segunda-feira, setembro 12, 2005

SONOLÊNCIA

Quero lá saber. Já dei. Se o Benfica perde é lá com eles. O que mais me chateia é pagar portagem para ver a bola, calmamente em casa e os fulanos Oliveiras pespegarem-me com toneladas de
publicidade. Quando a televisão por cabo se instalou o sucesso da oferta resultava no facto de venderem filmes e programas limpos de matéria corrosiva ou simplesmente abominável. Depois, ocuparam espaço e começaram a negociar exclusivos para exibir aos clientes e a vender as cadeias convencionais, onde nós podemos ver sem pagar, mas a gramar o ganha pão deles. E aos poucos o Cabo desatou a rir- se de nós e toma que lá vai disto. Queres bola, paga ao Oliveira e ele obriga-te a ver pub. Mas no cinema está prestes a ser o mesmo. Começa por um canal ter um intervalozinho, depois o intervalozinho vai alargando até virar intervalão do caraças.
È quase como o marcelinho: começa por fazer análise e mal se dá por ele, começa a vender a banha da cobra, que é a maneira de ele ganhar livros e eu perder a paciência.
Hoje tornei a ouvir a boa nova: os putos vão aprender inglês, as mãezinhas, vão poder ter computadores para os meninos chegar a génios de repente. Depois oiço melhor: só nas escolas onde se pode comer. Já são uma porrada delas a menos. Puto que more no mato não come na escola,quem não come na escola não aprende inglês e quem não aprende inglês a mamã não pode
pedir computador. É por estas e por outros que eu não vou para a escola e vou passar a ir ver televisão na tasca e se tenho de pagar, assim como assim, sempre bebo café e vou sabendo dos comportamentos das senhoras vizinhas. Alguns (os comportamentos), bem badalados, a merecer bem merecida publicidade. Antes de voltar a casa, passei num jardim novinho em folha, lá estava o Lopes sentado e, por uma vez, no sítio certo: Arco do Cego.Parabéns...

Tropa Para Que Te Quero?

Já o disse várias vezes: não compro jornais, não ouço noticiários nas Rádios e nas Televisões. Mas, de vez em quando, apanho aqui e ali umas conversas. Chegou-me uma sobre o nervosismo dos militares que querem manifestar-se não sei bem contra o quê. Acho que querem reformar-se ainda a tempo de poderem fazer uns biscates de segurança no Iraque ou na recepção de uma das grandes empresas nacionais, sei lá, qualquer coisa.

Eu fico-me a perguntar: para que precisamos nós da tropa? Dantes, ainda se percebia: no fundo, recebiam os mancebos e ensinavam-lhes algumas coisas, como uma certa disciplina, a ideia de pátria, a ideia de comunidade, a necessidade de coesão, essas coisas que já ninguém aprende em parte nenhuma, como o hino nacional (imperialista embora, mas nacional), os valores republicanos, o respeito devido aos mais velhos, aos pais e aos representantes do povo.

Mas, agora que já só vai para lá quem quer fazer daquilo profissão, para que queremos nós a tropa? Será que vão ficar mercenários a sério e conseguir, por exemplo, ir a Nova Yorque resolver os problemas que a polícia dos States cria aos nossos compatriotas com ar...assim meio suspeito, de que podem ser árabes?

Será que esses militares, voluntários, mercenários, nos podem resolver o problema do corte de rede nas proximidades da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, onde as chamadas caem todas?

Que mais problemas podem esses militares resolver? Talvez acabar com tantos generais e coroneis e majores e capitães, eu sei lá...

Eu cá não percebo mesmo nada de tropa e continuo a pensar que os quatro anos da minha vida que passei entre vago-mestres espertos e comandantes de regimento-mestres-de-obra me deviam ser indemnizados. O Estado devia pagar-me um a indemnização que me permitisse esquecer totalmente aqueles tempos. Oh tropa! Por amor de Deus... e se se calassem?!

quarta-feira, setembro 07, 2005

"O Português"

Tem Opel Corsa.

Tem. É do Benfica

Conduz com o braço de fora e cospe para a estrada. Atira latas de cerveja pela janela.

Bebe"mienis" com o palito ao canto da boca, enquanto vê o futebol pela TV.

Com o transistor no ouvido para saber o resultado do Sporting.

Chega a casa a pedir "bicabornato".

Assiste às telenovelas da tarde pelo canto do olho.

Joga a sueca no jardim a contar pelos dedos.

Dá murros na mesa quando destrunfa.

Atira as beatas do ventil pela janela.

Não sabe nem quer aprender a pôr a mesa.

Chama maricas ao vizinho porque vai às compras.

Suspira pela reforma porque está farto de trabalhar.

Quando é reformado conta feitos extraordinários.

Fala das gajas todas da vizinhança e de outras que não conhece.

Vai ver todas as obras das redondezas e fala mal dos engenheiros.

Na política ele é o melhor.

Só o Salazar e o Álvaro foram maiores.

De pretos e de gajos do Leste nem quer ouvir falar.

"Os espanhóis ainda vão tomar conta desta merda".

Aí está o português com que nos cruzamos na baixa, no metro, no autocarro, a cheirar a sovaco, porque "o banho está pelas horas da morte".

Aí está o Homem (Ecce Homo), verdadeiro sustentáculo da sociedade, capaz de correr atrás do autocarro da selecção nacional ou/e de vitoriar um matador de touros sem nome e sem rosto em Barrancos.

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segunda-feira, setembro 05, 2005

TIRO E QUEDA

Chegou sorriu e disse, depois de uma data de livros, que era como fazia antes, antes na TVI, claro, sobre a tragédia de New Orleans, pausa e solicitou falar dos incêndios de Paris, três em curto espaço. Meteu água. Foi logo escolher o único dos três que não envolvia imigrantes, nem o edifício estava em ruinas. Mas ao mesmo tempo o mais provável de ter sido consequência de acção criminosa.
Eu sei que pegar fogo a um prédio, ou a uma floresta, não é o mesmo que romper um formato de programa televisivo. Na RTP o prof fica encolhido, por muito que sorria aquilo não sai. Não é expontâneo resulta monótono. A própria jornalista sai muito mal tratada. Não sei quem é o responsável pelas #escolhas# e se alguém souber gostava que me dissesse que era para eu não ver mais nada que a creatura por ventura faça. Marcelo, entra a publicitar os livros que lhe oferecem, para ele, ou para a biblioteca da aldeia dele. Tanto me faz. Ele fazia da TVI e não devia fazer na RTP, a não ser que pague comissão (ou que receba), depois a prenda à menina, como fazia, dantes, ao menino. Falta qualquer coisa. Ou Marcelo trás o menino para a RTP e a menina vai para outra freguesia ou aquilo sabe a fénico. A ideia que ficou do comentário, no bocado que vi (desisti cedo), foi de que criticou Sócrates, disse pior de Marques Mendes, a fingir que estava a ser simpático, e poupou Jerónimo de Sousa a grandes amarguras.Fez-me lembra o meu padrinho: está velho...

