terça-feira, novembro 08, 2005

O Ridículo

VALENTIM Loureiro vai enviar uma carta a Cavaco Silva manifestando-lhe apoio, mas deixará nas mãos de Cavaco a opção de tornar conhecida esta declaração...
É este o lead de uma notícia da primeira página do Primeiro Caderno da última edição do "Expresso". Isto é o quê? Brincadeira? O Arquitecto a "vingar-se" do despedimento, ou um processo habitual do chamado semanário de referência, que não consegue libertar-se das suas ligações perigosas?
Seja o que fôr, é de um ridículo que só já não assusta o Francisco Pinto Balsemão. E não vale mais um comentário sequer.

domingo, novembro 06, 2005

Paris Já Está a Arder

O que começou há dez dias em Paris não pode ser resolvido com declarações bombásticas de autoridade no parlamento por um primeiro-ministro que se limita a repetir a ideia de que " a República não vacilará..."
O fantasma da monarquia já lá vai há alguns séculos, senhor Villepin. A República é hoje um instrumento de exploração como o foram todas as monarquias. Os bairros que hoje estão a ferro e fogo são habitados pela mesma gente - porque com os mesmos problemas - que tomou a Bastilha, a cidade de Paris no sec. XVIII, que assistiu com entusisamo à decapitação de Luis XVI e de Maria Antonieta.
Senhor Villepin, primeiro-ministro de França, a sua República, em nome da qual garante que não vai vacilar, já não tem a força moral para usar o conceito de um governo do povo para o povo, em nome da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
A sua República abastardou-se e só cuidou da liberdade de alguns, da igualdade dos mesmos e da fratrenidade de ambos.
O que começou há dez dias em França é o princípio do fim de alguma coisa. Por mim, espero que o senhor, senhor Villepin, consiga, com o mesmo entusiasmo com que fala de ordem no seu parlamento, convencer os seus pares europeus de que a burguesia está em maus lençóis. Já não por causa dos bolcheviques, dos soviéticos, dessa gente organizada em rebanhos coloridos, mas por causa - de novo - dos famintos, dos marginalizados, dos desprotegidos, dos injustiçados, dos explorados.
Sobre si, senhor Villepin, impende a enorme responsabilidade de evitar a demonstração de um teorema histórico: todos os grandes movimentos sociais de contestação violenta começam em Paris, estendem-se a toda a França e contagiam o resto da Europa.
Estou longe, não ouso sequer aproximar-me de si, cidadão Villepin, mas se pudesse, apostava consigo, dobrado contra singelo, que em Paris, neste ano da graça de 2005 , principiou algo importante. E não lhe chame terrorismo, por favor. Lembre-se antes da história de Spartacus, sei lá... de Cristo, mas não o misture com JP II ou com Bento não sei quantos
Olhe, eu, se fosse a si, reformava-me e ia para a Bretanha. As notícias chegam lá mais tarde e todas as Repúblicas de hoje cometeram os mesmos erros, diria até, os mesmos crimes da sua.

sábado, novembro 05, 2005

"...Digamos..."

Zapping displicente ontem à noite e, de repente, Miguel Horta e Costa, com todo o peso da sua figura fora de tempo, gestos a mais e bengalas de linguagem repetidas: "...digamos que... digamos que..." e nada de concreto.
Aquele jeito ...oh Zé Gomes Ferreira...a denunciar algum nervosismo. Quase todas as frases a principiar por "...veja que..."
E às perguntas, nada de concreto. Mesmo quando se percebia que elas tinham sido ensaiadas, combinadas (desculpa lá, oh Zé Gomes Ferreira, mas ando nisto há muitos anos...)
A única resposta clara foi a do seu enorme desejo de continuar a ser o CO do Grupo Portugal Telecóme, como ele gosta de acentuar).
Do meu zapping concluí que a PT está mesmo aflita: cotação na bolsa a baixar, fundo de pensões ao fundo, dinheiro a rodos para despedir gente que depois faz falta, clientes descontentes, demonstração - nos números - de uma onda de mudança de operador por um grande número de clientes que pareciam fidelizados.
Era necessário levar o barão à televisão. Bastava pedir ao tio Balsemão, convencer o Ricardo Costa e o José Gomes Ferreira. Imaginem os trabalho$ !
Mas, Miguel lá teve direito ao seu tempo de glória para anunciar que quer continuar a ser presidente da PT.
Balsemão, Costa e Ferreira fizeram a boa acção do dia e, ainda por cima em cenário piroso, a condizer com a figura.
Um verdadeiro sucesso.

terça-feira, novembro 01, 2005

As Associações de Mal-feitores

Este país não deixa de me espantar. Confesso que, de vez em quando, sinto mesmo a minha alma "ficar parva".
Enfim, para não concluir que a minha terra é uma espécie de Chigago dos anos 20 transposta para o sec.XXI, admito que os assaltos se verificam um pouco por todo o Mundo.
Mas, eu conto:
recebi hoje uma carta de uma empresa totalmente desconhecida para mim a comunicar-me que o meu seguro de vida , subscrito em determinada Companhia de Seguros sofreu um acréscidmo de cerca de 3 por cento, "em função da análise dos elementos indicados no questionário clínico e dos resultados dos exames médicos realizados..."
A carta acrescenta que, no caso de querer algum esclarecimento, me devo dirigir a um sr. dr. da citada companhia de seguros, numa outra direcção, perfeitamente distinta daquela que indica o endereço de quem me comunica o tal aumento.
A carta é assinada por um outro senhor e não por aquele que, supostamente, me dará os esclarecimentos que lhe vou pedir.
E os esclarecimentos a pedir são muito fáceis: quando e quem me realizou exames médidos ou me fez inquéritos? A resposta só pode ser: ninguém, em tempo algum.
Isto é ou não um assalto, uma trama combinada entre vários agentes, com endereços e responsáveis diversificados? Isto é ou não o indício de que o roubo institucional, assegurado pelas companhias de seguros, já passou à classe de práticas de associações de mal-feitores?
O Procurador Geral da República faz o quê nestas circunstâncias? Pode fazer alguma coisa? É seguro viver em Portugal?

sábado, outubro 29, 2005

O QUE É DEMAIS NÃO CHEIRA BEM...

Causa-me algum desalento que o país esteja entregue a esta gente. Impressiona-me que tudo e todos estejam subjugados a condicionalismos eleitorais. Foi claro, em meu entender, que Sócrates tenha ido à gaveta repescar o dossier «aborto» por considerar que podia representar um trunfo forte para as autárquicas. Sampaio deve ter entendido o mesmo e não deve ter achado graça. Remeteu o caso para o Tribunal Constitucional. O problema real, o «aborto», esse, ficou de fora. O que entrou em análise foi uma discussão académica sobre o sexo do anjos. O sexo dos anjos é doce, não escorre semen, não engravida. O grave e delicado problema era, afinal, saber como e quando se podem fazer referendos. Por outros termos: esta gente, como vai sendo costume, entreteve-se a gozar connosco, misturando alhos com bugalhos.
Sejamos coerentes: o assunto que o TC analisou e sobre o qual se pronunciou foi o referendo, não foi o aborto.
Hoje, alguém no «Público» defendeu melhor esta tese e insurgiu-se naturalmente contra o chefe do governo e o presidente da República. A minha mira aponta noutra direcção: aos membros do TC, não à instituição, mas a eles mesmos. E deve ser bom que se coloque a questão. Têm eles o direito de fazer asneira e ficar incólumes? Pode aceitar-se que os (ou um ou dois) altos magistrados tenham pedido à senhora da limpeza do tribunal que fosse dizer aos senhores dos jornais que iam chumbar o referendo, uma semana antes de dar disso conhecimento à Presidência da República? Mais: pode o Presidente da Nação aceitar? O Presidente que pode dissolver a Assembleia legislativa, mesmo com maioria parlamentar, não pode «despedir» os conselheiros do TC, que adulteram de modo grosseiro as «regras do jogo»? Será isto razoável?
Não sei. Sou pouco culto. Mas considerando, o que me parece improvável, que o PR não dispõe de poderes constitucionais para «despedir com justa causa» os membros do TC, deveria, ele próprio, demitir-se da função, por respeito ao cargo desrespeitado. E nem devia ser eu a chamar a atenção: os senhores deputados é que já deviam ter-se manifestado. Tem de entender-se de uma vez por todas que há orgãos que não podem permitir-se abusos de poder ou deselegâncias ranhosas...
E o governo? O governo encolheu os ombros. A motivação eleitoralista que levou o governo a avançar é a mesma que o leva, agora, a recuar, apesar de a Sócrates «não ser indiferente o sofrimentos e a defesa da dignidade das mulheres». É só paleio. Há mulheres no governo. Espero que estejam coradas...

APITA O COMBOIO

Não sei de que madeira são os comboios feitos, mas aprendi que os ministros, hoje em dia, são feitos de lata. Deve ser por isso que alguns enferrujam! A meio da manhã ouvi dizer que OTA, sim senhor. TGV vai ter não quatro, mas duas linhas: uma Lisboa-Porto, outra Lisboa-Madrid. Pobre desta, só lá para dois mil e dezassete. Não ouvi denhum jornalista perguntar o que é que aquilo queria dizer. Porto-Lisboa com quatro paragens, não obrigatórias. Não mencionou a data prevista e todos sabemos que chegar ao Porto não é fácil. Talvez lá para dois mil e trinta e seis, se não chover. Como se vai de Lisboa ao Porto de TGV?
Em 2017 já o tgv deve estar no museu e a OTA provavelmete na Judiciária.
Vou começar pelas portagens. Em 85 o businão na ponte fez história. Praticamente demoliu o governo. Pedro Cid, novissimo director de informação da RDP ainda lembrou que era uma manobra do Partido Comunista. O PS colou-se e desatou a protestar contra as portagens, escolhendo como modelo a CREL.
Algum tempo depois, já no governo e com Jorge Coelho muito activo desportajou a portagem da CREL. Bonito! Vamos entender melhor. A política de estradas rápidas do cavaquismo teve origem em compensações comunitárias, que praticamente chegaram a par do prof. Anibal. Sem grandes projectos projetados as auto-estradas eram o caminho mais rápido. Tal como já vinha
acontecendo em Espanha. A auto-estrada para o Porto foi crescendo e a portagem também. A
par de outros percursos, uns de borla, outros nem tanto. A ideia que se pretendia fazer passar era a de que as vias comparticipadas pela CEE eram de borla, enquanto as pagas pelo O.E. tinham portagem. Acredito que houvesse batota no percurso e na avaliação. A CREL foi justamente uma das entregues à Brisa, que se responsabilizou pelo encargo.
Entretanto o troço Caldas-Torrres Vedras era de borla. Outra via, que na altura saía de Abrantes e estava prevista chegar a Peniche, também devia ser gratuita. isto só para dar uma ideia de como se passavam as coisas.
A decisão de retirar o pagamento de portagem na CREL foi fogo de vista. A portagem manteve-se, continuoua tirar-se o talãozinho e a Brisa a estender a mão ao governo. Perante o encargo, o ministro foi-se à auto-estrada das Caldas e toma lá, paga portagem. A auto-estrada destinada a Peniche, encurtou e levou com portagem. É a política do fogo de vista!
Receio que a OTA e o TGV seja um segundo episódio. Receio pior. Receio que mais obras seja prenúncio de esquemas cruzados com vista a financiamentos obscuros, que isto de andar a promover candidatos pouco rentáveis depaupera os cofres.
O TGV que o senhor ministro prometeu fazer para Madrid quer dizer o quê? Madrid é, afinal de contas, onde? Em Badajoz? A seguir a Marvão?
E a OTA? Vai ser onde, como e porquê?
Lembram-se das gravuras rupestres? Lembram-se?
Não sabiam nadar. Não se acabou a barragem. Perdeu-se uma fonte energética. Perdeu-se uma reserva de água! E se a água vai fazendo falta! Que importa? Ganhou-se em turismo. São milhares e milhares a espreitar as gravuras e a encher os hoteis novos e velhos. Obras e obras científicas se publicam todos os meses sobre as rupestres...
O problema com a irresponsabilidade é que tanto pode acertar na mouche como cair no ridículo.
Muito do problema podia morrer à partida se à promessa ministerial os jornalistas logo pedissem esclarecimentos. Ota?! Como? Como se vai até lá? E como se vem até aqui? Há uns anos, inquirido a esse respeito, Jorge Coelho disse: «Faz-se um tgv»!
Sim, senhor, faça-se um tgv, quentinho, para a mesa do canto...

