segunda-feira, agosto 22, 2005

A Visita ao "Império"

Já escrevi - suponho - que detesto escrever para a gaveta. Por isso, o blogue é óptimo, escreve-se e está publicado. Todavia, agora em viagem, e porque nem sempre é fácil obter ligação à Net, tenho vindo a escrever para "a gaveta", na esperança de encontrar uma ligação. Viena era o "paraíso" prometido. Qual paraíso, qual carapuça. Ainda nós nos queixamos da PT em Portugal...
E hoje não podia deixar de conversar comigo e convosco, depois de ter desabafado no tal computador do hotel, sem acentos e essas coisas todas. Um dia destes irei emendar os erros.
Falemos hoje da Áustria Imperial, isto é do que ficou do Império Austro Húngaro, um verdadeiro império cujos vestígios não podem deixar, ainda hoje, de constituir uma afronta. Se recuarmos no tempo e confrontarmos o luxo em que vivia a corte, quer de Maria Tereza (mãe de Maria Antonieta), quer de Francisco José e Elizabeth (Sissi), com a vida que levavam os camponeses, obrigados a dar os seus dias de trabalho aos respectivos senhores, gratuitamente, além das taxas e impostos que pagavam, obrigações que foram aumentando até ao limite do insuportável, com o único objectivo de sustentar o luxo faustoso de uma corte, não podemos deixar de ficar chocados.
Hoje foi o dia da visita aos palácios. Um espanto. Só a implantação urbanística, ao tempo da sua edificação, longe, e hoje transformada no centro da cidade, a imensidão da área ocupada e a ostentação da arquitectura, me faz sentir como existindo noutro Mundo. Felizmente, não tenho nada a ver com aquilo e a exibição ostentatória de tanto ouro, de tanta prata dourada, de tantas peças de crital e porcelana provenientes de todo o lado, não pode deixar de me transportar para a Áustria de hoje.
Para a exploração misarabilista dos pequenos aspectos de um tursimo de massas, de verdadeiras hordas que enchem por completo, por exemplo, o chamado "Museu de Sissi", onde é exibida até à exaustão a sua silhueta anorética, os seus vestidos de "cintura de vespa" - que ela usou até aos sessenta anos, altura em que foi morta por um louco, à facada.
Os austríacos de hoje, já que vivem de mitos - lá está em exibição parte dos filmes interpretados por Rommy Schneider - podiam, pelo menos, dar-lhe espaço - já que espaço não lhes falta.
Hoje não chovia, o sol aquecia e o museu Sissi estava repleto de excusões de italianos, japoneses e espanhóis. Todos falam alto e - notava-se, pelo menos entre os italianos e os espanhóis, gordura a mais. Estava irrespirável, verdadeiramente claustrofóbico, tanto mais que tem tudo um ar muito escuro, como se o luto ainda permanecesse...
Depois, há o cheiro a estrabaria, que já em Saltzburgo ganha foros de escândalo, o ar cansado, doente mesmo, da maior parte dos cavalos que andam com turistas repinpados a ouvir as explicações de uma guia que lhes explica o modo como S. Magestades viviam.
E ainda os 50 cêntimos por cada vez que se vai a uma casa de banho pública. Não me admiraria que, um dia destes, também começassem a cobrar o mesmo nos museus, já que ali, uma salada de alface misturada com pimentos de várias cores e 50 gramas de atum custa 6,90 €, um verdadeiro roubo.
É verdade que noutros países se verifica o mesmo, o que nos leva a outra questão: os apreciadores de arte pagam um preço demasidao alto para darem vida aos museus: as entradas são sempre caras, e há museus onde um dia inteiro não chega para ver uma parte do que se quer . Portanto, há que fazer um intervalo, pelo menos para almoçar. É aí que aparecem as verdadeiras aves de rapina a complicar as contas.
Aconteceu no Museu das Belas Artes: o número de obras expostas e a sua qualidade deu para um dia - 16 de Agosto. Chovia e ainda bem, mas esquecemo-nos de recorrer ao truque das sandes. Fomos surpreendidos e lá tivemos que dar sustento aos gaviões.

A Grande Cidade

O velho problema da grande cidade: vai-se na avenida certa,mas ultrapassa-se a rua onde se devria ter virado à esquerda - ou à direita, tanto faz - e fica tudo complicado. A experiência ensina que se deve parar logo. Desta vez, à pergunta, com o mapa na mão, a resposta foi uma verdadeira lição de boa vontade, de civismo, educação. O homem, que estava a sair de uma carrinha, disponibilizou-se para nos servir de batedor. Duas voltas à direita e lá estava o hotel.
Em Brno, na República Checa, já nos tinha calhado a sorte de um batedor num carro de polícia, mas aqui, em Viena, foi um cidadão simples cidadão.
Tenho que começar a penitenciar-me da minha primeira impressão, logo à entrada, quando, vindos da Eslováquia, nos aconteceram incidentes desagradáveis, com gente desagradável. A verdade é que nunca mais aconteceu. Pelo contrário.
Antes de Viena, porém, descobrimos um restaurante simpático, numa região produtora de vinhos, em Feuersbrunn. O Restaurante pertence a uma família que ali produz vinho desde o sec.XIX Também provámos do vinho. Tinto de 2004, a precisar de mais algum tempo de estágio, mas agradável.
Por ali só se fala alemão. Outra gente de outras paragens é, claramente, uma grande surpresa - a 60 Kms de Viena!
Mas, enfim, cá estamos: na exploração da televisão com o habitual zaping calhou-nos um brinde: Mízia a cantar o fado: texto de Vasco Graça Moura e música de Carlos Paredes. Aparentemente, tudo se conjuga para uma estadia agradável: gente simpática, a possibilidade de ver mais alguns Van Gogh, uns quantos Géricault e uns tantos Picasso, Matisse, Monet, Degas, Renoir, Cézanne, Renoir...sei lá...vamos ver se o tempo chega. Pelo menos vai passar depressa...
Pena é que a Áustria me pareça tão atrasada no plano das telecomunicações. Há zonas da cidade (Viena) sem cobertura para os telemóveis e o acesso à net é complicado. Pelo menos a T.Mobil A, que tem acordo com o hotel onde estou instalado, não consegue abrir-meuma conta para acesso wireless, pelo que não poder introduzir os textos que, entretanto, escrevi, no blogue.
No Hotel existe um único acesso para os hóspedes, no átrio da recepção, normalmente ocupado com gente jovem a jogar...Enfim, já consegui dar uma vista de olhos e percebi, pela zanga do Rafael, que não há ninguém capaz de tirar Portugal da fogueira de interesses baixos em que entrou. Ao aproximar-se domingo, dia do regresso, fico nervoso, perante a expectativa de tanta laberada à minha volta.

15 de Agosto

De repente dei comigo a pensar nas estranhas coisas que aconteceram e acontecem às pessoas e à nações a 15 de Agosto. Feriado na Austria, ao que parece na Alemanha e em Portugal. Ah! e no Lubango, dia de Nossa Senhora do Monte. De Portugal, neste 15 de Agosto,chegam mensagens a escaldar e imagens de um país a arder. O melhor é esquecer! Será? Estão a fazer o quê à minha terra? A quem tenho (temos) que pedir responsabilidades?
Por aqui choveu e chove. Antes de entrarmos em Viena voltámos a casa da família Riedl. A mãe, Anna, fez-nos uma festa incrível, na manhã de hoje tivemos, ao pequeno almoço, a companhia da Gerdi (Gertrud), irmã da Andrea e do burgomestre da Vila, Alfred Riedl.
É gente como esta que nos ajuda a gostar da outra Austria, aquela que não vive totalmente do turismo. Começo a ficar com grande curiosiade acerca de Viena e não consigo evitar o habitual stress da ultrapassagem das várias barreiras de asfalto e betão.
Grafenworth (com trema no o) é uma vila pacata, harmoniosa do ponto de vista urbanístico e arquitectónico. O primeiro andar é aqui a regra. Nada de monstruosidades, como as que descobrimos nos arredores das nossas maiores cidades, verdadeiros armazéns de gente onde o mau gosto impera e os atropelos às regras urbanísticas dão a ideia de se estar perto do fim de alguma coisa.
Apesar disso tudo, começo a ter saudades do meu sítio e da minha gente. Sobre esta, gostava que fosse mais desperta para os reais problemas da vida, do país e não se deixasse arrastar pelo manobrismo permanente da comunicação social e dos políticos. Sobre estes não posso deixar de me repetir:sempre que viajo me interrogo acerca do que verão os nossos políticos quando saem de Lisboa. Não aprendem nada, nem sequer a interrogar-se a si próprios?
E os autarcas? Será que nunca vão para além dos aeroportos , das salas de reuniões e dos "gabinetes" de massagens?
Em Portugal, há problemas que se discutem há anos e cujas soluções estão executadas, a olho nu, noutras paragens. É apenas uma questão de adaptar. Por exemplo: a velocidade nas auto-estradas É evidente que a proibição de circular a mais de 120 é um despautério, uma armadilha, uma emboscada legal.
Na Alemanha, em auto-estradas com a mesma qualidade das nossas, a velocidade aconselhada, e não limitativa, é de 130. E os automobilistas andam todos a muito mais do que isso. Nos troços em que há alguma espécie de perigo, então, sim, a velocidade é limitada e de forma bem visível. É uma solução simpática, mas que, obviamente, deixa menos campo de manobra à emboscada policial e legal.
Esta solução, mesmo do ponto de vista político, é muito mais simpática, já que hoje quase toda a gente é, simultaneamente, automobilista e peão e, por isso, entende o anacronismo da imposição de limitações a automóveis que podem, facilmente, chegar a muito mais altas velocidades em perfeitas condições de segurança, desde que as estradas também as garantam.
Finalmente, é óbvio que ninguém cumpre esta porcaria de regra.

sexta-feira, agosto 19, 2005

GUERRAS E BIRRAS

Os fogos continuam, o homem já veio de férias, falta água lá por baixo e há pouco lá em cima.
No entretanto morreu gente esturricada, e muitas casas ruiram. Não será preciso calamitar o sucedido. São coisas que acontecem. Enterrem-se os mortos e emprestem alguma coisa aos vivos. Pelas bandas do Douro perderam-se uvas, as uvas do vinho e a D. Antónia já por cá não anda para ajudar.
E o Miguel já pediu desculpa! O inquilino de S. Bento ainda não.
E o Irão abriu a gaveta do nuclear! En la 4 se habla português (por enquanto!). Os combustíveis custam, cada vez mais, os olhos da cara. O aeroporto da Ota ainda não está pronto. Ainda não há lugares no TGV, mas quem quiser pode ir de bicicleta. Quem foi que disse que isto é país do faz de conta?
Eu faço de contas que vou à guerra, lendo as centrais de DN. Segui meio distraído a escaramuça entre Vasco Pulido Valente e Miguel Portas, por causa da merda da bomba atómica. Um acredita que só os sacanas dos americanos é que eram capazes de deitar uma bomba daquelas em cima das pessoas; o outro acha que 140 mil mortos foi barato para acabar depressa com o conflito. O jornal de ontem dava conta que o Japão tinha declarado guerra aos EUA e à Inglaterra e por acaso já tinha atacado Perl Harbour, sem aviso e afundado um couraçado ou um bote ou lá o que era. Invadia as Filipinas, a Indonésia, a China. Ocuparam Timor.
Acho que não se contaram os mortos. Era boa gente! Guerreiros e patriotas. Se fosse preciso até se matavam com os aviões. A moda dos mártires suicidas já vem de longe.
Em todo o caso os japoneses já tinham pedido o fim das hostilidades e queriam render-se, recorrendo à diplomacia sueca. Os americanos dessa altura eram moucos, se é que não ouviam mal. E, claro, queriam exibir a "bomba", para impressionar os soviéticos, que estavam a trabalhar naquilo, desde o fim do conflito na Europa. Americanos e russos tinham apanhado os cientistas alemães, os primeiros a desenvolver a tese da bomba definitiva. Cada um deles queria ser o primeiro.
Foi um aparato inútil. Não foram as bombas que resolveram a guerra que estava já resolvida. E não foram 140 mil, a menos, foram 300 mil a mais, por desnecessário.
E desnecessário porque os soviéticos acabaram por fazer a «bomba» e retomar a guerra fria. As chamadas bombas voadoras concebidas pelos alemães já pelo fim da guerra, tornavam-se a mais terrível das ameaças. Nunca foram utilizadas. Outras tidos por civilizados e cultos também não resistiram a experimentar o brinquedo e iam lá para as oceanias fazer experiências. Um barquito de pacifistas, acostado ao cais, na Nova Zelândia, explodiu. Morreu um fotógrafo português, porque há sempre um português,um só que seja, em todo o lado. Tinha sido um atentado «oficial», dois agentes secretos, franceses, colocaram a bomba. Se fosse o James Bond
ter-se-ia ido embora, mas aqueles foram logo presos, julgados e condenados. Um deles engravidou, na ilha onde cumpria a sentença, Era uma mulher, já perceberam. E a gravidez foi calculada. Serviu para negociar. O governo francês obrigava-se a manter os condenados na cadeia e a agente teria o filho em França. Foi fita, claro. Mal chegaram a França foram para casa. Um fotógrafo, e ainda por cima pacifista, que importância teria?
Mas, senhores, quantos milhões (milhões mesmo milhões) de pessoas não foram mortas, executadas, destroçadas desde que o Mundo não está em guerra? Quantos milhões de africanos
não morreram já, até de fome, por mór de corrupções ou água benta? E sem que fosse necessária a merda da bomba!
A pregar não se chega a lado algum e enquanto a honestidade for uma virtude não se vai longe. Só quando for ferozmente obrigatória.
Mas para se conseguir isso... vai ser precisa a bomba!

