sexta-feira, dezembro 09, 2005

A Loira na Loja do Chinês da Rua 48

É uma loja apertada. Não chega a perceber-se se o espaço é grande ou pequeno. Só se veêm mercadorias. Penduradas, expostas em mesas pequenas,espalhadas a esmo, mesmo pelo chão; apitos dourados, ao lado de cachecóis de chachemira, chaleiras misturadas com soutiens. Cuecas por aqui e por ali. Com rendas, de gola alta, de tudo.
Por detrás de toda aquela confusão está a família do chinês e o chinês plópiamente dito.
A Loira da Rua 48 entrou na loja do chinês e foi afastando a mercadoria para tentar descortinar entre toda aquela quincalharia, um chapéu de chuva. Tinha sido surpreendida por uma chuva não anunciada pelos serviços de meteorogia, a caminho do autocarro. As amigas já a esperavam impacientes...
O chinês, meio escondido por detrás de um roupão cheio de figuras assustadoras, dragões que deitam fogo, olhava com curiosidade aquela figura exuberante, cabelos loiros, compridos, a cairem sobre os ombros, óculos escuros e um jeito desafiador.
O chinês estava a atender uma senhora de alguma idade, que lhe contava os seus próprios achaques para o tentar convencer a vender-lhe um chá que lhe curasse a prisão de ventre e ajudasse a aliviar as dores provocadas pelos bicos de papagaio.
No momento em que a loira entrou, a senhora, pequenina e franzina, insisitia que ele - o chinês - também podia vender comida para os gatos e para os pássaros. Para os cães não, porque engordavam muito.
A loira da Rua 48 ia sorrindo a ouvir a conversa, que o chinês já não ouvia. Só olhava a Loira. Veio a mulher do chinês e mais dois filhos e até aquela miúda mais pequenina, que parecia uma boneca para venda, se levantou e veio a correr a olhar aquela senhora que mexia em tudo.
Finalmente encontrou um chapéu de chuva. Abriu-o, voltou a olhar e atirou-o para o lado - não dava com o casaco verde que levava naquela manhã para o autocarro chamado desespero.
Deu mais umas voltas e não sei quantos pares de olhos seguiam-lhes os movimentos. Apenas a velhota continuava a falar: que a nora era uma malvada, não comprava comida para o gato e não deixava a filha sair à noite e até a obrigava a fazer a cama. A Loira gargalhou. Não pelo que a senhora velha tinha dito, mas porque, finalmente tinha encontrado o guarda-chuva da cor certa: verde musgo, verde-tropa, verde, verde...
O chinês aproximou-se, a medo e disse: "chinês não tloca..."
E a loira da Rua 48 respondeu: "...chinês tloca senão não complo!
"...chinês tloca..."
Com a cabeça loira protegida pelo verde musgo do seu novo guarda-chuva foi ter com as amigas.
"...Encontrei na loja do chinês uma velha chata só a falar de cães e gatos...eu acho que conheço aquela cara e aquela conversa, mas há muito tempo que a não via nem ouvia..."
"E que nos interessa isso?" - perguntou a vizinha.
"Que foste fazer ao chinês?"- acrescentou a brasileira. " Não se consegue comprar lá nada... é uma confusão..."
"Vocês é que são umas atadas. Olhem para o meu guarda-chuva novo. Verde. Verde musgo, verde-tropa, verde pila-jovem, porque é verde..."
O autocarro estava a chegar. Vinha a abarrotar e a vizinha começou logo a protestar: " vamos outra vez ser prensadas..."
O motorista sorriu, mas nenhuma delas o cumprimentou. Ninguém está interessado na amizade de um tipo que conduz uma carroça daquelas.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

FORMITROL,FORMITROL, FORMITROL

Para o mal cujo motivo está na chuva frio ou Sol, qual o melhor preventivo?
Formitrol, formitrol, formitrol. Não sei, confesso, se o formitrol era ou não do caraças, mas era o pub do meu tempo de menino. No meu tempo de menino o sr. Alfredo dava o relato do jogo da bola às sete e cinco. O que dava tempo ao meu pai de me arrastar até ao eléctrico, me despejar nos Restauradores, me arrastar até ao Leão D'Ouro, mastigar umas ameijoas e provar a cerveja.
A subir o Chiado já se podia comprar a segunda edição dos vespertinos, que traziam os resultados da bola.
Algumas vezes escutavamos envecidos o relato do jogo que tinhamos vistos à tarde. O resumo da primeira e o relato da segunda parte, por Alfredo Quádrios Raposo! Havia outro: Domingos Lança Moreira, no RCP. Mas era menos frequente e talvez fosse menos trapalhão e, talvez por isso, tivesse menos audiência!
O meu pai umas vezes gostava do senhor Alfredo, outras não gostava, dependia do árbitro. Eu gostava mais de ir às Salésias, porque à saída ia-se aos pasteis de Belém.
Hoje fui à SIC e foi como ir à merda. Ia ver um poeta e um economista e queriam que eu passasse horas a ver a merda a que eles chamam publicidade. Os patetas dos candidatos discutiram tudo menos o lado feio: serem vendidos como mercadoria de consumo semestral.
Prefira o candidato das gravatas luzidias; escolha o das botas grossas. Encafuaram os candidatos no meio da pub e tiveram o cuidado de mostrar que o importante era a pub. É para isso que serve a TV, para promover os laxativos, quaisquer que sejam. O Estado podia fingir que leva isto das eleições a sério. Talvez nem valha a pena. Deu para ver que o poeta é um fingidor e que um economista não sabe sonhar.
É uma pena o senhor Alfredo não ser candidato e o senhor Domingos não ser poeta!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