quarta-feira, outubro 26, 2005

SUBMARINO AO FUNDO

Era o que faltava e se notava mais. E vai ser a seguir.Mas já a seguir. De repentemente, que é o mais de repente que me vem à memória: um santuário para Felgueiras! Pois! E onde mais podia ser? Que as fátimas sejam como as cerejas e os milagres destapem o pão e as rosas que se lixem!
Um santuário dourado e que o altíssimo lhe ponha a virtude, que eventualmente lhe falte.
Peregrinos unam-se! Peregrinações organizem-se, Felgueiras, o paraíso santificado, espera por todos e todos não serão demais para encher caixinhas e caixinhas de esmolas. Pobrezinhos, pobrezinhos, esperem pela sopa, porque a sopa vale a pena se a alma não for forreta!
E o governo, por uma vez, pode sair a ganhar se fechar a Justiça, despedir os magistrados e desistir do ministro e do ministério. Ninguém precisa mais deles. Desde ontem o conceito mudou. E sabe-se hoje que sai mais barato ser-se assaltado no Pinhal de Leiria do que ir a tribunal; o que se poupa com seguros contra roubo chega e sobra para pagar aos ladrões e salvam-se portas, portões e os vidros das janelas. Justiça nunca mais. E não é preciso estragar ou demolir o palácio da justiça: bem limpo dá um excelente abrigo para os sem abrigo! O tribunal das boas horas pode passar a centro cultural de marionetas, para preservar a imagem de solenidade que sempre desejou ter! Aquele outro da rua do Século, que nem me lembra o nome daria, por certo, um bom estádio para luta de galos, desporto muito na moda lá por casa!
Devia, isso sim, guardar-se o austero guarda roupa judicial para pôr algum sal nos cortejos carnavalescos, mas sem os martelinhos. Esses distribuidos pelos senhores deputados, para sublinhar-se melhor, e de maneira mais comedida, a concordância com a desavença, o som com a fúria, sem palavrões, nem irritação de gargantas!
Sem castigo deixa de haver crime. Pode roubar-se democraticamente à vontade, como de resto se tem vindo paulatinamente a fazer, e atropelar a toda a brida, mesmo sem carta de condução!
Tudo o mais que ponha em risco a vida de pessoas e ou os bens do Estado resolve-se por meios místicos, acendendo velas às santas...
Mas, cuidado, sem invocar em vão o santo nome da imaculada de Felgueiras, senhora cheia de graça, nem dos benditos juizos que dela se fazem...
Quem é que precisa de juizes ou juizos num paraíso destes?

terça-feira, outubro 25, 2005

A Caminho...

Para quem, como eu, durante anos e mais alguns, seguiu com enorme interesses a política nacional e internacional e, a dada altura, para não ficar louco, resolveu desistir, começa a ser engraçado - dá mesmo vontade de rir - verificar o carácter aleatório de tudo quanto os políticos dizem e determinam.
Nunca nada bate certo. Ou com o que se prometeu, ou com o que se esgrimiu. Está sempre tudo errado. Não há regras. E já nem se consegue vislumbrar o jogo dos interesses.
O recente escândalo do envolvimento de bancos em negócios duvidosos - quanto a mim uma notícia para disfarçar envolvimentos bem mais criminosos - imediatamente "abafado" pela grande comunicação social, deixa a descoberto o desnorte do sistema. .. pois, se até já Ricardo Salgado pode ser surpreendido por uma notícia desastrosa num dia em que, mais uma vez, convidado pela Judite de Sousa, vai fazer o papel de primeiro-ministro sombra...
Quais vão ser as consequências desta escandaleira?
Alguns inspectores da Judiciária vão ser despedidos? - 1ª hipótese.
Ricardo Salgado vai ser preso preventivamente ?- 2ª hipótese.
José Sócrates vem defender a honorabilidade da banca portuguesa - 3ª hipótese.
Mário Soares ganha as próximas eleições presidenciais - 4ª hipótese.
Posso fazer um concurso. Quem acertar, ganha a possibilidade de fazer um comentário à situação portuguesa, desde que a titule " A caminho da Ibéria".

sábado, outubro 22, 2005

VERDE QUE TE QUERO VERDE

É quase preciso ser poeta para entender o Sporting. O Sporting, como depois o Belenenses, nasceu do Benfica e isso já ajuda a entender alguma coisa. Mas pouca. O Benfica nasceu popular, popular no sentido de ser da ralé, do povo, quando povo significava operariado. O operariado tinha manias e por isso os homens que trabalhavam nos jornais desportivos não eram jornalistas e por isso não podiam falar de «vermelhos» fosse ele o Victor Silva, o «Tamanqueiro» o Albino ou o lisboeta Espírito Santo. Cândido de Oliveira era suposto ser comuna e era, portanto, mal visto pelos de cima. Que eu me lembre foi a primeira grande vitória do futebol português. Além de ser prestigiado na Europa, treinou o Sporting (e a Académica!) com sucesso. Foi treinar, imaginem!, ao Brasil. Por mór do futebol deixou de ser perseguido e até acabaria por ser escolhido para seleccionador!
Voltemos atrás, os alvalades eram ricaços e conservavam títulos da nobreza e acomodavam-se mal no Benfica. Sairam e formaram o Sporting. Os azuis já foi por outras razões e zarparam para Belém. Havia o Casa Pia e havia os Unidos, o Carcavelinhos, de onde brotou o Atlético, o Chelas e o Fósforos, que se uniram no Oriental.
E, bem entendido, o futebol era coisa de domingo à tarde. Quando eu cheguei ao futebol (de bancada) o Sporting é que estava a dar. O Benfica era como o Carlos Carvalhas: parra em demasia e uva nem vê-las! Vi o Benfica ganhar algumas Taças, mas campeonatos só os lagartos: sete em oito anos e eu vi-os todos. Ainda hoje tenho complexos!
Há uns interregnos divertidos: o Benfica foi campeão latino, em 50, no meio dos campeonatos todos do Sporting.
Quando a CUF de Lisboa acabou O Felix foi apara o Benfica, que não aceitou o Travassos, porque era pequenino! Era, sim senhor! Mas que enorme jogador ele foi! Quanto dele sairam tantos títulos para o Sporting! O Azevedo já vinha de trás. Tinha tapado o Martins, que foi no Benfica (linguajar africano), e depois Barrigana, que zarpou para o Porto (F.C. do). O suplente era,foi, Dores. Naquele futebol não cabiam suplentes. Nada de substituições, nem de guarda-redes. Lembrem-se que em 65 (se a memória não me lixa) o Benfica perdeu a final europeia, em Milão, com Costa Pereira na cabina e Germano na baliza. Creio que acabou aí a rigidez do sistema. Depois passou a poder mudar-se de guardião. Depois, um, depois, dois...até aos nossos dias.
A intenção foi (era) falar do Sporting. Melhor: entender o Sporting. Podia lembrar que o Sporting começou por ser levado ao colo. Devia ser necessário travar o populismo «encarnado». Mas, sinceramente não me consta que Peyroteo fosse fascista, nem o Manel Marques fosse da União Nacional.
Mas um gajo do Benfica precisava de ter desculpas. Mas lá que o Sporting teve um presidente que marcava «gois» aos intervalos, lá isso teve! Pelo menos a graçola perdurou desde que o o presidente leonino, de seu nome Gois, foi à cabina dos arbitros, na Tapadinha, "mandar vir"
com os artistas do apito. A partir de 60, o poder político aceitou o Benfica que luzia na Europa.
Salazar recebeu os jogadores encarnados, deve-lhes ter ofertado calices de vinho do Porto. E por essa altura já o Sporting andava aos papeis. Não tenho ficheiros, mas estou em crer que desde 54 o Sporting nunca mais repetiu dois campeonatos nacionais seguidos. Vou ficar por aqui, mas não sem lembrar que há muito, muito tempo, que um lampeão não podia falar de Sporting, ou vice versa, sem pedir licença a Pinto da Costa, que andou com a sua equipa às costas a ganhar campeonato atrás de campeonato, numa manifestação prepotente de abuso de poder...

quarta-feira, outubro 19, 2005

VACINANTES

Eu vos vacinarei, disse, hoje, em Lisboa, um senhor do governo, que revelou que tinha acabado de comprar uma montanha de vacinas para refrear a gripe das aves. Uma espécie de chamada a atenção: vêem que o governo não se distrai?
O ministro foi avisando que as vacinas só devem chegar em meados do ano que vem. E, em Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros disposto a comprar aviões especiais para combate a incêndios, ultra modernos, foi interpelado sobre gripes de aviário e achou por bem tranquilizar o interpelante lembrando-o que essa preocupação pertence à comissão especializada da União Europeia. A comissão é que deverá anunciar como, quais e quando se tomarão medidas globais.
Mas já ontem notícias provenientes de países cientificamente evoluidos tinham alertado para
precipitação de atafulhar gavetas com vacinas. As vacinas que existem presumivelmente não vão servir para nada, pois se a epidemia chegar aos humanos o virus será diferente.
Presumindo que o prof. Amaral não estivesse obscurecido por excesso de vodka, qualquer comum mortal poderia ser levado a crer que o ministro da Saúde entrou em pânico e não conseguiu suster o vício despesista, que acomete amiude os membros do governo, neste país.
Não pretendo tomar partido. Quando um ministro diz uma coisa e outro ministro diz outra, a respeito de compras caras, nunca vem o Diabo escolher, não, não vem. O que pode acontecer,
já tem acontecido, é a PJ um belo dia ir aos bancos vasculhar papeis...

segunda-feira, outubro 17, 2005

Ser Português em Portugal

Se nos debruçarmos com alguma atenção para esta condição de português vivendo em Portugal não podemos deixar de nos sentir, pelo menos, tristes, primeiro, depois, deprimidos e, logo a seguir, desgraçados, infelizes por nos ter calhado na vida terra tão mal organizada e governada.

Olhemos os professores universitários: parecem uns senhores a quem Deus deu um poder particular. Não olham à sua volta. Eles são a ciência, a inteligência, o saber!

Reparemos, agora nos jovens com 40, 4o e poucos, que foram atirados para fora do país com bolsas, com promessas de regressos fulgurantes, quando tinham 25, 26 anos. O que lhes fazem as instituições que lhes prometeram o paraíso? Recusam-nos pura e simplesmente ou continuam a alimentá-los com bolsas que não significam nenhum emprego, nenhum compromisso, nada.

