quarta-feira, julho 27, 2005

ALCATRUZES

Na fonte luminosa o idealismo de Mário Soares revelou o democrata que não aceitava ver substituida a deposta ditadura salazarenga por outra ditadura de esquerda.
Como primeiro ministro saído da Alameda, Soares meteu o idealismo na gaveta e empreendeu
uma longa e complicada carreira política, aos zigue-zagues, uma vezes mais à esquerda, outras mais à direita - e direita, nesse tempo, chamava-se centro, como muito bem explicaria Salgado Zenha.
É conveniente lembrar que os governos de Soares nunca foram um modelo de coerência, nem beneficiaram de maiorias estáveis. E do mesmo modo deve ser lembrado que o PS, de Mário Soares, perdeu duas eleições legislativas para Sá Carneiro, da AD. Como diria o meu vizinho, se fizesse comentários na televisão, o idealista lunático ganhou, o pragmático, perdeu.
Mas Mário Soares não era e não foi de desistir. E voltou a ganhar ao PSD, orfão de Sá Carneiro, e aceitou a tese de Eanes e foi liderar o Bloco Central, de má memória.
Com Eanes a travar politicamente os sonhos de Soares, o PS achou por bem avançar com Almeida Santos para as eleições seguintes. O PSD iria estrear Cavaco Silva e o próprio Eanes
aparecia mascarado de PRD.
O primeiro efeito da campanha foi a surpresa de um não de Direito. Até aí ou se era advogado ou militar. Cavaco era praticamente o primeiro político a não falar da Lei nem do Dever, mas sim da finanças e economia, sem baralhar as somas ou as subtrações!
Isso teve efeito e sentiu-se no Rato. Soares avançou e deu a cara, mas era manifestamente tarde. Cavaco começava a liderar um governo, apoiado em cerca de 30% dos deputados, no Parlamento. Uma boa (?) parte do PS encostava-se a Eanes contra Soares e isto ele não esqueceu nem perdoou nunca. Meteu-se à estrada e arrancou para as presidenciais com todo o ânimo, derrotando Freitas do Amaral, mas também deixou pelo caminho os «seus»Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintasilgo.
Sentado em Belém, surgiu nitidamente de mangas arregaçadas. Ajudou Cavaco a ganhar novo acto eleitoral, com maioria absoluta, deitando o PRD, de Eanes, para o lixo. Depois foi a vez de outros notáveis do PS, entre os quais Victor Constâncio, pagarem com língua de palmo, mas sempre no melhor dos mundos com o governo de Cavaco Silva.
Este ia de vento em popa, tão à-vontade que foi alargando as rédeas aos ministros, até aí bem comportados e contidos nas exclamações. E no termo da legislatura, Soares era dono e senhor do PSD. Tão dono e senhor que Cavaco nem deixou o partido indicar candidato. O que estava em Belém servia perfeitamente. Soares queria fazer campanha e convenceu um «inocente» Basílio Horta a fingir de candidato.
Reeleito, Soares olhou para Cavaco Silva e deve ter murmurado: agora tu, meu menino.
E foi. Inferneziou o governo e em particular o primeiro- ministro, frequentemente à beira de um ataque de nervos. Demoliu a fachada social-democrata e Cavaco só percebeu isso quando se viu derrotado por Jorge Sampaio.
É notório que o octagenário dr. Mário Soares não satisfaz o pleno dos socialistas, mas que outro pode chegar a Belém? E que poderá o poeta fazer, que não seja parodiar Camões: (...) Tu, que afinal não partiste/Repousa por Belém todo contente/ E viva eu no Rato, sempre triste...

terça-feira, julho 26, 2005

IDA E VOLTA

Não é o mesmo que ir e voltar, quer dizer, tem outro sentido. Tem tanto de OTA como de TGV.
Depois do governo tirar os projectos da cartola, não tardaram os que só viam batota. Depois veio a verdade, mas nem por estar calor ela veio despida, veio simplesmente mascarada. E claro, também fora de tempo. A doze anos de vista. Noutro tempo, por acaso de crise, o comércio
lutava apoiado na paciência de fornecedores. As letras iam-se distanciando e não tardou a ir-se para lá dos 90 dias, desdobráveis e reformáveis. Um dos vendedores conformados costumava dizer, após venda: «e letras a perder de vista!»
Na actual conjuntura é precipitado imaginar hoje um aeroporto ou um comboio de alta velocidade para daqui a dez/doze anos. Não se trata de ser um bom projecto ou mau. Antes de se avançar para projectos dessa dimensão temporal, há antes de mais de arrumar a loja. E arrumar a casa implica conhecer a rota da guerra suja. A tendência, a partir de amanhã, será a de amainar ou, pelo contrário, alastrar?
É certo que depois do atentado às torres gémeas, a aviação comercial apertou as malhas de segurança, mesmo assim, seguiu-se um período de recessão. O ataque recente a uma estância de veraneio no Egipto abre alguma expectativa na actividade turística. Sem turismo a aviação comercial perde pujança. Mesmo de TGV não se pode ir muito depressa para o México, ou no nosso caso, mais para os lados da Baía. E como já reconheceu muito boa gente o TGV só para ir ao Porto, não resolve nem acrescenta. Isto para não colocar em causa a própria segurança dos comboios de alta velocidade. E lembro, a propósito, a Espanha e a Expo de Sevilha. Estendeu-se a via férrea para o comboio veloz, mas os condicionalismo recomendaram alguma contensão e nada de altas correrias. Pelo menos uma tentativa de sabotagem foi abortada a tempo. Mas, e agora ao contrário, era outro tempo. Ainda Bush não bugia, Bin Laden estava placidamente e realojar a população do Afeganistão na Idade Média e o terrorismo em Espanha tinha uma componente caseira. Mesmo assim, optou-se pela prudência.
O País não pode parar, não deve parar, nem passar o tempo a olhar para o lado. Pode e até pode acreditar que deve, avançar com a OTA. Mas pode igualmente ser mais comedido. Imaginar na OTA uma componente do aeroporto de Lisboa, com boas pistas e instalações tipo leggo, pré-fabricadas, imitando o Marquês, que inventou o sistema para as janelas e portas do prédios da baixa pombalina. Qualquer coisa de limpinho, que poderá aumentar-se, alterar-se ou modificar-se com o andar da carruagem, deixando a Portela, aliviada e sem necessidade de mais dispêndios.
E, bem entendido, nada impede que paulatinamente não se vão estudando os futuros trajectos de vias férreas, designadamente uma ligação ferroviária à OTA, que se prolongue para lá dela, para quem chegue não tenha forçosamente de vir a Lisboa. Ele há coisas que se podem fazer ou ir fazendo. Parado não se resolve, mas andar com os pés assentes, olhando com atenção para os lados de onde soprar o vento.
Não faço ideia se será legítimo perder tempo a discutir o comboio veloz ou os aeroportos do futuro e do presente, enquanto se choram as vítimas do terrorismo, incluindo o brasileiro, afinal tão infeliz como os outros infelizes, mas já que citei o Marquês, acho que alguém (alguns) já devia ter dito como ele: «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos».
Este ano, se for de férias, não irei além de Fornos de Algodres ou Freixo de Espada à Cinta, se entretanto a coragem não me faltar...

Jamila

Tem três anos, não a conheço, mas, segundo a mãe adoptiva de há três meses é um espanto. Fala que se desenunha e gasta a palavra mãe, que nunca tinha pronunciado. Adivinho-lhe a felicidade e compartilho-a com ela e com a mãe. Que, por sua vez, se sente muito confortável no seu novo papel - uma resposta a um pedido feito em 1998. Há uma vida!

Que conta? Cai-lhe, agora, que quase já passou uma vida, outra vida para viver, a da Jamila, filha de pais guineenses e a quem se propõe integrar no Mundo com todas as suas valências.

Bem Vinda, Jamila!

segunda-feira, julho 25, 2005

A MEDIOCRIDADE GENERALIZADA

É o grande mal do mundo, do homem, da vida: a mediocridade. Chega a atingir, quiçá ultrapassar, os limites do inatingível. Não se trata apenas de mera deficiência situada perto da estupidez. Ela é activa e insatisfeita, contagia e baralha, é o caos da inteligência. Convencida de ser o supra-sumo da mesma.
E por ser mal globalizado, tropeça-se nela tanto num parlamento como na praia, tanto a ministrar ciência numa universidade como a comandar exércitos de patriotas a tremer de medo.
Mas não é a essência da pessoa humana. Aparece em todo o lado porque ao homem é dada para viver uma vida mediocrizada. Causa preocupação, porém, pensar-se que é a partir desse caldo de insuficiência que nascerão muitos dos homens de amanhã. O tão desejado homem - novo ninguém sabe o que será, tal como ninguém sabe o que será o futuro deus-novo que esse homem construirá.
Nadamos, portanto na ignorância, de arma na mão a matar inocências: a gente atónita que vive sem saber para quê e morre matada sem saber porquê. No meio da mediocridade que pula e avança como bola colorida nas mãos da abastança.

Marques Mendes

O, hoje, irriquieto periquito do PSD enganou muita gente, e a si também. Não se percebeu que muito do prestígio que conseguiu juntar se deveu ao uso, que pareceria inteligente, do silêncio. Metido no meio de uma salgalhada de araras, a sua meia dúzia de centímetros, de aspecto pensante, quando abria o bico emitia o som da ponderação, da palavra com alguma medida.
Puro engano, a parcimónia no verbo talvez se devesse a falta de banco para chegar ao microfone, ou à ocupação de todo o espaço sonoro por parte das araras. Contudo, chegado a presidente das pássaras, nunca mais se calou. E como tem pouco a dizer, por não saber que dizer, repete, repete-se, repete as araras. Começou log a exigir, talvez nem um mês depois de o governo tomar posse - reformas estruturais, reestruturação da Administração Pública e tarefas daquelas de dar graças a Deus se dentro em poucos anos estiverem acabadas.
Depois virou-se para as araras socialistas, de quem copiou o que elas andaram a dizer, durante seis anos, do governoBarroso/Manuela/M.Mendes. E anda agora pela intriga política a fingir que faz política.
Elevou-se assim, em escassos meses, a exemplo acabado de mediocridade confortavelmente instalada. Em todos os centímetros cúbicos do seu escasso volume.

Tony Blair

Blair, na sua ambição de marcar pessoalmente a história, deu a entender com muita frequência que desempenhava um papel importante ao lado de Bush porque era um elemento moderador da gana imperialista de G.W.B.. Mas por palavras travessas, propósitos sugeridos apenas.
Afinal quem travou o presidente dos Estados Unidos foi a realidade. Mostrou-lhe, no concreto, que o seu país não conseguia suportar, sozinho, duas guerras. Como se gabava.
E pô-lo em aflição, mesmo ajudado, só numa. Afeganistão e Iraque estão como estão e Bush, quando se vir, se se vir, livre delas bem pode agradecer o favor ao seu deus privativo.
De certeza que perdeu a vontade se se meter noutra.
Em consequência do que, ao fim e ao cabo, Blair, em vez de se assumir como agente de moderação acabou num vulgar político de copiação. Copiou de Bush as vontades, de olho no aproveitar-se delas, e , agora, já lhe leva as palavras.
Quando, há dias, convocou o mundo para a luta contra a "ideologia do mal" não fez mais que utilizar a divisão da política e dos políticos em dois eixos: o do bem e o do mal, da autoria do chefe da Casa Branca. Pelo menos divulgados por ele.
E copiou tão bem copiado que não conceptualizou. Palavras à toa, lançadas para produzirem efeito sem dizerem nada. O que é isso de "ideologia do mal"? Quais são elas?
A que pôs bombas em Londres ou a que pôs Bagdad a arder?
Isso do bem e do mal, na boca dos políticos, é fala como a dos vendedores de banha da cobra. Que Bagdad e Londres, salvaguardada a distância entre uma enorme desgraça e uma pequena tragédia, foram obra da cobra - ninguém duvida. Por bem ninguém mata indiscriminadamente. Mas isso são coisas fáceis de explicar - desde que se fale em língua de pessoa, o que não acontece com as cobras nem com a mediocridade, política.
As cobras silvam e a mediocridade esmera-se na arte de fugir à verdade. Ou, se se quiser, na capacidade de silvar mentiras.

