domingo, agosto 14, 2005

SOL E SOMBRA

Há qualquer coisa de sombrio neste assunto dos incêndios. O manto de silêncio em redor de diversos ângulos é quase sufocante. Não é como as falcatruas nas contas, nos depósitos em paraísos fiscais, porque, estes, frequentemente saltam para a ribalta. Albarram é um caso. Um dos candidatos por Oeiras é outro, ou a pequena Felgueiras, outro ainda. Não são todos, claro. Alguns outros artistas com dinheiros mal parados continuam calmamente na sombra ou nas boas graças madeirenses.
No caso dos incêndios praticamente nada transpira. Uns vagos «foram detidos x suspeitos de atear fogo» uns aqui, outros ali, mais nada. Aqui, no blog, fizemos e dividimos interrogações, mais interessados (e insistentes) nos porquês e nas consequências. Muita da censura implícita era dirigida à imprensa, escrita, falada ou teledifundida. Não me lembro nem dei conta de reportagens sobre este género de crime, nem sobre o «retrato» do criminoso (a). Presumo que os repórteres devem ter posto questãos e engoliram sem se engasgar o silêncio como resposta.
Foi na Televisão que, finalmente, o ministro António Costa deixou escapar alguma velada censura à ligeireza dos magistrados e ao pouco rigor penal. A magistratura, habitualmente lenta,
ripostou com azedume muito depressa, sem justificar nem clarificar.
Talvez por isto o Ministério da Justiça entendeu vir a terreiro. Tão depressa, que se atrapalhou
e baralhou os dados, começou por referir que desde 97 não havia condenações a prisão efectiva. Depois emendou a mão e revelou que entre 97 e 2005 houve condenações.
Tardiamente admitiu-se que muito silêncio começava a fazer uma barulheira dos diabos! Mesmo assim, a informação é escassa. Quem é o incendiário. O que é que o conduz ao crime? Ou quem o conduz ao crime? Algum (alguns?) dos condenados terá sido induzido (pago) a incendiar a mata, ou a casa, ou o prédio?
Me parece que há excessivo cuidado, muito, muito cuidado, em não clarificar o que está (e quem está) por trás de tanta tragédia. Ontem morreu mais um bombeiro. Penso que eu, e mais do que eu a família dele, e as famílias de tantos outros que pereceram nos incêndios criminosos, temos o direito de saber como e porquê morreu gente inocente. Parece-se excessivo que só os condenados por fogo posto tenham direitos e gozem de tão estranha cobertura à sua (deles) privacidade.
Não se trata de curiosidade mórbida. Incendiários há-os em todo o lado e por todo o mundo, mas provavelmente não com a persistência demoníaca que nos persegue. Acredito que, se entendermos o crime, e as causas que conduzem a ele, possamos contribuir para o evitar ou minorar as consequências. Donde, o silêncioà volta, uma espécie de aviso: isto é com a Justiça e ninguém mais tem a ver com isso - foi (e será) um reflexo de estímulo ao criminoso (saudável ou doente), senão, pior ainda, uma forma implícita e inconsciente de cumplicidade...

O Pó fascista que desaparece

Para trás ficou Milowka, o hotel simpático e a família de Wincenty, Danuta, a esposa e Kuba, o filho. Foi uma despedida de verdadeiros amigos, com a promessa de regresso. No Inverno, para aprender a esquiar - ou a partir as pernas - vão acrescentando os companheiros de viagem.A passagem pela Eslováquia dá para entender que a Europa só pode mesmo ter futuro. Assim apareçam lideranças honestas e competentes. Há obras por todo o lado e os campos não estão parados: milho, girassol, trigo,uma azáfama real, mesmo que, de vez em quando se tenha uma enorme fila na estrada porque um tractor, velho, mesmo a cair, resolveu descansar um pouco antes de fazer mais um esforço.Os eslovacos e os polacos da polícia de fronteira têm alguma saudade dos outros tempos - nota-se. Estão sempre a ver se descobrem qualquer coisa estranha nos documentos, olham para os automóveis como se escondessem um exército de terroristas. Estão a conviver menos bem com a abertura de fronteiras e não dispensam o exercício da autoridade em cenas verdadeiramente risíveis.Agora que as fronteiras têm pouco significado, os polacos estão a construir um enorme complexo arquitectónico para a sua fronteira com a Eslováquia. Vá-se lá perceber porquê.Em Povazska Bystrica, à beira da estrada, um restaurante bem simpático, de bom gosto, com boa cozinha e um serviço perfeito. Foi a última etapa naquele país. A próxima paragem seria já na Austria.Vindo da Eslováquia, entra um homem na fronteira austríaca e é como se tivesse snifado pó fascista.Na primeira estação de serviço, o guarda da "mija" da viagem, um gorila de cabeça rapada e olhar feroz cobra 30 cêntimos por cada alívio. Sessenta paus, a multiplicar por quatro são... Temos que inventar um sistema de ser possível dois em um. É que assim já nem o Pitigrilli tem razão. A este preço é uma dor de alma.A mulher dos telefones, parecida com aquelas senhoras que nos filmes americanos fazem o papel das megeras comunistas, encolhe os ombros, quando se protesta porque a porcaria da máquina de telefonar engole euros a uma velocidade espantosa. Resultado: oito euros engolidos e o telefonema por fazer. A fascista ainda cerrou os punhos com a nossa conversa.A certa altura fica-se com o receio de ser assaltado. Os preços são um pavor e as caras daquela gente fazem lembrar um file de terror. Emobra que se faz tarde.O objectivo é passar Viena a caminho de Salzburgo. O costume: circulares mal sinalizadas, obras por toda a parte, mas depois de alguns enganos e algumas voltas atrás lá conseguimos sair da grande cidade.Para mim, as grandes cidades são um inferno, antes de chegar ao centro. Ultrapassar as sucessivas barreiras de betão, asfalto, automóveis, cidadãos mal dispostos é um verdadeiro martírio - acho, aliás ter já ganho o direito ao céu (não direi a 70 virgens, mas...).Ultrapassada que foi Viena, descobrimos a outra Austria, das pequenas vilas, da gente afável, prestável, esforçada. Graças a eles encontrámos uma pequena relíquia, uma casa de turismo rural, conseguida da recuperação de uma parte (dos estábulos) de uma grande quinta da família A. Riedl.Um senhor de ar cavalheiresco, uma senhora campesina, entusiasta, afável, preocupada e afectiva e sua filha, a gerente do empreendimento,igualmente simpática, eficiente e com um inglês aceitável.Nada como o turismo rural português, que muitas vezes não passa de um artifício para ter obtido fundos para a recuperação das casas de família e as instalações que disponibilizam para os hóspedes são de um mau gosto aflitivo, com as relíquias familiares.
Não, aqui, em Grafenworth é tudo impecável. Apenas um senão: não têm Net. Mas os quartos são de um bom gosto a toda a prova, o pequeno almoço, de primeiríssima, servido em louça Villeroy e Boch. Como bónus, a companhia de um cão enorme, simpático e gordo, o max.