Os milhares de brilhantes investigadores portugueses a viver fora do país não têm a mínima perspectiva de regressar. Não há lugar para eles em parte nenhuma. E isto mesmo depois de a pessoa responsável pelo tal grande movimento de investigadores do país, o prof. Mariano Gago, ter voltado ao poder.
É uma vergonha para todos nós , mas, evidentemente, só uma pequena parcela conhece o problema. Os outros sabem lá que há gente com esses problemas, que há gente a dar aos outros a sua capacidade, a sua inteligência e que, um dia destes, seguramente, vão esquecer a sua condição de portugueses.
Seguramente para alívio dos que continuam a olhar para o lado e para si mesmos, preenchendo os lugares das hierarquias académicas, às vezes com trajes ridículos, mas muito seguros de si próprios. Afinal, o país é decrépito, sem capacidade para inovar o que quer que seja, mas os senhores profs.drs. continuam nos seus lugares.
E com tal ignorância que a maior parte deles ainda não percebeu que está a preparar gente para o mercado de trabalho, um mercado cada vez mais difícil e, por isso, os estudantes, transformados em quadros do que quer que seja, necessitam conhecer as leis que regulam a sua actividade, pelo que - sei lá! - no último ano do curso deveriam ser elucidados sobre os seus direitos, sobre as hipóteses de trabalho que a lei lhes abre e até obriga a criar.
Por exemplo, os engenheiros do ambiente correm, nesta altura, o mesmo risco que os arquitectos correram durante anos e anos, com os engenheiros civis a assinar os projectos de arquitectura.
Há muita legislação, quer portuguesa, quer europeia - a exigir transposição para a legislação nacional - que obriga muitas instituições a ter nos seus quadros engenheiros do ambiente. Todavia, isso não está a acontecer. Não me admiraria que os engenheiros civis, mais uma vez, estivessem a utilizar o título e os lobies para validarem as suas assinaturas em projectos onde é necessária uma clara especialização.
Vá, Juventude, ORGANIZEM-SE!!!!

domingo, outubro 16, 2005

Fuga Descarada aos Impostos

Passei há cerca de duas horas na portagem da Ponte Vasco da Gama. Paguei a portagem em dinheiro e fiquei à espera do recibo. Nada. A senhora disse-me:"obrigado". Qual obrigado, qual carapuça - pensei, de mão estendida, à espera do meu recibo.
Ficou zangada, quando lhe disse que deveria dar-me o recibo sem mais conversas. Que não - disse - mostrando-me a porcaria de um papel colado no vidro. Não vi o que lá está escrito, mas deve ser qualquer coisa do género que a Lusoponte só entrega recibo se o mesmo fôr pedido.
Isto é, sem dúvida, uma fuga aos impostos. A senhora que recebeu os meus dois euros disse-me que tinha instruções no sentido de cumprir tal princípio.
Ora, a Lusoponte beneficia de contratos verdadeiramente fantasmagóricos - que ninguém con segue explicar - para explorar as duas pontes que atravessam o Tejo. Contratos que assinou com o Estado que todos nós sustentamos e desenvolve, nas nossas barbas, um sistema de fuga descarada aos impostos.
E não há ninguém responsável pela cobrança dos ditos que ordene uma fiscalização a este roubo feito a céu descoberto no bolso de todos nós?
Esta conversa que ouvimos a todos os governos sobre sistemas anti-fraude e anti-fuga aos impostos é para levar a sério?
Mais grave ainda:a Lusoponte está imune numa estratégia de roubo fácil porque os pequenos comerciantes pagam por ela, sendo duramente castigados quando são agarrados em pequenas fraudes?
O Estado que temos existe ou é ele mesmo uma fraude?

sábado, outubro 15, 2005

DIREITOS PERDIDOS

São quase todos, a começar pelo dito à indignação ou, pior ainda, ter de dar o dito por não dito. Por ser levado a encolher os ombros e fazer por esquecer. É pior que saber que o comboio vai aumentar (de preço, porra!, de preço) e a luz e o autocarro, também. Sócrates vai diminuir o taco às autarquias e desse modo forçar as autarquias a sacar na água e no lixo e no saneamento.
Cada vez custa mais adormecer e cada sono tem mais e mais pesadelos. E direitos?
É natural que um gajo se sinta lixado e refile por tudo e por nada. Hoje perderam-me a camioneta, o autocarro que me devia trazer de volta às quatro e meia. "Não tem lugar", disse a menina. "Só às cinco e meia", acrescentou. E passou-me o bilhete e eu perguntei-lhe: "não posso
tentar que o motorista me leve?". Ela acenou que sim e disse: "despache-se, que tá na hora".
O motorista olhou o bilhete e abanou a cabeça: "com este, não. Mas deixe ver. Há um lugar, sim, há um lugar"... E eu: "posso ir trocar de bilhete?". O tipo fez uma careta. "Corra, caraças, corra, que já passa da hora!".
Eu corri. Gaita!, tenho 70 anos!, faço que corro mas não ando muito. Mas fui e pedi e a dama disse que não e eu expliquei e ela disse que não. O computador não sabe de fretes nem de direitos. E não dava bilhete a autocarro cheio e se o autocarro não estava cheio a culpa não era do computador e a menina não queria maçar o computador e eu que me fodesse. E quando eu tentei, a arfar dos meus setentas, o motorista carregou no botão e fechou a porta e eu a vê-lo sair...
E não fui. E quis expressar o descontentamento. Que não, disse a menina. "Queixas só por escrito!" e abriu uma gaveta, com a intenção óbvia de me dar um papel. "Mas eu quero gritar, quero protestar... "Só por escrito", disse ela.
Dei três voltas ao terminal de Sete Rios e das três vezes nada. Pelo meio bebi uma cerveja e pensei o que só eu sei das mãezinhas daqueles gajos e o que consegui foi que um tipo das encomendas me dissesse: "Só por escrito".
Uma hora não é coisa que mate, mas chateia. A carroça saiu com um lugar vago. E eu fiquei porque nada nem ninguém é responsável ou responsabilizável.
Se ao menos alguém me levasse de Falcon...

terça-feira, outubro 11, 2005

CREDIBILIDADES

Na sexta-feira, o «DN» tinha pespegado na primeira página uma sondagem que previa a vitória de Carrilho, em Lisboa, e Assis, noPorto, por margem mínima, é certo.É verdade que deixava Seara ganhar Sintra, talvez para dar o toque de isenção!
Não constituiu novidade. Já em tempos ocorreram tentativas semelhantes de confundir o eleitorado, de tal modo exageradas que envergonharam os orgãos de comunicação social a ponto de levar os responsáveis por sondagens a inflectir e limitar-se a dar conta da recolha de dados de modo correcto. E fizeram-no razoavelmente bem. E tão razoavelmente bem que, pelos vistos,
começaram a incomodar. Montar uma sondagem que possa influenciar, em cima da hora, os indecisos, só resulta se tiver visibilidade. E teve-a, no «DN» e na «TVI» e foi citada na «SIC», se não estou em erro. E nem faço ideia se espalhada pelo país.
No domingo, à hora do jantar, começou-se cedo a perceber o que fora previsível desde o início do mês pelas diferentes sondagens, que evidenciavam mais sinais de desilusão governativa do que de apoio político.
Não sei quem espalhou panfletos a insultar e denegrir alguns candidatos. Nem sei quem cozinhou a sondagem panfletária, mas fiquei a saber que não são só os «candidatos ladrões» que conspurcam a democracia. Anda por aí muita falta de carácter. A continuar assim ainda arriscamos a ver mortos e enterrados a votar em quem menos mereça, como no passado!
Mas foi bonito ver um idoso bem vestidinho a pedir que votassem no filho, Esperemos que o menino se lembre, no dia do pai...

domingo, outubro 09, 2005

As Bandeiras

Hoje, numa mesa de voto, apareceu uma mulher - loira, de olhos verdes - com um boné a segurar-lhe parte dos cabelos e enrolada em várias bandeiras. Na fila ( ou bicha?) de voto, os outros, de gravata, de fato de treino lavado, de camisa desapertada, mas a notar-se o vinco de todos os dias, olhavam a senhora - desconfiados.
Ele eram as bandeiras do sporting e do benfica. Até do Olhanense, agora a singrar rumo à chamada (ou já não se chama ?) super-liga. Cachecóis do Braga, misturados com os do Vitória de Setúbal.
A Loira, de olhos verdes, permanecia calma, sem olhar para ninguém e sem permititr que alguém fixasse os olhos nela. Direita, quando olhava, olhava em frente. Até do Barcelona, ela tinha uma camisola. Sem publicidade, limpinha - só o emblema da Catalunha.
Tinha muita gente à frente e a bicha (como a da cave) arrastava-se lentamente. A senhora chegou à frente da mesa de voto. Os membros ficaram em sentido perante tanta bandeira e ela perguntou, com voz nasalada:
"por favor, os senhores podem indicar-me em que porra de bandeira destas eu posso botar a minha cruz, isto é, em qual emblema eu posso acreditar. Querem que eu seja mais explícita: há aqui alguém (um gajo ou uma gaja) que me possa dizer em que cor eu posso apostar tranquilamente?. Ou vou-me embora e volto a pendurar as bandeiras e os cachecóes na marquise até aparecer a Maria da Fonte?"
Fez-se um silêncio pesado, ninguém se atreveu a responder à mulher loira, de olhos verdes, enfeitada de bandeiras (mas com gosto). Ela, então, olhou para os membros da mesa, ainda em sentido (claro) e declarou: "não escolherei. Recuso-me a escolher bandeiras, sem conhecer as ideias, os projectos, as intenções, o carácter de quem se apresenta a eleições. Não escolho porque não há diferenças. Levo as minhas bandeiras, estas, as únicas que continuam a ser símbolos de batalhas abertas".
Saiu a mulher. A assistência ficou calada, estarrecida. Que fazer? os homens e as mulheres da mesa de voto olharam-se entre si e uma de entre eles, encheu-se de coragem e disse: " ao menos diga-se o seu nº de eleitora para colocarmos a cruz".
A senhora loira de olhos verdes olhou-os de cima e percebeu a preocupação: os números, as percentagens e debitou um número.
À saída uma televisão fazia sondagens à boca das urnas e interrogou-a: "para a Junta de Freguesia votei Estoril Praia (não é tão chieque?...), para a Câmara Municipal votei PCTP/MRPP. Agora é que isto vai..."

Todo o povo parou para ver aquele boné passar.

A Crise do Estado

A palavra crise é uma companheira de todos nós. Desde que nascemos até que desaparecemos ela sempre nos acompanha. Uma vezes mais que outras, é certo, mas sempre ela se nos depara, para nos atrapalhar a vida.
Normalmente, o que nos perturba a vida é aquilo que não percebemos. E poucos de nós conseguimos perceber o que, nos vários contextos, se designa por crise.
Por exemplo, nesta altura fala-se de crise económica, de crise de valores... crise da sociedade, crise na Igreja, crise na União Europeia...
Todas estas expressões são os retratos a carvão de uma única crise: a do Estado.
O Estado, que levou milhares de anos a constitur-se, a organizar-se, com o objectivo de tomar conta das pessoas, de as juntar, de lhes propôr objectivos comuns. O Estado que se arvorou em defensor dos oprimidos, dos menos favorecidos, dos desprotegidos.
O Estado que, com esse programa, teve várias formas e passou do poder despótico, absoluto, um legado de Deus, a um poder irresponsável, sem objectivos e com um único objectivo: o de cobrar impostos dos cidadãos temerosos da lei para o entregar a outros, sem medo de coisa nenhuma e dispostos a retirar ao Estado todos os poderes que possam dar vantagem.
Na realidade, a crise que hoje vivemos é a crise do Estado, incapaz de regular o que quer que seja. Se olharmos com atenção para pequenos aspectos da nossa realidade depressa verificaremos que nenhuma lei protege o cidadão normal, cumpridor das suas obrigações.
Por exemplo, os seguros. Existem para quê? Para garantir que o cidadão comum a quem aconteceu um desastre, em casa, com o automóvel, com o que quer que seja e, para se prevenir, assinou uma apólice para transferir a sua responsabilidade para uma instituição, que na maior parte dos casos recebe e não paga nada, garanta a cobertura da sua responsabilidade?
Não. Os seguros representam um sistema de roubo sistemático, porque raramente pagam o que devem pagar e sempre cobram acima do que devem cobrar. A não ser que seja alguém poderoso, que se serve do sistema dos seguros para enriquecer ainda mais.
O sistema bancário - outro exemplo - existe para facilitar os negócios, conceder créditos, valorizar as poupanças?
Nada disso!
É mais um sistema montado para roubar o cidadão normal - não aquele que tem milhões de dívidas - mas aquele que vive do seu salário, que compra um carro a prestações e já comprou a máquina de lavar pelo mesmo sistema, bem como o frigorífico.
A este, o banco demora cinco dias a creditar-lhe um cheque, mas debita-lho na mesma hora em que ele o entregar para pagamento.
Olhem para o sistema de segurança social. Dizem que está em crise. Que vai desabar. E porquê?
Porque o Estado - não estou a falar de governos, que são todos a mesma coisa - permitiu que os poderosos, que tomaram conta dos transportes, das empresas de telecomunicações, de energia, de tudo quanto dá dinheiro, se preparam para, do mesmo modo, ir buscar o dinheiro que o cidadão comum, de boa fé, deixa que lhe descontem todos os meses, na esperança de, quando já não tiver força para trabalhar, ou quiçá, sair de casa, ter um meio de subsistência.
A crise é do Estado, de que meia dúzia ou uma dúzia -o número não interessa - de poderosos se serve como instrumento para reduzir direitos, aumentar deveres e nos levar a uma nova forma de escravatura. É para lá que caminham os nossos filhos. Com uma gravante significativa e significante: eles não têm consciência do que lhes está a acontecer, não têm capacidade de organização, ainda não perceberam que os carros de que desfrutam, as discotecas que os entretêem e as roupas de marca que os enfeitam fazem parte das algemas com que lhes estão a prender o futuro.
O Estado é cada vez mais uma organização caduca, prejudicial ao progresso do homem. Já o era na versão marxista e que Bakunine contestava. Agora é-o muito mais, porque não é carne nem peixe.
Alguém sabe quais são os poderes de Jorge Sampaio? E o que é que José Sócrates pode fazer para garantir que eu e tantos outros como eu não vamos, um dia destes, deixar de ter endereço porque o carteiro não vai debaixo da ponte.
Bakunine tinha razão? Pelo menos na necessidade de discutir a utilidade do Estado, tal como ele existe, sim. Vou reler Bakunine, deixar de ouvir Sócrates, Sampaio e todos os outros. Infelizmente vou ter que continuar a pagar os meus impostos, mas espero que quando alguma coisa de grave aconteça, eu ainda tenha força para poder mostrar-me.
A crise do Estado é sobretudo muito grave porque os seus agentes, o governo, só têm uma capacidade, a de ler as obrigações do Estado segundo os interesses dos poderosos, que, não tendo pátria, também já não têm rosto.
E esta crise irrita-me, sobretudo porque não há nenhuma maneira de a discutir. A nossa comunicação social é feita por marionettes, desmiolados, protagonistas do vazio que nos rodeia, pertença de grupos de gladiadores dispostos a colocar na arena os seus melhores homens quando o bocado em discussão fôr suculento.
A propósito: poucos dos que hoje escrevem para os jornais, para as rádios ou para as televisões sabem quem foi Bakunine.

sábado, outubro 08, 2005

CLARO QUE HÁ MAR E MAR...