O Império e as comunicações

Estou em Viena desde há três dias e não consigo ligar o meu computador em parte nenhuma. No Hotel, porque a T. Mobil A não tem capacidade para me abrir uma conta a utilizar no hotel com wireless. Nos Cyber-cafés porque já tiveram " a lot of problems".

Estou surpreendido com muitas coisas na Austria, mas sem calma para falar delas. É que mesmo os telefones móveis, em certas zonas da cidade não funcionam, não tem rede. A capital do grande império é um atraso de vida no que diz respeito a comunicações. E por hoje basta.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Ulisses e Penélope

Saída de Maurach com destino a Saltzburgo. Para trás fica uma vila simpática, onde aparentemente, toda a gente vive do turismo, assim como que uma monocultura com os seus riscos.
Na estrada da parte alemã um incidente estranho: um carro não identificado manda-nos encostar. Não entendemos e continuámos. Os dois "polícias" voltam e exibem sinais claros de polícia. Parámos e, depois de constatarem, primeiro, que não éramos austríacos e depois que os papéis do carro alugado não apareciam, resolveram aplicar uma multa de 25 euros por uma infracção que ninguém percebeu.
O pessoal ficou a pensar que caiu no conto do vigário, tanto mais que o recibo da multa
Saltzburgo não vive apenas do turismo, mas gostaria e faz de tudo um pouco para que isso aconteça. Explora de uma forma exaustiva o filme "Música no Coração", exibindo jardins e palácios, escadarias e recantos, servindo aos estrangeiros uma estória que agradou pouco aos austríacos, já que ela evidenciou o apoio que Hitler recebeu - natural de Lindz - na Áustria.
Por outro lado, explora até ao limite e às vezes de forma pouco limpa a memória de Wolfwang Amadeus Mozart, um filho da terra, mas a quem a terra pouco ligou quando vivo.
Rem duas casas-museu do compositor, sendo que uma delas é um artifício e onde se conta a história da família de Amadeus, o sétimo filho de Leopoldo, também músico em Saltzburgo.
Também este pretexto de exploração turística foi muito valorizado com a realização do filme "Amadeus".
Não deixa de ser curiosa esta ligação da Áustria ao cinema. É que a imagem de país colaborador com os nazis foi bastante atenuada com a série de filmes sobre a imperatriz Sissi, um conto de fadas apenas com alguns pormenores a aproximarem-se da verdade.
De facto, Sissi não queria saber do Imperador Francisco José I e este não passava cartão a Sissi, que, inclusivé, tratou de arranjar uma casa para a amante imperial, perto do palácio , em Bad Ischl, onde o Imperador passou o Verão durante sessenta anos seguidos .
É estranha esta Áustria, com paisagens que fazem lembrar postais e com heróis verdadeiros a quem a terra não ligou em devido tempo (o caso de Mozart) e vivendo das estórias artificiais de gente de qualidade mais que duvidosa.
À imperatriz Sissi, que preferia viajar para a Madeira a ir a Bad Ischl ver Francisco José, junta-se o capitão Von Trapp, o pretexto para o "Música no Coração" e que, segundo uma sua familiar tratava-se do homem "mais sem graça que veio ao Mundo".
Esta artificialidade que se respira no país turístico pode não ter correspondência no outro, mas até agora marcou-me. Para concretizar um pouco mais e recorrendo ao cinema: aqui não seria possível, por exemplo, filmar a história de Ulisses e Penélope. Só "A branca de Neve e os Sete Anões".

segunda-feira, agosto 15, 2005

Europa - Para onde Vamos ?

As viagens desorganizadas, apenas com objectivos, têm muitas vantagens. Entre elas a de se fugir às excusões, aos guias, aos caminhos oficiais. É possível ir conhecendo outras pessoas, perceber que as ideias preconcebidas, na maior parte das vezes, não têm razão e ter outra dimensão do Mundo. Neste caso da Europa e da sua civilização.
As viagens deste tipo também permitem reflexões mais calmas sobre o que vai acontecendo à nossa volta. Ao olhar a descontração com que toda a gente por aqui circula, a forma simpática como se relacionam com estranhos e aceitam as suas diferenças ( o leite quente ao pequeno almoço, por exemplo, é sempre um pedido estranho mas que acaba por ser satisfeito com simpatia e alguns sorrisos), ao olhar tudo isto, não posso deixar de pensar no modelo de sociedade que os europeus construiram e também no pouco cuidado com que estão a olhar para ele.
A comparação com o Império Romando é quase imediata. Também os romanos - é certo que doutra maneira porque noutros tempos - entendiam que o resto do Mundo desejava governar-se segundo o seu modelo. O que acabou por acontecer todos sabemos. A seguir foi a noite escura de um poder obscuro, fundamentalista, que impedia a investigação científica, que torturava e queimava as pessoas que pensassem ou sonhassem diferente.
Séculos!
Porquê? Que sei eu?!
Mas não posso deixar de me atrever a afirmar que tal aconteceu porque os romanos aceitaram como garantido o desejo de os outros serem iguais a eles.
O mesmo acontece com os europeus há demasiado tempo. E não apenas com os europeus. Os americanos, que são um produto da colonização europeia, também entendem que o modelo deles é o melhor e todos os outros estados e civilizações o querem copiar. Mais: uns e outros definem a sua realidade como imutável. As suas elites, distantes que estão do povo e dos seus problemas, governam já, na maior parte dos casos,um ficção
E o modelo europeu é, hoje, o quê?
Uma estrada aberta, um mercado permanente, sem outros valores que não sejam os do consumo.Uma estrada que está a entrar pela Europa Central e Oriental, transportando a ideia de mercado, de consumo, desprotegendo a fundamentação do respeito pela diferença, pelos direitos dos outros .
Olhamos para a União Europeia e não podemos deixar de ficar assustados com os resultados, se a olharmos para além de um mercado aberto e uma estrada livre.
Na Escola, as disciplinas com teor ideológico e/ou filosófico foram praticamente reduzidas à expressão mais simples. Transformou-se em mais um instrumento do mercado: prepara gente para carreiras de sucesso no plano dos negócios. Os académicos puros, os que apenas produzem ideias, formulam teorias e discutem o Homem passaram à condição de peças de museu.
A verdade é que a Europa, servindo-se ainda do modelo grego de Escola lhe retirou a sua principal virtude: o gosto pela discussão e pela aprendizagem. A Juventude europeia de hoje pensa que tudo foi como é e nada mudará. Não entende que tem de lutar por manter um modelo que lhe assegurará as liberdades e garantias de que usufrui.
A família, outro dos fundamentos da civilização europeia, dilui-se na premência de conseguir os proventos necessários à manutenção dos filhos em boas escolas (as tais que são trampolim para as carreiras de executivos de sucesso), de obter os fundos indispensáveis à mudança de automóvel de três em três anos, à compra de casa, se possível de uma segunda habitação no campo ou na praia. Na família deixou de se estruturar o primeiro grupo de partilha e passou a construir-se o primeiro trampolim para o sucesso.
E a Igreja? É verdade que ela foi a responsável pelos séculos negros que se seguiram à queda do Império Romano, mas, depois, com alguma moderação, sempre serviu como fundamento ideológico para algumas das virtudes que definem a vida do homem europeu. Hoje, faz o quê? Serve para quê?
A última substituição de papa foi um evidente jogo de poder, feito com muita antecedência e com grande habilidade por João Paulo II que, na prática, nada mudou durante vinte e seis anos. Pelo contrário, com ele a Igreja voltou vários anos atrás. Com este novo Bento anuncia-se o fim.
E, tudo isto, quando, de vários lados se levantam vários fundamentalismos. Do lado asiático, o fundamentalismo do mercado, controlado, no caso chinês, por um estado totalitário que tudo concentra e, no caso indiano por uma multidão de comerciantes servida por uma multidão de especialistas nas novas tecnologias, uma especialidade que conseguem obter nas condições mais incríveis.
Do lado muçulmano, o conhecido fundamentalismo, produto da distorção das leis do Corão, tal como na Europa dos séculos da escuridão, a Inquisição resultou de uma maléfica e arbitrária interpretação dos textos fundamentais do cristianismo.
Ora, a verdade é que esta estrada, que é a Europa, comporta tudo e todos. Por aqui, no Tirol, entre as lojas de "souvenirs" já há espaços chineses, com comerciantes habilidosos à espera dos incautos, indianos um pouco por aqui e por ali e muçulmanos, igualmente, acompanhados de suas esposas, de rostos tapados, passeando-se nos jardins dos palácios imperiais de Bad Ischl e Innsbruk.
Também é verdade que, por aqui, a tranquilidade é absoluta, mas em Londres, Madrid e, seguramente, Roma já não é.
Estará a acontecer connosco, europeus, o que aconteceu com os romanos?