O FEIO,O MAU E O VILÃO

Nas tragédias geralmente abundam as vítimas, os maus e os que se lixam. Deixando as tragédias de fora, tivemos três personagens em férias. Um foi mal tratado, como se tivesse sido ele a tossir que salpicou os demais; outro por excesso de telefonemas e preguicite aguda. O pior de todos por estar a almoçar na praia em tronco nu. A parte chata é um gajo, sem escrúpulos, dar-lhe para perguntar: mas por que raio de coisa esses tipos são manda-chuvas. Antigamente um celerado que quisesse ser manda-chuva pegava em armas e cortava a cabeça a uma raínha, se fosse preciso. Uma coisa que dava direito a ser um manda-chuva do caraças era mandar matar polícias ou comerciantes que não tivesse as cotas em dia.
Estes, que citei ao alto da página, são manda-chuvas obrigados a mote, quer dizer votados. ou melhor são fruto maduro da democracia. Porra! Foram eleitos. Um, uma vez, outro, duas vezes e o terceiro, tantas, que nem me lembra quantas. Da Madeira não chegou notícia de incêndios. No Continente ardeu que não foi pouca coisa. Morreu gente e suspeitou-se de muito fogo posto. Algumas pessoas foram detidas, arracadadas e com processos a correr, outras foram mandados para casa, com restrições. A sul das EUA praticamente ninguém pode ser mandado para casa. Morreu-se de várias causas: por afogamente, por fome, de sede ou a tiro. No satélite devem ter assistido. Os metereologistas previram o furacão.
Foi como um célebre baile em Cascais, que acabou mal. Quando se instalou a convicção que a autoridade não fazia nada, um alto, foi dizendo: "...nada disso! Nós sabemos que houve um baile
imoral, sabemos onde foi, sabemos quem lá esteve sabemos que houve um homicídio! Só não sabemos quem no cometeu"... Lido em voz alta percebe-se melhor.
Mas esta de emprestar petróleo escapa-me! Que Diabo! Está-nos a custar os olhos da cara. Se tinhamos alguma coisa para emprestar era desempregados compulsivos e a generosidade era óbvia: só precisavam de pagar no fim do mês...

domingo, setembro 04, 2005

As Catástrofes

Quando acontece alguma coisa de anormal na América, assistimos a uma catrástrofe. Caíram pontes em New Orleans, houve pessoas desaparecidas na torrente de águas descomandadas, o presidente disse "fujam", mas não disse para onde e todo o Mundo chora.
As dezenas de milhares de pessoas que entretanto morrem todos os anos por causa dos interesses americanos, são apenas "danos colaterais". Deus, o deus de Bush há-de repôr a normalidade, tanto nos locais vítimas de danos colaterais como em New Orleans.
Por mim, espero que o deus de Bush o inclua no número dos desaparecidos numa cheia qualquer.
Por causa dele e do deus dele é que estamos metidos nesta tragédia. Não haverá um bispo nos Estados Unidos a desejar o mesmo que desejou para o presidente Chavez. Era mais fácil, não havia viagens complicadas, nem falsificação de passaportes, nem nada. Pum! e pronto.

segunda-feira, agosto 29, 2005

MEMÓRIA DE TEMPOS PERDIDOS

É o meu pequeno vício, o destacável das centrais do DN, imagens velozes dos anos, desde a fundação do jornal. Criei algumas expectativas e muitas sairam frustradas, como o 6 de Outubro, e, especialmente o 29 de Maio. Mas encontrei pequenos luxos: um breve encontro com Hitler; uma entrevista com Mussolini, aparentemente sem intromissões censórias; alguns passamentos ilustres. Curioso foi detectar as entradas e saidas de Augusto de Castro, que entremeava a diplomacia com jornalismo.
No número das frustrações enquadra-se o jornal de sábado, que incluia o ano de 1950, e que relativamente a Agosto e Novembro se esfalfa com a guerra na Coreia, onde »forças da ONU»
sustetaram violentos combates «para evitar uma manobra de cerco tentada pelos comunistas»
Como se depreende, amigos e inimigos perfeitamente conotados! E dava-se conta de que senadores e deputados americanos pediam o emprego da bomba atómica! Por sua vez o heroi do Pacífico, general Mac Arthur defendia que os problemas que se enfrentavam teriam de «encontrar a sua solução no ONU e nas chancelarias do Mundo».
Curioso que Truman tenha, nessa altura, convocado o Conselho de Segurança americano. Seja como for, a «bomba» não foi usada, mas Mac Arthur foi afastado e acabou sem espaço de manobra para se candidatar à Casa Branca.
Mais prosaicamente em Agosto chegava a Lisboa uma embaixada francesa de alta costura e Goa afirmava a sua inabalável lealdade a Portugal.
O mais grave é que se olvidou o histórico triunfo do Benfica na taça Latina desse ano. E olvidado o assunto fico sem espaço para lembrar que as actuais competições europeias de clubes, nasceram com essa iniciativa do jornal desportivo parisiense L'Equipe, no ano anterior, em Barcelona, na qual o Sporting foi finalista vencido. A final de Lisboa foi memorável. Foi repetida e se o Julinho não tivesse metido um golo, com a noite a cair, depois de uma quantidade de prolongamentos, corria-se o risco de as duas equipas, a esta hora, ainda estarem a jogar. Ao tempo não havia decisão por pontapés da marca de grande penalidade. A segunda final resolvia-se pela vitória de uma das equipas. No termo dos 90 minutos, em caso empate, haveria a clássica
meia hora de prolongamento. Mas se o empate persistisse seguir-se-iam doses de dez mintos até que o desempate acontecesse, dando-se o jogo por terminado logo após o golo. E que sei eu?
Que o Arsénio empatou o jogo nos últimos instantes do jogo. Que a meia hora não deu nada e uma data períodos de dez minutos sem sucesso e com os jogadores a arrastar-se a uivar de cambrias. Até que...
Não é justo um jornal trair-me tanta expectativa. A História não se faz só de guerras. E já me tinham lixado a paciência com o ano de 1928, em que se estiveram nas tintas para os Jogos Olimpicos. Vá lá que hoje não se esqueceram de salientar que o Benfica levou no focinho. E por falar nisto, em Abril de 51 falecia o marechal Carmona. Toda a primeira página do DN falecia
presidente. O país, titulava o matutino, em profundo pesar. Decretavam-se quinze dias de luto!
Jorge v1, Truman,Franco e Auriol telegrafaram a Salazar.
E ouvi o meu padrinho, decerto comovido, perguntar ao meu pai: «Sabes qual a diferença entre a morte do presidente e a eliminatória da Taça de Portugal (Sporting-Belenenses)? O meu velho não vislumbrou e o padrinho deu a explicação: Carmona morreu em Belém e foi enterrado no Lumiar. O Sporting morreu no Lumiar e foi enterrado em Belém. Ao tempo, a Taça era em duas mãos, e habitualmente o Sporting ganhava os nacionais e iam deixando algumas Taças para os adversários.

