segunda-feira, agosto 22, 2005

15 de Agosto

De repente dei comigo a pensar nas estranhas coisas que aconteceram e acontecem às pessoas e à nações a 15 de Agosto. Feriado na Austria, ao que parece na Alemanha e em Portugal. Ah! e no Lubango, dia de Nossa Senhora do Monte. De Portugal, neste 15 de Agosto,chegam mensagens a escaldar e imagens de um país a arder. O melhor é esquecer! Será? Estão a fazer o quê à minha terra? A quem tenho (temos) que pedir responsabilidades?
Por aqui choveu e chove. Antes de entrarmos em Viena voltámos a casa da família Riedl. A mãe, Anna, fez-nos uma festa incrível, na manhã de hoje tivemos, ao pequeno almoço, a companhia da Gerdi (Gertrud), irmã da Andrea e do burgomestre da Vila, Alfred Riedl.
É gente como esta que nos ajuda a gostar da outra Austria, aquela que não vive totalmente do turismo. Começo a ficar com grande curiosiade acerca de Viena e não consigo evitar o habitual stress da ultrapassagem das várias barreiras de asfalto e betão.
Grafenworth (com trema no o) é uma vila pacata, harmoniosa do ponto de vista urbanístico e arquitectónico. O primeiro andar é aqui a regra. Nada de monstruosidades, como as que descobrimos nos arredores das nossas maiores cidades, verdadeiros armazéns de gente onde o mau gosto impera e os atropelos às regras urbanísticas dão a ideia de se estar perto do fim de alguma coisa.
Apesar disso tudo, começo a ter saudades do meu sítio e da minha gente. Sobre esta, gostava que fosse mais desperta para os reais problemas da vida, do país e não se deixasse arrastar pelo manobrismo permanente da comunicação social e dos políticos. Sobre estes não posso deixar de me repetir:sempre que viajo me interrogo acerca do que verão os nossos políticos quando saem de Lisboa. Não aprendem nada, nem sequer a interrogar-se a si próprios?
E os autarcas? Será que nunca vão para além dos aeroportos , das salas de reuniões e dos "gabinetes" de massagens?
Em Portugal, há problemas que se discutem há anos e cujas soluções estão executadas, a olho nu, noutras paragens. É apenas uma questão de adaptar. Por exemplo: a velocidade nas auto-estradas É evidente que a proibição de circular a mais de 120 é um despautério, uma armadilha, uma emboscada legal.
Na Alemanha, em auto-estradas com a mesma qualidade das nossas, a velocidade aconselhada, e não limitativa, é de 130. E os automobilistas andam todos a muito mais do que isso. Nos troços em que há alguma espécie de perigo, então, sim, a velocidade é limitada e de forma bem visível. É uma solução simpática, mas que, obviamente, deixa menos campo de manobra à emboscada policial e legal.
Esta solução, mesmo do ponto de vista político, é muito mais simpática, já que hoje quase toda a gente é, simultaneamente, automobilista e peão e, por isso, entende o anacronismo da imposição de limitações a automóveis que podem, facilmente, chegar a muito mais altas velocidades em perfeitas condições de segurança, desde que as estradas também as garantam.
Finalmente, é óbvio que ninguém cumpre esta porcaria de regra.

sexta-feira, agosto 19, 2005

GUERRAS E BIRRAS

Os fogos continuam, o homem já veio de férias, falta água lá por baixo e há pouco lá em cima.
No entretanto morreu gente esturricada, e muitas casas ruiram. Não será preciso calamitar o sucedido. São coisas que acontecem. Enterrem-se os mortos e emprestem alguma coisa aos vivos. Pelas bandas do Douro perderam-se uvas, as uvas do vinho e a D. Antónia já por cá não anda para ajudar.
E o Miguel já pediu desculpa! O inquilino de S. Bento ainda não.
E o Irão abriu a gaveta do nuclear! En la 4 se habla português (por enquanto!). Os combustíveis custam, cada vez mais, os olhos da cara. O aeroporto da Ota ainda não está pronto. Ainda não há lugares no TGV, mas quem quiser pode ir de bicicleta. Quem foi que disse que isto é país do faz de conta?
Eu faço de contas que vou à guerra, lendo as centrais de DN. Segui meio distraído a escaramuça entre Vasco Pulido Valente e Miguel Portas, por causa da merda da bomba atómica. Um acredita que só os sacanas dos americanos é que eram capazes de deitar uma bomba daquelas em cima das pessoas; o outro acha que 140 mil mortos foi barato para acabar depressa com o conflito. O jornal de ontem dava conta que o Japão tinha declarado guerra aos EUA e à Inglaterra e por acaso já tinha atacado Perl Harbour, sem aviso e afundado um couraçado ou um bote ou lá o que era. Invadia as Filipinas, a Indonésia, a China. Ocuparam Timor.
Acho que não se contaram os mortos. Era boa gente! Guerreiros e patriotas. Se fosse preciso até se matavam com os aviões. A moda dos mártires suicidas já vem de longe.
Em todo o caso os japoneses já tinham pedido o fim das hostilidades e queriam render-se, recorrendo à diplomacia sueca. Os americanos dessa altura eram moucos, se é que não ouviam mal. E, claro, queriam exibir a "bomba", para impressionar os soviéticos, que estavam a trabalhar naquilo, desde o fim do conflito na Europa. Americanos e russos tinham apanhado os cientistas alemães, os primeiros a desenvolver a tese da bomba definitiva. Cada um deles queria ser o primeiro.
Foi um aparato inútil. Não foram as bombas que resolveram a guerra que estava já resolvida. E não foram 140 mil, a menos, foram 300 mil a mais, por desnecessário.
E desnecessário porque os soviéticos acabaram por fazer a «bomba» e retomar a guerra fria. As chamadas bombas voadoras concebidas pelos alemães já pelo fim da guerra, tornavam-se a mais terrível das ameaças. Nunca foram utilizadas. Outras tidos por civilizados e cultos também não resistiram a experimentar o brinquedo e iam lá para as oceanias fazer experiências. Um barquito de pacifistas, acostado ao cais, na Nova Zelândia, explodiu. Morreu um fotógrafo português, porque há sempre um português,um só que seja, em todo o lado. Tinha sido um atentado «oficial», dois agentes secretos, franceses, colocaram a bomba. Se fosse o James Bond
ter-se-ia ido embora, mas aqueles foram logo presos, julgados e condenados. Um deles engravidou, na ilha onde cumpria a sentença, Era uma mulher, já perceberam. E a gravidez foi calculada. Serviu para negociar. O governo francês obrigava-se a manter os condenados na cadeia e a agente teria o filho em França. Foi fita, claro. Mal chegaram a França foram para casa. Um fotógrafo, e ainda por cima pacifista, que importância teria?
Mas, senhores, quantos milhões (milhões mesmo milhões) de pessoas não foram mortas, executadas, destroçadas desde que o Mundo não está em guerra? Quantos milhões de africanos
não morreram já, até de fome, por mór de corrupções ou água benta? E sem que fosse necessária a merda da bomba!
A pregar não se chega a lado algum e enquanto a honestidade for uma virtude não se vai longe. Só quando for ferozmente obrigatória.
Mas para se conseguir isso... vai ser precisa a bomba!