ABAIXO DE TUDO

Ainda há dias me insurgi contra a forma displicente como a magistratura encara os devaneios da justiça e as trapalhadas que saiem dos tribunais. Achei excessivo que dois condenados por crime de homicídio a penas superiores a 20 anos tivessem sido libertados devido a irresponsabilidade do tribunal de recurso.
Hoje vi a manchete de um matutino de Lisboa a salientar que apenas meia dúzia, entre quase centena e meia de juizos cíveis em Portugal «são considerados eficientes». Não faço ideia se o sr. Cavaco ou o sr. Soares vão perder algum tempo a comentar isto, nem espero que o sr. ministro do pelouro perca tempo com isto. Mas li pior numa das páginas do jornal. Um processo por assédio, com violência e ameaças de morte, já com cinco anos de instrução, foi deitado no caixote do lixo. A explicação «é de que foi por engano e por uma brasileira, que trabalha para uma empresa que faz limpeza no tribunal». O processo estaria perto do caixote do lixo e a expedita limpadeira despejou-o no caixote e ala com ele, que se faz tarde. Creio que a cuja dita do Brasil teria toda a razão para ser asseada, «aquilo» ou era lixo ou porcaria e com cinco anos de pó até devia cheirar mal. O problema de resto parece ser esse: os tribunais, palácios de justiça e similares estão repletos de excelências excelentissimas a fazer o que faziam dantes os burros na nora: andar à roda, à roda, sempre as voltas, sem sair do mesmo sítio. Mas, ao menos esses, traziam a água à tona. Na Justiça, não, quase nada aparece à tona e nem já o «apito dourado» se consegue ouvir. Atafulha-se pelas gavetas e um dia destes vão aparecer à mão de semear para acabarem na chaminé de uma qualquer cimenteira...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A Loira da Rua 48- II

"... A senhora devia ir pintar as raízes...está a perceber? Pintar as raízes!!!
No autocarro, a abarrotar de corpos adiposos e habituados a uma certa larguesa, toda a gente virou a cabeça para o lado donde vinha aquela voz, aparentemente zangada, mas, no fundo, com um ligeiro tom de imitação do Herman louro.
"... e sabe que mais?... não vou perder tempo consigo...Vá...vá pintar as raízes..."
Mesmo o motorista do autocarro tentou saber, olhando pelo retrovisor, o que se passava. " Só podia ser ela, aquela loira que reclama sempre lugar sentado e espaço para se movimentar. Ela e a outra, a vizinha. Falam uma com a outra, riem-se e parece que estão a gozar com toda a gente. Agora está a dizer áquela desgraçada que devia ir pintar as raízes. As raízes do cabelo, claro...de facto, a senhora devia ter mais cuidado...aquilo está com um aspecto... benza-a Deus..." - Assim pensava o motorista, enquanto olhava de esguelha para os passes que lhe iam mostrando.
Todavia, ninguém se atrevia a dizer como a loira: " com direito a ar condicionado e a lugar sentado, porque pago adiantado". Lá voltava ele a pensar na loira.
Lá atrás a conversa estava acesa entre a Loira da Rua 48 e a vizinha da frente, cujo marido protesta sempre contra tudo e todos. Até com o Bush se mete. Se um dia a CIA o descobre, fica ele sem direito de acesso à garagem e até corre o risco de ir para Cuba, isto é, para Guantanamo.
"... Então não quer saber?...tive um pesadelo esta noite... um horror...eu morava no bairro da Penitenciária, aquele ali por detrás, está a ver? e só tinha vizinhos pirosos... até o João Pinto e a Maria Cruz, imagine...lembrei-me agora porque a velhota das raízes ao léu me sugeriu uma projecção da mulher do João Pinto... Imagine..."
A vizinha, senhora recatada e pouco habituada a conversas públicas no autocarro, sufocava o riso e olhava em redor a tentar perceber as reacções do pessoal.
Muitos ainda dormiam, outros tinham cara de quem não tinha comido o pequeno almoço e ia gastar, na pastelaria ao lado do emprego, uma percentagem razoável do dinheiro que iriam ganhar em, pelo menos oito horas de trabalho, isto se o patrão não os obrigasse a mais duas ou três, ou mesmo quatro extra, sem remuneração ameaçando com um despedimento possível, para reestruturação da empresa.
E a loira continua a contar o "pesadelo":..." ora, a vizinha não quer saber, aqueles safardanas todos, divirtiam-se a sério, tinham salas de jogos, horas para o sol, onde trabalhavam para o bronze, cuidavam dos cabelos uns dos outros... todos os dias! O trabalhão! e, seguramente, ainda recebem algum no final do mês...é ou não um verdadeiro pesadelo?
A vizinha continuava a sufocar o riso.
Ao lado, uma brasileira de ar ligeiro, ficou interessada na conversa: "... me conta, vai...eu posso entrar nesse jogo...? Sabe, cara, tou mêmo precisada de ganhar uma nota... me conta..."
Chegou a paragem da loira. Enquanto calcava forte o chão do autocarro em direcção à saída toda a gente a olhava. Alguns com alguma admiração, outros com raiva. Como se atrevia aquela mulher, loira e bonita, confrontá-los com a sua própria impotência, que em alguns casos se transformava em gaguês?
A brasileira ainda pediu: "me liga, vai... quero saber desse jogo".
A loira riu e acenou que sim: "eu te ligo..."

