Este é um espaço de opinião assente em convicções e de análise baseada em factos, alguns tornados públicos e credíveis, outros de conhecimento restrito, mas cuja credibilidade asseguramos, por razões de natureza ética e deontológica.
terça-feira, julho 26, 2005
IDA E VOLTA
Depois do governo tirar os projectos da cartola, não tardaram os que só viam batota. Depois veio a verdade, mas nem por estar calor ela veio despida, veio simplesmente mascarada. E claro, também fora de tempo. A doze anos de vista. Noutro tempo, por acaso de crise, o comércio
lutava apoiado na paciência de fornecedores. As letras iam-se distanciando e não tardou a ir-se para lá dos 90 dias, desdobráveis e reformáveis. Um dos vendedores conformados costumava dizer, após venda: «e letras a perder de vista!»
Na actual conjuntura é precipitado imaginar hoje um aeroporto ou um comboio de alta velocidade para daqui a dez/doze anos. Não se trata de ser um bom projecto ou mau. Antes de se avançar para projectos dessa dimensão temporal, há antes de mais de arrumar a loja. E arrumar a casa implica conhecer a rota da guerra suja. A tendência, a partir de amanhã, será a de amainar ou, pelo contrário, alastrar?
É certo que depois do atentado às torres gémeas, a aviação comercial apertou as malhas de segurança, mesmo assim, seguiu-se um período de recessão. O ataque recente a uma estância de veraneio no Egipto abre alguma expectativa na actividade turística. Sem turismo a aviação comercial perde pujança. Mesmo de TGV não se pode ir muito depressa para o México, ou no nosso caso, mais para os lados da Baía. E como já reconheceu muito boa gente o TGV só para ir ao Porto, não resolve nem acrescenta. Isto para não colocar em causa a própria segurança dos comboios de alta velocidade. E lembro, a propósito, a Espanha e a Expo de Sevilha. Estendeu-se a via férrea para o comboio veloz, mas os condicionalismo recomendaram alguma contensão e nada de altas correrias. Pelo menos uma tentativa de sabotagem foi abortada a tempo. Mas, e agora ao contrário, era outro tempo. Ainda Bush não bugia, Bin Laden estava placidamente e realojar a população do Afeganistão na Idade Média e o terrorismo em Espanha tinha uma componente caseira. Mesmo assim, optou-se pela prudência.
O País não pode parar, não deve parar, nem passar o tempo a olhar para o lado. Pode e até pode acreditar que deve, avançar com a OTA. Mas pode igualmente ser mais comedido. Imaginar na OTA uma componente do aeroporto de Lisboa, com boas pistas e instalações tipo leggo, pré-fabricadas, imitando o Marquês, que inventou o sistema para as janelas e portas do prédios da baixa pombalina. Qualquer coisa de limpinho, que poderá aumentar-se, alterar-se ou modificar-se com o andar da carruagem, deixando a Portela, aliviada e sem necessidade de mais dispêndios.
E, bem entendido, nada impede que paulatinamente não se vão estudando os futuros trajectos de vias férreas, designadamente uma ligação ferroviária à OTA, que se prolongue para lá dela, para quem chegue não tenha forçosamente de vir a Lisboa. Ele há coisas que se podem fazer ou ir fazendo. Parado não se resolve, mas andar com os pés assentes, olhando com atenção para os lados de onde soprar o vento.
Não faço ideia se será legítimo perder tempo a discutir o comboio veloz ou os aeroportos do futuro e do presente, enquanto se choram as vítimas do terrorismo, incluindo o brasileiro, afinal tão infeliz como os outros infelizes, mas já que citei o Marquês, acho que alguém (alguns) já devia ter dito como ele: «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos».
Este ano, se for de férias, não irei além de Fornos de Algodres ou Freixo de Espada à Cinta, se entretanto a coragem não me faltar...
Jamila
Que conta? Cai-lhe, agora, que quase já passou uma vida, outra vida para viver, a da Jamila, filha de pais guineenses e a quem se propõe integrar no Mundo com todas as suas valências.
Bem Vinda, Jamila!
segunda-feira, julho 25, 2005
A MEDIOCRIDADE GENERALIZADA
E por ser mal globalizado, tropeça-se nela tanto num parlamento como na praia, tanto a ministrar ciência numa universidade como a comandar exércitos de patriotas a tremer de medo.
Mas não é a essência da pessoa humana. Aparece em todo o lado porque ao homem é dada para viver uma vida mediocrizada. Causa preocupação, porém, pensar-se que é a partir desse caldo de insuficiência que nascerão muitos dos homens de amanhã. O tão desejado homem - novo ninguém sabe o que será, tal como ninguém sabe o que será o futuro deus-novo que esse homem construirá.
Nadamos, portanto na ignorância, de arma na mão a matar inocências: a gente atónita que vive sem saber para quê e morre matada sem saber porquê. No meio da mediocridade que pula e avança como bola colorida nas mãos da abastança.
Marques Mendes
O, hoje, irriquieto periquito do PSD enganou muita gente, e a si também. Não se percebeu que muito do prestígio que conseguiu juntar se deveu ao uso, que pareceria inteligente, do silêncio. Metido no meio de uma salgalhada de araras, a sua meia dúzia de centímetros, de aspecto pensante, quando abria o bico emitia o som da ponderação, da palavra com alguma medida.
Puro engano, a parcimónia no verbo talvez se devesse a falta de banco para chegar ao microfone, ou à ocupação de todo o espaço sonoro por parte das araras. Contudo, chegado a presidente das pássaras, nunca mais se calou. E como tem pouco a dizer, por não saber que dizer, repete, repete-se, repete as araras. Começou log a exigir, talvez nem um mês depois de o governo tomar posse - reformas estruturais, reestruturação da Administração Pública e tarefas daquelas de dar graças a Deus se dentro em poucos anos estiverem acabadas.
Depois virou-se para as araras socialistas, de quem copiou o que elas andaram a dizer, durante seis anos, do governoBarroso/Manuela/M.Mendes. E anda agora pela intriga política a fingir que faz política.
Elevou-se assim, em escassos meses, a exemplo acabado de mediocridade confortavelmente instalada. Em todos os centímetros cúbicos do seu escasso volume.
Tony Blair
Blair, na sua ambição de marcar pessoalmente a história, deu a entender com muita frequência que desempenhava um papel importante ao lado de Bush porque era um elemento moderador da gana imperialista de G.W.B.. Mas por palavras travessas, propósitos sugeridos apenas.
Afinal quem travou o presidente dos Estados Unidos foi a realidade. Mostrou-lhe, no concreto, que o seu país não conseguia suportar, sozinho, duas guerras. Como se gabava.
E pô-lo em aflição, mesmo ajudado, só numa. Afeganistão e Iraque estão como estão e Bush, quando se vir, se se vir, livre delas bem pode agradecer o favor ao seu deus privativo.
De certeza que perdeu a vontade se se meter noutra.
Em consequência do que, ao fim e ao cabo, Blair, em vez de se assumir como agente de moderação acabou num vulgar político de copiação. Copiou de Bush as vontades, de olho no aproveitar-se delas, e , agora, já lhe leva as palavras.
Quando, há dias, convocou o mundo para a luta contra a "ideologia do mal" não fez mais que utilizar a divisão da política e dos políticos em dois eixos: o do bem e o do mal, da autoria do chefe da Casa Branca. Pelo menos divulgados por ele.
