segunda-feira, junho 20, 2005

GOSTAR DO PRÓXIMO...

Nem faz mal se ele estiver afastado!De certo modo, o próximo também se pode entender como o seguinte, o que vem depois, logo não há razão para reservas e até se podem alimentar algumas esperanças, sobretudo as de caracter erótico...
A fraternidade não é uma obrigação. A fraternidade limita, não é generalista. Mesmo com pais comuns é frequente um tipo detestar a irmã ou invejar o mano. Ora como convencer um tipo que não suporta os sobrinhos e abomina a cunhada a ser prestável com a vizinhança, especialmente se for toda de brancos, menos ele próprio? E muito mais se o tipo estiver convicto ( e com alguma experiência) de que os brancos, grosso modo, não gostam de mestiços, quase tanto ou mais do que de pretos. Com os chineses é mais fácil. Eles não percebem nada do que se
lhes diz e podem dizer o que lhes aprover que nós não entendemos patavina.
E próximo também tem a ver com proximidade. Numa situação de carência é mais simples amar o que está à mão ( ou a que está ali mesmo) do que quem estiver longe. Pode ainda, como faz regularmente um amigo meu, amar perdidamente a que está ausente, e ir aproveitando do que gira pelas cercanias... Enfim sentimentos que ajudam a comprender que no fim de contas o amor devido ao próximo não será tão cândido como a moral aconselha.
Já o ódio é mais díficil de entender e em geral se vende como recalcamento.
Pelos idos de sessenta do Século passado estalou um caso invulgar de xenofobia na África do Sul. Não estou a gracejar e o invulgar estava apropriado. Uma assembleia legislativa procurava propor que a colónia madeirense fosse classificada como não branca! A moção esteve por um tríz para ser aprovada. A intervenção da diplomacia portuguesa, das raras que não condenava o regime do apharteid, contribuiu para que a proposta não fosse discutida. A acusação que pendia sobre os portugueses da Madeira era de serem associais, de não participarem, de não consumir e de não investir. Era como se estivessem condenados a trabalhos forçados.
Não devem ter ganho para o susto, mas aprenderam a lição. Pouco tempo depois, a colónia tinha-se transfigurado. Já dispunha de centros de convívio, dispunha de um jornal e espeitavam outros negócios para além das mercearias. E foi dos madeirenses o primeiro impulso vinícola.
O que por essa altura despontava era o anti-racismo. Racismo era, então, o modo de ser. Quem não se lembra dos pubs ingleses na China terem inscrições do género proíbida a entrada a cães e a chineses? Quantos anos os chineses suportaram aquilo? E quantos deles não esqueceram?
Na África portuguesa não havia menos racismo, o que havia era outra legislação e a segregação não era obrigatória. Por isso as escolas abriram-se a todos e de meninos os portugueses aprendiam finalmente a caminhar juntos. O funcionalismo público participava integrando cidadãos de todas as etnias, incluindo a branca. As empresas do grupo do Vinhas e outras que depois se seguiram prometiam uma Angola bem diferente. Esteve quase.
Muito do quase acabou por rumar a Europa, para as covas da moura, que por aí abundam. Aqui não encontraram legislação estimulante. Tropeçam no racismo puro e duro e na xenofobia. Não é por do outro lado estarem brancos portugueses. Na Africa do Sul são os brancos portugueses a pagar, maneira de dizer, a morrer. Em França não se quer mais gente do Leste. Houve tempo que os franceses se alimentavam na Indochina ou na Argélia. Comia-se bem!
Como os madeirenses na África do Sul, a leva de portugueses para França, a fugir à guerra colonial, criou os primeiros bidonville, que era a maneira de estar dos deslocados. Trabalhar, poupar e mandar para a família. Houve alguma indignação e medidas, também. Também estes tiveram a aprender. E aprenderam e integraram-se.
Pior é quando a leva é grande e a absorção curta. De repende eles são orientais e eslavos, africanos de muitas áfricas, ávidos e desalentados. Já não há cobertor que estique. Tornam-se incómodos e mão de obra para máfias globalizadas. Assustam e forjam temores e raivas, ódios e xenofobia.
Para nós já não há Brasil e os states já foram. A Venezuela, sim, mas.
E os chineses começaram a chegar. Se quiserem perceber melhor vão a Paris ou a Londres.
Olhem à volta. Um amigo que foi a Bruxelas e, no regresso passou por Paris telefonou-me eufórico: «tu exageras. Ontem vi três franceses no Metro!»

Os Mitos

No jogo da vida também dá para aprender o jogo das coincidências, algumas bem curiosas. Uma das figuras mais queridas do povo português durante uma parte importante da primeira metade do sec. XX foi a de Vasco Santana, actor popular, de personalidade multifacetada e senhor de um talento que poucas vezes foi igualado. Morreu a meio da madrugada do dia 13 de Junho de 1958, com 60 anos. O seu funeral foi uma demonstração de desgosto colectivo impressionante.
Álvaro Cunhal morreu no dia 13 de Junho de 2005, ao princípio da madrugada, e o seu funeral foi a maior demonstração espontânea de pesar nacional de que há memória em Portugal.
É apenas uma coincidência, mas dá para perceber que o povo sabe reconhecer na morte a quem apreciou em vida.
É apenas uma coincidência e, talvez, mais uma razão para o PCP perceber que a manifestação verdadeiramenmte nacional de desgosto pelo passamento do seu líder o ultrapassa. Aquilo que se viu em Lisboa, tendo também alguma coisa a ver com o PCP é muito mais do que PCP. Era interessante que os seus actuais dirigentes mostrassem alguma inteligência e tivessem impedido aquela palavra de ordem "assim se vê a força do PC", exactamente na altura em que se procedia à cremação do corpo de Cunhal. Ardia, desaparecia, a força do PC?

sábado, junho 18, 2005

MATAR E MORRER

Dantes, era a caça às bruxas. Havia todo um cerimonial à volta da presumível, que sucumbia esturricada. Com o Santo Ofício ou a Santa Inquisição alargou-se o objecto da caça. O misticismo era mais abrangente e permitia intimidar qualquer um, azarado ou distraído. Para isso dispunha-se de engenhosos objectos que lavavam do pecado e permitiam a confissão, não que fosse indispensável, mas atenuava o tormento e morria-se mais depressa.
Mas o Homem não parou de crescer. No Século XX já era suficientemente crescido, se bem que a Economia fosse ainda elementar. O que não havia, ia-se arranjar. Adolfo acreditava que o dinheiro dos judeus era suficiente para ganhar a guerra. Matou alguns milhões deles, com alguma dose de maquiavelismo. Acabou por se suicidar, mas nem era preciso, já tinha perdido a guerra. A rendição. A festa da paz, que festa!
Em paz, a guerra, as guerras prosseguiram, uma atrás das outras. O que é que um pobre humano poderá fazer, se um dia as guerras acabarem? Provavelmente bocejar.
Onde hoje em dia é suposto não haver guerras, morre-se tranquilamente nas estradas. Aqui, onde estamos, desde que Afonso amarrou a mãe, é o pior troço da Europa. E se não é o mais pior
andará perto. Não adianta dramatizar. A culpa é de todos nós, mas especialmente dos governos, ou melhor dito: dos governantes. O problema nas estradas não é uma questão de défice orçamental. Mais IVA menos IVA não leva a nada. A meio do ano já vamos a pisar o meio milhar de vidas que sucumbiu nas estradas. O que é que vamos fazer? Ora: bocejar! Bocejar e ficar paulatinamente à espera dos outros quinhentos. Para isso vamos arranjar mais umas pontes de fins de semana, comprar mais uma dúzias de balões para o Zé soprar...
Ontem na Televisão e hoje num matutino faz-se referência a estudos sobre a matéria. Ou eu li mal ou o estudo é pouco credível, não que os dados não estejam certos, mas o tecido escasso para extrair conclusões, algumas das quais pavorosas, como a de que mais de 67% dos condenados, por infracções graves (de contrário nem seriam condenados) não ficou inibida de conduzir. E pior: em 90% de casos de condenação as penas foram suspensas!
Devo acrescentar por experiência própria que estes estudos não são fáceis. Ainda no Século passado tentei reunir elementos para abordar o assunto, por um certo ângulo. Eu reconheço que não sou simpático e tentar ir à procura de casos sinistrados reincidentes esbarrou logo, à partida, com a recusa peremptória das seguradoras em prestar quaisquer informações. Esbarrei com o silêncio e o fim dos sorrisos dos senhores das Janelas Verdes. O objectivo não era tão sinistro quanto pode parecer e incidia justamente sobre a pouca ou nenhuma repressão. E é aqui que a porca torce o rabo...
Existe excessiva tolerância sobre os automobilistas. Por um lado o peso da indústria terá contribuido para que a legislação seja maneirinha; por outro, o sentimento de quem julga ser muitas vezes contemporizador para com o réu, qualquer coisa do género: "são coisas que acontecem, podia-me acontecer".
De resto o próprio sistema judicial permite toda a espécie de atrazos e demoras que permitem a lavagem das responsabilidades, beneficiando o prevaricador e a seguradora. Quantos casos ficam anos e anos sem decisão, afectando vítimas, muitas das quais com a vida estilhaçada. Porque fala-se de mortes, mas não de nomes de pessoas. Fala-se do automobilista que atropelou (e matou) uma jovem na passagem de peões e foi condenado a dois anos de prisão, com penas suspensa, mas não se ,diz quem é. Mas é assim porque é assim que a Lei determina. Pois que seja, mas não deixa de estar mal. Nunca vi referido se um tal e tal que bateu e fugiu e depois foi julgado, se por acaso não tinha já tido uma porção de acidentes perigosos e pouco católicos. É aqui que entra, a meu ver, a responsabilidade do governo, que sabe melhor discutir portagens do que assegurar o bem estar de quem circula de acordo com as regras. Quando um operário cai do andaime, habitualmente sabe-se quem é o responsável pela obra. Sobre aparatosas acidentes de viação fica a saber-se pouco. Há uns dias houve um acidente terrivel: uma automobilista, violou dois riscos contínuos para poder ultrapassar um camião. Bateu de frente noutro carro que circulava em sentido contrário. Um morto (uma das duas automobilistas envolvidas) e três feridos graves. Mas nenhuma referência sobre qual dos envolvidos é que morreu.
Urge simplificar. Se o automóvel mata em excesso de velocidade, o processo judicial não pode ser lento, sob nenhum pretexto. A lei não prevê. Ora essa, então para que é que temos um ministro da Justiça? Para que serve uma Câmara de Deputados? Não se deve utilizar uma viatura como se fosse uma arma, e quem o fizer, e quantos o fizerem, todos devem ser denunciados. Como diziam os de antigamente: o que não vai a bem, vai a mal...

quinta-feira, junho 16, 2005

TEMPO ESCORRE

Como Inês pus-me tranquilamente em sossego. Aproveitei do tempo acalorado do modo mais comum. Fui espeitando os jornais, dei asas ao comando da TV, enquanto o tempo paulatinamente escorria, como o ribeiro manso, que tão bem cantou o poeta. Os mortos foram troados, moldados, ainda a quente e à boa maneira cristã; depois, mais cruamente e, já depois de funeralizados, com alguma aspereza. Foi preciso que Cunhal estivesse morto e enterrado (cremado) para que as cruas verdade fossem, finalmente, proferidas. Por tardias soaram (soam) tão mal como as loas choramingas prestadas ao admirável defunto. Em alguns casos pelas mesmas criaturas...
Não é (não foi) o caso de Eugénio de Andrade. Os poetas são uma espécie mortal diferente. Quando se vão, não será por muito os criticarem, que arrefecem mais depressa; e não será por muito serem cantados que a sua alma aquece. Mas a obra permanece pelos Séculos além, mesmo os mais obscuros, como Angelo de Lima, por exemplo, que Herberto tirou, com ternura, de páginas do« Orpheu», de sob a poeira para mo mostrar.
Dos políticos é mais complicado. Geralmente diz-se deles amabilidades vagas, subtis a ponto de se subentender melhor a amabilidade que a realidade; a crítica por vezes agreste sobre a excelsa criatura defuntada pode medir-se sem lupa, basta soletrar as entrelinhas.
O que varia habitualmente é o funeral. Desta vez não deu para sair da Basílica, mas num dos casos encheu as televisões de multidão e nem sempre a multidão é anónima. Pessoalmente não me impressiono com multidões. A que me marcou, e definitivamente, me inibiu de pasmo pelas seguintes, foi a chegada a Luanda da Riquita. Muito antes eu próprio engrossei a mole que festejou o primeiro título europeu do Benfica. Sei o que eram e o que valiam. A multidão na última viagem poderá ter compensado a ausência de condecoração, aliás logo assinalada na nossa rede com azedume. Com o andar da carruagem as distinções vagamente oficiais com as quais o senhor Presidente da República premeia nem sei que tipo de virtude ou de obra relevante nunca obedeceram a regras claras, talvez por isso a condecoração se torne cada vez mais um acto mais floclórico do que solene. José do Telhado teve, antes de se tornar salteador, uma alta condecoração do Estado. Um português ilustre, premiado com o Nobel da Medicina, não teve direito ao reconhecimento do Estado, porque não era, imagine-se!, salazarengo. O Eusébio deve ter tido. Um comentador de RTP, filho de um antigo ministro do Estado Novo, também. O Álvaro não. Na sua longa e atribulada existência não se distinguiu tanto, quanto Catarina Furtado. Não se espantem! Hão-de ver nos funerais da imensa legião de comendadores às ordens (ou devo dizer da Ordem?) o impacte da graça presidencial...