Um Ano Já passou

De repente, reparo que há um ano que ando nestas andanças. Este blogue foi criado a 29 de Novembro de 2004. Talvez fosse tempo de um pequeno balanço, mas não o farei. Teria, primeiro que "fechar", além de que os balanços cheiram sempre a fim e não é o caso. Eu e o Rafael Soares aqui estaremos a alimentar o "papel" em branco e a vencer a respectiva angústia. O Henrique há-de regressar, quando acabar a sua obra prima, que lhe ocupa todas as horas de todos os dias, excepto aquelas em que, com "grande trabalho" se põe a ouvir ópera.
Todavia, não resisto a republicar aqui, hoje, dois dias depois do primeiro aniversário do Toupeira aqueles que foram os seus dois primeiros dias:

Tuesday, November 30, 2004

Faltou o buzinão

Esta noite, ao fim da tarde, fiquei atento, à espera de ouvir as buzinas, de presenciar da minha janela a confusão de muitos automóveis na rua, com toda a gente a acenar uns aos outros e a rir, assim como quando, depois de 18 anos, o Sporting ganhou o campeonato. Ou melhor, como quando toda a gente, há trinta anos, saiu à Rua para se encontrar a si mesma e descobrir-se nos olhos de todos os outros. Mas não, não houve buzinão, nem alegria na rua, nem cumprimentos sorridentes. Toda a gente ficou em casa a confraternizar com as suas esperanças. Um dos meus amigos, a quem telefonei, todavia, tinha saído. A mulher dele, minha amiga também, disse-me que lhe parecia que ele teria ido a correr, para votar.
posted by M.Pedrosa at 10:13 PM 0 comments

O Estado atira a Nação para o lixo

O primeiro-ministro cabo-verdiano, dr. José Maria Neves está em Lisboa. Ter-se-á encontrado com o ainda primeiro-ministro dr. Santana Lopes e com o presidente da República dr. Jorge Sampaio.A agenda da visita era, do lado cabo-verdiano, importante, não apenas por razões de negociação bilateral com Portugal, um dos principais parceiros do estado-arquipelago, mas também porque o principal responsável pelo governo da Praia, trouxe a Lisboa a sua preocupação de obter da parte da União Europeia um estatuto privilegiado, que lhe permita ultrapassar a sua actual e principal dificuldade com a comunidade internacional: é que o facto de ter crescido de modo a ultrapassar a definição de país subdesenvolvido implica o fim, em alguns casos, e a redução, noutros, da ajuda externa.Alguém viu, ouviu ou leu alguma coisa a respeito desta questão?Alguém já percebeu que política segue o actual governo relativamente aos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente os africanos?Alguém já vislumbrou, neste e nos anteriores governos, uma preocupação real com a salvaguarda dos valores culturais portugueses espalhados pelas sete partidas do Mundo, que fazem de Portugal uma das maiores Nações do Mundo?Relativamente a esta Nação, que medrou entre mares, florestas e desertos, graças ao espírito inconformado de alguns portugueses, o Estado, com sede no Terreiro do Paço, sempre foi ignorante, pequenino e invejoso. O Palácio das Necessidades vai fechando, por esse Mundo fora, algumas portas que ainda se podiam abrir aos portugueses de primeira, segunda e, talvez, terceira geração. O mesmo palácio, com a sua estrutura ainda napoleónica, vai olhando para as novas nações, nascidas do esforço de antigos portugueses, com um olhar de superioridade balofa e não é capaz, sequer, de influenciar a central de comunicação do todo poderoso Morais Sarmento para explicar as razões de uma visita de estado de um" país irmão", a quem se estendem os braços sem nunca os apertar.Acredito, todavia, que o Palácio das Necessidades esteja atento às imagens televisivas que reportaram a recente cimeira francófona, onde, em lugar de destaque estavam sentados os presidentes das Repúblicas de Cabo Verde e de S.Tomé e Príncipe.Acredito, igualmente, que tenha arquivo das imagens de Joaquim Chissano nas cimeiras da Commonwealth e das suas afirmações, de há uns tempos atrás, sobre a importância da língua inglesa em Moçambique.Desejo ardentemente que estes hipotéticos arquivos não existam apenas para, um dia destes, se atirarem mais umas pedras aquelas comunidades que terão de desenhar estratégias de desenvolvimento que fujam ao nosso convívio, tal como os nossos emigrantes, que preferem falar as línguas de adopção, mesmo com os filhos, do que sofrer a vergonha de serem tutelados por tal Estado - que não sabe, sequer, a Nação que abarca.
posted by M.Pedrosa at 3:36 PM 0 comments
Monday, November 29, 2004

As Perguntas

Já não são necessárias muitas considerações sobre a importância da chamada comunicação social na vida das comunidades. Em Portugal, essa importância ultrapassa os limites. Basta constatar a promiscuidade obscena que existe entre os títulos dos jornais diários, nas aberturas dos jornais das rádios e das televisões, para perceber que a comunidade informativa se controla de forma obsessiva. Uma obsessão que evidencia, pelo menos, medo. Medo de quê? Seguramente de ser considerado desenquadrado, de" estar fora do Mundo", de ser chamado à atenção pelo "chefe", pelo "patrão", pelo"dono". Porque será que todos os dias as notícias são as mesmas em todos os órgãos de comunicação social ?Estaremos perante uma operação de "intoxicação social"?E, por falar em promiscuidade: como é possível admitir que ex-jornalistas, promovidos à condição de administradores de empresas proprietárias de órgãos de comunicaçlão social,( refiro-me ao presidente e vice-presidente da Lusomundo, Luís Delgado e Mário Rezendes) continuem a emitir opinião como se nada tivesse acontecido com eles. Será que a condição de comentadores de política que ostentam na SIC Notícias faz parte do contrato que liga aquele canal à PTMultimédia, sua accionista-pagante ao mesmo tempo que é accionista maioritária da Lusomundo?
posted by M.Pedrosa at 5:00 PM 0 comments

AS RAZÕES

A partir de agora, de vez em quando, eu e - espero - mais alguns amigos, vamos divulgar a nossa "verdade", juntando-a a de tantos milhares de outras, contribuindo para a demonstração de que no Mundo já não cabe apenas uma verdade e que os chamados donos dela já andam a falar no deserto. Inicio este blogue com o mesmo entusiasmo com que - imagino - se começa um livro, um jornal, uma estação de rádio ou de televisão. Todavia, ele é um entusiasmo sem ansiedades, já que do outro lado do que escrevo estou apenas eu. Já nem caibo na anedota do autor admirado por ter encontrado o seu único leitor. Sou apenas uma voz cansada de não ter representação. Veremos se sou capaz de ser honesto comigo mesmo e representar-me perante este ecran colocado tranquilamente à minha frente.
M.Pedrosa
posted by M.Pedrosa at 4:14 PM 0 comments