Internet - Um problema

Entre Innsbruck e Saltzburgo, mais perto da primeira que da segunda, fica Maurach. Uma vila do Tirol, onde todas as casas alugam quartos e existem alguns hotéis de real classe. Há de tudo para todas as bolsas, mas sobretudo o bilhete postal permanente tirolês. Fim de semana de três dias, também para os austríacos, e ao que parece para os alemães, as montanhas fervilham de actividade: bicicletas, peões, alguns com carros de bebés, passeiam-se pelos caminhos florestais. Manhã de domingo, brilha um sol tímido mas agradável.
É dia de descanso para o grupo, um passeio pelo lago (Achensee), pic-nic e tudo e o resto do dia para "lerdar". Em boa hora, porque se levantou um vento desagradável. O Verão por aqui é um pouco caprichoso.
Sábado, 13, foi o prazer da leitura de alguns jornais ingleses para saber como vai o Mundo no Café Central de Innsbruck. Uma legenda, que a mim me despertou a nostalgia dos tempos em que, quer em Lisboa, quer em Coimbra - suponho que em todas as outras cidades portuguesas, nomeadamente no Porto -, se tomava a bica, se lia o jornal e se cavaqueava com os amigos, ou, em certos casos, se dava uma vista de olhos aos livros, sobretudo em vésperas de exames.
Voltemos, todavia a Innsbruck e ao seu palácio imperial, onde Maria Tereza ditou as leis do seu gosto pelo barroco e rocócó e deixou os retratos dos seus 16 filhos, entre os quais Maria Antonieta - essa mesma, aquela a quem cortaram a cabeça.
Depois do jornal no Central, uma volta pelo chamado centro turístico, onde os italianos tinham tomado conta das praças, das ruas e gesticulavam como se estivessem a afogar-se entre a multidão. As compras habituais, comigo a ficar na rua, observando as multidões ( se toda a gente fosse como eu, a sociedade de consumo não existiria).
O almoço, fora de horas - foi necessário namorar a cozinheira - no mais antigo restaurante da cidade: o Goldener Aldler. Tem mais de seiscentos anos, que se notam pela antiguidade das muitas obras de arte espalhadas pelas paredes e pelo aspecto do próprio edifício.
O regresso a Maurach, já com outro alojamento marcado, porque o da primeira noite era gerido por um senhor esquisito: explicava numa voz de falsete que essa coisa de televisão e net, só nos grandes hotéis. "Esta é uma pequena casa..." Foi fácil arranjar um outro alojamento, bastante melhor, com televisão e mais barato cinco euros por pessoa...
Net é que nada. Estes austríacos são esquisitos, têm o culto do arranjo das casas ( o tal senhor esquisito - "bota esquisito nisso"-) tem a casa cheia de verdadeiras obras de arte, feitas em madeira, em muitos casos reproduções de quadros pintados em tela, feitas por ele próprio), mas são pouco virados para as novas tecnologias.
Todavia, num dos grandes hotéis da região, lá consegui uma abertura muito simpática, mas que evidencia que por aqui uma parte das receitas dos hotéis ainda é conseguida com as telecomunicações. Tendo uma rede ADSL , o hotel cobra aos clientes dois euros por cada trinta minutos de ligação à Internet, sendo que é o mais barato,já que em todos os outros, o preço é de três euros por trinta minutos.. Mas, enfim, aliviei o computador e a minha impaciência.

domingo, agosto 14, 2005

SOL E SOMBRA

Há qualquer coisa de sombrio neste assunto dos incêndios. O manto de silêncio em redor de diversos ângulos é quase sufocante. Não é como as falcatruas nas contas, nos depósitos em paraísos fiscais, porque, estes, frequentemente saltam para a ribalta. Albarram é um caso. Um dos candidatos por Oeiras é outro, ou a pequena Felgueiras, outro ainda. Não são todos, claro. Alguns outros artistas com dinheiros mal parados continuam calmamente na sombra ou nas boas graças madeirenses.
No caso dos incêndios praticamente nada transpira. Uns vagos «foram detidos x suspeitos de atear fogo» uns aqui, outros ali, mais nada. Aqui, no blog, fizemos e dividimos interrogações, mais interessados (e insistentes) nos porquês e nas consequências. Muita da censura implícita era dirigida à imprensa, escrita, falada ou teledifundida. Não me lembro nem dei conta de reportagens sobre este género de crime, nem sobre o «retrato» do criminoso (a). Presumo que os repórteres devem ter posto questãos e engoliram sem se engasgar o silêncio como resposta.
Foi na Televisão que, finalmente, o ministro António Costa deixou escapar alguma velada censura à ligeireza dos magistrados e ao pouco rigor penal. A magistratura, habitualmente lenta,
ripostou com azedume muito depressa, sem justificar nem clarificar.
Talvez por isto o Ministério da Justiça entendeu vir a terreiro. Tão depressa, que se atrapalhou
e baralhou os dados, começou por referir que desde 97 não havia condenações a prisão efectiva. Depois emendou a mão e revelou que entre 97 e 2005 houve condenações.
Tardiamente admitiu-se que muito silêncio começava a fazer uma barulheira dos diabos! Mesmo assim, a informação é escassa. Quem é o incendiário. O que é que o conduz ao crime? Ou quem o conduz ao crime? Algum (alguns?) dos condenados terá sido induzido (pago) a incendiar a mata, ou a casa, ou o prédio?
Me parece que há excessivo cuidado, muito, muito cuidado, em não clarificar o que está (e quem está) por trás de tanta tragédia. Ontem morreu mais um bombeiro. Penso que eu, e mais do que eu a família dele, e as famílias de tantos outros que pereceram nos incêndios criminosos, temos o direito de saber como e porquê morreu gente inocente. Parece-se excessivo que só os condenados por fogo posto tenham direitos e gozem de tão estranha cobertura à sua (deles) privacidade.
Não se trata de curiosidade mórbida. Incendiários há-os em todo o lado e por todo o mundo, mas provavelmente não com a persistência demoníaca que nos persegue. Acredito que, se entendermos o crime, e as causas que conduzem a ele, possamos contribuir para o evitar ou minorar as consequências. Donde, o silêncioà volta, uma espécie de aviso: isto é com a Justiça e ninguém mais tem a ver com isso - foi (e será) um reflexo de estímulo ao criminoso (saudável ou doente), senão, pior ainda, uma forma implícita e inconsciente de cumplicidade...

O Pó fascista que desaparece

Para trás ficou Milowka, o hotel simpático e a família de Wincenty, Danuta, a esposa e Kuba, o filho. Foi uma despedida de verdadeiros amigos, com a promessa de regresso. No Inverno, para aprender a esquiar - ou a partir as pernas - vão acrescentando os companheiros de viagem.A passagem pela Eslováquia dá para entender que a Europa só pode mesmo ter futuro. Assim apareçam lideranças honestas e competentes. Há obras por todo o lado e os campos não estão parados: milho, girassol, trigo,uma azáfama real, mesmo que, de vez em quando se tenha uma enorme fila na estrada porque um tractor, velho, mesmo a cair, resolveu descansar um pouco antes de fazer mais um esforço.Os eslovacos e os polacos da polícia de fronteira têm alguma saudade dos outros tempos - nota-se. Estão sempre a ver se descobrem qualquer coisa estranha nos documentos, olham para os automóveis como se escondessem um exército de terroristas. Estão a conviver menos bem com a abertura de fronteiras e não dispensam o exercício da autoridade em cenas verdadeiramente risíveis.Agora que as fronteiras têm pouco significado, os polacos estão a construir um enorme complexo arquitectónico para a sua fronteira com a Eslováquia. Vá-se lá perceber porquê.Em Povazska Bystrica, à beira da estrada, um restaurante bem simpático, de bom gosto, com boa cozinha e um serviço perfeito. Foi a última etapa naquele país. A próxima paragem seria já na Austria.Vindo da Eslováquia, entra um homem na fronteira austríaca e é como se tivesse snifado pó fascista.Na primeira estação de serviço, o guarda da "mija" da viagem, um gorila de cabeça rapada e olhar feroz cobra 30 cêntimos por cada alívio. Sessenta paus, a multiplicar por quatro são... Temos que inventar um sistema de ser possível dois em um. É que assim já nem o Pitigrilli tem razão. A este preço é uma dor de alma.A mulher dos telefones, parecida com aquelas senhoras que nos filmes americanos fazem o papel das megeras comunistas, encolhe os ombros, quando se protesta porque a porcaria da máquina de telefonar engole euros a uma velocidade espantosa. Resultado: oito euros engolidos e o telefonema por fazer. A fascista ainda cerrou os punhos com a nossa conversa.A certa altura fica-se com o receio de ser assaltado. Os preços são um pavor e as caras daquela gente fazem lembrar um file de terror. Emobra que se faz tarde.O objectivo é passar Viena a caminho de Salzburgo. O costume: circulares mal sinalizadas, obras por toda a parte, mas depois de alguns enganos e algumas voltas atrás lá conseguimos sair da grande cidade.Para mim, as grandes cidades são um inferno, antes de chegar ao centro. Ultrapassar as sucessivas barreiras de betão, asfalto, automóveis, cidadãos mal dispostos é um verdadeiro martírio - acho, aliás ter já ganho o direito ao céu (não direi a 70 virgens, mas...).Ultrapassada que foi Viena, descobrimos a outra Austria, das pequenas vilas, da gente afável, prestável, esforçada. Graças a eles encontrámos uma pequena relíquia, uma casa de turismo rural, conseguida da recuperação de uma parte (dos estábulos) de uma grande quinta da família A. Riedl.Um senhor de ar cavalheiresco, uma senhora campesina, entusiasta, afável, preocupada e afectiva e sua filha, a gerente do empreendimento,igualmente simpática, eficiente e com um inglês aceitável.Nada como o turismo rural português, que muitas vezes não passa de um artifício para ter obtido fundos para a recuperação das casas de família e as instalações que disponibilizam para os hóspedes são de um mau gosto aflitivo, com as relíquias familiares.
Não, aqui, em Grafenworth é tudo impecável. Apenas um senão: não têm Net. Mas os quartos são de um bom gosto a toda a prova, o pequeno almoço, de primeiríssima, servido em louça Villeroy e Boch. Como bónus, a companhia de um cão enorme, simpático e gordo, o max.

A Juventude Polaca

Krakóvia é obrigatório. Perdemos um dia nas minas de sal, mas tivémos que regressar para ver a monumentalidade de uma cidade que foi capital da Polónia durante vários séculos. Tem mais de uma centena de Igrejas, uma catedral um bocado estragada com um mamarracho que lhe plantaram no meio com um caixão de prata contendo os restos mortais de um dos bispos lá do sítio.
Na Catedral reparei no ar dos muitos padres que por lá andam com ar perdido, tristes. Tristes e magros, quase a desaparecer nas batinas que eles ainda usam. Impressinaram-me aqueles padres. Em Krakóvia, o Papa João Paulo II está por todo o lado, em fotografias, em estátuas, ou simplesmente representado por um ramo de flores no palácio do bispo, que ele habitou, quando foi o pastor da cidade.
Porque o tempo não chega para tudo, recorremos a um daqueles carros eléctricos que fazem a chamada volta turística à cidade. Conduzido por uma jovem bem simpática e informada, lá fomos vendo as Igrejas, as praças e as Sinagogas do bairro judeu, que em tempos constituía uma parte da cidade, separada da outra, a católica. Os judeus, que chegaram a ser trinta por cento da população de toda a Polónia, estão agora reduzidos a pouco mais de uma centena. Há números que sempre assustam.
A nossa condutora é estudante e trabalha entre 10 a 14 horas por dia, por um salário que é, concerteza, muito baixo, a avaliar pelo trejeito que fez quando se falou no assunto.
Todavia, tal como o Kuba adora as montanhas e o seu país, ela ama Krakóvia,a sua terra natal e a totalidadeda sua terra, a Polónia.
Esta atitude da juventude polaca não pode deixar de impressionar quem como nós, portugueses, se habituou a ouvir os seus jovens a desdenhar deste tipo de sentimentos e a percebê-los preocupados apenas em consumir.
Depois de visto o castelo, lá voltámos a Milowka, um caminho já conhecido, com duas portagens. Uma paragem em Ziwiec para uma cerveja na cervejaria da fábrica, mas o pessoal lá do sítio nem para nós olhou - à comunista. Espera, se quiseres. Bem diferente do tratamento que recebemos na cervejaria da Budweiser, na República Checa

