terça-feira, novembro 29, 2005

IDAS E VINDAS

Vão e vêm quando lhes apraz e pelo caminho vão deixando muito da bagagem que levaram. Falo de ministros, de líderes ou presidentes, que não aguentaram a obscuridade da rectaguarda e voltam à boca de cena, plenos de revigorada aptidão. Guterres e Durão Barroso sairam, cada um deles, pelo seu pé. E sairam por falta de condições para governar. A ambos faltou golpe de asa para dar a volta por cima. O golpe de asa que permite o sucesso e garante um lugar na História.
Em 1926, o país estava de rastos, económica e politicamente. Cinquenta anos depois repetia-se o caos. A instabilidade económica e a intolerância política paralizava o mercado de trabalho. Em ambos os casos foi possível dar a volta. No primeiro nem sequer havia democracia, a moda de regime político era outra; no segundo, a democracia foi preservada. E em ambos os casos, embora mais num do que no outro, as personalidades foram e são contestadas. O homem que capturou Gungunhana passou à História como heroi nacional, embora tenha reagido mal e sem sucesso à proclamação da República.
E ministros com sucesso não são lembrados por serem castos e puros, mas justamente por terem sucesso político, com reflexo na economia. Mário Soares foi Presidente da República e teve como primeiro-ministro Cavaco Silva. E Mário começou por oferecer a Cavaco o primeiro governo maioritário. Durante quatro anos Cavaco Silva governou, enfrentando com sobranceria o Parlamento hostil, e sem críticas do Palácio de Belém. Durante esses quatro anos, o Presidente dos portugueses entreteve-se a ajustar contas outros adversários políticos; primeiro entre iguais, como se costuma dizer. Victor Constâncio, que lhe sucedeu como secretário geral do PS, foi o primeiro a pagar a factura e a ficar isolado. Não lhe restou outra saída que bater com a porta, mas fê-lo com estrondo. Sampaio não teve a vida facilitada e também saiu da liderança do PS, mas a Câmara de Lisboa ganha com souplessse ao prof. Martelo, heróico flutuador do Tejo, foi o suficiente para manter o engenheiro no escalão dos notáveis.
A recusa do líder do PSD, Cavaco Silva, em apresentar um candidato a Belém não agradou a Soares. Ele queria uma vitória que reforçasse a sua postura, no segundo mandato, não desejava uma recondução desluzida. Nem que tivesse que o comprar na Feira do Relógio tinha que ter um candidato à sua direita. E lá arranjou um, na dispensa do CDS.
Para um homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, Cavaco iria ter grandes surpresas. Foram quatro anos a esbarrar com «forças de bloqueio». Muitas dúvidas lhe devem ter povoado o sono para se enganar tanto em tão pouco tempo e nas legislativas que iam anteceder as presidenciais optou por deixar a chefia do governo e do partida a Fernando Nogueira.
Claro que Guterres ganhou e por muito. E claro que Cavaco Silva se perfilou. O presidente da Câmara era um homem discreto e se alguém se enganou não foi ele!
Dez anos passados, Cavaco e Soares reaparecem na actualidade. Um já idoso e outro com idade para ter juizo. E panos de fundo, muitos. Alegre inconformado e ofendido. Miguel Cadilhe, que me parece um economista brilhante, foi um ministro eficiente, mas era jovem e exibicionista e os jornais deram cabo dele por causa das habilidades para não pagar cisas, nas frequentes trocas de residência. O austero primeiro-ministro deixou-o cair na primeira oportunidade. E ele comentou:«a solidariadade é como o chapéu de chuva. Só se dá pela falta, quando chove»...
É mais um que não esquece, nem perdoa.
Perdoar não é problema para Almeida Santos, nem escolher entre amigos. Alegre é amigo, sim senhor, mas «estive sempre com Soares, sempre», e Soares sempre esteve com todos, mas quando foi preciso não esteve. Salgado Zenha é uma referência e também devia ser amigo de Almeida Santos. Mas o inverso também é verdade. Quando foi necessário nem Zenha nem Alegre se vergaram. Talvez seja por isso que os notáveis se esfalfam tanto a defender os fracos e oprimidos: os outros são chatos e refilam...

segunda-feira, novembro 28, 2005

A Loira da Rua 48

Hoje , logo pela manhã, a Rua 48 entrou em alvoroço. Uma verdadeira confusão , daquelas que a rua já não presenciava desde o último Verão, quando por lá passou aquele senhor que parece uma senhora e foi grande vedeta numa das televisões cá da terra e é muito vista na Rua 48.
Tal como para ver o senhor/a a descer do carro, todo vermelho e ele com um lenço de seda branca, a passar as mãos pelo cabelo e, ao mesmo tempo, a dizer adeus a uma senhora velhinha que parecia escondida no fundo da viatura... tal como naquele dia glorioso, hoje também as vizinhas, logo pela manhã, pucharam as cortinas para o lado e puseram-se, descaradamente à janela.

A D. Ernestina, ainda sem os dentes e completamente desgrenhada, exibia um roupão às flores, com papagaios pendurados em algumas delas. Estava perfeitamente boqueaberta e fazia sinais para a vizinha da frente, a D. Rosa, junto de quem já estava o sr. Seabra, ainda com meia cara ensaboada e com a gilette na mão.
O sr. Seabra foi obrigado a voltar para a casa de banho, porque a sua esposa, é verdade que queria saber exactamente o que se passava e ainda não tinha entendido a gesticulação da janela da frente, mas já o tinha avisado que andava com prisão de ventre e não queria ninguém ao pé dela nas próximas horas.

E mesmo aquele cavalheiro, sempre impecavelmente vestido e que, ao fim da tarde, quando regressa a casa, traz um saco de plástico daqueles de marcas sonantes, mas cheio das compras da mercearia do princípio da rua, se quedou com um ar interrogador dirigido a toda a gente, parada na Rua 48. Havia, de resto, já um enorme engarrafamento, com buzinas à mistura.

No meio da confusão havia gente que aproveitava para insultar as mãezinhas dos da frente. De repente, saltou de um Corsa um homem com ar patibular e correu para um outro Corsa, mais à frente e começou a berrar com o condutor. Tratava-se de uma cobrança antiga...eles ainda falavam em vinte contos e, pelos vistos, de um tempo em que era dinheiro.

Nem isso desviou a atenção do principal acontecimento desta manhã: a loira da Rua 48 interrogava toda a gente sobre o paradeiro do seu automóvel.

- "Claro, seu imprestável" ... dizia ela ao vizinho do 1º esqº "... o carro devia estar aqui...aqui, junto à minha porta...e tinha lá dentro um chapéu de chuva que me vai fazer imeeensaa falta..."

- "mas..." respondia o sr. Inácio, verdadeiramente aturdido.

Em seu socorro veio a médica do rés do chão: "... a sra. deve estar doente...o melhor...."

- " o melhor o quê, sua atrasada mental, eu quero saber onde está o meu carro..."

???????????

- "... esperem lá, mas eu não tenho carro,o que eu tenho é de ir apanhar o autocarro... O que é que esta gente toda está aqui a fazer? São doidos ou quê?

Nesse entretanto, chegou a polícia por causa do engarrafamento e aproveitou para prender os dos dois "corsas", que já andavam à galheta por causa de dívidas antigas.

A loira da Rua 48 foi protestando:

"- está a ver, senhor guarda, este povo vai impedir-me de apanhar o autocarro a horas... que horror! está cada vez pior , esta rua..."

domingo, novembro 27, 2005

Felipe Gonzalez

A RTP apresentou na última sexta-feira, a horas impróprias, como sempre, uma iniciativa muito meritória: uma conversa com Felipe Gonzalez e Jorge Sampaio, moderada por Judite de Sousa. Os trinta anos de democracia em Portugal e Espanha, a adesão de ambos os países à então CEE, as questões do desenvolvimento ecnómico, dos regimes democráticos, emigração clandestina, relações bilaterais, foram alguns dos temas deste encontro.
Ao escutar Felipe Gonzalez, seguindo-lhe o pensamento claro , percebe-se a razão principal do sucesso espanhol em comparação com Portugal. Os nossos políticos, mesmo os que chegam aos mais altos postos da hierarquia do Estado só dizem vulgaridades, sempre embrulhadas numa linguagem cifrada.
Com Felipe Gonzalez é tudo claro e é possível equacionar os mais graves problemas do nosso tempo.
Foi pena que tal iniciativa fosse apresentada apenas depois de uma série de programas de entretenimento de mau gosto, o que também evidencia o papel menor que a RTP atribui à informação, desde que não tenha sangue e lágrimas.

sábado, novembro 26, 2005

ONDE ESTAR...

... Se o futuro nunca começa onde o passado nem sempre acaba, onde se situar o presente? É um dilema pior que o su doku ou melhor, sei lá. Alegre é um amigo, disse Soares, não há muito. Diria, depois, Soares que Alegre é triste. Alegre não disse de Sócrates mas disse que Sócrates. Sócrates não tem dito que não disse mas tem deixado entender que não disse. O «Público»
disse o que o «DN» não disse, mas vice-versa.
É fácil. Basta entender ao contrário ou, pior ainda, entender às avessas. Melhor é fingir que não se entende o que deveras não se entende, porque o poeta explicou isto melhor justamente porque era poeta. A gaita é que o poeta é um fingidor.
Que fazer? Não fazer? Deixar fazer! Nunca, sobretudo nunca deixar, mesmo que façam. Cuspir!
Isso sim, cuspir, salivar, se o ambiente for mais elevado. E ter fé. Muita fé. Fé no que há-de vir. Fé que acabe, que termine a fé dos outros. Todos. E todos nunca serão demais. Que se lixem os próximos e os quase próximos e de preferência os longínquos!
Corram a ajudar o que não precisa de ajuda e ajudem-no à força e façam-no engolir a verdade. Porque só as verdades devem ser engolidas, porque são verdades, quase sempre indigestas. Mordam o profeta, mordam. Acabem com ele. E paguem aos árbitros, porque eles merecem e não sabem que o sonho, que vai à frente, comanda a vida, se houver vida. E porque carga de água deve haver vida, há-de perguntar o Jerónimo, se cada vez há menos comunas? Mas que raio têm os comunas a ver com isto?- haveria de perguntar uma virgem, se por acaso houvesse alguma aqui à mão, mas parece que cada vez há menos. Restavam os virgens. Restavam, mas o Bibi vai sair e se não o agarram vai ter muita saída...

sexta-feira, novembro 25, 2005

Plano Tecnológico

O Governo apresentou ontem o "Plano Tecnológico", uma das bandeiras eleitorais do PS. Velharias. Nada que não tivesse sido já anunciado. Algumas das "novidades" chegam mesmo a ser anedota, como, por exemplo, o aumento do número de licenciados e doutorados. Os primeiros para, seguramente, aumentarem o número de desempregados com licenciatura. Os segundos para fazerem as malas e engrossar o número dos portugueses altamente qualificados a trabalhar fora do país.
É que o Estado está à espera que os privados aumentem o investimento na formação e os nossos empresários, no fundo, não passam de merceeiros a contar o "apuro" ao fim do dia.
Este plano não passa de uma síntese de tudo quanto se tem dito nos últimos dez anos sobre a matéria e não vai, seguramente, mudar nada. É a velha fatalidade do "ser português".

quinta-feira, novembro 24, 2005

ACIMA DE TUDO

Li a notícia num matutino de segunda-feira e fiquei a ruminar. Nem quis saber da Ota, dos 23 anos que vou levar a pagar, nem com receio que com tanto emprego garantido me ponham a mim a trabalhar. Nem consegui perceber se o Benfica não ganhou ou se não perdeu. Pior que ser do Benfica é perder a fé na Justiça. Se o Benfica perde, um gajo pode dizer mal do árbitro. Mas quando dois presos condenado por crime de homicídio a penas superiores a 20 anos são postos em liberdade por se ter esgotado o prazo de apreciação pelos tribunais superiores, de quem é que um tipo tem direito a dizer mal?
Era um simples trabalhador imigrante, que pernoitava com outros num contentor junto da obra. Foram assaltados por seis meliantes. Recusou entregar os seus objectos pessoais. Foi espancado e morto. A polícia identificou a prendeu os assaltantes, dos quais dois foram condenados por homicídio. A Relação de Lisboa manteve as condenações e, segundo o matutino, não deu provimento aos vários recursos. Mas os arguidos já tinham saído em liberdade.
Não faço ideia se algum ministro leu a notícia, nem sei se o Supremo se incomodou ou se a PGR
se lastimou. Na véspera da notícia do matutino, e já agora adianto que foi o «público», o prof. Martelo tinha feiro alusão ao desvario que ia pela dita pgr com a deslocalização das escutas telefónicas. Pior é que a divulgação das escutas deixou entender alguma cumplicidade comprometedora entre o comum dos políticos e o incomum dos «excelências». Viram alguém incomodado com isso?. Durante uns dias houve por aí gente incomodada e a querer saber se os juizes tinham ou não direito á greve. Tanto me faz que tenham como não. O que eu gostava era de ter a garantia de que eram todos honestos e todos competentes, mas estou em crer que o TGV seria bem vindo para mandar embora mais depressa alguns ilustres homens das leis...

sábado, novembro 19, 2005

Escroquerie

Um jornal diário, considerado como "de referência, ", o Diário de Notícias, publicou hoje na sua primeira página uma notícia, segundo a qual os professores teriam faltado a mais de 7,6 milhões de aulas no anterior ano lectivo.
A mudança de direcção do matutino, pelos vistos, não alterou coisa nenhuma nos métodos...