ESTIMO AS MELHORAS

Estimo, sim senhor, de quem estiver doente. Desde pequeno que fui fazendo o circuito dos hospitais, visitando familiares, amigos e conhecidos. Recordo-me por vezes de uma prima, da minha idade, que fui ver ao hospital de S.José. Éramos miúdos e frequentavamos a escola primária. Chamava-se Caudete. Fui vê-la algumas vezes. Dantes passava-se muito tempo acamado, em enfermarias imensas, cheias de camas, alinhadas, contra as paredes, e algumas filas no centro. Deixei de ir, quando ela morreu. Mas vi muita gente que curou as maleitas.
Já sexagenário avançado é que me coube, a mim, ser o visitado. Passei três longos dias num hospital privado, fruto do sistema de previdência mais providencial do que o comum. Um dia destes, dei por mim a meditar sobre o que efectivamente foi mudando na assistência hospitalar e nos próprios hospitais. As grandes enfermarias desapareceram e preserva-se melhor a intimidade. O hospital humanizou-se, ainda que tivesse permanecido a dificuldade de acesso. Ao longo dos anos fomo-nos habituando ao drama que era conseguir vaga nos hospitais. Não raro se dava conta do excesso de doentes acamados nos corredores do Banco.
Evoluiu-se. Mas evoluiu-se também noutro sentido. No sentido comercial. Hospitais comuns e hospitais privados. Presumia-se que os segundos viessem aliviar as enormes e demoradas listas
de espera.
Não foi bem isso. Na génese esteve o negócio. Um negócio como outro qualquer. Cuidados médicos imediatos, sim, mas com preços a condizer. Como qualquer negócio acentava na procura. Procura inicialmente elitista. Não estaria em causa a doença, mas o porta-moedas do doente. Mesmo os doente com porta-moedas recheado não gostavam e não gostam de gastar
o taco no hospital e nessa altura gostam mais de exigir direitos de cidadania e preferem o tratamento prestado pelo Estado. Os privados optaram, então, por infiltrar os esquemas ditos sociais, através de seguradoras e associações sócio-profissionais.
Aos hospitais do Estado já não bastava a complexa batalha que é preciso travar continuamente para evitar os abusos dos laboratórios e outros fornecedores. Há, agora, uma nova frente. Os hospitais tradicionais estão a perder doentes. De repente descortina-se que há menos doentes que camas. Num período curto fui três ou quatro vezes as hospitais distintos e tive ocasião de constatar isso mesmo. Muitas camas vagas.
Pressente-se mãozinha dos privados. Pressente-se que presumivelmente as listas de espera não diminuiram, mas a crise talvez afaste doentes dos hospitais privados e seja necessário um estímulo extra. Seja o que for deve ter explicacão e o que tem explicação deve-se explicar.
Talvez o governo pudesse interessar-se mais e melhor pelos assuntos do Estado, ainda assim a melhor maneira de influir nas eleições...

terça-feira, novembro 29, 2005

IDAS E VINDAS

Vão e vêm quando lhes apraz e pelo caminho vão deixando muito da bagagem que levaram. Falo de ministros, de líderes ou presidentes, que não aguentaram a obscuridade da rectaguarda e voltam à boca de cena, plenos de revigorada aptidão. Guterres e Durão Barroso sairam, cada um deles, pelo seu pé. E sairam por falta de condições para governar. A ambos faltou golpe de asa para dar a volta por cima. O golpe de asa que permite o sucesso e garante um lugar na História.
Em 1926, o país estava de rastos, económica e politicamente. Cinquenta anos depois repetia-se o caos. A instabilidade económica e a intolerância política paralizava o mercado de trabalho. Em ambos os casos foi possível dar a volta. No primeiro nem sequer havia democracia, a moda de regime político era outra; no segundo, a democracia foi preservada. E em ambos os casos, embora mais num do que no outro, as personalidades foram e são contestadas. O homem que capturou Gungunhana passou à História como heroi nacional, embora tenha reagido mal e sem sucesso à proclamação da República.
E ministros com sucesso não são lembrados por serem castos e puros, mas justamente por terem sucesso político, com reflexo na economia. Mário Soares foi Presidente da República e teve como primeiro-ministro Cavaco Silva. E Mário começou por oferecer a Cavaco o primeiro governo maioritário. Durante quatro anos Cavaco Silva governou, enfrentando com sobranceria o Parlamento hostil, e sem críticas do Palácio de Belém. Durante esses quatro anos, o Presidente dos portugueses entreteve-se a ajustar contas outros adversários políticos; primeiro entre iguais, como se costuma dizer. Victor Constâncio, que lhe sucedeu como secretário geral do PS, foi o primeiro a pagar a factura e a ficar isolado. Não lhe restou outra saída que bater com a porta, mas fê-lo com estrondo. Sampaio não teve a vida facilitada e também saiu da liderança do PS, mas a Câmara de Lisboa ganha com souplessse ao prof. Martelo, heróico flutuador do Tejo, foi o suficiente para manter o engenheiro no escalão dos notáveis.
A recusa do líder do PSD, Cavaco Silva, em apresentar um candidato a Belém não agradou a Soares. Ele queria uma vitória que reforçasse a sua postura, no segundo mandato, não desejava uma recondução desluzida. Nem que tivesse que o comprar na Feira do Relógio tinha que ter um candidato à sua direita. E lá arranjou um, na dispensa do CDS.
Para um homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, Cavaco iria ter grandes surpresas. Foram quatro anos a esbarrar com «forças de bloqueio». Muitas dúvidas lhe devem ter povoado o sono para se enganar tanto em tão pouco tempo e nas legislativas que iam anteceder as presidenciais optou por deixar a chefia do governo e do partida a Fernando Nogueira.
Claro que Guterres ganhou e por muito. E claro que Cavaco Silva se perfilou. O presidente da Câmara era um homem discreto e se alguém se enganou não foi ele!
Dez anos passados, Cavaco e Soares reaparecem na actualidade. Um já idoso e outro com idade para ter juizo. E panos de fundo, muitos. Alegre inconformado e ofendido. Miguel Cadilhe, que me parece um economista brilhante, foi um ministro eficiente, mas era jovem e exibicionista e os jornais deram cabo dele por causa das habilidades para não pagar cisas, nas frequentes trocas de residência. O austero primeiro-ministro deixou-o cair na primeira oportunidade. E ele comentou:«a solidariadade é como o chapéu de chuva. Só se dá pela falta, quando chove»...
É mais um que não esquece, nem perdoa.
Perdoar não é problema para Almeida Santos, nem escolher entre amigos. Alegre é amigo, sim senhor, mas «estive sempre com Soares, sempre», e Soares sempre esteve com todos, mas quando foi preciso não esteve. Salgado Zenha é uma referência e também devia ser amigo de Almeida Santos. Mas o inverso também é verdade. Quando foi necessário nem Zenha nem Alegre se vergaram. Talvez seja por isso que os notáveis se esfalfam tanto a defender os fracos e oprimidos: os outros são chatos e refilam...