"Kuba", o Ás do Ski e do Volante

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

sábado, agosto 13, 2005

LAVAR DAÍ AS MÃOZINHAS

Está de férias, ponto final parágrafo!
Pois! Mas não é bem assim. Habitualmente o direito às férias adquire-se após e não antes. Primeiro desempenha-se a tarefa e só depois o eleito se deita a dormir. Mas nem é por ser direito ou esquerdo, que a questão se deve colocar. Um primeiro-ministro, recém empossado, não deve abandonar o barco, mal inicia a viagem. Sobretudo se a embarcação sofreu um duro e inesperado rombo - prontamente remendado, seja dito!
Não é razoável e os factos subsequentes acabaram por amargar a pílula. É certo que Sampaio já não pode intervir, não pode mais despedir governo maioritários e, portanto ele, sim ele fez bem em gozar férias tranquilas, dando uma de preocupado, para ficar bem na fotografia. Mas o PS sai mal.
António Costa borregou. Faz bem em não gostar de aparecer a choramingar à frente das câmaras televisivas, mas ele há outros modos de aparecer, de actuar, de se impor à opinião pública. E o que se viu demasiadas vezes foi não o ver nos momentos mais difíceis, não o ouvir a tempo e horas, foi isso que fez notar a ausência, essa sim constante, de Sócrates.
Quando finalmente Costa apareceu na Televisão gaguejou sobre a questão do fogo posto e da aparente falta de resposta da autoridade judicial. As polícias fartam-se de prender suspeitos, em alguns casos mais do que isso, mas nunca se sabe das consequências. Reconheça-se que os senhores magistrados sentiram-se incomodados. Magistrado incomodado é como senhora gulosa: perde a linha.
Ontem, no Parlamento, esteve mais preparado e mais à-vontade. Tem experiência de tribuno e conhece a oposição parlamentar de gingeira. Como se costuma dizer popularmente, em terra de cegos...
Mesmo assim arranjou modo de se entalar e de maneira tão absurda, que custa a crer não ter sido propositada, com aquela insistência insistente no "mais de duas vezes","mais de duas vezes"
e disse isto para aí umas três vezes...
O que quereria ele dizer? Duas vezes e meia? Três vezes menos um quarto? Não teria sido mais político e sobretudo mais fraternal dizer "todos os dias"?
Sombras que causam perplexidade e incentivam à intriga, que não tardou e já hoje arribou insidiosa. Li algures que foi Sócrates que telefonou e ordenou ao substituto a ida aos fogos, aparecer junto, fazer de primeiro-ministro, ainda que substituto.
Falou também o senhor ministro da Agricultura, mas não prestei atenção, nem reparei se ele disse alguma coisa, mas quero crer que só tenha falado.
Não sei, confesso, se o eleitorado de esquerda, o do centro ou o da direita sabem alguma coisa de concreto relativamente a incendiários. Eu desconheço. Continuo sem saber o que se fez, faz ou fará relativamente aos acendedores de matas florestais e outras que tais. Mesmo os loucos ou fascinados pelo fogo, via televisão ou vice-versa. E ainda menos quanto aos chamados mandatários, os que mais ganham com o que o país perde e ganham o que ganham porque ninguém os perde, ninguém os persegue, os acusa, os julga e os condena.
Do mesmo modo, ninguém esclarece com clareza se a suspeita carece de base ou de substrato. É costume, tem sido costume, surgirem magníficas urbanizações, onde não teria sido possível construir sem um incêndio providencial. E ele há outras formas mais subtis de apoveitar da tragédia, quer ela seja ou não de vontade divina...
A história da impossibilidade das câmaras, pobres delas, assumirem o papel na legislação existente, segundo a qual a limpeza dos matagais cem metros para dentro implicará, na prática,
esfregar todo o chão municipal é uma história mal contada, tão mal contada que mais parece um insulto aos meus vizinhos, que são decerto menos estúpidos que eu, que acredito em tudo que os ministros me vendem. Peçam às televisões (e paguem à hora se for preciso) umas reportagens obrigadas a mote, a partir de 1 de Junho: «E de limpeza de matas, como é que vamos»?
Vale uma aposta?
Há evidentemente quem defenda o «quanto pior melhor». Mas, porra, é a malta que fica com o «quanto pior» e os gajos dos costume arrecadam o «melhor».E isso pode lixar, ainda que sirva para o BE se exibir. A parte chata, do ponto de vista governamental, é que o tal «melhor» não rende para as Finanças, seja qual for o ministro, e o «quanto pior» custa uma pipa de dinheiro trocado às ditas, seja qual for o ministro.
E quando se levantar a questão resultante do «está bem, a gente percebe», mas como sair deste buraco, sem aparecer alguém a correr, mesmo a tempo de torcer o rabo. De facto a evolução não é mais o que parece, quando o «Vai e vem» regressa incólume dos céus. Quando pregaram Jesus na Cruz e questionaram o algoz-mór, este replicou: «daí lavo as minhas mãos»...
Depois disso nenhum problema em sujar as mãos. Elas lavam-se com facilidade, «mais de duas vezes» se for preciso...

quarta-feira, agosto 10, 2005

DISSE QUE NÃO DISSE/2

Fiz bem em guardar alguma reserva, mesmo se não sou muito crédulo no que toca aos jornais nos dias de hoje, pareceu-me excessivo. De facto, o DN desta manhã desfez Carrilho em pedaços, não sobra nada do homem e do político só o que os outros quiserem. Não se diferencia de muitos, talvez não dê erros ortográficos, talvez se lembre quem escreveu A Oeste Nada de Novo e se tenha agradado de ver Os Homens Preferem as Loiras (ainda que casem com as morenas!). Disse que não disse desacredita e se no caso de Mário Soares podia parecer um estilo e, portanto, fazia sorrir e quer se quisesse, quer não, o homem podia mentir à vontade, que daí não vinha mal ao mundo. Este é tortuoso. De facto só podia ser socialista. Nos últimos tempos, o baralho socialista só dá duques, mas, pelo menos, o mais alto meteu férias e deixou o fogo para os outros.
Era altura de alguém, habitualmente mais sábio, aparecer a tranquilizar os mais estupefatos: habituem-se!...
Por ser sábio prefere o silêncio! Por muito saber da poda preferiu deixar ministérios à solta. Por isso vive tranquilo e faz férias quando lhe apetece, sem daí vir mal ao mundo...

Viagem - A Mina de Sal

De Milowka a Krakóvia, pelas novas auto-estradas que estão a construir-se na Polónia, são duas horas. Todavia, o chefe da família a que me venho referindo, indicou-nos um trajecto alternativo, mais bonito - dizia - e que nos levaria directo a Wieliczka , a cidade onde se situam as minas de sal mais famosas do Mundo - dizem os polacos - e as mais bonitas - dizem igualmente os polacos. Só que wincenty devia desconhecer que o tal itinerário está a mexer. Obras e mais obras. E, portanto, o que aparentemente, seria mais perto e mais agradável à vista, acabou por se traduzir num atalho com os respectivos trabalhos: Foi um dia inteiro para chegar a Wieliczka e como chovia, toda a gente se lembrou de ir ver as minas de sal. Resultado: uma fila enorme e quase duas horas serpenteando em torno de um jardim para chegar no limite da última excursão com guia em inglês. Um guia que, de certo modo, fazia lembrar o padre de Levotcha e que tinha uma dicção pouco menos que horrorosa. Dizia as palavras todas, bem estruturadas gramaticalmente, mas com um som para o qual era necessário um treino muito grande. De qualquer forma, lá fomos vendo e percebendo.Além disso, ele e todos os funcionários daquela super-estrutura turística usam uma farda negra, a fazer lembrar os tempos comunistas, também pelas dragonas exibicionistas de alguns deles. Um mau gosto incrível.As minas são, de facto, um espectáculo.Descemos a 135 metros e só chegámos ao terceiro nível. Para baixo há mais seis que chegam aos 327Há séculos que os polacos exploram daquele sítio o Sal e foram deixando, ao longo dos tempos, grutas impressionantes, onde têm construído, em Sal, verdadeiras obras de arte, como diversas esculturas, uma enorme capela onde já está uma estátua de João Paulo II, com a senhora de Lourdes ao lado, feita em sal puro. Os cristais dos candelabros são igualmente em sal puro.Os polacos montaram aos 211 metros um sanatório que servia, em tempos, e provavelmente hoje, para curar doenças alérgicas - entre elas a asmaUm dia, quando me dispuser a colocar fotografias neste blogue, vou mostrar-vos alguns aspectos desta maravilha.Com todo este tempo perdido (ganho?) Krakóvia ficou para segundas núpcias. Todavia, parámos na terra natal de Karol Woytila, junto à placa com o nome:Wadowice. Foto de turista a sério. Enfim... de vez em quando há que fazer concessões, mas prometo nunca fazer daquelas excursões organizadas, com guia e tudo, horas marcadas e tudo visto a correr. Essa, não!O regresso foi bem mais rápido. Nas auto-estradas polacas paga-se quando se entra e a meio também. É um sistema que terá a sua lógica, mas que perturba quem não está habituado. Cinco Zelotes e meio, de cada vez, pelo menos no trajecto Krakóvia - Bielsko-Biala assim foi.

DISSE QUE NÃO DISSE

Foi em tempo, quando escrevinhava no Jornal Novo e o dr. Soares chegou pela primeira vez ao governo. Ele saía com frequência do país, com frenesim próprio de quem queria entrar na CEE. Buscava apoios. Procurava vender o seu produto e fazia-o com empenho e determinação. Não raro metia os pés pelas mãos e dizia incongruências ou inconveniências, que desmentia nas calmas, no regresso, à chegada. Habituei-me (o dr. Vitorino ainda não tinha assentado praça no PS) a um ante-título que utilizei amiude: «Soares disse que não disse».
De uma vez, no regresso de uma dessas viagens, ele explicou que algumas falhas (inverdades) se deviam à frequência com tinha de mudar de idioma e se enganava nas expressões. Nunca me esqueci, depois, de inserir nas pequenas notas sobre «o disse que não disse» a referência ao «linguajar estrangeiro do dr. Soares».
Foi uma época e era um estilo de governar, arrumado, pensei eu, na gaveta da democracia recém chegada.
Parece que voltou. Hoje foi a vez do DN usar parangona na 1ª página, atribuindo Carrilho críticas à candidatura de Mário Soares. O candidato socialista à Câmara de Lisboa desmentiu prontamente a manchete do matutino da av. da Liberdade. Dias antes fora o «Público» a endossar ao secretário-geral do PCP o aviso a Alegre sobre a deselegância de Marocas. Manuel Alegre desmentiu o teor da notícia e o líder comunista também.
Os diários aderiram ao estilo dos telejornais: manchete forte e feia e quanto mais quente melhor, tanto faz que seja honesta como não, preciso é que seja chamativa e que desperte ódios e paixões.
No caso do «Público» foram formulados dois desmentidos e o jornal não tugiu nem mugiu, que é como as televisões costumam fazer, mas não era hábito nos jornais impressos. As coisas mudam.
Hoje pensa-se que tudo se pode fazer, seja improvisar ou mentir e, avaliar pelo silêncio do «Público», nem se importe de passar por mentiroso.
Quem aceitar isto como natural, pode habituar-se e continuar a comprar o pasquim.
Quanto ao caso desta manhã, o jornal ainda não teve tempo de se pronunciar sobre o desmentido, a não ser que eventualmente tenha prestado esclarecimento a outro meio de comunicação social alheio. Vou esperar. Seja como for a expressão, repetida, «fulano disse ao DN» é difícil de desmentir, se for verdade, ou de justificar, se não for.
Em geral escuto alguns noticiários breves, na Rádio, em geral de manhã, um ou outro Sic-notícias, pela tarde e uns cinco minutos de Telejornais, à noite. Não deu para ter eco.
Hoje choveu para os meus lados e por isso não tenho que regar as plantas e até vou poder lavar as mãos mais duas vezes. Nem tudo é mau, afinal de contas. Amanhã se verá. Naquelas folhinhas que nos dão imagem do passado, já lá tem vindo com regularidade a marca do Estado Novo: Visado pela comissão de censura. E hoje deu-se conta da eleição de Roosevelt. Por este andar, segunda-feira rebenta a guerra na Europa, mas só lá para terça-feira teremos notícias disso. Que pena não podermos ouvir Fernando Pessa, em directo de Londres...