Feytor Pinto
É um senhor padre simpático. Talvez também do clube do padre Melícias e tudo. Além de simpático julgo-o de cultura avançada, prelados para quem o tempo de Copérnico e da sua mania de que a Terra não era o centro do universo já lá vai. Até o tempo do criacionismo, o tempo da vida ser criada e não matéria evoluindo, também lá vai.
Agora a ciência já fala, abertamente, na´"árvore da vida", na origem comum de tudo o que vive. E os padres cultos não podem, pelo menos não devem, ser indiferentes ao que a ciência diz.
Sem ninguém me ter encomendado o sermão, ouso avançar com a ideia de que, hoje, o grande problema da Igreja é o de descobrir, no espaço e no tempo, um sítio onde meter Deus na carruagem que carrega a vida há uma infinidade de milhões de anos. Daí que pense que os padres da minha simpatia não são alheios, porque cultos e modernos, à incerteza que a "árvore da vida" levanta. E à hipótese de o Deus que houver morar infinitos quilómetros para trás da Bíblia.
De morar lá longe e de não querer saber do uso de preservativos para nada, nem das outras coisas cá da macacada que somos nós.
Daí a enorme admiração face ao recente esclarecimento de Feytor Pinto acerca do preservativo.
"Preservativos só em situação limite", disse.
Até pareceu um político a falar sem se comprometer:nem-que-sim-mas-antes-pelo-contrário, ou talvez-mas-porém. Todavia, deixou uma enorme dúvida.
O que é isso de situações limite?
No sexo tudo são situações limite. Até porque o própprio sexo, o acto em si, é uma situação limite. O extremo do amor carnal.
Num documentário qualquer, várias moças norteamericanas, desinibidamente ao lado dos respectivos maridos, disseram de seus limites amorosos. E uma delas garantiu que, depois de uma boa sessão de sexo, o que queria era uma grande palmada no rabo. Funcionaria como uma cereja em cima do bolo, mas para ela era, disse, o ponto final. O extremo dos extremos.
Não parece que o preservativo seja útil nessa situação limite.
Segregação Jardínica

Um dos ramos do ramoso jardim de J.J., A declarou, em som para vir nos jornais, que os madeirenses também são segregados, marginalizados e mais coisas dessas - no continente!

Como filho de madeirense, confirmo.

Pelos meus oito anos, passeava eu de bóia pelo Oceano Atlântico, quando um sujeito, a quem chamavam o Semelha, me expropriou o objecto daquele meu consolo infantil.

- Não tem vergonha! O filho de um madeirense metido numa bóia. Suprema segregação. De troda a criançada a banhar-se transcontinentalmente no oceano, eu, por ser filho de madeirense, deveria ter sido, naquele momento, o único obrigado a beber litros de água até pôr o pé em terra.

Água salgada, se bem me lembro.

Segregação Nacional

Mas o tal ramo ramalhal jardínico tem, também, toda a razão num outro sentido: o político.

É que é evidente a segregação de se sujeitar a população da Madeira a um patronato do calibre de JJ,A.

A Ilha, a patriótica terra dos muitos patriotas de que fala a história, bem merecia mais respeito da democracia.

Quer dizer: dos democratas continentais que têm a obrigação, CONSTITUCIONAL, de fazer com que a democracia funcione em todo o Portugal. Também na Madeira, portanto.

Mas não fazem. Tiraram a bóia à Ilha e deixaram-na a boiar no meio do Atlântico como se uma criança que cometeu o crime de ser filha de madeirense.



sexta-feira, julho 22, 2005

HOJE HÁ ÍNCÊNDIOS

Não é preciso muita memória para recordar o ano passado, por esta altura. Ou o anterior a esse. Ou os outros mais para trás. Todos os anos é assim quando o tempo aquece, os sinos tocam a rebate. Os fogos aparecem aqui e ali, mais além ou acolá. O inferno das chamas alastra. É a desolação e por vezes o luto.
À falta de melhor começou a servir, também, para contestação política, para suspeitar de interesses suspeitos, das madeiras queimadas aos aviões de combate às chamas. Cada governo novo trazia mais meia dúzia de bombeiros, seis postos de vigilância e uma grande fé em novos aviões. Algumas cabeças tiveram de rolar, outras foram e vieram. E tudo continou como dantes.
Nenhum governo assume ou assumiu a responsabilidade de agora ou a irresponsabilidade do antes. À vez, a oposição acusa o poder, numa cadência de alcatruzes da nora.
Mas há, de facto tem havido, responsabilidade de quem governa, responsabilidade da administração pública, sobretudo por falta de combate eficaz às causas que provocam e alimentam os incêndios. E, curiosamente, agora que estamos à beira de eleições autárquicas, convirá lembrar o desleixo que as câmaras do país mostram pelo estado das matas e terrenos baldios dos seus concelhos.
Portugal não é um país agrícola. Será, quanto muito, um país com alguma agricultura e muita, muita terra praticamente ao abandono, autênticas lixeiras de combustão fácil.Por si mesmo, os pinhais ou eucaliptais já são uma espécie de risco, cuja exploração não envolve, como devia, cuidados adequados e obrigatórios, geridos quase como ao abandono e com a mesma margem de risco. As autarquias não ignoram esta realidade, mas têm dificuldade em combatê-la, tanto mais que o Estado não as força a agir.
Sabemos todos que nos outros países onde a lei é mais drástica e a responsabilidade mais distribuida, os incêndios não acabaram. Pois, não. Mas abrandaram. Por todo o lado há doidos
incendiários, mas, noutros lados, têm menos facilidades e, provavelmente, mais severa punição, o que também contribui para diminuir os atentados à Natureza. E temos ainda uma motivação extra para nos dispormos a ajudar a Natureza: debelamos a seca...

quinta-feira, julho 21, 2005

A noite

A noite desta cidade é reveladora: não tem nada a ver com o dia.
A diferença começa a cavar-se ao fim da tarde, quando jovens com o poder de compra necessário descem às Docas, por exemplo, e começam a puxar pelos decibéis das aparelhagens que todos os cafés e restaurantes da zona têm.
Fica no ar uma espécie de inferno que não casa com a tranquilidade que se descortina lá mais longe, no horizonte onde começa o mar.
O som aumenta com a noite e instala-se uma espécie de câmara de tortura onde gente alegre, bem disposta salta, dança e não fala.
Percebem-se as empatias pelos gestos, lê-se nos lábios o pedido de mais uma bebida e reconhece-se a solidão nos corpos que se mexem sem ritmo, sem sintonia.
À medida que a noite se vai aproximando da madrugada, há grupos que fogem à câmara das torturas e descobrem o gozo da conversa.
Quando o Sol nasce já ninguém se lembra da noite e tudo mergulha na crise do dia-a-dia.

quarta-feira, julho 20, 2005

LIBERDADE TINGIDA

Em que consiste, afinal, a liberdade de imprensa?
Sendo certo que como liberdade de imprensa se entende a de toda a Comunicação Social, a interrogação é alargada na mesma medida.
Subentende-se que sejam liberdades comuns e óbvias: expressar opinião, criticar as opiniões alheias, recusar limitações a estes princípios e denunciar as violações dos direitos de cidadania.
Não deixa, por isso, de ser curioso que o DN, de hoje, surja a relembrar acontecimentos do Verão de 75, que envolveram a rebelião dos tipógrafos do «República» e do envolvimento do PS, que acusou o PCP de assalto ao jornal.
Os factos descritos dão bem a imagem da situação confusa que se vivia nesses tempos acalorados e se, por um lado, deixam sobressair o dr. Mário Soares, por outro, a avaliar pela súmula, deixam algumas interrogações sobre a responsabilidade dos comunistas de Álvaro Cunhal e isso apesar do DN, ele próprio à época, estar sob tutela comunista e após a «lavagem» da redacção. Como também não se faz com clareza a revelação de que o vespertino, que foi um símbolo de resistência ao fascismo, era de facto e de modo claro pró-PS.
À distância, ainda hoje estou em crer, que ao acabar como acabou, o «República» salvou-se da desdita de se ver reduzido a orgão partidário.
Quem melhor emergiu de todo o processo foi o dr. Mário Soares. E a Esquerda começou aí a perder. O que perdeu a Esquerda não foi o ser de esquerda, mas o estar tão ferozmente dividida.
Soares deu ânimo aos silenciados à direita das esquerdas e foi assim que, de repente, PS engrossou de democratas, digamos assim. O «República» não voltou. A gestão do DN seria entregue ao PS, não se esqueçam! E a do «Século» ao PSD.
Mesmo com Manuel Alegre a afiançar que o «Século» não podia acabar, o jornal lisboeta encerrou. Mandava quem podia e quem podia mandar refugiava-se na legitimidade democrática.
Quando chegou a sua vez, Cavaco vendeu os jornais e as rádios e abriu as mãos à televisões privadas.
É este DN que também hoje levanta dúvidas sobre a estabilidade do partido no poder. Num texto de opinião, António Peres Metelo critica o ministro das Finanças, para insinuar algumas desavenças no seio do governo. Seja como for, é um texto de opinião. O mesmo não acontece com a chamada de primeira página para a entrevista com Freitas do Amaral, a inserir amanhã, muito mais terra a terra no desígnio de publicitar algum mau estar nos corredores do governo. De Luanda o ministro dos Negócios Estrangeiros considerou abusiva e vergonhosa a «habilidade» nas escolha de termos usados na entrevista, mas colocados fora do contexto.
Será que o matutino regressa ao envolvimento activo, não direi político, mas porventura económico?...

Casa de Doidos

A política em Portugal virou circo de casa de doidos. Na realidade, ninguém está interessado em nada. Jornais, jornalistas, empresários e políticos estão todos virados para o mesmo lado - o lado das televisões, que fazem uma guerra insuportável pelas audiências, a que se junta uma outra, a das rádios, pelo mesmo objectivo.
Uma entrevista do ministro dos negócios estrangeiros , que ainda não foi publicada!!!! deu um escarcéu!!! Meu Deus!
Mas, aqui para nós, que pouca gente nos lê: Freitas do Amaral também já tem idade e experiência para saber o efeito das palavras. Ou se juntou à casa de doidos ou quer alguma coisa.