A Juventude Polaca

Krakóvia é obrigatório. Perdemos um dia nas minas de sal, mas tivémos que regressar para ver a monumentalidade de uma cidade que foi capital da Polónia durante vários séculos. Tem mais de uma centena de Igrejas, uma catedral um bocado estragada com um mamarracho que lhe plantaram no meio com um caixão de prata contendo os restos mortais de um dos bispos lá do sítio.
Na Catedral reparei no ar dos muitos padres que por lá andam com ar perdido, tristes. Tristes e magros, quase a desaparecer nas batinas que eles ainda usam. Impressinaram-me aqueles padres. Em Krakóvia, o Papa João Paulo II está por todo o lado, em fotografias, em estátuas, ou simplesmente representado por um ramo de flores no palácio do bispo, que ele habitou, quando foi o pastor da cidade.
Porque o tempo não chega para tudo, recorremos a um daqueles carros eléctricos que fazem a chamada volta turística à cidade. Conduzido por uma jovem bem simpática e informada, lá fomos vendo as Igrejas, as praças e as Sinagogas do bairro judeu, que em tempos constituía uma parte da cidade, separada da outra, a católica. Os judeus, que chegaram a ser trinta por cento da população de toda a Polónia, estão agora reduzidos a pouco mais de uma centena. Há números que sempre assustam.
A nossa condutora é estudante e trabalha entre 10 a 14 horas por dia, por um salário que é, concerteza, muito baixo, a avaliar pelo trejeito que fez quando se falou no assunto.
Todavia, tal como o Kuba adora as montanhas e o seu país, ela ama Krakóvia,a sua terra natal e a totalidadeda sua terra, a Polónia.
Esta atitude da juventude polaca não pode deixar de impressionar quem como nós, portugueses, se habituou a ouvir os seus jovens a desdenhar deste tipo de sentimentos e a percebê-los preocupados apenas em consumir.
Depois de visto o castelo, lá voltámos a Milowka, um caminho já conhecido, com duas portagens. Uma paragem em Ziwiec para uma cerveja na cervejaria da fábrica, mas o pessoal lá do sítio nem para nós olhou - à comunista. Espera, se quiseres. Bem diferente do tratamento que recebemos na cervejaria da Budweiser, na República Checa

"Kuba", o Ás do Ski e do Volante

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

sábado, agosto 13, 2005

LAVAR DAÍ AS MÃOZINHAS

Está de férias, ponto final parágrafo!
Pois! Mas não é bem assim. Habitualmente o direito às férias adquire-se após e não antes. Primeiro desempenha-se a tarefa e só depois o eleito se deita a dormir. Mas nem é por ser direito ou esquerdo, que a questão se deve colocar. Um primeiro-ministro, recém empossado, não deve abandonar o barco, mal inicia a viagem. Sobretudo se a embarcação sofreu um duro e inesperado rombo - prontamente remendado, seja dito!
Não é razoável e os factos subsequentes acabaram por amargar a pílula. É certo que Sampaio já não pode intervir, não pode mais despedir governo maioritários e, portanto ele, sim ele fez bem em gozar férias tranquilas, dando uma de preocupado, para ficar bem na fotografia. Mas o PS sai mal.
António Costa borregou. Faz bem em não gostar de aparecer a choramingar à frente das câmaras televisivas, mas ele há outros modos de aparecer, de actuar, de se impor à opinião pública. E o que se viu demasiadas vezes foi não o ver nos momentos mais difíceis, não o ouvir a tempo e horas, foi isso que fez notar a ausência, essa sim constante, de Sócrates.
Quando finalmente Costa apareceu na Televisão gaguejou sobre a questão do fogo posto e da aparente falta de resposta da autoridade judicial. As polícias fartam-se de prender suspeitos, em alguns casos mais do que isso, mas nunca se sabe das consequências. Reconheça-se que os senhores magistrados sentiram-se incomodados. Magistrado incomodado é como senhora gulosa: perde a linha.
Ontem, no Parlamento, esteve mais preparado e mais à-vontade. Tem experiência de tribuno e conhece a oposição parlamentar de gingeira. Como se costuma dizer popularmente, em terra de cegos...
Mesmo assim arranjou modo de se entalar e de maneira tão absurda, que custa a crer não ter sido propositada, com aquela insistência insistente no "mais de duas vezes","mais de duas vezes"
e disse isto para aí umas três vezes...
O que quereria ele dizer? Duas vezes e meia? Três vezes menos um quarto? Não teria sido mais político e sobretudo mais fraternal dizer "todos os dias"?
Sombras que causam perplexidade e incentivam à intriga, que não tardou e já hoje arribou insidiosa. Li algures que foi Sócrates que telefonou e ordenou ao substituto a ida aos fogos, aparecer junto, fazer de primeiro-ministro, ainda que substituto.
Falou também o senhor ministro da Agricultura, mas não prestei atenção, nem reparei se ele disse alguma coisa, mas quero crer que só tenha falado.
Não sei, confesso, se o eleitorado de esquerda, o do centro ou o da direita sabem alguma coisa de concreto relativamente a incendiários. Eu desconheço. Continuo sem saber o que se fez, faz ou fará relativamente aos acendedores de matas florestais e outras que tais. Mesmo os loucos ou fascinados pelo fogo, via televisão ou vice-versa. E ainda menos quanto aos chamados mandatários, os que mais ganham com o que o país perde e ganham o que ganham porque ninguém os perde, ninguém os persegue, os acusa, os julga e os condena.
Do mesmo modo, ninguém esclarece com clareza se a suspeita carece de base ou de substrato. É costume, tem sido costume, surgirem magníficas urbanizações, onde não teria sido possível construir sem um incêndio providencial. E ele há outras formas mais subtis de apoveitar da tragédia, quer ela seja ou não de vontade divina...
A história da impossibilidade das câmaras, pobres delas, assumirem o papel na legislação existente, segundo a qual a limpeza dos matagais cem metros para dentro implicará, na prática,
esfregar todo o chão municipal é uma história mal contada, tão mal contada que mais parece um insulto aos meus vizinhos, que são decerto menos estúpidos que eu, que acredito em tudo que os ministros me vendem. Peçam às televisões (e paguem à hora se for preciso) umas reportagens obrigadas a mote, a partir de 1 de Junho: «E de limpeza de matas, como é que vamos»?
Vale uma aposta?
Há evidentemente quem defenda o «quanto pior melhor». Mas, porra, é a malta que fica com o «quanto pior» e os gajos dos costume arrecadam o «melhor».E isso pode lixar, ainda que sirva para o BE se exibir. A parte chata, do ponto de vista governamental, é que o tal «melhor» não rende para as Finanças, seja qual for o ministro, e o «quanto pior» custa uma pipa de dinheiro trocado às ditas, seja qual for o ministro.
E quando se levantar a questão resultante do «está bem, a gente percebe», mas como sair deste buraco, sem aparecer alguém a correr, mesmo a tempo de torcer o rabo. De facto a evolução não é mais o que parece, quando o «Vai e vem» regressa incólume dos céus. Quando pregaram Jesus na Cruz e questionaram o algoz-mór, este replicou: «daí lavo as minhas mãos»...
Depois disso nenhum problema em sujar as mãos. Elas lavam-se com facilidade, «mais de duas vezes» se for preciso...