Viagem - O preço de uma Igreja

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

segunda-feira, agosto 08, 2005

DEFORMAÇÃO

O que é óbvio acaba sempre por surgir à tona. Ontem, no Telejornal, colocaram ao ministro António Costa as mesmas questões, aqui levantadas umas horas antes. Tanto no que toca à limpeza das matas, ao que o ministro lembrou que já existe legislação, mas a insistência de José Rodrigues dos Santos levou o ministro a gaguejar sobre quem e como se deve multar. A isso já aqui se adiantava a resposta: próximo de eleições, os autarcas não multam, não ameaçam, não chateiam.
Em relação ao destino dado aos incendiários, aí o ministro sentiu-se mais à-vontade para desviar a atenção para os magistrados, que, segundo ele, deveriam ser mais severos nas medidas de coacção.
Os magistrados não gostaram. Consideram uma intromissão no seu domínio. E produziram mesma uma sentença: a coacção aos incendiários será igual à aplicada aos restantes crimes. Um caso claro de deformação profissional. Desagradados com o projecto do governo de poder punir os magistrados nos casos de erro grosseiro, os juizes aceitam mal todas as críticas e exorbitam nos seus direitos.
Mas não é pelo governo perder o sentido da realidade, que os magistrados se podem arrogar todos os direitos e nenhuma responsabilidade. Se o governo receia ter de pagar pelos erros
judiciais, faça um seguro, mas não intimide quem tem a difícil tarefa de julgar. Mas, o contrário, também deve ser aceite e entendido. Os magistrados têm de estar à altura do dever e de cumprir com zelo a sua tarefa. Nos casos em que as decisões revelam os tais erros grosseiros, ou outras fragilidades inaceitáveis, não se pode, nem deve, multar o magistrado, mas sim, fazer o que se faz, nas mesmas condições, em qualquer outro tipo de profissão, demitir, dispensar, despedir, livrar-se dele. Se não dá provas de competência, que mude de profissão. Não é premente nem forçoso que o exercício da magistratura seja uma reforma vitalícia. Que seja, isso si, uma função delicada e com elevado índice de competência. Se um presidente da CGD pode ser despedido, sem justa causa aparente, porque é que o um juiz desatento não pode ser mandado para casa?
O ministro António Costa tentou pôr água na fervura, mas esteve longe de apagar o fogo. Neste inferno de chamas o governo (os governos) fazem preces e esperam pelo Inverno, por enquantoa melhor, senão a única, solução. O pior é a seca, que vai alastrando...

TUDO BEM, HABITUEM-SE

Como dantes, quartel general em Abrantes. Mais fogo menos fogo. Antigamente a revista à portuguesa já era assim. Os que podem vão de férias, os outros ficam e sofrem as consequências. Pior que isso ficam com a televisão que resta. Não são só os helicopteiros que ganham, também as televisões ficam cheias e consomem até à exaustão. Os políticos distribuem o mal pelas aldeias, como o fogo. Medem-se percentagens e contam-se cadáveres.
De coisas concretas pouco ou nada se sabe. a CS dá conta que já foram identificados uns 70
incendiários, alguns dos quais suspeitos entre alguns confessos. Acrescenta a informação que o ano passado esse número foi superior.
Mas não se dá conta do efeito de repressão. Vê-se mais fogo, creio que se vê demais. Nada se sabe do que acontece aos incendiários, indiciados por fogo posto. Se alguma cara devia ser exibida na TV era a dessa gente, por muito doente que seja. Não se trata de violar direitos, mas
de defender a tranquilidade pública. O fogo posto é uma forma de terrorismo. Afectar a floresta corresponde a lesar a saúde pública e a pôr em risco a vida e os bens dos cidadãos e da comunidade. O governo procura tapar o fogo com a peneira, mas este, o mais recente, tem sido como os anteriores, limita-se a pôr água na fervura e nem em toda, porque algumas bocas de incêndio não passam de decoração.
Não se culpe o governo pela explosão incendiária, mas pela falta de prevenção. Os bombeiros voluntários não serão mais abnegados que outros, mas merecem um reconhecimento especial.
E volto a trás. Pouco ou nada se sabe do que aconteceu a 80 detidos o ano passado, por suspeita
de fogo posto. Não há referência a julgamento nem para os alegados criminosos, nem para os eventuais doentes do foro psiquico, nem que medidas efectivas são ou foram tomadas. O pouco que foi referido é preocupante: um confesso incendiário dos últimos dias já tinha cadastro na matéria.
Falou-se que algumas bocas de incêndio não dispunham de água, mas não é tempo de criticar os autarcas, quando há eleições no horizonte. Nem os autarcas estão em tempo de admitir que pouco ou nada fazem para limpar as matas. Em período eleitoral, os autarcas são como os carros sem gasolina: não andam, não exigem respeito, não fazem ondas, quer seja nas matas, quer nas pecuárias. Mas o que é que se pode esperar se o ministro-mór de serviço se limitou a dizer-nos, com bons modos, é verdade, não chateiem. Aguentem. Só faltou o outro para dizer:habituem-se..

domingo, agosto 07, 2005

Auschwitz

Auschwitz.Não percebo. Não aceito. Não quis ver. Não aguentei. A crueldade não faz parte do meu imaginário, mas a proximidade deste cenário adivinhado perturbou-me. A necessidade de manter viva a memória deste horror terá que implicar esta romaria turística?
Já não sabemos viver sem consumir. O convite à reflexão não chegaria?

Viagem - Polónia

Estou numa aldeia polaca, na fronteira com a Eslováquia ( os polícias da fronteira têm sempre um ar fasccista, estes fazem lembrar os maus dos filmes americanos. Olham para os BI's com ar entendidos, isto é, com a esperança de encontrarem uma conspiraçãozita. Mas, nada, Nada que nos faça deter. Lá ficam para trás, tristes no seu triste papel.
Está frio, para trás ficou um belo e sereno Sol, filtrado pelas neblinas da montanha que se aproxima. A terra chama-se Milówka, lê-se miluvfka e a gente é simpática. O sítio é a meio da montanha. Respira-se o ambiente especial de quem rvive na altitude. À noite, no restaurante, há gargalhadas. Mulheres descontraídas, como vai sendo hábito, vivem melhor frente aos copos. Eles recolhem-se, são tímidos. Será que o Mundo vai mudar?
A cerveja polaca é boa, mas a checa é melhor. Todavia, na Polónia servem copos de litro. Perguntam-me se quero um. Amanhã experimento, digo. Com o fresco que faz, o litro não corre o risco de aquecer.
As notícias de Portugal que me chegam via SMS ( a vida está cara e a Net por aqui ainda é produto raro) são assustadoras. O país está a arder... fico espantado: mas, afinal, ainda há país para arder?
Quando é que aparece alguém a pensar certo? O combate aos fogos tem que ser feito pela Força Aérea. Equipe-se a gente da guerra e eliminem-se as diversas empresas que ganham por cada hora no ar o dinheiro suficiente para uma operação de combate a um grande incêndio.
Para quê pensar nisso?
Agora que estou fora, basta colocar um muro à volta do país e aquilo fica um manicómio.

Viagem - o batedor

Para quem se habituou a ouvir apenas falar da República Checa como um apêndice do império dos outros tem que ficar admirado. Descobrir em pequenas aldeias patrimónios que falam da verdadeira História da Europa, daquela que enche a cabeça de todos os que julgam ter inventado o Mundo, dá que falar.
Muito mais ainda se os checos descobrirem - e aposto que sim - como se explora o Turismo. Em Dacice, por exemplo, o castelo, que tem objectos de grande valor, faz visitas guiadas de hora a hora, com guias simpáticas - belos sorrissos - mas que falam apenas checo. É uma estopada,mas mesmo assim, por causa do sorriso e das estórias que se descobrem, vale a pena.
Telc - património mundial - tem uma praça resplandecente, em que as casas são todas resguardadas por frontarias lindíssimas: Mas não tem mais nada. Se não se tiver informação coveniente, passa-se por lá como se por mais uma aldeia de camponeses, preocupados com as colheitas do trigo, das papoilas e da cevada.
Cesky Krumlov: um rio a serpentear, uma arquitectura e um urbanismo únicos, outra cidade classificada, é ainda mais atraente que Praga. Tem gente de todo o lado da República Checa, alguns austríacos, alemães e, provavelmente holandeses. Pela primeira vez numa viagem deste tipo, não ouvi uma palavra em português. Um dia destes vira moda e já não se pode andar por aqui.
Ah! os italianos, sempre aparecem: eram os únicos que destoavam na visita à exposição de Alfons Mucha, em Moravsky Krumlov: vinte quadros gigantes a narrar a história dos eslavos,da formação da pátria Checa e do movimento religioso hussita.
Do ponto de vista do aproveitamento daquele enorme potencial turístico, o mesmo disparate: fecham ao meio dia, abrem às 13 e fazem visitas guiadas, com gente que fala, fala e sorri, mas ninguém entende, exceptuando, claro,os checos, que, neste caso, ainda são - ou parecem - o maior número.
A paragem para ver Mucha, os heróicos e também as gravuras publicitárias da sua época parisiense, perturbou a chegada a Brno, para onde estava marcada uma visita para as 16 horas locais, à Villa Tugendhat, uma maravilha da arquitectura dos anos trinta, macerada e ocupada pelos nazis e pelos comunistas.
Está agora em recuperação e a cerca de uma hora que se passa ali vale bem a estopada de ouvir um cavalheiro a falar, a falar para apenas 15 pessoas sem que nenhuma delas perceba uma palavra.
E, depois, quem quiser comprar o que quer que seja tem que pagar em cash e o mais próximo multibanco fica uns quantos quarteirões abaixo.
Ma,, enfim, a propósito de Tugendhat vale a pena contar a estória da chegada.
Bron é a segunda cidade checa - enorme e não tão bem organizada como Praga. Descobrir a zona de residências senhoriais onde habitaram e devem habitar as elites de vários regimes - uns de ocupação outros não - assim, sem mais nem menos,com hora marcada, não é coisa fácil. Olham-se os mapas, pergunta-se, mas as respostas nem sempre são fáceis. A comunicação consegue-se mais por gestos. Inglês, francês, nada, e o nosso alemão está esquecido (eu acho que só os alemães se lembram, a sério, dele) . O relógio não pára e aquela visita tinha sido marcada desde Lisboa.
De repente, à nossa frente pára um carro da polícia, num semáforo, a co-piloto da viagem sái mais uma vez do carro e corre para a viatura da autoridade, aponta-lhe o mapa e o homem, sem dizer uma palavra que se perceba, faz sinal para que o seguíssemnos. Um pouco mais à frente volta a parar e - sentiu-se - resolveu levar-nos ao destino.
De facto, concluímos, depois de lá chegar, que sem batedor jamais conseguiriamos chegar às 16 em ponto.
Altura em que quatro espanhóis estavam já a ocupar os nossos lugares para visitar Tugengdhat. Um deles ainda gemeu: ..." mas somos espanhóis, vimos aqui apenas uma vez na vida..." Ao que respondemos: " ... nós somos portugueses provavelmente esta é a única viagem que aqui fazemos, temos esta visita marcada desde Lisboa e o relógio marca 16 em ponto".
Foi um gozo particular? A visita foi, a chegada com polícia, tudo isso, sim, dá para recordar com agrado. A exclusão dos espanhóis achamos um disparate. Continua a ser o sistema fechado a impôr regras que só os chefes percebem, porque só a eles dá a satisfação de um poder assumido. Além disso, as dificuldades de recuperação da vivenda são visíveis...
Os checos hão-de aprender e estes relíquias, gora são difíceis de apreciar, hão-de ser vistas por multidões.
Nessa altura será tudo muito mais caro, mas quem cedo amanhece...