O número é fabuloso. E escabroso, se considerarmos que a notícia é publicada no dia em que os professores cumpriram um dia de greve em sinal de protesto contra uma série de medidas tomadas pelo Ministério da Educação, que, evidentemente, não favorecem a actividade docente, segundo os professores, afinal os mais entendidos e interessados na matéria.
É curioso que seja o Ministério da Educação, governado pelo Partido Socialista, a divulgar este número astronómico de faltas dos professores, quando é sabido que uma parte dos votos que deu a maioria absoluta ao PS foi obtida pelo reconhecimento da imcompetência do governo de Santa Lopes na colocação de professores.
Ora, além do estudo hoje divulgado não estar completo, ele traduz em grande parte o desnorte criado nos erros do anterior Ministério da Educação, da srª. não sei quantos Seabra.
Como mera curiosidade, é interessante saber-se que o sr. Secretário de Estado da Educação, responsável pela divulgação destes números, Walter Lemos, perdeu, em 1993 o mandato de vereador pelo CDS na Câmara de Penamacôr, por ter excedido o número de faltas permitido.
Oh! Senhor Walter Lemos, o sr. é um desbocado!. Veja lá se ainda lhe atropelam a dentadura. Tenha cuidado.
Quanto ao DN... diário de referência... está a andar! Estão mais para o lado do Diário da Manhã.
Tudo isto é uma escroquerie, que começa no Ministério da Educação e na sua mais alta responsável e termina na direcção do DN.
Que porra! Já chega de manipulação. Discutam os problemas de maneira séria. Deixem-se de manobras. Quando, um dia destes, já ninguém acreditar em ninguém, quero ver esses ministros, esses secretários de estado e esses directores de jornais a esconderem-se debaixo das saias do primeiro travesti que encontrarem na rua.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Exploração de Trabalho Emigrante

O actual ministro do trabalho sempre me inspirou alguma confiança. Tem um ar sério e parece realmente preocupado com as questões do trabalho - as mais complicadas da nossa actualidade.
Por um lado, há uma legislação demasiado pesada que não leva em consideração a necessidade de diferenciar a competência, a utilidade e a produtividade dos trabalhadores, prejudicando, obviamente, sobretudo as pequenas e médias empresas, muitas vezes colocadas perante situações verdadeiramente insolúveis do ponto de vista legal.
Por outro, a política neo-liberal que tem vindo a ser seguida permite às grandes empresas usar todos os truques, arrecadar lucros de toda a maneira e fugir aos impostos de forma descarada.
Há por exemplo, grandes grupos empresariais que suportam as suas necessidades de trabalhadores contratanto serviços a empresas especializadas em trabalho temporário. O que é que isto quer dizer? Que a empresa empregadora se liberta dos encargos com os trabalhadores contratando os serviços de alguém que tem um contrato com uma outra entidade.
Ora o que está a acontecer com grandes grupos empresariais especializados nesta prática é que estão a recorrer a trabalhadores emigrantes que sabem ilegais. E por causa dessa condição, embora façam os devidos descontos para a segurança social, não fazem a respectiva entrega, pelo ganham, para além das comissões legalmente consentidas, o correspondente a 34,7 por cento dos salários pagos.
Quando por razões legais ou de saúde os tais trabalhadores necessitam de uma certidão ou de um qualquer outro documento, os Serviços de Segurança Social não têm nenhum registo.
A isto chama-se exploração escrava e há empresas nacionais, com vistosas páginas na Net a fazê-la.
Que tal, senhor ministro do trabalho, mandar inspeccionar rigorosamente todas elas?

sábado, novembro 12, 2005

Justiça!!!!

Sempre foi a questão mais delicada de todas as sociedades, de todos os sistemas de poder, a Justiça. Sempre houve a tentação de quem a administra de o fazer a seu favor e dos seus. Por isso, a democracia de um Estado se avalia pelo "estado" da sua Justiça. Uma justiça corrupta, com agentes manobráveis, compráveis, inviabiliza o cumprimento dos preceitos de um regime democrático.
Se, por hipótese, entre os elementos executores da Justiça, por exemplo, entre nós, alguns dos agentes da Polícia Judiciária ou de qualquer outra, ocupar o tempo a compilar informações sobre pessoas notórias e que, previsivelmente, poderão vir a desempenhar papéis importantes neste ou naquele sector do Estado, e a elaborar dossiers prontos a vender, estaremos perante o quê?
Não seria interessante saber que os magistrados públicos, o Ministério da Justiça e não sei quem mais, ponderasse estas hipóteses e aceitasse que as várias denúncias que lhes vão chegando têm algum fundamento?
Não compete aos Tribunais e ao Ministério Público garantir aos cidadãos as condições indispensáveis ao exercício de todas as liberdades cívicas, incluindo o direito à vida privada?
Será que essas condições estão a ser garantidas em Portugal e que o Estado não está a pagar a gente que faz da investigação da vida privada dos outros um modo de vida?

quarta-feira, novembro 09, 2005

Sacrifícios

Observe-se a diferença entre estas duas Leis, ambas aprovadas na Assembleia da República no dia 28 de Julho de 2005:

Lei n.º 43/2005:
Determina a não contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão nas carreiras e o congelamento do montante de todos os suplementos remuneratórios de todos os funcionários, agentes e demais servidores do Estado até 31 de Dezembro de 2006.
Foi publicada no dia 29 de Agosto, entrando em vigor no dia seguinte à da publicação: a partir de 30 de Agosto, o tempo de serviço não conta e por esse motivo os funcionários não progridem na carreira.

Lei n.º 52-A/2005:
Altera o regime relativo a pensões e subvenções dos titulares de cargos políticos e o regime remuneratório dos titulares de cargos executivos de autarquias locais.
Foi publicada no dia 10 de Outubro, entrando em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação: entretanto os autarcas já tomaram posse e não são abrangidos pela Lei.


Esta Lei "esteve de férias" e voltou ao parlamento para aprovação final (?) a 15 de Setembro (nesta altura o tempo de serviço e o consequente congelamento de carreiras dos funcionários já estava em vigor há mais de quinze dias!!!). Depois "esteve na gaveta" e só foi enviada ao Presidente da República a 4 de Outubro (mas salvaguardando que "a presente Lei entra em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação").

Recorde-se finalmente a euforia do Eng.º Sócrates a anunciar à comunicação social a alteração da Lei, explicando que agora os sacrifícios eram para todos, a começar pelos políticos!...

terça-feira, novembro 08, 2005

O Ridículo

VALENTIM Loureiro vai enviar uma carta a Cavaco Silva manifestando-lhe apoio, mas deixará nas mãos de Cavaco a opção de tornar conhecida esta declaração...
É este o lead de uma notícia da primeira página do Primeiro Caderno da última edição do "Expresso". Isto é o quê? Brincadeira? O Arquitecto a "vingar-se" do despedimento, ou um processo habitual do chamado semanário de referência, que não consegue libertar-se das suas ligações perigosas?
Seja o que fôr, é de um ridículo que só já não assusta o Francisco Pinto Balsemão. E não vale mais um comentário sequer.

domingo, novembro 06, 2005

Paris Já Está a Arder

O que começou há dez dias em Paris não pode ser resolvido com declarações bombásticas de autoridade no parlamento por um primeiro-ministro que se limita a repetir a ideia de que " a República não vacilará..."
O fantasma da monarquia já lá vai há alguns séculos, senhor Villepin. A República é hoje um instrumento de exploração como o foram todas as monarquias. Os bairros que hoje estão a ferro e fogo são habitados pela mesma gente - porque com os mesmos problemas - que tomou a Bastilha, a cidade de Paris no sec. XVIII, que assistiu com entusisamo à decapitação de Luis XVI e de Maria Antonieta.
Senhor Villepin, primeiro-ministro de França, a sua República, em nome da qual garante que não vai vacilar, já não tem a força moral para usar o conceito de um governo do povo para o povo, em nome da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
A sua República abastardou-se e só cuidou da liberdade de alguns, da igualdade dos mesmos e da fratrenidade de ambos.
O que começou há dez dias em França é o princípio do fim de alguma coisa. Por mim, espero que o senhor, senhor Villepin, consiga, com o mesmo entusiasmo com que fala de ordem no seu parlamento, convencer os seus pares europeus de que a burguesia está em maus lençóis. Já não por causa dos bolcheviques, dos soviéticos, dessa gente organizada em rebanhos coloridos, mas por causa - de novo - dos famintos, dos marginalizados, dos desprotegidos, dos injustiçados, dos explorados.
Sobre si, senhor Villepin, impende a enorme responsabilidade de evitar a demonstração de um teorema histórico: todos os grandes movimentos sociais de contestação violenta começam em Paris, estendem-se a toda a França e contagiam o resto da Europa.
Estou longe, não ouso sequer aproximar-me de si, cidadão Villepin, mas se pudesse, apostava consigo, dobrado contra singelo, que em Paris, neste ano da graça de 2005 , principiou algo importante. E não lhe chame terrorismo, por favor. Lembre-se antes da história de Spartacus, sei lá... de Cristo, mas não o misture com JP II ou com Bento não sei quantos
Olhe, eu, se fosse a si, reformava-me e ia para a Bretanha. As notícias chegam lá mais tarde e todas as Repúblicas de hoje cometeram os mesmos erros, diria até, os mesmos crimes da sua.

sábado, novembro 05, 2005

"...Digamos..."