E copiou tão bem copiado que não conceptualizou. Palavras à toa, lançadas para produzirem efeito sem dizerem nada. O que é isso de "ideologia do mal"? Quais são elas?
A que pôs bombas em Londres ou a que pôs Bagdad a arder?
Isso do bem e do mal, na boca dos políticos, é fala como a dos vendedores de banha da cobra. Que Bagdad e Londres, salvaguardada a distância entre uma enorme desgraça e uma pequena tragédia, foram obra da cobra - ninguém duvida. Por bem ninguém mata indiscriminadamente. Mas isso são coisas fáceis de explicar - desde que se fale em língua de pessoa, o que não acontece com as cobras nem com a mediocridade, política.
As cobras silvam e a mediocridade esmera-se na arte de fugir à verdade. Ou, se se quiser, na capacidade de silvar mentiras.
Feytor Pinto
É um senhor padre simpático. Talvez também do clube do padre Melícias e tudo. Além de simpático julgo-o de cultura avançada, prelados para quem o tempo de Copérnico e da sua mania de que a Terra não era o centro do universo já lá vai. Até o tempo do criacionismo, o tempo da vida ser criada e não matéria evoluindo, também lá vai.
Agora a ciência já fala, abertamente, na´"árvore da vida", na origem comum de tudo o que vive. E os padres cultos não podem, pelo menos não devem, ser indiferentes ao que a ciência diz.
Sem ninguém me ter encomendado o sermão, ouso avançar com a ideia de que, hoje, o grande problema da Igreja é o de descobrir, no espaço e no tempo, um sítio onde meter Deus na carruagem que carrega a vida há uma infinidade de milhões de anos. Daí que pense que os padres da minha simpatia não são alheios, porque cultos e modernos, à incerteza que a "árvore da vida" levanta. E à hipótese de o Deus que houver morar infinitos quilómetros para trás da Bíblia.
Um dos ramos do ramoso jardim de J.J., A declarou, em som para vir nos jornais, que os madeirenses também são segregados, marginalizados e mais coisas dessas - no continente!
Como filho de madeirense, confirmo.
Pelos meus oito anos, passeava eu de bóia pelo Oceano Atlântico, quando um sujeito, a quem chamavam o Semelha, me expropriou o objecto daquele meu consolo infantil.
- Não tem vergonha! O filho de um madeirense metido numa bóia. Suprema segregação. De troda a criançada a banhar-se transcontinentalmente no oceano, eu, por ser filho de madeirense, deveria ter sido, naquele momento, o único obrigado a beber litros de água até pôr o pé em terra.
Água salgada, se bem me lembro.
Segregação Nacional
Mas o tal ramo ramalhal jardínico tem, também, toda a razão num outro sentido: o político.
É que é evidente a segregação de se sujeitar a população da Madeira a um patronato do calibre de JJ,A.
A Ilha, a patriótica terra dos muitos patriotas de que fala a história, bem merecia mais respeito da democracia.
Quer dizer: dos democratas continentais que têm a obrigação, CONSTITUCIONAL, de fazer com que a democracia funcione em todo o Portugal. Também na Madeira, portanto.
Mas não fazem. Tiraram a bóia à Ilha e deixaram-na a boiar no meio do Atlântico como se uma criança que cometeu o crime de ser filha de madeirense.
sexta-feira, julho 22, 2005
HOJE HÁ ÍNCÊNDIOS
À falta de melhor começou a servir, também, para contestação política, para suspeitar de interesses suspeitos, das madeiras queimadas aos aviões de combate às chamas. Cada governo novo trazia mais meia dúzia de bombeiros, seis postos de vigilância e uma grande fé em novos aviões. Algumas cabeças tiveram de rolar, outras foram e vieram. E tudo continou como dantes.
Nenhum governo assume ou assumiu a responsabilidade de agora ou a irresponsabilidade do antes. À vez, a oposição acusa o poder, numa cadência de alcatruzes da nora.
Mas há, de facto tem havido, responsabilidade de quem governa, responsabilidade da administração pública, sobretudo por falta de combate eficaz às causas que provocam e alimentam os incêndios. E, curiosamente, agora que estamos à beira de eleições autárquicas, convirá lembrar o desleixo que as câmaras do país mostram pelo estado das matas e terrenos baldios dos seus concelhos.
Portugal não é um país agrícola. Será, quanto muito, um país com alguma agricultura e muita, muita terra praticamente ao abandono, autênticas lixeiras de combustão fácil.Por si mesmo, os pinhais ou eucaliptais já são uma espécie de risco, cuja exploração não envolve, como devia, cuidados adequados e obrigatórios, geridos quase como ao abandono e com a mesma margem de risco. As autarquias não ignoram esta realidade, mas têm dificuldade em combatê-la, tanto mais que o Estado não as força a agir.
Sabemos todos que nos outros países onde a lei é mais drástica e a responsabilidade mais distribuida, os incêndios não acabaram. Pois, não. Mas abrandaram. Por todo o lado há doidos
incendiários, mas, noutros lados, têm menos facilidades e, provavelmente, mais severa punição, o que também contribui para diminuir os atentados à Natureza. E temos ainda uma motivação extra para nos dispormos a ajudar a Natureza: debelamos a seca...
quinta-feira, julho 21, 2005
A noite
quarta-feira, julho 20, 2005
LIBERDADE TINGIDA
Sendo certo que como liberdade de imprensa se entende a de toda a Comunicação Social, a interrogação é alargada na mesma medida.
Subentende-se que sejam liberdades comuns e óbvias: expressar opinião, criticar as opiniões alheias, recusar limitações a estes princípios e denunciar as violações dos direitos de cidadania.
Não deixa, por isso, de ser curioso que o DN, de hoje, surja a relembrar acontecimentos do Verão de 75, que envolveram a rebelião dos tipógrafos do «República» e do envolvimento do PS, que acusou o PCP de assalto ao jornal.
Os factos descritos dão bem a imagem da situação confusa que se vivia nesses tempos acalorados e se, por um lado, deixam sobressair o dr. Mário Soares, por outro, a avaliar pela súmula, deixam algumas interrogações sobre a responsabilidade dos comunistas de Álvaro Cunhal e isso apesar do DN, ele próprio à época, estar sob tutela comunista e após a «lavagem» da redacção. Como também não se faz com clareza a revelação de que o vespertino, que foi um símbolo de resistência ao fascismo, era de facto e de modo claro pró-PS.
À distância, ainda hoje estou em crer, que ao acabar como acabou, o «República» salvou-se da desdita de se ver reduzido a orgão partidário.
Quem melhor emergiu de todo o processo foi o dr. Mário Soares. E a Esquerda começou aí a perder. O que perdeu a Esquerda não foi o ser de esquerda, mas o estar tão ferozmente dividida.
Soares deu ânimo aos silenciados à direita das esquerdas e foi assim que, de repente, PS engrossou de democratas, digamos assim. O «República» não voltou. A gestão do DN seria entregue ao PS, não se esqueçam! E a do «Século» ao PSD.
Mesmo com Manuel Alegre a afiançar que o «Século» não podia acabar, o jornal lisboeta encerrou. Mandava quem podia e quem podia mandar refugiava-se na legitimidade democrática.