segunda-feira, novembro 28, 2005

A Loira da Rua 48

Hoje , logo pela manhã, a Rua 48 entrou em alvoroço. Uma verdadeira confusão , daquelas que a rua já não presenciava desde o último Verão, quando por lá passou aquele senhor que parece uma senhora e foi grande vedeta numa das televisões cá da terra e é muito vista na Rua 48.
Tal como para ver o senhor/a a descer do carro, todo vermelho e ele com um lenço de seda branca, a passar as mãos pelo cabelo e, ao mesmo tempo, a dizer adeus a uma senhora velhinha que parecia escondida no fundo da viatura... tal como naquele dia glorioso, hoje também as vizinhas, logo pela manhã, pucharam as cortinas para o lado e puseram-se, descaradamente à janela.

A D. Ernestina, ainda sem os dentes e completamente desgrenhada, exibia um roupão às flores, com papagaios pendurados em algumas delas. Estava perfeitamente boqueaberta e fazia sinais para a vizinha da frente, a D. Rosa, junto de quem já estava o sr. Seabra, ainda com meia cara ensaboada e com a gilette na mão.
O sr. Seabra foi obrigado a voltar para a casa de banho, porque a sua esposa, é verdade que queria saber exactamente o que se passava e ainda não tinha entendido a gesticulação da janela da frente, mas já o tinha avisado que andava com prisão de ventre e não queria ninguém ao pé dela nas próximas horas.

E mesmo aquele cavalheiro, sempre impecavelmente vestido e que, ao fim da tarde, quando regressa a casa, traz um saco de plástico daqueles de marcas sonantes, mas cheio das compras da mercearia do princípio da rua, se quedou com um ar interrogador dirigido a toda a gente, parada na Rua 48. Havia, de resto, já um enorme engarrafamento, com buzinas à mistura.

No meio da confusão havia gente que aproveitava para insultar as mãezinhas dos da frente. De repente, saltou de um Corsa um homem com ar patibular e correu para um outro Corsa, mais à frente e começou a berrar com o condutor. Tratava-se de uma cobrança antiga...eles ainda falavam em vinte contos e, pelos vistos, de um tempo em que era dinheiro.

Nem isso desviou a atenção do principal acontecimento desta manhã: a loira da Rua 48 interrogava toda a gente sobre o paradeiro do seu automóvel.

- "Claro, seu imprestável" ... dizia ela ao vizinho do 1º esqº "... o carro devia estar aqui...aqui, junto à minha porta...e tinha lá dentro um chapéu de chuva que me vai fazer imeeensaa falta..."

- "mas..." respondia o sr. Inácio, verdadeiramente aturdido.

Em seu socorro veio a médica do rés do chão: "... a sra. deve estar doente...o melhor...."

- " o melhor o quê, sua atrasada mental, eu quero saber onde está o meu carro..."

???????????

- "... esperem lá, mas eu não tenho carro,o que eu tenho é de ir apanhar o autocarro... O que é que esta gente toda está aqui a fazer? São doidos ou quê?

Nesse entretanto, chegou a polícia por causa do engarrafamento e aproveitou para prender os dos dois "corsas", que já andavam à galheta por causa de dívidas antigas.

A loira da Rua 48 foi protestando:

"- está a ver, senhor guarda, este povo vai impedir-me de apanhar o autocarro a horas... que horror! está cada vez pior , esta rua..."

domingo, novembro 27, 2005

Felipe Gonzalez

A RTP apresentou na última sexta-feira, a horas impróprias, como sempre, uma iniciativa muito meritória: uma conversa com Felipe Gonzalez e Jorge Sampaio, moderada por Judite de Sousa. Os trinta anos de democracia em Portugal e Espanha, a adesão de ambos os países à então CEE, as questões do desenvolvimento ecnómico, dos regimes democráticos, emigração clandestina, relações bilaterais, foram alguns dos temas deste encontro.
Ao escutar Felipe Gonzalez, seguindo-lhe o pensamento claro , percebe-se a razão principal do sucesso espanhol em comparação com Portugal. Os nossos políticos, mesmo os que chegam aos mais altos postos da hierarquia do Estado só dizem vulgaridades, sempre embrulhadas numa linguagem cifrada.
Com Felipe Gonzalez é tudo claro e é possível equacionar os mais graves problemas do nosso tempo.
Foi pena que tal iniciativa fosse apresentada apenas depois de uma série de programas de entretenimento de mau gosto, o que também evidencia o papel menor que a RTP atribui à informação, desde que não tenha sangue e lágrimas.

sábado, novembro 26, 2005

ONDE ESTAR...