O Império e as comunicações

Estou em Viena desde há três dias e não consigo ligar o meu computador em parte nenhuma. No Hotel, porque a T. Mobil A não tem capacidade para me abrir uma conta a utilizar no hotel com wireless. Nos Cyber-cafés porque já tiveram " a lot of problems".

Estou surpreendido com muitas coisas na Austria, mas sem calma para falar delas. É que mesmo os telefones móveis, em certas zonas da cidade não funcionam, não tem rede. A capital do grande império é um atraso de vida no que diz respeito a comunicações. E por hoje basta.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Ulisses e Penélope

Saída de Maurach com destino a Saltzburgo. Para trás fica uma vila simpática, onde aparentemente, toda a gente vive do turismo, assim como que uma monocultura com os seus riscos.
Na estrada da parte alemã um incidente estranho: um carro não identificado manda-nos encostar. Não entendemos e continuámos. Os dois "polícias" voltam e exibem sinais claros de polícia. Parámos e, depois de constatarem, primeiro, que não éramos austríacos e depois que os papéis do carro alugado não apareciam, resolveram aplicar uma multa de 25 euros por uma infracção que ninguém percebeu.
O pessoal ficou a pensar que caiu no conto do vigário, tanto mais que o recibo da multa
Saltzburgo não vive apenas do turismo, mas gostaria e faz de tudo um pouco para que isso aconteça. Explora de uma forma exaustiva o filme "Música no Coração", exibindo jardins e palácios, escadarias e recantos, servindo aos estrangeiros uma estória que agradou pouco aos austríacos, já que ela evidenciou o apoio que Hitler recebeu - natural de Lindz - na Áustria.
Por outro lado, explora até ao limite e às vezes de forma pouco limpa a memória de Wolfwang Amadeus Mozart, um filho da terra, mas a quem a terra pouco ligou quando vivo.
Rem duas casas-museu do compositor, sendo que uma delas é um artifício e onde se conta a história da família de Amadeus, o sétimo filho de Leopoldo, também músico em Saltzburgo.
Também este pretexto de exploração turística foi muito valorizado com a realização do filme "Amadeus".
Não deixa de ser curiosa esta ligação da Áustria ao cinema. É que a imagem de país colaborador com os nazis foi bastante atenuada com a série de filmes sobre a imperatriz Sissi, um conto de fadas apenas com alguns pormenores a aproximarem-se da verdade.
De facto, Sissi não queria saber do Imperador Francisco José I e este não passava cartão a Sissi, que, inclusivé, tratou de arranjar uma casa para a amante imperial, perto do palácio , em Bad Ischl, onde o Imperador passou o Verão durante sessenta anos seguidos .
É estranha esta Áustria, com paisagens que fazem lembrar postais e com heróis verdadeiros a quem a terra não ligou em devido tempo (o caso de Mozart) e vivendo das estórias artificiais de gente de qualidade mais que duvidosa.
À imperatriz Sissi, que preferia viajar para a Madeira a ir a Bad Ischl ver Francisco José, junta-se o capitão Von Trapp, o pretexto para o "Música no Coração" e que, segundo uma sua familiar tratava-se do homem "mais sem graça que veio ao Mundo".
Esta artificialidade que se respira no país turístico pode não ter correspondência no outro, mas até agora marcou-me. Para concretizar um pouco mais e recorrendo ao cinema: aqui não seria possível, por exemplo, filmar a história de Ulisses e Penélope. Só "A branca de Neve e os Sete Anões".

segunda-feira, agosto 15, 2005

Europa - Para onde Vamos ?