Houve para mim, que fui e voltei. E à medida que os anos passam e a vida gira, de cada vez vou indo menos e vou ficando mais. Mas fui sempre um lisboeta discreto e obscuro. A minha cidade era o que não é hoje: um sítio para pessoas, uma cidade cheia de lisboetas e com alguns estranhos, poucos. Hoje a capital não tem lisboetas, tem gente. Perdeu a identidade, despiu-se de tradição.
Nasci e cresci Lisboa fora. Sem «Metro» mas com muito eléctrico. Só depois do fim da II Guerra Mundial chegariam os autocarros. À medida que a noite avançava, os eléctricos espaçavam e a pacatez da cidade convidava ao passeio a pé. Aqui e além vislumbrava-se um polícia, e mais além um guarda nocturno e não raro juntos, de paleio. Automóveis parados, encostados aos passeios.
De vez em quando alguém batia palmas, alguém que esquecera as chaves da porta do prédio. Era a oportunidade para o guarda nocturno amealhar algum trocado. Ao romper da aurora as ruas começavam a encher-se de mulheres a caminho de trabalho nos mercados ou nas limpezas de estabelecimentos, repartições ou bancos.
Claro que havia zonas da cidade menos pacatas. O Cais do Sodré, cheio de trepidação nocturna, nos bares que ainda não se denominavam de alterne; o Bairro Alto concentrava o maior número de prostíbulos, mas havia-os também dispersos por outros pontos da cidade, preferencialmente junto ao rio ou nas imediações da av. da Liberdade, onde também se pescava na rua...
Tive alguma sorte quando chegou o meu tempo de passar da teoria à prática. A teoria era ingénua e a prática falseada e, não raro envenenada. A minha sorte consistiu na penicilina, acabada de chegar ao mercado. Ainda alguns meses antes era necessário ir à Cruz Vermelha, fazer bicha para trazer parte da receita médica e portanto doseada consoante a gravidade das doenças. Até então para aliviar os tropeções tinha que recorrer-se a argálias e ainda hoje, só de pensar nisso fico pálido e minúsculo.
A vida era um jogo e era preciso aprender. Nunca tive muito jeito para o jogo. Joguei com bolas de trapos, na escola sem grande sucesso. Na ginástica nunca consegui saltar em extensão. Fui bom nos matraquilhos e superei os amigos no bilhar. Só no pocker me sinto à altura de me bater com os semelhantes, mas levei tempo. Recordo-me de uma vez regressar de uma noite de pocker, madrugada dentro, de bolsos vazios, na companhia do Gonçalo Duarte, que conheci no Gelo, igualmente sem sucesso na mesa. Sentamo-nos num banco da 24 de Julho, a ganhar fôlego para o resto da caminhada, e avistamos um grupo ruidoso de varinas que vinha da Madragoa. Discução acesa e uma dela atirou um insulto suez. A outra gaguejou uma série de impropérios e gritou para a outras: «fersureira, eu!?Eu!». Levantou as saias e começou a dar palamadas sobre a cueca: «Olha aqui! Olha aqui...pr'o calo dos colhões do meu marido!»
Deve datar dessa noite alguma da insegurança que me foi afligindo ao longo dos anos...

EU VI MARCEL CERDAN

Fui ver no Coliseu. Era peso médio, mas pespegaram-lhe com um meio pesado na frente: Agostinho Guedes. Foi uma aventura. Nesse tempo eu era um miudo de escola e era um desportista de jornal. Sabia do Cerdan campeão, de título mundial, quase tudo. E quando soube do combate em Lisboa esfalfei-me para arranjar guita para uma geral no Coliseu. Cravei toda a gente do meu mundo e, na véspera, lá fui para a fila comprar o bilhete.
O dia nunca mais passava. Mas, à noite, a sala transbordava. O ambiente do Coliseu a abarrotar.
Fumarada, porque se fumava muito, nesse tempo, e por todo o lado. Houve uns combates para entreter e aumentar o apetite.
No intervalo, antes do combate, estava cheio de sede. Deixei o lenço no degrau e fui ao bar, repleto de gente adulta, mais alta e encorpada, mas lá tive o pirolito e voltei para a sala, em marcha lenta, que os gongos tiniam. Logo à entrada da sala, avistei o Agostinho já no canto e o Cerdan a subir entre cordas para o ring. Acelerei para o lenço. Vi os dois junto do árbitro apertar as mão. Fiz mais um esforço para passar por um chato que não deixava passar e lá estava já a pegar no lenço quando oiço o bruá-á tremendo e viro-me. Agostinho Guedes deitado e o árbitro ia gesticulando com braço e um dedo estendido e oito sacudidelas depois, cruzou os braços, virou-se e levantou um braço de Marcel Cerdan. Não vi o soco. Não vi nada, a não ser uns segundos antes, quando os dois se tocaram com as luvas. Era uma barulheira à minha volta e eu sentia lágrimas nos olhos.
No dia seguinte, no campo do Benfica, voltei a ver o Cerdan, vestido de gente comum. Foi levado ao meio do campo de terra batida e levantou o braço e recebeu uma ovação. Não bati palmas. Ainda não sabia o que era frustração e fiquei com vergonha de falar do assunto.
Os jornais desportivos iam dando novas do campeão. Em França ele perdeu o combate com o norte-americano, suponho que era o Vilemain. Durante o combate estragou uma das mãos e não
permitiu o combate desforra muito depressa. Depois, já refeito, teve de gramar as evasivas do novo campeão, que aparentemente não se sentia muito seguro de si. Quando finalmente se aprazou o combate, desta feita nos Estados Unidos, gerou-se grande expectativa. Edite Piaf que andava de namoro, meio escondido, com o boxeur, foi dar espectáculos nos states. Mas ela ainda teve mais azar que eu: nem houve combate. O avião ficou-se pelo caminho, sem sovreviventes.
Nunca mais fui ao box. O mais próximo que estive foi um combate para um título mundial, que teve lugar em Kinshasa. Tive convite e até hesitei, mas não fui. Mas correu tudo bem e os que foram gostaram o combate e do passeio...

sexta-feira, outubro 07, 2005

Os Valores

A todo o tempo em todos os "foruns" (fora) se ouve a firmação: "já não há valores...".
A maior parte das vezes ficamos sem saber a que valores as pessoas se referem. Serão os da bolsa?
Outras, temos a ligeira impressão de que se fala de posições de moral, quiçá de fé.
Valores da civilização ocidental, seja o que isso for, do cristianismo, do islamismo, do budismo, sei lá... do induísmo.
Valores traídos, recalcados, sublimados, exacerbados. Valores. Uma palavra, que, pela repetição, se torna igual às outras. Mais que pela repetição, pela negação.
Ainda há dias felizes na vida de um homem. Hoje descobri que o meu real valor é o de poder continuar a olhar-me no espelho. Tem alguma rugas, pode, mesmo não ter a mesma exuberância de outros tempos, mas tem o mesmo olhar. Não faz nada contra si mesmo. Muito Obrigado, espelho meu!

quinta-feira, outubro 06, 2005

POLÍTICA SOCIAL

Uns dias atrás dei um bafo a propósito de promessas de candidato. Um deles prometia taxis gratuitos para velhotes envelhecidos. Eu acho que mesmo idosos conservamos o direito a ter a mania e sugeri, com bonomia, que o candidato fosse mais longe e contribuisse com algumas das pequenas da vida e com razoável regularidade. E não é que, subitamente, me cai em cima uma notícia, proveniente da Dinamarca, relacionada com a minha desinteressada proposta. Uns tristes contestatários ao governo refilaram, com um azedume moraleiro de merda, contra o apoio social que o Estado proporciona aos deficientes, permitindo-lhes acesso a prostitutas, profisssão legalizada. O Estado paga a deslocação da profissonal e os cuidados prestados. Sem taxas moderadoras. Nem espero por domingo, mando já e daqui o meu voto de profundo respeito e admiração pela democracia da Dinamarca e pela sua política social. E abstenho-me de graçolas...

Sem Perder a Ternura

Em 1969, eu exibia, em tom provocatório, numa parede da minha casa virada para uma janela da rua, sempre aberta, um poster flamejante de Che Guevara.Preto e Vermelho, era composto de peças de cartolina, assim como moldes de costura.
Guevara era um modelo, um mito, uma lenda, o que se quiser. Era um sinal dos tempos, daqueles tempos, em que as pessoas se interrogavam a si mesmas em nome de valores tão simples como a solidariedade, a justiça, a partilha, a igualdade nas oportunidades.
Neste momento, tenho à minha direita, numa parede da sala onde escrevo, uma fotografia não muito vista de Che Guevara, com uma legenda ainda mais significativa: "...sem perder a ternura jamais!"
Foram-se os valores daqueles tempos do Che a preto e vermelho, mas também se foi a ternura. Hoje, aparentemente, cada vida se resume a várias batalhas e, no final a uma guerra, cujo inimigo pode estar em toda a parte. Os amigos não existem, ou se existem estão longe, distraídos, ocupados...
Já pouca gente acredita que alguém que não se conheceu e aparece, de repente, nas nossas vidas, pode estar preocupado connosco, com a justiça do que nos acontece; preocupado em partilhar, em ser solidário, em fazer da vida uma estrada de ternura.
Por isso, o Che continua a ser um bom companheiro, porque me recorda as razões e os motivos que me guiam.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Eleições - Voto Nulo

No próximo domingo vai haver eleições para o chamado "poder local", uma das mais importantes conquistas da revolução de Abril. Graças a ela e à lei das finanças locais promulgada por António Guterres, os autarcas ficaram, em Portugal, com o estranho poder de "cunhar moeda". Isto é, um presidente da Câmara, ao alterar o chamado PDM, pode transformar um terreno sem serventia, que nada vale, numa verdadeira mina de ouro. Basta que trace naquele local uma urbanização. Quantas há por aí, já com luz eléctrica, água instaladas, mas sem casas. Basta percorrer algumas das auto-estradas que ligam as grandes cidades...

E essa "moeda cunhada" tem valor real, não é apenas conversa. Pense-se na provável fortuna acumulada pelo candidato contra tudo e todos à Câmara de Oeiras, Isaltino de Morais, nas benesses adquiridas por Santana Lopes no tráfico de influências na promessa de compra de terrenos, na instalação de equipamentos sociais, de lazer, o que quer que seja.

As eleições autárquicas são o jogo do pouco dinheiro, que, somado ,dá muito. Atente-se, por exemplo, no caso de Mafra. O actual e, de certeza, futuro presidente da Câmara constituiu uma rede de interesses tão complexa e tão firrme que ninguém o vai deixar cair. Toda a gente é cúmplice. Eu não me admiraria mesmo que alguns dos socialistas que andam empenhados na campanha contra ele, na hora do voto votassem contra si próprios, a favor dos seus interesses.