terça-feira, julho 19, 2005

LER JORNAIS É SABER MAIS

Se as contas não me enganam deve ter sido a um sábado que ocorreu em Lisboa um violento atentado terrorista que vitimou o Rei de Portugal e o príncipe herdeiro, seu filho. O DN de sábado comentava o atentado da "véspera", com um título de três linhas, a toda a largura da primeira página.
Li sôfrego, mas aquilo não era notícia. Era um comentário desastroso e não revelava rigorosamente nada. A notícia era da véspera e na véspera os jornais da tarde tinham feito sucessivas edições. Na manhã seguinte o DN comentava na primeira página e remetia para o interior o relato dos acontecimentos. Fiquei pior que estragado e jurei não voltar a comprar o pasquim.
Nem percebi se o articulista era estúpido, vaidoso ou se estava a rebolar de gozo. Não dava para entender. Se bem que um pequeno pormenor me chamou a atenção: «que dura e terrível lição para o moço príncipe que hoje começa tão imprevista e abruptamente o seu reinado! Oxalá o destino lhe seja mais favorável e os fados lhe corram mais propícios! Nada porém ajudará melhor a cumprir a altíssima missão em que subitamente se vê investido, do que o amor entranhado pelo seu povo e o respeito escrupuloso pela lei e pela liberdade».
Eram outros tempos. Os «assumptos» tinham outra importância. Ainda não se praticava a semana inglesa. Podia já ser um atentado suicida. Podia ter sido no Terreiro do Paço, depois do almoço do pistoleiro no Rossio. A tempo dos jornais da tarde darem a notícia, com grã cópia de
pormenores. No DN, neste, nada. Nada sobre o local, a causa, as horas, nem o como, nem o porquê, nem o quem.
Foi chato. Uma coisa é ter dado a matéria na escola, ter lido versões sobre a maquinação de eventual seita radical, outra o gozo de ler a notícia, nas páginas que tenho andado a ver desde 1864. O tempo passa a correr. Ainda me parecia que tinha começado no mês passado e já íamos em 1908, no segundo dia de Fevereiro, imediato ao regicídio. Perdi a fé no que me vão dar a ler daqui a «dois anos», em Outubro...
Hoje fingi que estava distraído e comprei o DN! E não é que era já do 5 de Outubro que se falava, na edição de 6 de Outubro de 1910. Sim, senhor, o país tinha sido «libertado»! Às onze da manhã
fora proclamada a República, na sala nobre dos paços do município. Cinco gravuras tipo passe mostravam o Dr. Joaquim Theóphilo Braga, que presidia ao governo. Como de frescos que eram
ainda não tinham complexos e anunciaram como ministro do Interior, o 2º da lista, o Dr. António José d'Almeida, cuja imagem evidenciava um homem determinado, de testa alta, bigode de pontas retorcidas e pera discreta. O Dr. Affonso Costa. Não, não era gago, eles é que escreviam assim mesmo e hoje nem sei se era forma gramatical ou pedantismo neo-modernista. Seja como for passou a ser ministro da Justiça. Para a Fazenda foi Bazílio Telles, que pelos vistos não era Doutor! Para a Guerra (dizia-se assim) António Xavier Correia Barreto, também sem Dr., o qual devia ser um teso e de família discreta, porque não tinha nenhuma letra a mais no nome, nem consoante nos apelidos!
Outro nome plebeu, sem ornamentos ortográficos, foi nomeado para outra pasta bélica, a da Marinha, era ele Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Para as Necessidades foi (deve ter ido se o ministério já fosse ali) outro ilustre Doutor, Bernardino Luiz Machado Guimarães. Outro Luiz, com zê, com Doutor e tudo, foi para as Obras Públicas e era ele um tal António Luiz Gomes.
Enquanto isso, o sr. governador Civil anunciava que «Ordem e trabalho» era a divisa da Pátria
(trabalho aparece com minúscula e vá lá saber-se porquê!) libertada pela República, enquanto «Pátria e Liberdade» surge como lema...
"Depois da proclamação sentiu-se como que um uníssono grito de entusiasmo".Oito séculos de monarquia tinham-se evaporado. O governo provisório da República saudava as praças de terra e mar que «como o Povo instituia a República, para felicidade da Pátria e confiada no patriotismo de todos»...
Onde é que eu já vi este filme?
Com alguma sorte, talvez, este fim de semana já devemos poder assistir à primeira Grande Guerra, a que se deve seguir o 28 de Maio, tão aguardado!
Mas seja como for é pena que o DN não tenha elaborado uns cadernos especiais, sobre determinadas matérias, apenas com informação noticiosa da época, com base no sumo das notícias, incluidos no jornal ou pagos à parte. Na manhã de 5 de Outurbro o DN pôs na rua pelo menos 4 edições especiais.O «filme» da queda da monarquia, visto à distância, teria sido um sucesso editorial. Retive no matutino de 2 de Fevereiro de 1908, que ia haver um jogo de futebol no campo de Sporting, ao Lumiar!
Numa infelizmente curta visita à Expo do DN, em Belém, pasmei com a viagem ao passado e sobressaltei-me pelo impacte que me causou as referências sobre a implantação do Caminho de Ferro no nosso País. Foi uma obra notável, bem diferente do que viria a ser o parque subterrâneo do Camões, um exemplo exemplar de como não se faz uma obra...

domingo, julho 17, 2005

Jornal "África"

Contam-me que, na RDP, a propósito de não sei bem o quê, se debateu um jornal que já não se publica há não sei quantos anos e que se dedicava exclusivamente à problemática africana. Segundo o relato que me fizeram o "projecto" foi considerado mesmo "heróico". Houve quem acrescentasse qualquer coisa sobre os financiamentos e linha editorial do tal jornal. Já li muito sobre a matéria - em tempos - porque há anos que já não se falava dele, mas nunca percebi que os mentores, construtores e fazedores do "África" alguma vez tenham sido ouvidos. E, ao que me consta, ainda andam por aí. Talvez fosse interessante descobrir se, por exemplo, o seu director tem alguma coisa a dizer a todos esses comentários.
Aqui fica a sugestão.

Os apanha-bolas

Existem em várias modalidades desportivas: no ténis, ficam agachados, junto à rede, nos enfiamentos dos vértices das marcações do campo e correm, um dum lado, outro do outro, com o intuito óbvio de propiciarem aos jogadores um jogo sem interrupções e a máxima concentração.
No futebol "vivem" por detrás dos placards publicitários, correm atrás das bolas, mas antes, entregam uma outra aos jogadores. O objectivo é impedir grandes interrupções no jogo e, nessa perspectiva, acelerar o ritmo do espectáculo.
No Volei também existem: fazem circular as bolas de um campo para o outro, de tal forma que, quando o jogador que vai servir tenha à sua disposição um "esférico".
Estou a falar dos apanha-bolas. Já toda a gente percebeu. Dos apanha-bolas bolas e não dos apanha bolas que passam a vida a tentar a agarrar todas as bolas, de papéis na mão, de corredor em corredor, escada acima, escada abaixo, a interromper todos os jogos, a meter-se mesmo em todos os jogos de cartas, sem nada entenderem e sem nada acrescentarem a cada passo que dão, a cada discussão que procuram ou interrompem.
Sãos os apanha-bolas sem utilidade e sem jogo. Que fazer?

sexta-feira, julho 15, 2005

FEIOS,PORCOS E MAUS

O sr. Valentim Loureiro reuniu um grupo de dirigentes de clubes de futebol, de segunda linha, bem endividados ou praticamente falidos, mais uma porção de senhores árbitros, aí uns quinze ou coisa que o valha, para dar a volta ao texto. Dar a volta ao texto quer dizer, como sabem, deixar tudo na mesma e deixar tudo na mesma, às vezes dá uma trabalheira do caraças...
Mesmo assim, eu pasmo. Que mais posso eu fazer, que não seja pasmar e resmungar? 'Tá tudo na mesma, sistematicamente na mesma! Mas este tudo engloba muita coisa e muita gente.
Começa na condescendência: "ele são assim"! pois é, eles são o que são, seja lá isso o que for, pois são, mas desde que se estabeleça que é gente que não interessa ao futebol, ou então é todo o futebol que não presta e alguns senhores da Costa e quejandos pintos são piores. Beras, muito beras, são os que mandam, e se dão ao luxo de mandar ficar tudo na mesma. Fico com a noção de que eu é que sou parvo.
E só agora é que descobriste?, pergunto-me a mim próprio, a lembrar-se que já há muito que devia saber que não adianta. Sei, claro que sei, mas sempre apetece chamar a atenção, porque é realmente premente chamar a atenção: eles são o que são, porque os deixam ser. E se os que deixam deixaram é porque ou são muito distraídos ou são da mesma cepa!
Em boa e honesta verdade o senhor Pinto foi escutado e o senhor Loureiro foi - oh! lá se foi! -muito escutado, e em diversdas vertentes. O advogado do senhor Pinto descobriu - e é para isso que ele é advogado! - que as escutas não deviam ter sido escutadas, por mais isto e mais aquilo,
logo o senhor Pinto e outros pintos e outros loureiros ficaram libertos de coacção limitativa.
Mas uma coisa é a Justiça e o competente Poder Judicial, repletos de princípios democráticos, e outra, diferente, a realidade dos factos. Eles foram escutados e o teor das conversas denunciado.
As leis do futebol são diferentes da rebaldaria da instrução de processos judiciais, o meio mais adequado que se conhece para deixar andar.
Não há como fugir da realidade. Se Salazar fosse vivo diria que no futebol o que parece é! Pior: eles sabem que nós sabemos, e que os da FIFA também sabem. E nós sabemos que eles sabem que nós sabemos. Também é verdaqde que em geral sabemos perfeitamente ser parvos, mas nem sempre.
A verdade no futebol tem que ser muito parecida ou então o caldo entorna-se. Mas como é que se pode acreditar no mundo da bola, se não há um - um só que seja!- que se levante e aponte: o rei vai nu...
Também, com este calor, que mal faz...

O Espanto

A cidade acordou alvoroçada. As autoridades proibiram a entrada de automóveis e mesmo autocarros só os não poluentes. Foi uma festa para os eléctricos, patinadores e ciclistas. E algumas velhinhas que já não saíam à rua desde o tempo do saudoso dr. Salazar se atreveram a dar uns passos no jardim , percorrer alguns metros na avenida.
Pares de espanhóis, recentemenmte chegados de Badajós exibiam o colorido das suas roupas, a graça dos seus penteados. Havia som de apitos e há quem diga que conseguiu ouvir entre alguns sambas uma cuíca desgarrada.
A cidade deslumbrou-se consigo mesma. As gentes cumprimentavam-se e comentavam a última obra prima do património público: como que caída do céu durante a noite, uma estátua de mármore imaculado ocupava a principal praça. E à sua volta, também surgidas do nada, belíssimas rosas com gotícolas de orvalho a deslisarem por suas pétalas acetinadas, marcavam o perímetro de segurança daquela estranha e belíssima estátua, toda coberta com o desenho de uma boca feito pelo arquitecto do Mundo e pintada com o batom mais vermelho de que há memória.
O rosto assim decorado era irreconhecível, mas adivinhava-se-lhe um sorriso de tão grande felicidade que as pessoas se interrogavam se tal poderia retratar-se em carne e osso.
A festa continuou todo o dia. Ao fim da tarde veio mais gente a espreitar o efeito do Sol a reflectir-se no vermelho daqueles lábios capazes de realçar a pureza do mármore em que a obra tinha sido apenas anunciada. Foi um dia de espanto que a cidade vai recordar para sempre.

NÃO SEI...NÃO VI...NÃO ESTAVA LÁ

Sopra uma brisa quente, abrasadora, sem graça. Vale que estou à beira da piscina. Um amigo aproxima-se com dois copos na mão. Um é para mim. Refastelado, dou por mim a pensar: quem não tem amigos não bebe! Reflectir nestas circunstâncias acentua a sede. Em geral preciso de vários amigos. Pelo menos um para me levar de carro e outro para me acolher, onde haja piscina e brandies a condizer. E, claro, intrigas a fervilhar. Retive uma deliciosa, na tarde passada e bem mergulhada. Tinha tudo a ver com um conhecido xerife, carente de televisão, referenciado como consultor do primeiro ministro para a área audiovisual da C.S.
Não se trata de discutir o "ranking" diário ou coisa do género, explica o que traz as bebidas sem gelo.
- Não tens gelo? - grita a mulher de um dos dois que estão do outro lado.
- Já vem! - diz o dono da casa, que prossegue: - A ideia é verificar os termos da concessão dos canais... Tás a ver?... Já se sabe que é temporal, mas imagina-se que se trata de renegociar...
- E então? - perguntei eu, que não gosto de gelo na bebida. -Não é assim?
- Pode não ser, pode não ser! A ideia - responde ele com um sorrizinho cínico - pode não ser essa. Pode ser a de confiscar a concessão de exploração do canal televisivo, com base na violação dos termos do contrato de concessão. Qualquer coisa serve... Sei lá... excesso de pub... abusos e imoralidades... menos espaços criativos...
- Mas o que é isso? - pergunta-se lá do fundo. - Isso é perseguição ou quê? Já não bastava o Salgado? Vem agora o próprio Socrates tirar o pão da boca ao homem?
- Não é nada disso! - interrompe o intriguista. - A ideia é pô-los em sentido. Ou amocham ou ficam a ver navios...
-Não dizes nada? - pergunta-me uma das madonas que vinha em busca de qualquer coisa para pôr no gelo. - Tás sempre a dar bafos...
Sorri e endireitei-me na cadeira, sem me preocupar com o copo, de todo vazio. Reflecti uns dois bons minutos e quis ser claro:
- Não sei! Não faço ideia!
Calei-me fui à cozinha, deitei mais um golinho no copo e, como quem não quer a coisa, saí para a rua, a pensar, com os meus botões de maior confiança: "Não querem lá ver, por causa da porcaria de um copo! Querem que um gajo se comprometa...

quinta-feira, julho 14, 2005

Os Reis e Rainhas do Nosso Mundo

Aquilo ali atrás ( é esquisito porque no blogue é à frente...) da civilização ocidental e mais não sei o quê, foi uma recaída. Um estilo que volta, outro que se vai e aqui estou a retomar estórias antigas de reis e rainhas - logo de felicidade - gente com capacidade para transformar um sorriso num reino e um reino num olhar que se espraia pela manhã e entra pelo fim da tarde.
Porque um rei quando chama pela sua rainha é ouvido por todo o povo. O povo fica contente, faz movimentar a roda da vida e aguarda, em silêncio recolhido, a resposta da sua (deles) rainha.
Para quê falar da civilização Ocidental, do Bush, dos muçulmanos ingleses, para quê tudo isso, se o mundo se pode resumir a uma bela estória de princípes e princesas?
Alguém acredita em mais alguma coisa?
Então, não andem de metro - que é perigoso, sobretudo para os claustrofóbicos.

