham, cada um a sua. Se fosse preciso jornalistas também se arranjavam. Para director era preciso um doutor ou um engenheiro ou, até, um oficial militar. Conhecimento de Comunicação Social, que era como não se dizia, não era preciso, os senhores censores sabiam tudo, até colorir prosas com lapís de cor.
Esperava-se pelas notícias, a informação escorria lenta. Ninguém se suicidava: caía da janela à rua!Às vezes um burro ou até um cavalo de puxar carroça escorregava na calçada e amouchava. Era preciso um monte de gente barbada para ajudar a besta a erguer-se. E o eléctrico esperava. Bastava que se ajuntassem dois ou três eléctricos para haver matéria. Era melhor quando alguém se esquecia da beata acesa e o quarto ardia. Era tudo paulatino. Por essa altura andava de bibe e ia para a escola. O que eu lia era o «Mosquito», mas em casa, que sorte, havia sempre «O Século», ao fim da manhã e o «Popular», à noite, quando o meu pai vinha jantar.
Não se falava em casa da guerra, os jornais pouco escreviam. O meu pai de vez em quando ia assistir a sessões com documentários sobre a guerra, a convite da embaixada inglesa. Os alemães tinham um centro de propaganda a meio do Chiado e também passavam filmes e documentários, no «Ginásio», à Trindade, mas o meu pai não tinha convites. Era assim: os burgueses iam no «Ginásio»; os malteses numa sala algures entre Campo de Ourique e um cemitério, que havia por ali. Só para dizer que disto os jornais não botavam opinião e muito pouca notícia.
Foi assim. A partir de 43 já se podia dizer, mesmo no café, que o Hitler era um malandro do caraças. Mas que ele matasse judeus não se sabia. A aproximação oficiosa, mas quase oficial, às teses dos aliados implicava riscos. Era inevitável, mas assustava. Franco foi mais teimoso e o fim da guerra trouxe-lhe alguns amargos de boca. Desse ponto de vista, Salazar safou-se melhor.
As emissões em Onda Curta davam para ouvir a BBC e Fernando Peça, ele, sim, um enorme repórter, que descreveu muito da resistência londrina.
Entretanto, os jornais continuavam a sair, com tiragens elevadas. A história da guerra terminada ia-se refazendo, com grã cópia de pormenores. O futebol começava a ganhar espaço. No Porto três diários, «Jornal de Notícias», «Comério» e «Primeiro de Janeiro» barravam a entrada dos «mouros». Em Lisboa vendiam-se poucos dos jornais «lá de cima», mesmo assim mais do que o inverso, pela razão simples de Lisboa ser destino de nortenhos, que ,depois, fariam, em massa, agulha para a Europa!
A Emissora Nacional começou a fazer noticiários. Às treze e à meia-noite, se bem me lembro, que terminava o com o Hino. Por essa altura não era conveniente ouvir a Onda Curta. Já não havia guerra e a guerra, agora, era outra: nada de escutar a «rádio moscavide», como se dizia na gíria. Portugal «perdia» as colónias, passava a ter províncias ultramarinas. Os jornais davam-me muito jeito para saber o que ia nos cinemas e nunca se esqueciam de lembrar que era «visados pela Comissão de Censura», também os filmes eram!
Em todo o caso, podia-se saber do que se passava aí até às três da manhã. A essa hora encerrava a Censura e qualquer coisa mais que se publicasse era à responsabilidade do senhor director. O senhor director costumava avisar que não queria que se publicasse nada, depois dele sair.
Da oficina os jornais eram metidos em carros e ala que se faz tarde país fora. Em 75 ainda era assim e ainda se vendiam jornais.
Para mim era quase um vício. Continuei a comprar jornais, mas fui-me zangando. Quando eu era pequeno ainda havia «artistas» a vender a «banha da cobra» . Tinham que ter paleio para segurar uma roda de gente. Os jornais, agora, são assim: «Hoje é mais caro porque tem isto ou aquilo». Quando esta moda começou estava em Espanha. O «El paiz» juntava uma revista gráfica, mas vendida à parte. Quem quisesse só o jornal não pagava excesso. No Brasil, os quiosques dispunham de tambores vazios para despejar o «lixo», gratuito, intercalado no pasquim. Comecei por não comprar o matutino ao domingo, depois também ai sábado. Agora também à sexta e ainda há um à segunda. Eles é que sabem e como já quase não vou ao cinema não preciso de notícias requentadas. Por vezes amuo por outras razões. A exploração das deportações canadianas foi um bocado baixo.É verdade que Freitas Lopes, não é assim,gaita: Santana do Amaral, nem assim, bom o ainda ministro ajudou à festa com os seus, dele, disparates. Mas, depois, fez inversão e tratou das deportações de cá para lá de maneira irresponsável. Não se expulsa seja quem for por ser escuro ou claro, por ser do Leste ou do Brasil. Emigrantes temos sido nós todos os ainda menos; emigranes temos sido nós todos desde pequenos. Que me perdõe o poeta...

sábado, abril 08, 2006

Os Vampiros

O Texto que aqui transcrevo chegou-me via mail. Aqui está a minha colaboração para a sua divulgação. A meditação é dolorosa: estamos a ser governados por vampiros disfarçados de socialistas:
A Caixa Geral de Depósitos (CGD) está a enviar aos seus clientes mais modestos uma circular que deveria fazer corar de vergonha os administradores - principescamente pagos - daquela instituição bancária.A carta da CGD começa,como mandam as boas regras de marketing, por reafirmar empenho do Banco em «oferecer aos seus clientes as melhores condições de preço/qualidade em toda a gama de prestação de serviços», incluindo no que respeita «a despesas de manutenção nas contas à ordem».As palavras de circunstância não chegam sequer a suscitar qualquer tipo de ilusões, dado que após novo parágrafo sobre «racionalização e eficiência da gestão de contas», o «estimado/a cliente» é confrontado com a informação de que, para «continuar a usufruir da isenção da comissão de despesas de manutenção», terá de ter em cada trimestre um «saldo médio superior a EUR1000, ter crédito de vencimento ou ter aplicações financeiras» associadas à respectiva conta. Ora sucede que muitas contas da CGD, designadamente de pensionistas e reformados, são abertas por imposição legal. É o caso de um reformado por invalidez e quase septuagenário, que sobrevive com uma pensão de EUR343,45 - que para ter direito ao piedoso subsídio de EUR3,57 (três euros e cinquenta e sete cêntimos!) foi forçado a abrir conta na CGD por determinação expressa da Segurança Social. Como se compreende, casos como este - e muitos são os portugueses que vivem abaixo ou no limiar da pobreza - não podem, de todo, preencher os requisitos impostos pela CGD e tão pouco dar-se ao luxo de pagar «despesas de manutenção» de uma conta que foram constrangidos a abrir para acolher a sua miséria.
O mais escandaloso é que seja justamente uma instituição bancária que ano após ano apresenta lucros fabulosos e que aposenta os seus administradores,mesmo quando efémeros, com «obscenas» pensões (para citar Bagão Félix), a vir exigir a quem mal consegue sobreviver que contribua para engordar os seus lautos proventos. É sem dúvida uma sordície vergonhosa,como lhe chama o nosso leitor, mas as palavras sabem a pouco quando se trata de denunciar tamanha indignidade. Esta é a face brutal do capitalismo selvagem que nos servem sob a capa da democracia, em que até a esmola paga taxa.Sem respeito pela dignidade humana e sem qualquer resquício de decência, com o único objectivo de acumular mais e mais lucros, eis os administradores de sucesso a quem se aplicam como uma luva as palavras sempre actuais dos«Vampiros» de Zeca Afonso: «Eles comem tudo/eles comem tudo/eles comem tudo e não deixam nada.»
Medita e divulga . . . )

segunda-feira, março 27, 2006

FAZ DE CONTA...