Cá por mim, que vou votar, como sempre (lutei muito para que tal direito me fosse permitido) vou anular o meu voto com a eguinte frase: " este já é o referendo para o aborto?"

domingo, outubro 02, 2005

Uma Estória da Rua 48

A senhora já não tinha idade. Era difícil calcular os anos que já tinha calcurreado pela vida. Ela própria já não se lembrava quando tinha ido morar para aquela casa e também não sabia se alguma vez o tecto, sobretudo o da casa de banho, tinha sido doutra cor. Foi sempre assim, cheio de manchas cinzentas e castanhas.
Havia sempre gente nova a entrar no prédio. Uns compravam, outros alugavam. E faziam obras. A senhora sem idade ia ouvindo e lamentando-se. "Que, de vez em quando, lhe chovia em casa!"
Ao todos, duas vezes, assim umas gotas. Achou que, falando com a vizinha de cima, talvez lhe mudassem a cor dos tectos. Estava tão farta daquele cinzento cheio de manchas castanhas...
Chegou o homem do seguro para analisar e alguns dias depois mandou dizer, assim uma crónica semelhante às de Fernão Lopes, a precisar de especialista para decifrar. O especialista levou um dinheirão, mas foi dizendo: de qualquer forma, terá sempre de pagar 100 euros de taxa de caução civil.
"Caução quê?!" - perguntou a senhora do andar de cima. "Então não foi para isso que foram inventadas as companhias de seguro, para assumirem as responsabilidades civis dos cidadãos, que lhes vão pagando todos os anos e, normalmente, não dão nenhuma despesa...?"
"Não foi para isso?... "e o especialista, já a tirar o corpo de fora, dizia. "bem... não é exactamente assim..."
"Isso quer dizer que a companhia de seguros me está a querer roubar, ou que já me roubou mesmo...?"
A mulher sem idade já não ouvia nada, o cavalheiro da cave olhou o céu com os olhos em alvo, a senhora loura do outro andar fez um ar desentendido.
Apareceu, entretanto, o senhor das obras, a desculpar-se, mas ainda estava atrasado, tecnologicamente falando, não podia "tirar radiografias às paredes".
"Radiografias às paredes?"Perguntou a inquilina do terceiro andar, médica, mas que nunca tinha ouvido tal coisa. "Está tudo doido, o melhor é pirar-me" - pensou e começou a correr escadas acima. Quando, de repente, se ouviu um grande estrondo: a banheira da senhora que morava por cima da mulher sem idade tinha desabado por sobre a cabeça da pobre velha.
A banheira tinha a funcionar o sistema de hidromassagem . Toda a gente correu para socorrer a pobre vítima da hidromassagem, a rua toda se sobressaltou e até o senhor do prédio da frente, sempre muito atento às injustiças da vida, se aproximou procurando entender.
A velhota estava sorrridente, a ser massajada, o senhor do seguro classificava tudo aquilo de um verdadeiro acidente, pelo que a sua companhia pagaria todas as despesas. E até já nem se importava de pagar uma banheira com hidromassagem à pobre da velha, toda desgrenhada mas feliz.
O cavalheiro do prédio da frente não achou aquilo normal. Tinha que haver ali qualquer engano. As companhias de seguro não pagam, assim de repente, banheiras com sistemas de hidromassagem...sobretudo a mulheres sem idade.

quinta-feira, setembro 29, 2005

SER OU NÃO ESTAR

É como estar e não ser. Convém sempre dar um toque pessoal para ficar melhor na fotografia. Eles já inventaram tudo e eu cada vez mais sei menos. Cada vez tenho mais dificuldade em entender os outros. Os «outros» sabem mais do que eu de bola; sabem mais do que eu de História. De política estão lixados porque eu não sei nada. Nem gosto, nem quero saber mais de quem sabe pouco. Não sei nem quero saber, o que me permite algum gozo. A idade ajuda a ignorância, dá-lhe cobertura.
Tudo quanto soube de economia já gastei. Quando era menino andava, às vezes, um pedaço a pé, até à paragem seguinte do eléctrico, para poupar três tostões; com eles podia comprar um pedaço de alfarrouba e meia dúzia de amendoins.
Conheci uma menina da minha idade, e nessa idade só eramos meninos, algures no Norte, onde fui de férias. Era longe porque andei uma noite inteira de comboio que tinha terceira classe, para quem quisesse poupar ou não tivesse massa para não poupar. A mãe da menina é que é personagem nesta crónica, não é a menina nem eu, que nem sabia o que fazer dela, além de brincar. A senhora trabalhava numa fábrica de camisas suecas de marca. A economia já funcionava. As senhoras que cosiam as camisas ou as cortavam antes de coser, alguém que tomava notas, as embalava, enfim: uma data de alguéns produzia para uma marca sueca. As camisas prontas saiam com destino à Suécia, que fazia delas o que melhor entendia.Em Portugal não se podiam vender, a não ser que fossem importadas e acho que não eram.
Naquela altura eu não compreendia e se fosse chinês se calhar também não. Mas era assim. Ainda não havia, à luz do Sol, partido comuna, que protestasse. Sempre era melhor que labutar no campo ou no comércio das mercearias. Terá sido assim que se inventou o Vale do Ave, que não era a mesma coisa, penso eu, que as fábricas de fazendas da Covilhã, onde se teciam tecidos de qualidade. Só muito depois, praticamente nos nossos dias, os automóveis vieram para cá ser montados. O princípio era o mesmo. E continua a funcionar com o mesmo impiedoso obectivo.
Não foram os chineses que inventaram isto. Não foram os chineses que desataram a fabricar ténis de marca. Foram empurrados através da exploração da mão de obra barata. As grandes marcas europeias e americanas foram andando, saindo aqui, indo para ali, até lá chegar.
Finalmente a Europa descobre que o que é barato sai caro...

A Criação

Estou a criar um deus.
Um deus simples
sem poder
um deus que me ame
me proteja
a mim
e aos outros
aos que eu amo.
Um deus.
A quem eu agradeça
o que me tem dado.
Um deus .
Que me ouça
e me fale.
Um deus sem mistérios
aberto e fraterno
de olhos limpos.
Estou a criar um deus.
Um deus.
Doce
Terno
Amante
Amoroso.
Um deus!
Eu vos direi
Eu vo-lo darei.

quarta-feira, setembro 28, 2005

MINISTRAR

Ouve-se e pasma-se. Por vezes resmungo uns palavrões entre dentes, que a neta é pequenita e não convém que oiça os desabafos do mais velho. Desta vez não havia criancinha próximo, que já é tempo de escola e desabafei à vontade e tanto que o cão fugiu espavorido!
Era um ministro que eu ouvia pela rádio. Era sobre o que um secretário de Estado, do seu gabinete, dissera a um jornal económico, a propósito de um novo aeroporto para pobretanas, nas redondezas de Lisboa. O que o ministro disse era que o assunto estava a ser estudado e sobre isso o que havia de momento era nada. O «pé de microfone» insistiu que o o secretário de Estado dissera que a escolha ia ser anunciada pelo governo até ao fim ano. O ministro não foi de modas: se ele disse isso, pergunte-lhe a ele!
Por mim acho que vou pôr a questão às avessas: os secretários de estado têm os ministros que merecem! Os aeroportos também. Também merecem os secretários de estado que lhes impingem. No fundo é como os distraídos: merecemos os comentadores da crista, como o que disse, no domingo que os juizes são membros de um orgão de soberania e que por isso não deviam ter sindicato nem fazer greve. Como os deputados e os membros do governo, sublinhou.
Só que, os deputados têm, olá se têm!, sindicato, o mesmo, de resto, que têm os membros do governo: o santo partido, um vero sindicato e dos mais pródigos a arranjar empregos. E os juizes
podem, se quiserem, resolver a questão mudando o nome do organismo que os defenda para Ordem terceira qualquer. Uma Ordem que permita meter na ordem as magistradas mais tolerantes.
Também ouvi um ministro tecer comentários ao sistema de cuidados de saúde dos funcionários da Justiça e à forma como é financiado, através das receitas judiciais e notariais pagas pelos utentes dos serviços, sem o saber, o que, a ser verdade, podia configurar um abuso de autoridade. Mas o que o governo pretende não é libertar o utente que recorre à Justiça desse
pagamento. O que o governo pretende é o taco a reverter para o Estado e o magistrado que vá para a bicha dos hospitais ou vá tratar-se a Cuba...
Vai faltando paciência. Ainda acabo por preferir ouvir o Peseiro, Ao menos este tem sempre razão...

terça-feira, setembro 27, 2005

Crónica Apressada Da Mulher Portuguesa "atípica""

Levanta-se às 07HOO;

sai de casa às 08H30;

tomou pequeno almoço, com requinte, à mesa;

espera pelas amigas na rua, com ar de dona do Mundo;

apanham o autocarro juntas;

dizem piadas umas para as outras;

jogam com os subentendidos;

sugerem que conhecem tudo e todos;

intimidam os restantes fregueses do autocarro;

ganham o gosto pela viagem matinal;

mudam de linha, uma, duas vezes;

combinam encontro de "gajas" para as compras nos shoppings da cidade;

têm madeixas semeadas de forma inteligente e falam mal das loiras;

anunciam os horários das depilações ;

tresandam a namorados;

publicitam asilos para velhinhos;

usam óculos escuros, tipo mosca;

roupa justa, espartilhadas;

mostram uma nesga do peito;

perturbam os utentes dos autocarros com aquele olhar: "vejam como sou boa!";

chegam ao emprego cansadas da viagem, do cheiro que as perseguiu;

sorriem para o patrão e para os colegas;

"vamos lá, que este é outro dia!"

Nunca mais chega o momento.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O Duque de Viseu

D. Afonso Henriques chegava a Viseu e dizia ao Duque: "manda-me a tua mulher. Quero dormir com ela ". E o Duque mandava a mulher.

D. Diniz passava por Coimbra, deixava a Santa no Convento de Santa Clara, hoje " A Velha", e rumava os campos do Mondego onde lhe serviam uma moçoila entre sombras do choupal e fenos frescos.

D. João I passeava-se pelas ruas estreitas do Castelo de S. Jorge, enquanto D. Filipa ensinava os infantes.
Sempre assim. O Rei sempre mandou e quis mandar. Mesmo D. Sebastião, que não batia bem da bola, meteu na sua comitiva pessoal para Alcácer Quibir uns moços de boas famílias.

Depois que a República chegou e se acabou com a guerra dos cemitérios, os regedores começaram a pedir favores para os primos e para as primas casadoiras. "oh senhor ministro não se esqueça..."

E lá vamos nós andando.

Acabou o Estado Novo, chegou o governo dos militares e as vendedeiras de flores ( de cravos) não deixaram de aproveitar: "oh jeitoso, não se esqueça; olhe que ainda voto em si..."

E começou a dança das alternâncias. Sempre com esperanças vivas...esperanças mortas...promessas feitas e, logo a seguir, desfeitas.

Mas, o sistema continuou: agora, por exemplo, é o ministro do Trabalho e não sei mais de quê, tido como homem sério ( a verdade é que ri pouco) que, com medo não se sabe do quê, resolve reconduzir no cargo de Provedora da Casa Pia a drª. Catalina Pestana.

Toda a gente sabe que o ministro sabe que a senhora não consegue ter uma ideia para valorizar a Casa Pia e que só pensa na protecção das chamadas "testemunhas" do caso pedofilia e na concessão de privilégios inauditos aos seus adjuntos.

Toda a gente sabe que o ministro foi pressionado pelo presidente da República, Jorge Sampaio, a pedido de seu irmão, Daniel Sampaio, membro da chamada comissão científica para a Casa Pia e, por isso, particularmente interessado no esquema proposto de redução da intervenção pedagógica da Casa Pia, venda de patrimónios, etc., etc.

Digam lá se não continuamos no tempo de D. Afonso Henriques? Só não temos o Duque de Viseu.

domingo, setembro 25, 2005

Os Mensageiros

Hoje passou-me um pássaro à porta.