... Se o futuro nunca começa onde o passado nem sempre acaba, onde se situar o presente? É um dilema pior que o su doku ou melhor, sei lá. Alegre é um amigo, disse Soares, não há muito. Diria, depois, Soares que Alegre é triste. Alegre não disse de Sócrates mas disse que Sócrates. Sócrates não tem dito que não disse mas tem deixado entender que não disse. O «Público»
disse o que o «DN» não disse, mas vice-versa.
É fácil. Basta entender ao contrário ou, pior ainda, entender às avessas. Melhor é fingir que não se entende o que deveras não se entende, porque o poeta explicou isto melhor justamente porque era poeta. A gaita é que o poeta é um fingidor.
Que fazer? Não fazer? Deixar fazer! Nunca, sobretudo nunca deixar, mesmo que façam. Cuspir!
Isso sim, cuspir, salivar, se o ambiente for mais elevado. E ter fé. Muita fé. Fé no que há-de vir. Fé que acabe, que termine a fé dos outros. Todos. E todos nunca serão demais. Que se lixem os próximos e os quase próximos e de preferência os longínquos!
Corram a ajudar o que não precisa de ajuda e ajudem-no à força e façam-no engolir a verdade. Porque só as verdades devem ser engolidas, porque são verdades, quase sempre indigestas. Mordam o profeta, mordam. Acabem com ele. E paguem aos árbitros, porque eles merecem e não sabem que o sonho, que vai à frente, comanda a vida, se houver vida. E porque carga de água deve haver vida, há-de perguntar o Jerónimo, se cada vez há menos comunas? Mas que raio têm os comunas a ver com isto?- haveria de perguntar uma virgem, se por acaso houvesse alguma aqui à mão, mas parece que cada vez há menos. Restavam os virgens. Restavam, mas o Bibi vai sair e se não o agarram vai ter muita saída...

sexta-feira, novembro 25, 2005

Plano Tecnológico

O Governo apresentou ontem o "Plano Tecnológico", uma das bandeiras eleitorais do PS. Velharias. Nada que não tivesse sido já anunciado. Algumas das "novidades" chegam mesmo a ser anedota, como, por exemplo, o aumento do número de licenciados e doutorados. Os primeiros para, seguramente, aumentarem o número de desempregados com licenciatura. Os segundos para fazerem as malas e engrossar o número dos portugueses altamente qualificados a trabalhar fora do país.
É que o Estado está à espera que os privados aumentem o investimento na formação e os nossos empresários, no fundo, não passam de merceeiros a contar o "apuro" ao fim do dia.
Este plano não passa de uma síntese de tudo quanto se tem dito nos últimos dez anos sobre a matéria e não vai, seguramente, mudar nada. É a velha fatalidade do "ser português".

quinta-feira, novembro 24, 2005

ACIMA DE TUDO

Li a notícia num matutino de segunda-feira e fiquei a ruminar. Nem quis saber da Ota, dos 23 anos que vou levar a pagar, nem com receio que com tanto emprego garantido me ponham a mim a trabalhar. Nem consegui perceber se o Benfica não ganhou ou se não perdeu. Pior que ser do Benfica é perder a fé na Justiça. Se o Benfica perde, um gajo pode dizer mal do árbitro. Mas quando dois presos condenado por crime de homicídio a penas superiores a 20 anos são postos em liberdade por se ter esgotado o prazo de apreciação pelos tribunais superiores, de quem é que um tipo tem direito a dizer mal?
Era um simples trabalhador imigrante, que pernoitava com outros num contentor junto da obra. Foram assaltados por seis meliantes. Recusou entregar os seus objectos pessoais. Foi espancado e morto. A polícia identificou a prendeu os assaltantes, dos quais dois foram condenados por homicídio. A Relação de Lisboa manteve as condenações e, segundo o matutino, não deu provimento aos vários recursos. Mas os arguidos já tinham saído em liberdade.
Não faço ideia se algum ministro leu a notícia, nem sei se o Supremo se incomodou ou se a PGR
se lastimou. Na véspera da notícia do matutino, e já agora adianto que foi o «público», o prof. Martelo tinha feiro alusão ao desvario que ia pela dita pgr com a deslocalização das escutas telefónicas. Pior é que a divulgação das escutas deixou entender alguma cumplicidade comprometedora entre o comum dos políticos e o incomum dos «excelências». Viram alguém incomodado com isso?. Durante uns dias houve por aí gente incomodada e a querer saber se os juizes tinham ou não direito á greve. Tanto me faz que tenham como não. O que eu gostava era de ter a garantia de que eram todos honestos e todos competentes, mas estou em crer que o TGV seria bem vindo para mandar embora mais depressa alguns ilustres homens das leis...

sábado, novembro 19, 2005

Escroquerie

Um jornal diário, considerado como "de referência, ", o Diário de Notícias, publicou hoje na sua primeira página uma notícia, segundo a qual os professores teriam faltado a mais de 7,6 milhões de aulas no anterior ano lectivo.
A mudança de direcção do matutino, pelos vistos, não alterou coisa nenhuma nos métodos...