terça-feira, junho 14, 2005

IGUALDADES

Entre igualdades e desigualdades venha a diferença e escolha. Por exemplo, a malta de Viseu não vai muito nisso das desigualdades ou da diferença. Como não aceita agride e espanca quem sai dos conformes. Mas há quem aceite e defenda o direito de cada qual ser como é, mas quando é o caso de se forçar a mão, os preconceitos emergem.
Um sindicalista chocado com as condições laborais no Vale do Ave revelava que algumas operárias com salários muito baixos ou até no desemprego se viam constrangidas à prostituição, com conhecimento e condescendência dos maridos. A crueza da crise faz, no entanto, realçar a desigualdade: ante o espectro da fome, a metade feminina do casal prostitui-se. O esposo conforma-se e ganha o respeito do sindicalista condoído. É uma imagem distorcida. Em plena era dos direitos e igualdades, porque é que a jovem senhora empobrecida, que decerto já lava a loiça e as roupas da casa, varre o chão do lar e cozinha para a família, tem ainda de ser ela a prostituir-se?
E porque não a outra parte? Porque não vão eles, varões, para o parque Eduardo VII ou outros similares, onde tanta gente, alguma alta e poderosa, mas igualmente carente, busca com ardor resposta adequada aos seus anseios? A igualdade, como a responsabilidade, quando nasce é para todos. Mas nem sempre, nem em tudo, se pode satisfazer todos. Se fosse só ir ao parque, pela noitinha, era simples. Mas, ele há mais desigualdades. Olá se há! Ainda que algumas imcompreensíveis e quiçá injustas. Como por exemplo a do pobre professor que badala na televisão pública, que só pode reformar-se aos 65 anos, se nessa altura já tiver anos de trabalho suficientes, e outro gajo qualquer pode ter pensão dourada e vitalícia após três ou quatro anos de banca do Estado, ou 12 anos de Parlamento? Ou mais ou melhores, no caso de ser julgador dos semelhantes pecaminosos?
Não é por nenhuma razão razoável ou lógica e muito menos decente. Mas porque quem mandou, manda ou mandará, nessa área aproveita-se e não se lembra de mandar as propostas de lei sobre essas generosas e ilegítimas benesses a votos. Para privilégio não há referendo. Se houvesse era seguro e certo que ninguém jamais se admiraria (como se admirou) com um nãozito de vez em quando.
A questão não se pode pôr em termos de discutir se é legal, razoável ou ético acumular uma pensão com um salário, mas a legitimidade da pensão, sobretudo se for gulosa, antes do tempo e sobretudo, atribuida por serviço mínimo num orgão do Estado que remunera bem os de cima e não avança com pensões prematuras para os de baixo. Pessoalmente preferiria que o senhor ministro (e outros que tais) perdesse a pensão, e que lhe dessem mais taco no vencimento, do que avançassem com alguma generosidade paga pela Segurança Social ao jovem professor dominical...

segunda-feira, junho 13, 2005

O Estado Que Temos

Há momentos na vida de um povo que o definem como tal. A morte de Álvaro Cunhal é um deles. Ninguém pode ficar indiferente à passagem deste homem pela vida colectiva de Portugal.
Todavia, o Estado, essa instituição em nome da qual pagamos impostos, vamos à guerra, somos presos ou libertos, não traduziu uma única vez, num único gesto essa consideração do povo. Álvaro Cunhal passou, definitivamente, à categoria da lenda sem ter recebido das mãos de nenhum representante do Estado uma demonstração de apreço pela vida de luta, dedicação, esforço e sacrifício que viveu.
O Estado português nunca condecorou Álvaro Cunhal, um homem que marcou indelevelmente a vida nacional durante mais de cincoenta anos.
A sua morte serve também para definir a natureza do Estado que, dizendo servir-nos, se serve de nós, decidindo sempre segundo preconceitos ideológicos que nos dividem.

Discursos Políticos II

Apenas ouvi meia dúzia de frases do discurso de Mário Soares sobre o 20º aniversário da adesão de Portugal e Espanha à CEE, hoje UE, por isso, que me desculpe este homem cuja presença na vida pública portuguesa já ultrapassou, seguramente, a da maior parte dos protagonistas da nossa História, talvez com a excepção de Afonso Henriques e D. João V. Espero, todavia, ler, numa primeira oportunidade, tudo quanto disse naquela circunstância.

...Mas ouvi, integralmente, o discurso de Felipe Gonzalez.

Ora aí está o discurso de um político. Ficou claro o seu pensamento: pode a Europa competir com o poderio demonstrado pelos estados emergentes nesta globalização através de salários baixos?
Pode a Europa competir com os saltos tecnológicos conseguidos pelos Estados Unidos, muito à custa da guerra contra o Iraque?

Pode a Europa manter o seu modelo social contra estas ameaças?

Pode a Europa acrescentar a cada hora de trabalho imaginação, criatividade, inovação e, com isso, superar os seus reais competidores neste Mundo globalizado que os europeus desejam e para o qual comparticiparam e comparticiam?

Foram estas as perguntas de Felipe Gonzalez, que se considerou, primeiro, um "HOMEM LIVRE" e, depois, um cidadão" sem responsabilidades mas não irresponsável" e, por isso, preocupado com o actual terramoto que assola a União Europeia. A solução para a crise está nas mãos da geração actualmente detentora do poder europeu. Uma geração já sem as referências fundamentais da primeira e da segunda guerras mundiais. Esta geração - disse Felipe - tem a obrigação de governar o verdadeiro "presente de Deus" que representa a Unidade Europeia, seja a dez , a 25 ou a 35.

Oxalá Sócrates e todos os outros tenham ouvido igualmente a sua manifestação de esperança na possibilidade de a Europa manter, contra tudo e todos, o seu modelo social

Oxalá.

Os Discurssos Políticos

Acabo de ouvir José Sócrates no seu discurso de comemoração dos 20 anos de adesão de Portugal à então CEE, hoje UE.

Alguém tem que ensinar ao primeiro-ministro que aquele tipo de discurso já não se usa e é cansativo. Mais: aquilo é um tipo de discurso jornalístico que já nem nos jornais fica bem, com as muletas habituais: a retrospectiva histórica capaz de justificar conclusões prospectivas e onde nem sequer falta o estafado "por outro lado...".
Sócrates usa também os truques dos padres da Aldeia, repetindo, no início de cada período, as mesmas frases ou, às vezes, uma única palavra. Aos políticos dispensam-se os truques de oratória.

A um político exige-se, num discurso público, em circunstâncias tão marcantes, a notícia. Um discurso com novidades, com ideias novas, sem tantas referências ao passado. A um político exige-se, quando fala, a indicação para mudanças na sociedade que dirige, sobretudo no nosso tempo, que circula a uma velocidade igual, ou superior, à da velocidade da luz. Um político, quando fala, tem que dizer alguma coisa.

Eu já não me lembro de nada do que ouvi.

As Dívidas E Os Perdões

O Grupo "G-8", de repente, resolveu perdoar as dívidas aos 18 países mais pobres , isto é, aos mais endividados, isto é, aos estados que não pagam as suas dívidas, isto é, resolveram premiar os estados que têm tido ao longo dos tempos uma atitude de menos (ou nenhum) respeito pelas regras da convivência internacional.

Olhamos par a lista e não podemos deixar de ficar surpreendidos. Nenhum dos 18, exceptuando, provavelmente, o Burkina Faso, pelas condições climatéricas, e o Uganda, por via dos sucessivos genocídios levados a cabo por razões ainda não totalmente identificadas publicamente, terão algumas razões para se comportar como não pagadores dos seus compromissos internacionais.

Esse pagamento representaria, de resto, uma afirmação de dignidade e soberania nacionais que a todos honraria.

O escândalo aumenta quando percebemos que na lista seguinte - passível de novos perdões - se encontram países como Angola, Costa do Marfim, Camarões, Congo, Somália, Sudão e Togo.

Esta resolução, que encheu de contentamento os ministros das finanças do grupo "G-8", não tem uma referência, um prémio, para os países que, sendo efectivamente pobres, sempre se esforçaram por cumprir os seus compromissos e, para isso, obrigaram os seus cidadãos a comportamentos responsáveis, plenos de sacrifícios e - por isso também - mais dignos.

Esta decisão é um prémio à corrupção, ao roubo institucionalizado, à exploração desenfreada, ao conluio entre as elites nacionais e as instituições internacionais que prestam assistência, que distribuem verbas ou bens pagos por todo o Mundo.

Esta resolução não resolve problema nenhum. As elites dos países da primeira lista vão ficar mais ricas e prolongar a ocupação do poder de decisão sobre todas as matérias que dizem respeito aos respectivos povos e as da segunda vão tentar perceber, antecipadamente, como desviar em seu próprio benefício os perdões que vão chegar, e com, isso consolidar, igualmente, os esquemas de domínio do poder político nacional.

Mais do que isso: este perdão é, de facto, uma tentativa de construir um esquema institucional de intromissão na gestão de cada um destes países governados por verdadeiros gangs de ladrões.

É interessante verificar que países como Cabo Verde não fazem parte de nenhuma das listas. Sempre cumpriram com os seus compromissos e mantiveram acesa a luta por dignificarem a sua condição de países independentes. Por isso vão ter que continuar a lutar com as suas próprias armas, primeiro contra a organização internacional que favorece a corrupção e depois contra os seus congéneres que não apreciam particularmente o seu modelo da honestidade.