De plumagem exuberante, assobiava,

trauteava, ou, mesmo, cantava uma melodia encantatória.

Seria um pássaro encantado.

Os pássaros encantados valem outra vez.

E vamos entendê-los, sem nos enfeitiçar

Pelas plumagens extasiantes.

É preciso ouvir os pássaros.

Mesmo quando não são encantados.

sábado, setembro 24, 2005

O AUTOCARRO DO AMOR

Dantes para se vender melhor o copo de cerveja davam-se tremoços. Um pires deles. Em alguns balcões mais generosos juntava-se ao pires de tremoços outro de azeitonas. Nesse tempo nem era preciso fazer eleições para se ter um presidente de câmara à maneira. Poucos se preocupavam com isso. Tanto nos fazia que fosse fulano ou beltrano.
Hoje a cerveja está mais cara. Talvez seja pelas azeitonas, dada a carência de oliveiras ou a falta de quem trate delas. De vez em quando temos de escolher um presidente para a nossa câmara. Hoje tive notícia de mais um que já foi e vai ter que ir a tribunal. Eu não votei no presidente da minha câmara e ele mesmo assim já ganhou uma porção de vezes, o que me tranquiliza a consciência, se ele quiser algum a mais do que é legítimo e for incomodado pela Justiça ninguém me poderá responsabilizar.
Quando vou a Lisboa espanto-me. Tanta gente a querer o tacho. Tanta gente a prometer um caminho atapetado sob um manto cor de rosa. Um mais do que os outros. Ama a família. Para que não restem dúvidos adianto já que é o marido. Promete taxis à borla para idosos. É giro. Se os idosos andarem todos de táxi, sobra lugar nos autocarros para os trabalhadores. E assim os desempregados já podem andar a pé à vontade.
Devo reconhecer que a sociedade cada mais se preocupa connosco, os velhadas. Um taxi para ir jantar ao Lumiar, antes do jogo, dá jeito. Mas não é tudo. Um candidato mais realista devia ser capaz de garantir aos idosos uma prostituta por semana e alguma literatura a condizer. Um que
talvez fosse homem para isso já não é candidato, rebentou pelas costuras. Em Bragança podia ser sítio, mas não dá, as mães correram com as meninas. Amarante? Quem sabe... O homem de lá é homem capaz de tudo...
Vá, meus senhores, se querem votos prometam!Sempre é melhor prometer gozo do que gozar com a gente...

sexta-feira, setembro 23, 2005

MENSALINO

Saiu pela calada; regressa como furacão. Estilhaça a moral convencional e despe-se de preconceitos. Dito de outra forma, menos suave mas mais concisa: chegou, coçou-se e mandou-nos à merda. Não sei se uns certos magistrados foram. Eu, que remédio, enchi-me de papel higiénico e fui. Já estou habituado a pagar a crise. Vou largar mais nas farmácias; pago mais IVA. Para evitar perder peso, janto mais vezes em casa dos amigos. Nos quiosques noto que o primeiro ministro tem uma namorada. O meu vizinho também tem, mas não se vê no quiosque e é por isso que a mulher dele não sabe.O primeiro ministro não fala de autárquicas. O senhor Presidente da República, também não. Deviam falar. O mais alto magistrado bem podia mandar uns recados aos outros magistrados mais baixinhos...
Paira uma mancha enevoado sobre a brasileira Fátima, intocável. A autarca fugidia não podia ser extraditada. Com tempo para reflectir sobre o que se passa por lá deve ter-se sentido moralizada. E sabendo o que se passa por cá, nem cabe nela de serenidade. Um amigo dela revelou-me que ela veio mais cedo por medo que Vale e Azevedo avançasse sobre Felgueiras! A mesma razão invocou um dos candidatos a Oeiras!
E quando perguntaram a um eventual candidato a Belém porque motivo ele não se pronunciava sobre as autárquicas ele respondeu que só fala de assuntos sérios!
Um dia destes os agentes da ordem vão-se manifestar, sem precisar de levar com eles as esposas amantissimas. Acho que vão perguntar porque é que se anda a prender tanta gente para nada...

terça-feira, setembro 20, 2005

BATER NO CEGUINHO

Li algures qualquer coisa sobre um antigo ministro de Salazar que anunciou uma baixa de preço do pão, na véspera deste aumentar o custo. Se bem me recordo o ardil consistiu na criação de um novo tipo de pão, mais leve e com fase de farinha de menor qualidade, de preço inferior meio tostão ao do pão comum (até então) melhor e mais pesado. Ninguém sabia, provavelmente nem o ministro salazarengo, que acabava de ser inventado o genérico. O esquema foi utilizado em outros artigos de consumo, mas não por muito tempo. Ministro e artifício foram depressa postos de lado e, como o pão genérico, rapidamente esquecidos. Mas devia ser útil avivá-lo ao dr. Almeida Santos para ele ter mais cuidado no futuro com as comparações!
Peço desculpa pela insistência, mas foi o ilustre socialista quem despertou a bela adormecida. Não é que me atormente o remoque a Cavaco Silva, a propósito das presidenciais, só que me pareceu despropositado.
Ao anunciar, em tempo de eleições, uma baixa nos preços dos medicamentos, para adoçar a diminuição das comparticipações do Estado, o governo, este sim, abriu a gaveta de tristes recordações de políticas de um passado pouco recomendável. Mas, pior que isso, desperta a pior das curiosidades sobre o Orçamento, que só será mostrado depois das autárquica!
Juntando a isto as nomeações, obrigadas a mote, para cargos bem remunerados, está a gerar-se visível incómodo nas listas socialistas que se expõem ao humor do eleitorado...
É natural, também, que Mário Soares e seus mais próximos apoiantes sintam alguma preocupação, não tanto na estratégia quase silenciosa de Cavaco Silva, mas pelo excesso de ventania que que sopra de S. Bento e do Largo do Rato.
Como tudo seria diferente se Sócrates pudesse perdoar a Pinto da Costa sem ter de o fazer de a Valentim Loureiro!

segunda-feira, setembro 19, 2005

Piroseira

Hoje estive a ver o jogo de futebol entre o FCP e o SCB (Futebol Clube do Porto/ Sporting de Braga). Empataram; o jogo pareceu-me mais um encontro de "boxing". Em Portugal já não se joga futebol.
No "zaping" que se seguiu, porque a Sport TV também é uma desgraça nos comentários e nas entrevistas e tudo o resto, parei na RTP 1, que estava com um programa que se chama para aí "música No Ar, Anos 50". Mais um programa com aquele rapaz sem talento nenhum , sem graça nenhuma, sem carisma nenhum, chamado para aí qualquer coisa Gabriel e uma outra pirosa de que desconheço completamente o nome.
No meio de uma conversa idiota apareceu um tipo tentando imitar o Tony de Matos, tendo, em fundo, imagens deste. Desliguei o televisor e vim escrever umas coisas. Está cada vez mais difícil... a mediocridade assaltou-nos definitivamente. Só nos falta ter que ver o Bush todos os dias.

SALAZAREIROS...

...São eles todos ou ainda menos, como lhes diria Cezariny, se os ouvisse, aos políticos da terceira idade, agora muito na moda. O venerando dr. Almeida Santos apareceu ao lado do dr. Mário Soares e não foi de modas, citou Cavaco Silva para salientar que o economista e provável candidato a Belém não ligava muito aos partidos, tal como o prof. Salazar...
Com o passar dos anos, o dr. Almeida Santos foi-se esquecendo dos deveres de um democrata. O dr. Cunhal não gostava do dr. Soares e isso não fez dele prosélito do Estado Novo. O poeta Alegre já deve gostar menos do candidato socialista do que terá gostado em tempos idos, mas nem por isso deixa de ser uma referência da liberdade e ninguém crê que se vá mudar para o Campo 28 de Maio.
E levanta ainda uma questão, o homem que foi presidente da Assembleia da República: será razoável gostar dos partidos, especialmente daqueles dois que o dr. Fernando Rosas gosta menos? Haverá razões que expliquem alguma devoção pelos partidos, nos dias que correm?
Aceitando que os partidos são hoje a versão maquiavélica do que foram as tribus do passado ou algumas que subsistem no Terceiro Mundo, acaba por se aceitar tudo quanto de fraudulento e anti-democrático os partidos promovem ou exercem. E quando se diz os partidos, deve ler-se os militantes dos partidos. São eles que exorbitam, no que toca aos financiamentos; que assaltam quer os empregos, quer os «tachos».
É evidente que se podia ressalvar um ou outro dos partidos, não por questão de princípios, mas por incapacidade, por falta de estatura. O Bloco sublinhou, e não por acaso, que PS e PSD somam os dois terços indispensáveis para algumas reformas, no caso o novo organismo de regulação da Comunicação Social. Não estou a tomar partido de qualquer um dos partidos, apenas constato que são os partidos que desconfiam uns dos outros e eu, por mim, só desconfio de todos.
Pobre de mim, sem crença nos partidos com assento parlamentar e sem a União Nacional para me acolher, onde é que eu vou parar?

domingo, setembro 18, 2005

IDA E VOLTA

Lembro-me da estreia, em Lisboa, de «E Tudo o Vento Levou». Já foi depois de 40, de contrário não teria memória. Ouvi a minha mãe contar à filha da vizinha bocados do filme. Lembro-me da filha da vizinha porque tinha mamas grandes. Quando se sentava viam-se-lhe os joelhos todos. Uma vez sentei-me debaixo da mesa, a brincar, para espreitar. Não vi nada. A minha mãe é que me viu e deu-me duas bofetadas.
O filme ia no S.Luís, perto da minha casa, na Victor Cordon. Eu morava por cima do pintor Eduardo Malta, que era director do museu de Arte Moderna, que ficava paredes meias com o Ginásio Clube Português. O S.Luís era na António Maria Cardoso. «E Tudo o Vento Levou» ia lá, mas eu não. Eu costumava ir, aos sábados, às matinées do Chiado Terrasse (acho que era assim). O S. Luís era cinema de estreias e o Chiado T. de reprises. Era mais barato e passava dois filmes.
Quando era mais pequeno, os meus pais levavam-me ao cinema, à noite, porque o meu pai trabalhava e a minha mãe era dona de casa. Eu ficava ao colo e dormia. Quando já era mais crescido para ficar ao colo e ainda não pagava bilhete, sentava-me numa cadeira vaga, se a houvesse, ou sentava-me nos degraus do segundo balcão do Eden, que era o que eu gostava mais.
Quando saía do Eden passavamos pelo Chave d'Ouro, no Rossio. Comia um bolo e engorgitava um galão. Depois trepava-se o Chiado a pé, passava-se diante do Governo Civil, virava-se na Serpa Pinto e chegava-se a casa, subindo paulatinamente, a pé, seis andares. O pintor Malta morava no primeiro. No quarto (andar) morava um diplomata, que às vezes diplomatava no estrangeiro. Deixava em casa duas senhoras húngaras (ou de país próximo) que eram louras e bem bonitas.
Algumas vezes fui ao teatro, no parque Mayer, mas eu não gostava. Não percebia as piadas. Gostei mais quando o meu tio me levou ao Box ver o Beni Levi dar porrada num espanhol. O meu pai era empregado no comércio, numa loja em S.Paulo. Hoje é-me difícil imaginar o tipo de vida que fazia uma família, apenas com o salário do chefe. Já perceberam que, nessa altura a Europa estava em guerra e que as duas louras do quarto-andar deviam ser judias e eu nessa altura nem sabia o que isso era.
O meu professor da instrução primária era o pai de João Vieira, que nessa altura ainda não era
pintor. Trasmontano, ensinava a fazer contas, a soletrar as palavras. Nunca o ouvi dizer mal de Salazar e menos ainda de Carmona. De facto nunca o ouvi falar deles.
O meu professor, que era director da Escola, nas Gaivotas, cumpria o horário da manhã e trabalhava no Tavares Rico, com função de escriturário ou afim, que exercia no cúbiculo pequeno, na sobreloja. Não tinha automóvel. Nesse tempo ninguém tinha automóvel. Só os outros (mas eram poucos) é que tinham. O patrão do meu pai tinha dois carros e um filho emprestado. Uma manhã, todas as semanas, os «almeidas» lavavam o largo de S.Paulo. As ruas tinham chafariz por mór dos burros e dos cavalos, que vinham de longe abastecer o mercado da Ribeira, de madrugada e se passeavam de manhã pelas ruas, devia ser para chatear dos gajos dos eléctricos...
Na estação do Rossio podia-se subir de elevador até ao piso de comboios, mas tinha que se pagar dois tostões. Eu gostava muito. Uma tarde a minha mãe mandou-me comprar carvão apara fazer o jantar. Ninguém comia carvão. Era para acender o lume. O fogareiro a petróleo estava em crise. Não o fogareiro, já se vê, mas por falta de petróleo. Desci os seis andares e em vez de torcer para o Corpo Santo, marchei rumo ao Chiado e desci até ao Rossio. Subi no elevador e corri para o carvão. A minha mãe já vinha a descer a escada aflita. Disse-lhe que o homem só queria vender vinho e não me dava o carvão. Ela tinha-se agarrado a mim e disse-me que ia ralhar muito com ele. No saco do carvão ela encontrou o bilhete cortado do elevador e já não ralhou com o homem. Deu-me com o chinelo. Ainda hoje tenho dificuldade em comprar chinelos, seja a quem for da família...