O número é fabuloso. E escabroso, se considerarmos que a notícia é publicada no dia em que os professores cumpriram um dia de greve em sinal de protesto contra uma série de medidas tomadas pelo Ministério da Educação, que, evidentemente, não favorecem a actividade docente, segundo os professores, afinal os mais entendidos e interessados na matéria.
É curioso que seja o Ministério da Educação, governado pelo Partido Socialista, a divulgar este número astronómico de faltas dos professores, quando é sabido que uma parte dos votos que deu a maioria absoluta ao PS foi obtida pelo reconhecimento da imcompetência do governo de Santa Lopes na colocação de professores.
Ora, além do estudo hoje divulgado não estar completo, ele traduz em grande parte o desnorte criado nos erros do anterior Ministério da Educação, da srª. não sei quantos Seabra.
Como mera curiosidade, é interessante saber-se que o sr. Secretário de Estado da Educação, responsável pela divulgação destes números, Walter Lemos, perdeu, em 1993 o mandato de vereador pelo CDS na Câmara de Penamacôr, por ter excedido o número de faltas permitido.
Oh! Senhor Walter Lemos, o sr. é um desbocado!. Veja lá se ainda lhe atropelam a dentadura. Tenha cuidado.
Quanto ao DN... diário de referência... está a andar! Estão mais para o lado do Diário da Manhã.
Tudo isto é uma escroquerie, que começa no Ministério da Educação e na sua mais alta responsável e termina na direcção do DN.
Que porra! Já chega de manipulação. Discutam os problemas de maneira séria. Deixem-se de manobras. Quando, um dia destes, já ninguém acreditar em ninguém, quero ver esses ministros, esses secretários de estado e esses directores de jornais a esconderem-se debaixo das saias do primeiro travesti que encontrarem na rua.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Exploração de Trabalho Emigrante

O actual ministro do trabalho sempre me inspirou alguma confiança. Tem um ar sério e parece realmente preocupado com as questões do trabalho - as mais complicadas da nossa actualidade.
Por um lado, há uma legislação demasiado pesada que não leva em consideração a necessidade de diferenciar a competência, a utilidade e a produtividade dos trabalhadores, prejudicando, obviamente, sobretudo as pequenas e médias empresas, muitas vezes colocadas perante situações verdadeiramente insolúveis do ponto de vista legal.
Por outro, a política neo-liberal que tem vindo a ser seguida permite às grandes empresas usar todos os truques, arrecadar lucros de toda a maneira e fugir aos impostos de forma descarada.
Há por exemplo, grandes grupos empresariais que suportam as suas necessidades de trabalhadores contratanto serviços a empresas especializadas em trabalho temporário. O que é que isto quer dizer? Que a empresa empregadora se liberta dos encargos com os trabalhadores contratando os serviços de alguém que tem um contrato com uma outra entidade.
Ora o que está a acontecer com grandes grupos empresariais especializados nesta prática é que estão a recorrer a trabalhadores emigrantes que sabem ilegais. E por causa dessa condição, embora façam os devidos descontos para a segurança social, não fazem a respectiva entrega, pelo ganham, para além das comissões legalmente consentidas, o correspondente a 34,7 por cento dos salários pagos.
Quando por razões legais ou de saúde os tais trabalhadores necessitam de uma certidão ou de um qualquer outro documento, os Serviços de Segurança Social não têm nenhum registo.
A isto chama-se exploração escrava e há empresas nacionais, com vistosas páginas na Net a fazê-la.
Que tal, senhor ministro do trabalho, mandar inspeccionar rigorosamente todas elas?

sábado, novembro 12, 2005

Justiça!!!!

Sempre foi a questão mais delicada de todas as sociedades, de todos os sistemas de poder, a Justiça. Sempre houve a tentação de quem a administra de o fazer a seu favor e dos seus. Por isso, a democracia de um Estado se avalia pelo "estado" da sua Justiça. Uma justiça corrupta, com agentes manobráveis, compráveis, inviabiliza o cumprimento dos preceitos de um regime democrático.
Se, por hipótese, entre os elementos executores da Justiça, por exemplo, entre nós, alguns dos agentes da Polícia Judiciária ou de qualquer outra, ocupar o tempo a compilar informações sobre pessoas notórias e que, previsivelmente, poderão vir a desempenhar papéis importantes neste ou naquele sector do Estado, e a elaborar dossiers prontos a vender, estaremos perante o quê?
Não seria interessante saber que os magistrados públicos, o Ministério da Justiça e não sei quem mais, ponderasse estas hipóteses e aceitasse que as várias denúncias que lhes vão chegando têm algum fundamento?
Não compete aos Tribunais e ao Ministério Público garantir aos cidadãos as condições indispensáveis ao exercício de todas as liberdades cívicas, incluindo o direito à vida privada?
Será que essas condições estão a ser garantidas em Portugal e que o Estado não está a pagar a gente que faz da investigação da vida privada dos outros um modo de vida?

quarta-feira, novembro 09, 2005

Sacrifícios

Observe-se a diferença entre estas duas Leis, ambas aprovadas na Assembleia da República no dia 28 de Julho de 2005:

Lei n.º 43/2005:
Determina a não contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão nas carreiras e o congelamento do montante de todos os suplementos remuneratórios de todos os funcionários, agentes e demais servidores do Estado até 31 de Dezembro de 2006.
Foi publicada no dia 29 de Agosto, entrando em vigor no dia seguinte à da publicação: a partir de 30 de Agosto, o tempo de serviço não conta e por esse motivo os funcionários não progridem na carreira.

Lei n.º 52-A/2005:
Altera o regime relativo a pensões e subvenções dos titulares de cargos políticos e o regime remuneratório dos titulares de cargos executivos de autarquias locais.
Foi publicada no dia 10 de Outubro, entrando em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação: entretanto os autarcas já tomaram posse e não são abrangidos pela Lei.


Esta Lei "esteve de férias" e voltou ao parlamento para aprovação final (?) a 15 de Setembro (nesta altura o tempo de serviço e o consequente congelamento de carreiras dos funcionários já estava em vigor há mais de quinze dias!!!). Depois "esteve na gaveta" e só foi enviada ao Presidente da República a 4 de Outubro (mas salvaguardando que "a presente Lei entra em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao da publicação").