quarta-feira, julho 13, 2005

NASCIDO DO MAR

Não foi no mar. Mas foi do mar que nasceu Portugal. Embora mais crescer que nascer. Mas isso são contas muito complicadas de fazer. De qualquer maneira, mais milímetro-menos milímetro, a dada altura o país ficou aquático. Até teve um império marítimo. E outro terrestre, mas o marítimo é que vem na história. Com marés, maresias e tudo. O Adamastor.
Agora Portugal voltou. Coisas do tempo. Está sempre a mudar a história e resolveu mandar os marinheiros para terra. No mar sobraram poucos, os que carregam petróleo e outra carga. Profissionais sem passado histórico, embora o país, no Oriente, também tenha sido recoveiro.
No entanto os portugueses quando voltaram tinham-se é esquecido de si. Gente hoje de passado sem presente. Como patos fora da água andam aos solavancos, pata-aqui-pata-ali. Gingam como os marinheiros em terra. Suspiram saudades de si porque deixaram de se ser. Até o Atlântico, que foi oceano, já só é praias.
Democracia, mas náutica
Saído do colonialismo a tempo de fechar a porta antes que lha fechassem, acabou com o ultramar. Mas ficou uma democracia marítima, da tanta água restante e da muita fabricada pelos nacionais: os democratas filhos de Salazar, os democratas filhos de Estaline e os democratas a quererem saber o que é isso de democracia.
No meio deles nasceu Alberto João Jardim. O Adalberto da copofonia. O gualberto da broncofonia. O Roberto das macacadas. O Liberto da incivilidade. O Florberto da grosseria. O Herberto não, por respeito ao Herberto Helder. Antes o Felisberto da monomania.
Da mania que é o dono dfa Madeira. Aprendeu que era como os patos em terra.
Lembram-se da FLAMA, ou lá o que era esse movimento dito de libertação? Lembram-se do medo de que os Estados Unidos apoiassem a independência da Madeira?
Esses sustos apanhados pelos democratas feitos à pressa que eram todos os portugueses ( quem não era?) foi a lição onde Floriberto se percebeu. Depois foi andando, andando na javardice até chegar aos gritos de filhos da puta. Porque o português não dá para mais.
Se desse, com a certeza que tem da cobardia de presidentes disto-e-daquilo, do partido à república, ele avançava. Portanto, os cínicos que dizem mal dele pelas costas, presidentes disto e daquilo, ministros daquilo e disto, dentro do partido e fora do partido, que não o culpem. Ele não tem culpa de o português ser uma língua pequena para o tão grande homem que é.
Cobardia jornalística
O momento mais importante da recente reunião da Assembleia da República onde o actual pupilo de Sócrates, o Platão possível, defendeu o seu orçamento rectificativo, foi aquele em que Louça apontou para a fuga ao fisco, praticada pelo Banco Totta. Para as quarenta e tal mil mudanças de banco-subterrâneo para banco-mais-subterrâneo que a patriótica instituição bancária fez com o objectivo de prejudicar a pátria. Diria Alberto João Jardim, se não fosse sacristão numa confraria da igreja off-shore, com o objectivo de foder a pátria.
As patrióticas televisões que ouvi focaram Louçã e transmitiram as palavras que disse. Mas passaram por cima do significativo silêncio do ministro perante tão grave acusação. De onde se conclui que ministro e jornalistas se puseram off-shore.
Cobardia jornalísitica II
O outro momento de importância maior foi aquele em que o ministro, réu dum défice orçamental de 6,2, passou a juiz e mostrou ao CDS e PSD que esse défice se encontra precisamente na linha dos défices dos últimos três anos. E anunciou os défices reais das gestões PSD/CDS.
Aqui as televisões omitiram as declarações ministeriais. É um off-shore curioso este da informação isenta. Puseram-se fora ou dentro consoante critérios jornalísticos.
Se culpas pecaminosas houver, são dos critérios não dos jornalistas. Nem dos prejuízos materiais nascidos dos défices fabricados.
A guerra das civilizações
Bush é um homem de sorte. Neto do petróleo e de amizades com descendentes de Maomé, emires petroleiros e coisas assim, foi aquilo a que se chama nascido de rabo virado para a Lua. E continuou assim na tropa, na faculdade, nos negócios em que meteu a pata na poça, nos copos em que a poça ia à pata, até que o elegeram presidente dos EUA. Um escândalo que correu mundo e com que ele pouco se importou. Nem se importa.
Mas à segunda foi eleito, à grande e à francesa. Nem um pio piou. Lá se foi por causa da guerra ou do medo terrorístico dos americanos-do-norte, isso de pouco interessa. A verdade é que foi, e foi mesmo.
Estava agora a perder popularidade. O seu povo, como Tresa Batista, já cansado de guerra, fartou-se da que ele tinha declarado acabada. Mas os seus terroristas de estimação voltaram a ajudar, (dá-lo a ele) com explosões em Londres. Longe dos Estados Unidos, como o excelentíssimo gosta. Daí que, com contida satisfação, o próprio em corpo e alma se assomou às imagens das Tvês a dizer palavras de indignação pela morte de inocentes. Ele que, à sua conta já mandou matar tantos que, a continuar assim, nem o substantivo inocência fica vivo para contar o massacre das inocências.
Um português que pensa
Cansado de ouvir os portugueses perguntar a Sócrates se vai aumentar, ou não, os impostos durante a legislatura, coisa que, a mudar como as coisas andam, ninguém sabe, e mais cansado ainda de sempre isso, todos os dias isso, a grosseria de Jardim já a jardinar por entre a mediocridade dos deputados que temos, quando li no "público", o jornal dos duros da linha Bush (José Manuel Fernandes e Pacheco Pereira), um trabalho de Jorge de Almeida Fernandes. Com cabeça, tronco e membros. A cabeça que às tantas escreveu:
Os americanos estão num atoleiro.
Irónico é que os países europeus estejam crescentemente reféns do Iraque. Recusar um papel na normalização do país é agravar a situação no Médio Oriente e subir exponencialmente os riscos para a sua própria segurança.
Sua. Da Europa e dos europeus, não dos Estados Unidos e dos estadunidenses. Leiam com atenção porque é raro dar com um português a pensar.
Bush e a ciência
A óptica científica não é de precipitações. E rejeita o facilitismo de entrar com adjectivos pela integridade mental de Bush.
Precisa de parar face às hipóteses de trabalho formuladas e exigir que sejam comprovadas. Mesmo quando as coisas parecem claras, como o subdesenvolvimento intelectual do presidente dos Estados Unidos.
Se o senhor sofrer de dismnésia algébrica pode muito bem entender que a mais de centena de milhar de mortos, matados à sua conta durante o exercício do cargo presidencial, é menor que as vítimas do terror fundamentalista acontecido em capitais do Ocidente. Nesta conformidade o homem não é tão selvagem como parece. É dismnésico.
Nome bonito que até lhe fica bem na lapela, ao lado dos emblemas foleiros que usa. Um toque de distinção na saloiada

terça-feira, julho 12, 2005

COMO OUTRORA

Tempos houve que Lisboa era mourisca. Ainda não haveria o bairro de Alvalade, mas já se devia subir a calçada do Poço dos Mouros. A Sé viria muito depois, assente sobre outras religiosidades, debruçadas sobre Alfama. O Castelo também,claro. Ainda não era de S.Jorge por certo. Nem sei o que seria a av. da Liberdade ou sequer se haveria a rua das Pretas. Já o poço dos Negros era mais provável. Mesmo nessa era remota haveria decerto quem pagasse a crise!
Nós, os lisboetas, eramos, bem entendido, mouros ou coisa equivalente. Muitos de nós nascemos e morremos naturalmente sob ditâmes arabescos. Saberiamos o que haveria a saber do Corão e de mesquitas.
Fomos invadidos pelos cristãos e martirizados por eles. Mais do que expulsos, fugiu-se alucinadamente. Mas a perseguição impiedosa dos cristãos empurrou-nos para o sul. Vamos deixar de fora os que se refugiaram em Castelo de Vide. Eram de outra religião, mas ainda assim diferente do cristianismo fanático, que emergia na Europa.
Foram incontáveis os nossos concidadãos expoliados e mortos, nem sei se alguns meus ancestrais, em nome da Fé cristã.
Oitocentos anos depois, mais minuto menos minuto, apanha-se o eléctrico para a Estrela, o mesmo que, em sentido inverso, leva turistas à Graça. Pertencemos a uma nova espécie( que teve origem, imaginem no Norte, à beira da foz do Douro!) ainda em formação, a europeia.
Mudamos de campo e de religião e se hoje em dia quisermos ter uma pálida ideia do que fomos não há como ir a Granada. Ainda há marcas de explendor. Ainda por lá ficamos algum tempo, mesmo depois dos cristãos portugueses arrecadarem para eles o Algarve.
Já depois de sermos portugueses patriotas e cristãos devotos, tratamos mui mal os judeus, mas é tempo perdido, não vale a pena falar disso: o dr. Mário Soares já pediu perdão.
Mas antes, ainda fizemos das feias no Brasil, dizimando os índios nativos, que nem sabiam rezar.
Bom, os castelhanos fizeram o mesmo no resto do Continente e os ingleses, um pouco mais acima!
Talvez tenhamos de mandar lá alguém pedir desculpa, embora os brasileiros que geramos deixem muito a desejar na matéria. Mas, princípios são princípios e assim como assim, Freitas do Amaral já ensaiou com os chineses...
Este nosso mundo foi sendo feito de tragédia. E parece que não está pronto! À laia de aviso lembro o poeta António José Forte: «...Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas os mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa».
E porque subsitem dúvidas sobre se o poeta é um visionário ou é simplesmente um fingidor, recorremos aos mesmo António J. Forte, que publicou em 1963:
« UM HOMEM
De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda»
Será da natureza humana ou maldição cósmica?

segunda-feira, julho 11, 2005

A Civilização Ocidental

A propósito dos ataques terroristas e dos perdões de dívidas aos africanos dei comigo a pensar nos perigos que a Europa corre, primeiro, por não ter lideranças credíveis e, depois por se confundir, em termos civilizacionais com os Estados Unidos.
De resto, a falta de lideranças é que permite a confusão civilizacional. Nenhum líder europeu consciente dos valores do seu continente permitiria qualquer confusão com a filosofia belicista, expansionista, verdadeira apologia da terra queimada defendida e praticada por Bush.
A civilização ociental teve já muitas interpretações, a pior das quais era traduzida pela expansão da fé. Hoje, felizmente, a chamada civilização ocidental tem a ver com a defesa dos valores da liberdade individual, garantias de protecção social, defesa dos mais desfavorecidos, dos desprotegidos, velhos e crianças.
São esses os valores da verdadeira Europa, daquela que, sendo velha, mantém uma eterna capacidade de renovação para proporcionar aos seus cidadãos o ambiente, o clima para uma vida tranquila, harmoniosa e onde a igualdade de oportunidades funcione como estímulo de valorização pessoal.
Estes valores não têm nada ver com o neo-liberalismo económico dos Estados Unidos levado ao extremo pela irracionalidade dos conselheiros de Bush e também não se idenficia com a exploração de mão de obra escrava leva a cabo na China, na Índia e em outros locais, que, aproveitando a generosidade da chama "civilização ocidental", entraram na disputa de mercados organizados sem cumprirem, pelo seu lado, nenhuma regra.
Os europeus têm, por isso, que voltar a redifinir-se. Não podemos oferecer o nosso espaço, a nossa organização à conquista de verdadeiras barbáries que escravizam nas suas terras as suas gentes. E neste saco entram, de igual forma os Estados Unidos ( onde a pobreza galopa a olhos vistos), a China e todos os outros.
Assim como também não me parece justo que se perdoe a dívida dos africanos sem critério. Em muitos casos, as dívidas representam o resultado da corrupção dos estados que dizem representar os respectivos povos.
Sejamos exigentes: obriguemos esses governos à prestação de contas.
Provavelmente - dizem alguns - também já é tarde: os chineses estão a atirar dinheiro para cima de tudo quanto pode significar energia.
E donde vem o dinheiro dos chineses? Do seu sistema de exploração desenfreado das mais valias dos seus trabalhadores, escravizados ao peso da necessidade de uma malga de arroz para sobreviver.
Em conclusão: a Europa, por falta de liderança, está a pagar duramente o facto de não se ter prevenido contra estes inimigos poderosos, um dos quais - os EUA - utiliza para sua própria definição, a matriz europeia.

domingo, julho 10, 2005

A Rita Está Doente

A Rita é um doce. Atrevida. Tem talento, mas acha que é só piada. Adora comer, mas sofre porque se acha gorda. Tem uns olhos escuros, de sevilhana, que escondem todos os gramas que uns belos caramelos de Badajoz, ou de outro lado qualquer, fabriquem.
Ficou doente a Rita. Uma gastroentrite - aquilo que noutros tempos se chamava uma caganeira e se curava com dois dias a água de arroz, mas arroz mal lavado.
Está triste a Rita. Verdadeiramente triste, embora entenda que os quilos perdidos são batalhas ganhas.
Todavia, a tristeza dela é que é sincera:a Rita gosta de bons pitéus, bom queijo, bom marisco (arroz, ou feijoada). A Rita gosta de tudo o que faz as pessoas felizes, mas agora está doente, triste, mas continua a ser um doce, cheia de talento, alegria de viver contagiante. Amanhã a Rita já não estará doente e não vai precisar da canja de galinha. Essa eu prometo.