Zapping displicente ontem à noite e, de repente, Miguel Horta e Costa, com todo o peso da sua figura fora de tempo, gestos a mais e bengalas de linguagem repetidas: "...digamos que... digamos que..." e nada de concreto.
Aquele jeito ...oh Zé Gomes Ferreira...a denunciar algum nervosismo. Quase todas as frases a principiar por "...veja que..."
E às perguntas, nada de concreto. Mesmo quando se percebia que elas tinham sido ensaiadas, combinadas (desculpa lá, oh Zé Gomes Ferreira, mas ando nisto há muitos anos...)
A única resposta clara foi a do seu enorme desejo de continuar a ser o CO do Grupo Portugal Telecóme, como ele gosta de acentuar).
Do meu zapping concluí que a PT está mesmo aflita: cotação na bolsa a baixar, fundo de pensões ao fundo, dinheiro a rodos para despedir gente que depois faz falta, clientes descontentes, demonstração - nos números - de uma onda de mudança de operador por um grande número de clientes que pareciam fidelizados.
Era necessário levar o barão à televisão. Bastava pedir ao tio Balsemão, convencer o Ricardo Costa e o José Gomes Ferreira. Imaginem os trabalho$ !
Mas, Miguel lá teve direito ao seu tempo de glória para anunciar que quer continuar a ser presidente da PT.
Balsemão, Costa e Ferreira fizeram a boa acção do dia e, ainda por cima em cenário piroso, a condizer com a figura.
Um verdadeiro sucesso.

terça-feira, novembro 01, 2005

As Associações de Mal-feitores

Este país não deixa de me espantar. Confesso que, de vez em quando, sinto mesmo a minha alma "ficar parva".
Enfim, para não concluir que a minha terra é uma espécie de Chigago dos anos 20 transposta para o sec.XXI, admito que os assaltos se verificam um pouco por todo o Mundo.
Mas, eu conto:
recebi hoje uma carta de uma empresa totalmente desconhecida para mim a comunicar-me que o meu seguro de vida , subscrito em determinada Companhia de Seguros sofreu um acréscidmo de cerca de 3 por cento, "em função da análise dos elementos indicados no questionário clínico e dos resultados dos exames médicos realizados..."
A carta acrescenta que, no caso de querer algum esclarecimento, me devo dirigir a um sr. dr. da citada companhia de seguros, numa outra direcção, perfeitamente distinta daquela que indica o endereço de quem me comunica o tal aumento.
A carta é assinada por um outro senhor e não por aquele que, supostamente, me dará os esclarecimentos que lhe vou pedir.
E os esclarecimentos a pedir são muito fáceis: quando e quem me realizou exames médidos ou me fez inquéritos? A resposta só pode ser: ninguém, em tempo algum.
Isto é ou não um assalto, uma trama combinada entre vários agentes, com endereços e responsáveis diversificados? Isto é ou não o indício de que o roubo institucional, assegurado pelas companhias de seguros, já passou à classe de práticas de associações de mal-feitores?
O Procurador Geral da República faz o quê nestas circunstâncias? Pode fazer alguma coisa? É seguro viver em Portugal?

sábado, outubro 29, 2005

O QUE É DEMAIS NÃO CHEIRA BEM...

Causa-me algum desalento que o país esteja entregue a esta gente. Impressiona-me que tudo e todos estejam subjugados a condicionalismos eleitorais. Foi claro, em meu entender, que Sócrates tenha ido à gaveta repescar o dossier «aborto» por considerar que podia representar um trunfo forte para as autárquicas. Sampaio deve ter entendido o mesmo e não deve ter achado graça. Remeteu o caso para o Tribunal Constitucional. O problema real, o «aborto», esse, ficou de fora. O que entrou em análise foi uma discussão académica sobre o sexo do anjos. O sexo dos anjos é doce, não escorre semen, não engravida. O grave e delicado problema era, afinal, saber como e quando se podem fazer referendos. Por outros termos: esta gente, como vai sendo costume, entreteve-se a gozar connosco, misturando alhos com bugalhos.
Sejamos coerentes: o assunto que o TC analisou e sobre o qual se pronunciou foi o referendo, não foi o aborto.
Hoje, alguém no «Público» defendeu melhor esta tese e insurgiu-se naturalmente contra o chefe do governo e o presidente da República. A minha mira aponta noutra direcção: aos membros do TC, não à instituição, mas a eles mesmos. E deve ser bom que se coloque a questão. Têm eles o direito de fazer asneira e ficar incólumes? Pode aceitar-se que os (ou um ou dois) altos magistrados tenham pedido à senhora da limpeza do tribunal que fosse dizer aos senhores dos jornais que iam chumbar o referendo, uma semana antes de dar disso conhecimento à Presidência da República? Mais: pode o Presidente da Nação aceitar? O Presidente que pode dissolver a Assembleia legislativa, mesmo com maioria parlamentar, não pode «despedir» os conselheiros do TC, que adulteram de modo grosseiro as «regras do jogo»? Será isto razoável?
Não sei. Sou pouco culto. Mas considerando, o que me parece improvável, que o PR não dispõe de poderes constitucionais para «despedir com justa causa» os membros do TC, deveria, ele próprio, demitir-se da função, por respeito ao cargo desrespeitado. E nem devia ser eu a chamar a atenção: os senhores deputados é que já deviam ter-se manifestado. Tem de entender-se de uma vez por todas que há orgãos que não podem permitir-se abusos de poder ou deselegâncias ranhosas...
E o governo? O governo encolheu os ombros. A motivação eleitoralista que levou o governo a avançar é a mesma que o leva, agora, a recuar, apesar de a Sócrates «não ser indiferente o sofrimentos e a defesa da dignidade das mulheres». É só paleio. Há mulheres no governo. Espero que estejam coradas...

APITA O COMBOIO

Não sei de que madeira são os comboios feitos, mas aprendi que os ministros, hoje em dia, são feitos de lata. Deve ser por isso que alguns enferrujam! A meio da manhã ouvi dizer que OTA, sim senhor. TGV vai ter não quatro, mas duas linhas: uma Lisboa-Porto, outra Lisboa-Madrid. Pobre desta, só lá para dois mil e dezassete. Não ouvi denhum jornalista perguntar o que é que aquilo queria dizer. Porto-Lisboa com quatro paragens, não obrigatórias. Não mencionou a data prevista e todos sabemos que chegar ao Porto não é fácil. Talvez lá para dois mil e trinta e seis, se não chover. Como se vai de Lisboa ao Porto de TGV?
Em 2017 já o tgv deve estar no museu e a OTA provavelmete na Judiciária.
Vou começar pelas portagens. Em 85 o businão na ponte fez história. Praticamente demoliu o governo. Pedro Cid, novissimo director de informação da RDP ainda lembrou que era uma manobra do Partido Comunista. O PS colou-se e desatou a protestar contra as portagens, escolhendo como modelo a CREL.
Algum tempo depois, já no governo e com Jorge Coelho muito activo desportajou a portagem da CREL. Bonito! Vamos entender melhor. A política de estradas rápidas do cavaquismo teve origem em compensações comunitárias, que praticamente chegaram a par do prof. Anibal. Sem grandes projectos projetados as auto-estradas eram o caminho mais rápido. Tal como já vinha
acontecendo em Espanha. A auto-estrada para o Porto foi crescendo e a portagem também. A
par de outros percursos, uns de borla, outros nem tanto. A ideia que se pretendia fazer passar era a de que as vias comparticipadas pela CEE eram de borla, enquanto as pagas pelo O.E. tinham portagem. Acredito que houvesse batota no percurso e na avaliação. A CREL foi justamente uma das entregues à Brisa, que se responsabilizou pelo encargo.
Entretanto o troço Caldas-Torrres Vedras era de borla. Outra via, que na altura saía de Abrantes e estava prevista chegar a Peniche, também devia ser gratuita. isto só para dar uma ideia de como se passavam as coisas.
A decisão de retirar o pagamento de portagem na CREL foi fogo de vista. A portagem manteve-se, continuoua tirar-se o talãozinho e a Brisa a estender a mão ao governo. Perante o encargo, o ministro foi-se à auto-estrada das Caldas e toma lá, paga portagem. A auto-estrada destinada a Peniche, encurtou e levou com portagem. É a política do fogo de vista!
Receio que a OTA e o TGV seja um segundo episódio. Receio pior. Receio que mais obras seja prenúncio de esquemas cruzados com vista a financiamentos obscuros, que isto de andar a promover candidatos pouco rentáveis depaupera os cofres.
O TGV que o senhor ministro prometeu fazer para Madrid quer dizer o quê? Madrid é, afinal de contas, onde? Em Badajoz? A seguir a Marvão?
E a OTA? Vai ser onde, como e porquê?
Lembram-se das gravuras rupestres? Lembram-se?
Não sabiam nadar. Não se acabou a barragem. Perdeu-se uma fonte energética. Perdeu-se uma reserva de água! E se a água vai fazendo falta! Que importa? Ganhou-se em turismo. São milhares e milhares a espreitar as gravuras e a encher os hoteis novos e velhos. Obras e obras científicas se publicam todos os meses sobre as rupestres...
O problema com a irresponsabilidade é que tanto pode acertar na mouche como cair no ridículo.
Muito do problema podia morrer à partida se à promessa ministerial os jornalistas logo pedissem esclarecimentos. Ota?! Como? Como se vai até lá? E como se vem até aqui? Há uns anos, inquirido a esse respeito, Jorge Coelho disse: «Faz-se um tgv»!
Sim, senhor, faça-se um tgv, quentinho, para a mesa do canto...

quarta-feira, outubro 26, 2005

SUBMARINO AO FUNDO

Era o que faltava e se notava mais. E vai ser a seguir.Mas já a seguir. De repentemente, que é o mais de repente que me vem à memória: um santuário para Felgueiras! Pois! E onde mais podia ser? Que as fátimas sejam como as cerejas e os milagres destapem o pão e as rosas que se lixem!
Um santuário dourado e que o altíssimo lhe ponha a virtude, que eventualmente lhe falte.
Peregrinos unam-se! Peregrinações organizem-se, Felgueiras, o paraíso santificado, espera por todos e todos não serão demais para encher caixinhas e caixinhas de esmolas. Pobrezinhos, pobrezinhos, esperem pela sopa, porque a sopa vale a pena se a alma não for forreta!
E o governo, por uma vez, pode sair a ganhar se fechar a Justiça, despedir os magistrados e desistir do ministro e do ministério. Ninguém precisa mais deles. Desde ontem o conceito mudou. E sabe-se hoje que sai mais barato ser-se assaltado no Pinhal de Leiria do que ir a tribunal; o que se poupa com seguros contra roubo chega e sobra para pagar aos ladrões e salvam-se portas, portões e os vidros das janelas. Justiça nunca mais. E não é preciso estragar ou demolir o palácio da justiça: bem limpo dá um excelente abrigo para os sem abrigo! O tribunal das boas horas pode passar a centro cultural de marionetas, para preservar a imagem de solenidade que sempre desejou ter! Aquele outro da rua do Século, que nem me lembra o nome daria, por certo, um bom estádio para luta de galos, desporto muito na moda lá por casa!
Devia, isso sim, guardar-se o austero guarda roupa judicial para pôr algum sal nos cortejos carnavalescos, mas sem os martelinhos. Esses distribuidos pelos senhores deputados, para sublinhar-se melhor, e de maneira mais comedida, a concordância com a desavença, o som com a fúria, sem palavrões, nem irritação de gargantas!
Sem castigo deixa de haver crime. Pode roubar-se democraticamente à vontade, como de resto se tem vindo paulatinamente a fazer, e atropelar a toda a brida, mesmo sem carta de condução!
Tudo o mais que ponha em risco a vida de pessoas e ou os bens do Estado resolve-se por meios místicos, acendendo velas às santas...
Mas, cuidado, sem invocar em vão o santo nome da imaculada de Felgueiras, senhora cheia de graça, nem dos benditos juizos que dela se fazem...
Quem é que precisa de juizes ou juizos num paraíso destes?

terça-feira, outubro 25, 2005

A Caminho...