HISTÓRIA MADRASTA

Já vos devo ter contado que o meu professor - e o professor nosso é o que nos marcou, não é o que passa o tempo a dar sete, que desses também por cá passaram - era trasmontano e ensinou-me a ler e fazer contas, entre chapadas e reguadas. Foi ele que me contou a primeira história política e tão carregada que nunca me esqueci dela!
Tinha a ver com a visita de um senhor inspector (tipo de creaturas que ele não devia gostar muito) a uma escola. Nessa escola (imaginária) , e na véspera da visita,o professor ( do tipo sobrevivente) presumiu que o augusto inspector iria escolher o mais pequeno da aula, para lhe perguntar: «Quem descobriu o caminho marítimo para o Brasil»?
E ao que estivesse ao lado, haveria de inquirir: «Em que ano»?
O prof não perdeu tempo a incutir no espírito dos alunos a sapiência necessária. Durante a manhã, do dia seguinte, o atarefado inspector não deu acordo de si. Mas fê-lo justamente na hora do recreio, pelo que a sineta badalou um pouco antes do tempo e os alunos foram recolhidos apressadamente, à excepção de um, e logo o mais pequeno, que estava sentado na sanita e nem deu pela azáfama.
Na sala, depois dos cumprimentos e dos meninos terem entoado o hino da Mocidade Portuguesa, o inspector olhou a classe e escolheu, como previsto, o mais pequeno que lá estava e fez-lhe a pergunta xpto. O garoto manifestamente aflito, baixou os olhos e enrolava e desenrolava a ponta do bibe e à insistência do inspector:«vá lá, menino, quem é que descobriu o Brasil? Não me diga que não sabe»...
O rapaz soltou o bibe dos dedos, levantou o rosto e respondeu: «Eu sou o mil e quinhentos. O Pedro Álvares Cabral ficou lá fora»...
Isto vem a propósito de não vir a propósito, como é habitual comigo. Tem a ver com os incendiários, com quem busca incendiários e com quantos acham por bem deixá-los em paz.
O DN, que vou comprando por saudosismo (e na próxima crónica hão-de perceber porquê)
entrevistou um, sem nome, sem rosto, porque, como parece obrigatório, os incendiários têm direito à privacidade. O Albarran não tem; o Cruz também não; o esforçado motorista nem pensar. O médico belenense, idem, idem, aspas,aspas. Que raio de imprensa é esta?
Que governo é este (e quantos o entecederam) que não põe um ponto de ordem à mesa?
Não me interessa saber quantos são. Mas quem são, ainda que não passem de pobres diabos? Gostaria de não ver nenhum deles passar à minha porta, nos agostos próximos, e se visse algum poder avisar as autoridades, como seria dever. E se os seguros não cobrem os prejuizos. Se vamos nós ter de pagar por isso, façam o favor de nos dar algo em troca...

sábado, agosto 27, 2005

VIANDÂNCIAS

Na semana passada estive para ir a Almada. Não passei de cacilhas.
Para lá chegar foi necessário, primeiro, perder um comboio, depois esperar 47 minutos por outro mais pequeno e pachorrento.
Na Gare do Oriente, quem não tem curso e experiência geográfica perde-se. Não foi o meu caso. que cheguei ao «Metro» quase com facilidade. Falei com a máquina para comprar um bilhete de dez viagens. A maquineta não queria conversa, só queria dinheiro, como dantes queriam as queridas do muceque do bairro alto!
Na Alameda hesitei entre subir e tirar fotografias à fonte luminosa. Ao meio dia, em geral a fonte não tem água, nem luz, nada!
Apanhei outro «metro» e desembarquei no Camões. Fui ver os turistas de falas esquisitas a sentar-se ao lado do tal Fernando de pedra e tirar fotografias. Como calculam o meu objectivo era apanhar o barco, no Cais do Sodré. Desci, a pé, a rua do Alecrim, perdão. Antes fui almoçar num jardim, que vinha no guia turístico, o jardim, claro, não era o almoço, que se comia numa mesa no meio do caminho, com vistas para as costas do Almourol ?! Nada disto. As costas era do
Adamastor, de que falava o Fernando, do Camões.
O bacalhau estava bom. O Adamastor olhava para o rio. Um senhor na mesa do lado estava a dizer que o Adamastor não existia senão no medo dos marinheiros. Aquilo estragou-me o almoço: se o gigante não existia, porque é que os marinheiros tinham medo dele?
Com essa interrogação fui andando e, agora sim, desci para o Cais do Sodré por aquela rua que disse há bocado.
No largo tinha estação de comboio. Uma vez andei naquele comboio. Lembrei-me de repente que foi antes daquela estação ter caído. Quando ela caiu, eu não estava lá, mas lembro-me de ter ouvido, na telefonia. Agora estava boa, não estava caída. Não faz diferença, não serve para nada.
Primeiro perguntei a um polícia, depois a um bombeiro e por fim a uma senhora, que ia com duas crianças, qual era o barco para Cacilhas e quando fiquei convencido meti-me no barco e sentei-me perto de uma boia.
Entrei num café e comprei dois postais com vistas para mostrar aos amigos quando regressar a casa. A minha casa também tem vistas e quando há fogo eu vejo o fumo. Fui andando pelo paredão em direcção ao elevador. No café tinham-me dito que fosse andando e quando chegasse ao elevador, subisse, que estava em Almada. Estava a ficar escuro e do outro lado do rio viam-se muitas luzes. Para a frente era escuro e comecei a pensar no Adamastor.
Foi por isso que não cheguei a Almada. E para o ano, se tiver saúde, hei-de ir de férias a Sintra.
Saio de véspera e durmo aí pelo Cacém e vou-me regalar com queijadas, olá se vou...

quinta-feira, agosto 25, 2005

A PT, o Brasil ,os TSD e os CTT

Não há férias que resistam. Chega um homem de cabeça descansada, alma lavada, depois de ter sido surpreendido com um Van Gogh que julgava lá para a Os EUA - terra onde nunca irei - dois Renoir's - também fora de qualquer expectativa -, um Claude Monet que nunca me cansei de ver em reproduções, tudo isto num museu de um jardim espectacular, o Beldeveder... chega um homem tranquilo e o que é que ouve e sabe desta terra?