A Minha Outra Heroína

Tem inteligência de jogadora de xadrez. Joga a cada minuto que passa. Exaspera-se porque o adversário leva muito tempo a fazer a jogada seguinte e ela já tem o jogo na mão. Conhece por antecipação todas as jogadas e diverte-se ( mas também sofre) contrariando a jogada seguinte.
É uma fuga. Encontrou o seu próprio sistema para viver num país onde o xadrez não existe e toda a gente é jogador de bancada e contente por nada verdadeiramente palpável. Mais do que uma fuga é um entretenimento. Junta ao jogo da previsão dos movimentos do "adversário", o outro, fatal, o das palavras. É exímia. Acrescenta-lhe a manipulação do sorriso - que é capaz de colocar na voz.
Acontece uma vez em muitos anos, mas acontece. Tem um único problema esta minha outra heroína: continua a insistir em que os outros - todos os outros - também são gente. Ei!!! alguns são, mas outros não voam, são lesmas.

Incêndios e Terrorismo

Os incêndios em Portugal têm várias origens, diversas explicações, mas há duas sobre as quais não restam dúvidas e que recorrem ao mesmo método: fogo posto.
Há os que recorrem a ele por simples prazer, por algo que pode ser identificado como terrorismo, já que tem como único objectivo a destruição. É gente perturbada, muitas vezes - a história não deixa dúvidas - trabalham e são militantes das corpoprações de bombeiros - ( tal como a fronteira entre o polícia e o ladrão é ténue, ela também é frágil entre o bombeiro e o incendiário).
Há outro tipo de incendiário, aquele que quer os seus 15 minutos de fama, de celebridade: ao incendiar o que quer que seja, desde que a televisão apareça e dê notícia, é ele que ali está. É a sua obra ou a sua terra que são faladas.
São casos patológicos, alimentados pelo gosto que as televisões têm pelas imagens das chamas. Desede que haja incêncio há abertura de telejornal, há espaço para tiradas poéticas, apontamentos de reportagem cheios de colorido.
São os repórteres do fogo, fazem o apelo ao fogo, ao crime. Eles, que são destacados para o terreno, como uma espécie de heróis com capacidade para ouvir as vítimas, falar com o bombeiro que "há mais de 24 horas luta contra as chamas" e fazer o retrato dos "soldados da paz" exaustos. Sem os incêndios aqueles pedaços de prosa rebuscados não existiriam.
Tudo isto para dizer que as nossas televisões - aquelas que temos, que Cavaco que nos deu - são, em grande parte, responsáveis pelo aumento espectacular do número de incêndios que acontecem em Portugal.
Há, todavia, outras razões, mais substanciais, que aproveitam a televisão, os bombeiros e os tresloucados, capazes de deitar fogo à própria casa para aparecer na televisão, ainda que de forma projectada.
Estas é que deveriam começar a ser analisadas com algum cuidado pelas autoridades. É que os incêndios de Verão correspodem - quase sempre - a uma recomposição do sistema fundiário. Nas zonas onde os incêndios acontecem com muita frequência - é só olhar o mapa - também está a acontecer uma concentração da propriedade.
Os pequenos proprietários de pequenos pinhais, normalmente a viver em grandes centros urbanos, que iam buscar aos pinheiros vendidos uns extras para obras na casa de Lisboa ou do Porto, para o casamento da filha, para uma viagem, rapidamente percebem que o tal pinhal que o avô deixou pode ser - ou já é - fonte de aborrecimentos. O melhor é vender.
Veja-se o que acontece nas regiões do pinhal. Compare-se.
Os jornalistas que se apresentam aos olhos do povinho como heróis, ali à mão de sememar das chamas, deviam perder mais tempo a investigar a recomposição da propriedade, por exemplo, nos distritos de Castelo Branco, Coimbra, Viseu, etc.
Um última nota: os ingleses resolveram impedir o acesso a jornalistas dos locais onde deflagraram bombas no metro e num autocarro, resultado, ao que tudo indica, de uma acção terrorista. Acho que o Ministério da Administração Interna deveria proibir a captação de imagens dos incêndios que ocorrem todos os verões em Portugal. Na sua maioria - embora por razões diferentes - são actos de puro terrorismo. Não merecem publicidade- não a devem ter.

sábado, julho 09, 2005

A TEMPO

Quando hoje ainda é ontem aparece a frustração. Já tinha ouvido na Rádio e até visto imagens na Televisão quando, na rua, comprei o jornal e o folheei e vi Londres em festa e Paris a varrer a feira. A Bolsa londrina refulgia de ganhos. Nada daquilo era mentira, mas Londres estava de rastos e a Bolsa estava negativa. O terrorismo era o assunto da Informação. O jornal que eu tinha na mão era, afinal, um conjunto de memórias, como o caderno fotocopiado de Séculos atrás.
Houve tempo em que a Rádio não emitia notícias e Televisão não havia. Os jornais eram a fonte
do conhecimento do que ocorria no Mundo e nesse mundo cabia a nossa terra.
No tempo em que comecei a olhar os jornais já havia Censura. Eu nem sabia o que era, mas o jornais informavam os leitores que «este número foi visado pela comissão de...», mas tal não impedia dessem conta do que ia por esse mundo fora, com mais detalhe do que ocorria nos assuntos internos.
Mas já havia noticiários na Rádio. Tenho ideia de que a EN encerrava a emissão, após o noticiário da meia-noite, com o Hino Nacional. Mas os jornais não eram minimamente atingidos pela concorrência. Sempre que havia acontecimento fora do fecho da edição, preparava-se uma segunda tiragem e, não raro mais, como era o caso da Volta a Portugal em bicicleta. Os vespertinos eram mais vocacionados para esse folclore, mas frequentemente os matutinos reapareciam nas bancas e nas vozes dos ardinas a meio da manhã.
Deve ser conveniente lembrar que os tempos eram outros. Os jornais dispunham cada um de oficinas próprias e de distribuição própria e muito embora o equipamento gráfico nem sempre fosse o último grito, funcionava.
A questão que se coloca, hoje em dia, não é a do profissionalismo ou de falta dele, mas de impotência.É preciso saber primeiro se a oficina tem ou espaço para imprimir outros jornal; depois se a distribuidora de imprensa dispõe de meios para efectuar uma distribuição singular.
Não dá. Na melhor das hipóteses é preciso que o jornal seja avisado da morte súbita do Papa, 48 horas antes do passamento. E nenhum honesto terrorista se disporá a avisar das explosões no metro nem na véspera. Foi um dia de azar para a Imprensa, mas também um aviso: é preciso melhorar a capacidade de resposta...

sexta-feira, julho 08, 2005

MISTÉRIOS URBANOS

Hoje abri o envelope da Epal. Raramente me dou a tal incómodo, deve ser por mór da depressão.
Não esperava encontrar grandes alterações no valor da factura da água. Valor que cresce com aborrecida frequência. Mas hoje dei-me ao cuidado de ler o resumo, nem sei se por qualquer resquício masoquista. E pasmei!
A água consumida em casa valia 0,88 euros. Não se pode dizer que fosse caro, mesmo dando de barato que a casa está quase sempre vazia e o neto que de vez em quando lá dorme não é muito de banhos. Mas o total da factura atinge os 11,85 euros! Espantoso! Por me vender água, a Epal cobra 6.71 euros. A CML, essa, arrecada 3,88 euros, que divide entre Saneamento Fixo (2,01 euros), Saneamento Variável (1,23 euros) e Adicional (0,64 euros).
Saneamento Fixo suponho saber o que seja; Saneamento Variável creio ser o saneamento que umas vezes não há e outras não é preciso; Adicional presumo ser como a tasca do galego, no antigamente lisboeta, que no fim da conta do almoço, botava sempre «a.v.s.p.» 12 tostões. Um dia um cliente reparou na parcela e perguntou o que aquilo queria dizer e o tasqueiro explicou:
«a ver se passa»...
Para completar a factura faltava o IVA (0,64 euros), que surge numa rúbrica alucinada: Serviços
Prestados (?) , talvez o incómodo de contar as moedinhas...
Concluindo. Ainda eu me preocupo em não fazer negócios com ciganos! E isto com uma empresa pública! Estava outra vez enganado. Não é pública porra nenhuma. É simplesmente Empresa Portuguesa de Águas Livres, sociedade anónima. Ocorre-me à memória um amigo fixe, que já lá está,muito apreciador de tinto alentejano, mas que também bebia branco, além de algumas aguardentes, me ter dito uma vez, quando me viu tomar um comprimido: «Olha, meu filho, quem bebe água merece tudo o que lhe aconteça».
Parece que sim!...

quinta-feira, julho 07, 2005

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA

A nódoa pinga sempre, dê lá por onde der. O pano, esse, seja de que qualidade for, é que se mete debaixo. Meter-se debaixo tem os seus riscos e alguns inconvenientes, mas até os alcatruzes o sabem, não se pode estar constantemente por cima. Bom, adiante, não se inquietem, não mudei de estilo, nem estou a ensaiar erotismo saloio. Simplesmente a ganhar embalagem para chegar ao assunto e, confesso, devo estar a ser influenciado, na forma, por um candidato assumido à Câmara de Lisboa, que me encanta com a sua postura, que eu creio seja filosófica, que o distância da plebe, sobretudo a jornaleira, que manifestamente o enfada. Sorri para ela enfastiado e só então diz o que lha apraz.
Não fora a influência e, decerto, já iria na adjectivação contundente, a escrever que aqueles tipos uns filhos da mãe e outros, provavelmente, nem isso! Não querem lá ver que uns se estão nas tintas e os outros ensandecidos pela avidez. Perdão! Embalei antes do tempo. Ainda nem expliquei da origem do furor. Pois, que não vá o sapateiro além da chinela. Vamos lá rebobinar
e recomecer pelo início. A Comissão Nacional de Protecção de Dados chumbou o projecto de instalar câmaras de videovigilância nas auto-estradas, que constava no Orçamento Rectificativo.
A posição da CNPD já vem detrás. Há uns anos as autoridades policiais tentaram em Guimarães
instalar um sistema de vigilância electrónica à zona histórica da cidade, alvo de vandalismo vergonhoso. A Comissão não vai em vergonhas e recusou.
Agora a situação quase se repete, mas a gravidade do que está em causa é bem mais delicada.A vigilância das auto-estradas, que permita identificar prevaricadores ou, melhor que isso, inibir
alguns dos excessos que tornam as auto-estradas portuguesas as mais sinistradas da Europa, não pode avançar por pruridos sobre direitos e liberdades.
Não se entende bem que direitos ou liberdade sejam coarctadas pela vigilância vídeo nas auto
estradas. É talvez mais um destes casos em que a letra da Lei se sobrepõe ao espíto dela.
Aceito que desta vez subsista o direito à reserva: a determinação aparecer incluida no Orçamento Rectificativo. Deixa, assim, de ter conteúdo para se tornar um impopular esquema de caça à multa.
O importante não é que se facture muita coima, mas que amaine o fluxo de excessos e diminua a sinistralidade. Podia-se puxar as orelhas ao governo, sem chumbar a medida. De facto, os direitos constitucionais não vão tão longe quanto se pode pensar ou como pode parecer. Ninguém é livre de pôr em risco a vida alheia nem tem o direito de se eximir às responsabilidades pelos actos que pratica, seja a onde for e mesmo nas estradas ou sobretudo nelas.
E a verdade é que se algum cidadão comum for a um banco depositar economias ou solicitar um empréstimo para ir de férias à Mautitânia, sujeita-se a ser vigiado, tal como, de resto, se for à estação de serviço abastecer o automóvel de gasolina, pode ser vigiado por câmaras de vídeo e se for na auto-estrada não o pode ser? Porque é que nuns casos não se violam os direitos e liberdades das criaturas e no outro, sim?
Não será legítimo que alguém de luto olhe qualquer um dos ilustres senhores da Comissão e não lhe reconheça direito ao mínimo de consideração ou mesmo que o considere responsável moral pela sua dolorosa solidão?
Sejamos claros: a videovigilância das auto-estradas pode ser, em Portugal, o único meio eficaz de normalizar o tráfego e desse modo reduzir a sinistralidade. Mas sejamos coerentes: em vez de um faminto Orçamento Rectificativo, que seja a Assembleia da República a decidir, com o aval
de Belém...