quarta-feira, agosto 10, 2005

DISSE QUE NÃO DISSE/2

Fiz bem em guardar alguma reserva, mesmo se não sou muito crédulo no que toca aos jornais nos dias de hoje, pareceu-me excessivo. De facto, o DN desta manhã desfez Carrilho em pedaços, não sobra nada do homem e do político só o que os outros quiserem. Não se diferencia de muitos, talvez não dê erros ortográficos, talvez se lembre quem escreveu A Oeste Nada de Novo e se tenha agradado de ver Os Homens Preferem as Loiras (ainda que casem com as morenas!). Disse que não disse desacredita e se no caso de Mário Soares podia parecer um estilo e, portanto, fazia sorrir e quer se quisesse, quer não, o homem podia mentir à vontade, que daí não vinha mal ao mundo. Este é tortuoso. De facto só podia ser socialista. Nos últimos tempos, o baralho socialista só dá duques, mas, pelo menos, o mais alto meteu férias e deixou o fogo para os outros.
Era altura de alguém, habitualmente mais sábio, aparecer a tranquilizar os mais estupefatos: habituem-se!...
Por ser sábio prefere o silêncio! Por muito saber da poda preferiu deixar ministérios à solta. Por isso vive tranquilo e faz férias quando lhe apetece, sem daí vir mal ao mundo...

Viagem - A Mina de Sal

De Milowka a Krakóvia, pelas novas auto-estradas que estão a construir-se na Polónia, são duas horas. Todavia, o chefe da família a que me venho referindo, indicou-nos um trajecto alternativo, mais bonito - dizia - e que nos levaria directo a Wieliczka , a cidade onde se situam as minas de sal mais famosas do Mundo - dizem os polacos - e as mais bonitas - dizem igualmente os polacos. Só que wincenty devia desconhecer que o tal itinerário está a mexer. Obras e mais obras. E, portanto, o que aparentemente, seria mais perto e mais agradável à vista, acabou por se traduzir num atalho com os respectivos trabalhos: Foi um dia inteiro para chegar a Wieliczka e como chovia, toda a gente se lembrou de ir ver as minas de sal. Resultado: uma fila enorme e quase duas horas serpenteando em torno de um jardim para chegar no limite da última excursão com guia em inglês. Um guia que, de certo modo, fazia lembrar o padre de Levotcha e que tinha uma dicção pouco menos que horrorosa. Dizia as palavras todas, bem estruturadas gramaticalmente, mas com um som para o qual era necessário um treino muito grande. De qualquer forma, lá fomos vendo e percebendo.Além disso, ele e todos os funcionários daquela super-estrutura turística usam uma farda negra, a fazer lembrar os tempos comunistas, também pelas dragonas exibicionistas de alguns deles. Um mau gosto incrível.As minas são, de facto, um espectáculo.Descemos a 135 metros e só chegámos ao terceiro nível. Para baixo há mais seis que chegam aos 327Há séculos que os polacos exploram daquele sítio o Sal e foram deixando, ao longo dos tempos, grutas impressionantes, onde têm construído, em Sal, verdadeiras obras de arte, como diversas esculturas, uma enorme capela onde já está uma estátua de João Paulo II, com a senhora de Lourdes ao lado, feita em sal puro. Os cristais dos candelabros são igualmente em sal puro.Os polacos montaram aos 211 metros um sanatório que servia, em tempos, e provavelmente hoje, para curar doenças alérgicas - entre elas a asmaUm dia, quando me dispuser a colocar fotografias neste blogue, vou mostrar-vos alguns aspectos desta maravilha.Com todo este tempo perdido (ganho?) Krakóvia ficou para segundas núpcias. Todavia, parámos na terra natal de Karol Woytila, junto à placa com o nome:Wadowice. Foto de turista a sério. Enfim... de vez em quando há que fazer concessões, mas prometo nunca fazer daquelas excursões organizadas, com guia e tudo, horas marcadas e tudo visto a correr. Essa, não!O regresso foi bem mais rápido. Nas auto-estradas polacas paga-se quando se entra e a meio também. É um sistema que terá a sua lógica, mas que perturba quem não está habituado. Cinco Zelotes e meio, de cada vez, pelo menos no trajecto Krakóvia - Bielsko-Biala assim foi.

DISSE QUE NÃO DISSE

Foi em tempo, quando escrevinhava no Jornal Novo e o dr. Soares chegou pela primeira vez ao governo. Ele saía com frequência do país, com frenesim próprio de quem queria entrar na CEE. Buscava apoios. Procurava vender o seu produto e fazia-o com empenho e determinação. Não raro metia os pés pelas mãos e dizia incongruências ou inconveniências, que desmentia nas calmas, no regresso, à chegada. Habituei-me (o dr. Vitorino ainda não tinha assentado praça no PS) a um ante-título que utilizei amiude: «Soares disse que não disse».
De uma vez, no regresso de uma dessas viagens, ele explicou que algumas falhas (inverdades) se deviam à frequência com tinha de mudar de idioma e se enganava nas expressões. Nunca me esqueci, depois, de inserir nas pequenas notas sobre «o disse que não disse» a referência ao «linguajar estrangeiro do dr. Soares».
Foi uma época e era um estilo de governar, arrumado, pensei eu, na gaveta da democracia recém chegada.
Parece que voltou. Hoje foi a vez do DN usar parangona na 1ª página, atribuindo Carrilho críticas à candidatura de Mário Soares. O candidato socialista à Câmara de Lisboa desmentiu prontamente a manchete do matutino da av. da Liberdade. Dias antes fora o «Público» a endossar ao secretário-geral do PCP o aviso a Alegre sobre a deselegância de Marocas. Manuel Alegre desmentiu o teor da notícia e o líder comunista também.
Os diários aderiram ao estilo dos telejornais: manchete forte e feia e quanto mais quente melhor, tanto faz que seja honesta como não, preciso é que seja chamativa e que desperte ódios e paixões.
No caso do «Público» foram formulados dois desmentidos e o jornal não tugiu nem mugiu, que é como as televisões costumam fazer, mas não era hábito nos jornais impressos. As coisas mudam.
Hoje pensa-se que tudo se pode fazer, seja improvisar ou mentir e, avaliar pelo silêncio do «Público», nem se importe de passar por mentiroso.
Quem aceitar isto como natural, pode habituar-se e continuar a comprar o pasquim.
Quanto ao caso desta manhã, o jornal ainda não teve tempo de se pronunciar sobre o desmentido, a não ser que eventualmente tenha prestado esclarecimento a outro meio de comunicação social alheio. Vou esperar. Seja como for a expressão, repetida, «fulano disse ao DN» é difícil de desmentir, se for verdade, ou de justificar, se não for.
Em geral escuto alguns noticiários breves, na Rádio, em geral de manhã, um ou outro Sic-notícias, pela tarde e uns cinco minutos de Telejornais, à noite. Não deu para ter eco.
Hoje choveu para os meus lados e por isso não tenho que regar as plantas e até vou poder lavar as mãos mais duas vezes. Nem tudo é mau, afinal de contas. Amanhã se verá. Naquelas folhinhas que nos dão imagem do passado, já lá tem vindo com regularidade a marca do Estado Novo: Visado pela comissão de censura. E hoje deu-se conta da eleição de Roosevelt. Por este andar, segunda-feira rebenta a guerra na Europa, mas só lá para terça-feira teremos notícias disso. Que pena não podermos ouvir Fernando Pessa, em directo de Londres...