As viagens desorganizadas, apenas com objectivos, têm muitas vantagens. Entre elas a de se fugir às excusões, aos guias, aos caminhos oficiais. É possível ir conhecendo outras pessoas, perceber que as ideias preconcebidas, na maior parte das vezes, não têm razão e ter outra dimensão do Mundo. Neste caso da Europa e da sua civilização.
As viagens deste tipo também permitem reflexões mais calmas sobre o que vai acontecendo à nossa volta. Ao olhar a descontração com que toda a gente por aqui circula, a forma simpática como se relacionam com estranhos e aceitam as suas diferenças ( o leite quente ao pequeno almoço, por exemplo, é sempre um pedido estranho mas que acaba por ser satisfeito com simpatia e alguns sorrisos), ao olhar tudo isto, não posso deixar de pensar no modelo de sociedade que os europeus construiram e também no pouco cuidado com que estão a olhar para ele.
A comparação com o Império Romando é quase imediata. Também os romanos - é certo que doutra maneira porque noutros tempos - entendiam que o resto do Mundo desejava governar-se segundo o seu modelo. O que acabou por acontecer todos sabemos. A seguir foi a noite escura de um poder obscuro, fundamentalista, que impedia a investigação científica, que torturava e queimava as pessoas que pensassem ou sonhassem diferente.
Séculos!
Porquê? Que sei eu?!
Mas não posso deixar de me atrever a afirmar que tal aconteceu porque os romanos aceitaram como garantido o desejo de os outros serem iguais a eles.
O mesmo acontece com os europeus há demasiado tempo. E não apenas com os europeus. Os americanos, que são um produto da colonização europeia, também entendem que o modelo deles é o melhor e todos os outros estados e civilizações o querem copiar. Mais: uns e outros definem a sua realidade como imutável. As suas elites, distantes que estão do povo e dos seus problemas, governam já, na maior parte dos casos,um ficção
E o modelo europeu é, hoje, o quê?
Uma estrada aberta, um mercado permanente, sem outros valores que não sejam os do consumo.Uma estrada que está a entrar pela Europa Central e Oriental, transportando a ideia de mercado, de consumo, desprotegendo a fundamentação do respeito pela diferença, pelos direitos dos outros .
Olhamos para a União Europeia e não podemos deixar de ficar assustados com os resultados, se a olharmos para além de um mercado aberto e uma estrada livre.
Na Escola, as disciplinas com teor ideológico e/ou filosófico foram praticamente reduzidas à expressão mais simples. Transformou-se em mais um instrumento do mercado: prepara gente para carreiras de sucesso no plano dos negócios. Os académicos puros, os que apenas produzem ideias, formulam teorias e discutem o Homem passaram à condição de peças de museu.
A verdade é que a Europa, servindo-se ainda do modelo grego de Escola lhe retirou a sua principal virtude: o gosto pela discussão e pela aprendizagem. A Juventude europeia de hoje pensa que tudo foi como é e nada mudará. Não entende que tem de lutar por manter um modelo que lhe assegurará as liberdades e garantias de que usufrui.
A família, outro dos fundamentos da civilização europeia, dilui-se na premência de conseguir os proventos necessários à manutenção dos filhos em boas escolas (as tais que são trampolim para as carreiras de executivos de sucesso), de obter os fundos indispensáveis à mudança de automóvel de três em três anos, à compra de casa, se possível de uma segunda habitação no campo ou na praia. Na família deixou de se estruturar o primeiro grupo de partilha e passou a construir-se o primeiro trampolim para o sucesso.
E a Igreja? É verdade que ela foi a responsável pelos séculos negros que se seguiram à queda do Império Romano, mas, depois, com alguma moderação, sempre serviu como fundamento ideológico para algumas das virtudes que definem a vida do homem europeu. Hoje, faz o quê? Serve para quê?
A última substituição de papa foi um evidente jogo de poder, feito com muita antecedência e com grande habilidade por João Paulo II que, na prática, nada mudou durante vinte e seis anos. Pelo contrário, com ele a Igreja voltou vários anos atrás. Com este novo Bento anuncia-se o fim.
E, tudo isto, quando, de vários lados se levantam vários fundamentalismos. Do lado asiático, o fundamentalismo do mercado, controlado, no caso chinês, por um estado totalitário que tudo concentra e, no caso indiano por uma multidão de comerciantes servida por uma multidão de especialistas nas novas tecnologias, uma especialidade que conseguem obter nas condições mais incríveis.
Do lado muçulmano, o conhecido fundamentalismo, produto da distorção das leis do Corão, tal como na Europa dos séculos da escuridão, a Inquisição resultou de uma maléfica e arbitrária interpretação dos textos fundamentais do cristianismo.
Ora, a verdade é que esta estrada, que é a Europa, comporta tudo e todos. Por aqui, no Tirol, entre as lojas de "souvenirs" já há espaços chineses, com comerciantes habilidosos à espera dos incautos, indianos um pouco por aqui e por ali e muçulmanos, igualmente, acompanhados de suas esposas, de rostos tapados, passeando-se nos jardins dos palácios imperiais de Bad Ischl e Innsbruk.
Também é verdade que, por aqui, a tranquilidade é absoluta, mas em Londres, Madrid e, seguramente, Roma já não é.
Estará a acontecer connosco, europeus, o que aconteceu com os romanos?

Internet - Um problema

Entre Innsbruck e Saltzburgo, mais perto da primeira que da segunda, fica Maurach. Uma vila do Tirol, onde todas as casas alugam quartos e existem alguns hotéis de real classe. Há de tudo para todas as bolsas, mas sobretudo o bilhete postal permanente tirolês. Fim de semana de três dias, também para os austríacos, e ao que parece para os alemães, as montanhas fervilham de actividade: bicicletas, peões, alguns com carros de bebés, passeiam-se pelos caminhos florestais. Manhã de domingo, brilha um sol tímido mas agradável.
É dia de descanso para o grupo, um passeio pelo lago (Achensee), pic-nic e tudo e o resto do dia para "lerdar". Em boa hora, porque se levantou um vento desagradável. O Verão por aqui é um pouco caprichoso.
Sábado, 13, foi o prazer da leitura de alguns jornais ingleses para saber como vai o Mundo no Café Central de Innsbruck. Uma legenda, que a mim me despertou a nostalgia dos tempos em que, quer em Lisboa, quer em Coimbra - suponho que em todas as outras cidades portuguesas, nomeadamente no Porto -, se tomava a bica, se lia o jornal e se cavaqueava com os amigos, ou, em certos casos, se dava uma vista de olhos aos livros, sobretudo em vésperas de exames.
Voltemos, todavia a Innsbruck e ao seu palácio imperial, onde Maria Tereza ditou as leis do seu gosto pelo barroco e rocócó e deixou os retratos dos seus 16 filhos, entre os quais Maria Antonieta - essa mesma, aquela a quem cortaram a cabeça.
Depois do jornal no Central, uma volta pelo chamado centro turístico, onde os italianos tinham tomado conta das praças, das ruas e gesticulavam como se estivessem a afogar-se entre a multidão. As compras habituais, comigo a ficar na rua, observando as multidões ( se toda a gente fosse como eu, a sociedade de consumo não existiria).
O almoço, fora de horas - foi necessário namorar a cozinheira - no mais antigo restaurante da cidade: o Goldener Aldler. Tem mais de seiscentos anos, que se notam pela antiguidade das muitas obras de arte espalhadas pelas paredes e pelo aspecto do próprio edifício.
O regresso a Maurach, já com outro alojamento marcado, porque o da primeira noite era gerido por um senhor esquisito: explicava numa voz de falsete que essa coisa de televisão e net, só nos grandes hotéis. "Esta é uma pequena casa..." Foi fácil arranjar um outro alojamento, bastante melhor, com televisão e mais barato cinco euros por pessoa...
Net é que nada. Estes austríacos são esquisitos, têm o culto do arranjo das casas ( o tal senhor esquisito - "bota esquisito nisso"-) tem a casa cheia de verdadeiras obras de arte, feitas em madeira, em muitos casos reproduções de quadros pintados em tela, feitas por ele próprio), mas são pouco virados para as novas tecnologias.
Todavia, num dos grandes hotéis da região, lá consegui uma abertura muito simpática, mas que evidencia que por aqui uma parte das receitas dos hotéis ainda é conseguida com as telecomunicações. Tendo uma rede ADSL , o hotel cobra aos clientes dois euros por cada trinta minutos de ligação à Internet, sendo que é o mais barato,já que em todos os outros, o preço é de três euros por trinta minutos.. Mas, enfim, aliviei o computador e a minha impaciência.