A estória

Quem me lê habitualmente já adivinhou o fim da estória que prometi ontem: ela, jovem ( 24, ou 25?) vai ganhar o seu lugar, lutando e rindo, mas com fibra ( antes torcer que quebrar).

Ela, todavia, vai continuar a ser portuguesa e, um dia, muito mais tarde, entre as suas gargalhadas contagiantes e os pesos mortos instalados à sua volta, vai reconhecer que, apesar de tudo, valeu a pena a luta.

Porquê? porque se divertiu com a vida, porque cimentou, consolidou os seus princípios e, inclusivé, foi capaz de os transmitir a outros - jovens e menos jovens, capazes e menos capazes.

Um dia - e eu ainda vou ver - ela vai confirmar que vale mais ser optimista. O mundo do "diz que disse" vai continuar a passar-lhe ao lado e, embora lhe possa provocar mossas, o fim da estória desta aminha heroína vai ser uma garagalha. Força.

quarta-feira, julho 06, 2005

Água fresca

Tenho uma estória para vos contar de uma jovem com 24 ( ou serã0 26?) anos. Começa o dia a dar explicações de inglês e de mais não sei quantas coisas. Chega a horas para fazer o seu "trabalho" de devoção. Entusiasma a "populaça", com a sua alegria a vontade de viver. Nos intervalos, vai atendendo uns telefonemas e resolve problemas familiares. Ralha, quando perecebe que a companhia de seguros a está a enganar com as questões da morte do pai em acidente de trabalho e pemanece uma verdadeira Lady Di na hora de falar com uma vedeta de TV, da ciência ou tecnologia.
A estória fica para depois.
Boa noite. Sonhos de luta , um acordar ligeiro e água fresca!

FAZ DE CONTA /2

Era um bando, noutro canal. Augusto Mateus falava, falava, mas não dizia nada. Ao lado, Belmiro sorria e o sorriso do patrão lusitano dizia muito mais. Um deles era pateta, nem me lembra quem e de que é que era rico. Havia outro que não gostava de espanhois. Então não é que eles queriam o TGV em Badajoz! Oh! E porque eles querem...
Os espanhois estão a tratar da rede ferroviária deles e, naturalmente, de forma a prolongar-se para além das suas fronteiras. Eles não obrigam o pateta do senhor rico a ir por Badajoz para chegar a Madrid. O senhor pateta (que fazia sorrir o senhor Azevedo) pode, se quiser, ir por Marvão, desde que trate ele da linha e, depois, convença os espanhois em prolongar o seu devaneio: ir de TGV até Madrid.
Entretanto Augusto Mateus ia falando, falando e o senhor Belmiro ia sorrindo, reduzindo Augusto a nada. Depois, o próprio Belmiro de Azevedo mostrou o seu desagrado contra o projecto do comboio da modernidade. Nada contra o comboio mas contra o custo. Vir do Porto a Lisboa em menos de duas horas não compensa o preço. Pois não. Eu gosto de comboios e acho que qualquer comboio confortável que efectue o trajecto nas tais duas horas e meia que já efectuou, quando a linha não tinha ainda consumido alguns milhões em melhoramentos, é muito razoável. Mas a questão, e eu peço desculpa de não ser rico, não é essa. A opção por comboios de alta velocidade não é para chegar mais depressa à Malveira, mas sim às outras cidades europeias da Europa. E o comboio é bom para isso. Reconheço que pela nossa parte não precisamos de super comboios, mas precisamos de rede, precisamos de linhas e de tráfego regular que nos leve a nós e nos traga muitos visitantes de longe, de muito longe e que cheguem depressa. Porque da nossa parte, só temos de chegar à fronteira.
Sei do que falo. Já tomei o TGV genuino em Paris com destino a Lisboa. O dito sai e a primeira paragem é em Bordeus, qualquer coisa como seiscentos e picos quilómetros. Calma, nada de excitações. O percurso é rápido, umas três horas. Mas, depois, calma. Depois a ideia é despejar
gente pelas zonas balneares. Pára-se cada quarto de hora, até à fronteira, onde ainda não havia
nenhum comboio de alta velocidade com destino a Lisboa. Viaja-se uma longa noite por Espanha e chega-se a Vilar Formoso ao romper da aurora. Alguns dormem, outros conversam. Alguns sofrem.
Na maioria, os passageiros são portugueses, emigrados em França. Pelo caminho entram e saem
muitos espanhois. Os que ficam no comboio antiquado, habituados, habituaram-se e são gentis para os neófitos. Com o tempo e com a adaptação, trocaram o comboio pelo avião, até porque os preços aligeiraram no ar e agravaram-se nos caminhos de ferro.
Seja como for, o que está em causa não é ir mais depressa a Campanhã, pessoalmente só lá vou empurrado. A questão é saber se vale a pena criar condições para que se possa ir a Madrid, como quem vai a Braga, ou ir ver os filhos ou conhecer os netos a França, à Bélgica ou Suiça, do mesmo modo que (não) se vai a Fornos de Algodres.
Já na questão do aeroporto na Ota manifestamos (só me falta ser rico) o mesmo ponto de vista, eu na Net, ele no debate, não se deve trocar Lisboa. Ele defende que se deve dar mais espaço aos aeroportos de Faro e Porto. Nós por cá aceitamos a Ota, como complemento, ficando Lisboa como apeadeiro da comunidade europeia, durante o dia.
Havia outros senhores ostensivamente ricos, é verdade e deviam estar cheios de razão, mas não me lembro quem eram, nem o que é que disseram...

FAZ DE CONTA

De facto, é a falar que a gente não se entende. Foi só um pedaço. Ao fim do dia já não há paciência. Apanhei Vitorino no caminho e o assunto era o perdão das dívidas aos países africanos.O estratega socialista é um bom conversador, sabe do que fala e, sobretudo, sabe falar. E também sabe, olaré se sabe, não falar do que não deve. A jornalista, claro, queria empurrá-lo para a velha questão: os africanos passam fome, têm imensa Sida, quer dizer são imensos milhões com a doença. Mas têm líderes ultra milionários. E muita da ajuda internacional foi parar aos bolsos dos ditadores.
António Vitorino sorriu, com um sorriso muito simpático, disse um pois é, mas...
O que um simples mas, pode ser venenoso. A corrupção, explicou, não esteve apenas nos que receberam, também foi dividida por alguns dos que deram!
Pessoalmente sempre acreditei que a corrupção é como a água benta. Um corrupto teve de ser corrompido senão não é corrupto nem é nada.
Para dourar melhor a pílula ele acrescentou que, desta vez, o plano de ajuda humanitária terá observadores atentos. Se forem suficientemente atentos talvez possam compreender como um país com jazidas de diamantes e com petróleo tem gente a morrer à fome.

terça-feira, julho 05, 2005

Crianças

Parada, a sorrir, de carapinha em tranças, aquela criança, quando por ela passei, estendeu-me a mão. De olhos negros, enormes, a rir

Era uma rua de Lisboa, apinhada de gente.

E ela, ali, a olhar para mim. A mãe - percebi depois- conversava com uma amiga. Problemas, confidências, troca de esperanças. A pequenita estendeu-me a mão, pequenina!!!
Segurei-a e ela pôs-se a caminhar junto a mim.
Assustou-se, a mãe. Quase ralhou, mas, no ar, ficou, apenas um gesto, a surpresa. E veio o sorriso. A filha tinha, afinal, conquistado, com a sua simpatia, simplicidade e desejo de ver o resto da cidade, um estranho, um cidadão vulgar, encantado com o gesto: "vem comigo, leva-me contigo..."

É assim, a nossa cidade, sem lugar para recusas ao mundo, aos outros que chegam e partem. Ficam para ganhar a vida ou viver a vida connosco porque gostam de nós.Somos um porto virado a Sul, ao Sol. À vida. Festejemos e demos as mãos a todas as crianças. Ensinemos-lhe o caminho da ternura, da solidariedade. Elas saberão responder construindo uma cidade sem lugar para exclusões, para os tribunos do ódio, da fanfarronice, da arrogância, da pobreza de carácter.

Façamos das crianças da nossa cidade, de todas as crianças, a razão das nossas vidas. Depositemos em suas mãos não apenas o futuro delas mas o nosso presente. E assim nos sentiremos - todos - mais dignos delas e de nós também.

segunda-feira, julho 04, 2005

Questões de Estilo

Anunciei ontem que tinha pendurado as luvas. Recebi alguns telefonemas, uns tantos e-mails e, publicamente houve dois simpáticos membros da blogoesfera: LS, do Abnegado e Pindérico, do Só Palpites, lamentando o abandono que, segundo eles, eu anunciava.
Devo, seguramente, ter-me explicado mal.
Apenas anunciei mudança de estilo. Pendurei as luvas e vou tentar mostrar alguma habilidade para distribuir rosas, esperanças e sorrisos.
Ainda ontem, por exemplo, ao entrar em Lisboa, deixei-me arrastar pelo enlevo da luminosidade da nossa cidade e preferi maravilhar-me com a luz do fim de tarde a pensar noutras coisas.
Veio-me então à lembrança o encantamnento de uma velha amiga, habitante de outro país europeu, igualmente luminoso, mas que, quando chegava a Lisboa, se surpreendia com a sua própria irritação por constatar a existência de outros estrangeiros a gozar a luz de Lisboa.
Lisboa, espraindo-se na luz de um fim de tarde, sugere a descoberta de todos os encantos de mulher vivida, de menina atrevida, de mestiça de olhos doces e sorriso cumplice.
Lisboa, plantada de jacarandás e roseirais é um jardim de esperança que eu quero cultivar.

Outra Fase

Blogue. Foi uma ideia. Gira! Dá, aparentemente, uma certa capacidade de intervenção. Não nos ficamos apenas pela posição de espectadores...Óptimo. Mas, de repente, descobrimos que é uma espécie de masturbação intelectual. Quem lê não comenta e quem acredita não dá retorno. Quem anda à procura de ideias acha que as encontrou no quintal. E depois, vêmo-las florir, ali mesmo no jardim do vizinho, bem regado e adubado.

É giro, mas cansei. Das palmadas nas costas dos amigos, do sorriso simpático e das críticas cáusticas. "é só porrada, é só porrada!".

Estou Noutra.

Que me desculpem os parceiros aqui do lado. Vou virar-me para as coisas lindas da vida. Querem ver como é?