Pode não servir como comparação, mas ela aí vai: é como, quando, em Portugal, um governo se lembra de lançar um perdão fiscal sobre os contribuintes não cumpridores. E os outros? Ficam assim, sem direito a nada e com a obrigação de financiar a corrupção, a irresponsabilidade, a ladroagem daqueles, que, muitas vezes, não se inibem de, com os seus automóveis de topo de gama, passarem propositadamente nas poças de lama e salpicar o coitado que vai a pé porque toda a vida pagou as suas obrigações.

domingo, junho 12, 2005

Os próximos capítulos

Estou verdadeiramente surpreendido: sempre que escrevo alguma coisa sobre o Luís Delgado, os níveis de leitura deste blog sobem em vertigem.
Quer dizer: se eu funcionasse como o Luís Delgado, passaria, desde agora,a escrever só sobre ele. E matéria não faltaria.
O Luís Delgado seria para mim (para este blog) como o romance escaldante de uma vedeta da televisão, do cinema, da política, é para as revistas do coração ou cor de rosa.
Não é isso que verdadeiramente me motiva, mas não posso deixar de me interrogar sobre o efeito "Luís Delgado" na blogoesfera. Será que se está à espera que eu revele alguma coisa verdadeiramente bombástica sobre o LD?
Não percam os próximos episódios...

sábado, junho 11, 2005

TAPAR OU DESTAPAR

O que as crises têm de chato é a dificuldade em perceber porque ponta é que se lhes deve pegar. A senhora ministra da Educação quis mostrar obra e, porque crise é crise, avisou que ia
poupar uma pipa de massa, restringindo aqui e ali, travando progressões progressivas. Avisou ainda que uns três mil professores incapacitados de dar aulas iam ser deslocalizados, por assim dizer. Saiam das listas de profs e iriam (ou hão-de ir?) para actividades afins, como bibliotecas, do ministério de de autarquias. A ideia luminosa consistia em não falar de despedimentos.
Acho mal. A crise no mercado de trabalho surge, de repente, falseada. Se há lugares possíveis de preencher nas bibliotecas municipais ou nas do Estado já devia ter-se aberto concursos de preenchimento desses lugares, entre os milhares de desempregados, muitos dos quais com currículo mais que suficiente e que nem sequer estão incapacitados de exercer a sua profissão.
Não se trata de ter ou não ter respeito pelas pessoas, neste caso, pelos trabalhadores. O direito ao trabalho disponível é para todos os desempregados.
Nos três milhares de professores a empandeirar, alguma da incapacidade resulta da recusa em mudar de local de residência ou outras distorções profissionais, mas seja pelo que for a incapacidade de preencher o seu posto de trabalho não lhes dá, a eles, nem à senhora ministra, o direito a usurpar outros postos de trabalho.
É claro que o desvio de docentes deve abrir espaço para novos professores, mas uma coisa não invalida a outra. O preenchimento de vagas, se for caso disso, será por concurso, naturalmente. Mas, minha boa gente, não há concurso para despedimentos. Há que ter algum respeito. Já basta quando alguns artistas da cor entram pela porta do cavalo. O governo deve guardar alguma contenção, mas ser pragmático: quem não pode ou quem não quer o posto de trabalho deve ser dispensado, com o devido respeito. Mas as vagas não podem nem devem ser para alguns.
E por falar em professores, porque não falar de ensino. Não por economia, mas por estímulo. Porque não convidar vultos para lições a vários níveis via TV codificada. A melhoria de técnica de ensino e o sumo de lição podia ser assim, creio eu, valorizados. Não com o intuito de substituir para poupar, mas de enriquecer o ensino, introduzindo alguns pós de qualidade extra.
Porque também este é um ângulo de preocupação: a qualidade. Fico-me por aqui. Tenho que estudar, mas volta não volta oiço o prof. na Televisão. Se aprendi alguma coisa de filha de putice foi a ouvi-lo...

Alívio

É a sensação deste 10 de Junho - que até me basta para não ter que analisar as condecorações do Presidente da República. Já não há ninguém de méritos comprovados para que o povo distinga? Então acabem-se com as condecorações... Tenhamos algum respeito pelos palhaços.

O alívio - com o já entenderam - não tem nada a ver com isso ( medalhas são medalhas e já não valem nada no prego, oxidam muito rapidamente). Tem a ver com a resposta aos inúmeros e-mails que eu e, muito provavelmente toda a gente, recebemos, pedindo bandeiras negras nas janelas.

Não respondi a nenhum deles, mas fiquei à espera. Afinal, nada aconteceu. Estes protestos, mobilizados não se sabe bem de onde, não resultam. Felizmente que a extrema direita, aliada à direita populista ainda não tem terreno para este tipo de acções. Mas, cuidado, a Europa está à beira do abismo. Com lideranças tipo Barroso, Chirac, Blair, Schroeder... não vamos conseguir resistir à pressão neo-liberal ( a rondar o fascismo) dos EUA e ao canto da sereia chinês, sem respeito por qualquer tipo de regras que considere a pessoa humana como a coisa mais importante da política.

Aos portugueses não ficaria nada mal ficarem mais atentos. Os portugueses e já agora o Presidente da República, que parece ter perdido o Norte. Ele já não sabe que o conflito Leste-Oeste nunca existiu, bem como o diálogo Norte-Sul. É o contrário, sr. presidente! E as condecorações servem também para dar sinais...

sexta-feira, junho 10, 2005

SALOIADAS

Que um homem tivesse esposa e filhos era tão natural como ser solteiro, antes de casar. Com o desenrolar do tempo cada vez mais é tão natural ser solteiro, com mulher e filhos, como ser casado uma porção de vezes e ser pai de filhos de outros. Simplifiquemos: qualquer um pode ser o que lhe apeteça. Nem sempre foi assim. Tempos houve que uma criança podia nascer já condenada a um BI monstruoso: filho (a) ilegítimo (a). Ainda conheci um caso em que o bebé foi rotulado como filho de mãe incógnita, apesar de ter nascido numa maternidade pública. Ainda podia haver alternativa nos casos fora do casamento em que o pai, casado, anuisse perfilhar a criança, mas para tal era indispensável a concordância da esposa atraiçoada. Com paciência e alguns anos de de intervalo, conseguia-se. Mas a inversa, ser a perversa adúltera a ter a criança, que não do marido, era muito mais complicado. Basta lembrar que os tribunais (e os juizes) reconheciam o direito à honra. Não foram poucos os maridos que lavaram a honra conspurcada a tiro ou à machadada, conforme a época e arcaram com uma sentença de desterro de 30 ou 40 quilómetros.
Há de resto um caso interessante sobre esta matéria justamente sobre uma herdeira do Diário de Notícias, que teve um devaneio sentimental. O marido, com ajuda de médicos puritanos, tentou interná-la como doida, e inibida do uso dos seus bens. De facto usurpou-lhe a propriedade do Jornal.
Hoje o mesmo matutino critica um candidato à Câmara de Lisboa por exibir a esposa e o rebento do casal. Não terá uma coisa a ver com a outra. Os casamentos não são hoje o que foram no passado. Quando referi o Diário de Notícias, não foi a propósito da apresentação pública do candidato, noticiada como um episódio das próximas eleições autárquicas, mas do editorial do jornal. Nem sei que dizer. Talvez inverter os factores. Então, seria assim. Os editoriais já não são o que eram. Dantes os editorialistas sabiam o que deviam saber. Usavam pesos e medidas e escreviam sobre assuntos sérios, criticavam asperamente, mas com elegância. Liam-se com prazer. Podia-se discordar, mas apreciava-se o estilo e a cultura.Quando os ardinas gritavam:
«Fala o Rocha...fala o Rocha» eu comprava o jornal. Continuei a comprar quando ouvia, depois, apregoar «Vem à Cunha...Vem à Cunha», às vezes quase às 7 da tarde.
Não é lá por Carrilho ter dado uma de David Beckham que se tem editorial. Também acho que o homem de cultura que Carrilho sempre se quis afirmar não se compadece com cenas saloias, por mais interessante que possa ser a senhora sua esposa, também ela muito apegada a cultos e a culturas. Mas daí a espaço nobre no matutino vai alguma distância. A mesma, no fim de contas, que vai desde os primórdios ao presente: um percurso quase sempre a descer...

quinta-feira, junho 09, 2005

Por Favor!!!

Essa gente da Lusomundo, da não sei quantos Global, da Multimédia, ou da PT mão consegue entender-se com o F. Balsemão - já que pagam, que paguem!!! - e retirar aquele fantasma do Luís Delgado dos comentários políticos da SIC Notícias? Francamente! Acho que vou retirar o canal 5 do meu "zaping". Assim não corro o risco de o ver e ouvir de novo. Que raio!!! É preciso algum decoro - diria mesmo: é preciso vergonha!. Deixem lá o homem com o BMW, série 5, e o apartamento de luxo no condomínio de Alcântara, mas proibam-no de aparecer em público a comentar a política - seja ela qual fôr: nacional, internacional, autarquica, desportiva ou mesmo da Junta de Freguesia a que pertence. Por favor!!!

É A FALAR ...

...Que a gente se entende. Não sou muito adepto dos silêncios estratégicos. O governo inglês adiou, não fosse o Diabo tecê-las. Em boa verdade já tinha tecido: França e Holanda optaram por um rotundo não. Durão Barroso foi falando sem dizer nada. Sócrates não sabia o que dizer. Não havia estratégia no governo, havia silêncio falado, do género esperar para ver. Freitas do Amaral, esse, sim, falou e traduziu a decisão do governo de Londres com um expressivo "o tratado da constituição europeia não é viável".
Provavelmente não é e provavelmente não vai haver outro referendo sobre o tratado, tal como está.
A reunião na Assembleia da República dos líderes parlamentares evidenciou que não era tão determinada como se afirmava no PS e no PSD a decisão de manter a consulta ao povo português. Optou-se por uma pausa. Não é,pois, um silêncio, é uma gritaria. É natural que o titular da pasta das Necessidades exprima opinião sobre matérias do seu pelouro. Se apenas se limitasse a transmitir o recado do primeiro-ministro não precisaria de ser ministro, qualquer um Fernando Gomes servia. Eles servem para tanta coisa...
Em todo o caso, António Vitorino veio a terreiro explicar o que é que os ministros devem e não devem fazer, e não devem expor posições pessoais que causem ruido. Foi a opinião dele, diria depois Freitas do Amaral, o qual ainda foi a tempo para relançar a nova moda no política portuguesa: a tempestade num copo de água...

terça-feira, junho 07, 2005

METER ÁGUA

O governo anunciou que a água vai ficar mais cara, coisa de nada e o que é importante nem é o consumo, mas a reserva e a qualidade. Para que se cuide melhor da reserva e se sirva qualidade tem que se tomar medidas.Quem se der ao incómodo de ler o recibo da água há-de verificar a porção de taxas e sobretaxas, além da água propriamente dita, que tem de pagar por um líquido que, à cautela, nem deve beber.
Mas nem é pelo preço, nem é pelo aumento que manifesto algum desagrado, mas pelo desinteresse que os poderes públicos têm revelado ao longo dos anos pelos atentados aos veios de água, que alimentam os poços rurais, rios e ribeiros do país. Todos os responsáveis pelos institutos, pelos municípios pelos sucessivos governo sabem o que se passa pelas pecuárias, como são feitas descargas criminosas. O ar incomodado de alguns personagens a tentar fazer crer que vai ser instaurado um inquérito. O caso dormita até ao próximo incidente do género. São praticamente todos ou quase todos os porqueiros ou similares. Os raros que não são ficam mal vistos na fotografia e passam por parvos. E o Estado sabe. E sabe quais são e quantos são, e onde moram. Mas quase sempre faz por esquecer.
É duro que seja o cidadão que tem em casa o contador de consumo de água a pagar a crise e a pagar as águas, quer a trabalhar que esteja no desemprego, enquanto o explorador de suinos opta pela multa em caso de, e são muitos poucos, no fim de contas, os casos de...
Se este governo e este primeiro-ministro quiserem ser coerentes com a preocupação pelos cuidados da manutenção da qualidade da água deveriam ter começado por impor regras à laboração de pecuárias ou qualquer outro tipo de industrias poluidoras. A multa não é uma punição; a multa legitima a infracção. Este é um género de negócio que não pode ser tolerado.
Muita de responsabilidade cabe aos municípios, sempre prontos a olhar para o lado, mas os orgãos do Estado conhecem a situação. Querem fazer crer que existe outra crise de momento para enfrentar e cada dia que passa agrava-se o índice de poluição.
Salvar rios e proteger o ambiente não é só um dever é também investimento. Um rio de cara lavada também pode gerar receitas e pode restituir o respeito pela Natureza e alguma simpatia acrescida pelos agentes do Estado.