domingo, agosto 14, 2005

SOL E SOMBRA

Há qualquer coisa de sombrio neste assunto dos incêndios. O manto de silêncio em redor de diversos ângulos é quase sufocante. Não é como as falcatruas nas contas, nos depósitos em paraísos fiscais, porque, estes, frequentemente saltam para a ribalta. Albarram é um caso. Um dos candidatos por Oeiras é outro, ou a pequena Felgueiras, outro ainda. Não são todos, claro. Alguns outros artistas com dinheiros mal parados continuam calmamente na sombra ou nas boas graças madeirenses.
No caso dos incêndios praticamente nada transpira. Uns vagos «foram detidos x suspeitos de atear fogo» uns aqui, outros ali, mais nada. Aqui, no blog, fizemos e dividimos interrogações, mais interessados (e insistentes) nos porquês e nas consequências. Muita da censura implícita era dirigida à imprensa, escrita, falada ou teledifundida. Não me lembro nem dei conta de reportagens sobre este género de crime, nem sobre o «retrato» do criminoso (a). Presumo que os repórteres devem ter posto questãos e engoliram sem se engasgar o silêncio como resposta.
Foi na Televisão que, finalmente, o ministro António Costa deixou escapar alguma velada censura à ligeireza dos magistrados e ao pouco rigor penal. A magistratura, habitualmente lenta,
ripostou com azedume muito depressa, sem justificar nem clarificar.
Talvez por isto o Ministério da Justiça entendeu vir a terreiro. Tão depressa, que se atrapalhou
e baralhou os dados, começou por referir que desde 97 não havia condenações a prisão efectiva. Depois emendou a mão e revelou que entre 97 e 2005 houve condenações.
Tardiamente admitiu-se que muito silêncio começava a fazer uma barulheira dos diabos! Mesmo assim, a informação é escassa. Quem é o incendiário. O que é que o conduz ao crime? Ou quem o conduz ao crime? Algum (alguns?) dos condenados terá sido induzido (pago) a incendiar a mata, ou a casa, ou o prédio?
Me parece que há excessivo cuidado, muito, muito cuidado, em não clarificar o que está (e quem está) por trás de tanta tragédia. Ontem morreu mais um bombeiro. Penso que eu, e mais do que eu a família dele, e as famílias de tantos outros que pereceram nos incêndios criminosos, temos o direito de saber como e porquê morreu gente inocente. Parece-se excessivo que só os condenados por fogo posto tenham direitos e gozem de tão estranha cobertura à sua (deles) privacidade.
Não se trata de curiosidade mórbida. Incendiários há-os em todo o lado e por todo o mundo, mas provavelmente não com a persistência demoníaca que nos persegue. Acredito que, se entendermos o crime, e as causas que conduzem a ele, possamos contribuir para o evitar ou minorar as consequências. Donde, o silêncioà volta, uma espécie de aviso: isto é com a Justiça e ninguém mais tem a ver com isso - foi (e será) um reflexo de estímulo ao criminoso (saudável ou doente), senão, pior ainda, uma forma implícita e inconsciente de cumplicidade...

O Pó fascista que desaparece

Para trás ficou Milowka, o hotel simpático e a família de Wincenty, Danuta, a esposa e Kuba, o filho. Foi uma despedida de verdadeiros amigos, com a promessa de regresso. No Inverno, para aprender a esquiar - ou a partir as pernas - vão acrescentando os companheiros de viagem.A passagem pela Eslováquia dá para entender que a Europa só pode mesmo ter futuro. Assim apareçam lideranças honestas e competentes. Há obras por todo o lado e os campos não estão parados: milho, girassol, trigo,uma azáfama real, mesmo que, de vez em quando se tenha uma enorme fila na estrada porque um tractor, velho, mesmo a cair, resolveu descansar um pouco antes de fazer mais um esforço.Os eslovacos e os polacos da polícia de fronteira têm alguma saudade dos outros tempos - nota-se. Estão sempre a ver se descobrem qualquer coisa estranha nos documentos, olham para os automóveis como se escondessem um exército de terroristas. Estão a conviver menos bem com a abertura de fronteiras e não dispensam o exercício da autoridade em cenas verdadeiramente risíveis.Agora que as fronteiras têm pouco significado, os polacos estão a construir um enorme complexo arquitectónico para a sua fronteira com a Eslováquia. Vá-se lá perceber porquê.Em Povazska Bystrica, à beira da estrada, um restaurante bem simpático, de bom gosto, com boa cozinha e um serviço perfeito. Foi a última etapa naquele país. A próxima paragem seria já na Austria.Vindo da Eslováquia, entra um homem na fronteira austríaca e é como se tivesse snifado pó fascista.Na primeira estação de serviço, o guarda da "mija" da viagem, um gorila de cabeça rapada e olhar feroz cobra 30 cêntimos por cada alívio. Sessenta paus, a multiplicar por quatro são... Temos que inventar um sistema de ser possível dois em um. É que assim já nem o Pitigrilli tem razão. A este preço é uma dor de alma.A mulher dos telefones, parecida com aquelas senhoras que nos filmes americanos fazem o papel das megeras comunistas, encolhe os ombros, quando se protesta porque a porcaria da máquina de telefonar engole euros a uma velocidade espantosa. Resultado: oito euros engolidos e o telefonema por fazer. A fascista ainda cerrou os punhos com a nossa conversa.A certa altura fica-se com o receio de ser assaltado. Os preços são um pavor e as caras daquela gente fazem lembrar um file de terror. Emobra que se faz tarde.O objectivo é passar Viena a caminho de Salzburgo. O costume: circulares mal sinalizadas, obras por toda a parte, mas depois de alguns enganos e algumas voltas atrás lá conseguimos sair da grande cidade.Para mim, as grandes cidades são um inferno, antes de chegar ao centro. Ultrapassar as sucessivas barreiras de betão, asfalto, automóveis, cidadãos mal dispostos é um verdadeiro martírio - acho, aliás ter já ganho o direito ao céu (não direi a 70 virgens, mas...).Ultrapassada que foi Viena, descobrimos a outra Austria, das pequenas vilas, da gente afável, prestável, esforçada. Graças a eles encontrámos uma pequena relíquia, uma casa de turismo rural, conseguida da recuperação de uma parte (dos estábulos) de uma grande quinta da família A. Riedl.Um senhor de ar cavalheiresco, uma senhora campesina, entusiasta, afável, preocupada e afectiva e sua filha, a gerente do empreendimento,igualmente simpática, eficiente e com um inglês aceitável.Nada como o turismo rural português, que muitas vezes não passa de um artifício para ter obtido fundos para a recuperação das casas de família e as instalações que disponibilizam para os hóspedes são de um mau gosto aflitivo, com as relíquias familiares.
Não, aqui, em Grafenworth é tudo impecável. Apenas um senão: não têm Net. Mas os quartos são de um bom gosto a toda a prova, o pequeno almoço, de primeiríssima, servido em louça Villeroy e Boch. Como bónus, a companhia de um cão enorme, simpático e gordo, o max.