Viagem - O preço de uma Igreja

Na Polónia, em Milowka, encontrei uma família bem simpática. Um dos filhos, o " Kuba", resolveu levar-nos a visitar em apenas um dia, o que turistas de consulta de mapas, levariam dois ou três. Os Montes Tatry, um local que, seguramente, levou os homens a inventar um deus omnipotente foi um dos pontos do itinerárioA paixão do "Kuba" pelas montanhas é uma permanente oração. Tem 24 anos e um amor profundo à sua terra, mas estas montantas, cuja maior extensão fica situada na Eslováquia, são a sua grande paixão. Durante alguns anos fez ski profissional, mas agora limita-se a ensinar e a participar em competições amadoras.Fizémos o percurso até ao topo no telesférico mais velho do Mundo, com mais de sessenta anos. Há vinte anos que as autoridades locais querem mudar o sistema, mas as populações não deixam - adoram a tradição.Fiquei a saber que a patente dos telesférico é polaca.No restaurante do topo da montanha, cheio de gente desejosa de chás, cafés e sopas, conseguimos "seduzir" as empregadas da cozinha, que ultrapassaram o sistema para nos servirem. Foi divertido.No regresso, "Kuba" queria mostrar-nos Levoca (Levotcha). Queria porque queria. Ele tinha a certeza de que iríamos gostar.Condutor exímio, participa em ralies, procurou as melhores estradas, levou-nos serpenteando montanha abaixo e chegámos a Levotcha, uma cidade património mundial, ao fim da tarde. O padre rezava a última missa daquele domingo. Entrámos, a Igreja estava repleta e os fiéis seguiam com devoção, vestidos a preceito com os seus fatos domingueiros, a liturgia da consagração, curvando-se ao som de um sino que alguém agitava.Foi como surpreender a intimidade de alguém. Recuámos para esperar pelo fim da missa, porque, num golpe de vista, percebemos estarmos perante uma grande maravilha que os tempos foram construíndo.Acabou a missa, entrámos na Igreja, mas as luzes já estavam a ser apagadas. Uma desolação. Com o "Kuba" a servir de intérprete, tentámos convencer o padre a ligar de novo o sistema eléctrico. Apareceu uma senhora vestida de freira. Alta, de olhar incisivo. Que não! Nem o padre, figura estranha, quase desaparecido dentro de uma batina preta e de sorriso constrangido, conseguiu demover a "dona" da Igreja.Mas o "Kuba" não desistiu e foi demonstrando os seus dotes de diplomata persistente. Usou todos os argumentos: "que vínhamos de Portugal, Fátima, que tínhamos feito uma longa viagem só para ver a catedral de Levotcha ( a verdade é que só naquele dia, com o "Kuba" ao volante tínhamos passado quatro vezes a fronteira da Eslováquia).A senhora resistia, mas, devagar, com inteligência, foi conduzida à armadilha: queria vinte euros. Vinte! exclamou "Kuba"! Ainda se fossem dez... Aceitou, e quando se viu com a nota de dez euros na mão, a senhora olhou para ela com o ar de quem se estava a certificar de que era verdadeira e, sobretudo, de que o negócio era real.Acenderam-se as luzes e ficámos perante um espectáculo incrível. Até já pudemos tirar fotografias...embora discretamente.( Eu já tinha introduzido na caixa das esmolas que continuam a existir nas igrejas uma moeda de um euro)Levotcha tem outros encantos, nomeadamente uma grande harmonia urbanística e arquitectónica. É uma cidade com mais de sete séculos de existência e ali respira-se tranquilidade.Não sei se algum dia voltarei,mas a vontade ficou.No regresso a Milowka, "Kuba", cujo nome real é Yakub, fez uma demonstração cabal das suas qualidades de condutor. Há já alguns anos que não tinha aquela sensação de que alguém dominava na perfeição uma máquina. Foi um dia de grandes sensações e de alguns momentos de humor, como, por exemplo, aquele em que um polícia fronteiriço polaco olhava para os cinco documentos de identificação, quatro portugueses, bilhetes de Identidade, e um passaporte polaco, para a matrícula do carro austríaco, sem perceber nada daquilo. Tinha o ar de quem se tinha acabado de levantar e não sabia se estava a sonhar: dois dos BI's eram de duas senhoras muito parecidas (irmãs) e com nomes parecidos. Desistiu (positivivamente) e resolveu voltar para a cama, dormir.