De incêndios recuso falar: não vejo televisão, não ouço rádio, não compro jornais.

Fica a saber que a PT foi agarrada num jogo feio no Brasil. No Brasil, num dos programas de maior audiência lá do sítio, o "programa do Jô" foi dito que há provas. Comparando as notícias, chega-se à conclusão de que a verdade não é totalmente verdade. Os números não devem coincidir. Alguém na PT aproveitou o "mensalão" brasileiro. É claro como a água. Pergunte-se ao BPI porque abandonou o barco mesmo na hora.

Ainda a propósito da PT, chega-me por e- mail um manifesto dos TSD, a central sindical do PSD, a clamar pela defesa da PT. É preciso defender a PT. De quê? - perguntou eu. Dos "malditos socialistas que querem tirar dos lugares que agora ocupam os que há quatro ou cinco anos atrás substituiram os do PS" - responde o manifesto.

Fico espantado! Os TSD's nunca repararam no desaforo Horta e Costa, que substituiu toda a gente que não lhe interessava, competente ou não, por gente sua, primos, filhos sobrinhos, boys do PSD, etc.?

Os TSD's ainda não tropeçaram no escândalo dos reformados da PT que ocupam lugares de grande destaque - Norberto Fernandes, presidente da Fundação da PT, por exemplo - tirando o emprego a uns quantos e trabalho a outros, emprateleirados em estágios a caminho do Miguel Bombarda (será que ainda funciona?)

E a propósito de Horta e Costa: quando é que os jornais e as rádios e as televisões deste país vão à procura da explicação necessária para o facto de os CTT não terem já qualquer património imobiliário, porque a anterior administração, presidida por outro Horta e Costa - o Carlos - o vendeu todo a um fundo imobiliário do Banco Totta e Açores, que, por sua vez, entregou a respectiva gestão à Visa Beira?

Já agora, senhores jornalistas, perguntem a Luís Nazaré, que tem a batata quente nas mãos - já que tudo vai cair-lhe nas contas deste ano - quanto é que os CTT pagam de renda pelas suas próprias instalações.

ALDEIA DA ROUPA BRANCA

Todos os dias ao princípio da tarde compro a versão impressa do canais memória que a SIC e a RTP impingem. Mais ligada para a lusitanidade, o canal do estado muito raramente tem graça, ao invés, a SIC passa uma porção de preciosidades, mesmo dando de barato que «o sexo e a cidade» não é um evento do antigamente, e só não foi exibido como devia (passou algum tempo na 2, a horas mortas) por excesso de pudor ou, melhor dito: por falta de tomates.
São duas páginas de actualidade antiga e eles dão-me a edição do dia, de mata-bicho. Hoje era Agosto de 47 e não estavam lá Sócrates nem o sub-Costa mas foi como se estivessem. Um subsecretário (era assim que se dizia) do Comério comentava a política de baixa de preços impreendida pelo governo da Nação:«não visa arruinar a produção». Não visava, não senhor, mas era uma mentira tão mentirosa como as que eles usam agora. Podiam mentir sem pudor porque a censura servia para alguma coisa e comentadores isentos e pluralistas não os havia e nem mesmo o pai do nosso desempoeirado Marcelo se atrevia a tal.
O subsecretário tinha ido a Peniche inaugurar um mercado, coisa que hoje só o sr. Alberto da Madeira costuma fazer.
Se bem me lembro o ministro do subsecretário ficou conhecido por «barbosa das farturas». Em todo o caso era mentira, A «baixa» era uma fraude. Sei isso porque era miudo e era a mim que me mandavam ir comprar pão. O pão que existia à época, todo ele, aumentou de preço. A parte que me interessava, o paposseco, aumentou meio tostão por unidade, e o resto foi a condizer. O que os ricos fizeram foi criar tipos de pão, mais leves e de pior qualidade, que vendiam por preço inferior ao antigo. Foi assim também com os sapatos e quem sabia de sapatos era o meu pai. O sapato que se vendia, nesse tempo a 180 paus, passou para 193$50. Criou-se outro tipo de sapato, claramente inferior, cujo preço foi fixado em 155 mil reis. Era batota ou não era?
No fundo é como a OTA tem ou não tem espaço para outra pista? Daqui a 40 anos comprem o DN e vão, por certo, ficar a saber. No tempo dos sapatos mais baratos o governo determinou que durante trinta dias só pudessem expôr-se nas montras os novos produtos a «baixo» custo!
Hoje, no DN de 47 vai começar a Volta a Portugal. Fartei-me de rir: sei quem vai ganhar. Querem apostar? É o Zé Martins. É o maior, ganhou a Volta o ano passado. E o João Rebelo vai ser segundo. E o Império dos Santos é homem para acabar em 3º, assim Deus o ajude. Desculpem lá, mas não têm sorte nenhuma: amahã já é 48 e o jornal não vai dizer nada...
E ontem a filha telefonou-me aflita de Paris. Tinha visto os fogos daqui na televisão de lá.
«Ainda bem que não morreste afogada» resmunguei-lhe eu, que estava a ver a bola...

segunda-feira, agosto 22, 2005

Os Bilhetes Postais da Época

As chamadas regras de segurança nos aeroportos começam a aproximar-se do intolerável.Se lhes juntarmos as medidas de poupança das companhias aéreas e os desenhos minimalistas dos espaços onde os passageiros devem permanecer e por onde devem passar, viajar começa a parecer um pesadelo.
Hoje, por exemplo, no aeroporto de Viena: começamos por ser surprendidos por uma fila única de check-in para todos os voos. Um verdadeira bicha de rabiar, às voltas, às voltas e, no final, uma funcionária da Austrian Airlines a complicar o mais possível.
depois, mais duas filas, a primeira para controlo de identidade e a segunda, o suplício da segurança. Um dia destes ainda me caem as calças quando me pedirem para tirar o cinto. Tudo apita e, hoje, uma polícia com ar másculo caiu logo sobre uma das minhas companheiras de viagem a apalpá-la. Depois, descobriu-se que a pequena fivela do cinto era a responsável pelo concerto, mas lá que a polícia aproveitou, aproveitou. E a senhora minha companheira de viagem não gostou nada
Já fiz viagens do chamado terceiro mundo bem mais simpáticas
Espero, sinceramente, que estas e outras medidas de segurança não sejam a porta de entrada para nada de tão seguro, tão seguro, que não se possa lá estar. Por mim ficamos a dever isto ao sr. Bush, para cujo país é ainda mais traumático viajar. Hoje, em Viena, uns agentes da segurança desmontaram as malas a um cavalheiro, vasculharam tudo, os bolsos das calças, dos casacos, tudo. Ali à frente de toda a gente. Fiquei a desejar que o dono das malas as tivesse enchido de cuecas sujas.
Viena ficou para trás. Nos próximos dias tentarei recuperar algumas das impressões que fui registando e que por incapacidade tecnológica não me foi possível incluir no blogue.
Mas, agora que se me põe essa perspectiva, não devo deixar passar uma interrogação que se me tem posto nos últimos dias: como será interpretado este registo, este quase diário de viagem, mais parecido com o velho hábito de enviar postais aos amigos, do que, propriamente crónica de viagem.
De facto, prefiro a primeira definição à segunda, já que estes apontamentos terão interessado apenas aos amigos. As fotografias mostro depois.