Quando chegou a sua vez, Cavaco vendeu os jornais e as rádios e abriu as mãos à televisões privadas.
É este DN que também hoje levanta dúvidas sobre a estabilidade do partido no poder. Num texto de opinião, António Peres Metelo critica o ministro das Finanças, para insinuar algumas desavenças no seio do governo. Seja como for, é um texto de opinião. O mesmo não acontece com a chamada de primeira página para a entrevista com Freitas do Amaral, a inserir amanhã, muito mais terra a terra no desígnio de publicitar algum mau estar nos corredores do governo. De Luanda o ministro dos Negócios Estrangeiros considerou abusiva e vergonhosa a «habilidade» nas escolha de termos usados na entrevista, mas colocados fora do contexto.
Será que o matutino regressa ao envolvimento activo, não direi político, mas porventura económico?...
Casa de Doidos
terça-feira, julho 19, 2005
LER JORNAIS É SABER MAIS
Li sôfrego, mas aquilo não era notícia. Era um comentário desastroso e não revelava rigorosamente nada. A notícia era da véspera e na véspera os jornais da tarde tinham feito sucessivas edições. Na manhã seguinte o DN comentava na primeira página e remetia para o interior o relato dos acontecimentos. Fiquei pior que estragado e jurei não voltar a comprar o pasquim.
Nem percebi se o articulista era estúpido, vaidoso ou se estava a rebolar de gozo. Não dava para entender. Se bem que um pequeno pormenor me chamou a atenção: «que dura e terrível lição para o moço príncipe que hoje começa tão imprevista e abruptamente o seu reinado! Oxalá o destino lhe seja mais favorável e os fados lhe corram mais propícios! Nada porém ajudará melhor a cumprir a altíssima missão em que subitamente se vê investido, do que o amor entranhado pelo seu povo e o respeito escrupuloso pela lei e pela liberdade».
Eram outros tempos. Os «assumptos» tinham outra importância. Ainda não se praticava a semana inglesa. Podia já ser um atentado suicida. Podia ter sido no Terreiro do Paço, depois do almoço do pistoleiro no Rossio. A tempo dos jornais da tarde darem a notícia, com grã cópia de
pormenores. No DN, neste, nada. Nada sobre o local, a causa, as horas, nem o como, nem o porquê, nem o quem.
Foi chato. Uma coisa é ter dado a matéria na escola, ter lido versões sobre a maquinação de eventual seita radical, outra o gozo de ler a notícia, nas páginas que tenho andado a ver desde 1864. O tempo passa a correr. Ainda me parecia que tinha começado no mês passado e já íamos em 1908, no segundo dia de Fevereiro, imediato ao regicídio. Perdi a fé no que me vão dar a ler daqui a «dois anos», em Outubro...
Hoje fingi que estava distraído e comprei o DN! E não é que era já do 5 de Outubro que se falava, na edição de 6 de Outubro de 1910. Sim, senhor, o país tinha sido «libertado»! Às onze da manhã
fora proclamada a República, na sala nobre dos paços do município. Cinco gravuras tipo passe mostravam o Dr. Joaquim Theóphilo Braga, que presidia ao governo. Como de frescos que eram
ainda não tinham complexos e anunciaram como ministro do Interior, o 2º da lista, o Dr. António José d'Almeida, cuja imagem evidenciava um homem determinado, de testa alta, bigode de pontas retorcidas e pera discreta. O Dr. Affonso Costa. Não, não era gago, eles é que escreviam assim mesmo e hoje nem sei se era forma gramatical ou pedantismo neo-modernista. Seja como for passou a ser ministro da Justiça. Para a Fazenda foi Bazílio Telles, que pelos vistos não era Doutor! Para a Guerra (dizia-se assim) António Xavier Correia Barreto, também sem Dr., o qual devia ser um teso e de família discreta, porque não tinha nenhuma letra a mais no nome, nem consoante nos apelidos!
Outro nome plebeu, sem ornamentos ortográficos, foi nomeado para outra pasta bélica, a da Marinha, era ele Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Para as Necessidades foi (deve ter ido se o ministério já fosse ali) outro ilustre Doutor, Bernardino Luiz Machado Guimarães. Outro Luiz, com zê, com Doutor e tudo, foi para as Obras Públicas e era ele um tal António Luiz Gomes.
Enquanto isso, o sr. governador Civil anunciava que «Ordem e trabalho» era a divisa da Pátria
(trabalho aparece com minúscula e vá lá saber-se porquê!) libertada pela República, enquanto «Pátria e Liberdade» surge como lema...
"Depois da proclamação sentiu-se como que um uníssono grito de entusiasmo".Oito séculos de monarquia tinham-se evaporado. O governo provisório da República saudava as praças de terra e mar que «como o Povo instituia a República, para felicidade da Pátria e confiada no patriotismo de todos»...
Onde é que eu já vi este filme?
Com alguma sorte, talvez, este fim de semana já devemos poder assistir à primeira Grande Guerra, a que se deve seguir o 28 de Maio, tão aguardado!
Mas seja como for é pena que o DN não tenha elaborado uns cadernos especiais, sobre determinadas matérias, apenas com informação noticiosa da época, com base no sumo das notícias, incluidos no jornal ou pagos à parte. Na manhã de 5 de Outurbro o DN pôs na rua pelo menos 4 edições especiais.O «filme» da queda da monarquia, visto à distância, teria sido um sucesso editorial. Retive no matutino de 2 de Fevereiro de 1908, que ia haver um jogo de futebol no campo de Sporting, ao Lumiar!
Numa infelizmente curta visita à Expo do DN, em Belém, pasmei com a viagem ao passado e sobressaltei-me pelo impacte que me causou as referências sobre a implantação do Caminho de Ferro no nosso País. Foi uma obra notável, bem diferente do que viria a ser o parque subterrâneo do Camões, um exemplo exemplar de como não se faz uma obra...
domingo, julho 17, 2005
Jornal "África"
Os apanha-bolas
sexta-feira, julho 15, 2005
FEIOS,PORCOS E MAUS
Mesmo assim, eu pasmo. Que mais posso eu fazer, que não seja pasmar e resmungar? 'Tá tudo na mesma, sistematicamente na mesma! Mas este tudo engloba muita coisa e muita gente.
Começa na condescendência: "ele são assim"! pois é, eles são o que são, seja lá isso o que for, pois são, mas desde que se estabeleça que é gente que não interessa ao futebol, ou então é todo o futebol que não presta e alguns senhores da Costa e quejandos pintos são piores. Beras, muito beras, são os que mandam, e se dão ao luxo de mandar ficar tudo na mesma. Fico com a noção de que eu é que sou parvo.
E só agora é que descobriste?, pergunto-me a mim próprio, a lembrar-se que já há muito que devia saber que não adianta. Sei, claro que sei, mas sempre apetece chamar a atenção, porque é realmente premente chamar a atenção: eles são o que são, porque os deixam ser. E se os que deixam deixaram é porque ou são muito distraídos ou são da mesma cepa!
Em boa e honesta verdade o senhor Pinto foi escutado e o senhor Loureiro foi - oh! lá se foi! -muito escutado, e em diversdas vertentes. O advogado do senhor Pinto descobriu - e é para isso que ele é advogado! - que as escutas não deviam ter sido escutadas, por mais isto e mais aquilo,
logo o senhor Pinto e outros pintos e outros loureiros ficaram libertos de coacção limitativa.