quarta-feira, setembro 14, 2005

O País Das Contas

Chega Setembro e a desgraça multiplica-se, isto é, ninguém paga nada a a ninguém. Em Portugal, a maior parte do ano é assim: toda a gente diz que paga amanhã, mas, a partir de Setembro, a toda a gente juntam-se as grandes empresas, mesmo as cotadas na Bolsa de Valores e, que por isso, têm que pagar aos seus fornecedores num prazo máximo de 60 dias.
Como os respectivos administradores precisam de chegar ao fim do ano com números que lhes permitam justificar os chorudos auto-prémios sacrificam, para isso, os pagamentos devidos seja a quem for. Muitas vezes a pequenas empresas que não aguentam de Setembro até Dezembro sem receber o que lhes é devido. E, por outro lado, não podem recorrer a sistemas coercivos de cobranças porque têm medo de perder os clientes.
É assim o Portugal dos negócios e das contas. Uma vergonha!
PS - Numa outra hora, depois de ter lido este pequeno texto, reparei que não tinha falado da vergonha das vergonhas: do Estado, a tal pessoa de bem que não paga a horas, que é responsável pela falência de milhares de empresas todos os anos e que acoberta em jogos escuros o pagamento de benefícios indevidos.
A esse propósito, acho, por exemplo que deveria ser feita uma inspecção séria ao que se passa com os órgãos superiores da administração da Casa Pia em que a Provedora e respectivos adjuntos têm privilégios inomináveis.

segunda-feira, setembro 12, 2005

SONOLÊNCIA

Quero lá saber. Já dei. Se o Benfica perde é lá com eles. O que mais me chateia é pagar portagem para ver a bola, calmamente em casa e os fulanos Oliveiras pespegarem-me com toneladas de
publicidade. Quando a televisão por cabo se instalou o sucesso da oferta resultava no facto de venderem filmes e programas limpos de matéria corrosiva ou simplesmente abominável. Depois, ocuparam espaço e começaram a negociar exclusivos para exibir aos clientes e a vender as cadeias convencionais, onde nós podemos ver sem pagar, mas a gramar o ganha pão deles. E aos poucos o Cabo desatou a rir- se de nós e toma que lá vai disto. Queres bola, paga ao Oliveira e ele obriga-te a ver pub. Mas no cinema está prestes a ser o mesmo. Começa por um canal ter um intervalozinho, depois o intervalozinho vai alargando até virar intervalão do caraças.
È quase como o marcelinho: começa por fazer análise e mal se dá por ele, começa a vender a banha da cobra, que é a maneira de ele ganhar livros e eu perder a paciência.
Hoje tornei a ouvir a boa nova: os putos vão aprender inglês, as mãezinhas, vão poder ter computadores para os meninos chegar a génios de repente. Depois oiço melhor: só nas escolas onde se pode comer. Já são uma porrada delas a menos. Puto que more no mato não come na escola,quem não come na escola não aprende inglês e quem não aprende inglês a mamã não pode
pedir computador. É por estas e por outros que eu não vou para a escola e vou passar a ir ver televisão na tasca e se tenho de pagar, assim como assim, sempre bebo café e vou sabendo dos comportamentos das senhoras vizinhas. Alguns (os comportamentos), bem badalados, a merecer bem merecida publicidade. Antes de voltar a casa, passei num jardim novinho em folha, lá estava o Lopes sentado e, por uma vez, no sítio certo: Arco do Cego.Parabéns...

Tropa Para Que Te Quero?

Já o disse várias vezes: não compro jornais, não ouço noticiários nas Rádios e nas Televisões. Mas, de vez em quando, apanho aqui e ali umas conversas. Chegou-me uma sobre o nervosismo dos militares que querem manifestar-se não sei bem contra o quê. Acho que querem reformar-se ainda a tempo de poderem fazer uns biscates de segurança no Iraque ou na recepção de uma das grandes empresas nacionais, sei lá, qualquer coisa.

Eu fico-me a perguntar: para que precisamos nós da tropa? Dantes, ainda se percebia: no fundo, recebiam os mancebos e ensinavam-lhes algumas coisas, como uma certa disciplina, a ideia de pátria, a ideia de comunidade, a necessidade de coesão, essas coisas que já ninguém aprende em parte nenhuma, como o hino nacional (imperialista embora, mas nacional), os valores republicanos, o respeito devido aos mais velhos, aos pais e aos representantes do povo.

Mas, agora que já só vai para lá quem quer fazer daquilo profissão, para que queremos nós a tropa? Será que vão ficar mercenários a sério e conseguir, por exemplo, ir a Nova Yorque resolver os problemas que a polícia dos States cria aos nossos compatriotas com ar...assim meio suspeito, de que podem ser árabes?

Será que esses militares, voluntários, mercenários, nos podem resolver o problema do corte de rede nas proximidades da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, onde as chamadas caem todas?

Que mais problemas podem esses militares resolver? Talvez acabar com tantos generais e coroneis e majores e capitães, eu sei lá...

Eu cá não percebo mesmo nada de tropa e continuo a pensar que os quatro anos da minha vida que passei entre vago-mestres espertos e comandantes de regimento-mestres-de-obra me deviam ser indemnizados. O Estado devia pagar-me um a indemnização que me permitisse esquecer totalmente aqueles tempos. Oh tropa! Por amor de Deus... e se se calassem?!

quarta-feira, setembro 07, 2005

"O Português"

Tem Opel Corsa.

Tem. É do Benfica

Conduz com o braço de fora e cospe para a estrada. Atira latas de cerveja pela janela.

Bebe"mienis" com o palito ao canto da boca, enquanto vê o futebol pela TV.

Com o transistor no ouvido para saber o resultado do Sporting.

Chega a casa a pedir "bicabornato".

Assiste às telenovelas da tarde pelo canto do olho.

Joga a sueca no jardim a contar pelos dedos.

Dá murros na mesa quando destrunfa.

Atira as beatas do ventil pela janela.

Não sabe nem quer aprender a pôr a mesa.

Chama maricas ao vizinho porque vai às compras.

Suspira pela reforma porque está farto de trabalhar.

Quando é reformado conta feitos extraordinários.

Fala das gajas todas da vizinhança e de outras que não conhece.

Vai ver todas as obras das redondezas e fala mal dos engenheiros.

Na política ele é o melhor.

Só o Salazar e o Álvaro foram maiores.

De pretos e de gajos do Leste nem quer ouvir falar.

"Os espanhóis ainda vão tomar conta desta merda".

Aí está o português com que nos cruzamos na baixa, no metro, no autocarro, a cheirar a sovaco, porque "o banho está pelas horas da morte".

Aí está o Homem (Ecce Homo), verdadeiro sustentáculo da sociedade, capaz de correr atrás do autocarro da selecção nacional ou/e de vitoriar um matador de touros sem nome e sem rosto em Barrancos.

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segunda-feira, setembro 05, 2005

TIRO E QUEDA

Chegou sorriu e disse, depois de uma data de livros, que era como fazia antes, antes na TVI, claro, sobre a tragédia de New Orleans, pausa e solicitou falar dos incêndios de Paris, três em curto espaço. Meteu água. Foi logo escolher o único dos três que não envolvia imigrantes, nem o edifício estava em ruinas. Mas ao mesmo tempo o mais provável de ter sido consequência de acção criminosa.
Eu sei que pegar fogo a um prédio, ou a uma floresta, não é o mesmo que romper um formato de programa televisivo. Na RTP o prof fica encolhido, por muito que sorria aquilo não sai. Não é expontâneo resulta monótono. A própria jornalista sai muito mal tratada. Não sei quem é o responsável pelas #escolhas# e se alguém souber gostava que me dissesse que era para eu não ver mais nada que a creatura por ventura faça. Marcelo, entra a publicitar os livros que lhe oferecem, para ele, ou para a biblioteca da aldeia dele. Tanto me faz. Ele fazia da TVI e não devia fazer na RTP, a não ser que pague comissão (ou que receba), depois a prenda à menina, como fazia, dantes, ao menino. Falta qualquer coisa. Ou Marcelo trás o menino para a RTP e a menina vai para outra freguesia ou aquilo sabe a fénico. A ideia que ficou do comentário, no bocado que vi (desisti cedo), foi de que criticou Sócrates, disse pior de Marques Mendes, a fingir que estava a ser simpático, e poupou Jerónimo de Sousa a grandes amarguras.Fez-me lembra o meu padrinho: está velho...

O FEIO,O MAU E O VILÃO

Nas tragédias geralmente abundam as vítimas, os maus e os que se lixam. Deixando as tragédias de fora, tivemos três personagens em férias. Um foi mal tratado, como se tivesse sido ele a tossir que salpicou os demais; outro por excesso de telefonemas e preguicite aguda. O pior de todos por estar a almoçar na praia em tronco nu. A parte chata é um gajo, sem escrúpulos, dar-lhe para perguntar: mas por que raio de coisa esses tipos são manda-chuvas. Antigamente um celerado que quisesse ser manda-chuva pegava em armas e cortava a cabeça a uma raínha, se fosse preciso. Uma coisa que dava direito a ser um manda-chuva do caraças era mandar matar polícias ou comerciantes que não tivesse as cotas em dia.
Estes, que citei ao alto da página, são manda-chuvas obrigados a mote, quer dizer votados. ou melhor são fruto maduro da democracia. Porra! Foram eleitos. Um, uma vez, outro, duas vezes e o terceiro, tantas, que nem me lembra quantas. Da Madeira não chegou notícia de incêndios. No Continente ardeu que não foi pouca coisa. Morreu gente e suspeitou-se de muito fogo posto. Algumas pessoas foram detidas, arracadadas e com processos a correr, outras foram mandados para casa, com restrições. A sul das EUA praticamente ninguém pode ser mandado para casa. Morreu-se de várias causas: por afogamente, por fome, de sede ou a tiro. No satélite devem ter assistido. Os metereologistas previram o furacão.
Foi como um célebre baile em Cascais, que acabou mal. Quando se instalou a convicção que a autoridade não fazia nada, um alto, foi dizendo: "...nada disso! Nós sabemos que houve um baile
imoral, sabemos onde foi, sabemos quem lá esteve sabemos que houve um homicídio! Só não sabemos quem no cometeu"... Lido em voz alta percebe-se melhor.
Mas esta de emprestar petróleo escapa-me! Que Diabo! Está-nos a custar os olhos da cara. Se tinhamos alguma coisa para emprestar era desempregados compulsivos e a generosidade era óbvia: só precisavam de pagar no fim do mês...

domingo, setembro 04, 2005

As Catástrofes

Quando acontece alguma coisa de anormal na América, assistimos a uma catrástrofe. Caíram pontes em New Orleans, houve pessoas desaparecidas na torrente de águas descomandadas, o presidente disse "fujam", mas não disse para onde e todo o Mundo chora.
As dezenas de milhares de pessoas que entretanto morrem todos os anos por causa dos interesses americanos, são apenas "danos colaterais". Deus, o deus de Bush há-de repôr a normalidade, tanto nos locais vítimas de danos colaterais como em New Orleans.
Por mim, espero que o deus de Bush o inclua no número dos desaparecidos numa cheia qualquer.
Por causa dele e do deus dele é que estamos metidos nesta tragédia. Não haverá um bispo nos Estados Unidos a desejar o mesmo que desejou para o presidente Chavez. Era mais fácil, não havia viagens complicadas, nem falsificação de passaportes, nem nada. Pum! e pronto.