A Visita ao "Império"

Já escrevi - suponho - que detesto escrever para a gaveta. Por isso, o blogue é óptimo, escreve-se e está publicado. Todavia, agora em viagem, e porque nem sempre é fácil obter ligação à Net, tenho vindo a escrever para "a gaveta", na esperança de encontrar uma ligação. Viena era o "paraíso" prometido. Qual paraíso, qual carapuça. Ainda nós nos queixamos da PT em Portugal...
E hoje não podia deixar de conversar comigo e convosco, depois de ter desabafado no tal computador do hotel, sem acentos e essas coisas todas. Um dia destes irei emendar os erros.
Falemos hoje da Áustria Imperial, isto é do que ficou do Império Austro Húngaro, um verdadeiro império cujos vestígios não podem deixar, ainda hoje, de constituir uma afronta. Se recuarmos no tempo e confrontarmos o luxo em que vivia a corte, quer de Maria Tereza (mãe de Maria Antonieta), quer de Francisco José e Elizabeth (Sissi), com a vida que levavam os camponeses, obrigados a dar os seus dias de trabalho aos respectivos senhores, gratuitamente, além das taxas e impostos que pagavam, obrigações que foram aumentando até ao limite do insuportável, com o único objectivo de sustentar o luxo faustoso de uma corte, não podemos deixar de ficar chocados.
Hoje foi o dia da visita aos palácios. Um espanto. Só a implantação urbanística, ao tempo da sua edificação, longe, e hoje transformada no centro da cidade, a imensidão da área ocupada e a ostentação da arquitectura, me faz sentir como existindo noutro Mundo. Felizmente, não tenho nada a ver com aquilo e a exibição ostentatória de tanto ouro, de tanta prata dourada, de tantas peças de crital e porcelana provenientes de todo o lado, não pode deixar de me transportar para a Áustria de hoje.
Para a exploração misarabilista dos pequenos aspectos de um tursimo de massas, de verdadeiras hordas que enchem por completo, por exemplo, o chamado "Museu de Sissi", onde é exibida até à exaustão a sua silhueta anorética, os seus vestidos de "cintura de vespa" - que ela usou até aos sessenta anos, altura em que foi morta por um louco, à facada.
Os austríacos de hoje, já que vivem de mitos - lá está em exibição parte dos filmes interpretados por Rommy Schneider - podiam, pelo menos, dar-lhe espaço - já que espaço não lhes falta.
Hoje não chovia, o sol aquecia e o museu Sissi estava repleto de excusões de italianos, japoneses e espanhóis. Todos falam alto e - notava-se, pelo menos entre os italianos e os espanhóis, gordura a mais. Estava irrespirável, verdadeiramente claustrofóbico, tanto mais que tem tudo um ar muito escuro, como se o luto ainda permanecesse...
Depois, há o cheiro a estrabaria, que já em Saltzburgo ganha foros de escândalo, o ar cansado, doente mesmo, da maior parte dos cavalos que andam com turistas repinpados a ouvir as explicações de uma guia que lhes explica o modo como S. Magestades viviam.
E ainda os 50 cêntimos por cada vez que se vai a uma casa de banho pública. Não me admiraria que, um dia destes, também começassem a cobrar o mesmo nos museus, já que ali, uma salada de alface misturada com pimentos de várias cores e 50 gramas de atum custa 6,90 €, um verdadeiro roubo.
É verdade que noutros países se verifica o mesmo, o que nos leva a outra questão: os apreciadores de arte pagam um preço demasidao alto para darem vida aos museus: as entradas são sempre caras, e há museus onde um dia inteiro não chega para ver uma parte do que se quer . Portanto, há que fazer um intervalo, pelo menos para almoçar. É aí que aparecem as verdadeiras aves de rapina a complicar as contas.
Aconteceu no Museu das Belas Artes: o número de obras expostas e a sua qualidade deu para um dia - 16 de Agosto. Chovia e ainda bem, mas esquecemo-nos de recorrer ao truque das sandes. Fomos surpreendidos e lá tivemos que dar sustento aos gaviões.

A Grande Cidade

O velho problema da grande cidade: vai-se na avenida certa,mas ultrapassa-se a rua onde se devria ter virado à esquerda - ou à direita, tanto faz - e fica tudo complicado. A experiência ensina que se deve parar logo. Desta vez, à pergunta, com o mapa na mão, a resposta foi uma verdadeira lição de boa vontade, de civismo, educação. O homem, que estava a sair de uma carrinha, disponibilizou-se para nos servir de batedor. Duas voltas à direita e lá estava o hotel.
Em Brno, na República Checa, já nos tinha calhado a sorte de um batedor num carro de polícia, mas aqui, em Viena, foi um cidadão simples cidadão.
Tenho que começar a penitenciar-me da minha primeira impressão, logo à entrada, quando, vindos da Eslováquia, nos aconteceram incidentes desagradáveis, com gente desagradável. A verdade é que nunca mais aconteceu. Pelo contrário.
Antes de Viena, porém, descobrimos um restaurante simpático, numa região produtora de vinhos, em Feuersbrunn. O Restaurante pertence a uma família que ali produz vinho desde o sec.XIX Também provámos do vinho. Tinto de 2004, a precisar de mais algum tempo de estágio, mas agradável.
Por ali só se fala alemão. Outra gente de outras paragens é, claramente, uma grande surpresa - a 60 Kms de Viena!
Mas, enfim, cá estamos: na exploração da televisão com o habitual zaping calhou-nos um brinde: Mízia a cantar o fado: texto de Vasco Graça Moura e música de Carlos Paredes. Aparentemente, tudo se conjuga para uma estadia agradável: gente simpática, a possibilidade de ver mais alguns Van Gogh, uns quantos Géricault e uns tantos Picasso, Matisse, Monet, Degas, Renoir, Cézanne, Renoir...sei lá...vamos ver se o tempo chega. Pelo menos vai passar depressa...
Pena é que a Áustria me pareça tão atrasada no plano das telecomunicações. Há zonas da cidade (Viena) sem cobertura para os telemóveis e o acesso à net é complicado. Pelo menos a T.Mobil A, que tem acordo com o hotel onde estou instalado, não consegue abrir-meuma conta para acesso wireless, pelo que não poder introduzir os textos que, entretanto, escrevi, no blogue.
No Hotel existe um único acesso para os hóspedes, no átrio da recepção, normalmente ocupado com gente jovem a jogar...Enfim, já consegui dar uma vista de olhos e percebi, pela zanga do Rafael, que não há ninguém capaz de tirar Portugal da fogueira de interesses baixos em que entrou. Ao aproximar-se domingo, dia do regresso, fico nervoso, perante a expectativa de tanta laberada à minha volta.