Se o trabalho desse saúde, os hospitais não seriam precisos para nada. É o ponto de vista mais à mão do amigo do alheio, que também alega que só trabalha quem não sabe fazer mais nada. Mas em boa e honesta verdade o desemprego não é brincadeira e a crise no mercado de trabalho começa a tornar-se dramática. Crise económica, diz-se. Não sei, não entendo! No antigamente, os cafés que vendiam a bica a dez tostões, e depois a quinze, floresciam e a Baixa estava cheia deles. Sofri quando começaram a desaparecer, engolidos pela Banca. Foi a vez das pastelarias, além de bolos e pasteis, venderem cafés e esplanadas e toda a espécie de águas adocicadas. E também algumas foram à vida, que outro poder mais alto se alevantava. Por essa altura fiz como fazem agora os chineses: abalei.
Mas, como cantou o fadista, por morrer uma andorinha não acaba a Primavera e como nunca se deixa de sonhar o mundo pula e avança, bem lembrou o poeta. E, hoje, são os bancos a mudar, a engolir-se uns aos outros e as suas lojas a fechar, a fechar, umas atrás de outras. Qual crise, qual carapuça. Os bancos nunca ganharam tanto! Ora se os bancos ganham porque raio de coisa têm de ser os trabalhadores que ainda trabalham a pagar a crise? Há, na actualidade, menos bancos e, sobretudo, menos bancários, varridos pela idade ou por acordos vários, mas o negócio prospera.
A filha telefona-me e ralha: «Tu não falas das manifs em Paris. Dos despedimentos da lei
Villepin»?
Ora! Ela que fale. Ela é que é de lá. Estou mais interessado no que diz o Paulo Bento. Já nem saúde tenho para o Marcelo e nem sei se alguém tem. Fiquei lixado, lá isso fiquei. E o pior foi que, mais à noite, num programa desportivo francês, conduzido por uma pequena, que nem vos digo! Não foi isso. «Isso» é só bom para levantar o moral; foi a seguir. O director do «Le Point»
botou conversa sobre uma livralhada, um mais daqueles books que os directores não resistem a escrever, as mais das vezes para se dar ares. Mas ele contou um rumor, meio restrito, que dava conta de uma manobra suja, posta a circular para denegrir o pluri denegrido Sarkosy, a qual teria sido maquinada e difundida pelo já citado Villepin. Façam o favor de acreditar que não sou expert em política parisiense, mas nem é preciso para entender que o alvo não era o primeiro ministro, mais ou menos interino, versão gaulesa de Santana Lopes, mas o «senhor» de cima!
Não sei, nem discuto a lei dos despedimentos. Há uns anos esbarrei com «Intermittants du spectacle», uma forma ardilosa de pôr a trabalhar sem vínculo uma classe de trabalhadores. O resultado foi o abuso sobre os que precisam de trabalhar e alargou-se o número de desempregados. Eu conhecia o princípio. Conheci-o em Portugal, a seguir ao 25 de Abril. A festividade proíbia os despedimentos e não demorou a quase paralizar alguns sectores laborais, designadamente a construção civil. Não se podia contractar um pedreiro ou um servente para uma obra. Não havia maneira de se livrar deles, depois. A instabilidade foi crescendo e flagelou
praticamente todo o mercado de trabalho. E foi, se bem me lembro, o primeiro governo de Mário Soares a relançar o mercado e empurrar o país com o implante dos contractos a prazo. Não adianta arreganhar os dentes ou vociferar. Foi a medida adequada na altura. O abuso veio depois e curiosamente até da parte do Estado, que usou e abusou dos contractos a prazo, muito para além dos limites estabelecidos, que eram de dois anos. Mas tinha alguma razoabilidade: as leis laborais atribuiam todos os direitos aos presumíveis trabalhadores e a totalidade dos deveres aos empregadores. Daí que não poucas reformas tenham tido o cunho de quase vingança. Bom, mas disto sabemos todos, os que por cá andamos, assistindo ao encerramento das industrias e a sua transladação para a China, ao mesmo tempo que os chineses emigram para a Europa, onde podem importar à fartazana os frutos da tecnologia ocidental, made in China, a preços de uva mijona...

sábado, março 25, 2006

O Jogo da Bola

Não foi decerto a primeira vez que o Porto eliminou, da Taça, o Sporting como não foi, seguramente, a primeira em que o Sporting esteve por um triz por ganhar no Porto. O jogo foi empolgante e a vitória divina para os que ganharam e a derrota bem amarga para quantos perderam. Não foi, nem será, a última vez que a arbitragem esteve em foco.
É bom lembrar que o resultado dos jogos é imprevisível, que a qualidade das arbitragens também. Que o futebol é a soma desses e outros factores.
Já a questão levantada pelo Vitória de Guimarães é mais delicada. Não que conteste o resultado do jogo, mas porque poderá levar a Federação a sofrer um rude golpe na tirania sobranceira a que se habituou. Não que seja novidade, também a FIFA se viu esvaziada de tirania por um modesto jogador de futebol. Se o clube de Guimarães avançar com um processo contra a FPF por prepotência, forçando os atletas a um esforço que poderia ou poderá limitar a sua capacidade física ou a própria saúde, poderá fazer diminuir a presunção ditatorial dos dirigentes federativos.
Já vai sendo altura dos organismos federativos se limitarem a funções próprias e específicas: organização das competições, nos termos da regulamentação estabelecida.
E numa altura em que a FIFA está de novo a enfrentar a ira dos clubes, pela utilização abusiva dos atletas profissionais desses mesmos clubes, a arrogância dos dirigentes federativos portugueses parece um pouco saloia e merece uma chamada à ordem.
Será bom lembrar os últimos mundiais de futebol e recordar a prestação das principais selecções. A França, então detentora do título, cai na primeira fase sem obter um simples golo.
Portugal também saiu prematuramente e sem brilho, como outros países europeus, provavelmente os mais vulneráveis. Parece que não tem importância: os bilhetes são vendidos prematuramente, os contratos com a Televisão já firmados e pagos.
Também o barulho das luzes foi menos esfusiante este ano, na atribuição dos Oscares. Pois é, pois é! Elas não matam, mas moem. Também Soares aprendeu que nem sempre se ganha!
Mas o futebol continua a ser outra coisa. Com um campeonato desigual, quase sem assistência,
conflituoso, o campeonato nacional, mais fora que dentro do campo, singra. Temos equipa apurada para o Mundial e não pouca ambição.
O mundial está praticamente à porta e tudo serve para falar dele. E deles, dos antigos. Espreitei um dia destes a evocação do mundial de 54, na Suiça. Adorei rever o Puskas. Deve ter sido injectado por tudo quanto era músculo. Tinha-se lesionado dois jogos antes, mas era fundamental na final. O pior é que «aquilo» era a doer. Não havia substituições e a Alemanha recuperou de dois golos e ganhou o título. Foi uma repetição do campeonato anterior, no Brasil.
Foi a primeira vez quer a Inglaterra, pátria do futebol, participava no mundial. A Espanha também lá estava. Havia, bem entendido, eliminado Portugal. Foi giro.Uma noite ouvi pela Onda Curta uma emissora espanhola a anunciar, em tom solene: «Vencemos a pérfida Albion!» Foi verdade:a Espanha derrotou a Inglaterra, que teve participação lastimável, com os seus calções compridos. Mas o Brasil, grande favorito, perdeu para o Uruguai e foi a festa ao contrário. Foi, creio eu, o terceiro mandial. O primeiro foi, salvo erro, na América do Sul. As equipas europeias
foram de barco. Treinavam no convés. umas vezes antes, outras depois do enjoo. Deu para o Uruguai se estrear a ser campeão. Depois foi na Itália, de Mussolini. E a Itália ganhou. Havia de voltar a ganhar, sem Mussolini, em Espanha, se a memória não me atraiçoa.
Depois da Suiça, foi a vez da Suécia servir um mundial. Foi o mundial de Pelé, menino prodígio.
Pelé devia ter quinze ou dezasseis anos quando jogou com o Belenenses, no Rio de Janeiro, pelo Vasco da Gama. O Vasco teve outro compromisso e apresentou um grupo de jogadores emprestados para defrontar os de Belém.
Salpicos de memórias que guardo do futebol, que me habituei a ver desde miudo e fui aprendendo com Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira. Permito-me acabar com um pequeno fogacho: durante décadas o Sporting nunca perdera com os algarvios. Bom, com o Olhanense, mais precisamente, porque era o dono e senhor do futebol algarvio. Mas uma vez, por mór do crescimento económico, perdão, desportivo do campeonato apareceu um tal Lusitano de Vila Real de Santo António. Esse Lusitano, dos baixos da tabela, conseguiu, num dia de semana, nem sei porquê, ganhar ao Sporting, para o campeonato. Muito por culpa de Pedroto, então na tropa, que se tornaria num imenso vulto do futebol. Dele só Pinto da Costa estará à altura de comentar...