segunda-feira, junho 06, 2005

EM BUSCA DA SABEDORIA PERDIDA

Quando fiz a tropa, era Angola antes dos idos de um Março qualquer, um dos prazeres que raro voltei a ter era o de falar com os cabelos brandos dos velhos. Aliás realmente velhos porque o cabelo de negro é resistente ao encanecer.
Era então o falar com a sabedoria.
Falavam pausado, deixando a inteligência descansar por sobre os intervalos da lentidão, e só depois diziam.
O quê?
Ora, diziam o que dizem os sábios. No caso, sèculos de Angola.
Diferentemente do que dizem os velhos da Europa, que falam à velocidade dos novos europeus as mesmas banalidades que eles.
Mas com surpresas em todas as idades.
Entretanto um pescador em Sines
Um dia de tarde entrei numa taberna de Sines. Ia dar de beber à sede. E numa taberna por gosto do bom vinho de barril, que já não se vende, e de ouvir a sinceridade dos copos, que cada vez se usa menos. Até os bêbados falam o falso português dos jornais e das telefonias, quer-se dizer, falso de bem comportado e sem caixa de velocidades. Com excepções, evidentissimamente.
Três pescadores tinham-se-me antecipado nos copos e estavam em guerra vínica com o governo, um desses do costume que andava em guerra contra eles. O problema era de marisco e de proibições.
Então um deles, quando me percebeu interessado, deu uma lição marisqueira, com explicações de nascimento e procriações, da razoabilidade científica de certas leis e do amadorismo óbvio de outras, após o que transitou para a análise do reflexo económico da atitude governamental com contabilização de ganhos. E perdas, que eram para todos, país e pescadores. Disse.
Foi como ouvir uma sinfonia, um homem de camisa grossa aos quadrados e penso-o descalço, mas já não sei. O que sei é que gostava de ouvir a mesma sonoridade em Sócrates. No que temos.
E a lembrança de Chiesso
Ao ouvi-lo, a esse pescador-talvez-descalço, o vinho trouxe-me o Chiesso à memória.
Não era sèculo. Apenas um negro qualquer arrebanhado para a tropa e que calhou no "meu" pelotão. Já era fora de idade, um recruta com entre 30/40 anos. Acontecia. Era tudo feito a olho. Mediam-se os mancebos pelo pêlo púbico, e se o moço fosse felpudo, tivesse ou não tivesse idade, ia malhar com os ossos na tropa. Ou, de contrário, se fosse escasso de pêlo, tivesse ou não ultrapassado a idade, assentava praça.
Ora Chiesso não devia ser de abundante pilosidade. E no meio da moçada sentia-se deslocado. Ajudei-o com muita simpatia, que ele retribuia passando os domingos a apanhar pássaros que me oferecia. Não convivia com a rapaziada, talvez da idade dos seus filhos.
E aconteceu num dia daqueles tempos de paz, a pax lusitana como lhe chamou Mesquita Lemos, em que eu distribuía tarefas, lhe disse que "nós, que somos amigos" vamos fazer qualauer coisa que se perdeu no tempo. Aí Chiesso formalizou-se e ponderou discordância a respeito da amizade. O que me espantou:
- Não és meu amigo, Chiesso?
- Amigos, quer dizer, amigos, bom eu gosto do meu aspirante, o meu aspirante talvez goste de mim, mas, amigos, o meu aspirante tem os seus amigos e eu tenho os meus amigos.
O mistério no meio daquela amizade está no entender como um analfabeto conseguiu estudar de Karl Marx o seu discurso sobre classes sociais...
Este diz que não mas é
Ao certo, ao certo é benfiquista. Quanto ao ser comunista diz que não mas parece que é. Pelo menos desanca "neles" (PS, PSD e CDS) de manhã à noite. Durão Barrosso e Paulo Portas eram "esses macacos que estão no governo", Sócrates "é um gajo do mais à direita que tem o PS" e andando por essa via (será suspeita?) mas com fio de raciocínio a mostrar escola. Apurada para quem é de poucas letras.
Há dias andava numa de pessimismo sem esperança. Aí temperei com os exemplos da Irlanda e da Finlândia que conseguiram, como países, situação confortável. Embora modestos de capacidades naturais.
E a sua resposta foi instantânea:
- Ah, mas isso foi com confiança nos governantes. E quem é que vai confiar nestes gajos?
A confiança
Portugal é um país que vive asfixiado entre o discurso capcioso de juristas e o discurso contabilístico dos economistas. E, pelos indícios, tudo gente que acabou os cursos já doutores. Provavelmente ninguém lhes ensinou que a Universidade confere aos seus alunos apenas os ensinamentos necessários ao estudo. Não faz sábios. Os sábios fazem-se a si, estudando depois de sairem da escola.
Precisamente aquilo que os nossos ministros (eu excluo da maralha Maria de Lourdes Pintasilgo, António Guterres e assim; talvez outros engenheiros que se tivessem dado ao trabalho de perder, aliás ganhar tempo lendo e meditando sobre os problemas sociais) dizia então que os nossos ministros e deputados, a generalidade deles concerteza, deixou os bancos da faculdade já doutores. E pronto, sentiram-se aptos para doutorar na coisa política.
Daí que nenhum deles, até hoje, se preocupou em perguntar-se o porquê desta bagunça que tem gerido os destinos do país. O meio-comunista-e-benfiquista-completo diz que é por falta de confiança nos governantes. E di-lo do rés-do-chão da sua instrução primária.
Será?
E,se for, qual o projecto? qual o método? qual o estudo? qual o plano apresentado ao país para chamar os portugueses à confiança?
Mas pode ser que não seja. Porquê?
Poucos meses depois das últimas legislativas, Sócrates foi tão explícito quanto ao processo de captar a confiança da nação que já tinha esbanjado, com a salgalhada das pensões juntadas aos vencimentos ministeriais, o capital de confiança que o levara ao poder.
E Marques Mendes, o periquito falante, anda a exigir reformas da Administração Pública já! - em demonstração cabal de não fazer a mínima ideia da complexidade do problema, dos meses que se vão gastar a estudar a matéria, as perguntas de investigação, o que fazer o o como fazer. Talvez nunca tenha trabalhado na função pública nem na função privada. Estudou para doutor e para ministro. Saiu feito da máquina, como as salsichas.
Talvez então mandando esta gente repetir a instrução primária.
Não tanto? Os preparatórios? Então fica assim, preparatórios.

domingo, junho 05, 2005

ENTRE O SIM E O NÃO

Cabe sempre um talvez. E talvez tenha sido por isso que fugi da crónica sobre os nãos e os muitos ses que ela suscita. Pessoalmente sou um europeu do tipo saloio. Conheço melhor a Malveira (e já não passo por lá há uma vintena ou mais de anos) do que a Inglaterra toda. Passei umas horas em Londres, andei de metro e de maximbombo. Jantei um steak com batatas fritas (juro), coisa que nunca como em Lisboa. Das restantes vezes foi só escala nos aeroportos. E por via dos aeroportos londrinos conheço um bom pedaço da Austrália, que não vem para aqui chamada, como as ilhas da Nova Caledónia, da minha viagem de núpcias, aos 65 anos, quando me reformei, tal e qual, sem subsídios extras ou comprometedores.
Bom,que mais? Ah! Sim, pois, a Espanha, isso sim, desde o tempo da peseta barata e do meu primeiro «metro». A França, claro; a Itália menos, mas o suficiente. Da Alemanha um pedaço de Munique, onde fui com um colega buscar o BMW dele, que nos facultou um imenso regresso
a Lisboa, onde estava de passagem, habitava em Luanda.
Bom, esqueceu-me de mencionar o Luxemburso, mas não tem importância. Passei por lá uma vez para apanhar um avião de regresso ao Jornal Novo. Estados Unidos e Brasil não fazem parte da crónica.
Sei pouco da Europa sim ou da Europa não. Nunca fui à Holanda, e gostava de ter ido. Aprendi a gostar dos holandeses, quando estava em Angola e soube das «Minas malucas» por uma revista sueca. Mais tarde um poeta havia de fascinar-me a contar a experiência dele na Holanda, um paraíso de liberdade. Tudo isso já bem na gaveta da História, mas influencia o meu apego pelo país que não conheço.
A história das «minas» data do fim de guerra na Europa. Até então a Holanda era sociedade recatada. Durante a guerra a escassez de mão de obra (praticamente só os homens trabalhavam) levou as fábricas e outros armazéns a abrir as portas às mulheres. Nas principais cidades costeiras mudou a paisagem e iam mudar os hábitos.
Os cafés, as tascas das zonas fabris não tinham sido equipados como lojas mistas. Até então os clientes eram homens e, de repente as mulheres passaram a dividir o consumo. Queriam sentar-se em grupo e discutir modas e sindicalices, que também começava a estar de moda. As tascas não dispunham de sanitários para senhoras. As pequenas não foram de modas e deram volta ao assunto. Ocuparam quase todos os tascos da área; duas ou três ficavam sentadas em cadeiras às portas da «cazinha», a tricotar. Estenderam umas cortinas de rendas por sobre as portas e impediam a entrada a machos. Que festa que seria para as televisões de hoje!
Mas elas ganharam, como hoje em dia se pode verificar, em qualquer momento de aperto!
Outro triunfo do movimento feminista foi contra o excessivo recato. A Rainha de então alimentava um puritanismo rígido. No dia nacional, festejado com um cortejo tradicional, as «minas malucas» integraram-se em grupo no cortejo, carregando um enorme símbolo fálico...
Anos mais tarde, quando o poeta me falou da sua estadia holandesa, a Holanda já era outra e surpreendeu o próprio poeta. Puritanismo nem vê-lo e não fora ele poeta e certamente teria criticado alguns excessos de arroubo.
Hoje, quando é preciso, votam não e não acreditam que seja uma tragédia.

ANTES QUE CASES

Já não é novidade: a França disse não; a Holando gritou não. O sr. Raffarin saiu e entrou outro, mais alto. Chirac é o mesmo, paciência. Hollande afastou Fabius da direcção do PS. Não chegam grandes rumores da Holanda. O estardalhaço é aqui. Um súbito medo do escuro.
O sr. Jorge Miranda defende o adiamento. Adiar, que se saiba, não é solução. Que interessa ou justifica um referendo que só admite uma resposta. Um não como o que cresceu pela Europa
tem a virtude de ensinar os que julgam que sabem tudo. E nem vale a pena explicar agora, muito bem explicadinho, que o não foi por isto e aquilo. Não interessa, por mais análises e teses o efeito é o mesmo. Não é exactamente o contrário de SIM. Uma vez uma vizinha disse-me que não. O que é que eu podia fazer? Ora! Ir à procura de outra que dissesse que sim...

sábado, junho 04, 2005

"Um Lugar Ao Sul"

É um programa de Rádio transmitido na Antena 1 da RDP que os burocratas atiraram para as sete horas da manhã de Sábado.
Tempos houve em que a Rádio era um meio de comunicação nobre, dirigido por gente íntegra e de cultura e que percebia o essencial de um instrumento tão poderoso. Nesses tempos, jornalistas, ou radialistas, como o Rafael Correia, eram considerados num plano de prestígio que nos garantia a salvaguarda dos valores culturais que nos diferenciam no Mundo.
Com a chamada massificação ou globalização, ou lá o que é, passamos o dia ( quando há paciência para isso) a ouvir disparates, conversas ocas de sentido, intercaladas do anúncio das previsões meteorológicas e das horas que vão correndo, além de música que pouco tem a ver connosco, sem nada que nos possa recolocar no nosso espaço, aproximar-nos uns dos outros.
Rafael Correia, todas as semanas nos mostra o caminho de um lugar ao Sul, mas a horas que pouca gente ouve - o que indica, seguramente, a predisposição das gentes que agora dirigem a principal estação de Rádio de Portugal de o atirar tão para Sul, tão para Sul que vai saltar das antenas, já sem espaço e sem voz para nos mostrar a nossa gente.
Hoje lá consegui estar acordado para o ouvir. Espero que muito mais gente tenha tido uma "espertina".
Ora então, muito bom dia, Rafael Correia. Oxalá alguma coisa mude a sério neste país.

A Verdade da Imprensa

Um dia destes, desta semana, passou a correr num daqueles oráculos que todas as televisões usam para mostrar de fugida as notícias importantes, enquanto vão falando e mostrando o sangue da estrada e as caras disfarçadas dos pedófilos e das alegadas vítimas e a história de mais uma velhinha simpática, mas que já não fala nem ouve... um dia destes, num daqueles oráculos, fugiu a notícia segundo a qual o New York Times tinha mandado fazer uma sondagem para seu próprio consumo.
E que resultados obteve nesta sondagem? Que a maior parte dos leitores não acredita em nada do que os seus redactores escrevem.
Esta conclusão - terrível para quem edita um jornal - levou a respectiva direcção a lançar uma reestruturação profunda no modo de fazer jornalismo: por exemplo, acabar com as fontes anónimas, contraditar as fontes oficiais, abrir linhas directas para os leitores e outras medidas.
Será que algum jornal português tem estrutura mental para, honestamente, fazer a mesma sondagem e actuar em conformidade com os resultados obtidos?
Tenho a certeza que não. Nenhum deles ligou a mínima a este processo americano. De resto, da América, só lhes interessam os discursos inteligentes de George Bush.