segunda-feira, agosto 08, 2005

DEFORMAÇÃO

O que é óbvio acaba sempre por surgir à tona. Ontem, no Telejornal, colocaram ao ministro António Costa as mesmas questões, aqui levantadas umas horas antes. Tanto no que toca à limpeza das matas, ao que o ministro lembrou que já existe legislação, mas a insistência de José Rodrigues dos Santos levou o ministro a gaguejar sobre quem e como se deve multar. A isso já aqui se adiantava a resposta: próximo de eleições, os autarcas não multam, não ameaçam, não chateiam.
Em relação ao destino dado aos incendiários, aí o ministro sentiu-se mais à-vontade para desviar a atenção para os magistrados, que, segundo ele, deveriam ser mais severos nas medidas de coacção.
Os magistrados não gostaram. Consideram uma intromissão no seu domínio. E produziram mesma uma sentença: a coacção aos incendiários será igual à aplicada aos restantes crimes. Um caso claro de deformação profissional. Desagradados com o projecto do governo de poder punir os magistrados nos casos de erro grosseiro, os juizes aceitam mal todas as críticas e exorbitam nos seus direitos.
Mas não é pelo governo perder o sentido da realidade, que os magistrados se podem arrogar todos os direitos e nenhuma responsabilidade. Se o governo receia ter de pagar pelos erros
judiciais, faça um seguro, mas não intimide quem tem a difícil tarefa de julgar. Mas, o contrário, também deve ser aceite e entendido. Os magistrados têm de estar à altura do dever e de cumprir com zelo a sua tarefa. Nos casos em que as decisões revelam os tais erros grosseiros, ou outras fragilidades inaceitáveis, não se pode, nem deve, multar o magistrado, mas sim, fazer o que se faz, nas mesmas condições, em qualquer outro tipo de profissão, demitir, dispensar, despedir, livrar-se dele. Se não dá provas de competência, que mude de profissão. Não é premente nem forçoso que o exercício da magistratura seja uma reforma vitalícia. Que seja, isso si, uma função delicada e com elevado índice de competência. Se um presidente da CGD pode ser despedido, sem justa causa aparente, porque é que o um juiz desatento não pode ser mandado para casa?
O ministro António Costa tentou pôr água na fervura, mas esteve longe de apagar o fogo. Neste inferno de chamas o governo (os governos) fazem preces e esperam pelo Inverno, por enquantoa melhor, senão a única, solução. O pior é a seca, que vai alastrando...

TUDO BEM, HABITUEM-SE

Como dantes, quartel general em Abrantes. Mais fogo menos fogo. Antigamente a revista à portuguesa já era assim. Os que podem vão de férias, os outros ficam e sofrem as consequências. Pior que isso ficam com a televisão que resta. Não são só os helicopteiros que ganham, também as televisões ficam cheias e consomem até à exaustão. Os políticos distribuem o mal pelas aldeias, como o fogo. Medem-se percentagens e contam-se cadáveres.
De coisas concretas pouco ou nada se sabe. a CS dá conta que já foram identificados uns 70
incendiários, alguns dos quais suspeitos entre alguns confessos. Acrescenta a informação que o ano passado esse número foi superior.
Mas não se dá conta do efeito de repressão. Vê-se mais fogo, creio que se vê demais. Nada se sabe do que acontece aos incendiários, indiciados por fogo posto. Se alguma cara devia ser exibida na TV era a dessa gente, por muito doente que seja. Não se trata de violar direitos, mas
de defender a tranquilidade pública. O fogo posto é uma forma de terrorismo. Afectar a floresta corresponde a lesar a saúde pública e a pôr em risco a vida e os bens dos cidadãos e da comunidade. O governo procura tapar o fogo com a peneira, mas este, o mais recente, tem sido como os anteriores, limita-se a pôr água na fervura e nem em toda, porque algumas bocas de incêndio não passam de decoração.
Não se culpe o governo pela explosão incendiária, mas pela falta de prevenção. Os bombeiros voluntários não serão mais abnegados que outros, mas merecem um reconhecimento especial.
E volto a trás. Pouco ou nada se sabe do que aconteceu a 80 detidos o ano passado, por suspeita
de fogo posto. Não há referência a julgamento nem para os alegados criminosos, nem para os eventuais doentes do foro psiquico, nem que medidas efectivas são ou foram tomadas. O pouco que foi referido é preocupante: um confesso incendiário dos últimos dias já tinha cadastro na matéria.
Falou-se que algumas bocas de incêndio não dispunham de água, mas não é tempo de criticar os autarcas, quando há eleições no horizonte. Nem os autarcas estão em tempo de admitir que pouco ou nada fazem para limpar as matas. Em período eleitoral, os autarcas são como os carros sem gasolina: não andam, não exigem respeito, não fazem ondas, quer seja nas matas, quer nas pecuárias. Mas o que é que se pode esperar se o ministro-mór de serviço se limitou a dizer-nos, com bons modos, é verdade, não chateiem. Aguentem. Só faltou o outro para dizer:habituem-se..

domingo, agosto 07, 2005

Auschwitz

Auschwitz.Não percebo. Não aceito. Não quis ver. Não aguentei. A crueldade não faz parte do meu imaginário, mas a proximidade deste cenário adivinhado perturbou-me. A necessidade de manter viva a memória deste horror terá que implicar esta romaria turística?
Já não sabemos viver sem consumir. O convite à reflexão não chegaria?

Viagem - Polónia

Estou numa aldeia polaca, na fronteira com a Eslováquia ( os polícias da fronteira têm sempre um ar fasccista, estes fazem lembrar os maus dos filmes americanos. Olham para os BI's com ar entendidos, isto é, com a esperança de encontrarem uma conspiraçãozita. Mas, nada, Nada que nos faça deter. Lá ficam para trás, tristes no seu triste papel.
Está frio, para trás ficou um belo e sereno Sol, filtrado pelas neblinas da montanha que se aproxima. A terra chama-se Milówka, lê-se miluvfka e a gente é simpática. O sítio é a meio da montanha. Respira-se o ambiente especial de quem rvive na altitude. À noite, no restaurante, há gargalhadas. Mulheres descontraídas, como vai sendo hábito, vivem melhor frente aos copos. Eles recolhem-se, são tímidos. Será que o Mundo vai mudar?
A cerveja polaca é boa, mas a checa é melhor. Todavia, na Polónia servem copos de litro. Perguntam-me se quero um. Amanhã experimento, digo. Com o fresco que faz, o litro não corre o risco de aquecer.
As notícias de Portugal que me chegam via SMS ( a vida está cara e a Net por aqui ainda é produto raro) são assustadoras. O país está a arder... fico espantado: mas, afinal, ainda há país para arder?
Quando é que aparece alguém a pensar certo? O combate aos fogos tem que ser feito pela Força Aérea. Equipe-se a gente da guerra e eliminem-se as diversas empresas que ganham por cada hora no ar o dinheiro suficiente para uma operação de combate a um grande incêndio.
Para quê pensar nisso?
Agora que estou fora, basta colocar um muro à volta do país e aquilo fica um manicómio.