A Juventude Polaca

Krakóvia é obrigatório. Perdemos um dia nas minas de sal, mas tivémos que regressar para ver a monumentalidade de uma cidade que foi capital da Polónia durante vários séculos. Tem mais de uma centena de Igrejas, uma catedral um bocado estragada com um mamarracho que lhe plantaram no meio com um caixão de prata contendo os restos mortais de um dos bispos lá do sítio.
Na Catedral reparei no ar dos muitos padres que por lá andam com ar perdido, tristes. Tristes e magros, quase a desaparecer nas batinas que eles ainda usam. Impressinaram-me aqueles padres. Em Krakóvia, o Papa João Paulo II está por todo o lado, em fotografias, em estátuas, ou simplesmente representado por um ramo de flores no palácio do bispo, que ele habitou, quando foi o pastor da cidade.
Porque o tempo não chega para tudo, recorremos a um daqueles carros eléctricos que fazem a chamada volta turística à cidade. Conduzido por uma jovem bem simpática e informada, lá fomos vendo as Igrejas, as praças e as Sinagogas do bairro judeu, que em tempos constituía uma parte da cidade, separada da outra, a católica. Os judeus, que chegaram a ser trinta por cento da população de toda a Polónia, estão agora reduzidos a pouco mais de uma centena. Há números que sempre assustam.
A nossa condutora é estudante e trabalha entre 10 a 14 horas por dia, por um salário que é, concerteza, muito baixo, a avaliar pelo trejeito que fez quando se falou no assunto.
Todavia, tal como o Kuba adora as montanhas e o seu país, ela ama Krakóvia,a sua terra natal e a totalidadeda sua terra, a Polónia.
Esta atitude da juventude polaca não pode deixar de impressionar quem como nós, portugueses, se habituou a ouvir os seus jovens a desdenhar deste tipo de sentimentos e a percebê-los preocupados apenas em consumir.
Depois de visto o castelo, lá voltámos a Milowka, um caminho já conhecido, com duas portagens. Uma paragem em Ziwiec para uma cerveja na cervejaria da fábrica, mas o pessoal lá do sítio nem para nós olhou - à comunista. Espera, se quiseres. Bem diferente do tratamento que recebemos na cervejaria da Budweiser, na República Checa

"Kuba", o Ás do Ski e do Volante

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

sábado, agosto 13, 2005

LAVAR DAÍ AS MÃOZINHAS

Está de férias, ponto final parágrafo!
Pois! Mas não é bem assim. Habitualmente o direito às férias adquire-se após e não antes. Primeiro desempenha-se a tarefa e só depois o eleito se deita a dormir. Mas nem é por ser direito ou esquerdo, que a questão se deve colocar. Um primeiro-ministro, recém empossado, não deve abandonar o barco, mal inicia a viagem. Sobretudo se a embarcação sofreu um duro e inesperado rombo - prontamente remendado, seja dito!
Não é razoável e os factos subsequentes acabaram por amargar a pílula. É certo que Sampaio já não pode intervir, não pode mais despedir governo maioritários e, portanto ele, sim ele fez bem em gozar férias tranquilas, dando uma de preocupado, para ficar bem na fotografia. Mas o PS sai mal.
António Costa borregou. Faz bem em não gostar de aparecer a choramingar à frente das câmaras televisivas, mas ele há outros modos de aparecer, de actuar, de se impor à opinião pública. E o que se viu demasiadas vezes foi não o ver nos momentos mais difíceis, não o ouvir a tempo e horas, foi isso que fez notar a ausência, essa sim constante, de Sócrates.
Quando finalmente Costa apareceu na Televisão gaguejou sobre a questão do fogo posto e da aparente falta de resposta da autoridade judicial. As polícias fartam-se de prender suspeitos, em alguns casos mais do que isso, mas nunca se sabe das consequências. Reconheça-se que os senhores magistrados sentiram-se incomodados. Magistrado incomodado é como senhora gulosa: perde a linha.
Ontem, no Parlamento, esteve mais preparado e mais à-vontade. Tem experiência de tribuno e conhece a oposição parlamentar de gingeira. Como se costuma dizer popularmente, em terra de cegos...
Mesmo assim arranjou modo de se entalar e de maneira tão absurda, que custa a crer não ter sido propositada, com aquela insistência insistente no "mais de duas vezes","mais de duas vezes"
e disse isto para aí umas três vezes...
O que quereria ele dizer? Duas vezes e meia? Três vezes menos um quarto? Não teria sido mais político e sobretudo mais fraternal dizer "todos os dias"?
Sombras que causam perplexidade e incentivam à intriga, que não tardou e já hoje arribou insidiosa. Li algures que foi Sócrates que telefonou e ordenou ao substituto a ida aos fogos, aparecer junto, fazer de primeiro-ministro, ainda que substituto.
Falou também o senhor ministro da Agricultura, mas não prestei atenção, nem reparei se ele disse alguma coisa, mas quero crer que só tenha falado.
Não sei, confesso, se o eleitorado de esquerda, o do centro ou o da direita sabem alguma coisa de concreto relativamente a incendiários. Eu desconheço. Continuo sem saber o que se fez, faz ou fará relativamente aos acendedores de matas florestais e outras que tais. Mesmo os loucos ou fascinados pelo fogo, via televisão ou vice-versa. E ainda menos quanto aos chamados mandatários, os que mais ganham com o que o país perde e ganham o que ganham porque ninguém os perde, ninguém os persegue, os acusa, os julga e os condena.
Do mesmo modo, ninguém esclarece com clareza se a suspeita carece de base ou de substrato. É costume, tem sido costume, surgirem magníficas urbanizações, onde não teria sido possível construir sem um incêndio providencial. E ele há outras formas mais subtis de apoveitar da tragédia, quer ela seja ou não de vontade divina...
A história da impossibilidade das câmaras, pobres delas, assumirem o papel na legislação existente, segundo a qual a limpeza dos matagais cem metros para dentro implicará, na prática,
esfregar todo o chão municipal é uma história mal contada, tão mal contada que mais parece um insulto aos meus vizinhos, que são decerto menos estúpidos que eu, que acredito em tudo que os ministros me vendem. Peçam às televisões (e paguem à hora se for preciso) umas reportagens obrigadas a mote, a partir de 1 de Junho: «E de limpeza de matas, como é que vamos»?
Vale uma aposta?
Há evidentemente quem defenda o «quanto pior melhor». Mas, porra, é a malta que fica com o «quanto pior» e os gajos dos costume arrecadam o «melhor».E isso pode lixar, ainda que sirva para o BE se exibir. A parte chata, do ponto de vista governamental, é que o tal «melhor» não rende para as Finanças, seja qual for o ministro, e o «quanto pior» custa uma pipa de dinheiro trocado às ditas, seja qual for o ministro.
E quando se levantar a questão resultante do «está bem, a gente percebe», mas como sair deste buraco, sem aparecer alguém a correr, mesmo a tempo de torcer o rabo. De facto a evolução não é mais o que parece, quando o «Vai e vem» regressa incólume dos céus. Quando pregaram Jesus na Cruz e questionaram o algoz-mór, este replicou: «daí lavo as minhas mãos»...
Depois disso nenhum problema em sujar as mãos. Elas lavam-se com facilidade, «mais de duas vezes» se for preciso...