15 de Agosto

De repente dei comigo a pensar nas estranhas coisas que aconteceram e acontecem às pessoas e à nações a 15 de Agosto. Feriado na Austria, ao que parece na Alemanha e em Portugal. Ah! e no Lubango, dia de Nossa Senhora do Monte. De Portugal, neste 15 de Agosto,chegam mensagens a escaldar e imagens de um país a arder. O melhor é esquecer! Será? Estão a fazer o quê à minha terra? A quem tenho (temos) que pedir responsabilidades?
Por aqui choveu e chove. Antes de entrarmos em Viena voltámos a casa da família Riedl. A mãe, Anna, fez-nos uma festa incrível, na manhã de hoje tivemos, ao pequeno almoço, a companhia da Gerdi (Gertrud), irmã da Andrea e do burgomestre da Vila, Alfred Riedl.
É gente como esta que nos ajuda a gostar da outra Austria, aquela que não vive totalmente do turismo. Começo a ficar com grande curiosiade acerca de Viena e não consigo evitar o habitual stress da ultrapassagem das várias barreiras de asfalto e betão.
Grafenworth (com trema no o) é uma vila pacata, harmoniosa do ponto de vista urbanístico e arquitectónico. O primeiro andar é aqui a regra. Nada de monstruosidades, como as que descobrimos nos arredores das nossas maiores cidades, verdadeiros armazéns de gente onde o mau gosto impera e os atropelos às regras urbanísticas dão a ideia de se estar perto do fim de alguma coisa.
Apesar disso tudo, começo a ter saudades do meu sítio e da minha gente. Sobre esta, gostava que fosse mais desperta para os reais problemas da vida, do país e não se deixasse arrastar pelo manobrismo permanente da comunicação social e dos políticos. Sobre estes não posso deixar de me repetir:sempre que viajo me interrogo acerca do que verão os nossos políticos quando saem de Lisboa. Não aprendem nada, nem sequer a interrogar-se a si próprios?
E os autarcas? Será que nunca vão para além dos aeroportos , das salas de reuniões e dos "gabinetes" de massagens?
Em Portugal, há problemas que se discutem há anos e cujas soluções estão executadas, a olho nu, noutras paragens. É apenas uma questão de adaptar. Por exemplo: a velocidade nas auto-estradas É evidente que a proibição de circular a mais de 120 é um despautério, uma armadilha, uma emboscada legal.
Na Alemanha, em auto-estradas com a mesma qualidade das nossas, a velocidade aconselhada, e não limitativa, é de 130. E os automobilistas andam todos a muito mais do que isso. Nos troços em que há alguma espécie de perigo, então, sim, a velocidade é limitada e de forma bem visível. É uma solução simpática, mas que, obviamente, deixa menos campo de manobra à emboscada policial e legal.
Esta solução, mesmo do ponto de vista político, é muito mais simpática, já que hoje quase toda a gente é, simultaneamente, automobilista e peão e, por isso, entende o anacronismo da imposição de limitações a automóveis que podem, facilmente, chegar a muito mais altas velocidades em perfeitas condições de segurança, desde que as estradas também as garantam.
Finalmente, é óbvio que ninguém cumpre esta porcaria de regra.

sexta-feira, agosto 19, 2005

GUERRAS E BIRRAS

Os fogos continuam, o homem já veio de férias, falta água lá por baixo e há pouco lá em cima.
No entretanto morreu gente esturricada, e muitas casas ruiram. Não será preciso calamitar o sucedido. São coisas que acontecem. Enterrem-se os mortos e emprestem alguma coisa aos vivos. Pelas bandas do Douro perderam-se uvas, as uvas do vinho e a D. Antónia já por cá não anda para ajudar.
E o Miguel já pediu desculpa! O inquilino de S. Bento ainda não.
E o Irão abriu a gaveta do nuclear! En la 4 se habla português (por enquanto!). Os combustíveis custam, cada vez mais, os olhos da cara. O aeroporto da Ota ainda não está pronto. Ainda não há lugares no TGV, mas quem quiser pode ir de bicicleta. Quem foi que disse que isto é país do faz de conta?
Eu faço de contas que vou à guerra, lendo as centrais de DN. Segui meio distraído a escaramuça entre Vasco Pulido Valente e Miguel Portas, por causa da merda da bomba atómica. Um acredita que só os sacanas dos americanos é que eram capazes de deitar uma bomba daquelas em cima das pessoas; o outro acha que 140 mil mortos foi barato para acabar depressa com o conflito. O jornal de ontem dava conta que o Japão tinha declarado guerra aos EUA e à Inglaterra e por acaso já tinha atacado Perl Harbour, sem aviso e afundado um couraçado ou um bote ou lá o que era. Invadia as Filipinas, a Indonésia, a China. Ocuparam Timor.
Acho que não se contaram os mortos. Era boa gente! Guerreiros e patriotas. Se fosse preciso até se matavam com os aviões. A moda dos mártires suicidas já vem de longe.
Em todo o caso os japoneses já tinham pedido o fim das hostilidades e queriam render-se, recorrendo à diplomacia sueca. Os americanos dessa altura eram moucos, se é que não ouviam mal. E, claro, queriam exibir a "bomba", para impressionar os soviéticos, que estavam a trabalhar naquilo, desde o fim do conflito na Europa. Americanos e russos tinham apanhado os cientistas alemães, os primeiros a desenvolver a tese da bomba definitiva. Cada um deles queria ser o primeiro.
Foi um aparato inútil. Não foram as bombas que resolveram a guerra que estava já resolvida. E não foram 140 mil, a menos, foram 300 mil a mais, por desnecessário.
E desnecessário porque os soviéticos acabaram por fazer a «bomba» e retomar a guerra fria. As chamadas bombas voadoras concebidas pelos alemães já pelo fim da guerra, tornavam-se a mais terrível das ameaças. Nunca foram utilizadas. Outras tidos por civilizados e cultos também não resistiram a experimentar o brinquedo e iam lá para as oceanias fazer experiências. Um barquito de pacifistas, acostado ao cais, na Nova Zelândia, explodiu. Morreu um fotógrafo português, porque há sempre um português,um só que seja, em todo o lado. Tinha sido um atentado «oficial», dois agentes secretos, franceses, colocaram a bomba. Se fosse o James Bond
ter-se-ia ido embora, mas aqueles foram logo presos, julgados e condenados. Um deles engravidou, na ilha onde cumpria a sentença, Era uma mulher, já perceberam. E a gravidez foi calculada. Serviu para negociar. O governo francês obrigava-se a manter os condenados na cadeia e a agente teria o filho em França. Foi fita, claro. Mal chegaram a França foram para casa. Um fotógrafo, e ainda por cima pacifista, que importância teria?
Mas, senhores, quantos milhões (milhões mesmo milhões) de pessoas não foram mortas, executadas, destroçadas desde que o Mundo não está em guerra? Quantos milhões de africanos
não morreram já, até de fome, por mór de corrupções ou água benta? E sem que fosse necessária a merda da bomba!
A pregar não se chega a lado algum e enquanto a honestidade for uma virtude não se vai longe. Só quando for ferozmente obrigatória.
Mas para se conseguir isso... vai ser precisa a bomba!