Viagem - o batedor

Para quem se habituou a ouvir apenas falar da República Checa como um apêndice do império dos outros tem que ficar admirado. Descobrir em pequenas aldeias patrimónios que falam da verdadeira História da Europa, daquela que enche a cabeça de todos os que julgam ter inventado o Mundo, dá que falar.
Muito mais ainda se os checos descobrirem - e aposto que sim - como se explora o Turismo. Em Dacice, por exemplo, o castelo, que tem objectos de grande valor, faz visitas guiadas de hora a hora, com guias simpáticas - belos sorrissos - mas que falam apenas checo. É uma estopada,mas mesmo assim, por causa do sorriso e das estórias que se descobrem, vale a pena.
Telc - património mundial - tem uma praça resplandecente, em que as casas são todas resguardadas por frontarias lindíssimas: Mas não tem mais nada. Se não se tiver informação coveniente, passa-se por lá como se por mais uma aldeia de camponeses, preocupados com as colheitas do trigo, das papoilas e da cevada.
Cesky Krumlov: um rio a serpentear, uma arquitectura e um urbanismo únicos, outra cidade classificada, é ainda mais atraente que Praga. Tem gente de todo o lado da República Checa, alguns austríacos, alemães e, provavelmente holandeses. Pela primeira vez numa viagem deste tipo, não ouvi uma palavra em português. Um dia destes vira moda e já não se pode andar por aqui.
Ah! os italianos, sempre aparecem: eram os únicos que destoavam na visita à exposição de Alfons Mucha, em Moravsky Krumlov: vinte quadros gigantes a narrar a história dos eslavos,da formação da pátria Checa e do movimento religioso hussita.
Do ponto de vista do aproveitamento daquele enorme potencial turístico, o mesmo disparate: fecham ao meio dia, abrem às 13 e fazem visitas guiadas, com gente que fala, fala e sorri, mas ninguém entende, exceptuando, claro,os checos, que, neste caso, ainda são - ou parecem - o maior número.
A paragem para ver Mucha, os heróicos e também as gravuras publicitárias da sua época parisiense, perturbou a chegada a Brno, para onde estava marcada uma visita para as 16 horas locais, à Villa Tugendhat, uma maravilha da arquitectura dos anos trinta, macerada e ocupada pelos nazis e pelos comunistas.
Está agora em recuperação e a cerca de uma hora que se passa ali vale bem a estopada de ouvir um cavalheiro a falar, a falar para apenas 15 pessoas sem que nenhuma delas perceba uma palavra.
E, depois, quem quiser comprar o que quer que seja tem que pagar em cash e o mais próximo multibanco fica uns quantos quarteirões abaixo.
Ma,, enfim, a propósito de Tugendhat vale a pena contar a estória da chegada.
Bron é a segunda cidade checa - enorme e não tão bem organizada como Praga. Descobrir a zona de residências senhoriais onde habitaram e devem habitar as elites de vários regimes - uns de ocupação outros não - assim, sem mais nem menos,com hora marcada, não é coisa fácil. Olham-se os mapas, pergunta-se, mas as respostas nem sempre são fáceis. A comunicação consegue-se mais por gestos. Inglês, francês, nada, e o nosso alemão está esquecido (eu acho que só os alemães se lembram, a sério, dele) . O relógio não pára e aquela visita tinha sido marcada desde Lisboa.
De repente, à nossa frente pára um carro da polícia, num semáforo, a co-piloto da viagem sái mais uma vez do carro e corre para a viatura da autoridade, aponta-lhe o mapa e o homem, sem dizer uma palavra que se perceba, faz sinal para que o seguíssemnos. Um pouco mais à frente volta a parar e - sentiu-se - resolveu levar-nos ao destino.
De facto, concluímos, depois de lá chegar, que sem batedor jamais conseguiriamos chegar às 16 em ponto.
Altura em que quatro espanhóis estavam já a ocupar os nossos lugares para visitar Tugengdhat. Um deles ainda gemeu: ..." mas somos espanhóis, vimos aqui apenas uma vez na vida..." Ao que respondemos: " ... nós somos portugueses provavelmente esta é a única viagem que aqui fazemos, temos esta visita marcada desde Lisboa e o relógio marca 16 em ponto".
Foi um gozo particular? A visita foi, a chegada com polícia, tudo isso, sim, dá para recordar com agrado. A exclusão dos espanhóis achamos um disparate. Continua a ser o sistema fechado a impôr regras que só os chefes percebem, porque só a eles dá a satisfação de um poder assumido. Além disso, as dificuldades de recuperação da vivenda são visíveis...
Os checos hão-de aprender e estes relíquias, gora são difíceis de apreciar, hão-de ser vistas por multidões.
Nessa altura será tudo muito mais caro, mas quem cedo amanhece...

Viagem - as malas

É simpático reconhecer competências, dedicação, eficácia num serviço público. Já falei da Austrain Airlines bastante diferente das suas congéneres europeias, a atravessar crises miserabilistas insuportáveis. Pois, a Austrain, não apenas serve refeições a bordo com alguma dignidade, como,depois, à chegada, tem um serviço de assistência impecável.
Chegado a Viena no dia 1 de Agosto, a caminho da República Checa dei por falta de duas malas. Rapidamente soube o destino das transviadas: Barcelona. Que me seriam entregues no dia seguinte, ao fim do dia, no hotel para onde seguiria viagem.
Assim aconteceu: ainda não eram 18 horas locais do dia 2, quando o pessoal da companhia austríaca apareceu em Daceci a entregar as malas.
Daceci fica mais de 150 Kms de Viena e é noutro país. Estou mesmo a imaginar uma companhia portuguesa a prometer e cumprir entregar duas malas numa espécie de aldeia que nem no mapa vem, em Espanha...
Claro que para chegarem tão rápido não devem ter parado na espécie de paraíso do sexo que os checos plantaram à entrada da sua república, ali, disponível, de forma óbvia para quem atravessa a fronteira entre os dois países em Haugsat.
O comércio até chega a ser chocante, mas, seguramente, reflecte diferenças importantes entre dois países, agora pertencentes à União Europeia.
A República Checa exibe, confrangedoramente as sequelas dos planos quinquenais, com largas extensões de campos roubados às florestas que noutros tempos os povoaram e onde se cultivam grandes extensões de cereais. São verdadeira feridas abertas e que,obviamente, ninguém está interressado em sarar, já que é delas que vem o sustento a grande parte desta população.
A União Europeia está a entrar aqui devagar, as lojas abrem às oito e meia e fecham às 5 da tarde. É verdade que o Sol nasce às quatro, mas não se percebe muito bem o que fazem os checos da cidade. Os do campo, imagina-se que poêm aquelas enormes máquinas a trabalhar para ceifar os campos. À noite entopem as estradas...
As comunicações por aqui, junto aTelc, cidade-património mundial são um desastre e os cidadãos desta região só falam checo, assim como os portugueses da maior parte de Portugal que também só falam português. Mas, de qualquer modo, lá nos vamos entendendo

Viagem - a cerveja

Isto de viajar continua a ser melhor do que ficar em casa a ver telvisão, imagens que os outros fizeram, seleccionaram venderam (ou compraram) e transmitiram às horas a que os donos das empresas de sondagens recomendam. Se, por acaso, não correspondemos aos perfis dos inquéritos, lá temos que aturar coisas que consideramos idiotas, próprias de atrasados mentais...essas coisas.
De viagem pela República Checa profunda a suportar, de quando em vez, o cheiro a suor requentado de camponeses disfarçados nas roupas, mas com os olhos cheios das planícies abertas noutros tempos por máquinas inventadas pela gente de Staline, descubro que os adversários da PAC dos franceses na União Europeia estãoa Leste. São eles que vivem da cultura extensiva de cereais e a podem trasnsformar no que quiserem e puderem.
Não percebo mesmo por que razão em Portugal toda a gente se assusta tanto com o alargamento a Leste. Sei lá... o melhor é inventar um inimigo externo.
Aqui tudo é tosco; é muto difícil encontrar alguém que fale inglês, o turismo é ainda uma curiosidade... (eu sei que tem Praga, Cesky Krumlov e Brno, mas só na capital se pode falar em turismo internacional).
Indústria? só se percebe a da cerveja - notável, diga-se
É um país a sair, seguramente, de uma noite muito escura, mas simpático, com gente esforçada e com um desígnio nacional:a Independência. É aqui que está o segredo. Contarei mais.