quarta-feira, março 22, 2006

José Milhazes

O Mário Crespo tem aquele ar que afasta qualquer um do televisor, mas os anos foram-no ensinando e, o Jornal das Nove da cinco (Sic Notícias) tem dias que deve ver-se e ouvir-se. Ontem foi o caso. José Milhazes, com uma simplicidade absoluta, própria de quem sabe do que está a falar, dissertou sobre os probelmas da Bielorússia, explicando, quase como um professor e, sobretudo, com um bom jornalista, o que está em causa e por que razões a oposição se manifesta na rua contra a reeileição de um presidente que é a extensão do poder de Putin.
"Na passada", Mário Crespo aproveitou o saber de Milhazes e pô-lo a falar sobre as implicações da aproximação da Rússia à China. Voltou a ser claro, agarrando todas as pontas desta movimentação política, aparentemente contra a União Europeia e os Estados Unidos, mas, de facto "contra natura", como ele afirmou.
Não posso deixar de saudar José Milhazes pela recuperação que faz do papel dos jornalistas para um lugar de onde, progressivamente, foram afastados, o do comentário, agora preenchido por políticos profissionais que utilizam os tempos de antena que lhes oferecem, não para serem úteis, do ponto de vista da informação e do esclarecimento, mas para cuidarem das suas carreiras políticas.
São intervenções destas que podem devolver aos profissionais da informação a dignidade que têm vindo a perder limitando-se ao papel de "pés de microfone".
Claro que este Jornalista não tem a vida facilitada. Ele foi despedido pela Lusomundo da sua função de correspondente da TSF.

terça-feira, março 14, 2006

DESTINOS

Quem terá dito: quanto mais avançamos no futuro é o passado que encontramos? Tanto me faz!
Ainda que não acredite que o Benfica possa amanhã jogar com o Arsénio ou o Felix ou o Rogério, que marcou cinco golos numa final de Taça, ou o Xico Ferreira, que só tinha um pé, mas empurrava meio mundo à sua frente. Por muito que se sonhe há passados irrecuperáveis. Mas, de facto, outros surgem quase sem se dar por eles.
Estava a fazer a barba quando me ocorreu o ainda quase jovem Richard Burton a gritar: «cow» à sua, dele, esposa. Nem me lembro do nome do filme em português, mas, nem sei porquê, suponho ser«look back in anger». Ri-me porque a legenda traduzida foi «animalzinho»!
Não, não é minha ideia criticar o tradutor. Era bem tempo, aquele, de censura. Traduzir à letra a raiva do actor resultaria no corte da cena.
Mas porque carga de água estava eu a fazer a barba, porra! não é nada disto. A dúvida estava em querer saber porque é me me viera à memória tal cena do filme, do qual praticamente não me lembro de mais nada?
E voltei a rir. Era o dramaturgo ou coisa assim, Osborne, acho eu. Ele tinha dito, uma boa dúzia de anos antes do Maio de 68, «em cada cinco americanos deviam matar-se seis»! Por esse tempo ainda o Médio Oriente era uma coisinha tipo quarto das criadas, a Pérsia ainda tinha chá (ou Xá?) e o inimigo convicto era a «negra segóvia», como se dizia no café a propósito da União Soviética. Dramaturgo com espantoso poder de síntese e antevisão notável. Nem Bid Laden hoje diria melhor!
O capitão Morgan, pirata-heroi, ia mar fora, à vela, à procura de oiro e especiarias, especialmente joias, que circulavam muito, e muitas clandestinamente, pelos mares. Alguns dos
«morgans» foram presos, deportados ou abatidos. Parecia mal ir sacar o que era dos outros.
Os «morgans» hoje vão fanar petróleo e deles é o reino dos céus. Alguns pagam caro, é verdade, mas são da ralé. O «capitão» persiste, manda muito e, sobretudo, manda cada vez mais carne
para canhão...
Pois é! também já se viu este filme. Lições não faltam, pois não, mas de cada vez custa mais aprender a ler...

segunda-feira, março 13, 2006

O Mundo dos Negócios Ensandeceu

Falava-se...falava-se, mas não havia nada de concreto. De repente, o BCP, coma ajuda de Bento XVI e a benção do JPII avançou sobre os ímpios do BPI - o meu Banco, o Banco que, apesar de tudo, tem um comportamento mais ético, é o menos explorador, presta contas certinhas, essas coisas de que toda a gente gosta...
Uma OPA do BCP de Jardim Gonçalves (Opus Dei) e de outro, cujo nome ainda não sei mas que tem mais ar de sacristão do que o próprio Jardim Gonçalves sobre o BPI.
E o que é que aconteceu? O mercado, o "sacrossanto" mercado reagiu a favor do BPI, fazendo subir as suas acções mais de 25 por cento.
Como é que vão resolver este problema todos aqueles senhores que ganham não uma pipa mas um tonel de massa para dizer coisas inteligentes, tomar decisões certeiras e, de repente, percebem que o mercado não os percebe?
O mesmo está a acontecer a Belmiro de Azevedo. Afinal, a sua tão cantada capacidade de gestão deu resultados muito maus para as várias SONAE'S, o que vem demonstrar a sua inequívoca vocação para merceeiro, porque, apesar da "Escola de Chicago" o aconselhar, ainda não conseguiu desfazer-se do negócio de distribuição - afinal a sua grande tesouraria.
O entusiasmo da Bolsa de Valores de Lisboa tem-se revelado como uma sessão de fogo de pólvora seca.
Algumas notas de rodapé: ao salientar o carácter merceeiro do engº Belmiro, que, ao contrário do que a sua propaganda acentua, não lê um livro há anos, não estou a defender o novo Conselho de Administração da PT - a maior parte dos seus membros nem merceeiros conseguiria ser... Espero, de resto, que o Estado recuse este CA para a PT, já que é um núcleo lacaio do BES.
Já agora: por que razão não tentou o BCP uma OPA sobre o BES ?- um hiopótese muito falada. Será que os homens da Opus Dei tiveram medo de descobrir o diabo por detrás dos cofres que a Judiciária encontrou fechados nas casas de altos funcionários de Ricardo Salgado, sem que estes tivessem, sequer, acesso aos respectivos segredos de abertura?
Por que razão a Judiciária ficou, de repente, sem meios para a investigação dos crimes económicos?

quinta-feira, março 09, 2006

A OPA e os Pequenos Accionistas

Portugal, em pouco mais de dez anos, passou de uma economia cujos fundamentos eram governados, determinados e definidos pelo Estado para um sistema de capitalismo mais ou menos selvagem, instalado em cima da ideia generosa de um capitalismo popular, em que todos, mesmo os trabalhadores de menores rendimentos, poderiam partilhar a propriedade dos grandes colossos económicos.

O processo de privatização das grandes empresas públicas – que ainda não terminou – foi uma fase que resultou na apropriação dessas grandes empresas por grupos económicos que, servindo-se da dispersão do capital, utilizavam e utilizam a sua concentração de votos e o alheamento da maioria para impor as suas leis e retirar benefícios, muitas vezes ilícitos.

Com a Oferta de Aquisição Pública (OPA) de Belmiro de Azevedo sobre a Portugal Telecom, o maior grupo empresarial português, entrámos numa outra fase da transformação da organização económica nacional. Aqui já o papel do Estado é posto em causa e os pequenos capitalistas desprezados e tidos apenas como instrumentos a quem, facilmente, se pode virar a favor ou contra um dos contendores.

Porque, de facto, esta OPA é uma contenda, quase uma guerra, com um palco privilegiado, a Bolsa.