- " para quem estavas a falar com voz de cama...?
- .....???
- Sim, voz de cama, que bem a senti.
- ....???
- Escusas de olhar para o lado! Voz de Cama!!! Percebes?!
- Sabes, está na minha natureza: oferecer rosas, falar com voz doce, gostar que me respodam por enigmas, com sugestões. Está na minha natureza. Que fazer?
- ....????
- Cansei de falar de problemas sérios de denunciar a cáfila que vive aqui em cima de nós, a olhar para nós a sorrir para nós. Cansei de nós, assim, a aturar o carro do vizinho, o olhar da vizinha e adivinhar-lhe as intimidades...
-...???
- Está na minha natureza: gosto de rosas, de sorrisos, de beijos, nem que sejam apenas sugeridos. É tarde para voltar atrás... e tempo de seguir em frente.
-?????!!!!!

A parte deste blogue que me cabe é já outra. Pendurei as luvas.

domingo, julho 03, 2005

Narciso

Abro o portão, olho a relva, noto o excesso de sol, a falta de água. Desvio os olhos e reencontro o narciso. Assento os pés na pedra e deixo-me fascinar pelo amarelo . Poiso a mala e deixo-me enlevar. Parado, olho dentro de mim e descubro-me naquela flôr - tão frágil - ameaçada pela seca, sobrevivente, quase a gritar-me. De repente, noto, que além de amarelo, o narciso, que eu próprio plantei há meses, é também vermelho, um círculo, bem marcado.
Sento-me aturdido. Aquela flôr afronta-me.
Que fazer?
Recupero a mala, entro em casa. Procuro água, lavo as mãos, o rosto e ergo os olhos: no espelho está o vermelho do meu narciso, a rir do meu incómodo. Volto ao jardim e colho a flor. Coloco-a numa jarra com água. Tenho a certeza de que aquele vermelho desmaiará com o tempo.

sábado, julho 02, 2005

SONHOS DE VERÃO

Um aeroporto na OTA e um TGV na rua da Betesga. Foi um foguete para bulir com as almas penadas, para desviar os jornais das greves e dos aumentos que estavam a chegar. Era e é necessário retomar o caminho, antes que a Auto-Europa vá à vida. E como os tesos nem água bebem, a Espanha já começou a desviar o caudal do Tejo. Que fazer?
Habituemo-nos.
Lisboa dispõe de um aeroporto especial: literalmente dentro da cidade. Habitualmente considera-se essa situação desapropriada. Será. Mas no caso de Lisboa dá jeito. Diria melhor: no caso português dá um jeitão. Se a Portela pudesse ter um acessório escorreito na OTA seria excelente. Se o governo, encostado aos problemas económicos, quisesse reduzir a aerogare de Sacavém a uma espécie de estação de Metro-aéreo, isto é funcionando apenas para voos de e para a Europa, durante o dia, fechando à noite. E por falar de Metro, se a rede deste chegasse à Portela, por baixo, que festa seria!
A OTA podia ser uma realidade interessante, recebendo tráfego intercontinental e nocturno. Um aeroporto amplo, limpo, sem excessos de luxo.
Mudar pura e simplesmente da Portela para a Ota para um projecto grandioso, só porque é caro? Parece excessivo para os tempos que correm, tanto mais que aglutinaria necessariamente
outros investimentos em ligações rodoviárias e ferroviárias, deixando para trás outras zonas do país.
Aliás, para um país tão pequeno a rede ferroviária é estranhamente escassa e de má qualidade. Quem quis visitar a exposição do DN, relativa aos 140 anos de existência teria tido oportunidade de constatar o ritmo espantoso para a época da construção do caminho de ferro e a forma rápida como se expandiu. Com o fim da guerra 39/45 a industria automóvel, com lobbies poderosissimos pressionou os estados para o desenvolvimento das redes de estradas e auto-estradas, sempre e mais, sempre mais, defendendo que o comboio já não respondia às necessidades de desenvolvimento. Foram 30 e picos anos que quase puseram de lado o tráfego ferroviário na Europa ocidental. Até que a Alta Velocidade recuperou para o comboio o antigo fascínio.
Não foi ainda o caso português. A recuperação tem sido lenta. Fala-se por aí de TGV, mas sem referir que, por exemplo as ligações a Madrid ou a Irun se fazem por vias únicas. As linhas não suportam velocidades. Só devagar, devagarinho ou quase parado. A linha do norte tem troços melhores e dispõe de comboios capazes de ligar Lisboa ao Porto em 2 horas, claro que tem, mas a linha não dá. Em muitos casos não chega só mudar a linha, é preciso quadriplicar ou criar caminhos alternativos.
Há quase tudo por fazer. Por ora só podemos sonhar. Tempos houve que só de burro se levava a água ao moínho. Ainda assim e como estamos em tempo de férias, aproveitem um pequeno passeio pelo passado. Façam uma viagem curta pela linha do Tua e pasmem, que hão-de gritar de medo ao ver um minúsculo comboio a rir-se da ferocidade fascinante do Marão...

quinta-feira, junho 30, 2005

QUE NINGUEM BRINQUE COM COISAS SÉRIAS

O referendo sobre o aborto anunciado pelo senhor primeiro-ministro teve todo o ar de pílula do dia seguinte, talvez mais do que opção rectificativa. Quem não toma cuidado e não se precavê acaba por meter-se em trabalhos. A minha madrinha matava-se a avisar a sobrinha para ter juizo. Mas qual quê, a fulaninha gastava-se à fartazana e fartou-se e quando despertou era a crise. Tudo se resolveu pela calada. Com a prima foi pior, teve mesmo de ir a Badajoz, porque em Badajoz é mais barato. Se pudesse esperar mais umas semanitas podia ter ido a uma clínica das avenidas, que o dr. Correia de Campos pagava e ficava com a crise para ele.
Acho que sim. Acho que é melhor deixar o dr. Correia de Campos ir apagando as crises, pagando. Pelo menos até as presidenciais passarem. Não misturem alhos com bugalhos. Estão a ver um referendo sobre o aborto misturado com eleições presidenciais? Imaginem o que pode sair daquilo? No melhor, vai vai dar um presidente arrancado a ferros e um outro nado-morto...
Tenham cuidado. Não brinquem com coisas sérias, que só façam rir. Ele há coisas sérias que devem ser levadas a sério, muito a sério.
E o aborto (referendo sobre) é uma delas...

EDUCAÇÃO SEXUAL

Se há assunto que a Igreja, sobretudo a Igreja Católica, devia evitar é justamente o da educação sexual. De há muito que perdeu autoridade na matéria. E perdeu-a pela pior das razões. A memória das pessoas, e até dos crentes, não é assim tão curta. A Conferência Episcopal saberá que pouco se ganha em agitar as águas , até porque subsiste o risco de tombar afogado.
Podem e devem os cidadãos estar atentos, mas deve conceder-se ao Estado o dever de tratar da matéria de maneira adequada.
A tese de que compete às famílias decidir as orientações educativas que deseja para os filhos está eivada de preconceito e pretende, sobretudo, travar o processo iniciado pelo Ministério da Educação, opondo-lhe o fervor religioso.
Deve reconhecer-se, por outro lado, alguma delicadeza na elaboração do programa e nas formas de o desenvolver na escola. Do passado recente sobrou-nos alguns obscurantismo, muito do qual instigado pela Igreja, que ainda limita alguns dos adultos, pais de família. Mais difícil do que abrir as janelas aos meninos e meninas, durante as aulas, é acalmar o pudor dos papás e levá-los, a eles também à descoberta da forma primária da Natureza, muito escondida e diluida pela religião, que pode ser cristã por princípio, mas não pela prática. Deixemos pois que seja a Escola
a decifrar os mistérios que perpetuam a vida.

quarta-feira, junho 29, 2005

IMPUNIDADES

Se é verdade que todo o crime merece castigo, não é menos verdade que muito dele fica impune. Claro que há outras verdades. As verdades devem ser como as cerejas e, aqui, surge a primeira contestação: as cerejas ou são doces ou não são; ou são rijas e deliciosas ou moles e desoladoras. O principal problema com a Lei (com as leis) começa logo pela confusão entre o espírito e a letra. Nunca se estabelece um critério e as mais das vezes os próprios juizes se confundem entre ajuizar à letra ou interpretar o espírito. E não raro fazem a opção errada porque... claro,claro: errar é humano.
Era por ser humano que o senhor Chirac, quando era presidente da Câmara, pagava salários simpáticos a correlegionários, como se os ditos trabalhassem no município local. Daí não teria vindo mal ao mundo se os adversários políticos não fossem gente de coração empedernido e tivessem clamado pela Lei. A Lei é como o Sol quando nasce: é para todos, menos para alguns, bem entendido!
Estabalecido que as coisas são como são há que agir em conformidade. Uma das conformidades é evitar chatices. Há coisas de que não se deve falar. Justiça e política devem coexistir e nunca afrontar-se. Cada uma das partes não deve esquecer-se do que acontece quando o mar bate na rocha...
Tivemos recentemente dois casos muito badalados, em áreas diferenciadas. De uma vez o ministro Sarkozy clamou contra um juiz, o qual concedera liberdade condicional a um condenado e que este aproveitou para cometer um assassínio violento. O ministro ameaçou mesmo ir agir contra o magistrado. Villepin ainda deu um bafo qualquer sobre a independência da Justiça, recado do senhor de cima, o presidente Chirac. Ocorre-me uma velha história que me contou um poeta madeirense sobre uma curiosa afirmação que um tribuno proferiu numa assembleia da região sobre uma daquelas coisas de que se não fala alto e que é suposto ser muito do agrado das senhoras:«Meus senhores, não sei como é, mas a verdade é que todos os dias aparecem feitos, na Madeira, duzentos, eu faço dois, quem é que faz os outros?»
Isto para acentuar que ele há coisas de que se não deve falar. Os erros de juizes não são erros da Justiça, são erros humanos. É dever de quem governa agir de forma a corrigir, mas fazê-lo sem alarido. Pode empandeirar o juiz um serviço qualquer mais chato ou exigir a abertura de um processo. Ao desautorizar o seu ministro Villepin fez pior: recolheu a ira popular e alargou o populismo de Sarkozy.
O segundo caso, mais recente e mais próximo, ocorreu no aeródromo de Espinho: uma avioneta embateu num automóvel. A história em si é horrenda e inadmissível, mas aconteceu e aconteceu porque numa pista que foi militar e já não é mas que possui a peculariedade ser atravessada por estrada. São absurdos que restam do passado e hoje em dia já não se aceitam. Por isso mesmo, o acidente é da responsabilidade do Estado. Claro que o Estado tem que olhar para o senhor culpado e ralhar com ele. Ora o que o estado permitiu é que alguém tido por responsável pela aeronáutica interna falasse não para explicar fosse o que fosse, mas para dizer barbaridades dignas de qualquer interno do Júlio de Matos. Dizia o senhor que a pista de mil e quinhentos metros só tinha 460 metros. A estrada que atravessava a pista não atravessava nada, porque a pista já tinha acabado. Vejamos: a ideia era explicar que a passagem da pista militar para a parte civíl, retirava um quilómetro e assim sendo o aeroclube ficava com 460 metros de pista, uma
estrada e outra pista, ainda maior, sem utilização. Dizia a criatura do Estado que a estrada, sim senhor, os aeroportos também têem estradas no fim das pistas. Foi ele que disse, e não tinha ar de estar a brincar. O Estado ficou a saber (e nós também) que tem um tipo a mais e que devia começar por ele a redução do défice. Este artista ainda foi pior que a ministra, que quis riscar os Açores do mapa lusitano. Um lapso de linguagem pode corrigir-se, é mais discutível quando se pretende ostensivamente tapar o Sol com a peneira...