Mas uma coisa é a Justiça e o competente Poder Judicial, repletos de princípios democráticos, e outra, diferente, a realidade dos factos. Eles foram escutados e o teor das conversas denunciado.
As leis do futebol são diferentes da rebaldaria da instrução de processos judiciais, o meio mais adequado que se conhece para deixar andar.
Não há como fugir da realidade. Se Salazar fosse vivo diria que no futebol o que parece é! Pior: eles sabem que nós sabemos, e que os da FIFA também sabem. E nós sabemos que eles sabem que nós sabemos. Também é verdaqde que em geral sabemos perfeitamente ser parvos, mas nem sempre.
A verdade no futebol tem que ser muito parecida ou então o caldo entorna-se. Mas como é que se pode acreditar no mundo da bola, se não há um - um só que seja!- que se levante e aponte: o rei vai nu...
Também, com este calor, que mal faz...
O Espanto
NÃO SEI...NÃO VI...NÃO ESTAVA LÁ
Não se trata de discutir o "ranking" diário ou coisa do género, explica o que traz as bebidas sem gelo.
- Não tens gelo? - grita a mulher de um dos dois que estão do outro lado.
- Já vem! - diz o dono da casa, que prossegue: - A ideia é verificar os termos da concessão dos canais... Tás a ver?... Já se sabe que é temporal, mas imagina-se que se trata de renegociar...
- E então? - perguntei eu, que não gosto de gelo na bebida. -Não é assim?
- Pode não ser, pode não ser! A ideia - responde ele com um sorrizinho cínico - pode não ser essa. Pode ser a de confiscar a concessão de exploração do canal televisivo, com base na violação dos termos do contrato de concessão. Qualquer coisa serve... Sei lá... excesso de pub... abusos e imoralidades... menos espaços criativos...
- Mas o que é isso? - pergunta-se lá do fundo. - Isso é perseguição ou quê? Já não bastava o Salgado? Vem agora o próprio Socrates tirar o pão da boca ao homem?
- Não é nada disso! - interrompe o intriguista. - A ideia é pô-los em sentido. Ou amocham ou ficam a ver navios...
-Não dizes nada? - pergunta-me uma das madonas que vinha em busca de qualquer coisa para pôr no gelo. - Tás sempre a dar bafos...
Sorri e endireitei-me na cadeira, sem me preocupar com o copo, de todo vazio. Reflecti uns dois bons minutos e quis ser claro:
- Não sei! Não faço ideia!
Calei-me fui à cozinha, deitei mais um golinho no copo e, como quem não quer a coisa, saí para a rua, a pensar, com os meus botões de maior confiança: "Não querem lá ver, por causa da porcaria de um copo! Querem que um gajo se comprometa...
quinta-feira, julho 14, 2005
Os Reis e Rainhas do Nosso Mundo
Porque um rei quando chama pela sua rainha é ouvido por todo o povo. O povo fica contente, faz movimentar a roda da vida e aguarda, em silêncio recolhido, a resposta da sua (deles) rainha.
Para quê falar da civilização Ocidental, do Bush, dos muçulmanos ingleses, para quê tudo isso, se o mundo se pode resumir a uma bela estória de princípes e princesas?
Alguém acredita em mais alguma coisa?
Então, não andem de metro - que é perigoso, sobretudo para os claustrofóbicos.
quarta-feira, julho 13, 2005
NASCIDO DO MAR
terça-feira, julho 12, 2005
COMO OUTRORA
Nós, os lisboetas, eramos, bem entendido, mouros ou coisa equivalente. Muitos de nós nascemos e morremos naturalmente sob ditâmes arabescos. Saberiamos o que haveria a saber do Corão e de mesquitas.
Fomos invadidos pelos cristãos e martirizados por eles. Mais do que expulsos, fugiu-se alucinadamente. Mas a perseguição impiedosa dos cristãos empurrou-nos para o sul. Vamos deixar de fora os que se refugiaram em Castelo de Vide. Eram de outra religião, mas ainda assim diferente do cristianismo fanático, que emergia na Europa.
Foram incontáveis os nossos concidadãos expoliados e mortos, nem sei se alguns meus ancestrais, em nome da Fé cristã.
Oitocentos anos depois, mais minuto menos minuto, apanha-se o eléctrico para a Estrela, o mesmo que, em sentido inverso, leva turistas à Graça. Pertencemos a uma nova espécie( que teve origem, imaginem no Norte, à beira da foz do Douro!) ainda em formação, a europeia.
Mudamos de campo e de religião e se hoje em dia quisermos ter uma pálida ideia do que fomos não há como ir a Granada. Ainda há marcas de explendor. Ainda por lá ficamos algum tempo, mesmo depois dos cristãos portugueses arrecadarem para eles o Algarve.
Já depois de sermos portugueses patriotas e cristãos devotos, tratamos mui mal os judeus, mas é tempo perdido, não vale a pena falar disso: o dr. Mário Soares já pediu perdão.
Mas antes, ainda fizemos das feias no Brasil, dizimando os índios nativos, que nem sabiam rezar.
Bom, os castelhanos fizeram o mesmo no resto do Continente e os ingleses, um pouco mais acima!
Talvez tenhamos de mandar lá alguém pedir desculpa, embora os brasileiros que geramos deixem muito a desejar na matéria. Mas, princípios são princípios e assim como assim, Freitas do Amaral já ensaiou com os chineses...
Este nosso mundo foi sendo feito de tragédia. E parece que não está pronto! À laia de aviso lembro o poeta António José Forte: «...Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas os mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa».
E porque subsitem dúvidas sobre se o poeta é um visionário ou é simplesmente um fingidor, recorremos aos mesmo António J. Forte, que publicou em 1963:
« UM HOMEM
De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda»
Será da natureza humana ou maldição cósmica?
segunda-feira, julho 11, 2005
A Civilização Ocidental
domingo, julho 10, 2005
A Rita Está Doente
A Minha Outra Heroína
Incêndios e Terrorismo
sábado, julho 09, 2005
A TEMPO
Houve tempo em que a Rádio não emitia notícias e Televisão não havia. Os jornais eram a fonte
do conhecimento do que ocorria no Mundo e nesse mundo cabia a nossa terra.
No tempo em que comecei a olhar os jornais já havia Censura. Eu nem sabia o que era, mas o jornais informavam os leitores que «este número foi visado pela comissão de...», mas tal não impedia dessem conta do que ia por esse mundo fora, com mais detalhe do que ocorria nos assuntos internos.
Mas já havia noticiários na Rádio. Tenho ideia de que a EN encerrava a emissão, após o noticiário da meia-noite, com o Hino Nacional. Mas os jornais não eram minimamente atingidos pela concorrência. Sempre que havia acontecimento fora do fecho da edição, preparava-se uma segunda tiragem e, não raro mais, como era o caso da Volta a Portugal em bicicleta. Os vespertinos eram mais vocacionados para esse folclore, mas frequentemente os matutinos reapareciam nas bancas e nas vozes dos ardinas a meio da manhã.
Deve ser conveniente lembrar que os tempos eram outros. Os jornais dispunham cada um de oficinas próprias e de distribuição própria e muito embora o equipamento gráfico nem sempre fosse o último grito, funcionava.