Viagem - as malas

É simpático reconhecer competências, dedicação, eficácia num serviço público. Já falei da Austrain Airlines bastante diferente das suas congéneres europeias, a atravessar crises miserabilistas insuportáveis. Pois, a Austrain, não apenas serve refeições a bordo com alguma dignidade, como,depois, à chegada, tem um serviço de assistência impecável.
Chegado a Viena no dia 1 de Agosto, a caminho da República Checa dei por falta de duas malas. Rapidamente soube o destino das transviadas: Barcelona. Que me seriam entregues no dia seguinte, ao fim do dia, no hotel para onde seguiria viagem.
Assim aconteceu: ainda não eram 18 horas locais do dia 2, quando o pessoal da companhia austríaca apareceu em Daceci a entregar as malas.
Daceci fica mais de 150 Kms de Viena e é noutro país. Estou mesmo a imaginar uma companhia portuguesa a prometer e cumprir entregar duas malas numa espécie de aldeia que nem no mapa vem, em Espanha...
Claro que para chegarem tão rápido não devem ter parado na espécie de paraíso do sexo que os checos plantaram à entrada da sua república, ali, disponível, de forma óbvia para quem atravessa a fronteira entre os dois países em Haugsat.
O comércio até chega a ser chocante, mas, seguramente, reflecte diferenças importantes entre dois países, agora pertencentes à União Europeia.
A República Checa exibe, confrangedoramente as sequelas dos planos quinquenais, com largas extensões de campos roubados às florestas que noutros tempos os povoaram e onde se cultivam grandes extensões de cereais. São verdadeira feridas abertas e que,obviamente, ninguém está interressado em sarar, já que é delas que vem o sustento a grande parte desta população.
A União Europeia está a entrar aqui devagar, as lojas abrem às oito e meia e fecham às 5 da tarde. É verdade que o Sol nasce às quatro, mas não se percebe muito bem o que fazem os checos da cidade. Os do campo, imagina-se que poêm aquelas enormes máquinas a trabalhar para ceifar os campos. À noite entopem as estradas...
As comunicações por aqui, junto aTelc, cidade-património mundial são um desastre e os cidadãos desta região só falam checo, assim como os portugueses da maior parte de Portugal que também só falam português. Mas, de qualquer modo, lá nos vamos entendendo

Viagem - a cerveja

Isto de viajar continua a ser melhor do que ficar em casa a ver telvisão, imagens que os outros fizeram, seleccionaram venderam (ou compraram) e transmitiram às horas a que os donos das empresas de sondagens recomendam. Se, por acaso, não correspondemos aos perfis dos inquéritos, lá temos que aturar coisas que consideramos idiotas, próprias de atrasados mentais...essas coisas.
De viagem pela República Checa profunda a suportar, de quando em vez, o cheiro a suor requentado de camponeses disfarçados nas roupas, mas com os olhos cheios das planícies abertas noutros tempos por máquinas inventadas pela gente de Staline, descubro que os adversários da PAC dos franceses na União Europeia estãoa Leste. São eles que vivem da cultura extensiva de cereais e a podem trasnsformar no que quiserem e puderem.
Não percebo mesmo por que razão em Portugal toda a gente se assusta tanto com o alargamento a Leste. Sei lá... o melhor é inventar um inimigo externo.
Aqui tudo é tosco; é muto difícil encontrar alguém que fale inglês, o turismo é ainda uma curiosidade... (eu sei que tem Praga, Cesky Krumlov e Brno, mas só na capital se pode falar em turismo internacional).
Indústria? só se percebe a da cerveja - notável, diga-se
É um país a sair, seguramente, de uma noite muito escura, mas simpático, com gente esforçada e com um desígnio nacional:a Independência. É aqui que está o segredo. Contarei mais.

Viagem - o começo

A segunda circular de Lisboa está cada vez mais entupida e ainda não ouvi nenhum dos candidatos à presidência da Câmara da capital falar disso. De qualquer forma é por lá que se sai a caminho do aeroporto e nunca se sabe se o entupimento é maior do que o habitual. Em Lisboa, corre-se o risco de perder o avião. Desta vez foi quase...
Aeroporto de Lisboa. Nunca mais acabam as obras...os placards de indicação dos balcões de chek-in avariaram, o stress aumentou, há boas notícias...Viagem a caminho de Viena, na Air Austrian. A mesma poupança de todas as outras, mas com alguma dignidade. Nesta, não se adivinham os bancos de plástico como nos autocarros de LIsboa.
Por falar em autocarros: uma sugestão para os candidatos à CML: prometam um corredor BUS e para viaturas de emergência na segunda circular. Aquilo está perigoso a sério...
Avião cheio de crianças. Atrás de mim, um senhora queixa-se à assistente de bordo que o cavalheiro ao lado dela tresanda, não deve tomar banho há séculos...já o bisavô dele abominava a água. É a gente do Norte: água nem para beber, por isso não falam da seca.
Impecáveis, as austríacas, com muita diplomacia, removem o cavalheiro, trocando-o por uma jovem, que não sendo propriamente um modelo de limpeza, pelo menos não tresanda a suor velho e outros odores.
A viagem serve igualmente para rememorar algumas das últimas notícias escutadas em Lisboa e de que, com certeza, não vou saber desenvolvimentos. Na Guiné Bissau, os adeptos do candidato do PAIGC protestam na rua a exigirem novas eleições. É o Senegal a reagir: é que a Guiné Bissau também tem petróleo a Norte e não apenas a Sul. Todo o Mundo anda atrás do petróleo e aquele já deve estar contabilizado.

sexta-feira, agosto 05, 2005

FANTASMAS

Hoje a notícia fora dos incêndios é Figo. Sai de Madrid para Milão. O Pombal está a arder. Mais de metade do país, também. O ano passado por esta altura, mais coisa menos coisa, ardiam as matas. A oposição, que hoje é governo, criticava asperamente o governo. Hoje terá sido o primeiro dia dos piores anos. O primeiro ministro está de férias. Ninguém do governo se pronunciou, nem que fosse para lastimar as vítimas. Eu sei, vamos ter que nos habituar.
Tenho andado a espreitar as primeira páginas do DN ao longo dos anos.
Não é a História que me motiva, é o jornalismo. Acho que já dei conta da mórbida curiosidade
sobre o Jornal no 28 de Maio.
È óbvio que a 28 nada haveria para contar. Do ponto de vista profissional, a curiosidade centrava-se no jornal de 29. Ora, a 29 o jornal não disse quase nada e teve muito, muito cuidado.
De facto o matutino não dava ideia de saber o que se estava a passar. No dia seguinte, já era 1927, Fevereiro: havia uma revolta militar no Porto. Finalmente, deu para entender...
De incêndios não se falava. Mas havia uma revolta e a revolta militar era o incêndio dos nossos dias. Havia para todos os gostos e conforme os dias da semana. No dia 29, já referi, falou-se do 28 de Maio, mas sem ser 28 de Maio. Eis como titulava o jornal: A odem pública alterada. mas em Lisboa e no Porto o sossêgo é absoluto. Fotos tipo passe mostraram o general Gomes da Costa, exibido como o chefe revolucionário do Norte, enquanto Mendes Cabeçadas era tido como tendo sido preso em Santarém. Uma nota oficiosa confirmava que «há sossego em todo o país. Apenas uma parte da guarnição de Braga está revoltada»...Dizia-se ainda que tinham sido organizadas duas colunas para seguirem para Braga a fim de dominar os revoltosos. Outro comunicado, do conselho de ministros, garantia que «apreciando a situação verificou que dispõe de todos os elementos para manter a ordem»...
Menos de um ano depois, em Fevereiro de 1927, deparava-se com algumas diferenças. Dava-se notícia de um levantamento revolucionário no Porto, mas o ministro da Guerra já tinha partido para Aveiro, onde estavam a ser concentradas tropas fieis para marchar contra os revoltosos no Porto. Mesmo assim, havia repercuções em Lisboa, onde o general Domingues, do Governo Militar de Lisboa fazia saber que ficavam proíbidos os ajuntamentos de cidadãos, usando-se de todo a violência contra os que resistirem...
Durante os 48 anos que se seguiram a medida não foi, suspensa, nem alterada, salvo para manifestações expontâneas de apoio e veneração do Presidente do Conselho, que devia estar a chegar ao topo da carreira...
Mas mais interessante e a dar o mote para o rumo que o país encetava, nessa sexta-feira, bem ao alto da primeira página, a duas colunas, à direita, a entrevista com Mussulini. onde se salientava que « o fascismo é um produto do Século» e sublinhava que «a democracia é indiscutivelmente a meta para que (para a qual) a humanidade caminha»...
A entrevista com o Duce não enganou: a guerra estava no horizonte, dele e de outyros líderes, que não falavam dela. Ele sim, e disse a propósito: «Não há nada de sinistro nos preparativos para a guerra. Pelo contrário, são mais para temer certas frases mansas que abordam o tema do pacifismo»...
Comecei a sentir-me frustrado, mesmo desmoralizado, nada de futebol na primeira página. Afinal que país era o meu. O futebol não tinha culpa os jornais é que não prestavam. Mas amanhã, que já deve ser 1928, é ano Olímpico e Portugal teve uma equipa de futebol nos Jogos e até botou fugura. Ganhou uns dois jogos e acabou eliminada aí pelo Egipto ou coisa assim..
O que é que acham?

quinta-feira, agosto 04, 2005

NOTÍCIAS DE VERÃO

Ainda sem linha, o TGV já derrapa. Pôs um ministro financeiro a andar e despediu o manda chuva da CGD. Com a OTA vai ter de mandar o benfeitor da TAP à vida ou, para disfarçar, despede o Rio e o Major da Metro do Porto. Anda tudo espantado com este governo dito socialista, sem razão. A confusão é confusa porque os jornalistas em vez de se deitarem a adivinhar deviam perguntar o como é ao dr. Vitorino, para ele aplicar com clareza europeia o seu «habituem-se!», cada vez mais objectivo. E não é que vão mesmo ter de se «habituar» a tanta coisa, tanta!
Quatro meses chega para merecer férias, não tanto por fazer tanto calor, mas por tudo à volta estar muito, muito quente! E o primeiro-ministro abalou e a produtividade foi as urtigas, logo a produtividade que faz um mal do caraças às pobres urtigas. Deixou por cá António Costa que para gerir a crise política nem deu pelos atropelos à Justiça.
Sem eco possível, Freitas do Amaral, esse, não voltou a falar de eleições, nem de Negócios Estrangeiros, tem-se limitado a ficar calado e, possivelmente pasmado. E como é por demais sabido que ele é o senhor que se segue, no que toca a zarpar do governo, os outros têm de esperar vez, de forma a que o analista Marcelo tenha razão e justifique o cachet.
Seguindo o exemplo do Benfica, que quer mudar o nome do estádio, para cobrar 40 milhões, o PS vai mudar o nome do Palácio de Belém. Deixa de ser palácio e passa a Asilo. Mantém-se o Belém. Não me perguntem. Não sei porque será...
Sempre desconfiado, Cavaco foi, pela manhã, saber de Sampaio quem é que quer, afinal, emparedar um ancião no asilo belenense? Deve ter saído sem resposta. Depois, à tarde, e à tarde porque, como dizia uma vizinha, bem alinhavada, mais vale à tarde que nunca, Mário Soares preparou-se para ir ouvir o Presidente, pelo caminho atropelou um poeta, malhas que o império tece.
O que ouviu ninguém sabe, ninguém viu, como dizia a cantiga. À saída disse que não falava. E disse que não falava como quem dissesse tudo. Era só querer perceber... que em Outubro, se lá chegar, vai ser uma festa!
Outra cantiga reza que Outubro não tem rival e é preciso que se diga que o Abril em Portugal não é mais que uma cantiga, o que não deixa curioso, para ouvir em período eleitoral! A letra da cantiga é posterior ao outro Abril, não tinha carga, não era contestatária, mas dá jeito, para brincar com coisas sérias...