Para quem, como eu, durante anos e mais alguns, seguiu com enorme interesses a política nacional e internacional e, a dada altura, para não ficar louco, resolveu desistir, começa a ser engraçado - dá mesmo vontade de rir - verificar o carácter aleatório de tudo quanto os políticos dizem e determinam.
Nunca nada bate certo. Ou com o que se prometeu, ou com o que se esgrimiu. Está sempre tudo errado. Não há regras. E já nem se consegue vislumbrar o jogo dos interesses.
O recente escândalo do envolvimento de bancos em negócios duvidosos - quanto a mim uma notícia para disfarçar envolvimentos bem mais criminosos - imediatamente "abafado" pela grande comunicação social, deixa a descoberto o desnorte do sistema. .. pois, se até já Ricardo Salgado pode ser surpreendido por uma notícia desastrosa num dia em que, mais uma vez, convidado pela Judite de Sousa, vai fazer o papel de primeiro-ministro sombra...
Quais vão ser as consequências desta escandaleira?
Alguns inspectores da Judiciária vão ser despedidos? - 1ª hipótese.
Ricardo Salgado vai ser preso preventivamente ?- 2ª hipótese.
José Sócrates vem defender a honorabilidade da banca portuguesa - 3ª hipótese.
Mário Soares ganha as próximas eleições presidenciais - 4ª hipótese.
Posso fazer um concurso. Quem acertar, ganha a possibilidade de fazer um comentário à situação portuguesa, desde que a titule " A caminho da Ibéria".

sábado, outubro 22, 2005

VERDE QUE TE QUERO VERDE

É quase preciso ser poeta para entender o Sporting. O Sporting, como depois o Belenenses, nasceu do Benfica e isso já ajuda a entender alguma coisa. Mas pouca. O Benfica nasceu popular, popular no sentido de ser da ralé, do povo, quando povo significava operariado. O operariado tinha manias e por isso os homens que trabalhavam nos jornais desportivos não eram jornalistas e por isso não podiam falar de «vermelhos» fosse ele o Victor Silva, o «Tamanqueiro» o Albino ou o lisboeta Espírito Santo. Cândido de Oliveira era suposto ser comuna e era, portanto, mal visto pelos de cima. Que eu me lembre foi a primeira grande vitória do futebol português. Além de ser prestigiado na Europa, treinou o Sporting (e a Académica!) com sucesso. Foi treinar, imaginem!, ao Brasil. Por mór do futebol deixou de ser perseguido e até acabaria por ser escolhido para seleccionador!
Voltemos atrás, os alvalades eram ricaços e conservavam títulos da nobreza e acomodavam-se mal no Benfica. Sairam e formaram o Sporting. Os azuis já foi por outras razões e zarparam para Belém. Havia o Casa Pia e havia os Unidos, o Carcavelinhos, de onde brotou o Atlético, o Chelas e o Fósforos, que se uniram no Oriental.
E, bem entendido, o futebol era coisa de domingo à tarde. Quando eu cheguei ao futebol (de bancada) o Sporting é que estava a dar. O Benfica era como o Carlos Carvalhas: parra em demasia e uva nem vê-las! Vi o Benfica ganhar algumas Taças, mas campeonatos só os lagartos: sete em oito anos e eu vi-os todos. Ainda hoje tenho complexos!
Há uns interregnos divertidos: o Benfica foi campeão latino, em 50, no meio dos campeonatos todos do Sporting.
Quando a CUF de Lisboa acabou O Felix foi apara o Benfica, que não aceitou o Travassos, porque era pequenino! Era, sim senhor! Mas que enorme jogador ele foi! Quanto dele sairam tantos títulos para o Sporting! O Azevedo já vinha de trás. Tinha tapado o Martins, que foi no Benfica (linguajar africano), e depois Barrigana, que zarpou para o Porto (F.C. do). O suplente era,foi, Dores. Naquele futebol não cabiam suplentes. Nada de substituições, nem de guarda-redes. Lembrem-se que em 65 (se a memória não me lixa) o Benfica perdeu a final europeia, em Milão, com Costa Pereira na cabina e Germano na baliza. Creio que acabou aí a rigidez do sistema. Depois passou a poder mudar-se de guardião. Depois, um, depois, dois...até aos nossos dias.
A intenção foi (era) falar do Sporting. Melhor: entender o Sporting. Podia lembrar que o Sporting começou por ser levado ao colo. Devia ser necessário travar o populismo «encarnado». Mas, sinceramente não me consta que Peyroteo fosse fascista, nem o Manel Marques fosse da União Nacional.
Mas um gajo do Benfica precisava de ter desculpas. Mas lá que o Sporting teve um presidente que marcava «gois» aos intervalos, lá isso teve! Pelo menos a graçola perdurou desde que o o presidente leonino, de seu nome Gois, foi à cabina dos arbitros, na Tapadinha, "mandar vir"
com os artistas do apito. A partir de 60, o poder político aceitou o Benfica que luzia na Europa.
Salazar recebeu os jogadores encarnados, deve-lhes ter ofertado calices de vinho do Porto. E por essa altura já o Sporting andava aos papeis. Não tenho ficheiros, mas estou em crer que desde 54 o Sporting nunca mais repetiu dois campeonatos nacionais seguidos. Vou ficar por aqui, mas não sem lembrar que há muito, muito tempo, que um lampeão não podia falar de Sporting, ou vice versa, sem pedir licença a Pinto da Costa, que andou com a sua equipa às costas a ganhar campeonato atrás de campeonato, numa manifestação prepotente de abuso de poder...

quarta-feira, outubro 19, 2005

VACINANTES

Eu vos vacinarei, disse, hoje, em Lisboa, um senhor do governo, que revelou que tinha acabado de comprar uma montanha de vacinas para refrear a gripe das aves. Uma espécie de chamada a atenção: vêem que o governo não se distrai?
O ministro foi avisando que as vacinas só devem chegar em meados do ano que vem. E, em Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros disposto a comprar aviões especiais para combate a incêndios, ultra modernos, foi interpelado sobre gripes de aviário e achou por bem tranquilizar o interpelante lembrando-o que essa preocupação pertence à comissão especializada da União Europeia. A comissão é que deverá anunciar como, quais e quando se tomarão medidas globais.
Mas já ontem notícias provenientes de países cientificamente evoluidos tinham alertado para
precipitação de atafulhar gavetas com vacinas. As vacinas que existem presumivelmente não vão servir para nada, pois se a epidemia chegar aos humanos o virus será diferente.
Presumindo que o prof. Amaral não estivesse obscurecido por excesso de vodka, qualquer comum mortal poderia ser levado a crer que o ministro da Saúde entrou em pânico e não conseguiu suster o vício despesista, que acomete amiude os membros do governo, neste país.
Não pretendo tomar partido. Quando um ministro diz uma coisa e outro ministro diz outra, a respeito de compras caras, nunca vem o Diabo escolher, não, não vem. O que pode acontecer,
já tem acontecido, é a PJ um belo dia ir aos bancos vasculhar papeis...

segunda-feira, outubro 17, 2005

Ser Português em Portugal

Se nos debruçarmos com alguma atenção para esta condição de português vivendo em Portugal não podemos deixar de nos sentir, pelo menos, tristes, primeiro, depois, deprimidos e, logo a seguir, desgraçados, infelizes por nos ter calhado na vida terra tão mal organizada e governada.

Olhemos os professores universitários: parecem uns senhores a quem Deus deu um poder particular. Não olham à sua volta. Eles são a ciência, a inteligência, o saber!

Reparemos, agora nos jovens com 40, 4o e poucos, que foram atirados para fora do país com bolsas, com promessas de regressos fulgurantes, quando tinham 25, 26 anos. O que lhes fazem as instituições que lhes prometeram o paraíso? Recusam-nos pura e simplesmente ou continuam a alimentá-los com bolsas que não significam nenhum emprego, nenhum compromisso, nada.

Os milhares de brilhantes investigadores portugueses a viver fora do país não têm a mínima perspectiva de regressar. Não há lugar para eles em parte nenhuma. E isto mesmo depois de a pessoa responsável pelo tal grande movimento de investigadores do país, o prof. Mariano Gago, ter voltado ao poder.
É uma vergonha para todos nós , mas, evidentemente, só uma pequena parcela conhece o problema. Os outros sabem lá que há gente com esses problemas, que há gente a dar aos outros a sua capacidade, a sua inteligência e que, um dia destes, seguramente, vão esquecer a sua condição de portugueses.
Seguramente para alívio dos que continuam a olhar para o lado e para si mesmos, preenchendo os lugares das hierarquias académicas, às vezes com trajes ridículos, mas muito seguros de si próprios. Afinal, o país é decrépito, sem capacidade para inovar o que quer que seja, mas os senhores profs.drs. continuam nos seus lugares.
E com tal ignorância que a maior parte deles ainda não percebeu que está a preparar gente para o mercado de trabalho, um mercado cada vez mais difícil e, por isso, os estudantes, transformados em quadros do que quer que seja, necessitam conhecer as leis que regulam a sua actividade, pelo que - sei lá! - no último ano do curso deveriam ser elucidados sobre os seus direitos, sobre as hipóteses de trabalho que a lei lhes abre e até obriga a criar.
Por exemplo, os engenheiros do ambiente correm, nesta altura, o mesmo risco que os arquitectos correram durante anos e anos, com os engenheiros civis a assinar os projectos de arquitectura.
Há muita legislação, quer portuguesa, quer europeia - a exigir transposição para a legislação nacional - que obriga muitas instituições a ter nos seus quadros engenheiros do ambiente. Todavia, isso não está a acontecer. Não me admiraria que os engenheiros civis, mais uma vez, estivessem a utilizar o título e os lobies para validarem as suas assinaturas em projectos onde é necessária uma clara especialização.
Vá, Juventude, ORGANIZEM-SE!!!!

domingo, outubro 16, 2005

Fuga Descarada aos Impostos

Passei há cerca de duas horas na portagem da Ponte Vasco da Gama. Paguei a portagem em dinheiro e fiquei à espera do recibo. Nada. A senhora disse-me:"obrigado". Qual obrigado, qual carapuça - pensei, de mão estendida, à espera do meu recibo.
Ficou zangada, quando lhe disse que deveria dar-me o recibo sem mais conversas. Que não - disse - mostrando-me a porcaria de um papel colado no vidro. Não vi o que lá está escrito, mas deve ser qualquer coisa do género que a Lusoponte só entrega recibo se o mesmo fôr pedido.
Isto é, sem dúvida, uma fuga aos impostos. A senhora que recebeu os meus dois euros disse-me que tinha instruções no sentido de cumprir tal princípio.
Ora, a Lusoponte beneficia de contratos verdadeiramente fantasmagóricos - que ninguém con segue explicar - para explorar as duas pontes que atravessam o Tejo. Contratos que assinou com o Estado que todos nós sustentamos e desenvolve, nas nossas barbas, um sistema de fuga descarada aos impostos.
E não há ninguém responsável pela cobrança dos ditos que ordene uma fiscalização a este roubo feito a céu descoberto no bolso de todos nós?
Esta conversa que ouvimos a todos os governos sobre sistemas anti-fraude e anti-fuga aos impostos é para levar a sério?
Mais grave ainda:a Lusoponte está imune numa estratégia de roubo fácil porque os pequenos comerciantes pagam por ela, sendo duramente castigados quando são agarrados em pequenas fraudes?
O Estado que temos existe ou é ele mesmo uma fraude?

sábado, outubro 15, 2005

DIREITOS PERDIDOS

São quase todos, a começar pelo dito à indignação ou, pior ainda, ter de dar o dito por não dito. Por ser levado a encolher os ombros e fazer por esquecer. É pior que saber que o comboio vai aumentar (de preço, porra!, de preço) e a luz e o autocarro, também. Sócrates vai diminuir o taco às autarquias e desse modo forçar as autarquias a sacar na água e no lixo e no saneamento.
Cada vez custa mais adormecer e cada sono tem mais e mais pesadelos. E direitos?
É natural que um gajo se sinta lixado e refile por tudo e por nada. Hoje perderam-me a camioneta, o autocarro que me devia trazer de volta às quatro e meia. "Não tem lugar", disse a menina. "Só às cinco e meia", acrescentou. E passou-me o bilhete e eu perguntei-lhe: "não posso
tentar que o motorista me leve?". Ela acenou que sim e disse: "despache-se, que tá na hora".
O motorista olhou o bilhete e abanou a cabeça: "com este, não. Mas deixe ver. Há um lugar, sim, há um lugar"... E eu: "posso ir trocar de bilhete?". O tipo fez uma careta. "Corra, caraças, corra, que já passa da hora!".
Eu corri. Gaita!, tenho 70 anos!, faço que corro mas não ando muito. Mas fui e pedi e a dama disse que não e eu expliquei e ela disse que não. O computador não sabe de fretes nem de direitos. E não dava bilhete a autocarro cheio e se o autocarro não estava cheio a culpa não era do computador e a menina não queria maçar o computador e eu que me fodesse. E quando eu tentei, a arfar dos meus setentas, o motorista carregou no botão e fechou a porta e eu a vê-lo sair...
E não fui. E quis expressar o descontentamento. Que não, disse a menina. "Queixas só por escrito!" e abriu uma gaveta, com a intenção óbvia de me dar um papel. "Mas eu quero gritar, quero protestar... "Só por escrito", disse ela.
Dei três voltas ao terminal de Sete Rios e das três vezes nada. Pelo meio bebi uma cerveja e pensei o que só eu sei das mãezinhas daqueles gajos e o que consegui foi que um tipo das encomendas me dissesse: "Só por escrito".
Uma hora não é coisa que mate, mas chateia. A carroça saiu com um lugar vago. E eu fiquei porque nada nem ninguém é responsável ou responsabilizável.
Se ao menos alguém me levasse de Falcon...