A questão que se coloca, hoje em dia, não é a do profissionalismo ou de falta dele, mas de impotência.É preciso saber primeiro se a oficina tem ou espaço para imprimir outros jornal; depois se a distribuidora de imprensa dispõe de meios para efectuar uma distribuição singular.
Não dá. Na melhor das hipóteses é preciso que o jornal seja avisado da morte súbita do Papa, 48 horas antes do passamento. E nenhum honesto terrorista se disporá a avisar das explosões no metro nem na véspera. Foi um dia de azar para a Imprensa, mas também um aviso: é preciso melhorar a capacidade de resposta...
sexta-feira, julho 08, 2005
MISTÉRIOS URBANOS
Não esperava encontrar grandes alterações no valor da factura da água. Valor que cresce com aborrecida frequência. Mas hoje dei-me ao cuidado de ler o resumo, nem sei se por qualquer resquício masoquista. E pasmei!
A água consumida em casa valia 0,88 euros. Não se pode dizer que fosse caro, mesmo dando de barato que a casa está quase sempre vazia e o neto que de vez em quando lá dorme não é muito de banhos. Mas o total da factura atinge os 11,85 euros! Espantoso! Por me vender água, a Epal cobra 6.71 euros. A CML, essa, arrecada 3,88 euros, que divide entre Saneamento Fixo (2,01 euros), Saneamento Variável (1,23 euros) e Adicional (0,64 euros).
Saneamento Fixo suponho saber o que seja; Saneamento Variável creio ser o saneamento que umas vezes não há e outras não é preciso; Adicional presumo ser como a tasca do galego, no antigamente lisboeta, que no fim da conta do almoço, botava sempre «a.v.s.p.» 12 tostões. Um dia um cliente reparou na parcela e perguntou o que aquilo queria dizer e o tasqueiro explicou:
«a ver se passa»...
Para completar a factura faltava o IVA (0,64 euros), que surge numa rúbrica alucinada: Serviços
Prestados (?) , talvez o incómodo de contar as moedinhas...
Concluindo. Ainda eu me preocupo em não fazer negócios com ciganos! E isto com uma empresa pública! Estava outra vez enganado. Não é pública porra nenhuma. É simplesmente Empresa Portuguesa de Águas Livres, sociedade anónima. Ocorre-me à memória um amigo fixe, que já lá está,muito apreciador de tinto alentejano, mas que também bebia branco, além de algumas aguardentes, me ter dito uma vez, quando me viu tomar um comprimido: «Olha, meu filho, quem bebe água merece tudo o que lhe aconteça».
Parece que sim!...
quinta-feira, julho 07, 2005
NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA
Não fora a influência e, decerto, já iria na adjectivação contundente, a escrever que aqueles tipos uns filhos da mãe e outros, provavelmente, nem isso! Não querem lá ver que uns se estão nas tintas e os outros ensandecidos pela avidez. Perdão! Embalei antes do tempo. Ainda nem expliquei da origem do furor. Pois, que não vá o sapateiro além da chinela. Vamos lá rebobinar
e recomecer pelo início. A Comissão Nacional de Protecção de Dados chumbou o projecto de instalar câmaras de videovigilância nas auto-estradas, que constava no Orçamento Rectificativo.
A posição da CNPD já vem detrás. Há uns anos as autoridades policiais tentaram em Guimarães
instalar um sistema de vigilância electrónica à zona histórica da cidade, alvo de vandalismo vergonhoso. A Comissão não vai em vergonhas e recusou.
Agora a situação quase se repete, mas a gravidade do que está em causa é bem mais delicada.A vigilância das auto-estradas, que permita identificar prevaricadores ou, melhor que isso, inibir
alguns dos excessos que tornam as auto-estradas portuguesas as mais sinistradas da Europa, não pode avançar por pruridos sobre direitos e liberdades.
Não se entende bem que direitos ou liberdade sejam coarctadas pela vigilância vídeo nas auto
estradas. É talvez mais um destes casos em que a letra da Lei se sobrepõe ao espíto dela.
Aceito que desta vez subsista o direito à reserva: a determinação aparecer incluida no Orçamento Rectificativo. Deixa, assim, de ter conteúdo para se tornar um impopular esquema de caça à multa.
O importante não é que se facture muita coima, mas que amaine o fluxo de excessos e diminua a sinistralidade. Podia-se puxar as orelhas ao governo, sem chumbar a medida. De facto, os direitos constitucionais não vão tão longe quanto se pode pensar ou como pode parecer. Ninguém é livre de pôr em risco a vida alheia nem tem o direito de se eximir às responsabilidades pelos actos que pratica, seja a onde for e mesmo nas estradas ou sobretudo nelas.
E a verdade é que se algum cidadão comum for a um banco depositar economias ou solicitar um empréstimo para ir de férias à Mautitânia, sujeita-se a ser vigiado, tal como, de resto, se for à estação de serviço abastecer o automóvel de gasolina, pode ser vigiado por câmaras de vídeo e se for na auto-estrada não o pode ser? Porque é que nuns casos não se violam os direitos e liberdades das criaturas e no outro, sim?
Não será legítimo que alguém de luto olhe qualquer um dos ilustres senhores da Comissão e não lhe reconheça direito ao mínimo de consideração ou mesmo que o considere responsável moral pela sua dolorosa solidão?
Sejamos claros: a videovigilância das auto-estradas pode ser, em Portugal, o único meio eficaz de normalizar o tráfego e desse modo reduzir a sinistralidade. Mas sejamos coerentes: em vez de um faminto Orçamento Rectificativo, que seja a Assembleia da República a decidir, com o aval
de Belém...
A estória
Ela, todavia, vai continuar a ser portuguesa e, um dia, muito mais tarde, entre as suas gargalhadas contagiantes e os pesos mortos instalados à sua volta, vai reconhecer que, apesar de tudo, valeu a pena a luta.
Porquê? porque se divertiu com a vida, porque cimentou, consolidou os seus princípios e, inclusivé, foi capaz de os transmitir a outros - jovens e menos jovens, capazes e menos capazes.
Um dia - e eu ainda vou ver - ela vai confirmar que vale mais ser optimista. O mundo do "diz que disse" vai continuar a passar-lhe ao lado e, embora lhe possa provocar mossas, o fim da estória desta aminha heroína vai ser uma garagalha. Força.
quarta-feira, julho 06, 2005
Água fresca
A estória fica para depois.
Boa noite. Sonhos de luta , um acordar ligeiro e água fresca!
FAZ DE CONTA /2
Os espanhois estão a tratar da rede ferroviária deles e, naturalmente, de forma a prolongar-se para além das suas fronteiras. Eles não obrigam o pateta do senhor rico a ir por Badajoz para chegar a Madrid. O senhor pateta (que fazia sorrir o senhor Azevedo) pode, se quiser, ir por Marvão, desde que trate ele da linha e, depois, convença os espanhois em prolongar o seu devaneio: ir de TGV até Madrid.