Os grandes espectáculos de comunicação levados a cabo por Belmiro de Azevedo e pelo Conselho de Administração da PT têm o mesmo alvo, mas os processos utilizados são errados. Nenhum deles acreditou alguma vez na capacidade de os pequenos accionistas decidirem da venda ou manutenção das suas acções por uma outra razão que não um pequeno ganho financeiro. São pobres…pensam eles

A verdade é que os pequenos accionistas podem decidir – desta vez – para que lado penderá a balança.

Basta, para tanto, que não tenham vergonha do pequeno número das acções que têm e que exijam ser esclarecidos, quer por Belmiro de Azevedo, quer pela Comissão Executiva da PT de algumas coisas importantes.

Entre elas não conta, por exemplo, saber quem está por detrás da Sonae, se a Deutchtelekom se outra coisa qualquer.Mais tarde ou mais cedo o grupo PT será recordado como mais um projecto que passou, como o ouro do Brasil, a pimenta do Oriente e os milhões da CEE.

Interessa sobretudo que Belmiro de Azevedo esclareça se as acções dos pequenos accionistas lhe vão servir mais do que de entesouramento. Se a empresa, nas suas mãos, vai finalmente, servir para instalar os instrumentos necessários ao advento da sociedade de informação, tanto em Lisboa como em Freixo-de-Espada-à-Cinta, se a alienação de uma das redes significa melhoria na prestação de serviços a mais baixo preço.

Os mesmos esclarecimentos são necessários da PT, cuja comunicação interna é um reflexo da atitude arrogante do seu actual Conselho de Administração, já que, mesmo dentro da empresa, só considera os que, provavelmente, têm um volume importante de acções.

Do Governo, os pequenos accionistas devem exigir que esclareça o que vai acontecer num caso ou noutro: se a OPA for ganhadora, os pequenos accionistas precisam saber se o Grupo PT vai ficar parado para poder financiar a operação, isto é, se Belmiro vai pagar a PT como dinheiro ganho pela PT

Os pequenos accionistas, que além disso são trabalhadores da PT precisam saber da Sonae muito mais coisas. Por exemplo, o que vai ser feito com o seu fundo de pensões, se os seus direitos vão ser respeitados, se as suas organizações sindicais podem desenvolver a sua acção, etc.

Da parte do governo, os pequenos accionistas precisam saber se há acordo quanto à substituição deste Conselho de Administração por um outro, que é um verdadeiro clone do que agora termina o seu mandato, no caso de a OPA não sair vitoriosa. Na outra hipótese, os pequenos accionistas precisam saber se ela resulta em benefício para os clientes e se as instâncias responsáveis por zelar por esse desiderato vão ser accionadas em caso de não cumprimento das leis da concorrência.

terça-feira, março 07, 2006

Finlândia, o Exemplo

O Engº. José Sócrates foi à Finlândia para, segundo os jornais, a Rádio e a Televisão, tentar descobrir as razões do sucesso de um modelo de desenvolvimento económico - o da Finlândia.
Não me parece que o consiga numa curta viagem, tanto mais que o modelo finlandês tem as suas peculariedades, desde logo por se tratar de um país com um Inverno a sério de nove meses.
Todavia, o engº. bem podia nomear uma comissão de sábios, sábios e não os amigos dos primos para lhe relatarem algumas das aparentes razões dos níveis de conforto alcançados pelo povo suomi.
Tal comissão não deixaria de constatar que a Finlândia é o país com o maior índice de leitura do Mundo, aquele onde se traduzem mais livros, aquele onde os professores , para além de uma formação adequada, têm, da parte da sociedade, o respeito devido, bem como as remunerações compatíveis com a sua importância no sistema.
Tal comissão de sábios também não deixaria de anotar que a Finlândia desenvolveu em cascata uma série de capacidades no domínio das novas tecnologias que se traduziram na concretização de indústrias altamente rentáveis e adpatadas às condições demográficas e climáticas do vasto território, com apenas cerca de seis milhões de habitantes.
E a cascata começou com a Nókia, inicialmente uma indústria de borrachas, que rapidamente se transformou na fábrica de um das marcas mais prestigiadas de telemóveis do Mundo.
Ora, em Portugal, além de ninguém (ou quase ninguém) ler o que quer que seja, os professores representam desde há muitos anos uma espécie de saída de "serviço" dos milhares de cursos que as dezenas de universidades foram inventando, desde que apenas precisassem de papel e lápis para ser ministrados.
O resultado disto é a existência de uma sociedade com diversos graus de analfabetismo e onde os amigos dos primos, logo a seguir a estes, são sempre os mais capazes.
Quanto a empresas, a única que poderia iniciar a tal cascata é a PT, que tem sido gerida por um punhado de oportunistas e incapazes de perceber o real papel da empresa e a transformaram numa companhia de especulação financeira.
Ora, o engº. Sócrates ainda pode fazer alguma coisa a este respeito: dar indicações claras de que não aprova e não deixa que se concretize a OPA do verdadeiro predador que é Belmiro de Azevedo e, por outro lado, não deixar que esta administração de incompetentes e oportunistas seja substituída por outra ainda mais ignorante e incompetente e igualmente oportunista
Afinal, a ida à Finlândia pode ajudar...

sábado, março 04, 2006

A Loira da Rua 48 e a Nova Vizinha.

As habituais tertúlias das entradas dos prédios da Rua 48 começaram a crescer, quer em tempo, quer em número de participantes, prolongavam-se já pela rua. O murmúrio foi ampliando-se. Toda a gente comentava e especulava sobre a vida e a sorte daquela senhora, sem abrigo, vivendo num carro.

De manhã lá estava ela, às vezes com calças de fato de treino - "deve ser o pijama" - comentava a D. Camila, a primeira a dar conta daquela situação verdadeiramente inusitada.

À hora de almoço, enquanto lê alguns papéis - por vezes o jornal - come fruta, pão...

" Um dia destes tinha a casa toda desarrumada" - exlica a D. Ermelinda, que agora resolveu cobrir os trinta cabelos com um capucho, daqueles que se usam na neve.

"A casa?" - perguntou o sr Manuel...

" A casa, sim, roupas, coisas e até lençóis, tudo desarrumado no banco de trás do automóvel".

Mais acima, outro ajuntamento comentava a mesma situação. Toda a gente queria saber o que teria acontecido à senhora do carro preto.

"Que forma estranha de viver... é assim uma espécie de sem abrigo de luxo! ", dizia a D. Francelina, a pensar na nora - talvez ela também quisesse ir habitar um automóvel... não podia era ser assim, como aquele, uma viatura de luxo.

Enfim, a Rua 48 vivia intensamente o drama da dama do carro preto. Para as senhoras mais velhas, aquilo era fuga de casa. "Seguramente o marido batia-lhe e ela não tem cara de parva, não aguentou, como no nosso tempo, que tínhamos de apanhar e calar" - era o pensamento quase unânime das mulheres.

Os homens da rua olhavam para a situação com outros olhos, desconfiados. Aquilo podia ser mau exemplo. "E, se, de repente, as suas próprias mulheres resolvessem sair de cada e instalar-se no automóvel?... Que raio de ideia aquela de as ter mandado tirar a carta. É verdade que assim elas também iam buscar as crianças à escola e iam sózinhas às compras, mas esta... fazer do carro casa nem ao diabo lembrava."

E havia os outros, os que pensavam na hipótese de uma aventura... talvez a senhora tivesse "loja" montada no carro. Então a D. Ermelinda não tinha dito que lhe tinha visto a casa toda desarrumada...

"E será que tem filhos? "... interrogava-se o senhor dos sacos, o sr. Abrantes.

"Que drama!" - era a expressão mais ouvida.

E logo agora que a D. Vitória tinha falecido. A quem pedir conselho sobre a atitude a tomar? A Rua 48 estava numa verdadeira confusão. Foi o sr. Ferreira, o homem da garagem, que se lembrou; "... mas nós temos uma nova líder, a nossa Loira..."

E lá foi uma delegação a casa da Loira que há dias não aparecia na rua, depois que foi ao funeral da D. Vitória.