terça-feira, outubro 11, 2005

CREDIBILIDADES

Na sexta-feira, o «DN» tinha pespegado na primeira página uma sondagem que previa a vitória de Carrilho, em Lisboa, e Assis, noPorto, por margem mínima, é certo.É verdade que deixava Seara ganhar Sintra, talvez para dar o toque de isenção!
Não constituiu novidade. Já em tempos ocorreram tentativas semelhantes de confundir o eleitorado, de tal modo exageradas que envergonharam os orgãos de comunicação social a ponto de levar os responsáveis por sondagens a inflectir e limitar-se a dar conta da recolha de dados de modo correcto. E fizeram-no razoavelmente bem. E tão razoavelmente bem que, pelos vistos,
começaram a incomodar. Montar uma sondagem que possa influenciar, em cima da hora, os indecisos, só resulta se tiver visibilidade. E teve-a, no «DN» e na «TVI» e foi citada na «SIC», se não estou em erro. E nem faço ideia se espalhada pelo país.
No domingo, à hora do jantar, começou-se cedo a perceber o que fora previsível desde o início do mês pelas diferentes sondagens, que evidenciavam mais sinais de desilusão governativa do que de apoio político.
Não sei quem espalhou panfletos a insultar e denegrir alguns candidatos. Nem sei quem cozinhou a sondagem panfletária, mas fiquei a saber que não são só os «candidatos ladrões» que conspurcam a democracia. Anda por aí muita falta de carácter. A continuar assim ainda arriscamos a ver mortos e enterrados a votar em quem menos mereça, como no passado!
Mas foi bonito ver um idoso bem vestidinho a pedir que votassem no filho, Esperemos que o menino se lembre, no dia do pai...

domingo, outubro 09, 2005

As Bandeiras

Hoje, numa mesa de voto, apareceu uma mulher - loira, de olhos verdes - com um boné a segurar-lhe parte dos cabelos e enrolada em várias bandeiras. Na fila ( ou bicha?) de voto, os outros, de gravata, de fato de treino lavado, de camisa desapertada, mas a notar-se o vinco de todos os dias, olhavam a senhora - desconfiados.
Ele eram as bandeiras do sporting e do benfica. Até do Olhanense, agora a singrar rumo à chamada (ou já não se chama ?) super-liga. Cachecóis do Braga, misturados com os do Vitória de Setúbal.
A Loira, de olhos verdes, permanecia calma, sem olhar para ninguém e sem permititr que alguém fixasse os olhos nela. Direita, quando olhava, olhava em frente. Até do Barcelona, ela tinha uma camisola. Sem publicidade, limpinha - só o emblema da Catalunha.
Tinha muita gente à frente e a bicha (como a da cave) arrastava-se lentamente. A senhora chegou à frente da mesa de voto. Os membros ficaram em sentido perante tanta bandeira e ela perguntou, com voz nasalada:
"por favor, os senhores podem indicar-me em que porra de bandeira destas eu posso botar a minha cruz, isto é, em qual emblema eu posso acreditar. Querem que eu seja mais explícita: há aqui alguém (um gajo ou uma gaja) que me possa dizer em que cor eu posso apostar tranquilamente?. Ou vou-me embora e volto a pendurar as bandeiras e os cachecóes na marquise até aparecer a Maria da Fonte?"
Fez-se um silêncio pesado, ninguém se atreveu a responder à mulher loira, de olhos verdes, enfeitada de bandeiras (mas com gosto). Ela, então, olhou para os membros da mesa, ainda em sentido (claro) e declarou: "não escolherei. Recuso-me a escolher bandeiras, sem conhecer as ideias, os projectos, as intenções, o carácter de quem se apresenta a eleições. Não escolho porque não há diferenças. Levo as minhas bandeiras, estas, as únicas que continuam a ser símbolos de batalhas abertas".
Saiu a mulher. A assistência ficou calada, estarrecida. Que fazer? os homens e as mulheres da mesa de voto olharam-se entre si e uma de entre eles, encheu-se de coragem e disse: " ao menos diga-se o seu nº de eleitora para colocarmos a cruz".
A senhora loira de olhos verdes olhou-os de cima e percebeu a preocupação: os números, as percentagens e debitou um número.
À saída uma televisão fazia sondagens à boca das urnas e interrogou-a: "para a Junta de Freguesia votei Estoril Praia (não é tão chieque?...), para a Câmara Municipal votei PCTP/MRPP. Agora é que isto vai..."

Todo o povo parou para ver aquele boné passar.

A Crise do Estado

A palavra crise é uma companheira de todos nós. Desde que nascemos até que desaparecemos ela sempre nos acompanha. Uma vezes mais que outras, é certo, mas sempre ela se nos depara, para nos atrapalhar a vida.
Normalmente, o que nos perturba a vida é aquilo que não percebemos. E poucos de nós conseguimos perceber o que, nos vários contextos, se designa por crise.
Por exemplo, nesta altura fala-se de crise económica, de crise de valores... crise da sociedade, crise na Igreja, crise na União Europeia...
Todas estas expressões são os retratos a carvão de uma única crise: a do Estado.
O Estado, que levou milhares de anos a constitur-se, a organizar-se, com o objectivo de tomar conta das pessoas, de as juntar, de lhes propôr objectivos comuns. O Estado que se arvorou em defensor dos oprimidos, dos menos favorecidos, dos desprotegidos.
O Estado que, com esse programa, teve várias formas e passou do poder despótico, absoluto, um legado de Deus, a um poder irresponsável, sem objectivos e com um único objectivo: o de cobrar impostos dos cidadãos temerosos da lei para o entregar a outros, sem medo de coisa nenhuma e dispostos a retirar ao Estado todos os poderes que possam dar vantagem.
Na realidade, a crise que hoje vivemos é a crise do Estado, incapaz de regular o que quer que seja. Se olharmos com atenção para pequenos aspectos da nossa realidade depressa verificaremos que nenhuma lei protege o cidadão normal, cumpridor das suas obrigações.
Por exemplo, os seguros. Existem para quê? Para garantir que o cidadão comum a quem aconteceu um desastre, em casa, com o automóvel, com o que quer que seja e, para se prevenir, assinou uma apólice para transferir a sua responsabilidade para uma instituição, que na maior parte dos casos recebe e não paga nada, garanta a cobertura da sua responsabilidade?
Não. Os seguros representam um sistema de roubo sistemático, porque raramente pagam o que devem pagar e sempre cobram acima do que devem cobrar. A não ser que seja alguém poderoso, que se serve do sistema dos seguros para enriquecer ainda mais.
O sistema bancário - outro exemplo - existe para facilitar os negócios, conceder créditos, valorizar as poupanças?
Nada disso!
É mais um sistema montado para roubar o cidadão normal - não aquele que tem milhões de dívidas - mas aquele que vive do seu salário, que compra um carro a prestações e já comprou a máquina de lavar pelo mesmo sistema, bem como o frigorífico.
A este, o banco demora cinco dias a creditar-lhe um cheque, mas debita-lho na mesma hora em que ele o entregar para pagamento.
Olhem para o sistema de segurança social. Dizem que está em crise. Que vai desabar. E porquê?
Porque o Estado - não estou a falar de governos, que são todos a mesma coisa - permitiu que os poderosos, que tomaram conta dos transportes, das empresas de telecomunicações, de energia, de tudo quanto dá dinheiro, se preparam para, do mesmo modo, ir buscar o dinheiro que o cidadão comum, de boa fé, deixa que lhe descontem todos os meses, na esperança de, quando já não tiver força para trabalhar, ou quiçá, sair de casa, ter um meio de subsistência.
A crise é do Estado, de que meia dúzia ou uma dúzia -o número não interessa - de poderosos se serve como instrumento para reduzir direitos, aumentar deveres e nos levar a uma nova forma de escravatura. É para lá que caminham os nossos filhos. Com uma gravante significativa e significante: eles não têm consciência do que lhes está a acontecer, não têm capacidade de organização, ainda não perceberam que os carros de que desfrutam, as discotecas que os entretêem e as roupas de marca que os enfeitam fazem parte das algemas com que lhes estão a prender o futuro.
O Estado é cada vez mais uma organização caduca, prejudicial ao progresso do homem. Já o era na versão marxista e que Bakunine contestava. Agora é-o muito mais, porque não é carne nem peixe.
Alguém sabe quais são os poderes de Jorge Sampaio? E o que é que José Sócrates pode fazer para garantir que eu e tantos outros como eu não vamos, um dia destes, deixar de ter endereço porque o carteiro não vai debaixo da ponte.
Bakunine tinha razão? Pelo menos na necessidade de discutir a utilidade do Estado, tal como ele existe, sim. Vou reler Bakunine, deixar de ouvir Sócrates, Sampaio e todos os outros. Infelizmente vou ter que continuar a pagar os meus impostos, mas espero que quando alguma coisa de grave aconteça, eu ainda tenha força para poder mostrar-me.
A crise do Estado é sobretudo muito grave porque os seus agentes, o governo, só têm uma capacidade, a de ler as obrigações do Estado segundo os interesses dos poderosos, que, não tendo pátria, também já não têm rosto.
E esta crise irrita-me, sobretudo porque não há nenhuma maneira de a discutir. A nossa comunicação social é feita por marionettes, desmiolados, protagonistas do vazio que nos rodeia, pertença de grupos de gladiadores dispostos a colocar na arena os seus melhores homens quando o bocado em discussão fôr suculento.
A propósito: poucos dos que hoje escrevem para os jornais, para as rádios ou para as televisões sabem quem foi Bakunine.

sábado, outubro 08, 2005

CLARO QUE HÁ MAR E MAR...

Houve para mim, que fui e voltei. E à medida que os anos passam e a vida gira, de cada vez vou indo menos e vou ficando mais. Mas fui sempre um lisboeta discreto e obscuro. A minha cidade era o que não é hoje: um sítio para pessoas, uma cidade cheia de lisboetas e com alguns estranhos, poucos. Hoje a capital não tem lisboetas, tem gente. Perdeu a identidade, despiu-se de tradição.
Nasci e cresci Lisboa fora. Sem «Metro» mas com muito eléctrico. Só depois do fim da II Guerra Mundial chegariam os autocarros. À medida que a noite avançava, os eléctricos espaçavam e a pacatez da cidade convidava ao passeio a pé. Aqui e além vislumbrava-se um polícia, e mais além um guarda nocturno e não raro juntos, de paleio. Automóveis parados, encostados aos passeios.
De vez em quando alguém batia palmas, alguém que esquecera as chaves da porta do prédio. Era a oportunidade para o guarda nocturno amealhar algum trocado. Ao romper da aurora as ruas começavam a encher-se de mulheres a caminho de trabalho nos mercados ou nas limpezas de estabelecimentos, repartições ou bancos.
Claro que havia zonas da cidade menos pacatas. O Cais do Sodré, cheio de trepidação nocturna, nos bares que ainda não se denominavam de alterne; o Bairro Alto concentrava o maior número de prostíbulos, mas havia-os também dispersos por outros pontos da cidade, preferencialmente junto ao rio ou nas imediações da av. da Liberdade, onde também se pescava na rua...
Tive alguma sorte quando chegou o meu tempo de passar da teoria à prática. A teoria era ingénua e a prática falseada e, não raro envenenada. A minha sorte consistiu na penicilina, acabada de chegar ao mercado. Ainda alguns meses antes era necessário ir à Cruz Vermelha, fazer bicha para trazer parte da receita médica e portanto doseada consoante a gravidade das doenças. Até então para aliviar os tropeções tinha que recorrer-se a argálias e ainda hoje, só de pensar nisso fico pálido e minúsculo.
A vida era um jogo e era preciso aprender. Nunca tive muito jeito para o jogo. Joguei com bolas de trapos, na escola sem grande sucesso. Na ginástica nunca consegui saltar em extensão. Fui bom nos matraquilhos e superei os amigos no bilhar. Só no pocker me sinto à altura de me bater com os semelhantes, mas levei tempo. Recordo-me de uma vez regressar de uma noite de pocker, madrugada dentro, de bolsos vazios, na companhia do Gonçalo Duarte, que conheci no Gelo, igualmente sem sucesso na mesa. Sentamo-nos num banco da 24 de Julho, a ganhar fôlego para o resto da caminhada, e avistamos um grupo ruidoso de varinas que vinha da Madragoa. Discução acesa e uma dela atirou um insulto suez. A outra gaguejou uma série de impropérios e gritou para a outras: «fersureira, eu!?Eu!». Levantou as saias e começou a dar palamadas sobre a cueca: «Olha aqui! Olha aqui...pr'o calo dos colhões do meu marido!»
Deve datar dessa noite alguma da insegurança que me foi afligindo ao longo dos anos...