segunda-feira, agosto 01, 2005

FALIR POR FALIR

Por se escrever o que se escreve ou por não ser o que se deve ou por outra montanha de razões um jornal pode acabar. Um poeta disse que «O Século» não podia acabar. Os poetas são como os
aprendizes de presidências, não sabem nada de jornais. «A Capital» fechou. «O comércio do Porto» encerrou a porta. Foi morte anunciada. E não foi por causa de ou por causa do. Tão natural como a sede do anúncio. Os jornais, tal como se liam no passado, já não sobrevivem, entre nós. Os jornais, hoje em dia, não se dão ao respeito e, por isso, ninguém os respeita.
Hoje comprei o DN, para ler a notícia da morte de Guerra Junqueiro. Por acaso o diário não trazia o resultado do Guimarães-Benfica, nem do Sporting-Setubal, jogados à hora de fecho da edição, que é quando as galinhas se deitam.
Dantes, mesmo que as galinhas teimassem no sono precoce, a Censura fechava às três da manhã, e só depois as últimas páginas, entre as quais a primeira, desciam às oficinas. Dantes...
Hoje, não. Hoje os jornais têm de sair cedo das rotativas, porque a distribuidora quer os jornais cedo e tanto lhe faz que sejam de hoje como de ontem.
Talvez valha a pena situar este «ontem» no antes de haver televisão. Antes disso havia em Lisboa o «DN», «O Século» e o «Diário da Manha» (pelo menos nós chamavamos lhe assim) orgão oficioso oficial do governo de então, que ao contrário de outros que não interessa agora referir, mandava que se fartava. Havia mais uns jornalitos dispersos, sem impacte e de importância relativa. E havia, claro os vespertinos, a saber: «Diário Popular», «Diário de Lisboa»
e o «República», todos perfeitamente implantados, embora um deles tivesse que ser lido quase às escondidas. «A Capital» viria depois, já com a Televisão, mas sem força informativa, mas já a
interferir nos hábitos e costumes, como se vai ver.
E houve outro jornal que irrompeu a meio do dia, digamos assim. Saía à hora do almoço um tanto para evitar confrontos. Não teve grande sucesso, apesar do tom populista. Cada jornal diário dispunha de oficinas e distruição próprias. A excepção eram os jornais desportivos. «A Bola» se bem me lembro imprimia no «Século», o «Mundo Desportivo» era, penso eu, propriedade do «DN», e o «Record», posterior aos outros, nem faço ideia onde. Os desportivos vendiam~se tão bem que nem precisavam de pub.
Havia mercado. E foi havendo até a Televisão se intrometer no dia a dia dos cidadãos. A vida alterava-se. Primeiro foram os cafés, que viraram bancos; depois os cinemas a ficar às moscas e,
finalmente os jornais a perder pedalada. Os semanários em formato de jornal também foram perdendo mercado. As tiragens baixaram até não haver margem de sobrevivência. Restam uns quantos, como o «Expresso», que vendeu a alma ao diabo e enche páginas de perfídia e de especulação especulativa e sem réstea de vergonha, amparado pelo tráfico de influências, que controla o grosso da pub.
E os diários desaparecem não por serem bons ou maus, mas porque não interessam ou não são
de fiar. O capital da «Capital não era ser vespertino ou matutino; ele saltou da tarde para de manhã para tentar sobreviver. Em Lisboa e no resto do país nenhum jornal da tarde sobreviveu. O hábito de ler no comboio ou no barco e outros transportes domésticos perdeu-se um pouco, por falta de condições e excesso de confusão e já não há cafés, como havia, nem gente para os encher, a facilitar e convidar a ler pasquins ao fim da tarde, nem tertúlias.
Hoje para sobreviver, um jornal necessita de algumas especificidade, que desperte interesse ou curiosidade.
Os próximos jornais a ir a baixo vão ser, decerto, os desportivos, se entretanto não arrepiarem caminho. A intriga e compadrios começa por vender, mas acaba sempre por gerar descrédito. O major e o sr. Pinto não quiseram nem precisaram de provar inocência, de inocentes que são. A Federação Portuguesa da bola esteve e está-se nas tintas e a Liga ainda menos ou mais pior. Cada vez há menos gente a ir à bola e demasiada bola pela televisão já chateia. Nisto, como nos demais assuntos, é o jornal que acaba por pagar a crise.
De momento, andar nas vidas é o que está a dar e estimula jornalecos e revistas ditas cor de rosa. A virtude já foi, não vende, não rende. Agachem-se criaturas, agachem-se, se querem vender papel...

domingo, julho 31, 2005

Outro fim anunciado

A Guiné Bissau encontrou, de acordo com as chamadas regras da democracia, um novo presidente. Um novo/velho presidente. Um novo/incompetente presidente. De facto, Nino Vieira só teve jeito para as armas e para as mulheres - louve-se porque muitos homens houve ao cimo da terra que nem para uma nem para a outra coisa tiveram jeito. E, mesmo com Nino, relativamente às mulheres, a gente só sabia que ele tinha muitas e as abandonava , com filhos e tudo por outras, a quem mandava comprar vestidos a Lisboa, a Paris e coisas assim.
Pois bem, Nino Vieira voltou à presidência da República da Guiné Bissau. E o que é que Nino vai fazer desta vez?
Eu sei: vai negociar com Conackry.
Quem perdeu as eleições de Bissau foi o Senegal.
Aqui pode começar o fim da actual geografia política africana.
Porquê?
Basta estudar e a resposta é clara. Houve já quem escrevesse este fim há mais de vinte anos.

O FIM

" A Capital" anunciou ontem, o fim de " A Capital". Se não fosse trágico pareceria patético. O Appio Sottomayor, um nome cheio de bigodes, conta a estória do jornal e passa ao de leve sobre as manobras do seu amigo Pinto Balsemão - responsável, afinal pelo fim deste jornal, um fim várias vezes anunciado e só agora concretizado.
Concretizado por falta de visão. É muito simpático ser português, mas às vezes é desesperante. Porquê tanta asneira?
" A Capital" ficou sózinha num mercado espantoso- o da imprensa vespertina. E, em vez de aproveitar esse facto, antecipando-se aos jornais matuttinos, fez todos os esforços par se incorporar no grande grupo dos jornais da manhã
Nem quando a mão de obra ficou barata - graças ao cavaquismo que permitiu a aberura de cursos de jornalismo em tudo quanto era universidade - a gente de " A Capital" percebeu que, trabalhando de madrugada poderia sair ao fimda tarde com um jornal que anteciparia, do ponto de vista noticioso todos os matutinos da manhã seguinte.
Não. o Pinto Balsemão, a quem apenas interessou o património do Bairro Alto ( no mesmo dia em que venceu o prazo determinado no contrato de venda do título passou para o seu nome o prédio do Bairro Alto) ; o Sarabando (lacaio do Balsemão), a Helena Sanches Osório ( com uma mão livre imcompreensível), O Matos não sei quê, os espanhóis de Badajoz, o Luís Osório, todos eles só pensaram em fazer um jornal igual a todos os outros . Ninguém pensou, nenhum deles percebeu que era na diferença que estava a vantagem.
Seja como for. Este jornal morreu. Como diz o Appio pode ser que não haja duas sem três, mas está morto. E, nesta morte, pessoalmente, presto homenagem ao homem - que não conheço e não quero conhecer - que deu o nome para o fim : Paulo Narigão Reis, director interino.
Que é feito do Luís Osório, tão impante, tão cheio de si? Fugiu? acho que sim.

BRINCAR COM A MORTE

Deve evitar-se porque geralmente é fatal. Um cidadão português, residente em Londres, denunciou à polícia
londrina a identidade e morada de um dos suspeitos de envolvimento num atentado terrorista e contribuiu para a sua detenção pelas autoridades. Não se tratou de denunciar um suspeito de pilhar galináceos ou riscar carros mal estacionados. Mas identificar alguém como presumível terrorista.
Por isso me surpreendi ao ver o referido português exibido no telejornal da SIC (e não sei se em mais outros canais) como heroi de telenovela. Apetece denunciar este atentado a uma alta autoridade qualquer, para que a Justiça, seja isso o que for, acuse (e condene) os autores da façanha, que consistiu em expôr um cidadão identificado à ira impiedosa do terrorismo.
Oferecer um alvo a fanáticos deve constituir alguma forma de crime, pelo menos revela total falta de respeito pela vida humana.
É de crer que não tenha sido a Polícia a revelar a identidade do cidadão que colaborou com as autoridades, até pode ter acontecido que tenha sido o pateta a dar a cara, mas é óbvio que as imagens não deviam ter sido projectadas.
Há regras e princípios de bom senso. Os cinco suspeitos detidos não serão decerto os únicos, nem os últimos fanáticos. A própria Polícia deveria ter advertido o cidadão zeloso a guardar alguma prudente reserva. Até aqui os atentados terroristas não têm tido alvos humanos definidos, não convirá muito arranjar pretextos para acções selectivas.
O jornalismo cada vez mais precisa de ser responsável. O jornalista que se recusa a revelar as fontes, por princípio, não deve andar por aí a revelar as dos outros, colocando pessoas em risco de vida, ou de morte. Até porque se uma história destas dá para o azar, pode muito bem cair um processo sobre o orgão de comunicação social e pior do isso pôr-se em causa a liberdade de informar...

sábado, julho 30, 2005

AMANHÃ JÁ FOI

O Cinema terá alguma culpa, mas as aventuras de passear no tempo tornaram-se vulgares. E nos romances históricos o passado parece passado, mas a folhear jornais, se for possível, é uma festa. Hoje entretive-me a a dobrar páginas de jornais dispersos e dei nos "assumptos do dia"com a visita do rei de Hespanha anunciada para hoje, mas no jornal diz que é quinta-feira, adiantada, não por ser ontem, mas por se referir a um 10 de Dezembro, mas de 1903. No jornal de hoje volto a ler sobre a visita real, mas o rei é outro e a Espanha já não leva agá. Retive, na visita de ontem, que Sua Magestade a rainha era bem elegante, mas o seu magestoso marido tinha direito a foto muito maior e Rei grafado com maiúscula, D. AffonsoXIII...
De súbito é sabado, 11 de Março, corria o ano de 1916. Em França os alemães não avançavam
uma polegada e chegaram em alguns casos a ser repelidos, mas um contra-torpedeiro e um torpedeiro ingleses foram afundados, tal como um navio francês de 4 mastros, igualmente afundado.
Acelero e, num instante é Outubro de 1921, mas é como se fosse Abril. O governo do sr. dr. António Granjo é derrubado por um movimento de tropas revolucionárias, que tomam conta da capital sem ter encontrado resistência.
O movimento insurreccional teve início no Quartel dos Marinheiros, sob comando de alguns oficiais de menor patente. A Junta Revolucionária faz logo saber que: "a situação dolorosa do país reclama do nosso patriotismo o dever, mais do que todos generoso e instante de impôr um GOVERNO DE SALVAÇÃO PÚBLICA"...
Quem assumiu em andamento o movimento libertador foi o sr. coronel Manuel Maria C. -deixem-me ler bem - Coelho, é isso, Coelho, sim senhor. Não se falou no jornal da mulher dele, nem de eventual herdeiro. O governo caiu e o sr. dr. António José de Almeida resignou o cargo de Presidente da República. Os chefes revolucionários procuravam demover S.Exa., desse propósito, quando eu me disse que já tinha visto o filme e desandei. Ainda tentei apanhar um
transporte para Maio de 26, mas ainda não havia. Só lá para terça-feira ou coisa assim é que deve haver lugar...
E regresso ao presente. O Comércio do Porto vai fechar e nem é por mór do Bulhão. "A Capital" também. Soares vai voltar e o PS já está a descer e Nino, esse, recupera. Mas que raio de presente é isto?
E dou-me conta que o passado se parece tanto com o presente porque, no presente, andamos todos a andar para trás...

sexta-feira, julho 29, 2005

O Meu Mundo

Deixei de ver televisão. De ler jornais. Ouço a antiga Luna e CD's, no carro ou na aparelhagem em casa. Tenho na cabeça o horário das crónicas do Fernando Alves. Se estou acordado, ouço. Se não, procuro, depois, na NET, pedindo a Deus que aquela geringonça funcione. Deve trabalhar com pouca gente e a recibos verdes, à moda da Lusomundo, isto é da PT.
Apesar de tudo não posso deixar de me arrepiar com as notícias que pressinto sobre os incêndios, ano após ano. Faz lembrar uma das sete pragas do Egipto a desabar sobre as nossas cabeças. Uma praga noticiada com foros de bravura, heroísmo e outras coisas semelhantes.
Os jornais vendem com fotografias espectaculares de incêncios, as televisões não podem gastar dinheiro noutro tipo de investigação e as rádios aproveitam os correspondentes locais, pagos a títulos de refeição para umas tiradas mais ou menos dramáticas sobre as chamas que " quase atingiram a habitação de uma pobre senhora velha e tetraplégica".
A merda dos jornalistas que hoje temos ainda não percebeu que por cada incêncio combatido por não seis quantos homens e viaturas, mais uns tantos helicópteros pesados e aviões canadairs, custam um pipão de massa e dão origem a um negócio.
Sabem qual é um dos negócios mais rentáveis da Lusomundo? é o da venda de pipocas. São não sei quantas toneladas de milho vendidas por ano, mais umas quantas de açucar.
Os jornalistas que a merda deste país hoje tem ainda não conseguiram investigar o reoordenamento da propriedade, que passou do minifúndio para o latifúndio na zonas ardidas até há dez anos.
Os homens dos microfones, da caneta e das câmaras ainda não conseguiram explicar por que razão nessas zonas impera o eucalipto e lá não há incêncios. Não conseguiram, sequer, explicar as razões por que esses eucaliptais estão limpos elivresde incêncios, com vigiância aturada.
Um dia destes, não se esqueçam de vir escrever, gritar e filmar que " o que é bom para o país é o eucalipto".
Já agora, juntem-se aos militantes das várias organizações ambientalistas e que, de uma maneira geral, são pagos a peso razoável, como consultores das empresas detentoras da nova propriedade florestal de Portugal.
Peço desculpa! Esqueci-me que tinha abandonado este estilo! Mas, um homem não é de ferro! E o Meu Mundo parece querer cair-me em cima da cabeça