O Império e as comunicações

Estou em Viena desde há três dias e não consigo ligar o meu computador em parte nenhuma. No Hotel, porque a T. Mobil A não tem capacidade para me abrir uma conta a utilizar no hotel com wireless. Nos Cyber-cafés porque já tiveram " a lot of problems".

Estou surpreendido com muitas coisas na Austria, mas sem calma para falar delas. É que mesmo os telefones móveis, em certas zonas da cidade não funcionam, não tem rede. A capital do grande império é um atraso de vida no que diz respeito a comunicações. E por hoje basta.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Ulisses e Penélope

Saída de Maurach com destino a Saltzburgo. Para trás fica uma vila simpática, onde aparentemente, toda a gente vive do turismo, assim como que uma monocultura com os seus riscos.
Na estrada da parte alemã um incidente estranho: um carro não identificado manda-nos encostar. Não entendemos e continuámos. Os dois "polícias" voltam e exibem sinais claros de polícia. Parámos e, depois de constatarem, primeiro, que não éramos austríacos e depois que os papéis do carro alugado não apareciam, resolveram aplicar uma multa de 25 euros por uma infracção que ninguém percebeu.
O pessoal ficou a pensar que caiu no conto do vigário, tanto mais que o recibo da multa
Saltzburgo não vive apenas do turismo, mas gostaria e faz de tudo um pouco para que isso aconteça. Explora de uma forma exaustiva o filme "Música no Coração", exibindo jardins e palácios, escadarias e recantos, servindo aos estrangeiros uma estória que agradou pouco aos austríacos, já que ela evidenciou o apoio que Hitler recebeu - natural de Lindz - na Áustria.
Por outro lado, explora até ao limite e às vezes de forma pouco limpa a memória de Wolfwang Amadeus Mozart, um filho da terra, mas a quem a terra pouco ligou quando vivo.
Rem duas casas-museu do compositor, sendo que uma delas é um artifício e onde se conta a história da família de Amadeus, o sétimo filho de Leopoldo, também músico em Saltzburgo.
Também este pretexto de exploração turística foi muito valorizado com a realização do filme "Amadeus".
Não deixa de ser curiosa esta ligação da Áustria ao cinema. É que a imagem de país colaborador com os nazis foi bastante atenuada com a série de filmes sobre a imperatriz Sissi, um conto de fadas apenas com alguns pormenores a aproximarem-se da verdade.
De facto, Sissi não queria saber do Imperador Francisco José I e este não passava cartão a Sissi, que, inclusivé, tratou de arranjar uma casa para a amante imperial, perto do palácio , em Bad Ischl, onde o Imperador passou o Verão durante sessenta anos seguidos .
É estranha esta Áustria, com paisagens que fazem lembrar postais e com heróis verdadeiros a quem a terra não ligou em devido tempo (o caso de Mozart) e vivendo das estórias artificiais de gente de qualidade mais que duvidosa.
À imperatriz Sissi, que preferia viajar para a Madeira a ir a Bad Ischl ver Francisco José, junta-se o capitão Von Trapp, o pretexto para o "Música no Coração" e que, segundo uma sua familiar tratava-se do homem "mais sem graça que veio ao Mundo".
Esta artificialidade que se respira no país turístico pode não ter correspondência no outro, mas até agora marcou-me. Para concretizar um pouco mais e recorrendo ao cinema: aqui não seria possível, por exemplo, filmar a história de Ulisses e Penélope. Só "A branca de Neve e os Sete Anões".

segunda-feira, agosto 15, 2005

Europa - Para onde Vamos ?