EU VI MARCEL CERDAN

Fui ver no Coliseu. Era peso médio, mas pespegaram-lhe com um meio pesado na frente: Agostinho Guedes. Foi uma aventura. Nesse tempo eu era um miudo de escola e era um desportista de jornal. Sabia do Cerdan campeão, de título mundial, quase tudo. E quando soube do combate em Lisboa esfalfei-me para arranjar guita para uma geral no Coliseu. Cravei toda a gente do meu mundo e, na véspera, lá fui para a fila comprar o bilhete.
O dia nunca mais passava. Mas, à noite, a sala transbordava. O ambiente do Coliseu a abarrotar.
Fumarada, porque se fumava muito, nesse tempo, e por todo o lado. Houve uns combates para entreter e aumentar o apetite.
No intervalo, antes do combate, estava cheio de sede. Deixei o lenço no degrau e fui ao bar, repleto de gente adulta, mais alta e encorpada, mas lá tive o pirolito e voltei para a sala, em marcha lenta, que os gongos tiniam. Logo à entrada da sala, avistei o Agostinho já no canto e o Cerdan a subir entre cordas para o ring. Acelerei para o lenço. Vi os dois junto do árbitro apertar as mão. Fiz mais um esforço para passar por um chato que não deixava passar e lá estava já a pegar no lenço quando oiço o bruá-á tremendo e viro-me. Agostinho Guedes deitado e o árbitro ia gesticulando com braço e um dedo estendido e oito sacudidelas depois, cruzou os braços, virou-se e levantou um braço de Marcel Cerdan. Não vi o soco. Não vi nada, a não ser uns segundos antes, quando os dois se tocaram com as luvas. Era uma barulheira à minha volta e eu sentia lágrimas nos olhos.
No dia seguinte, no campo do Benfica, voltei a ver o Cerdan, vestido de gente comum. Foi levado ao meio do campo de terra batida e levantou o braço e recebeu uma ovação. Não bati palmas. Ainda não sabia o que era frustração e fiquei com vergonha de falar do assunto.
Os jornais desportivos iam dando novas do campeão. Em França ele perdeu o combate com o norte-americano, suponho que era o Vilemain. Durante o combate estragou uma das mãos e não
permitiu o combate desforra muito depressa. Depois, já refeito, teve de gramar as evasivas do novo campeão, que aparentemente não se sentia muito seguro de si. Quando finalmente se aprazou o combate, desta feita nos Estados Unidos, gerou-se grande expectativa. Edite Piaf que andava de namoro, meio escondido, com o boxeur, foi dar espectáculos nos states. Mas ela ainda teve mais azar que eu: nem houve combate. O avião ficou-se pelo caminho, sem sovreviventes.
Nunca mais fui ao box. O mais próximo que estive foi um combate para um título mundial, que teve lugar em Kinshasa. Tive convite e até hesitei, mas não fui. Mas correu tudo bem e os que foram gostaram o combate e do passeio...

sexta-feira, outubro 07, 2005

Os Valores

A todo o tempo em todos os "foruns" (fora) se ouve a firmação: "já não há valores...".
A maior parte das vezes ficamos sem saber a que valores as pessoas se referem. Serão os da bolsa?
Outras, temos a ligeira impressão de que se fala de posições de moral, quiçá de fé.
Valores da civilização ocidental, seja o que isso for, do cristianismo, do islamismo, do budismo, sei lá... do induísmo.
Valores traídos, recalcados, sublimados, exacerbados. Valores. Uma palavra, que, pela repetição, se torna igual às outras. Mais que pela repetição, pela negação.
Ainda há dias felizes na vida de um homem. Hoje descobri que o meu real valor é o de poder continuar a olhar-me no espelho. Tem alguma rugas, pode, mesmo não ter a mesma exuberância de outros tempos, mas tem o mesmo olhar. Não faz nada contra si mesmo. Muito Obrigado, espelho meu!

quinta-feira, outubro 06, 2005

POLÍTICA SOCIAL

Uns dias atrás dei um bafo a propósito de promessas de candidato. Um deles prometia taxis gratuitos para velhotes envelhecidos. Eu acho que mesmo idosos conservamos o direito a ter a mania e sugeri, com bonomia, que o candidato fosse mais longe e contribuisse com algumas das pequenas da vida e com razoável regularidade. E não é que, subitamente, me cai em cima uma notícia, proveniente da Dinamarca, relacionada com a minha desinteressada proposta. Uns tristes contestatários ao governo refilaram, com um azedume moraleiro de merda, contra o apoio social que o Estado proporciona aos deficientes, permitindo-lhes acesso a prostitutas, profisssão legalizada. O Estado paga a deslocação da profissonal e os cuidados prestados. Sem taxas moderadoras. Nem espero por domingo, mando já e daqui o meu voto de profundo respeito e admiração pela democracia da Dinamarca e pela sua política social. E abstenho-me de graçolas...

Sem Perder a Ternura

Em 1969, eu exibia, em tom provocatório, numa parede da minha casa virada para uma janela da rua, sempre aberta, um poster flamejante de Che Guevara.Preto e Vermelho, era composto de peças de cartolina, assim como moldes de costura.
Guevara era um modelo, um mito, uma lenda, o que se quiser. Era um sinal dos tempos, daqueles tempos, em que as pessoas se interrogavam a si mesmas em nome de valores tão simples como a solidariedade, a justiça, a partilha, a igualdade nas oportunidades.
Neste momento, tenho à minha direita, numa parede da sala onde escrevo, uma fotografia não muito vista de Che Guevara, com uma legenda ainda mais significativa: "...sem perder a ternura jamais!"
Foram-se os valores daqueles tempos do Che a preto e vermelho, mas também se foi a ternura. Hoje, aparentemente, cada vida se resume a várias batalhas e, no final a uma guerra, cujo inimigo pode estar em toda a parte. Os amigos não existem, ou se existem estão longe, distraídos, ocupados...
Já pouca gente acredita que alguém que não se conheceu e aparece, de repente, nas nossas vidas, pode estar preocupado connosco, com a justiça do que nos acontece; preocupado em partilhar, em ser solidário, em fazer da vida uma estrada de ternura.
Por isso, o Che continua a ser um bom companheiro, porque me recorda as razões e os motivos que me guiam.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Eleições - Voto Nulo

No próximo domingo vai haver eleições para o chamado "poder local", uma das mais importantes conquistas da revolução de Abril. Graças a ela e à lei das finanças locais promulgada por António Guterres, os autarcas ficaram, em Portugal, com o estranho poder de "cunhar moeda". Isto é, um presidente da Câmara, ao alterar o chamado PDM, pode transformar um terreno sem serventia, que nada vale, numa verdadeira mina de ouro. Basta que trace naquele local uma urbanização. Quantas há por aí, já com luz eléctrica, água instaladas, mas sem casas. Basta percorrer algumas das auto-estradas que ligam as grandes cidades...

E essa "moeda cunhada" tem valor real, não é apenas conversa. Pense-se na provável fortuna acumulada pelo candidato contra tudo e todos à Câmara de Oeiras, Isaltino de Morais, nas benesses adquiridas por Santana Lopes no tráfico de influências na promessa de compra de terrenos, na instalação de equipamentos sociais, de lazer, o que quer que seja.

As eleições autárquicas são o jogo do pouco dinheiro, que, somado ,dá muito. Atente-se, por exemplo, no caso de Mafra. O actual e, de certeza, futuro presidente da Câmara constituiu uma rede de interesses tão complexa e tão firrme que ninguém o vai deixar cair. Toda a gente é cúmplice. Eu não me admiraria mesmo que alguns dos socialistas que andam empenhados na campanha contra ele, na hora do voto votassem contra si próprios, a favor dos seus interesses.

Cá por mim, que vou votar, como sempre (lutei muito para que tal direito me fosse permitido) vou anular o meu voto com a eguinte frase: " este já é o referendo para o aborto?"

domingo, outubro 02, 2005

Uma Estória da Rua 48

A senhora já não tinha idade. Era difícil calcular os anos que já tinha calcurreado pela vida. Ela própria já não se lembrava quando tinha ido morar para aquela casa e também não sabia se alguma vez o tecto, sobretudo o da casa de banho, tinha sido doutra cor. Foi sempre assim, cheio de manchas cinzentas e castanhas.
Havia sempre gente nova a entrar no prédio. Uns compravam, outros alugavam. E faziam obras. A senhora sem idade ia ouvindo e lamentando-se. "Que, de vez em quando, lhe chovia em casa!"
Ao todos, duas vezes, assim umas gotas. Achou que, falando com a vizinha de cima, talvez lhe mudassem a cor dos tectos. Estava tão farta daquele cinzento cheio de manchas castanhas...
Chegou o homem do seguro para analisar e alguns dias depois mandou dizer, assim uma crónica semelhante às de Fernão Lopes, a precisar de especialista para decifrar. O especialista levou um dinheirão, mas foi dizendo: de qualquer forma, terá sempre de pagar 100 euros de taxa de caução civil.
"Caução quê?!" - perguntou a senhora do andar de cima. "Então não foi para isso que foram inventadas as companhias de seguro, para assumirem as responsabilidades civis dos cidadãos, que lhes vão pagando todos os anos e, normalmente, não dão nenhuma despesa...?"
"Não foi para isso?... "e o especialista, já a tirar o corpo de fora, dizia. "bem... não é exactamente assim..."
"Isso quer dizer que a companhia de seguros me está a querer roubar, ou que já me roubou mesmo...?"
A mulher sem idade já não ouvia nada, o cavalheiro da cave olhou o céu com os olhos em alvo, a senhora loura do outro andar fez um ar desentendido.
Apareceu, entretanto, o senhor das obras, a desculpar-se, mas ainda estava atrasado, tecnologicamente falando, não podia "tirar radiografias às paredes".
"Radiografias às paredes?"Perguntou a inquilina do terceiro andar, médica, mas que nunca tinha ouvido tal coisa. "Está tudo doido, o melhor é pirar-me" - pensou e começou a correr escadas acima. Quando, de repente, se ouviu um grande estrondo: a banheira da senhora que morava por cima da mulher sem idade tinha desabado por sobre a cabeça da pobre velha.
A banheira tinha a funcionar o sistema de hidromassagem . Toda a gente correu para socorrer a pobre vítima da hidromassagem, a rua toda se sobressaltou e até o senhor do prédio da frente, sempre muito atento às injustiças da vida, se aproximou procurando entender.
A velhota estava sorrridente, a ser massajada, o senhor do seguro classificava tudo aquilo de um verdadeiro acidente, pelo que a sua companhia pagaria todas as despesas. E até já nem se importava de pagar uma banheira com hidromassagem à pobre da velha, toda desgrenhada mas feliz.
O cavalheiro do prédio da frente não achou aquilo normal. Tinha que haver ali qualquer engano. As companhias de seguro não pagam, assim de repente, banheiras com sistemas de hidromassagem...sobretudo a mulheres sem idade.

quinta-feira, setembro 29, 2005

SER OU NÃO ESTAR

É como estar e não ser. Convém sempre dar um toque pessoal para ficar melhor na fotografia. Eles já inventaram tudo e eu cada vez mais sei menos. Cada vez tenho mais dificuldade em entender os outros. Os «outros» sabem mais do que eu de bola; sabem mais do que eu de História. De política estão lixados porque eu não sei nada. Nem gosto, nem quero saber mais de quem sabe pouco. Não sei nem quero saber, o que me permite algum gozo. A idade ajuda a ignorância, dá-lhe cobertura.
Tudo quanto soube de economia já gastei. Quando era menino andava, às vezes, um pedaço a pé, até à paragem seguinte do eléctrico, para poupar três tostões; com eles podia comprar um pedaço de alfarrouba e meia dúzia de amendoins.
Conheci uma menina da minha idade, e nessa idade só eramos meninos, algures no Norte, onde fui de férias. Era longe porque andei uma noite inteira de comboio que tinha terceira classe, para quem quisesse poupar ou não tivesse massa para não poupar. A mãe da menina é que é personagem nesta crónica, não é a menina nem eu, que nem sabia o que fazer dela, além de brincar. A senhora trabalhava numa fábrica de camisas suecas de marca. A economia já funcionava. As senhoras que cosiam as camisas ou as cortavam antes de coser, alguém que tomava notas, as embalava, enfim: uma data de alguéns produzia para uma marca sueca. As camisas prontas saiam com destino à Suécia, que fazia delas o que melhor entendia.Em Portugal não se podiam vender, a não ser que fossem importadas e acho que não eram.
Naquela altura eu não compreendia e se fosse chinês se calhar também não. Mas era assim. Ainda não havia, à luz do Sol, partido comuna, que protestasse. Sempre era melhor que labutar no campo ou no comércio das mercearias. Terá sido assim que se inventou o Vale do Ave, que não era a mesma coisa, penso eu, que as fábricas de fazendas da Covilhã, onde se teciam tecidos de qualidade. Só muito depois, praticamente nos nossos dias, os automóveis vieram para cá ser montados. O princípio era o mesmo. E continua a funcionar com o mesmo impiedoso obectivo.
Não foram os chineses que inventaram isto. Não foram os chineses que desataram a fabricar ténis de marca. Foram empurrados através da exploração da mão de obra barata. As grandes marcas europeias e americanas foram andando, saindo aqui, indo para ali, até lá chegar.
Finalmente a Europa descobre que o que é barato sai caro...