quarta-feira, agosto 10, 2005

DISSE QUE NÃO DISSE/2

Fiz bem em guardar alguma reserva, mesmo se não sou muito crédulo no que toca aos jornais nos dias de hoje, pareceu-me excessivo. De facto, o DN desta manhã desfez Carrilho em pedaços, não sobra nada do homem e do político só o que os outros quiserem. Não se diferencia de muitos, talvez não dê erros ortográficos, talvez se lembre quem escreveu A Oeste Nada de Novo e se tenha agradado de ver Os Homens Preferem as Loiras (ainda que casem com as morenas!). Disse que não disse desacredita e se no caso de Mário Soares podia parecer um estilo e, portanto, fazia sorrir e quer se quisesse, quer não, o homem podia mentir à vontade, que daí não vinha mal ao mundo. Este é tortuoso. De facto só podia ser socialista. Nos últimos tempos, o baralho socialista só dá duques, mas, pelo menos, o mais alto meteu férias e deixou o fogo para os outros.
Era altura de alguém, habitualmente mais sábio, aparecer a tranquilizar os mais estupefatos: habituem-se!...
Por ser sábio prefere o silêncio! Por muito saber da poda preferiu deixar ministérios à solta. Por isso vive tranquilo e faz férias quando lhe apetece, sem daí vir mal ao mundo...

Viagem - A Mina de Sal

De Milowka a Krakóvia, pelas novas auto-estradas que estão a construir-se na Polónia, são duas horas. Todavia, o chefe da família a que me venho referindo, indicou-nos um trajecto alternativo, mais bonito - dizia - e que nos levaria directo a Wieliczka , a cidade onde se situam as minas de sal mais famosas do Mundo - dizem os polacos - e as mais bonitas - dizem igualmente os polacos. Só que wincenty devia desconhecer que o tal itinerário está a mexer. Obras e mais obras. E, portanto, o que aparentemente, seria mais perto e mais agradável à vista, acabou por se traduzir num atalho com os respectivos trabalhos: Foi um dia inteiro para chegar a Wieliczka e como chovia, toda a gente se lembrou de ir ver as minas de sal. Resultado: uma fila enorme e quase duas horas serpenteando em torno de um jardim para chegar no limite da última excursão com guia em inglês. Um guia que, de certo modo, fazia lembrar o padre de Levotcha e que tinha uma dicção pouco menos que horrorosa. Dizia as palavras todas, bem estruturadas gramaticalmente, mas com um som para o qual era necessário um treino muito grande. De qualquer forma, lá fomos vendo e percebendo.Além disso, ele e todos os funcionários daquela super-estrutura turística usam uma farda negra, a fazer lembrar os tempos comunistas, também pelas dragonas exibicionistas de alguns deles. Um mau gosto incrível.As minas são, de facto, um espectáculo.Descemos a 135 metros e só chegámos ao terceiro nível. Para baixo há mais seis que chegam aos 327Há séculos que os polacos exploram daquele sítio o Sal e foram deixando, ao longo dos tempos, grutas impressionantes, onde têm construído, em Sal, verdadeiras obras de arte, como diversas esculturas, uma enorme capela onde já está uma estátua de João Paulo II, com a senhora de Lourdes ao lado, feita em sal puro. Os cristais dos candelabros são igualmente em sal puro.Os polacos montaram aos 211 metros um sanatório que servia, em tempos, e provavelmente hoje, para curar doenças alérgicas - entre elas a asmaUm dia, quando me dispuser a colocar fotografias neste blogue, vou mostrar-vos alguns aspectos desta maravilha.Com todo este tempo perdido (ganho?) Krakóvia ficou para segundas núpcias. Todavia, parámos na terra natal de Karol Woytila, junto à placa com o nome:Wadowice. Foto de turista a sério. Enfim... de vez em quando há que fazer concessões, mas prometo nunca fazer daquelas excursões organizadas, com guia e tudo, horas marcadas e tudo visto a correr. Essa, não!O regresso foi bem mais rápido. Nas auto-estradas polacas paga-se quando se entra e a meio também. É um sistema que terá a sua lógica, mas que perturba quem não está habituado. Cinco Zelotes e meio, de cada vez, pelo menos no trajecto Krakóvia - Bielsko-Biala assim foi.

DISSE QUE NÃO DISSE

Foi em tempo, quando escrevinhava no Jornal Novo e o dr. Soares chegou pela primeira vez ao governo. Ele saía com frequência do país, com frenesim próprio de quem queria entrar na CEE. Buscava apoios. Procurava vender o seu produto e fazia-o com empenho e determinação. Não raro metia os pés pelas mãos e dizia incongruências ou inconveniências, que desmentia nas calmas, no regresso, à chegada. Habituei-me (o dr. Vitorino ainda não tinha assentado praça no PS) a um ante-título que utilizei amiude: «Soares disse que não disse».
De uma vez, no regresso de uma dessas viagens, ele explicou que algumas falhas (inverdades) se deviam à frequência com tinha de mudar de idioma e se enganava nas expressões. Nunca me esqueci, depois, de inserir nas pequenas notas sobre «o disse que não disse» a referência ao «linguajar estrangeiro do dr. Soares».
Foi uma época e era um estilo de governar, arrumado, pensei eu, na gaveta da democracia recém chegada.
Parece que voltou. Hoje foi a vez do DN usar parangona na 1ª página, atribuindo Carrilho críticas à candidatura de Mário Soares. O candidato socialista à Câmara de Lisboa desmentiu prontamente a manchete do matutino da av. da Liberdade. Dias antes fora o «Público» a endossar ao secretário-geral do PCP o aviso a Alegre sobre a deselegância de Marocas. Manuel Alegre desmentiu o teor da notícia e o líder comunista também.
Os diários aderiram ao estilo dos telejornais: manchete forte e feia e quanto mais quente melhor, tanto faz que seja honesta como não, preciso é que seja chamativa e que desperte ódios e paixões.
No caso do «Público» foram formulados dois desmentidos e o jornal não tugiu nem mugiu, que é como as televisões costumam fazer, mas não era hábito nos jornais impressos. As coisas mudam.
Hoje pensa-se que tudo se pode fazer, seja improvisar ou mentir e, avaliar pelo silêncio do «Público», nem se importe de passar por mentiroso.
Quem aceitar isto como natural, pode habituar-se e continuar a comprar o pasquim.
Quanto ao caso desta manhã, o jornal ainda não teve tempo de se pronunciar sobre o desmentido, a não ser que eventualmente tenha prestado esclarecimento a outro meio de comunicação social alheio. Vou esperar. Seja como for a expressão, repetida, «fulano disse ao DN» é difícil de desmentir, se for verdade, ou de justificar, se não for.
Em geral escuto alguns noticiários breves, na Rádio, em geral de manhã, um ou outro Sic-notícias, pela tarde e uns cinco minutos de Telejornais, à noite. Não deu para ter eco.
Hoje choveu para os meus lados e por isso não tenho que regar as plantas e até vou poder lavar as mãos mais duas vezes. Nem tudo é mau, afinal de contas. Amanhã se verá. Naquelas folhinhas que nos dão imagem do passado, já lá tem vindo com regularidade a marca do Estado Novo: Visado pela comissão de censura. E hoje deu-se conta da eleição de Roosevelt. Por este andar, segunda-feira rebenta a guerra na Europa, mas só lá para terça-feira teremos notícias disso. Que pena não podermos ouvir Fernando Pessa, em directo de Londres...