Recorde-se finalmente a euforia do Eng.º Sócrates a anunciar à comunicação social a alteração da Lei, explicando que agora os sacrifícios eram para todos, a começar pelos políticos!...

terça-feira, novembro 08, 2005

O Ridículo

VALENTIM Loureiro vai enviar uma carta a Cavaco Silva manifestando-lhe apoio, mas deixará nas mãos de Cavaco a opção de tornar conhecida esta declaração...
É este o lead de uma notícia da primeira página do Primeiro Caderno da última edição do "Expresso". Isto é o quê? Brincadeira? O Arquitecto a "vingar-se" do despedimento, ou um processo habitual do chamado semanário de referência, que não consegue libertar-se das suas ligações perigosas?
Seja o que fôr, é de um ridículo que só já não assusta o Francisco Pinto Balsemão. E não vale mais um comentário sequer.

domingo, novembro 06, 2005

Paris Já Está a Arder

O que começou há dez dias em Paris não pode ser resolvido com declarações bombásticas de autoridade no parlamento por um primeiro-ministro que se limita a repetir a ideia de que " a República não vacilará..."
O fantasma da monarquia já lá vai há alguns séculos, senhor Villepin. A República é hoje um instrumento de exploração como o foram todas as monarquias. Os bairros que hoje estão a ferro e fogo são habitados pela mesma gente - porque com os mesmos problemas - que tomou a Bastilha, a cidade de Paris no sec. XVIII, que assistiu com entusisamo à decapitação de Luis XVI e de Maria Antonieta.
Senhor Villepin, primeiro-ministro de França, a sua República, em nome da qual garante que não vai vacilar, já não tem a força moral para usar o conceito de um governo do povo para o povo, em nome da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
A sua República abastardou-se e só cuidou da liberdade de alguns, da igualdade dos mesmos e da fratrenidade de ambos.
O que começou há dez dias em França é o princípio do fim de alguma coisa. Por mim, espero que o senhor, senhor Villepin, consiga, com o mesmo entusiasmo com que fala de ordem no seu parlamento, convencer os seus pares europeus de que a burguesia está em maus lençóis. Já não por causa dos bolcheviques, dos soviéticos, dessa gente organizada em rebanhos coloridos, mas por causa - de novo - dos famintos, dos marginalizados, dos desprotegidos, dos injustiçados, dos explorados.
Sobre si, senhor Villepin, impende a enorme responsabilidade de evitar a demonstração de um teorema histórico: todos os grandes movimentos sociais de contestação violenta começam em Paris, estendem-se a toda a França e contagiam o resto da Europa.
Estou longe, não ouso sequer aproximar-me de si, cidadão Villepin, mas se pudesse, apostava consigo, dobrado contra singelo, que em Paris, neste ano da graça de 2005 , principiou algo importante. E não lhe chame terrorismo, por favor. Lembre-se antes da história de Spartacus, sei lá... de Cristo, mas não o misture com JP II ou com Bento não sei quantos
Olhe, eu, se fosse a si, reformava-me e ia para a Bretanha. As notícias chegam lá mais tarde e todas as Repúblicas de hoje cometeram os mesmos erros, diria até, os mesmos crimes da sua.

sábado, novembro 05, 2005

"...Digamos..."

Zapping displicente ontem à noite e, de repente, Miguel Horta e Costa, com todo o peso da sua figura fora de tempo, gestos a mais e bengalas de linguagem repetidas: "...digamos que... digamos que..." e nada de concreto.
Aquele jeito ...oh Zé Gomes Ferreira...a denunciar algum nervosismo. Quase todas as frases a principiar por "...veja que..."
E às perguntas, nada de concreto. Mesmo quando se percebia que elas tinham sido ensaiadas, combinadas (desculpa lá, oh Zé Gomes Ferreira, mas ando nisto há muitos anos...)
A única resposta clara foi a do seu enorme desejo de continuar a ser o CO do Grupo Portugal Telecóme, como ele gosta de acentuar).
Do meu zapping concluí que a PT está mesmo aflita: cotação na bolsa a baixar, fundo de pensões ao fundo, dinheiro a rodos para despedir gente que depois faz falta, clientes descontentes, demonstração - nos números - de uma onda de mudança de operador por um grande número de clientes que pareciam fidelizados.
Era necessário levar o barão à televisão. Bastava pedir ao tio Balsemão, convencer o Ricardo Costa e o José Gomes Ferreira. Imaginem os trabalho$ !
Mas, Miguel lá teve direito ao seu tempo de glória para anunciar que quer continuar a ser presidente da PT.
Balsemão, Costa e Ferreira fizeram a boa acção do dia e, ainda por cima em cenário piroso, a condizer com a figura.
Um verdadeiro sucesso.

terça-feira, novembro 01, 2005

As Associações de Mal-feitores

Este país não deixa de me espantar. Confesso que, de vez em quando, sinto mesmo a minha alma "ficar parva".
Enfim, para não concluir que a minha terra é uma espécie de Chigago dos anos 20 transposta para o sec.XXI, admito que os assaltos se verificam um pouco por todo o Mundo.
Mas, eu conto:
recebi hoje uma carta de uma empresa totalmente desconhecida para mim a comunicar-me que o meu seguro de vida , subscrito em determinada Companhia de Seguros sofreu um acréscidmo de cerca de 3 por cento, "em função da análise dos elementos indicados no questionário clínico e dos resultados dos exames médicos realizados..."
A carta acrescenta que, no caso de querer algum esclarecimento, me devo dirigir a um sr. dr. da citada companhia de seguros, numa outra direcção, perfeitamente distinta daquela que indica o endereço de quem me comunica o tal aumento.
A carta é assinada por um outro senhor e não por aquele que, supostamente, me dará os esclarecimentos que lhe vou pedir.
E os esclarecimentos a pedir são muito fáceis: quando e quem me realizou exames médidos ou me fez inquéritos? A resposta só pode ser: ninguém, em tempo algum.
Isto é ou não um assalto, uma trama combinada entre vários agentes, com endereços e responsáveis diversificados? Isto é ou não o indício de que o roubo institucional, assegurado pelas companhias de seguros, já passou à classe de práticas de associações de mal-feitores?
O Procurador Geral da República faz o quê nestas circunstâncias? Pode fazer alguma coisa? É seguro viver em Portugal?