Os Nãos Europeus

Não deixa de ser interessante verificar as reacções portuguesas aos "nãos" dos outros, neste caso, o não dos franceses e dos holandeses à proposta de um novo tratado de constituição europeia.
Um tratado para substituir um outro, o de Nice, que entrou em vigor em Janeiro de 2005, concebido para albergar a turba de europeus do Centro e do Leste.
Para uns quantos portugueses ilustres, o não francês podia ser uma catástrofe, para outros, igualmente ilustres, com direito a tempo de antena e a escritos nos jornais, foi o produto da ignorância e da falta de informação, representou, não uma resposta à proposta da constituição europeia, mas uma vontade incontrolável de deitar abaixo o governo.
As versões da análise sobre o não holandês são um pouco diferentes, mas vão ter sempre à falta de consciência e de informação.
Claro que também os dinamarqueses - que se preparam para dizer não - vão ser rotulados de mal-informados, ignorantes e outras coisas piores.
Bons, bons, mesmo vão ser os portugueses. Nós sim, estamos perfeitamente informados e, como, ao contrário dos franceses, não atravessamos nenhuma crise de identidade, vamos votar "SIM". Como a Espanha também já disse sim, em referendo, e uma série de outros países também já aprovaram o novo tratado nos respectivos parlamentos, sempre temos a possibilidade de juntar umas quantas bandeiras e ir fazer uma outra Europa, ali mesmo ao lado, para ficarmos a apreciar o inferno dos não informados, dos ignorantes, com profundas crises de identidade.
O que custa mesmo nisto tudo é verificar a incapacidade de reacção dos líderes políticos a um resultado que se adivinhava. Durão Barroso fez declarações absolutamente idiotas, do tipo, "faço um apelo à reflexão, à calma ..." e coisas quejandas.
Em Portugal, o meio metro veio logo dizer que não realizar o referendo era sujeitar o heróico povo português à humilhação de não sei o quê.
E ninguém conseguiu explicar por que razão povos como os de França e da Holanda votaram "NÃO".
Ora, como não aparece ninguém a explicar nada, é bom que se olhe para algumas outras reacções: em Itália, apareceu logo um ministro a dizer que o melhor será fazer circular, de novo, a lira, ao mesmo tempo que o euro.
O mesmo acontecerá brevemente noutros estados europeus, provavelmente mesmo em Portugal. Tal seria bom para os políticos que gostariam de voltar a ter nas políticas cambiais um instrumento de política económica.
Enfim... estão para acontecer algumas coisas interessantes e nós, por cá, continuamos a olhar-nos como os mais inteligentes, os mais sábios, os mais bonitos. Por isso bem merecemos uma Europa só para nós. Em Outubro ela vai cair-nos no sapatinho. Afinal, Natal não é quando um homem quer?

quinta-feira, junho 02, 2005

A CRISE E O ACESSÓRIO

Recebi uma mukanda interessante a dar-me conta de que, afinal, o senhor Banco de Portugal/Constâncio é um instrumento do primeiro-ministro. Com a autoridade que lhe advém do cargo deve advertir, alertar e precaver o Governo e/ou a Assembleia da República. Dá o mote e o governo que estiver no poleiro está justificado para impor medidas drásticas. Foi o que aconteceu com Barroso e, depois, com Santana. E, agora, de forma mais sumarenta. O governador do BP tem cumprido com zelo o compromisso de ser a todo o instante, como cantava a senhora do fado, sentinela vigilante da honra do marido dela e, neste caso, da nação, o que, de algum modo, também se deve aceitar como natural, considerando a remuneração que aufere pela colaboração que presta aos senhores primeiros ministros e colaboradores afins. Ao pé do senhor Victor, o que Fernando Gomes vai auferir parece remuneração de marçano.
De facto, considerando o volume da crise, anunciada por gente abastada, poderia sugerir-se começar por aí a poupança, remunerando um pouco menos alguns cargos principescos e que por via disso se tornam suspeitos de colaboracionismo excessivo.
Mas em vez de meditar nas formas de governar a crise, o que preocupa os agentes políticos ditos de oposição é o convite formulado pela RTP a António Vitorino de comentar, provavelmente os comentários dos outros, ou os acontecimentos em versão pessoal. Pode entender-se que pelo facto de se ser próximo de um partido se seja proíbido de emitir opinião?
Tanto quanto me lembro, Marcelo Rebelo de Sousa ainda era afilhado do padrinho e já botava opinião no Expresso e quando calhou ser colega de governo do seu ex-director, telefonava imenso a dar informações estratégicas, com comentários a condizer, a uns quantos fulanos da comunicação social, mais ou menos conotados com a posição democrática do governo tripartido.
Deve ser mais agradável e salutar escutar essa alta personalidade do PS, que é António Vitorino, do que gramar os pontos de vista do ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. O ex-de Gondomar teria mais graça, sobretudo se fosse para debater assuntos sérios ou de arbitragem!
Não, meus senhores, já basta de censuras e de censores, sobretudos destes. Deixem falar quem
tiver audiência e é isso que interessa aos canais de TV e às respectivas audiências. Qualquer de nós dispõe do único instrumento de censura legítimo: o comando da TV.
Tal como os políticos estão de moda e a ser contratados pelos canais de TV, tempos houve em que eram os profissionais da Televisão os escolhidos para acessorar os poderosos dos governos ou mesmo para engrossar as listas eleitorais. Lembro-me de uma colega que tanto lhe fazia ser acessora de Maria de Lurdes Pintasilgo, como de Proença de Carvalho e que não tinha dificuldade em deputar na Assembleia e actuar na Televisão. No fim de contas a vida é um espectáculo e muitas vezes nem se dá pelas figuras que se fazem...

quarta-feira, junho 01, 2005

OS TEMPOS MUDAM

E nós mudamos com eles. Não sei. Vi que desde ontem a cidade fechou, perdão, perdão, mudou, lá ia eu plagiando o heterónimo dele. Aconteceu-me vir a Lisboa e, de repente, vejo duas esquinas, a primeira na Paiva Couceiro, onde, do outro lado da Morais Soares, um banco que estava lá, já não estava. Desço a calçada; no Chile rumo à esquerda, Almirante Reis abaixo, como se fosse para a Portugália. E de repente outra esquina sem banco. Sem o banco que lá estava.
A quantidade de cafés que eu perdi em Lisboa, tornados bancos. Agora parece ser a vez da banca se reduzir. Só que não aparecem cafés.
O que eu não daria para reaver o Royal, com a esplanada, no Cais do Sodré, à esquina com a rua do Alecrim. Já nem sei andar em Lisboa, já nem sei às quantas ando.
Um pretexto para tomar café. Da tv no alto saiu um som estranho vil pão. Não era, claro, nada contra o paposseco, foi o Chirac a mudar de primeiro-ministro. O melhor é telefonar para lá saber o que é isto. Não é preciso um dicionário para dizer alô em francês. Villepin é um artista com história. Era primeiro-ministro, com maioria. Dissolveu-se a Assembleia, novas eleições e lá se foi a maioiria. Não parece o caso dos bancos, que tão depressa são bancos, como passam a lojas de fancaria!
Não esqueçam que o primeiro não é o que custa mais. Amanhã é a vez dos holandeses expressar a sua imensa vontade de não dizer sim.
Pois, sim, pois, sim, e que será de nós, que somos mais vocacionados para dizer talvez?
Talvez já nem haja Europa, nem Durão.
Quando chegar a altura dos saldos, Bush compra a metade de cima e dará a parte de baixo aos pobrezinhos. Eu farei como os cafés do Rossio: vendo-me ao primeiro que passar...
Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

segunda-feira, maio 30, 2005

Sansão Social

O Ministro das Finanças anunciou na Televisão uma intenção altamente meritória, por parte do Estado: publicitar as empresas que devem dinheiro ao fisco. Para melhor completar a ideia de sanção fiscal que lhe está subjacente, talvez não fosse mal pensado publicitar igualmente as dívidas que o Estado tem para com as empresas. E já não falo das grandes, refiro-me apenas às PME's, algumas das quais vão à falência por causa do despudor com que o Estado não lhes paga as dívidas, durante anos e anos. Ora aí está: o Estado a exibir-se como "pessoa de bem".

Carta

Chega carta de uma amiga( carta...imagine-se!!!). Triste comigo. Que perdi a esperança, o humor, que "distribuo chapada a torto e direito..."

A carta da minha amiga faz-me pensar: é verdade que tenho o mesmo desembaraço na escrita, mas já não são as mesmas palavras que me rodeiam. Algumas sumiram-se de todo e outras, quando reaparecem, é por pouco tempo; assim como flash de fotógrafo, quando muito relâmapago de trovoada, em noite de Deus zangado - sem saber muito bem para que fez o Mundo:se para se comprazer e deliciar-se com a obra ou ficar todos os dias, a cada hora, em cada minuto, no tempo que ele próprio inventou, a cuidar das criaturas com que o povoou.

Enfim...desatinos.

Desatinos de fim de semana de quem tem alguma dificuldade em perceber os caminhos propostos: escola de Salazar, igreja de PioXII, guerra de Salazar, proposta de salvação de João XXIII, de Paulo VI; revolução de Abril, morte (assassinato?) de João Paulo I; democracia, corrupção a crescer como cogumelos - João Paulo II, George Bush, Guerra do Iraque, o Mundo a dividir-se; Bento XVI.

Para trás, " não faças a guerra, faz Amor", flores, a caminho de S. Francisco, os amigos mortos nas guerras que não eram do Salazar, nem dos Pios, ou dos João Paulo. Para trás fico eu e a minha amiga escandalizada (mas ainda doce, ainda amorosa) por não perceber a nova eficácia da minha escrita.

Minha amiga, as minhas palavras já não são eficazes. Já ninguém as percebe. Este já não é o tempo das palavras, mas a era dos dicionários.

domingo, maio 29, 2005

CÁ SE FAZEM...

E agora se pagam. Miguel Cadilhe não é esquecido e pagou a dívida ao primeiro-ministro, do seu tempo no governo. Como ministro das Finanças foi inventado por Cavaco Silva. A oposição viu-se aflita com ele. Era eficiente e pragmático. Razoavelmente jovem para ter sido visto na Lisboa nocturna e de ter absorvido uma popularidade que talvez incomodasse o austero inquilino da residência oficial, à Estrela. Sem contestação técnica ou política, o ministro das Finanças teve de ser atacado pelo seu desembaraço como cidadão, a vasculhar nos buracos das leis, para não pagar sisas, nas frequentes trocas de habitação; de utilizar os meios da GNR para as mudanças de residência, a que tinha direiro por ser ministro das Finanças, logo com sigilos a preservar. E foi mesmo o par do Independente, Esteves Cardoso e Paulo Portas a lixá-lo, ao transcrever um diálogo telefónico, que escutaram a Tomás Taveira, no seu, dele, escritório, em que tratava por tu um tal Miguel, que ia mudar-se para as torres das Amoreiras.
Recatado e puritano como só um antigo antecessor na residência oficial de primeiros ministros, Cavaco Silva achou excessivo e prescindiu abruptamente do homem do taco. Cadilhe não disfarçou uma certa amargura e quando lhe puseram a questão da solidariedade ele disse: "A solidariedade é como o chapéu de chuva: só damos pela sua falta, quando chove"...
Não sei se Cavaco estava ou não precavido, mas ficou a saber que, com chapéu ou sem ele, quem anda à chuva molha-se. Como economista ele sabe que o resultado é a soma dos factores. Mas a ordem destes é arbitrária...