A Criação

Estou a criar um deus.
Um deus simples
sem poder
um deus que me ame
me proteja
a mim
e aos outros
aos que eu amo.
Um deus.
A quem eu agradeça
o que me tem dado.
Um deus .
Que me ouça
e me fale.
Um deus sem mistérios
aberto e fraterno
de olhos limpos.
Estou a criar um deus.
Um deus.
Doce
Terno
Amante
Amoroso.
Um deus!
Eu vos direi
Eu vo-lo darei.

quarta-feira, setembro 28, 2005

MINISTRAR

Ouve-se e pasma-se. Por vezes resmungo uns palavrões entre dentes, que a neta é pequenita e não convém que oiça os desabafos do mais velho. Desta vez não havia criancinha próximo, que já é tempo de escola e desabafei à vontade e tanto que o cão fugiu espavorido!
Era um ministro que eu ouvia pela rádio. Era sobre o que um secretário de Estado, do seu gabinete, dissera a um jornal económico, a propósito de um novo aeroporto para pobretanas, nas redondezas de Lisboa. O que o ministro disse era que o assunto estava a ser estudado e sobre isso o que havia de momento era nada. O «pé de microfone» insistiu que o o secretário de Estado dissera que a escolha ia ser anunciada pelo governo até ao fim ano. O ministro não foi de modas: se ele disse isso, pergunte-lhe a ele!
Por mim acho que vou pôr a questão às avessas: os secretários de estado têm os ministros que merecem! Os aeroportos também. Também merecem os secretários de estado que lhes impingem. No fundo é como os distraídos: merecemos os comentadores da crista, como o que disse, no domingo que os juizes são membros de um orgão de soberania e que por isso não deviam ter sindicato nem fazer greve. Como os deputados e os membros do governo, sublinhou.
Só que, os deputados têm, olá se têm!, sindicato, o mesmo, de resto, que têm os membros do governo: o santo partido, um vero sindicato e dos mais pródigos a arranjar empregos. E os juizes
podem, se quiserem, resolver a questão mudando o nome do organismo que os defenda para Ordem terceira qualquer. Uma Ordem que permita meter na ordem as magistradas mais tolerantes.
Também ouvi um ministro tecer comentários ao sistema de cuidados de saúde dos funcionários da Justiça e à forma como é financiado, através das receitas judiciais e notariais pagas pelos utentes dos serviços, sem o saber, o que, a ser verdade, podia configurar um abuso de autoridade. Mas o que o governo pretende não é libertar o utente que recorre à Justiça desse
pagamento. O que o governo pretende é o taco a reverter para o Estado e o magistrado que vá para a bicha dos hospitais ou vá tratar-se a Cuba...
Vai faltando paciência. Ainda acabo por preferir ouvir o Peseiro, Ao menos este tem sempre razão...

terça-feira, setembro 27, 2005

Crónica Apressada Da Mulher Portuguesa "atípica""

Levanta-se às 07HOO;

sai de casa às 08H30;

tomou pequeno almoço, com requinte, à mesa;

espera pelas amigas na rua, com ar de dona do Mundo;

apanham o autocarro juntas;

dizem piadas umas para as outras;

jogam com os subentendidos;

sugerem que conhecem tudo e todos;

intimidam os restantes fregueses do autocarro;

ganham o gosto pela viagem matinal;

mudam de linha, uma, duas vezes;

combinam encontro de "gajas" para as compras nos shoppings da cidade;

têm madeixas semeadas de forma inteligente e falam mal das loiras;

anunciam os horários das depilações ;

tresandam a namorados;

publicitam asilos para velhinhos;

usam óculos escuros, tipo mosca;

roupa justa, espartilhadas;

mostram uma nesga do peito;

perturbam os utentes dos autocarros com aquele olhar: "vejam como sou boa!";

chegam ao emprego cansadas da viagem, do cheiro que as perseguiu;

sorriem para o patrão e para os colegas;

"vamos lá, que este é outro dia!"

Nunca mais chega o momento.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O Duque de Viseu

D. Afonso Henriques chegava a Viseu e dizia ao Duque: "manda-me a tua mulher. Quero dormir com ela ". E o Duque mandava a mulher.

D. Diniz passava por Coimbra, deixava a Santa no Convento de Santa Clara, hoje " A Velha", e rumava os campos do Mondego onde lhe serviam uma moçoila entre sombras do choupal e fenos frescos.

D. João I passeava-se pelas ruas estreitas do Castelo de S. Jorge, enquanto D. Filipa ensinava os infantes.
Sempre assim. O Rei sempre mandou e quis mandar. Mesmo D. Sebastião, que não batia bem da bola, meteu na sua comitiva pessoal para Alcácer Quibir uns moços de boas famílias.

Depois que a República chegou e se acabou com a guerra dos cemitérios, os regedores começaram a pedir favores para os primos e para as primas casadoiras. "oh senhor ministro não se esqueça..."

E lá vamos nós andando.

Acabou o Estado Novo, chegou o governo dos militares e as vendedeiras de flores ( de cravos) não deixaram de aproveitar: "oh jeitoso, não se esqueça; olhe que ainda voto em si..."

E começou a dança das alternâncias. Sempre com esperanças vivas...esperanças mortas...promessas feitas e, logo a seguir, desfeitas.

Mas, o sistema continuou: agora, por exemplo, é o ministro do Trabalho e não sei mais de quê, tido como homem sério ( a verdade é que ri pouco) que, com medo não se sabe do quê, resolve reconduzir no cargo de Provedora da Casa Pia a drª. Catalina Pestana.

Toda a gente sabe que o ministro sabe que a senhora não consegue ter uma ideia para valorizar a Casa Pia e que só pensa na protecção das chamadas "testemunhas" do caso pedofilia e na concessão de privilégios inauditos aos seus adjuntos.

Toda a gente sabe que o ministro foi pressionado pelo presidente da República, Jorge Sampaio, a pedido de seu irmão, Daniel Sampaio, membro da chamada comissão científica para a Casa Pia e, por isso, particularmente interessado no esquema proposto de redução da intervenção pedagógica da Casa Pia, venda de patrimónios, etc., etc.

Digam lá se não continuamos no tempo de D. Afonso Henriques? Só não temos o Duque de Viseu.

domingo, setembro 25, 2005

Os Mensageiros

Hoje passou-me um pássaro à porta.

De plumagem exuberante, assobiava,

trauteava, ou, mesmo, cantava uma melodia encantatória.

Seria um pássaro encantado.

Os pássaros encantados valem outra vez.

E vamos entendê-los, sem nos enfeitiçar

Pelas plumagens extasiantes.

É preciso ouvir os pássaros.

Mesmo quando não são encantados.

sábado, setembro 24, 2005

O AUTOCARRO DO AMOR

Dantes para se vender melhor o copo de cerveja davam-se tremoços. Um pires deles. Em alguns balcões mais generosos juntava-se ao pires de tremoços outro de azeitonas. Nesse tempo nem era preciso fazer eleições para se ter um presidente de câmara à maneira. Poucos se preocupavam com isso. Tanto nos fazia que fosse fulano ou beltrano.
Hoje a cerveja está mais cara. Talvez seja pelas azeitonas, dada a carência de oliveiras ou a falta de quem trate delas. De vez em quando temos de escolher um presidente para a nossa câmara. Hoje tive notícia de mais um que já foi e vai ter que ir a tribunal. Eu não votei no presidente da minha câmara e ele mesmo assim já ganhou uma porção de vezes, o que me tranquiliza a consciência, se ele quiser algum a mais do que é legítimo e for incomodado pela Justiça ninguém me poderá responsabilizar.
Quando vou a Lisboa espanto-me. Tanta gente a querer o tacho. Tanta gente a prometer um caminho atapetado sob um manto cor de rosa. Um mais do que os outros. Ama a família. Para que não restem dúvidos adianto já que é o marido. Promete taxis à borla para idosos. É giro. Se os idosos andarem todos de táxi, sobra lugar nos autocarros para os trabalhadores. E assim os desempregados já podem andar a pé à vontade.
Devo reconhecer que a sociedade cada mais se preocupa connosco, os velhadas. Um taxi para ir jantar ao Lumiar, antes do jogo, dá jeito. Mas não é tudo. Um candidato mais realista devia ser capaz de garantir aos idosos uma prostituta por semana e alguma literatura a condizer. Um que
talvez fosse homem para isso já não é candidato, rebentou pelas costuras. Em Bragança podia ser sítio, mas não dá, as mães correram com as meninas. Amarante? Quem sabe... O homem de lá é homem capaz de tudo...
Vá, meus senhores, se querem votos prometam!Sempre é melhor prometer gozo do que gozar com a gente...

sexta-feira, setembro 23, 2005

MENSALINO

Saiu pela calada; regressa como furacão. Estilhaça a moral convencional e despe-se de preconceitos. Dito de outra forma, menos suave mas mais concisa: chegou, coçou-se e mandou-nos à merda. Não sei se uns certos magistrados foram. Eu, que remédio, enchi-me de papel higiénico e fui. Já estou habituado a pagar a crise. Vou largar mais nas farmácias; pago mais IVA. Para evitar perder peso, janto mais vezes em casa dos amigos. Nos quiosques noto que o primeiro ministro tem uma namorada. O meu vizinho também tem, mas não se vê no quiosque e é por isso que a mulher dele não sabe.O primeiro ministro não fala de autárquicas. O senhor Presidente da República, também não. Deviam falar. O mais alto magistrado bem podia mandar uns recados aos outros magistrados mais baixinhos...
Paira uma mancha enevoado sobre a brasileira Fátima, intocável. A autarca fugidia não podia ser extraditada. Com tempo para reflectir sobre o que se passa por lá deve ter-se sentido moralizada. E sabendo o que se passa por cá, nem cabe nela de serenidade. Um amigo dela revelou-me que ela veio mais cedo por medo que Vale e Azevedo avançasse sobre Felgueiras! A mesma razão invocou um dos candidatos a Oeiras!
E quando perguntaram a um eventual candidato a Belém porque motivo ele não se pronunciava sobre as autárquicas ele respondeu que só fala de assuntos sérios!
Um dia destes os agentes da ordem vão-se manifestar, sem precisar de levar com eles as esposas amantissimas. Acho que vão perguntar porque é que se anda a prender tanta gente para nada...