Viagem - O preço de uma Igreja

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

segunda-feira, agosto 08, 2005

DEFORMAÇÃO

O que é óbvio acaba sempre por surgir à tona. Ontem, no Telejornal, colocaram ao ministro António Costa as mesmas questões, aqui levantadas umas horas antes. Tanto no que toca à limpeza das matas, ao que o ministro lembrou que já existe legislação, mas a insistência de José Rodrigues dos Santos levou o ministro a gaguejar sobre quem e como se deve multar. A isso já aqui se adiantava a resposta: próximo de eleições, os autarcas não multam, não ameaçam, não chateiam.
Em relação ao destino dado aos incendiários, aí o ministro sentiu-se mais à-vontade para desviar a atenção para os magistrados, que, segundo ele, deveriam ser mais severos nas medidas de coacção.
Os magistrados não gostaram. Consideram uma intromissão no seu domínio. E produziram mesma uma sentença: a coacção aos incendiários será igual à aplicada aos restantes crimes. Um caso claro de deformação profissional. Desagradados com o projecto do governo de poder punir os magistrados nos casos de erro grosseiro, os juizes aceitam mal todas as críticas e exorbitam nos seus direitos.
Mas não é pelo governo perder o sentido da realidade, que os magistrados se podem arrogar todos os direitos e nenhuma responsabilidade. Se o governo receia ter de pagar pelos erros
judiciais, faça um seguro, mas não intimide quem tem a difícil tarefa de julgar. Mas, o contrário, também deve ser aceite e entendido. Os magistrados têm de estar à altura do dever e de cumprir com zelo a sua tarefa. Nos casos em que as decisões revelam os tais erros grosseiros, ou outras fragilidades inaceitáveis, não se pode, nem deve, multar o magistrado, mas sim, fazer o que se faz, nas mesmas condições, em qualquer outro tipo de profissão, demitir, dispensar, despedir, livrar-se dele. Se não dá provas de competência, que mude de profissão. Não é premente nem forçoso que o exercício da magistratura seja uma reforma vitalícia. Que seja, isso si, uma função delicada e com elevado índice de competência. Se um presidente da CGD pode ser despedido, sem justa causa aparente, porque é que o um juiz desatento não pode ser mandado para casa?
O ministro António Costa tentou pôr água na fervura, mas esteve longe de apagar o fogo. Neste inferno de chamas o governo (os governos) fazem preces e esperam pelo Inverno, por enquantoa melhor, senão a única, solução. O pior é a seca, que vai alastrando...

TUDO BEM, HABITUEM-SE

Como dantes, quartel general em Abrantes. Mais fogo menos fogo. Antigamente a revista à portuguesa já era assim. Os que podem vão de férias, os outros ficam e sofrem as consequências. Pior que isso ficam com a televisão que resta. Não são só os helicopteiros que ganham, também as televisões ficam cheias e consomem até à exaustão. Os políticos distribuem o mal pelas aldeias, como o fogo. Medem-se percentagens e contam-se cadáveres.
De coisas concretas pouco ou nada se sabe. a CS dá conta que já foram identificados uns 70
incendiários, alguns dos quais suspeitos entre alguns confessos. Acrescenta a informação que o ano passado esse número foi superior.
Mas não se dá conta do efeito de repressão. Vê-se mais fogo, creio que se vê demais. Nada se sabe do que acontece aos incendiários, indiciados por fogo posto. Se alguma cara devia ser exibida na TV era a dessa gente, por muito doente que seja. Não se trata de violar direitos, mas
de defender a tranquilidade pública. O fogo posto é uma forma de terrorismo. Afectar a floresta corresponde a lesar a saúde pública e a pôr em risco a vida e os bens dos cidadãos e da comunidade. O governo procura tapar o fogo com a peneira, mas este, o mais recente, tem sido como os anteriores, limita-se a pôr água na fervura e nem em toda, porque algumas bocas de incêndio não passam de decoração.
Não se culpe o governo pela explosão incendiária, mas pela falta de prevenção. Os bombeiros voluntários não serão mais abnegados que outros, mas merecem um reconhecimento especial.
E volto a trás. Pouco ou nada se sabe do que aconteceu a 80 detidos o ano passado, por suspeita
de fogo posto. Não há referência a julgamento nem para os alegados criminosos, nem para os eventuais doentes do foro psiquico, nem que medidas efectivas são ou foram tomadas. O pouco que foi referido é preocupante: um confesso incendiário dos últimos dias já tinha cadastro na matéria.
Falou-se que algumas bocas de incêndio não dispunham de água, mas não é tempo de criticar os autarcas, quando há eleições no horizonte. Nem os autarcas estão em tempo de admitir que pouco ou nada fazem para limpar as matas. Em período eleitoral, os autarcas são como os carros sem gasolina: não andam, não exigem respeito, não fazem ondas, quer seja nas matas, quer nas pecuárias. Mas o que é que se pode esperar se o ministro-mór de serviço se limitou a dizer-nos, com bons modos, é verdade, não chateiem. Aguentem. Só faltou o outro para dizer:habituem-se..

domingo, agosto 07, 2005

Auschwitz

Auschwitz.Não percebo. Não aceito. Não quis ver. Não aguentei. A crueldade não faz parte do meu imaginário, mas a proximidade deste cenário adivinhado perturbou-me. A necessidade de manter viva a memória deste horror terá que implicar esta romaria turística?
Já não sabemos viver sem consumir. O convite à reflexão não chegaria?