segunda-feira, junho 27, 2005

GENTE FINA

É bem verdade que se vê mais da outra, da grossa. E nem me refiro aos das quintas, prefiro perder algum do meu tempo com os mais badalados nos fins de semana. Devo começar por reconhecer que não sendo quinteiro, vivo num quintal. É aqui que leio os jornais e evito, tanto quanto posso, as televisões. Li a indispensável análise às audiências televisivas. Não vi nenhum dos programas mais vistos e nem um dos menos mirados. Desisti de ver a programação porque não suporto a publicidade. Mesmo os telejornais, que ainda vou vendo, acabam para mim, quase sempre, logo que entra a pub. Em casos de interesse especial, vou saltitando no Cabo até retomar um dos noticiários, mas são poucas as vezes.
Por isto mesmo é que me dei ao incómodo de ler a entrevista com o responsável pela Informação da SIC. A primeira impressão/informação que retive foi a de que o senhor em causa é mentiroso ou, se preferirem não fala verdade. A rábula mais evidente: «Noticiário dura o tempo que as notícias exigem" é tudo menos verdade. Dura mais, muito mais e dura mais por mór da publicidade. Para justificar tanta pub em horário nobre é preciso encher o chouriço e para segurar o telespectador é preciso pintar alguns quadros com cores de tragédia ou intriga brejeira. É justamente disso que se foge ou que fogem pessoas como eu. Quero crer que, no mais o director de informação da SIC, tenha eventualmente razão e não seja preciso duvidar da preferência por integração e não fusão de redacções ou que as relações entre as criaturas sejam óptimas, com certeza, ainda que a comissão de serviço de Cândida Pinto no Expresso deva ter alguma água no bico...
Albarran consegue outra primeira página no DN. As suspeitas do Mninistério Público nos «offshores» do antigo homem da TV são o destaque da edição. Mas a segunda, senhores, é sempre tão difícil! É claramente forçada a preciosidade biografada do suspeito. Desde a alusão
a «o revolucionário que abraçou o capitalismo», no caso do assalto à embaixada de Espanha ou
outra mais delicada «a relação com Maria Elisa passou pela realização de um documentário sobre a Europa». Discreto. Bom o jornalista bem podia servir-se do exemplo para descrever o período revolucionário do pasquim, onde trabalha, no pós 25 de Abril e como ele é hoje em dia... Quem tem telhados de vidro deve evitar as pedradas. Não é a notícia, em si, que está em causa. Os personagens televisivos, por mais isto ou mais aquilo, são um pouco como os que encheram a crónica de Fernando Alves, gostam de massa e isso às vezes faz mal à linha...

domingo, junho 26, 2005

Independência Nacional

Ouve-se o ministro da defesa (é assim que se chama?) a dizer que a actual crise económica tem tais consequências que pode colocar em risco a independência nacional e assustamo-nos - seja isso o que fôr.
Meditamos sobre o significado da expressão e desesperamos - seja isso o que fôr.
Porque, a verdade é que nada já quer dizer alguma coisa.
Os políticos - sejam eles quem forem - vendem-nos, sistematicamente, o melhor -mesmo as gravatas que usam e nos mostram na televisão.
E nós acreditamos: a União Europeia! boa. Podemos andar de um lado para o outro, trabalhar aqui e ali, ver as loiras e os loiros, combóios, espanholas, Paris.
Constituição europeia - uma "nice" - todos iguais, todos diferentes.
Nada disso - dizem os políticos . Como assim? Então, não são os mesmos direitos, as mesmas obrigações, não somos todos iguais, bonitos de gravatas garridas, camisas côr de rosa e elas de vestidos transparentes...? Afinal, a vida não é o paraíso na terra e , depois, logo se vê, o que vier virá?
Não!!!!! A França recebe 25 por cento de todo o orçamento da PAC. Portugal não vê um centavo e corre o risco de ter que contribuir para aí com uns 10 milhões de contos por ano para o orçamento geral da tal PAC.
A Inglaterra recebe anualmente um cheque de compenssação que já ninguém percebe o que significa e , entretanto, a China exporta gente, tecidos, louças, peças de automóveis, CD's e tudo o resto, pagando malgas de arroz a dividir por dois ou três trabalhadores.
Os Estados Unidos, com aquele estúpido a mandar nas tropas, fazem guerras e aumentam a capacidade tecnológica - competem com todo o Mundo em termos que ninguém tem capacidade para perceber ou acompanhar, mas, ao mesmo tempo, multiplicam o número de habitantes dos vãos das pontes.
Das vinte universidades de topo em todo o Mundo apenas duas são europeias... A India licencia mais gente que toda a Europa junta
E mais quê?
É fim de semana. Passei uma semana a tentar resolver problemas insolúveis - alguns não eram tanto assim - deixem-me, agora, não ir mais longe na nossa desgraça.
Apenas quero, em cima destas preocupações todas, apontar uma nota: há mais de trinta anos que a Europa anda a fazer de África - sobretudo -, mas também da América Latina, uma espécie de caixa de reserva para os movimentos menos claros, para as corrupções escondidas e mais lucrativas.
É verdade que os governos africanos são corruptos. A sério! Mas, onde começa a corrupção que os alimenta (alguns dos responsáveis, eu sei, nem sequer sabiam assinar um cheque) ?Nas capitais europeias. E também em Washington. Os africanos ficam com uma mísera parte do jogo da corrupção.
Os políticos europeus não perceberam que uma ajuda ao desenvolvimento a África e à América Latina, concebida em termos correctos, sérios, teria construído uma aliança capaz de oferecer resistência a estes ataques muldireccionais e diversificados, responsáveis pela actual crise económica e política deste velho continente, convencido de que o seu modelo social serviria de exemplo para todo o Mundo, e agora posto perante a triste realidade de ter que admitir a impossibilidade de lutar por ele, mesmo intra-muros.
Independência nacional. O que é isso? perguntam as novas gerações a quem se dispensou do serviço militar obrigatório e a quem se prometeu a Europa toda para passear?

sexta-feira, junho 24, 2005

SÃO CONTAS

Jorge Sampaio, na pele de Presidente da República, foi hoje severamente julgado no editorial do matutino da avenida da Liberdade. Não foi simplesmente criticado por opinião expressa. Foi julgado e asperamente condenado. Foi aparentemente a reacção da banca à censura presidencial da véspera. A deixa dos dirigentes da social-democracia, ao acusar Sampaio de favorecer os correlegionários, foi avidamente aproveitada e o inquilino de Belém surge como um socialista mais, e nessa condição, responsabilizado pela hecatombe económica, porque em devido tempo não soube travar os desmandos dos ministros da área das finanças dos governo de Gueterres.
Agora compreende-se melhor o azedume da banca, quando os negócios marginais ou, no mínimo pouco claros, são revelados ou comentados. Não só e apenas não apreciam como parecem agora, mais do que nunca, apostados em não tolerar intromissões ou críticas a actividade sanguessuga, a dar crédito à informação do mesmo jornal que refere amplos pormenores sobre diferentes formas de crédito bancário mais ou menos expedito com taxas lucrativas acima dos 25%, por operação. Não tenho nada contra. Nunca me emprestaram e que saiba não obrigam ninguém a pedir. Claro que não são obrigados a exorbitar. Fazem o que se lhes permite. E sobre o que se lhes permite, muito boa gente da governação podia e devia ser interpelada.
Mas ele há maneiras de interpelar e de assumir as dores alheias. Como há maneiras de ler e entender um jornal. Em 140 anos de actividade o jornal variou e inflectiu algumas vezes. Saltar de Século, da monarquia para a república, da ditadura para a democracia é muita fruta. É, pois natural que tenha alterado ou variado a linha editorial. O vento tem muito a ver com a opinião.
Tempos houve em que a opinião era controlada. Com Salazar a censura era oficial. Os jornais podiam exibir «visado pela Comissão de Censura». Marcelo (padrinho) aligeirou para «exame prévio». Com a democracia instalada terminaram tais inibições. Cada orgão de comunicação social é livre de expressar convicções (apetecia-me ter dito "quase livre", mas não disse). Livre de determinar a linha editorial, que pode alterar sempre que entender ou quando mude de patrão. E até pode optar, se assim o entender, preferir editar uma linha de crédito, provavelmente melhor remunerada. Mais rentável que a mera análise político-partidária. Afinal que diferença haverá entre abater uma porção de sobreiros ou um presidente? Por mim, não sei. A Banca que diga...

quarta-feira, junho 22, 2005

O CONTO DO VIGÁRIO

Era um tipo simpático. Conduzia um carro vulgar. Abrandou próximo e foi dizendo: "Então pá! Como vai isso?" E foi acrescentando as lérias do costume: "aos anos, pá! Como é que tu vais?" Eu ia para a exposição do DN, zangado porque não dava com o sítio e sem vontade de perder tempo a falar com um gajo que não me dizia nada, de que não me lembrava de todo. Ele falou-me de um filha, acabadinha de chegar da Suiça e que ia montar um restaurante e ele queria convidar-me, e queria oferecer-me isto e aquilo. Era, claro, o conto do vigário banal. Mas eu, chico esperto, não percebi logo. Só quando ele me mostrou, cheques e papeis, não sei de quê para as criancinhas é que dei pelo que estava a correr.
Escapei no sábado, mas não escapei hoje. Na net estava espaparrachado que a RTP-I ia dar o Argentina-Alemanha, as 19-45H. Ia dar o Telelixo às 21 e picos. Não deu. Á hora do costume vendeu o concurso abominável, que costuma vender e logo a seguir o telejornal. Na Televisão portuguesa os telejornais são, em si mesmos, o conto do vigário mais sujo que o do bilhete premiado. Aquilo é papel manhoso para embrulhar publicidade. No caso da RTP a trafulhice é mais descarada porque o canal não só nos lixa a paciência com toneladas de pub, como ainda vai
sacar uma parte da taxa que os incautos se vêem obrigados a pagar, como se fosse destinada à RDP.
No Cabo, quandi liguei o primeiro canal, lá estava faixa com a indicação: «19H45 futebol( pois, pois),às 21H30,Telejornal», isto já depois da 20 horas, já com o telejornal no ar. Nem sei a que horas transmitiram o jogo em diferido. Não vi, nem era para ver, mas tinha gente em casa que queria ver. E o que eu vi foi o que não queria ver: o dircurso da tanga todo vestidinho!
Dir-se-á que são coisas sem importância, e se calhar são! Nomear mil e tal criaturas para cargos de confiança política se calhar também não tem importância, sobretudo se montes gente caiu no desemprego. Ver os de fora apontar-nos o dedo, a dizer: porra, que vocês são burros! E ter de engolir, Imaginar que finalmente os de fora vão indicar o caminho, um caminho com quase nenhuma segurança social, para velhos e desempregados, para empregados que ganhem pouco, um caminho de regresso ao passado. O cheque de mr. Blair há-de ter cobertura; a agricultura francesa terá colheitas prósperas, enquanto os 25 vão progredir e crescer e crecer até serem seis ou sete.
O sr. Coelho, quando a ponte caiu, disse que com ele a culpa não morria solteira e saiu porta fora.
E, agora, com ele por perto, o IVA caiu para cima, a moral das tropas afunda-se, o desemprego vai crecer, os preços upa, upa, as reformas mais afastadas, com tudo isto, o mais certo é a culpa vai-se casar e o sr. Coelho poder ficar em paz com a sua dele consciência...
E com um bocadinho de sorte não vou estar cá para ver...

SOMBRAS

Abatido? Ora, como havia de não estar. Triste? Não sei, cheio de rancor, isso sim, de raiva impotente. Chegou pelo telefone a notícia-choque: morreu no México, assassinada!
Era parisiense. Passou por aqui pelo aniversário da minha neta. Encheu sózinha o crocodilo para a catraia usar na piscina. Era a namorada do rapaz e jovem como ele. Continuaram ligados mesmo sem namoro. E voltei a vê-la algumas vezes mais por Paris, quando calhava ir lá. Uma vez foi de férias ao México e ficou encantada. Voltou e regressou ainda mais magnetizada. Deixou o emprego, fez o saco e abalou.
Ontem à noite alguém a assassinou, ainda não sei como nem porquê. Saía do trabalho e ia ter com amigos. Não sei pormenores, mas não foi no comboio, nem na praia. A violência urbana é como o tráfego rodoviário, de súbito trás!
Mas doi quando quem vai no carro é dos nossos ou quando a violência nos atinge, com um oceano de permeio.
Não saber que fazer, nem como reagir. Sei lá... ir para o Martin Moniz gritar pela exclusão deles, mas nem deve haver mexicanos por aqui. Que fazer do ódio senão recalcá-lo. A violência que nos chega pelos jornais assemelha-se à que vemos pela televisão em filmes velhos ou séries novas. Pelo telefone e quando nos toca por perto é mais amargo, até porque nos damos conta da ameaça que nos rodeia. Valerá a pena discutir se os genéricos sim ou se os genéricos não? Quando dava sinal de si parecia bem na sua pele, tinha encontrado o seu canto, nem precisou de votar não. O que é que uma pessoa tem deve fazer para ter direito a um pouco de paz?
Desculpem o desabafo. Eu sei que habitualmente só se discute o direito à vida quando se julgam criminosos...