Entretanto Augusto Mateus ia falando, falando e o senhor Belmiro ia sorrindo, reduzindo Augusto a nada. Depois, o próprio Belmiro de Azevedo mostrou o seu desagrado contra o projecto do comboio da modernidade. Nada contra o comboio mas contra o custo. Vir do Porto a Lisboa em menos de duas horas não compensa o preço. Pois não. Eu gosto de comboios e acho que qualquer comboio confortável que efectue o trajecto nas tais duas horas e meia que já efectuou, quando a linha não tinha ainda consumido alguns milhões em melhoramentos, é muito razoável. Mas a questão, e eu peço desculpa de não ser rico, não é essa. A opção por comboios de alta velocidade não é para chegar mais depressa à Malveira, mas sim às outras cidades europeias da Europa. E o comboio é bom para isso. Reconheço que pela nossa parte não precisamos de super comboios, mas precisamos de rede, precisamos de linhas e de tráfego regular que nos leve a nós e nos traga muitos visitantes de longe, de muito longe e que cheguem depressa. Porque da nossa parte, só temos de chegar à fronteira.
Sei do que falo. Já tomei o TGV genuino em Paris com destino a Lisboa. O dito sai e a primeira paragem é em Bordeus, qualquer coisa como seiscentos e picos quilómetros. Calma, nada de excitações. O percurso é rápido, umas três horas. Mas, depois, calma. Depois a ideia é despejar
gente pelas zonas balneares. Pára-se cada quarto de hora, até à fronteira, onde ainda não havia
nenhum comboio de alta velocidade com destino a Lisboa. Viaja-se uma longa noite por Espanha e chega-se a Vilar Formoso ao romper da aurora. Alguns dormem, outros conversam. Alguns sofrem.
Na maioria, os passageiros são portugueses, emigrados em França. Pelo caminho entram e saem
muitos espanhois. Os que ficam no comboio antiquado, habituados, habituaram-se e são gentis para os neófitos. Com o tempo e com a adaptação, trocaram o comboio pelo avião, até porque os preços aligeiraram no ar e agravaram-se nos caminhos de ferro.
Seja como for, o que está em causa não é ir mais depressa a Campanhã, pessoalmente só lá vou empurrado. A questão é saber se vale a pena criar condições para que se possa ir a Madrid, como quem vai a Braga, ou ir ver os filhos ou conhecer os netos a França, à Bélgica ou Suiça, do mesmo modo que (não) se vai a Fornos de Algodres.
Já na questão do aeroporto na Ota manifestamos (só me falta ser rico) o mesmo ponto de vista, eu na Net, ele no debate, não se deve trocar Lisboa. Ele defende que se deve dar mais espaço aos aeroportos de Faro e Porto. Nós por cá aceitamos a Ota, como complemento, ficando Lisboa como apeadeiro da comunidade europeia, durante o dia.
Havia outros senhores ostensivamente ricos, é verdade e deviam estar cheios de razão, mas não me lembro quem eram, nem o que é que disseram...
FAZ DE CONTA
António Vitorino sorriu, com um sorriso muito simpático, disse um pois é, mas...
O que um simples mas, pode ser venenoso. A corrupção, explicou, não esteve apenas nos que receberam, também foi dividida por alguns dos que deram!
Pessoalmente sempre acreditei que a corrupção é como a água benta. Um corrupto teve de ser corrompido senão não é corrupto nem é nada.
Para dourar melhor a pílula ele acrescentou que, desta vez, o plano de ajuda humanitária terá observadores atentos. Se forem suficientemente atentos talvez possam compreender como um país com jazidas de diamantes e com petróleo tem gente a morrer à fome.
terça-feira, julho 05, 2005
Crianças
Era uma rua de Lisboa, apinhada de gente.
E ela, ali, a olhar para mim. A mãe - percebi depois- conversava com uma amiga. Problemas, confidências, troca de esperanças. A pequenita estendeu-me a mão, pequenina!!!
Segurei-a e ela pôs-se a caminhar junto a mim.
Assustou-se, a mãe. Quase ralhou, mas, no ar, ficou, apenas um gesto, a surpresa. E veio o sorriso. A filha tinha, afinal, conquistado, com a sua simpatia, simplicidade e desejo de ver o resto da cidade, um estranho, um cidadão vulgar, encantado com o gesto: "vem comigo, leva-me contigo..."
É assim, a nossa cidade, sem lugar para recusas ao mundo, aos outros que chegam e partem. Ficam para ganhar a vida ou viver a vida connosco porque gostam de nós.Somos um porto virado a Sul, ao Sol. À vida. Festejemos e demos as mãos a todas as crianças. Ensinemos-lhe o caminho da ternura, da solidariedade. Elas saberão responder construindo uma cidade sem lugar para exclusões, para os tribunos do ódio, da fanfarronice, da arrogância, da pobreza de carácter.
Façamos das crianças da nossa cidade, de todas as crianças, a razão das nossas vidas. Depositemos em suas mãos não apenas o futuro delas mas o nosso presente. E assim nos sentiremos - todos - mais dignos delas e de nós também.
segunda-feira, julho 04, 2005
Questões de Estilo
Outra Fase
É giro, mas cansei. Das palmadas nas costas dos amigos, do sorriso simpático e das críticas cáusticas. "é só porrada, é só porrada!".
Estou Noutra.
Que me desculpem os parceiros aqui do lado. Vou virar-me para as coisas lindas da vida. Querem ver como é?
- " para quem estavas a falar com voz de cama...?
- .....???
- Sim, voz de cama, que bem a senti.
- ....???
- Escusas de olhar para o lado! Voz de Cama!!! Percebes?!
- Sabes, está na minha natureza: oferecer rosas, falar com voz doce, gostar que me respodam por enigmas, com sugestões. Está na minha natureza. Que fazer?
- ....????
- Cansei de falar de problemas sérios de denunciar a cáfila que vive aqui em cima de nós, a olhar para nós a sorrir para nós. Cansei de nós, assim, a aturar o carro do vizinho, o olhar da vizinha e adivinhar-lhe as intimidades...
-...???
- Está na minha natureza: gosto de rosas, de sorrisos, de beijos, nem que sejam apenas sugeridos. É tarde para voltar atrás... e tempo de seguir em frente.
-?????!!!!!
A parte deste blogue que me cabe é já outra. Pendurei as luvas.
domingo, julho 03, 2005
Narciso
sábado, julho 02, 2005
SONHOS DE VERÃO
Habituemo-nos.
Lisboa dispõe de um aeroporto especial: literalmente dentro da cidade. Habitualmente considera-se essa situação desapropriada. Será. Mas no caso de Lisboa dá jeito. Diria melhor: no caso português dá um jeitão. Se a Portela pudesse ter um acessório escorreito na OTA seria excelente. Se o governo, encostado aos problemas económicos, quisesse reduzir a aerogare de Sacavém a uma espécie de estação de Metro-aéreo, isto é funcionando apenas para voos de e para a Europa, durante o dia, fechando à noite. E por falar de Metro, se a rede deste chegasse à Portela, por baixo, que festa seria!
A OTA podia ser uma realidade interessante, recebendo tráfego intercontinental e nocturno. Um aeroporto amplo, limpo, sem excessos de luxo.
Mudar pura e simplesmente da Portela para a Ota para um projecto grandioso, só porque é caro? Parece excessivo para os tempos que correm, tanto mais que aglutinaria necessariamente
outros investimentos em ligações rodoviárias e ferroviárias, deixando para trás outras zonas do país.