segunda-feira, agosto 29, 2005

MEMÓRIA DE TEMPOS PERDIDOS

É o meu pequeno vício, o destacável das centrais do DN, imagens velozes dos anos, desde a fundação do jornal. Criei algumas expectativas e muitas sairam frustradas, como o 6 de Outubro, e, especialmente o 29 de Maio. Mas encontrei pequenos luxos: um breve encontro com Hitler; uma entrevista com Mussolini, aparentemente sem intromissões censórias; alguns passamentos ilustres. Curioso foi detectar as entradas e saidas de Augusto de Castro, que entremeava a diplomacia com jornalismo.
No número das frustrações enquadra-se o jornal de sábado, que incluia o ano de 1950, e que relativamente a Agosto e Novembro se esfalfa com a guerra na Coreia, onde »forças da ONU»
sustetaram violentos combates «para evitar uma manobra de cerco tentada pelos comunistas»
Como se depreende, amigos e inimigos perfeitamente conotados! E dava-se conta de que senadores e deputados americanos pediam o emprego da bomba atómica! Por sua vez o heroi do Pacífico, general Mac Arthur defendia que os problemas que se enfrentavam teriam de «encontrar a sua solução no ONU e nas chancelarias do Mundo».
Curioso que Truman tenha, nessa altura, convocado o Conselho de Segurança americano. Seja como for, a «bomba» não foi usada, mas Mac Arthur foi afastado e acabou sem espaço de manobra para se candidatar à Casa Branca.
Mais prosaicamente em Agosto chegava a Lisboa uma embaixada francesa de alta costura e Goa afirmava a sua inabalável lealdade a Portugal.
O mais grave é que se olvidou o histórico triunfo do Benfica na taça Latina desse ano. E olvidado o assunto fico sem espaço para lembrar que as actuais competições europeias de clubes, nasceram com essa iniciativa do jornal desportivo parisiense L'Equipe, no ano anterior, em Barcelona, na qual o Sporting foi finalista vencido. A final de Lisboa foi memorável. Foi repetida e se o Julinho não tivesse metido um golo, com a noite a cair, depois de uma quantidade de prolongamentos, corria-se o risco de as duas equipas, a esta hora, ainda estarem a jogar. Ao tempo não havia decisão por pontapés da marca de grande penalidade. A segunda final resolvia-se pela vitória de uma das equipas. No termo dos 90 minutos, em caso empate, haveria a clássica
meia hora de prolongamento. Mas se o empate persistisse seguir-se-iam doses de dez mintos até que o desempate acontecesse, dando-se o jogo por terminado logo após o golo. E que sei eu?
Que o Arsénio empatou o jogo nos últimos instantes do jogo. Que a meia hora não deu nada e uma data períodos de dez minutos sem sucesso e com os jogadores a arrastar-se a uivar de cambrias. Até que...
Não é justo um jornal trair-me tanta expectativa. A História não se faz só de guerras. E já me tinham lixado a paciência com o ano de 1928, em que se estiveram nas tintas para os Jogos Olimpicos. Vá lá que hoje não se esqueceram de salientar que o Benfica levou no focinho. E por falar nisto, em Abril de 51 falecia o marechal Carmona. Toda a primeira página do DN falecia
presidente. O país, titulava o matutino, em profundo pesar. Decretavam-se quinze dias de luto!
Jorge v1, Truman,Franco e Auriol telegrafaram a Salazar.
E ouvi o meu padrinho, decerto comovido, perguntar ao meu pai: «Sabes qual a diferença entre a morte do presidente e a eliminatória da Taça de Portugal (Sporting-Belenenses)? O meu velho não vislumbrou e o padrinho deu a explicação: Carmona morreu em Belém e foi enterrado no Lumiar. O Sporting morreu no Lumiar e foi enterrado em Belém. Ao tempo, a Taça era em duas mãos, e habitualmente o Sporting ganhava os nacionais e iam deixando algumas Taças para os adversários.

HISTÓRIA MADRASTA

Já vos devo ter contado que o meu professor - e o professor nosso é o que nos marcou, não é o que passa o tempo a dar sete, que desses também por cá passaram - era trasmontano e ensinou-me a ler e fazer contas, entre chapadas e reguadas. Foi ele que me contou a primeira história política e tão carregada que nunca me esqueci dela!
Tinha a ver com a visita de um senhor inspector (tipo de creaturas que ele não devia gostar muito) a uma escola. Nessa escola (imaginária) , e na véspera da visita,o professor ( do tipo sobrevivente) presumiu que o augusto inspector iria escolher o mais pequeno da aula, para lhe perguntar: «Quem descobriu o caminho marítimo para o Brasil»?
E ao que estivesse ao lado, haveria de inquirir: «Em que ano»?
O prof não perdeu tempo a incutir no espírito dos alunos a sapiência necessária. Durante a manhã, do dia seguinte, o atarefado inspector não deu acordo de si. Mas fê-lo justamente na hora do recreio, pelo que a sineta badalou um pouco antes do tempo e os alunos foram recolhidos apressadamente, à excepção de um, e logo o mais pequeno, que estava sentado na sanita e nem deu pela azáfama.
Na sala, depois dos cumprimentos e dos meninos terem entoado o hino da Mocidade Portuguesa, o inspector olhou a classe e escolheu, como previsto, o mais pequeno que lá estava e fez-lhe a pergunta xpto. O garoto manifestamente aflito, baixou os olhos e enrolava e desenrolava a ponta do bibe e à insistência do inspector:«vá lá, menino, quem é que descobriu o Brasil? Não me diga que não sabe»...
O rapaz soltou o bibe dos dedos, levantou o rosto e respondeu: «Eu sou o mil e quinhentos. O Pedro Álvares Cabral ficou lá fora»...
Isto vem a propósito de não vir a propósito, como é habitual comigo. Tem a ver com os incendiários, com quem busca incendiários e com quantos acham por bem deixá-los em paz.
O DN, que vou comprando por saudosismo (e na próxima crónica hão-de perceber porquê)
entrevistou um, sem nome, sem rosto, porque, como parece obrigatório, os incendiários têm direito à privacidade. O Albarran não tem; o Cruz também não; o esforçado motorista nem pensar. O médico belenense, idem, idem, aspas,aspas. Que raio de imprensa é esta?
Que governo é este (e quantos o entecederam) que não põe um ponto de ordem à mesa?
Não me interessa saber quantos são. Mas quem são, ainda que não passem de pobres diabos? Gostaria de não ver nenhum deles passar à minha porta, nos agostos próximos, e se visse algum poder avisar as autoridades, como seria dever. E se os seguros não cobrem os prejuizos. Se vamos nós ter de pagar por isso, façam o favor de nos dar algo em troca...

sábado, agosto 27, 2005

VIANDÂNCIAS

Na semana passada estive para ir a Almada. Não passei de cacilhas.
Para lá chegar foi necessário, primeiro, perder um comboio, depois esperar 47 minutos por outro mais pequeno e pachorrento.
Na Gare do Oriente, quem não tem curso e experiência geográfica perde-se. Não foi o meu caso. que cheguei ao «Metro» quase com facilidade. Falei com a máquina para comprar um bilhete de dez viagens. A maquineta não queria conversa, só queria dinheiro, como dantes queriam as queridas do muceque do bairro alto!
Na Alameda hesitei entre subir e tirar fotografias à fonte luminosa. Ao meio dia, em geral a fonte não tem água, nem luz, nada!
Apanhei outro «metro» e desembarquei no Camões. Fui ver os turistas de falas esquisitas a sentar-se ao lado do tal Fernando de pedra e tirar fotografias. Como calculam o meu objectivo era apanhar o barco, no Cais do Sodré. Desci, a pé, a rua do Alecrim, perdão. Antes fui almoçar num jardim, que vinha no guia turístico, o jardim, claro, não era o almoço, que se comia numa mesa no meio do caminho, com vistas para as costas do Almourol ?! Nada disto. As costas era do
Adamastor, de que falava o Fernando, do Camões.
O bacalhau estava bom. O Adamastor olhava para o rio. Um senhor na mesa do lado estava a dizer que o Adamastor não existia senão no medo dos marinheiros. Aquilo estragou-me o almoço: se o gigante não existia, porque é que os marinheiros tinham medo dele?
Com essa interrogação fui andando e, agora sim, desci para o Cais do Sodré por aquela rua que disse há bocado.
No largo tinha estação de comboio. Uma vez andei naquele comboio. Lembrei-me de repente que foi antes daquela estação ter caído. Quando ela caiu, eu não estava lá, mas lembro-me de ter ouvido, na telefonia. Agora estava boa, não estava caída. Não faz diferença, não serve para nada.
Primeiro perguntei a um polícia, depois a um bombeiro e por fim a uma senhora, que ia com duas crianças, qual era o barco para Cacilhas e quando fiquei convencido meti-me no barco e sentei-me perto de uma boia.
Entrei num café e comprei dois postais com vistas para mostrar aos amigos quando regressar a casa. A minha casa também tem vistas e quando há fogo eu vejo o fumo. Fui andando pelo paredão em direcção ao elevador. No café tinham-me dito que fosse andando e quando chegasse ao elevador, subisse, que estava em Almada. Estava a ficar escuro e do outro lado do rio viam-se muitas luzes. Para a frente era escuro e comecei a pensar no Adamastor.
Foi por isso que não cheguei a Almada. E para o ano, se tiver saúde, hei-de ir de férias a Sintra.
Saio de véspera e durmo aí pelo Cacém e vou-me regalar com queijadas, olá se vou...

quinta-feira, agosto 25, 2005

A PT, o Brasil ,os TSD e os CTT

Não há férias que resistam. Chega um homem de cabeça descansada, alma lavada, depois de ter sido surpreendido com um Van Gogh que julgava lá para a Os EUA - terra onde nunca irei - dois Renoir's - também fora de qualquer expectativa -, um Claude Monet que nunca me cansei de ver em reproduções, tudo isto num museu de um jardim espectacular, o Beldeveder... chega um homem tranquilo e o que é que ouve e sabe desta terra?

De incêndios recuso falar: não vejo televisão, não ouço rádio, não compro jornais.

Fica a saber que a PT foi agarrada num jogo feio no Brasil. No Brasil, num dos programas de maior audiência lá do sítio, o "programa do Jô" foi dito que há provas. Comparando as notícias, chega-se à conclusão de que a verdade não é totalmente verdade. Os números não devem coincidir. Alguém na PT aproveitou o "mensalão" brasileiro. É claro como a água. Pergunte-se ao BPI porque abandonou o barco mesmo na hora.

Ainda a propósito da PT, chega-me por e- mail um manifesto dos TSD, a central sindical do PSD, a clamar pela defesa da PT. É preciso defender a PT. De quê? - perguntou eu. Dos "malditos socialistas que querem tirar dos lugares que agora ocupam os que há quatro ou cinco anos atrás substituiram os do PS" - responde o manifesto.

Fico espantado! Os TSD's nunca repararam no desaforo Horta e Costa, que substituiu toda a gente que não lhe interessava, competente ou não, por gente sua, primos, filhos sobrinhos, boys do PSD, etc.?

Os TSD's ainda não tropeçaram no escândalo dos reformados da PT que ocupam lugares de grande destaque - Norberto Fernandes, presidente da Fundação da PT, por exemplo - tirando o emprego a uns quantos e trabalho a outros, emprateleirados em estágios a caminho do Miguel Bombarda (será que ainda funciona?)

E a propósito de Horta e Costa: quando é que os jornais e as rádios e as televisões deste país vão à procura da explicação necessária para o facto de os CTT não terem já qualquer património imobiliário, porque a anterior administração, presidida por outro Horta e Costa - o Carlos - o vendeu todo a um fundo imobiliário do Banco Totta e Açores, que, por sua vez, entregou a respectiva gestão à Visa Beira?

Já agora, senhores jornalistas, perguntem a Luís Nazaré, que tem a batata quente nas mãos - já que tudo vai cair-lhe nas contas deste ano - quanto é que os CTT pagam de renda pelas suas próprias instalações.