Viagem - o começo

A segunda circular de Lisboa está cada vez mais entupida e ainda não ouvi nenhum dos candidatos à presidência da Câmara da capital falar disso. De qualquer forma é por lá que se sai a caminho do aeroporto e nunca se sabe se o entupimento é maior do que o habitual. Em Lisboa, corre-se o risco de perder o avião. Desta vez foi quase...
Aeroporto de Lisboa. Nunca mais acabam as obras...os placards de indicação dos balcões de chek-in avariaram, o stress aumentou, há boas notícias...Viagem a caminho de Viena, na Air Austrian. A mesma poupança de todas as outras, mas com alguma dignidade. Nesta, não se adivinham os bancos de plástico como nos autocarros de LIsboa.
Por falar em autocarros: uma sugestão para os candidatos à CML: prometam um corredor BUS e para viaturas de emergência na segunda circular. Aquilo está perigoso a sério...
Avião cheio de crianças. Atrás de mim, um senhora queixa-se à assistente de bordo que o cavalheiro ao lado dela tresanda, não deve tomar banho há séculos...já o bisavô dele abominava a água. É a gente do Norte: água nem para beber, por isso não falam da seca.
Impecáveis, as austríacas, com muita diplomacia, removem o cavalheiro, trocando-o por uma jovem, que não sendo propriamente um modelo de limpeza, pelo menos não tresanda a suor velho e outros odores.
A viagem serve igualmente para rememorar algumas das últimas notícias escutadas em Lisboa e de que, com certeza, não vou saber desenvolvimentos. Na Guiné Bissau, os adeptos do candidato do PAIGC protestam na rua a exigirem novas eleições. É o Senegal a reagir: é que a Guiné Bissau também tem petróleo a Norte e não apenas a Sul. Todo o Mundo anda atrás do petróleo e aquele já deve estar contabilizado.

sexta-feira, agosto 05, 2005

FANTASMAS

Hoje a notícia fora dos incêndios é Figo. Sai de Madrid para Milão. O Pombal está a arder. Mais de metade do país, também. O ano passado por esta altura, mais coisa menos coisa, ardiam as matas. A oposição, que hoje é governo, criticava asperamente o governo. Hoje terá sido o primeiro dia dos piores anos. O primeiro ministro está de férias. Ninguém do governo se pronunciou, nem que fosse para lastimar as vítimas. Eu sei, vamos ter que nos habituar.
Tenho andado a espreitar as primeira páginas do DN ao longo dos anos.
Não é a História que me motiva, é o jornalismo. Acho que já dei conta da mórbida curiosidade
sobre o Jornal no 28 de Maio.
È óbvio que a 28 nada haveria para contar. Do ponto de vista profissional, a curiosidade centrava-se no jornal de 29. Ora, a 29 o jornal não disse quase nada e teve muito, muito cuidado.
De facto o matutino não dava ideia de saber o que se estava a passar. No dia seguinte, já era 1927, Fevereiro: havia uma revolta militar no Porto. Finalmente, deu para entender...
De incêndios não se falava. Mas havia uma revolta e a revolta militar era o incêndio dos nossos dias. Havia para todos os gostos e conforme os dias da semana. No dia 29, já referi, falou-se do 28 de Maio, mas sem ser 28 de Maio. Eis como titulava o jornal: A odem pública alterada. mas em Lisboa e no Porto o sossêgo é absoluto. Fotos tipo passe mostraram o general Gomes da Costa, exibido como o chefe revolucionário do Norte, enquanto Mendes Cabeçadas era tido como tendo sido preso em Santarém. Uma nota oficiosa confirmava que «há sossego em todo o país. Apenas uma parte da guarnição de Braga está revoltada»...Dizia-se ainda que tinham sido organizadas duas colunas para seguirem para Braga a fim de dominar os revoltosos. Outro comunicado, do conselho de ministros, garantia que «apreciando a situação verificou que dispõe de todos os elementos para manter a ordem»...
Menos de um ano depois, em Fevereiro de 1927, deparava-se com algumas diferenças. Dava-se notícia de um levantamento revolucionário no Porto, mas o ministro da Guerra já tinha partido para Aveiro, onde estavam a ser concentradas tropas fieis para marchar contra os revoltosos no Porto. Mesmo assim, havia repercuções em Lisboa, onde o general Domingues, do Governo Militar de Lisboa fazia saber que ficavam proíbidos os ajuntamentos de cidadãos, usando-se de todo a violência contra os que resistirem...
Durante os 48 anos que se seguiram a medida não foi, suspensa, nem alterada, salvo para manifestações expontâneas de apoio e veneração do Presidente do Conselho, que devia estar a chegar ao topo da carreira...
Mas mais interessante e a dar o mote para o rumo que o país encetava, nessa sexta-feira, bem ao alto da primeira página, a duas colunas, à direita, a entrevista com Mussulini. onde se salientava que « o fascismo é um produto do Século» e sublinhava que «a democracia é indiscutivelmente a meta para que (para a qual) a humanidade caminha»...
A entrevista com o Duce não enganou: a guerra estava no horizonte, dele e de outyros líderes, que não falavam dela. Ele sim, e disse a propósito: «Não há nada de sinistro nos preparativos para a guerra. Pelo contrário, são mais para temer certas frases mansas que abordam o tema do pacifismo»...
Comecei a sentir-me frustrado, mesmo desmoralizado, nada de futebol na primeira página. Afinal que país era o meu. O futebol não tinha culpa os jornais é que não prestavam. Mas amanhã, que já deve ser 1928, é ano Olímpico e Portugal teve uma equipa de futebol nos Jogos e até botou fugura. Ganhou uns dois jogos e acabou eliminada aí pelo Egipto ou coisa assim..
O que é que acham?