Aliás, para um país tão pequeno a rede ferroviária é estranhamente escassa e de má qualidade. Quem quis visitar a exposição do DN, relativa aos 140 anos de existência teria tido oportunidade de constatar o ritmo espantoso para a época da construção do caminho de ferro e a forma rápida como se expandiu. Com o fim da guerra 39/45 a industria automóvel, com lobbies poderosissimos pressionou os estados para o desenvolvimento das redes de estradas e auto-estradas, sempre e mais, sempre mais, defendendo que o comboio já não respondia às necessidades de desenvolvimento. Foram 30 e picos anos que quase puseram de lado o tráfego ferroviário na Europa ocidental. Até que a Alta Velocidade recuperou para o comboio o antigo fascínio.
Não foi ainda o caso português. A recuperação tem sido lenta. Fala-se por aí de TGV, mas sem referir que, por exemplo as ligações a Madrid ou a Irun se fazem por vias únicas. As linhas não suportam velocidades. Só devagar, devagarinho ou quase parado. A linha do norte tem troços melhores e dispõe de comboios capazes de ligar Lisboa ao Porto em 2 horas, claro que tem, mas a linha não dá. Em muitos casos não chega só mudar a linha, é preciso quadriplicar ou criar caminhos alternativos.
Há quase tudo por fazer. Por ora só podemos sonhar. Tempos houve que só de burro se levava a água ao moínho. Ainda assim e como estamos em tempo de férias, aproveitem um pequeno passeio pelo passado. Façam uma viagem curta pela linha do Tua e pasmem, que hão-de gritar de medo ao ver um minúsculo comboio a rir-se da ferocidade fascinante do Marão...
quinta-feira, junho 30, 2005
QUE NINGUEM BRINQUE COM COISAS SÉRIAS
Acho que sim. Acho que é melhor deixar o dr. Correia de Campos ir apagando as crises, pagando. Pelo menos até as presidenciais passarem. Não misturem alhos com bugalhos. Estão a ver um referendo sobre o aborto misturado com eleições presidenciais? Imaginem o que pode sair daquilo? No melhor, vai vai dar um presidente arrancado a ferros e um outro nado-morto...
Tenham cuidado. Não brinquem com coisas sérias, que só façam rir. Ele há coisas sérias que devem ser levadas a sério, muito a sério.
E o aborto (referendo sobre) é uma delas...
EDUCAÇÃO SEXUAL
Podem e devem os cidadãos estar atentos, mas deve conceder-se ao Estado o dever de tratar da matéria de maneira adequada.
A tese de que compete às famílias decidir as orientações educativas que deseja para os filhos está eivada de preconceito e pretende, sobretudo, travar o processo iniciado pelo Ministério da Educação, opondo-lhe o fervor religioso.
Deve reconhecer-se, por outro lado, alguma delicadeza na elaboração do programa e nas formas de o desenvolver na escola. Do passado recente sobrou-nos alguns obscurantismo, muito do qual instigado pela Igreja, que ainda limita alguns dos adultos, pais de família. Mais difícil do que abrir as janelas aos meninos e meninas, durante as aulas, é acalmar o pudor dos papás e levá-los, a eles também à descoberta da forma primária da Natureza, muito escondida e diluida pela religião, que pode ser cristã por princípio, mas não pela prática. Deixemos pois que seja a Escola
a decifrar os mistérios que perpetuam a vida.
quarta-feira, junho 29, 2005
IMPUNIDADES
Era por ser humano que o senhor Chirac, quando era presidente da Câmara, pagava salários simpáticos a correlegionários, como se os ditos trabalhassem no município local. Daí não teria vindo mal ao mundo se os adversários políticos não fossem gente de coração empedernido e tivessem clamado pela Lei. A Lei é como o Sol quando nasce: é para todos, menos para alguns, bem entendido!
Estabalecido que as coisas são como são há que agir em conformidade. Uma das conformidades é evitar chatices. Há coisas de que não se deve falar. Justiça e política devem coexistir e nunca afrontar-se. Cada uma das partes não deve esquecer-se do que acontece quando o mar bate na rocha...
Tivemos recentemente dois casos muito badalados, em áreas diferenciadas. De uma vez o ministro Sarkozy clamou contra um juiz, o qual concedera liberdade condicional a um condenado e que este aproveitou para cometer um assassínio violento. O ministro ameaçou mesmo ir agir contra o magistrado. Villepin ainda deu um bafo qualquer sobre a independência da Justiça, recado do senhor de cima, o presidente Chirac. Ocorre-me uma velha história que me contou um poeta madeirense sobre uma curiosa afirmação que um tribuno proferiu numa assembleia da região sobre uma daquelas coisas de que se não fala alto e que é suposto ser muito do agrado das senhoras:«Meus senhores, não sei como é, mas a verdade é que todos os dias aparecem feitos, na Madeira, duzentos, eu faço dois, quem é que faz os outros?»
Isto para acentuar que ele há coisas de que se não deve falar. Os erros de juizes não são erros da Justiça, são erros humanos. É dever de quem governa agir de forma a corrigir, mas fazê-lo sem alarido. Pode empandeirar o juiz um serviço qualquer mais chato ou exigir a abertura de um processo. Ao desautorizar o seu ministro Villepin fez pior: recolheu a ira popular e alargou o populismo de Sarkozy.
O segundo caso, mais recente e mais próximo, ocorreu no aeródromo de Espinho: uma avioneta embateu num automóvel. A história em si é horrenda e inadmissível, mas aconteceu e aconteceu porque numa pista que foi militar e já não é mas que possui a peculariedade ser atravessada por estrada. São absurdos que restam do passado e hoje em dia já não se aceitam. Por isso mesmo, o acidente é da responsabilidade do Estado. Claro que o Estado tem que olhar para o senhor culpado e ralhar com ele. Ora o que o estado permitiu é que alguém tido por responsável pela aeronáutica interna falasse não para explicar fosse o que fosse, mas para dizer barbaridades dignas de qualquer interno do Júlio de Matos. Dizia o senhor que a pista de mil e quinhentos metros só tinha 460 metros. A estrada que atravessava a pista não atravessava nada, porque a pista já tinha acabado. Vejamos: a ideia era explicar que a passagem da pista militar para a parte civíl, retirava um quilómetro e assim sendo o aeroclube ficava com 460 metros de pista, uma
estrada e outra pista, ainda maior, sem utilização. Dizia a criatura do Estado que a estrada, sim senhor, os aeroportos também têem estradas no fim das pistas. Foi ele que disse, e não tinha ar de estar a brincar. O Estado ficou a saber (e nós também) que tem um tipo a mais e que devia começar por ele a redução do défice. Este artista ainda foi pior que a ministra, que quis riscar os Açores do mapa lusitano. Um lapso de linguagem pode corrigir-se, é mais discutível quando se pretende ostensivamente tapar o Sol com a peneira...
segunda-feira, junho 27, 2005
GENTE FINA
Por isto mesmo é que me dei ao incómodo de ler a entrevista com o responsável pela Informação da SIC. A primeira impressão/informação que retive foi a de que o senhor em causa é mentiroso ou, se preferirem não fala verdade. A rábula mais evidente: «Noticiário dura o tempo que as notícias exigem" é tudo menos verdade. Dura mais, muito mais e dura mais por mór da publicidade. Para justificar tanta pub em horário nobre é preciso encher o chouriço e para segurar o telespectador é preciso pintar alguns quadros com cores de tragédia ou intriga brejeira. É justamente disso que se foge ou que fogem pessoas como eu. Quero crer que, no mais o director de informação da SIC, tenha eventualmente razão e não seja preciso duvidar da preferência por integração e não fusão de redacções ou que as relações entre as criaturas sejam óptimas, com certeza, ainda que a comissão de serviço de Cândida Pinto no Expresso deva ter alguma água no bico...