Apareceu à porta com as filhas. Marilú e Francisquinha estavam tristes, abatidas, gostavam tanto sair e a mãe, nos últimos dias, só queria estar em casa.

" Então, o que se passa? "- perguntou com voz triste.

Toda a gente queria falar ao mesmo tempo e logo ela, muito calma, serena, disse: "então? ... assim não nos entendemos. Um de cada vez. Sr. Ferreira, explique lá o motivo de tanto alvoroço".

Muito lisongeado, o sr. Ferreira, descreveu a situação da senhora que vivia dentro de um carro, ali mesmo na Rua 48 e ninguém sabia donde ela tinha vindo, quem era, o que fazia, essas coisas todas.

"Mas, então, as pessoas são livres para viver onde quiserem, mesmo na rua. O que é que vos preocupa? Estou mesmo a ver que é só curiosidade mórbida... Já se interrogaram sobre se a senhora precisa de alguma ajuda?...."

Era verdade, ninguém tinha posto essa questão.

A loira agarrou nas suas filhas e lá foi com a delegação para a rua. Chegados perto do carro preto, ela e as filhas aproximaram-se. Bateu no vidro da janela do lado onde estava a senhora a ler um livro.

Cá de longe, o resto da rua observava a cena. A loira entrou no carrro. As meninas ficaram muito sossegadas, sentadas, uma de cada lado da mãe, no banco de trás.
- A senhora desculpe a minha aparente intromissão na sua vida, mas sabe, esta é uma rua muito especial. Aqui toda a gente sabe de tudo e quando acontece alguma coisa que não consegue explicar, as pessoas ficam excitadas, nervosas. E confiam em mim...
- Já percebi - respondeu a senhora do carro preto - primeiro que a senhora é a líder da rua e depois que toda a gente está muito curiosa pelo facto de me ver aqui durante algumas horas do dia e até da noite...
- É isso mesmo... quanto à liderança... enfim... estamos num processo difícil por causa da morte da D. Vitória... mas em realção ao resto é assim mesmo.
- Então eu explico: sou professora do Ensino Secundário, sou do Norte, tenho lá a família, dois filhos e o marido. Acontece que fui colocada numa Escola nos subúrbios de Lisboa... uma coisa verdadeiramente horrível, mas eu não posso deixar de dar aulas, porque, entretanto, o meu marido ficou desempregado.
- Só desgraças...
- Não diria tanto, mas não tem sido agradável, tanto mais que alugar uma casa naquele subúrbio não faz sentido, em Lisboa são muito caras, bem como os hotéis. Ora, como preciso de poupar o mais possível, resolvi trazer o nosso carro para baixo, fazer dele a minha casa e alimentar-me de uma maneira saudável e barata.
- Estou a perceber...
- Para não ter sempre de andar à procura de lugares seguros onde possa estar, resolvi, depois de ter experimentado vários locais, fazer desta rua a minha rua. A verdade é que já gosto da 48 e das pessoas. Têm um ar simpático, embora me pareça que comunicam pouco umas com as outras..O meu carro é a minha casa. Tenho esperança de que em breve o meu marido possa arranjar emprego para tudo voltar à normalidade. Ele é engenheiro e agora com esta coisa do choque tecnológico, vai, seguramente...
- ...Estou a ver que a senhora é uma optimista. E ainda bem. O tal choque tecnológico não me parece mais que conversa, mas a esperança é a última a morrer... vou então esclarecer a minha gente, explicar-lhes os motivos da sua presença aqui. Terei muito gosto em convidá-la para um chá na minha casa...
- Oh!.. muito obrigado, mas não se incomode.
- ... Combinamos depois, agora tenho que ir... estão todos nervosos.
- Muito obrigado pela sua atenção.
Quando a Loira saiu do carro preto, toda a gente se aproximou dela para saber o que se passava com aquela personagem misteriosa.
Explicou. Houve um movimento de surpresa geral. Toda a gente estava à espera de uma estória passional, de violência doméstica, ou coisa assim.
- Pronto. Está tudo esclarecido, temos mais uma vizinha. O melhor é tratar-mo-la bem. Esta rua tem mais uma casa, que, por acaso é um carro. Espero que os da Câmara não se lembrem de cobrar contribuição autárquica. Coma falta de dinheiro com que andam devemos esperar tudo.
Até depois...
E lá foi a Loura da Rua 48 para casa, contrariando a vontade da Marilú e da Francisquinha. Mas, para ela era ainda tempo de luto por causa do desaparecimento da D. Vitória.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

POBRE MEXILHÃO

Este ano, se ainda for a tempo, vou tirar um curso. Um curso bem difícil, por sinal: ler e entender os jornais diários deste país. Semanários não conta, mesmo que se entendam são caros e chatos para quem não disponha de lacaio para carregar o lixo!
Por vezes esforço-me por entender, sobretudo as manchetes, que nem precisam de óculos. É verdade, reconheço, que alguns dispõem de cronistas brilhantes, através dos quais, dias depois, se entendeu alguma coisa do que o corpo de jornal «gritou» dias antes. Mas é, convenhamos, uma maneira laboriosa de chegar ao assunto.
Ainda recentemente li algo sobre o Presidente se dispor a condecorar o último dos moicanos, o que permitiu ao poeta da Rosa ir a Belém, antes de chegar à fala com o patrão que lhe roeu a corda. Para inchar a notícia fez-se um resumo alargado do que, decerto, estaria nas entrelinhas. E lá veio a sobreposição de Sócrates sobre Alegre, na noite das eleições. E lá veio o atropelo de que Golias abusava e que David se viu coagido a ultrapassar.
A história, claro, tem sido mal contada. Não foi o primeiro-ministro que pulou sobre o rebelde socialista, foram as cadeias de televisão que fizeram a opção, que se estiveram borrifando. Não vou afirmar que o fizeram por subordinação ou dependência. Por estupidez, isso, sim, disso não restam dúvidas. Para amarfanhar o «grande vencido» atropelaram o único ileso da esquerda tresloucada.
Mesmo assim, o primeiro-ministro deveria ter dirigido uma censura pública ao servil canal televisivo do Estado e desse modo evitado que os matutinos tratassem o incidente como quem lava roupa suja..
Também é justo salientar que por vezes as asneiras desmioladas que dos organismos do Estado
chegam à praça, isto é, às manchetes, resultam de muito desleixo, de alguma incompetência e de não pouca irresponsabilidade, como foram por exemplo os casos das «dívidas fiscais» de Herman José, a libertação, medonha e incompreensível, de dois assassinos já condenados ou o caso mediático das escutas telefónicas. Ainda hoje li na imprensa matutina que um juiz do TIC de Lisboa entendeu aceitar a devassa aos computadores do jornal. Tudo isto deixa no ar a ideia de que se pretende tapar o Sol com uma peneira. De facto tanto na PGR, como nos TIC do país, ou no Sporting, por outras razões, parece haver imensa peneiras ou, como diz o outro, quando o mar bate na rocha...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Sócrates Ralha Com Quem?

Recordo-me bem dela. Chamava-se Lourdes e o marido trabalhava num Banco. Tinha uma filha da minha idade. Foi minha professora na Escola Primária durante quatro anos seguidos. Entrava na sala de aula, numa Escola da Rua dos Combatentes em Coimbra, perto do sítio onde andavam a construir o Estádio Municipal, uma antiga garagem, e não um daqueles edíficios esmagadores do estado novo e ainda vinha lá no átrio e já vinha a ralhar.
Ralhava e batia. Tinha uma palmatória, a chamada "menina de cinco olhos", redonda, com cinco furos e, porque não estava para ser ela a bater, arranjava algumas maneiras de nos pôr a bater uns nos outros. Não havia raparigas. A Escola feminina era na outra porta ao lado.
Sempre me lembro dela quando o engº. Sócrates aparece na Televisão ou o ouço na Rádio. Está sempre a ralhar. Oh! Homem, deixe de estar zangado. O país está mal, mas sempre esteve assim. Procure ser mais simpático e - dessa maneira - talvez nós acreditemos mais em nós mesmos-
Oh! Engº., o sr. nem imagina o esforço que todos tínhamos de fazer para aprender alguma coisa com aquela senhora professora, que, ainda por cima, levava a filha à sala de aula para a exibir, primeiro, porque a miúda era linda e , depois, porque sabia tudo quanto ela lhe perguntava.
O povo não tem culpa de há séculos ter elites desonestas, trapaceiras e ignorantes. Fique calmo. É que, a mim, por exemplo, ainda me custa pensar naqueles quatro anos dolorosos, quase tanto como outros tantos, os da tropa, onde descobri outra cáfila de vigaristas, que, em nome da Pátria, abriam contas frescas nos Bancos da " metrópole".
Oh! Senhor eng., pela sua avózinha, que há-de ter estórias ainda piores que as minhas para contar, sorria, fale em sossego, explique bem as coisas e não dê a ideia ao povo de que "esta coisa de governar é uma coisa muito difícil, temos sempre de estar a gemer..." Vá lá, keep cool".

domingo, fevereiro 26, 2006

Leonor Coutinho

Os jornais dos últimos dias trazem noticiada a grande surpresa: Leonor Coutinho candidata-se à liderança da Concelhida do PS em Lisboa.