terça-feira, setembro 20, 2005

BATER NO CEGUINHO

Li algures qualquer coisa sobre um antigo ministro de Salazar que anunciou uma baixa de preço do pão, na véspera deste aumentar o custo. Se bem me recordo o ardil consistiu na criação de um novo tipo de pão, mais leve e com fase de farinha de menor qualidade, de preço inferior meio tostão ao do pão comum (até então) melhor e mais pesado. Ninguém sabia, provavelmente nem o ministro salazarengo, que acabava de ser inventado o genérico. O esquema foi utilizado em outros artigos de consumo, mas não por muito tempo. Ministro e artifício foram depressa postos de lado e, como o pão genérico, rapidamente esquecidos. Mas devia ser útil avivá-lo ao dr. Almeida Santos para ele ter mais cuidado no futuro com as comparações!
Peço desculpa pela insistência, mas foi o ilustre socialista quem despertou a bela adormecida. Não é que me atormente o remoque a Cavaco Silva, a propósito das presidenciais, só que me pareceu despropositado.
Ao anunciar, em tempo de eleições, uma baixa nos preços dos medicamentos, para adoçar a diminuição das comparticipações do Estado, o governo, este sim, abriu a gaveta de tristes recordações de políticas de um passado pouco recomendável. Mas, pior que isso, desperta a pior das curiosidades sobre o Orçamento, que só será mostrado depois das autárquica!
Juntando a isto as nomeações, obrigadas a mote, para cargos bem remunerados, está a gerar-se visível incómodo nas listas socialistas que se expõem ao humor do eleitorado...
É natural, também, que Mário Soares e seus mais próximos apoiantes sintam alguma preocupação, não tanto na estratégia quase silenciosa de Cavaco Silva, mas pelo excesso de ventania que que sopra de S. Bento e do Largo do Rato.
Como tudo seria diferente se Sócrates pudesse perdoar a Pinto da Costa sem ter de o fazer de a Valentim Loureiro!

segunda-feira, setembro 19, 2005

Piroseira

Hoje estive a ver o jogo de futebol entre o FCP e o SCB (Futebol Clube do Porto/ Sporting de Braga). Empataram; o jogo pareceu-me mais um encontro de "boxing". Em Portugal já não se joga futebol.
No "zaping" que se seguiu, porque a Sport TV também é uma desgraça nos comentários e nas entrevistas e tudo o resto, parei na RTP 1, que estava com um programa que se chama para aí "música No Ar, Anos 50". Mais um programa com aquele rapaz sem talento nenhum , sem graça nenhuma, sem carisma nenhum, chamado para aí qualquer coisa Gabriel e uma outra pirosa de que desconheço completamente o nome.
No meio de uma conversa idiota apareceu um tipo tentando imitar o Tony de Matos, tendo, em fundo, imagens deste. Desliguei o televisor e vim escrever umas coisas. Está cada vez mais difícil... a mediocridade assaltou-nos definitivamente. Só nos falta ter que ver o Bush todos os dias.

SALAZAREIROS...

...São eles todos ou ainda menos, como lhes diria Cezariny, se os ouvisse, aos políticos da terceira idade, agora muito na moda. O venerando dr. Almeida Santos apareceu ao lado do dr. Mário Soares e não foi de modas, citou Cavaco Silva para salientar que o economista e provável candidato a Belém não ligava muito aos partidos, tal como o prof. Salazar...
Com o passar dos anos, o dr. Almeida Santos foi-se esquecendo dos deveres de um democrata. O dr. Cunhal não gostava do dr. Soares e isso não fez dele prosélito do Estado Novo. O poeta Alegre já deve gostar menos do candidato socialista do que terá gostado em tempos idos, mas nem por isso deixa de ser uma referência da liberdade e ninguém crê que se vá mudar para o Campo 28 de Maio.
E levanta ainda uma questão, o homem que foi presidente da Assembleia da República: será razoável gostar dos partidos, especialmente daqueles dois que o dr. Fernando Rosas gosta menos? Haverá razões que expliquem alguma devoção pelos partidos, nos dias que correm?
Aceitando que os partidos são hoje a versão maquiavélica do que foram as tribus do passado ou algumas que subsistem no Terceiro Mundo, acaba por se aceitar tudo quanto de fraudulento e anti-democrático os partidos promovem ou exercem. E quando se diz os partidos, deve ler-se os militantes dos partidos. São eles que exorbitam, no que toca aos financiamentos; que assaltam quer os empregos, quer os «tachos».
É evidente que se podia ressalvar um ou outro dos partidos, não por questão de princípios, mas por incapacidade, por falta de estatura. O Bloco sublinhou, e não por acaso, que PS e PSD somam os dois terços indispensáveis para algumas reformas, no caso o novo organismo de regulação da Comunicação Social. Não estou a tomar partido de qualquer um dos partidos, apenas constato que são os partidos que desconfiam uns dos outros e eu, por mim, só desconfio de todos.
Pobre de mim, sem crença nos partidos com assento parlamentar e sem a União Nacional para me acolher, onde é que eu vou parar?

domingo, setembro 18, 2005

IDA E VOLTA

Lembro-me da estreia, em Lisboa, de «E Tudo o Vento Levou». Já foi depois de 40, de contrário não teria memória. Ouvi a minha mãe contar à filha da vizinha bocados do filme. Lembro-me da filha da vizinha porque tinha mamas grandes. Quando se sentava viam-se-lhe os joelhos todos. Uma vez sentei-me debaixo da mesa, a brincar, para espreitar. Não vi nada. A minha mãe é que me viu e deu-me duas bofetadas.
O filme ia no S.Luís, perto da minha casa, na Victor Cordon. Eu morava por cima do pintor Eduardo Malta, que era director do museu de Arte Moderna, que ficava paredes meias com o Ginásio Clube Português. O S.Luís era na António Maria Cardoso. «E Tudo o Vento Levou» ia lá, mas eu não. Eu costumava ir, aos sábados, às matinées do Chiado Terrasse (acho que era assim). O S. Luís era cinema de estreias e o Chiado T. de reprises. Era mais barato e passava dois filmes.
Quando era mais pequeno, os meus pais levavam-me ao cinema, à noite, porque o meu pai trabalhava e a minha mãe era dona de casa. Eu ficava ao colo e dormia. Quando já era mais crescido para ficar ao colo e ainda não pagava bilhete, sentava-me numa cadeira vaga, se a houvesse, ou sentava-me nos degraus do segundo balcão do Eden, que era o que eu gostava mais.
Quando saía do Eden passavamos pelo Chave d'Ouro, no Rossio. Comia um bolo e engorgitava um galão. Depois trepava-se o Chiado a pé, passava-se diante do Governo Civil, virava-se na Serpa Pinto e chegava-se a casa, subindo paulatinamente, a pé, seis andares. O pintor Malta morava no primeiro. No quarto (andar) morava um diplomata, que às vezes diplomatava no estrangeiro. Deixava em casa duas senhoras húngaras (ou de país próximo) que eram louras e bem bonitas.
Algumas vezes fui ao teatro, no parque Mayer, mas eu não gostava. Não percebia as piadas. Gostei mais quando o meu tio me levou ao Box ver o Beni Levi dar porrada num espanhol. O meu pai era empregado no comércio, numa loja em S.Paulo. Hoje é-me difícil imaginar o tipo de vida que fazia uma família, apenas com o salário do chefe. Já perceberam que, nessa altura a Europa estava em guerra e que as duas louras do quarto-andar deviam ser judias e eu nessa altura nem sabia o que isso era.
O meu professor da instrução primária era o pai de João Vieira, que nessa altura ainda não era
pintor. Trasmontano, ensinava a fazer contas, a soletrar as palavras. Nunca o ouvi dizer mal de Salazar e menos ainda de Carmona. De facto nunca o ouvi falar deles.
O meu professor, que era director da Escola, nas Gaivotas, cumpria o horário da manhã e trabalhava no Tavares Rico, com função de escriturário ou afim, que exercia no cúbiculo pequeno, na sobreloja. Não tinha automóvel. Nesse tempo ninguém tinha automóvel. Só os outros (mas eram poucos) é que tinham. O patrão do meu pai tinha dois carros e um filho emprestado. Uma manhã, todas as semanas, os «almeidas» lavavam o largo de S.Paulo. As ruas tinham chafariz por mór dos burros e dos cavalos, que vinham de longe abastecer o mercado da Ribeira, de madrugada e se passeavam de manhã pelas ruas, devia ser para chatear dos gajos dos eléctricos...
Na estação do Rossio podia-se subir de elevador até ao piso de comboios, mas tinha que se pagar dois tostões. Eu gostava muito. Uma tarde a minha mãe mandou-me comprar carvão apara fazer o jantar. Ninguém comia carvão. Era para acender o lume. O fogareiro a petróleo estava em crise. Não o fogareiro, já se vê, mas por falta de petróleo. Desci os seis andares e em vez de torcer para o Corpo Santo, marchei rumo ao Chiado e desci até ao Rossio. Subi no elevador e corri para o carvão. A minha mãe já vinha a descer a escada aflita. Disse-lhe que o homem só queria vender vinho e não me dava o carvão. Ela tinha-se agarrado a mim e disse-me que ia ralhar muito com ele. No saco do carvão ela encontrou o bilhete cortado do elevador e já não ralhou com o homem. Deu-me com o chinelo. Ainda hoje tenho dificuldade em comprar chinelos, seja a quem for da família...

quarta-feira, setembro 14, 2005

O País Das Contas

Chega Setembro e a desgraça multiplica-se, isto é, ninguém paga nada a a ninguém. Em Portugal, a maior parte do ano é assim: toda a gente diz que paga amanhã, mas, a partir de Setembro, a toda a gente juntam-se as grandes empresas, mesmo as cotadas na Bolsa de Valores e, que por isso, têm que pagar aos seus fornecedores num prazo máximo de 60 dias.
Como os respectivos administradores precisam de chegar ao fim do ano com números que lhes permitam justificar os chorudos auto-prémios sacrificam, para isso, os pagamentos devidos seja a quem for. Muitas vezes a pequenas empresas que não aguentam de Setembro até Dezembro sem receber o que lhes é devido. E, por outro lado, não podem recorrer a sistemas coercivos de cobranças porque têm medo de perder os clientes.
É assim o Portugal dos negócios e das contas. Uma vergonha!
PS - Numa outra hora, depois de ter lido este pequeno texto, reparei que não tinha falado da vergonha das vergonhas: do Estado, a tal pessoa de bem que não paga a horas, que é responsável pela falência de milhares de empresas todos os anos e que acoberta em jogos escuros o pagamento de benefícios indevidos.
A esse propósito, acho, por exemplo que deveria ser feita uma inspecção séria ao que se passa com os órgãos superiores da administração da Casa Pia em que a Provedora e respectivos adjuntos têm privilégios inomináveis.

segunda-feira, setembro 12, 2005

SONOLÊNCIA

Quero lá saber. Já dei. Se o Benfica perde é lá com eles. O que mais me chateia é pagar portagem para ver a bola, calmamente em casa e os fulanos Oliveiras pespegarem-me com toneladas de
publicidade. Quando a televisão por cabo se instalou o sucesso da oferta resultava no facto de venderem filmes e programas limpos de matéria corrosiva ou simplesmente abominável. Depois, ocuparam espaço e começaram a negociar exclusivos para exibir aos clientes e a vender as cadeias convencionais, onde nós podemos ver sem pagar, mas a gramar o ganha pão deles. E aos poucos o Cabo desatou a rir- se de nós e toma que lá vai disto. Queres bola, paga ao Oliveira e ele obriga-te a ver pub. Mas no cinema está prestes a ser o mesmo. Começa por um canal ter um intervalozinho, depois o intervalozinho vai alargando até virar intervalão do caraças.
È quase como o marcelinho: começa por fazer análise e mal se dá por ele, começa a vender a banha da cobra, que é a maneira de ele ganhar livros e eu perder a paciência.
Hoje tornei a ouvir a boa nova: os putos vão aprender inglês, as mãezinhas, vão poder ter computadores para os meninos chegar a génios de repente. Depois oiço melhor: só nas escolas onde se pode comer. Já são uma porrada delas a menos. Puto que more no mato não come na escola,quem não come na escola não aprende inglês e quem não aprende inglês a mamã não pode
pedir computador. É por estas e por outros que eu não vou para a escola e vou passar a ir ver televisão na tasca e se tenho de pagar, assim como assim, sempre bebo café e vou sabendo dos comportamentos das senhoras vizinhas. Alguns (os comportamentos), bem badalados, a merecer bem merecida publicidade. Antes de voltar a casa, passei num jardim novinho em folha, lá estava o Lopes sentado e, por uma vez, no sítio certo: Arco do Cego.Parabéns...