Viagem - Polónia

Estou numa aldeia polaca, na fronteira com a Eslováquia ( os polícias da fronteira têm sempre um ar fasccista, estes fazem lembrar os maus dos filmes americanos. Olham para os BI's com ar entendidos, isto é, com a esperança de encontrarem uma conspiraçãozita. Mas, nada, Nada que nos faça deter. Lá ficam para trás, tristes no seu triste papel.
Está frio, para trás ficou um belo e sereno Sol, filtrado pelas neblinas da montanha que se aproxima. A terra chama-se Milówka, lê-se miluvfka e a gente é simpática. O sítio é a meio da montanha. Respira-se o ambiente especial de quem rvive na altitude. À noite, no restaurante, há gargalhadas. Mulheres descontraídas, como vai sendo hábito, vivem melhor frente aos copos. Eles recolhem-se, são tímidos. Será que o Mundo vai mudar?
A cerveja polaca é boa, mas a checa é melhor. Todavia, na Polónia servem copos de litro. Perguntam-me se quero um. Amanhã experimento, digo. Com o fresco que faz, o litro não corre o risco de aquecer.
As notícias de Portugal que me chegam via SMS ( a vida está cara e a Net por aqui ainda é produto raro) são assustadoras. O país está a arder... fico espantado: mas, afinal, ainda há país para arder?
Quando é que aparece alguém a pensar certo? O combate aos fogos tem que ser feito pela Força Aérea. Equipe-se a gente da guerra e eliminem-se as diversas empresas que ganham por cada hora no ar o dinheiro suficiente para uma operação de combate a um grande incêndio.
Para quê pensar nisso?
Agora que estou fora, basta colocar um muro à volta do país e aquilo fica um manicómio.

Viagem - o batedor

Para quem se habituou a ouvir apenas falar da República Checa como um apêndice do império dos outros tem que ficar admirado. Descobrir em pequenas aldeias patrimónios que falam da verdadeira História da Europa, daquela que enche a cabeça de todos os que julgam ter inventado o Mundo, dá que falar.
Muito mais ainda se os checos descobrirem - e aposto que sim - como se explora o Turismo. Em Dacice, por exemplo, o castelo, que tem objectos de grande valor, faz visitas guiadas de hora a hora, com guias simpáticas - belos sorrissos - mas que falam apenas checo. É uma estopada,mas mesmo assim, por causa do sorriso e das estórias que se descobrem, vale a pena.
Telc - património mundial - tem uma praça resplandecente, em que as casas são todas resguardadas por frontarias lindíssimas: Mas não tem mais nada. Se não se tiver informação coveniente, passa-se por lá como se por mais uma aldeia de camponeses, preocupados com as colheitas do trigo, das papoilas e da cevada.
Cesky Krumlov: um rio a serpentear, uma arquitectura e um urbanismo únicos, outra cidade classificada, é ainda mais atraente que Praga. Tem gente de todo o lado da República Checa, alguns austríacos, alemães e, provavelmente holandeses. Pela primeira vez numa viagem deste tipo, não ouvi uma palavra em português. Um dia destes vira moda e já não se pode andar por aqui.
Ah! os italianos, sempre aparecem: eram os únicos que destoavam na visita à exposição de Alfons Mucha, em Moravsky Krumlov: vinte quadros gigantes a narrar a história dos eslavos,da formação da pátria Checa e do movimento religioso hussita.
Do ponto de vista do aproveitamento daquele enorme potencial turístico, o mesmo disparate: fecham ao meio dia, abrem às 13 e fazem visitas guiadas, com gente que fala, fala e sorri, mas ninguém entende, exceptuando, claro,os checos, que, neste caso, ainda são - ou parecem - o maior número.
A paragem para ver Mucha, os heróicos e também as gravuras publicitárias da sua época parisiense, perturbou a chegada a Brno, para onde estava marcada uma visita para as 16 horas locais, à Villa Tugendhat, uma maravilha da arquitectura dos anos trinta, macerada e ocupada pelos nazis e pelos comunistas.
Está agora em recuperação e a cerca de uma hora que se passa ali vale bem a estopada de ouvir um cavalheiro a falar, a falar para apenas 15 pessoas sem que nenhuma delas perceba uma palavra.
E, depois, quem quiser comprar o que quer que seja tem que pagar em cash e o mais próximo multibanco fica uns quantos quarteirões abaixo.
Ma,, enfim, a propósito de Tugendhat vale a pena contar a estória da chegada.
Bron é a segunda cidade checa - enorme e não tão bem organizada como Praga. Descobrir a zona de residências senhoriais onde habitaram e devem habitar as elites de vários regimes - uns de ocupação outros não - assim, sem mais nem menos,com hora marcada, não é coisa fácil. Olham-se os mapas, pergunta-se, mas as respostas nem sempre são fáceis. A comunicação consegue-se mais por gestos. Inglês, francês, nada, e o nosso alemão está esquecido (eu acho que só os alemães se lembram, a sério, dele) . O relógio não pára e aquela visita tinha sido marcada desde Lisboa.
De repente, à nossa frente pára um carro da polícia, num semáforo, a co-piloto da viagem sái mais uma vez do carro e corre para a viatura da autoridade, aponta-lhe o mapa e o homem, sem dizer uma palavra que se perceba, faz sinal para que o seguíssemnos. Um pouco mais à frente volta a parar e - sentiu-se - resolveu levar-nos ao destino.
De facto, concluímos, depois de lá chegar, que sem batedor jamais conseguiriamos chegar às 16 em ponto.
Altura em que quatro espanhóis estavam já a ocupar os nossos lugares para visitar Tugengdhat. Um deles ainda gemeu: ..." mas somos espanhóis, vimos aqui apenas uma vez na vida..." Ao que respondemos: " ... nós somos portugueses provavelmente esta é a única viagem que aqui fazemos, temos esta visita marcada desde Lisboa e o relógio marca 16 em ponto".
Foi um gozo particular? A visita foi, a chegada com polícia, tudo isso, sim, dá para recordar com agrado. A exclusão dos espanhóis achamos um disparate. Continua a ser o sistema fechado a impôr regras que só os chefes percebem, porque só a eles dá a satisfação de um poder assumido. Além disso, as dificuldades de recuperação da vivenda são visíveis...
Os checos hão-de aprender e estes relíquias, gora são difíceis de apreciar, hão-de ser vistas por multidões.
Nessa altura será tudo muito mais caro, mas quem cedo amanhece...