Por mim digo: até que enfim!

Era já tempo de esta mulher, verdadeiramente notável, a quem o PS e Portugal devem algumas das mais brilhantes soluções de problemas que agora parecem fáceis - assim como uma espécie de ovo de colombo - resolve enfrentar, dentro do seu próprio partido , todos quantos não lhe desculpam o facto de viver segundo as suas convicções.

O PS de Lisboa entregue a esta Matemática, com capacidades várias no domínio das ciências sociais, particularmente devotada ao próprio partido e à administração pública, será, seguramente, uma força política mais útil aos lisboetas.

Força!

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

ATRIBUTO OU ACESSÓRIO

Era, no antigamente, uma expressão gramatical, quando havia a oração, o sujeito da mesma, o predicado, o complemento directo, cabia ainda o atributo ou acessório. Ocorre-me a propósito da tolerância ou da intolerância: no fim de contas o mesmo, às avessas. Começa logo porque a tolerância não pode ser imposta e a intolerância não deve ser aceite. Lembro-me quando a França decidiu retirar os símbolos religiosos das escolas oficiais os imigrantes muçulmanos reagirem tempestuosamente, apesar de instalados em solo alheio. Podia acrescentar que a inversa não seria possível: nos países muçulmanos os escassos estrangeiros não têm direito a discordar. E os naturais também não!
No entanto, em França, foi possível discutir o assunto e os muçulmanos manifestarem-se contra, enquanto os franceses, católicos ou não, se mostravam indiferentes, salvo os movimentos feministas, que apoiaram claramente a directiva governamental, porque acima da querela religiosa batem-se por direitos humanos e pela igualdade de sexos.
Quando nos anos 60 os jornais franceses levantaram a questão dos «bidonvilles», o problema era sobretudo português, de portugueses, melhor dizendo. A emigração lusa tinha disparado. O imigrante tinha de sobreviver e alimentar a família, deixada em solo pátrio. Parecia difícil, mas em poucos meses as barracas desapareceram e os portugueses realojaram-se e integraram-se.
Hoje os bairros de lata proliferam por cá. Vê-se que não aproveitamos a lição.
Mas a questão, agora, é outra e bem mais delicada: que fazer com a reacção às gravuras?
Ora, nenhuma comunidade muçulmana emigrada se manifesta por si. Nem no país de acolhimento, nem no de origem. As manifs são orquestradas, quer dentro, quer fora. São ateadas por motivação política e não religiosa. O fanatismo religioso muçulmano é sobretudo uma arma
para expandir o ódio pelos ocidentais...
Claro que nós, ocidentais, não somos meninos de coro. Se o fossemos não teríamos ido ao Iraque como fomos e provavelmente já se marcaram lugares nos próximos comboios para o Irão. E que
irão eles fazer?

Estaremos nós a ser empurrados ou estamos nós a empurrá-los?

Ao considerarem-se as gravuras um pretexto parece razoável retirar a carga sobre a liberdade de expressão, posta em causa. Acho que, pelo contrário, se deve aproveitar para definir regras.
Nos últimos tempos houve muita matéria para justificar uma chamada de atenção. Assistimos a um jornal fazer a apologia do patrão, interessado num negócio faustoso. Leu-se o texto de fundo, do director obrigado a mote. E soube-se que a redacção de um jornal foi devassada por um poder que pode pouco em relação ao que devia poder, mas que nem consegue encontrar explicação para a sua inoperância e sem o que o Presidente da República (reparem que eu não falei de bananas!) se manifestasse, apesar dele próprio ter sido devassado e disso ter dado conta!
Há excessos de liberdade e excessos de debilidade. Não ponho em causa o direito de um ilustrador fazer bonecos. Contesto o responsável (editor, chefe de redacção ou director) da publicação, que deve medir e pesar as consequências. A liberdade de expressão consiste muito
na avaliação e responsabilidade.
De algum modo, a questão ocorrida na Lusa é reflexo de falta de controlo. A redacção andou, e provavelmente continua a andar, à balda. Nem chefe nem director coordena o serviço. Redactores e reportagem não podem fazer o que lhes apetece, fazem o que lhes mandam e submetem o trabalho à apreciação da chefia.
Pois é: há chefias que não chefiam, como há procuradores que não procuram onde devem. E destes deviam haver cada vez menos...

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A Loira da Rua 48 e D. Vitória

Ninguém sabia ao certo a idade da Dona Vitória. Era uma lenda da Rua 48. A propósito dos tempos idos, quando, a noite era desassossegada pelas botas da polícia, pelas batidas fortes na casa de algum vizinho considerado subversivo... Ou, em tempos mais recentes, quando automóveis enormes e pretos circulavam com as luzes apagadas rua acima, rua abaixo, à procura de indíciosde reuniões clandestinas...sempre se falava da D. Vitória.

Uma mulher intrépida, capaz de enfrentar todas as situações. Alta, desempenada, cabelos brancos, presos na nuca, de olhos brilhantes, sempre que passava a Rua 48 ficava em sentido: "bom dia...boa tarde, D. Vitória..."