quinta-feira, agosto 04, 2005

NOTÍCIAS DE VERÃO

Ainda sem linha, o TGV já derrapa. Pôs um ministro financeiro a andar e despediu o manda chuva da CGD. Com a OTA vai ter de mandar o benfeitor da TAP à vida ou, para disfarçar, despede o Rio e o Major da Metro do Porto. Anda tudo espantado com este governo dito socialista, sem razão. A confusão é confusa porque os jornalistas em vez de se deitarem a adivinhar deviam perguntar o como é ao dr. Vitorino, para ele aplicar com clareza europeia o seu «habituem-se!», cada vez mais objectivo. E não é que vão mesmo ter de se «habituar» a tanta coisa, tanta!
Quatro meses chega para merecer férias, não tanto por fazer tanto calor, mas por tudo à volta estar muito, muito quente! E o primeiro-ministro abalou e a produtividade foi as urtigas, logo a produtividade que faz um mal do caraças às pobres urtigas. Deixou por cá António Costa que para gerir a crise política nem deu pelos atropelos à Justiça.
Sem eco possível, Freitas do Amaral, esse, não voltou a falar de eleições, nem de Negócios Estrangeiros, tem-se limitado a ficar calado e, possivelmente pasmado. E como é por demais sabido que ele é o senhor que se segue, no que toca a zarpar do governo, os outros têm de esperar vez, de forma a que o analista Marcelo tenha razão e justifique o cachet.
Seguindo o exemplo do Benfica, que quer mudar o nome do estádio, para cobrar 40 milhões, o PS vai mudar o nome do Palácio de Belém. Deixa de ser palácio e passa a Asilo. Mantém-se o Belém. Não me perguntem. Não sei porque será...
Sempre desconfiado, Cavaco foi, pela manhã, saber de Sampaio quem é que quer, afinal, emparedar um ancião no asilo belenense? Deve ter saído sem resposta. Depois, à tarde, e à tarde porque, como dizia uma vizinha, bem alinhavada, mais vale à tarde que nunca, Mário Soares preparou-se para ir ouvir o Presidente, pelo caminho atropelou um poeta, malhas que o império tece.
O que ouviu ninguém sabe, ninguém viu, como dizia a cantiga. À saída disse que não falava. E disse que não falava como quem dissesse tudo. Era só querer perceber... que em Outubro, se lá chegar, vai ser uma festa!
Outra cantiga reza que Outubro não tem rival e é preciso que se diga que o Abril em Portugal não é mais que uma cantiga, o que não deixa curioso, para ouvir em período eleitoral! A letra da cantiga é posterior ao outro Abril, não tinha carga, não era contestatária, mas dá jeito, para brincar com coisas sérias...

segunda-feira, agosto 01, 2005

FALIR POR FALIR

Por se escrever o que se escreve ou por não ser o que se deve ou por outra montanha de razões um jornal pode acabar. Um poeta disse que «O Século» não podia acabar. Os poetas são como os
aprendizes de presidências, não sabem nada de jornais. «A Capital» fechou. «O comércio do Porto» encerrou a porta. Foi morte anunciada. E não foi por causa de ou por causa do. Tão natural como a sede do anúncio. Os jornais, tal como se liam no passado, já não sobrevivem, entre nós. Os jornais, hoje em dia, não se dão ao respeito e, por isso, ninguém os respeita.
Hoje comprei o DN, para ler a notícia da morte de Guerra Junqueiro. Por acaso o diário não trazia o resultado do Guimarães-Benfica, nem do Sporting-Setubal, jogados à hora de fecho da edição, que é quando as galinhas se deitam.
Dantes, mesmo que as galinhas teimassem no sono precoce, a Censura fechava às três da manhã, e só depois as últimas páginas, entre as quais a primeira, desciam às oficinas. Dantes...
Hoje, não. Hoje os jornais têm de sair cedo das rotativas, porque a distribuidora quer os jornais cedo e tanto lhe faz que sejam de hoje como de ontem.
Talvez valha a pena situar este «ontem» no antes de haver televisão. Antes disso havia em Lisboa o «DN», «O Século» e o «Diário da Manha» (pelo menos nós chamavamos lhe assim) orgão oficioso oficial do governo de então, que ao contrário de outros que não interessa agora referir, mandava que se fartava. Havia mais uns jornalitos dispersos, sem impacte e de importância relativa. E havia, claro os vespertinos, a saber: «Diário Popular», «Diário de Lisboa»
e o «República», todos perfeitamente implantados, embora um deles tivesse que ser lido quase às escondidas. «A Capital» viria depois, já com a Televisão, mas sem força informativa, mas já a
interferir nos hábitos e costumes, como se vai ver.
E houve outro jornal que irrompeu a meio do dia, digamos assim. Saía à hora do almoço um tanto para evitar confrontos. Não teve grande sucesso, apesar do tom populista. Cada jornal diário dispunha de oficinas e distruição próprias. A excepção eram os jornais desportivos. «A Bola» se bem me lembro imprimia no «Século», o «Mundo Desportivo» era, penso eu, propriedade do «DN», e o «Record», posterior aos outros, nem faço ideia onde. Os desportivos vendiam~se tão bem que nem precisavam de pub.
Havia mercado. E foi havendo até a Televisão se intrometer no dia a dia dos cidadãos. A vida alterava-se. Primeiro foram os cafés, que viraram bancos; depois os cinemas a ficar às moscas e,
finalmente os jornais a perder pedalada. Os semanários em formato de jornal também foram perdendo mercado. As tiragens baixaram até não haver margem de sobrevivência. Restam uns quantos, como o «Expresso», que vendeu a alma ao diabo e enche páginas de perfídia e de especulação especulativa e sem réstea de vergonha, amparado pelo tráfico de influências, que controla o grosso da pub.
E os diários desaparecem não por serem bons ou maus, mas porque não interessam ou não são
de fiar. O capital da «Capital não era ser vespertino ou matutino; ele saltou da tarde para de manhã para tentar sobreviver. Em Lisboa e no resto do país nenhum jornal da tarde sobreviveu. O hábito de ler no comboio ou no barco e outros transportes domésticos perdeu-se um pouco, por falta de condições e excesso de confusão e já não há cafés, como havia, nem gente para os encher, a facilitar e convidar a ler pasquins ao fim da tarde, nem tertúlias.
Hoje para sobreviver, um jornal necessita de algumas especificidade, que desperte interesse ou curiosidade.
Os próximos jornais a ir a baixo vão ser, decerto, os desportivos, se entretanto não arrepiarem caminho. A intriga e compadrios começa por vender, mas acaba sempre por gerar descrédito. O major e o sr. Pinto não quiseram nem precisaram de provar inocência, de inocentes que são. A Federação Portuguesa da bola esteve e está-se nas tintas e a Liga ainda menos ou mais pior. Cada vez há menos gente a ir à bola e demasiada bola pela televisão já chateia. Nisto, como nos demais assuntos, é o jornal que acaba por pagar a crise.
De momento, andar nas vidas é o que está a dar e estimula jornalecos e revistas ditas cor de rosa. A virtude já foi, não vende, não rende. Agachem-se criaturas, agachem-se, se querem vender papel...