MAIS POEIRA

No mesmo «DN», há momentos citado, vem hoje outro passado. O matutino da Liberdade (avenida da) anuncia 140 Anos de primeiras páginas. Para doirar a pílula (e com patrocínio banqueiro) acrescenta um poema diário, devidamente comentado. Quase século e meio vezes 365 dias, vai dar aí, sei lá, uma data incomensurável deles. Lido um por dia vai dar aso, pelo menos, a uma licenciatura a português arcaico.
Seja como for estou encantado. Finalmente aparece um transporte direitinho ao antigamente.
Estou fascinado por ir ler a reportagem do cinco de Outubro e dos dias subsequentes. Deve ter sido parecido do que eu vi a 27 de Abril, quando cheguei a Lisboa, de comboio, vindo de Luanda. Via Paris, primeiro e Madrid, de seguida. Não assisti à saída do sr. Américo, acompanhado com o padrinho do afilhado e o ministro do Interior, que era cheio e anafado. Vi-os no Funchal, no dia 2 de Maio, de cima de uns telhados, de onde foram fotografados.
Já sonho em levantar-me cedo no próximo 28 de Maio para saber, ao pormenor, como foi a festa, devidamente fotografada. Vou, talvez, ter acesso aos nomes dos malandros, tinham que ser malandros, porque todos os que perdem são malandros, são isto e aquilo. Afinal a História não os julgou. Acho mesmo que desde essa altura a História deixou de se ralar. Faz o mesmo que o Tribunal de Haia: deixa andar. Mais vai ser giro ler a comunicação ao povo. Saber novas da Concordata. Ver como se contou a partida dos nossos soldado para a guerra.
Aguardo com impaciência a descida até 34, aquando da atribuição do prémio literário do SNI.
Soube, por quebra dolosa do segredo de justiça, que um padre vai arrecadar o primeiro lugar com uma Romaria e deixar A Mensagem, uma espécie de Lusíadas, corrigido e aumentado, elaborado por pessoa, praticamente anónima, na sombra. E assim foi. Não conheço ninguém que tenha lido a Romaria. Quando conheci Reis Ventura, em Luanda, ele já não era padre, mas tinha a mesma configuração, escrevia um folhetim sobre a guerra para um jornal de Luanda. Parecia
um personagem do Eça. Estava cheio de certezas. Soube sempre quem foram os bons e os maus
e que foram os russos que nos lixaram.
E quero novas de Peyroteo. Dos golos dele, das vezes que me lixou a paciência. Hão-de me lembrar o Santa Maria, que foi, estou em crer, a primeira aventura do género, seguida pouco depois pelo desvio de um avião, que despejou prospectos sobre Lisboa. Mesmo sem choque tecnológico tempos houve em se inovou.

Ainda O Empresariado

No post abaixo (publicado anteriormente a este) poderão constatar um certo tipo de "veneno" dirigido aos empresários. Chamo-vos, agora, a atenção para outro tipo de empresário. O"chico esperto", que, por uns cunhas metidas a um amigo do partido ou da câmara, ou mesmo de um deputado conhecido no elefante branco, ou coisa assim, conseguiu ter acesso a uns financiamentos da UE.

O que é que ele fez (é regra geral, sobretudo se se trata de empresários ligados aos texteis das chamadas zonas deprimidas economicamente) ?

Arranjou uns armazéns, comprou umas máquinas, contratou umas trabalhadoras, pô-las a costurar uns modelos que alguém com habilidade desenhou e a quem pagou, com dificuldade, uns tostões e, com mais umas cunhas, uns copos bebidos com pessoas ilustres, umas mãos untadas e mais uns tantos truques, conseguiu começar a vender os tais texteis para as grandes marcas europeias.

"É uma questão de etiqueta", malandro, dizem eles uns as outros.

Só que - mais uma vez - Portugal ficou para trás. Porque, de facto, é uma questão de marcas. Toda a gente - e não apenas os jovens - adoram exibir a etiqueta das roupas que vestem. A qualidade dos produtos pouco importa, porque é para usar por seis meses - no máximo - percebem, seus bimbos?

E agora que a China coloca na Europa tudo o que a Europa veste a preço de mercado chinês, explorando ao preço de uma malga de arroz para dez trabalhadores um povo que há muito extravasa o continente em que vive, o que é que fica para os europeus?

As marcas, seus bimbos!

E onde é que estão as marcas portuguesas? Onde? em parte nenhuma. Não existem.

E o que é os políticos e os "jornalistas" portugueses discutem? O abstracto a que estão, evidentemente, subjacentes, os seus próprios negócios.

É o Marcelo (o afilhado, como diz aqui ao lado o Rafael) a manipular vergonhosamente o sorriso ( e sabe-se l á mais o quê) da Ana e são os dois compadres do Expresso da Meia Noite - o Ricardo Costa, cujos negócios com o Paulo Camacho e mais a SIC deveriam ser esclarecidos, e o Nicolau Santos, que também deveria prestar contas sobre aquele caderno de economia do jornal de que é sub-director.

Imaginem um programa de televisão de grande audiência que explicasse todos estes negócios... talvez os "chicos espertos" se transferissem para o audio-visual e desbancassem o "ti Chico Balsemão".

sábado, maio 28, 2005

Sacrifícios

Parece mesmo que o País, este país, precisa de conjugar o verbo sacrificar com o objectivo de assegurar a sua viabilidade como terra independente, capaz de decidir do seu futuro e deixar às gerações vindouras um nome honrado e uma pátria digna e não um sítio onde os seus naturais se sintam como que apátridas.

Só que a conjugação deve ser feita em todos os tempos e em todas as pessoas e não saltar algumas. O que mais se ouve é "eles devem sacrificar-se", sendo que os "eles" são sempre os mesmos - os que trabalham por conta de outrém e, por isso, não têm formas de escapar ao sacrifício. Para estes, o verbo já não é sacrifícar mas torturar.

Os outros, os que exigem sacrifícios e batem palmas logo que eles se anunciam, permanecem incólumes, a coberto de uma legislação feita para os servir, para lhes permitir o aproveitamento do extraordinário aumento de produtividade conseguido nos últimos anos.

São eles, igualmente, que não abrem mão das regalias que o Estado, através de sucessivos governos, lhes concedeu para reestruturar empresas, para se reapetrechar tecnicamente, sendo que alguns destes apoios foram desviados para compras sumptuosas de grandes carros e enormes vivendas...

Os empresários, cujos porta-vozes aparecem sempre a reclamar menos estado e mais apoios para as suas actividades, são incapazes de reconhecer o óbvio: se o sistema de segurança social está em dificuldades, se o estado está "gordo", sobretudo pelo peso das participações sociais, é porque os empresários reformaram, despediram; é porque os empresários não reorganizaram as suas empresas com o objectivo de as transformar em instrumentos de criação de riqueza para o todo nacional.

Os empresários reestruturam as empresas por forma a pagar menos salários e obter mais lucros e também com o objectivo de fugir o mais possível ao pagamento de impostos.

Veja-se o exemplo das empresas que foram privatizadas: o que é que aconteceu? O Estado passou a pagar-lhes os serviços integralmente, muitas vezes em condições desvantajosas se comparadas com os consumidores privados e passou a receber menos impostos, porque oe seus administradores entraram na dança da fuga aos impostos através das mais variadas manobras. Tudo com o intuito de - dizem eles - remunerar os accionistas.

Quais accionistas? Aqueles, que tendo capacidade económica para ter voz nas administrações, as obrigam a assinar contratos, a pagar empresas mais ou menos falidas e outras coisas piores.

Onde estão os sacrifícios desta gente que está sempre à espera de ter um governo favorável aos seus desígnios para obter mais lucros, mais regalias?

São eles - os grandes empresários - que exigem do Estado tudo e impoêm aos governos que governem em seu proveito. E, se um dia, as coisas derem para o torto, fazem o mesmo que as multinacionais: fogem, porque os seus capitais estão a coberto, protegidos pelo monstro da globalização capitalista.

POEIRA

Hoje nem precisei de nostalgia. Bastou-me uma bica e começar a ler o jornal. Lá vinha: «e a noite
inventou-se assim». Li um bocado atravessado e acho que estes de hoje descobriram que sair à noite começou a ser prática nos anos 80, até aí não era normal. Fala-se, bem entendido de Lisboa, duma Lisboa meio saloia e perdida no tempo. Não é inteiramente justo. Lisboa foi bem animada nos anos pós guerra, por exemplo, embora a guerra não tivesse afligido ou impedindo
os lisboetas de se divertir noite fora. Não era a movida, como era em Madrid, e hoje já não é, mas era animada. Os café comuns fechavam às duas da manhã, as cervejarias idem, idem, e as tascas começavam a fechar à meia-noite. Os teatros exibiam-se em duas sessões nocturnas e não lhes faltava público. A cidade estava repleta de cinemas. O parque Mayer era um bem animado centro de diversão, onde se cruzavam casais burgueses com libertinos. Nas instalações da Gulbenkian funcionou durante alguns anos a Feira Popular, que enchia de luz os olhos das famílias lisboetas. Ainda não havia «Metro», mas os eléctricos e autocarros circulavam sem levantar queixas.
Para o pessoal topo de gama também não faltavam cabarets com barulho de luzes e com mais ou menos requinte. Os mais discretos abalavam para os Estoris e por lá davam largas ao seu poder de sedução. Em Lisboa era o que não faltava: poder de sedução para todos os gostos e preços.
Também se ia ouvir o fado, aos retiros de Alfama, Mouraria e Bairro Alto. A ramboiada tinha por onde se estender!
A animação nocturna de grupos por afinidades, como os dos artistas plásticos, poetas, actores, também encontraram, nos finais de 50 as boites ruidosas, para onde se ia depois do café ( ler depois da meia-noite)! Um dos primeiros e um dos mais notáveis foi «A Mansarda», na D.PedroV, ao Príncipe Real. Era uma festa. Foi um espaço «roubado» à loja das tintas para telas e outros apetrechos de belas artes. Foi uma lufada na Lisboa estroina. E fez escola. Apareceria
depois, na Rua do Século, outra, que ainda lá mora. Também animada e cheia de jornalistas noite fora. Muito festejada foi também uma em Cascais. Bom, depois banalizou-se.
E, no Verão, com os festejos dos santos populares, os bairros enfeitados com arcos e balões,
as noites eram de festa. Não era ainda o tempo das bandas, mas havia um Clube de Jazz.
Que diabo aconteceu, que «matou» a cidade?
Primeiro que tudo a Economia. Os cafés a vender bicas a quinze tostões já não se safavam. E para isso tinha contribuido a chegada da Televisão. Primeiro como novidade e depois como hábito. A Banca foi adquirindo os café para filiar. Os cinemas e teatros cada vez menos visitados.
Lisboa começou a deitar-se cada vez mais cedo.
Por essa altura abalei para África. Que bom, que bom! Não havia Televisão...

quinta-feira, maio 26, 2005

Fim de Dia

Recordo o 25 de Maio. "Dia de África". Simbolicamente, ao que parece, uma amiga muito querida resolveu deixar-nos. Todos os anos me lembro da notícia a martelar-me a cabeça. Sempre me pergunto porquê no dia de África? Seria o anúncio do que está a acontecer com o "Continente do Futuro"?. Hoje, pela primeira vez, em 20 anos, falo disso publicamente. É a minha homenagem à "Cacula"
Fim de dia, em 2005: um amigo (daqueles a sério) telefona-me e diz-me que o BES explica no Diário de Notícias, em duas páginas, a sua posição sobre a situação da Companhia das Lezírias.
Já depois das sete da noite - para aí uns cinco minutos - desço à rua, em Lisboa, à procura de uma tabacaria onde possa comprar o jornal, depois de verificar que na edição electrónica do jornal não estava a tal explicação.
Os pequenos comerciantes queixam-se todos da vida , que está má e mais que isto e mais que aquilo, mas numa zona da capital, com uma vida particularmente intensa à hora do jantar e posteriores, as tabacarias fecham às 19 horas. Direitos - dizem. Então , mas no comércio não se devem procurar os clientes ?. Enfim... lá subo para casa a pensar nas informações do meu amigo: o BES afirma não querer nada comprar a Companhia das Lezírias às fatias, que tudo aquilo era deles antes do 25 de Abril, que nunca foram ressarcidos, etc., etc.
O meu amigo também não deixou de me fazer notar que todos os governos têm - sempre - um ou dois, ou mesmo mais - ministros que vêm do Grupo BES.
Continuo a pensar: se a companhia das Lezírias era deles e não lha pagaram, foram muito bem pagos por outras formas. Já são quase donos de tudo e não dão a cara para nada. A cobardia é a marca Salgado (BES) - mesmo hoje, com o anúncio das medidas de austeridade do governo PS.
Não vi nada que possa afectar o dr. Ricardo Salgado e seus pares - ou mesmos os seus lacaios, como Hortas e Costa e Cª..
No fundo, vai ficar tudo na mesma e o Ricardo Salgado ou um dos seus filhos vai, um dia destes, ficar dono de tudo. Espero que nessa altura pague impostos para sustentar a terra e as gentes. O melhor mesmo é entregarmos já tudo e fugir para Espanha, onde, segundo o dr. Catroga - que, de acordo com informações difundidas pela imprensa há uns anos, tem uma reforma de 3.000 contos e agora vai para a Televisão dizer que o Estado está "gordo"- se está muito bem.
Juntemo-nos a Olivença e apreciemos, do outro lado, o reinado dos Ricardos Salgados. Afinal, em Portugal - está provado - o problema são as pessoas, que não têm alternativas ao pagamento de impostos.
Seria interessante dar a todos os cidadãos a possibilidade de, voluntariamente, pagar os seus impostos, tal como se dá às empresas. Cada um de nós apresentava as suas contas de vida e, do que sobrasse, pagava o respectivo imposto. Tal como fazem as empresas, a coberto das quais vivem os Ricardos Salgados deste país