Albarran consegue outra primeira página no DN. As suspeitas do Mninistério Público nos «offshores» do antigo homem da TV são o destaque da edição. Mas a segunda, senhores, é sempre tão difícil! É claramente forçada a preciosidade biografada do suspeito. Desde a alusão
a «o revolucionário que abraçou o capitalismo», no caso do assalto à embaixada de Espanha ou
outra mais delicada «a relação com Maria Elisa passou pela realização de um documentário sobre a Europa». Discreto. Bom o jornalista bem podia servir-se do exemplo para descrever o período revolucionário do pasquim, onde trabalha, no pós 25 de Abril e como ele é hoje em dia... Quem tem telhados de vidro deve evitar as pedradas. Não é a notícia, em si, que está em causa. Os personagens televisivos, por mais isto ou mais aquilo, são um pouco como os que encheram a crónica de Fernando Alves, gostam de massa e isso às vezes faz mal à linha...
domingo, junho 26, 2005
Independência Nacional
sexta-feira, junho 24, 2005
SÃO CONTAS
Agora compreende-se melhor o azedume da banca, quando os negócios marginais ou, no mínimo pouco claros, são revelados ou comentados. Não só e apenas não apreciam como parecem agora, mais do que nunca, apostados em não tolerar intromissões ou críticas a actividade sanguessuga, a dar crédito à informação do mesmo jornal que refere amplos pormenores sobre diferentes formas de crédito bancário mais ou menos expedito com taxas lucrativas acima dos 25%, por operação. Não tenho nada contra. Nunca me emprestaram e que saiba não obrigam ninguém a pedir. Claro que não são obrigados a exorbitar. Fazem o que se lhes permite. E sobre o que se lhes permite, muito boa gente da governação podia e devia ser interpelada.
Mas ele há maneiras de interpelar e de assumir as dores alheias. Como há maneiras de ler e entender um jornal. Em 140 anos de actividade o jornal variou e inflectiu algumas vezes. Saltar de Século, da monarquia para a república, da ditadura para a democracia é muita fruta. É, pois natural que tenha alterado ou variado a linha editorial. O vento tem muito a ver com a opinião.
Tempos houve em que a opinião era controlada. Com Salazar a censura era oficial. Os jornais podiam exibir «visado pela Comissão de Censura». Marcelo (padrinho) aligeirou para «exame prévio». Com a democracia instalada terminaram tais inibições. Cada orgão de comunicação social é livre de expressar convicções (apetecia-me ter dito "quase livre", mas não disse). Livre de determinar a linha editorial, que pode alterar sempre que entender ou quando mude de patrão. E até pode optar, se assim o entender, preferir editar uma linha de crédito, provavelmente melhor remunerada. Mais rentável que a mera análise político-partidária. Afinal que diferença haverá entre abater uma porção de sobreiros ou um presidente? Por mim, não sei. A Banca que diga...
quarta-feira, junho 22, 2005
O CONTO DO VIGÁRIO
Escapei no sábado, mas não escapei hoje. Na net estava espaparrachado que a RTP-I ia dar o Argentina-Alemanha, as 19-45H. Ia dar o Telelixo às 21 e picos. Não deu. Á hora do costume vendeu o concurso abominável, que costuma vender e logo a seguir o telejornal. Na Televisão portuguesa os telejornais são, em si mesmos, o conto do vigário mais sujo que o do bilhete premiado. Aquilo é papel manhoso para embrulhar publicidade. No caso da RTP a trafulhice é mais descarada porque o canal não só nos lixa a paciência com toneladas de pub, como ainda vai
sacar uma parte da taxa que os incautos se vêem obrigados a pagar, como se fosse destinada à RDP.
No Cabo, quandi liguei o primeiro canal, lá estava faixa com a indicação: «19H45 futebol( pois, pois),às 21H30,Telejornal», isto já depois da 20 horas, já com o telejornal no ar. Nem sei a que horas transmitiram o jogo em diferido. Não vi, nem era para ver, mas tinha gente em casa que queria ver. E o que eu vi foi o que não queria ver: o dircurso da tanga todo vestidinho!
Dir-se-á que são coisas sem importância, e se calhar são! Nomear mil e tal criaturas para cargos de confiança política se calhar também não tem importância, sobretudo se montes gente caiu no desemprego. Ver os de fora apontar-nos o dedo, a dizer: porra, que vocês são burros! E ter de engolir, Imaginar que finalmente os de fora vão indicar o caminho, um caminho com quase nenhuma segurança social, para velhos e desempregados, para empregados que ganhem pouco, um caminho de regresso ao passado. O cheque de mr. Blair há-de ter cobertura; a agricultura francesa terá colheitas prósperas, enquanto os 25 vão progredir e crescer e crecer até serem seis ou sete.
O sr. Coelho, quando a ponte caiu, disse que com ele a culpa não morria solteira e saiu porta fora.
E, agora, com ele por perto, o IVA caiu para cima, a moral das tropas afunda-se, o desemprego vai crecer, os preços upa, upa, as reformas mais afastadas, com tudo isto, o mais certo é a culpa vai-se casar e o sr. Coelho poder ficar em paz com a sua dele consciência...
E com um bocadinho de sorte não vou estar cá para ver...
SOMBRAS
Era parisiense. Passou por aqui pelo aniversário da minha neta. Encheu sózinha o crocodilo para a catraia usar na piscina. Era a namorada do rapaz e jovem como ele. Continuaram ligados mesmo sem namoro. E voltei a vê-la algumas vezes mais por Paris, quando calhava ir lá. Uma vez foi de férias ao México e ficou encantada. Voltou e regressou ainda mais magnetizada. Deixou o emprego, fez o saco e abalou.
Ontem à noite alguém a assassinou, ainda não sei como nem porquê. Saía do trabalho e ia ter com amigos. Não sei pormenores, mas não foi no comboio, nem na praia. A violência urbana é como o tráfego rodoviário, de súbito trás!
Mas doi quando quem vai no carro é dos nossos ou quando a violência nos atinge, com um oceano de permeio.
Não saber que fazer, nem como reagir. Sei lá... ir para o Martin Moniz gritar pela exclusão deles, mas nem deve haver mexicanos por aqui. Que fazer do ódio senão recalcá-lo. A violência que nos chega pelos jornais assemelha-se à que vemos pela televisão em filmes velhos ou séries novas. Pelo telefone e quando nos toca por perto é mais amargo, até porque nos damos conta da ameaça que nos rodeia. Valerá a pena discutir se os genéricos sim ou se os genéricos não? Quando dava sinal de si parecia bem na sua pele, tinha encontrado o seu canto, nem precisou de votar não. O que é que uma pessoa tem deve fazer para ter direito a um pouco de paz?
Desculpem o desabafo. Eu sei que habitualmente só se discute o direito à vida quando se julgam criminosos...