Tinha sempre uma palavra especial para cada um, às vezes apenas um sorriso cúmplice, que lhe ficou dos tempos das grandes lutas, das manifestações cidade acima na reivindicação das grandes transformações sociais do país depois do 25 de Abril.
Era uma verdadeira líder. Foi ela que mobilizou sempre o povo da Rua para que as autoridades municipais atendessem as suas reivindicações.
Contava-se mesmo que os presidente de Câmara não dispensavam uma visita à casa da D. Vitória, depois de serem eleitos e mesmo antes das eleições. Conta-se também que alguns deles não conseguiram entrar, mesmo depois de eleitos.
Algumas das estórias de D. Vitória eram como que lendas que se contavam no Clube, nas tertúlias familiares ou mesmo de rua, daquelas que se montam em cima de um muro, numa esquina.
Uma destas, por exemplo, explicava com todas as letras como é que D. Vitória tinha escondido um dos netos debaixo das saias, quando a PIDE o foi procurar para o levar sabe-se lá para onde. Nunca o encontraram e levaram mesmo uma corrida quase a pontapé.
A Rua tinha um orgulho especial na sua heroína, na sua D. Vitória.
Ali estava ela, agora, rodeada de flores, com um sorriso de quem cumpriu a sua missão. Mãos colocadas sobre o peito, parecia, ainda que morta, continuar a olhar pelo seu povo, ali reunido para o último adeus.
Lá estava o sr. Cristo, impecável, no seu fato mais domingueiro, de cabelo castanho escuro impecavelmente penteado. Toda a gente se interrogava sobre o segredo daquela juventude, já que ele era dos que contava grande parte das estórias de D. Vitória de tempos idos e difíceis.
O povo também contava que ele, o sr. Cristo - nome com enormes responsabilidades - tinha pedido a D. Vitória para tomar conta, para...educar os seus filhos, mas que estes, preferiram, depois de alguns conselhos de D. Vitória, emigrar. Andam, agora lá pelos Estados Unidos ou pela França.
Hão-de saber, seguramente, ainda que mais tarde, do passamento de D. Vitória, um acontecimento que deixou a Rua 48 completamente entristecida. Sobretudo a Loira da Rua, aquela senhora de quem temos vindo a contar alguns episódios da sua vida, delas e de suas filhas adoptivas, Marilú e Francisquinha.
É que D. Vitória tinha feito dela como que a sua sucessora na liderança do povo daquela rua. Passavam horas à conversa : a D. Vitória sentada numa cadeira de balanço e com um enorme sorriso, a ouvir aquilo que considerava serem as aventuras da "sua menina".
Quando a Loira da Rua 48 entrou no salão paroquial, com as suas duas meninas, cada uma delas com um enorme ramo de rosas, umas brancas e outras amarelas, o povo olhou e grande parte das pessoas que ali estava deixou que lhe caissem algumas lágrimas pela face. No rosto da Loira, habitualmente risonho, feliz, como se a vida se desprendesse dos seus olhos, perpassava uma tristeza desmedida.
Com um enorme cuidado para não dar nas vistas, rosto inclinado para o chão, aproximou-se da urna de D. Vitória e pediu às suas meninas que colocassem junto de todos os outros ramos de flores as suas rosas.
Ela debruçou-se por sobre o corpo da defunta e tirou de dentro de um saco dois cravos vermelhos para colocar entre as mãos de D. Vitória. O salão paroquial como que estremeceu em uníssono por aquele gesto cheio de simbolismo. Estava consumada a transferência da liderança.
A velhinha que sempre diz mal da nora e passa a vida na loja do chinês a pedir ao chinês ainda mais pechinchas, inclinou a cabeça, o sr. alto, bem apessoado, que ao fim da tarde carrega sacos chiques para casa, a senhora que chega ao fim da tarde, meio a cambalear, os barrigudos que tomam conta do clube e vão bebendo cerveja enquanto não chegam os sócios para discutir a vida da instituição, até o sr. Cristo, todos eles inclinaram a cabeça em direcção à Loira da Rua 48.
A D. Ermelinda que só tinha sabido do infausto acontecimento naquela hora, quando entrou no salão paroquial percebeu que, para além da morte de D. Vitória, algo de muito importante se passava e ajoelhou.
O sr. Manuel encolheu a barriga e sorriu.
A Loira da Rua 48 sentou-se numa cadeira, bem à frente de todos, junto a D. Vitória, ficou recolhida por alguns instantes e depois, levantando-se, falou para toda a gente:
- " Morreu uma grande mulher, que sempre esteve connosco nas horas más e nos deixou viver as horas boas. É justo que lhe prestemos a nossa homenagem e saibamos ser dignos da sua história. O povo da Rua 48 não pode trair a sua memória".
Toda a gente assentou com a cabeça. Havia lágrimas nos olhos de alguns dos presentes.
Marilú e Francisquinha olhavam para a mãe admiradas. Nunca a tinha visto tão profundamente emocionada e agarraram-se ainda mais a ela.
Naquele dia começava a estória da liderança da Loira da Rua 48, que os poetas, mais tarde haveriam de cantar.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A Loira da Rua 48 Apagou o Incêndio

A Rua 48 foi alvoroçada durante aquela noite de Fevereiro em que o vento tocado a muitos quilómetros por hora deitou muitas das antenas de televisão por terra, destelhou algumas casas e assustou as velhinhas, assim como a D. Ermelinda, que já se habituou aos barulhos estranhos da vizinha de cima, mas nunca imaginou que o vento lhe abanasse a própria cama. Parecia coisa do demo...

Mas mais alvoroçada ainda ficou quando ouviu os carros dos bombeiros a buzinarem rua abaixo , rua acima, e os homens fardados de vermelho a saltar apressados, a esticar mangueiras e a montar escadas, a apontarem com a cabeça e as mãos o cimo de uma das casas, de onde saía uma fumarada.

- "É fogo! É fogo! "- repetiam as pessoas, assim como palavras ecoando em vales: é foooogooo!!!

Na casa da Loira da Rua 48.

Embrulhados em cobertores ou simplesmente vestidos de roupões, alguns deles visivelmente de Verão, visivelmente abertos a deixar ver ou somente antever as partes púdicas... é bem verdade que alguns deles já nem partes têm, mas é só para se perceber a aflição daquela gente quando verificou que o fogo, ou antes o fumo, vinha da casa da Loira da Rua, a sua heroína.

- "Meu Deus.. e as meninas ? como estarão as meninas?" - interrogava alguém, visivelmente aflito.

A D. Ermelinda saiu do prédio com as mãos na cabeça (não se sabe se para se proteger de alguma coisa, se para tentar pentear os trinta cabelos que lhe restam..)

Os bombeiros subiam e desciam e, de repente, começaram a enrolar as mangueiras, donde não tinha saído uma pinga de água, desmontaram as escadas "magirus", entraram nos carros vermelhos a bater as portas e foram para socorrer outras desgraças.

Estava o povo da Rua 48 a ajeitar os roupões, a compor os cobertores, a dar um jeito nos cabelos despenteados ( aquele sujeito que pinta o cabelo às quatro da manhã estava com meia cabeça branca e outra meia castanha...), quando, arranjada como deve estar alguém que se prepara para dar uma explicação à sua gente, a loira da Rua 48 abre a porta e aparece com as suas duas filhas.

O povão correu para junto delas. Ia toda a gente começar a falar ao mesmo tempo... mas ela não deixou. Com um sinal, feito de dedo na boca, ordenou silêncio.

- "Primeiro, eu explico, depois vocês perguntam..."

- "Qual depois...queremos saber tudo e já..."

- "Oh! mulher, quantas vezes já lhe disse para não aparecer em público com essas raízes à mostra. Porque não faz ali como aquele sujeito e não pinta o cabelo às quatro da manhã? E, agora, se querrem saber o que de facto aconteceu. fiquem calados e ouçam..."

Voltou a fazer-se silêncio.

- " - É que eu tinha umas velas junto do retrato da irmã Lúcia e de umas flores e o ventou juntou o que não devia juntar, a chama das velas com o papel da fotografia e as flores. Começou uma grande fumarada e eu, cautelosa, para que a cera das velas e os restos mortais da santa não provocassem alguma explosão, não deitei água, só soprei. O fumo começou a sair pela chaminé e aqui o nosso vizinho, aquele fininho ali, que, mesmo com chuva e vento tem que ir fumar para a janela, resolveu chamar os bombeiros...

- "Mas que santa?" - perguntou a velha encarquilhada que costuma ir discutir preços com o chinês da loja do chinês.

- "A santa Lúcia, pois quem havia de ser... aquela que vai para Fátima..."

- " Mas ela ainda não é santa..." - respondeu a velhota, esganiçando-se ainda mais.

- "Diz muito bem: ainda não é... mas vai ser. A esta hora o Papa João Paulo II está a tratar de tudo lá no céu. Por isso lhe acendi umas velas..."

- "Mas, a senhora podia ter feito isso com luz eléctrica, as velas são muito perigosas..."

- "Oh ! senhor Manuel, o senhor julga que eu estou para encher os pançudos da EDP?. Há muito que só uso velas. Velas que compro no chinês, muito mais baratas que noutro sítio. E a D. Mariquinhas também não deve andar a acender as lâmpadas porque eu também a lá vejo a comprar velas..."

A senhora mais velha que negou a santidade de Lùcia saiu de fininho e fechou a porta de casa devagar, ao contrário do que costuma fazer.

- " E pronto, acabou o comício. Eu e as minhas filhas, apagámos o incêndio com meia dúzia de sopros e assim também não subimos a conta da EPAL. Boa noite. Não se esqueçam de se agasalhar que a noite está fria..."

E lá foi ela, com o seu ar de mulher firme, com as duas filhas, uma em cada mão, para sua casa. Mas ainda teve tempo para ouvir de uma das vizinhas o quão estava espantada por ter descoberto na Loira da Rua 48 uma devota: "é uma santa mulher... é uma santa mulher".