URBANO

É um saloio citadino. No antigamente quase todos nós tinhamos rótulos. Quando ainda não havia máquinas de lavar roupa em profusão havia as lavadeiras de Caneças, que lavavam a roupinha no rio e a botavam a corar ao Sol. A Beatriz Costa é que sabia contar isso bem. Sou do tempo em que muito boa gente ia a balneários lavar-se, as casas de banho eram como os Mercedes Benz, só para alguns, os outros andavam de balneário.
E, ontem, creio eu, ouvi uma ministra falar de medidas, pelo menos disse coisas desmedidas, tais como pode pagar-se o carregamento do passe nos colectivos, no Multibanco ou coisa do género. Veem? Não há como ser urbano. Nenhum dos rapazes repórteres se lembrou de aproveitar para perguntar à senhora por que carga de água um sujeito (ou sujeita) tem de pagar tanta massa pelo dito passe - e não estou a falar da mensalidade, estou a referir o preço da Lisboa-viva. Essa malta dos jornais, que perde tanto tempo a falar de direitos adquiridos e por adquirir, quando quer servir-se do «metro» ou de machimbombos sujeita-se a tudo, para poupar algum. Mas o cartãozinho é caro e tem validade curta. Não faz mal, depois compra outro. Mas não é só ter direito a pagar adiantado um serviço que muito deixa a desejar. É que para obter o cartãozinho,
tem de preencher um formulário, botar o nome, o nº do BI, a idade, a profissão, o telefone, a morada, a frequência de visitas que efectua à vizinha ou à irmã dela, esta parte parece que está a mais...
Mas que direito, senhora ministra e senhores ministros e senhores juizes prestes a ir de férias, mas que direito, ia dizendo, têm as transportadoras de ter acesso, com caracter obrigatório, aos dados pessoais de cada um de nós? A que propósito lhes é facultado, de borla, o que se chama uma base de dados e qual a finalidade? Como é que o governo (os governos presentes e próximos passados) autorizam essa devassa e que uso fazem dela?
Nada disto é explicado. Nada disto é justificado. Apesar disto ser abusivo, ilegal e possivelmete criminoso.
Como o governo (os governos) é distraído posso lembrar que nada disto é prática corrente nos países civilizados, perdão, queria dizer europeus e similares, à excepção deste pedaço, a Oeste da Europa e juntinho ao oceano.E para não ir mais longe, não é assim em Madrid; não é assim em Paris e nem sei onde é que possa ser.
E ocorre-me uma velha estória, do tempo das lavadeiras de Caneças e das saloias da Malveira.
- Onde é que o senhor mora?
- Moro com o meu irmão...
- Bom! E onde é que mora o seu irmão?
- Mora comigo...
- Gaita!!! Onde é que vocês moram, os dois!?
- Moramos juntos...
Num tribunal, os manos até podiam ser absolvidos. Em Lisboa não terão direito ao Lisboa-viva...

quarta-feira, julho 27, 2005

As Mães

Todos os anos há um "Dia da Mãe". Transferiu-se do mês de Dezembro para o de Maio. Porquê? Porque o mês de Dezembro já era um tempo movimentado do ponto de vista comercial e Maio não tinha nada de importante. Depois do Carnaval e antes do Verão, não havia nada muito comercial. Juntou-se a importação do "Dia dos Namorados ", em Fevereiro, ao "Dia das Mães", acho que aí pelo fim de Maio.
Há os que já a não têm e não conseguem deixar de fazer de todos os dias "o dia da Mãe". Há os que tendo-a, se esquecem dela todos os dias , mesmo no tal "dia da Mãe".
E, finalmente há os que sem o perceber se transformam eles próprios no "Dia da Mãe". Estão ali, parados, escutando, receando as palavras, as estórias, as luas novas.
Hoje, que não é dia de coisa nenhuma, lembrei-me de um dia desses, um dia repetido em cada 24 horas, uma vida gasta, trocada com gosto, com amor, dedicação. Feliz e especial deveria ser a Mãe com um dia assim! Se o soubesse...concerteza o seria.

ALCATRUZES

Na fonte luminosa o idealismo de Mário Soares revelou o democrata que não aceitava ver substituida a deposta ditadura salazarenga por outra ditadura de esquerda.
Como primeiro ministro saído da Alameda, Soares meteu o idealismo na gaveta e empreendeu
uma longa e complicada carreira política, aos zigue-zagues, uma vezes mais à esquerda, outras mais à direita - e direita, nesse tempo, chamava-se centro, como muito bem explicaria Salgado Zenha.
É conveniente lembrar que os governos de Soares nunca foram um modelo de coerência, nem beneficiaram de maiorias estáveis. E do mesmo modo deve ser lembrado que o PS, de Mário Soares, perdeu duas eleições legislativas para Sá Carneiro, da AD. Como diria o meu vizinho, se fizesse comentários na televisão, o idealista lunático ganhou, o pragmático, perdeu.
Mas Mário Soares não era e não foi de desistir. E voltou a ganhar ao PSD, orfão de Sá Carneiro, e aceitou a tese de Eanes e foi liderar o Bloco Central, de má memória.
Com Eanes a travar politicamente os sonhos de Soares, o PS achou por bem avançar com Almeida Santos para as eleições seguintes. O PSD iria estrear Cavaco Silva e o próprio Eanes
aparecia mascarado de PRD.
O primeiro efeito da campanha foi a surpresa de um não de Direito. Até aí ou se era advogado ou militar. Cavaco era praticamente o primeiro político a não falar da Lei nem do Dever, mas sim da finanças e economia, sem baralhar as somas ou as subtrações!
Isso teve efeito e sentiu-se no Rato. Soares avançou e deu a cara, mas era manifestamente tarde. Cavaco começava a liderar um governo, apoiado em cerca de 30% dos deputados, no Parlamento. Uma boa (?) parte do PS encostava-se a Eanes contra Soares e isto ele não esqueceu nem perdoou nunca. Meteu-se à estrada e arrancou para as presidenciais com todo o ânimo, derrotando Freitas do Amaral, mas também deixou pelo caminho os «seus»Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintasilgo.
Sentado em Belém, surgiu nitidamente de mangas arregaçadas. Ajudou Cavaco a ganhar novo acto eleitoral, com maioria absoluta, deitando o PRD, de Eanes, para o lixo. Depois foi a vez de outros notáveis do PS, entre os quais Victor Constâncio, pagarem com língua de palmo, mas sempre no melhor dos mundos com o governo de Cavaco Silva.
Este ia de vento em popa, tão à-vontade que foi alargando as rédeas aos ministros, até aí bem comportados e contidos nas exclamações. E no termo da legislatura, Soares era dono e senhor do PSD. Tão dono e senhor que Cavaco nem deixou o partido indicar candidato. O que estava em Belém servia perfeitamente. Soares queria fazer campanha e convenceu um «inocente» Basílio Horta a fingir de candidato.
Reeleito, Soares olhou para Cavaco Silva e deve ter murmurado: agora tu, meu menino.
E foi. Inferneziou o governo e em particular o primeiro- ministro, frequentemente à beira de um ataque de nervos. Demoliu a fachada social-democrata e Cavaco só percebeu isso quando se viu derrotado por Jorge Sampaio.
É notório que o octagenário dr. Mário Soares não satisfaz o pleno dos socialistas, mas que outro pode chegar a Belém? E que poderá o poeta fazer, que não seja parodiar Camões: (...) Tu, que afinal não partiste/Repousa por Belém todo contente/ E viva eu no Rato, sempre triste...

terça-feira, julho 26, 2005

IDA E VOLTA

Não é o mesmo que ir e voltar, quer dizer, tem outro sentido. Tem tanto de OTA como de TGV.
Depois do governo tirar os projectos da cartola, não tardaram os que só viam batota. Depois veio a verdade, mas nem por estar calor ela veio despida, veio simplesmente mascarada. E claro, também fora de tempo. A doze anos de vista. Noutro tempo, por acaso de crise, o comércio
lutava apoiado na paciência de fornecedores. As letras iam-se distanciando e não tardou a ir-se para lá dos 90 dias, desdobráveis e reformáveis. Um dos vendedores conformados costumava dizer, após venda: «e letras a perder de vista!»
Na actual conjuntura é precipitado imaginar hoje um aeroporto ou um comboio de alta velocidade para daqui a dez/doze anos. Não se trata de ser um bom projecto ou mau. Antes de se avançar para projectos dessa dimensão temporal, há antes de mais de arrumar a loja. E arrumar a casa implica conhecer a rota da guerra suja. A tendência, a partir de amanhã, será a de amainar ou, pelo contrário, alastrar?
É certo que depois do atentado às torres gémeas, a aviação comercial apertou as malhas de segurança, mesmo assim, seguiu-se um período de recessão. O ataque recente a uma estância de veraneio no Egipto abre alguma expectativa na actividade turística. Sem turismo a aviação comercial perde pujança. Mesmo de TGV não se pode ir muito depressa para o México, ou no nosso caso, mais para os lados da Baía. E como já reconheceu muito boa gente o TGV só para ir ao Porto, não resolve nem acrescenta. Isto para não colocar em causa a própria segurança dos comboios de alta velocidade. E lembro, a propósito, a Espanha e a Expo de Sevilha. Estendeu-se a via férrea para o comboio veloz, mas os condicionalismo recomendaram alguma contensão e nada de altas correrias. Pelo menos uma tentativa de sabotagem foi abortada a tempo. Mas, e agora ao contrário, era outro tempo. Ainda Bush não bugia, Bin Laden estava placidamente e realojar a população do Afeganistão na Idade Média e o terrorismo em Espanha tinha uma componente caseira. Mesmo assim, optou-se pela prudência.
O País não pode parar, não deve parar, nem passar o tempo a olhar para o lado. Pode e até pode acreditar que deve, avançar com a OTA. Mas pode igualmente ser mais comedido. Imaginar na OTA uma componente do aeroporto de Lisboa, com boas pistas e instalações tipo leggo, pré-fabricadas, imitando o Marquês, que inventou o sistema para as janelas e portas do prédios da baixa pombalina. Qualquer coisa de limpinho, que poderá aumentar-se, alterar-se ou modificar-se com o andar da carruagem, deixando a Portela, aliviada e sem necessidade de mais dispêndios.
E, bem entendido, nada impede que paulatinamente não se vão estudando os futuros trajectos de vias férreas, designadamente uma ligação ferroviária à OTA, que se prolongue para lá dela, para quem chegue não tenha forçosamente de vir a Lisboa. Ele há coisas que se podem fazer ou ir fazendo. Parado não se resolve, mas andar com os pés assentes, olhando com atenção para os lados de onde soprar o vento.
Não faço ideia se será legítimo perder tempo a discutir o comboio veloz ou os aeroportos do futuro e do presente, enquanto se choram as vítimas do terrorismo, incluindo o brasileiro, afinal tão infeliz como os outros infelizes, mas já que citei o Marquês, acho que alguém (alguns) já devia ter dito como ele: «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos».
Este ano, se for de férias, não irei além de Fornos de Algodres ou Freixo de Espada à Cinta, se entretanto a coragem não me faltar...

Jamila

Tem três anos, não a conheço, mas, segundo a mãe adoptiva de há três meses é um espanto. Fala que se desenunha e gasta a palavra mãe, que nunca tinha pronunciado. Adivinho-lhe a felicidade e compartilho-a com ela e com a mãe. Que, por sua vez, se sente muito confortável no seu novo papel - uma resposta a um pedido feito em 1998. Há uma vida!

Que conta? Cai-lhe, agora, que quase já passou uma vida, outra vida para viver, a da Jamila, filha de pais guineenses e a quem se propõe integrar no Mundo com todas as suas valências.

Bem Vinda, Jamila!