As viagens desorganizadas, apenas com objectivos, têm muitas vantagens. Entre elas a de se fugir às excusões, aos guias, aos caminhos oficiais. É possível ir conhecendo outras pessoas, perceber que as ideias preconcebidas, na maior parte das vezes, não têm razão e ter outra dimensão do Mundo. Neste caso da Europa e da sua civilização.
As viagens deste tipo também permitem reflexões mais calmas sobre o que vai acontecendo à nossa volta. Ao olhar a descontração com que toda a gente por aqui circula, a forma simpática como se relacionam com estranhos e aceitam as suas diferenças ( o leite quente ao pequeno almoço, por exemplo, é sempre um pedido estranho mas que acaba por ser satisfeito com simpatia e alguns sorrisos), ao olhar tudo isto, não posso deixar de pensar no modelo de sociedade que os europeus construiram e também no pouco cuidado com que estão a olhar para ele.
A comparação com o Império Romando é quase imediata. Também os romanos - é certo que doutra maneira porque noutros tempos - entendiam que o resto do Mundo desejava governar-se segundo o seu modelo. O que acabou por acontecer todos sabemos. A seguir foi a noite escura de um poder obscuro, fundamentalista, que impedia a investigação científica, que torturava e queimava as pessoas que pensassem ou sonhassem diferente.
Séculos!
Porquê? Que sei eu?!
Mas não posso deixar de me atrever a afirmar que tal aconteceu porque os romanos aceitaram como garantido o desejo de os outros serem iguais a eles.
O mesmo acontece com os europeus há demasiado tempo. E não apenas com os europeus. Os americanos, que são um produto da colonização europeia, também entendem que o modelo deles é o melhor e todos os outros estados e civilizações o querem copiar. Mais: uns e outros definem a sua realidade como imutável. As suas elites, distantes que estão do povo e dos seus problemas, governam já, na maior parte dos casos,um ficção
E o modelo europeu é, hoje, o quê?
Uma estrada aberta, um mercado permanente, sem outros valores que não sejam os do consumo.Uma estrada que está a entrar pela Europa Central e Oriental, transportando a ideia de mercado, de consumo, desprotegendo a fundamentação do respeito pela diferença, pelos direitos dos outros .
Olhamos para a União Europeia e não podemos deixar de ficar assustados com os resultados, se a olharmos para além de um mercado aberto e uma estrada livre.
Na Escola, as disciplinas com teor ideológico e/ou filosófico foram praticamente reduzidas à expressão mais simples. Transformou-se em mais um instrumento do mercado: prepara gente para carreiras de sucesso no plano dos negócios. Os académicos puros, os que apenas produzem ideias, formulam teorias e discutem o Homem passaram à condição de peças de museu.
A verdade é que a Europa, servindo-se ainda do modelo grego de Escola lhe retirou a sua principal virtude: o gosto pela discussão e pela aprendizagem. A Juventude europeia de hoje pensa que tudo foi como é e nada mudará. Não entende que tem de lutar por manter um modelo que lhe assegurará as liberdades e garantias de que usufrui.
A família, outro dos fundamentos da civilização europeia, dilui-se na premência de conseguir os proventos necessários à manutenção dos filhos em boas escolas (as tais que são trampolim para as carreiras de executivos de sucesso), de obter os fundos indispensáveis à mudança de automóvel de três em três anos, à compra de casa, se possível de uma segunda habitação no campo ou na praia. Na família deixou de se estruturar o primeiro grupo de partilha e passou a construir-se o primeiro trampolim para o sucesso.
E a Igreja? É verdade que ela foi a responsável pelos séculos negros que se seguiram à queda do Império Romano, mas, depois, com alguma moderação, sempre serviu como fundamento ideológico para algumas das virtudes que definem a vida do homem europeu. Hoje, faz o quê? Serve para quê?
A última substituição de papa foi um evidente jogo de poder, feito com muita antecedência e com grande habilidade por João Paulo II que, na prática, nada mudou durante vinte e seis anos. Pelo contrário, com ele a Igreja voltou vários anos atrás. Com este novo Bento anuncia-se o fim.
E, tudo isto, quando, de vários lados se levantam vários fundamentalismos. Do lado asiático, o fundamentalismo do mercado, controlado, no caso chinês, por um estado totalitário que tudo concentra e, no caso indiano por uma multidão de comerciantes servida por uma multidão de especialistas nas novas tecnologias, uma especialidade que conseguem obter nas condições mais incríveis.
Do lado muçulmano, o conhecido fundamentalismo, produto da distorção das leis do Corão, tal como na Europa dos séculos da escuridão, a Inquisição resultou de uma maléfica e arbitrária interpretação dos textos fundamentais do cristianismo.
Ora, a verdade é que esta estrada, que é a Europa, comporta tudo e todos. Por aqui, no Tirol, entre as lojas de "souvenirs" já há espaços chineses, com comerciantes habilidosos à espera dos incautos, indianos um pouco por aqui e por ali e muçulmanos, igualmente, acompanhados de suas esposas, de rostos tapados, passeando-se nos jardins dos palácios imperiais de Bad Ischl e Innsbruk.
Também é verdade que, por aqui, a tranquilidade é absoluta, mas em Londres, Madrid e, seguramente, Roma já não é.
Estará a acontecer connosco, europeus, o que aconteceu com os romanos?

Internet - Um problema

Entre Innsbruck e Saltzburgo, mais perto da primeira que da segunda, fica Maurach. Uma vila do Tirol, onde todas as casas alugam quartos e existem alguns hotéis de real classe. Há de tudo para todas as bolsas, mas sobretudo o bilhete postal permanente tirolês. Fim de semana de três dias, também para os austríacos, e ao que parece para os alemães, as montanhas fervilham de actividade: bicicletas, peões, alguns com carros de bebés, passeiam-se pelos caminhos florestais. Manhã de domingo, brilha um sol tímido mas agradável.
É dia de descanso para o grupo, um passeio pelo lago (Achensee), pic-nic e tudo e o resto do dia para "lerdar". Em boa hora, porque se levantou um vento desagradável. O Verão por aqui é um pouco caprichoso.
Sábado, 13, foi o prazer da leitura de alguns jornais ingleses para saber como vai o Mundo no Café Central de Innsbruck. Uma legenda, que a mim me despertou a nostalgia dos tempos em que, quer em Lisboa, quer em Coimbra - suponho que em todas as outras cidades portuguesas, nomeadamente no Porto -, se tomava a bica, se lia o jornal e se cavaqueava com os amigos, ou, em certos casos, se dava uma vista de olhos aos livros, sobretudo em vésperas de exames.
Voltemos, todavia a Innsbruck e ao seu palácio imperial, onde Maria Tereza ditou as leis do seu gosto pelo barroco e rocócó e deixou os retratos dos seus 16 filhos, entre os quais Maria Antonieta - essa mesma, aquela a quem cortaram a cabeça.
Depois do jornal no Central, uma volta pelo chamado centro turístico, onde os italianos tinham tomado conta das praças, das ruas e gesticulavam como se estivessem a afogar-se entre a multidão. As compras habituais, comigo a ficar na rua, observando as multidões ( se toda a gente fosse como eu, a sociedade de consumo não existiria).
O almoço, fora de horas - foi necessário namorar a cozinheira - no mais antigo restaurante da cidade: o Goldener Aldler. Tem mais de seiscentos anos, que se notam pela antiguidade das muitas obras de arte espalhadas pelas paredes e pelo aspecto do próprio edifício.
O regresso a Maurach, já com outro alojamento marcado, porque o da primeira noite era gerido por um senhor esquisito: explicava numa voz de falsete que essa coisa de televisão e net, só nos grandes hotéis. "Esta é uma pequena casa..." Foi fácil arranjar um outro alojamento, bastante melhor, com televisão e mais barato cinco euros por pessoa...
Net é que nada. Estes austríacos são esquisitos, têm o culto do arranjo das casas ( o tal senhor esquisito - "bota esquisito nisso"-) tem a casa cheia de verdadeiras obras de arte, feitas em madeira, em muitos casos reproduções de quadros pintados em tela, feitas por ele próprio), mas são pouco virados para as novas tecnologias.
Todavia, num dos grandes hotéis da região, lá consegui uma abertura muito simpática, mas que evidencia que por aqui uma parte das receitas dos hotéis ainda é conseguida com as telecomunicações. Tendo uma rede ADSL , o hotel cobra aos clientes dois euros por cada trinta minutos de ligação à Internet, sendo que é o mais barato,já que em todos os outros, o preço é de três euros por trinta minutos.. Mas, enfim, aliviei o computador e a minha impaciência.