A Loira ficou, todavia, sem saber se a vizinha se referia a ela ou à irmã Lúcia.

domingo, fevereiro 19, 2006

A Rádio do Nosso Descontentamento

Nos últimos anos o Mundo mudou a uma tal velocidade que se demoramos a reparar nas mudanças corremos o risco ser ultrapassados. E mudou de todas as maneiras e em todos os sectores. A vida de hoje não tem nada a ver com a vida de há vinte, quinze, dez anos.
As mudanças tiveram também vários sentidos: houve mudanças boas e mudanças más, mesmo considerando a carga subjectiva da classificação.
A Rádio, por exemplo, do ponto de vista da tecnologia, conheceu diversas revoluções e hoje fazem-se coisas inimagináveis há alguns anos.
Todavia, do ponto de vista da qualidade de quem "faz" essa Rádio servida por uma tecnologia estrondosa, as mudanças foram para bem pior.
E o resultado é uma Rádio praticamente impossível de ouvir, apesar da pureza do som, sem sopros de emissores, sem distorções, sem brancas, sem todos aqueles precalços que faziam da Rádio também uma aventura.
Há, obviamente excepções: Na Antena 1 o Rafael Correia e o José Nuno Martins e na TSF, o Fernando Alves.
Eu deixei de ouvir Rádio sistematicamente, como fiz durante anos. Agora, já nem no carro. Tenho a " minha música" armazenada e é essa que ouço.
Logo pela manhã percorro os diversos noticiários, das diversas emissoras. São todos iguais, muitas vezes com os mesmos erros que se repetem ao longo do dia.
Sempre que tento retomar o velho hábito da Rádio como companhia desisto: do outro lado está alguém - agora são mais vozes femininas que masculinas - a dizer uma vulgaridade, a lembrar-me as horas, a falar do tempo ou do trânsito. Quando arriscam qualquer outra coisa temos piroseira... E isto para não falar da música que nos "obrigam" a ouvir.
Para os momentos em que, por alguma razão, não tenho disponibilidade para a "minha música" sintonizo-me na ClassFM. Aí não tenho que ouvir ninguém e a música agrada-me.
Que saudades da Rádio feita por gente que a fazia como se de um sacerdócio se tratasse e não uma profissão legitimadas por um canudo!!!

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A OPA da PT É Um Festival


A VER A OPA A PASSAR?

Quem se lembra do filme «Wall Street» poderá ter uma ideia do que se passa no mundo da Bolsa e neste caso da OPA à PT em particular.

Uma jogada do Passado

Após a fusão da Telecom Portugal (TP) com os TLP, o governo do Cavaquistão iniciou o processo da privatização. A nova empresa (PT) tinha sido avaliada à nascença por um consórcio internacional por 1,2 mil milhões de contos em 1994.
Iniciado o processo de privatização, o governo nomeou uma comissão avaliadora onde se incluia o BES e que determinou o valor total da PT para ser lançado no mercado de 600 milhões de euros. 50% menos, é obra!
E isto foi um escândalo na época, relatado nos jornais, como é que uma entidade avaliadora podia ser depois compradora também. Com isto, o governo de então fez que o Povo Português subsidiasse a fundo perdido com centenas de milhões de contos todos os compradores, tanto na Bolsa de Lisboa como nas de Nova Iorque e Londres. O Estado foi roubado!
Foi também o tempo das ilusões para os pequenos accionistas que ganharam algum dinheiro e acreditaram no disco governamental de então de “capitalismo popular”. Esfumou-se rapidamente.

A Jogada de agora

Se recordámos o que se passou há cerca de 12 anos, é para reflectirmos sobre a actualidade, nomeadamente o caso da OPA presente.
O governo Sócrates «vai pensar» e aguarda a assembleia de accionistas, diz, porque «as regras do mercado estão a funcionar».
Poderia dizer outra coisa agora?
Só “engole” esta quem quer.
Podia lá ser, um negócio deste tipo e tamanho (14 mil milhões de euros) não estar estudado, programado e combinado com o Governo Português, que detem as 500 acções de ouro (“Golden Share”) que podem vetar o negócio da sua vida, ainda por cima vindo da parte de um empresário “apartidário” que sempre tanto tem ajudado os partidos dos governos e que confia agora ainda mais em Sócrates em particular?
Necessariamente, que o governo vai esperar para ver como reage a oposição (BES, Telefónica e outros) e ver “o clima político” para poder ou não aceitar o combinado e preparado há muitos meses atrás e para o que contou com a má gestão da actual Administração da PT.

A “festa” da comunicação social

Como se vê pela comunicação social, “a festa” que vai pelos “especialistas” e “espertos” bem pagos a “botar faladura” sobre os “méritos” da operação bolsista, são já às dezenas e todas convergem numa coisa, o Povo Português e os trabalhadores da PT, assim como as suas organizações representativas, CT e Sindicatos, os milhões de clientes parecem arredados de tudo, apenas reservados ao papel de espectadores para «Ver a Banda Passar».

Vai haver contra-OPA? Não vai? Gritam sorridentes os “especialistas” ou “voz do dono”, pagos pelos donos do “festim”. Veja-se a censura ferrea que todos fazem a quem está dentro do assunto e não alinha com eles. Foi o que aconteceu no programa dos PRÓS da RTP. Dos 6 convidados, 5 pareciam a voz do sr.Azevedo.
O que é importante para eles?
Por exemplo, já sabemos pelos jornais, que o pai do sr.Azevedo era carpinteiro e a mãe modista, o homem trabalha 10 horas por dia, mesmo quando não está a fazer nada, contos de fada que fazem comover alguns corações, história igualzinha à de tantos milionários de negócios normalmente pouco claros.
Além disso, dizem os “especialistas”, trata-se de um grande grupo português, mesmo que para isso seja preciso “nacionalizar” o grupo francês ligado à Distribuição (Continente), a France Telecom e o dinheiro do financiador Banco Santander, o que é muito “patriótico”.

Afinal quem perde?

O emprego para milhares, o fundo de pensões, a PT-ACS (saúde), o AE, a estratégia nacional do sector, o desfazer do grupo PT e a sua venda a retalho para obter mais valias de muitos milhões, a concorrência, o ainda serviço social existente de telecomunicações, a I&D nacional (Centro de Estudos de Telecomunicações), etc, tudo isto está posto em causa nesta operação.
E claro, nesta altura em que tudo ainda se desenrola sem certezas, “as garras” ainda estão encolhidas até ao negócio se fechar, com OPA ou contra-OPA.

Porque que é que isto aparece?

A média europeia do PIB (produto interno bruto) entregue a quem o realiza, os trabalhadores, é 51%. Em Portugal é 40% (estatísticas da UE)
. Pois, 60% vai para os bolsos de pessoas como o sr.Azevedo.
O chamado neo-liberalismo ou capitalismo selvagem que os sucessivos governos, têm aplicado ao País há 30 anos e que em períodos eleitorais negam ou dizem combater, conseguiram levá-lo aos poucos, primeiro para o último dos 15 da UE e depois da entrada de mais 10 países, a curto prazo de ser o último dos 25 da UE.
Em que bolsos param os milhares de milhão de euros que a UE entregou a Portugal desde 1986?
Para isso, Portugal contou com homens como o sr.Azevedo, empresário bem cotado entre os 300 melhores milionários do mundo para o que precisa de operações como esta de desfazer a PT, para a venda ao retalho a quem der mais, como já disse. Nem um tostão o sr.Azevedo vai arriscar do bolso dele.

É por isso que esta operação relembra a acção do filme «Wall Street», onde homens virados para jogadas milionárias da Bolsa, podem comprar empresas, desfazê-las, revendê-las aos pedaços ou mesmo fechá-las para diminuir a concorrência de outras, completamente indiferentes, ao povo, aos trabalhadores, às familias e a tudo o mais que não seja o seu lucro imediato.

E as 500 acções de ouro e a consequente blindagem dos estatutos da empresa, uma das defesas contra a destruição da PT, dependem neste momento de um governo escolhido por muitos portugueses pelas abundantes promessas que realizou.
Não te deixes ficar «A VER A BANDA PASSAR»!
AA
REPRODUZO AQUI UM TEXTO E UMA FOTO QUE ME CHEGARAM VIA E-MAIL