quarta-feira, maio 25, 2005

IDA E VOLTA

É uma seca pegar num jornal, nos dias que vão correndo. O défice esmaga ou, como disse o Fernando, primeiro estranha-se, depois entranha-se, quero dizer é uma chatice. Depois vem a repetição das lições de Marcelo (o afilhado), depois o défice e mais défice. É um problema. A dra. Fereira Leite está pasmada. O meu vizinho, que me espeitava o jornal por cima do ombro concluiu que se tivermos sorte estamos todos lixados. E como o Benfica já não ganha desde domingo ia ficando sem assunto, quando esbarrei, de repente, ao canto da página, muito,muito interior: Nikias vence prémio
de artes plásticas. Em boa verdade não o conheço pessoalmente, mas vi-o algumas vezes e espreitei ocasionalmente alguns dos seus quadros, para além do Painel na Brasileira,e faz parte das minhas recordações de Lisboa, pelos fins dos anos 50, quando os pintores passavam, obrigatoriamente por Paris, com bolsa da Gulbenkian ou sem ela, que calcorreavam Saint Germain e frequentavam a casa de Vieira da Silva. Era uma espécie de curriculo.
De súbito, lembrei-me de, uma noite, ter sido inesperadamente convidado, por Cesariny, para tomar um café. Descemos do Chiado para o Cais do Sodré. Um pouco antes,viramos à esquerda e entramos no bar.
Tomei o café e não tardei a perceber o motivo do convite:o poeta queria que eu visse Nikias no bar da rua do Ferregial. Na descida, pelo Alecrim, ele tinha feito algumas referências a pessoas que eram uma coisa em Paris e outra em Lisboa.Era disso que se tratava e ele quereria, pensei, que eu contasse noutro café o que tinha visto naquele bar.
De algum modo "cumpri" ao falar do convite a João Rodrigues e a Ernesto Sampaio. Rimos bastante e ainda rimos mais quando o Ernesto contou à Fernanda Alves, a maroteira, com a maldade refinada que só ele era capaz. A actriz não queria acreditar: «ou não!O Mário não fez isso»...
Voltei a ouvir novas do pintor (Skapinalis, Cesariny ainda não pintava para expor)outra noite, após um dia agitado de turbulência política, quando o noticiário da EN da meia-noite revelou que alguns dos manifestantes arruaceiros tinham sido presos(sem referir a Pide), com pormenores um tuda nada insidiosos. Era assim: fulano de tal, pedreiro,outro tal, marceneiro, outro ainda, servente, outro, sei lá, serralheiro, Nikias Skapinakis, pintor, e por aí fora. Nem sei,hoje, se a ideia era baixar o nível da contestação abaixo da burguesia, ou se uma habilidade de quem elaborou a notícia para chamar a atenção. Claro que não era vergonha nenhuma ser contestatário ou anti-fascista, pelo contrário, um atestado de qualificação e de coragem. E foi também, por essa altura, o fim dos carros da água a jorrar sobre manifs. Vieram depois os carros de tinta. Não só encharcavam as gentes como lhes estragavam o fato...
E por essa altura já havia mais que contestação.Em Goa esperava-se pelo fim. Uma noite, pela Rádio, aflita, porque não havia sinal de heroismo, dava-se conta da invasão. Este país ia mudar. Faltavam 15 anos.Sei bem. Vivi-os com intensidade.

segunda-feira, maio 23, 2005

ADIVINHA QUEM VEM JANTAR

O turvo olhar posto no lucro não é, em si, um defeito. Também não é certo que se possa apostar que seja uma ambição essencialmente virtuosa. A pretenção de negócio, sobretudo rentável, é naturalmente uma característica do sector privado, que aceita sem esforço que o dever social pertença ao Estado.Seja como for, não existe uma fronteira a separar os dois polos da sociedade. Não é interdito aos privados dar esmola aos pobrezinhos, nem ao Estado se proíbe a gestão de sectores de actividade rentáveis.
Nos últimos dias tem-se discutido muito sobre o direito do Grupo BES pretender fazer um complexo turístico em Benavente; mais recentemente é outro caso Casa Pia no horizonte, a pôr em causa a tutela.
Parece evidente que não é crime explorar novas áreas de turismo endinheirado, a questão que se levanta, de cada vez que o assunto vem à tona é a legitimidade do negócio, a maneira como foi evoluindo todo o estranho processo de alienação de bens do património do Estado, demasiado obscuro e muito nublado e que consiste mais ou menos num princípio: pague já, levante amanhã e, no entretanto, leve dois ministros de mata-bicho...
Ora bem: não é legítimo burlar o Estado, ainda que um dos burlões seja o próprio Estado, por interposto governo ou parte dos seus agentes, o que ocorre com excessiva frequência.
No «ataque» iminente à Casa Pia, por uma vez, o assunto chega à praça pública antes de consumada a alienação. Pelo menos, espero que sim.Mas receio que simplesmente fique adormecido, até uma próxima calmaria.
Em todo o caso o que ressalta destes casos é a pouca capacidade dos governos em aprender com os erros do passado ou a pouca vontade de evoluir e entender as novas tendências da Economia. Em vez de alienar bens do Estado, para agilizar défices,vão à luta, entrem no jogo, engrossem o mercado. O património da Casa Pia, como o do Ribatejo, praticamente não tem peso nos cofres do Estado, mas se passarem para a posse dos privados rapidamente se valorizam. Pois bem, o que impedirá um governo de acomodar-se às regras do mercado e extrair mais valias do património em beneficio do Estado e das suas instituições?

ADIVINHA QUEM;POIS (2)

A história do aeroporto para Lisboa só é parecida na forma: faz-se um novo, todo aperaltado e dá-se o velho para a construção civil e a diferença aparece em forma de fundo comunitário, a par disso e sem que se percebesse um partido haveria de ver as contas todas arrumadinhas. A vida está cara e só uma auto-estradazita não chega para tudo. Foi chão que deu uvas, os défices não são só para quem os merece. Mas, em si, a ideia de um segundo aeroporto para Lisboa não é errada. Mas um segundo, não só segundo no nome, no volume e na importância, embora se possa projectar numa perspectiva de poder alargar-se, no caso de.
A Portela oferece vantagens que não são de esbanjar. E tem alguns delicados inconvenientes, lá isso tem. Estes podiam ser atenuados se o aeroporto adormecesse ás nove da noite.O «segundo», na OTA, ficaria com o serviço nocturno.Nem será preciso o TGV do senhor Coelho. Qualquer trem de meia tijela fará o percurso em 15 minutos.
Quando começou a alastrar a confusão sobre a terceira ponte não direi no Tejo, mas sobre ele, na Grande Lisboa, o ministro da tutela desmentiu a construção de uma: a que ainda nem sequer tinha projecto, nem traçado, de Algés à Trafaria e que tanto poderia ser ponte como túnel, e provinha do ministro do anterior governo. As deste são mais viradas para o comboio chegar à capital do lado de lá do rio. Já existe, de resto, uma ponte ferroviária,não muito afastada da zona, creio que desactivada há muito. Mas está lá, existe. Poderia igualmente servir o plano, se o plano não for só para obras públicas reprodutivas.
Mas da maneira como as coisa evoluem, estou em crer que seja o quer for vai ser lá mais para diante, quando houver legislativas no horizonte.Permito-me sugerir um projecto menos ambicioso para o entretanto: um percurso pedonal até onde for possível...

Casa Pia e a "Gagá" de Serviço

Na Casa Pia, cuja importância no ensino em Portugal está a ser obnibulada pelo julgamento da pedofilia, estão a acontecer casos estranhos e seria, talvez, importante, que o actual ministro da tutela, dr. Vieira da Silva ( um homem à prova de qualquer juizo menos pesado) desse mais atenção a algumas vozes ( ainda poucas, porque o medo é muito) discordantes.

A questão é que existe um projecto de redifinição e não apenas de reestruturação da obra casapiana, apresentado por uma comissão presidida pelo engº. Roberto Carneiro, com muitos amigos e muitos filhos e com uma compreensível apetência por novas formas de recolha e distribuição de rendimentos.

O projecto consiste na transformação da Casa Pia numa Fundação de direito privado (quem fôr capaz que faça as contas ao património envolvido) e na redução do papel educativo dos diversos colégios que constituem a Casa Pia, retirando-lhe a mais importante função para que, afinal, foi criada: receber e educar crianças em estado de carência (seja ele qual fôr).

A verdade é que este projecto tem a oposição de grande parte dos grupos que, de uma forma ou de outra, têm ligações institucionais com a Casa Pia, quer se trate de sindicatos ou de associações de pais dos alunos, quer mesmo dos ex-alunos, que se constituem como um órgão de grande prestígio na vida daquele estabelecimento.

Todos eles têm tentado o diálogo com a sua actual provedora, a drª. Catalina Pestana. A todos ela responde de forma malcriada, "aos berros", dizendo-lhes que o que eles querem é lançar "fumo para cima do julgamento da pedofilia", assunto em que ela está particularmente interessada, já que não fala de outra coisa e não se preocupa com mais nada.

Na última reunião que a Associação de Pais da Casa Pia conseguiu fazer com ela, os seus membros foram insultados e invectivados com mimos como este : " eu estou velha, mas não estou gagá...então vocês julgavam que por ter mudado o governo eu ia sair? Vou estar aqui até eu querer..." E outras coisas do género.

E depois... há mais: nenhum órgão de comunicação social se atreve a agarrar neste assunto: uns porque o projecto da fundação interessa aos patrões e outros porque "Casa Pia só vende com pedofilia".

Haja alguma vergonha.

domingo, maio 22, 2005

OSSOS DUROS DE ROER

Mais logo vou ver os jogos, como o fará, estou em crer, uma boa porção de criaturas. Um campeonato duro de roer, dos mais disputados de sempre. Está mal visto pela imprensa, que considera que seja qual for o campeão, será o campeão menos pontuado de todos. Noutros tempos, também os jornais eram diferentes, valiam pela opinião e pela análise. Tempos houve em que nem sequer era conferida qualificação profissional aos homens que escreviam nos jornais desportivos. Mas deles se pode dizer que venceram, porque se souberam impor e respeitar.
Foi o futebol que fez e puxou pelos jornais desportivos, mas o desporto em geral e o futebol em particular também muito deve à imprensa escrita. Talvez a excepção seja o hoquei em patins, que durante os anos dourados andou mais ao colo da Rádio, até se impôr e mesmo, depois, com a Televisão foi perdendo pedalada. A Rádio, primeiro e a Televisão, depois, modificaram o futebol, tornaram diferente o jogo e a participação do público. O homem dos jornais já não conta para a apreciação do jogo, já não influi no julgamento dos casos do jogo. Para se manter à tona, os jornais criaram e alimentam a política, insinuam maquinações, denunciam tramoias, dão eco a rumores a partir de tudo e de nada, semeiam ventos que não raro resultam em tempestades.
Pois sim, é o futebol que há. E é para quem quer. Por mim, sim senhor, de pantufas, e em vez de cachecol, uma pinga de vez em quando.
Diverti-me com o Braga, com o Boavista e com os três do costume. Hoje acaba. Valeu a pena. Tudo vale a pena se a alma não é pequena disse o poeta, que não consta que
fosse à bola.
Campeonatos a decidirem-se na última jornada foram alguns. O primeiro de que me lembro, ainda nos anos quarenta. ficou conhecido como «o do pirolito». Ganhou o Sporting por um golo de diferença e o Diário Popular dizia no dia seguinte que se fosse na Inglaterra o Benfica teria sido campeão, por dispor de melhor cociente ou lá o que era. Mas não foi. O Sporting, porque perdeu no Lumiar por 3-1 e foi vencer no minúsculo Campo Grande (de facto era 28 de Maio, mas quem é que dizia uma barbaridade dessas?) por 4-1, com quatro golos de um tal Peyroteo.E não foi só: numa das derradeiras jornadas, o Sporting foi perder a Setubal, por 1-0; mas o Benfica, em casa, perdeu com o Elvas por 2-1, com dois golos de um tal Patalino.Dizia um amigo meu que «estava escrito».
De outro, ainda do Século passado, em 55, o Belenenses precisava, na última jornada, de vencer o Sporting, nas Salésias. Estava empatado com o Benfica, mas beneficiava de ter empatado na Luz, novinha em folha. A cinco minutos do fim, invasão na Luz! Pela Rádio ouviu-se o golo do Sporting, nas Salésias. O Árbitro foi simpático e esperou que meia dúzia de polícias e alguns jogadores empurrassem os invasores para fora do relvado. Entretanto, em Belém o jogo terminava. Na Luz jogaram-se os últimos minutos e depois foi a nova invasão. Otto Glória estreava-se a ganhar.Com ele o futebol português levou uma volta. Mas isso é outra história.

Ainda a Televisão

Acabo de ver na RTP2 um programa de uma produtora acerca da História Ibérica, amplamente documentada sobre a História de Portugal. Imagens cedidas, obviamente, pelo chamado arquivo da Televisão Portuguesa.

A RTP2, ou qualquer outra coisa que hoje se lhe chame, pagou um preço justo, devido, por tal produção, que vem sendo exibida desde há alguns dias, falada em castelhano, o que obriga a legendas (por enquanto) em português.

Pergunta-se: mas não há gente em Portugal para - utilizando os mesmos recursos - fazer uma série televisiva com outra perspectiva (mais portuguesa), outro ritmo, evidenciando mais capacidade técnica e mais sensibilidade aos temas abordados? Será que das inúmeras produtoras independentes de Televisão em Portugal não surgiu uma proposta para um programa deste género? A própria televisão perdeu capacidade para produzir?

A Administração da RTP, ou lá como se chama, diz: não! Porque, em Portugal é fácil fazer compras como se fosse à loja dos trezentos , já que a indústria do audiovisual está completamente destruída e, para tentar sobreviver, já rasteja. Mas ainda não barafrusta! - não responde e não provoca . Não tem capacidade para responder ao poder. Muito gostaria eu de ainda poder presenciar um protesto a sério dos resquícios da indústria do audio-visual, deixados pelo ex - (felizmente) ministro Morais Sarmento e do seu CA da RTP, cujos negócios, obviamente, vão ter que se transferir para Madrid. Os portugueses vão ter que se contentar com a figura da sua muito celebrada correspondente, Rosa Veloso, cuja carreira jornalísitca sofreu um importante impulso com uma reportagem sobre os rótulos de um queijo da Serra da Estrela,

sábado, maio 21, 2005

As Antenas Internacionais da Televisão

Antes de ser um país de imigração como hoje já é - e dificilmente deixará de ser - Portugal foi, primeiro, uma terra de marinheiros, comerciantes, exploradores, viajantes e, depois um local de onde se fugia, se emigrava.
É justo pensar que todas estas circunstâncias tenham gerado em todo o Mundo núcleos de portugueses, de luso-descendentes, de gente com a memória de um ou mais portugueses na história da sua família.
Parece curial imaginar que esta proliferação de gente descendente de um minúsculo povo, espere e mereça um tratamento especial da parte de quem cá vive e, sobretudo daqueles que nos governam. Especialmente neste tempo de comunicação global, feita em tempo real, nesta época de globalização - um conceito novo para uma prática antiga.
Deveria, aliás, esperar-se que os governantes de Portugal projectassem as suas preocupações também para fora das fronteiras nacionais e conseguissem imaginar a Nação Portuguesa espalhada pelas sete partidas ( à semelhança do que conseguem os judeus de Israel, com os resultados que se conhecem).
Reconheço que é pedir muito a quem chega ao poder sempre com a caderneta da mercearia em atraso, mas uma pequena preocupação ficava-lhes bem...
Refiro-me às antenas internacionais da RTP. Uma delas, a de África pode ver-se em Portugal. Quer dizer: podemos ficar enjoados mesmo em Lisboa, no Porto, em Coimbra, no Algarve, no Alentejo, no Minho, etc. Basta ter TVCabo e ligar o canal respectivo. Aquilo é, de uma forma geral, um verdadeiro nojo.
Para quem viaja e resolve procurar nos hotéis por onde vai ficando a RTP Internacional, trata logo de desligar para não sair à rua envergonhado. Esquece e pronto. Já não está lá quem falou...
Ora, isto deve-se, seguramente, à política que tem vindo a ser seguida pelos vários CA's da RTP e também de algumas direcções de programação e informação.
Por exemplo: quando o Emídio Rangel chegou à direcção da RTP percebeu mal as contas e julgava que ao tirar autonomia à direcção das antenas internacionais, podia utilizar os orçamentos que lhes estavam atribuídos. Engano puro. A maior fatia era para o pagamento de satélites, pelo que a junção de todas as direcções resultou em grandes perdas para a programação internacional.
Hoje em dia, as chamadas antenas internacionais têm autonomia apenas para programar três ou quatro horas de emissão. O resto, o verdadeiramente inenarrável de tudo quanto é velho e revelho, de programas racistas, ofensivos mesmo, vem de outros canais, que para ali despejam todo o lixo possível e imaginário.
A imagem deste país no exterior, entre as comunidades ligadas de alguma forma à língua e à expressão portuguesas, e que neste momento tem um governo que se quer afirmar através de um choque tecnológico, é a de um sítio bonito mas muito mal frequentado, cheio de atrasados mentais e realidades pré-históricas.
Ora, nós sabemos que, felizmente, não é assim, pelo que é justo e curial afirmar que o actual Conselho de Administração da RTP está a cometer um "crime de lesa-pátria" e já devia ter sido chamado à pedra pelo ministro da tutela, o prof. Augusto Santos Silva. De resto, não seria mal pensado que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não deixasse de fazer sentir algum incómodo pela situação das chamadas antenas internacionais da RTP

MEA CULPA

Devo uma explicação a um leitor. Mas antes devo explicar que, por norma, nunca respondo ou comento a opinião de quem expressa seja desacordo ou concordância. Habitualmente quem se dá ao trabalho de ripostar é por desacordo. Para mim merece-me o mesmo respeito. Neste caso, o remoque critica-me o não ter identificado um poeta citado num texto, a propósito de um texto de Fernando Alves, no DN de domingo passado. Não foi um lapso. Não citei o poeta pela poesia dele.Evoquei-o como amigo a propósito de período histórico e sobre um assunto que suponho não ter sido divulgado.Guardo alguma relutância em querer aparecer na fotografia ao lado de. Mas posso acrescentar que o Virgílio referido no texto era Virgílio Martinho.E a roda era no Gelo...

SABER

O título fugiu-me. Acontece-me. Vou ver se escrevo de molde a servir o título. Saber o quê e sobretudo de quem? Não me lembro. Varreu-se. Sei que queria citar uma velha graçola, que se contava em português, com referências de fora. Era assim: um jornalista americano citava um artigo recente em que verberava uma decisão do seu presidente. E explicava com orgulho ao seu colega soviético, que na América , até se podia criticar o mais alto magistrado da nação. "Eu posso", sublinhava ele, orgulhoso, "dizer mal do meu presidente, percebe?".
"Claro que percebo", dizia o russo: "eu também posso dizer todo o mal que eu quiser do seu presidente"...
É o que se passa com o Santana. Tropeçou e caiu. Antes de tropeçar, subiu demais...
Ficou com a factura na mão.Mas não foi ele que encomendou a tragédia. Fora ele, praticamente sozinho que ganhou a Figueira da Foz, uma câmara que nunca fora do partido dele. Foi ele, sózinho a ganhar a Câmara de Lisboa e arrastou atrás o Rio que extravasou do Douro. Por ser ele. Por ser o que era. Alguns mais dotados, tanto que sabiam que nem valia a pena arriscar, ficaram quietos, a ver, e agoniaram-se, depois.
Mas não foi ele quem quis ir para Bruxelas, mas foi ele quem mais contribiu para a ascenção do outro. Do que se pirou. Do que optou por fazer mais por ele do que pelo partido ou do que pelo país, que tinha jurado servir.
É fácil bater num homem caído, ainda a cambalear da trovoada.Não é que me interesse. Não é guerra minha, já não sou de batalhas, mas ocorre-me, a propósito, citar um poeta, que suportou muito do pesadelo fascista: fazei todo o mal que puderdes/ e passai depressa...

sexta-feira, maio 20, 2005

A CONFUSÃO CONFUNDE

Tanto que uma pessoa se perde no emaranhado das explicações. Dou por exemplo as scut. A ideia é que não se pague portagem, mas...
Antes de seguir em frente, uma pequena marcha pela nacional cento e picos. O vai e vem começou a seguir ao businão na ponte. Uma manif de protesto por mór do aumento da portagem, logo apoiada pelo PCP, levou o PS a reboque. Foi um sucesso. Até então as diferentes greves não aqueciam nem arrefeciam. A Esquerda clamava por imensas adesões e o governo limitava a minúsculas percentagens. O businão surtiu efeito e obrigou o governo de Cavaco Silva a recuar. O que estava em causa era a forma como estava a ser construida a Vasco da Gama. Uma espécie de scut: ponte construida sem custos para o governo. O construtor construia uma ponte e explorava duas, durante uma porção de anos.
Foi então que do lado do PS começaram as críticas à política de asfalto do governo da direita, tanto mais que Cavaco Silva aparecia com a auto-estrada Viana-Porto à borla e um troço de Abrantes a Torres Novas, que deveria prolongar-se até Peniche e no entretanto sem custos.
Mas o pomo da discórdia passou a ser a CREL, que abriu com portagem. Defendia o PS que a CREL era uma rua urbana e que, portanto, não devia pagar.
Seguem-se eleições e o PS volta ao poder e sente-se obrigado a cumprir promessas feitas no ar.
Quer abulir a portagem na CREL, mas esbarra na BRISA, que apresenta a factura da obra. Era esse, pois o problema, que não havia sido equacionado pelo simpático ministro Cravinho. Os troços de auto-estrada sem portagem foram obra da JAE, do Estado, por conseguinte. Os troços com portagem eram obra das concessionárias, que entretanto passaram a ser mais do que uma e sujeitas a concurso público.
O que o governo de Guterres teve de fazer, para salvar a face, foi pagar a portagem de todos os veículos que circularam na CREL. Aliás, do mesmo jeito que fez com a Lusoponte, renegociou o contracto, prolongando o prazo, de modo a sustentar o agravamento de custo na Ponte, até que o comboio começasse a circular.
O problema mantém-se. Registe-se que a CREL é paga pelo utilizador e já lá vão três meses de novo governo socialista. Mas, atenção, também o ministro de Santana Lopes se propunha introduzir portagens na Viana do Castelo-Porto, na algarvia do Infante e na de Abrantes, estendida até à Guarda. A questão não é apenas saber quem paga, como se paga, mas a quem se paga? E porquê?
Podemos olhar o exemplo dos vizinhos. A Espanha construiu inúmeras auto estradas sem custos, mas fez também algumas com portagem. Também certamente teve mais e melhores apoios comunitários. Aproveitou-os bem. Ainda não os ouvi discutir sobre quem paga ou não paga, e eles também têm mudado de cor governativa.
O défice que anda na carteira do dr. Constâncio não resulta, estou em crer, de meia dúzia de quilómetros de asfalto de luxo; nem procurem motivações sociais. Se pretendem exibir ou conceder benefícios sociais desagravem os preços dos transportes colectivos urbanos e sub-urbanos e com isso poderão, se o desejarem cobrar portagem pelos acessos a Lisboa, Porto e outras cidades que o justifiquem...