segunda-feira, junho 06, 2005

EM BUSCA DA SABEDORIA PERDIDA

Quando fiz a tropa, era Angola antes dos idos de um Março qualquer, um dos prazeres que raro voltei a ter era o de falar com os cabelos brandos dos velhos. Aliás realmente velhos porque o cabelo de negro é resistente ao encanecer.
Era então o falar com a sabedoria.
Falavam pausado, deixando a inteligência descansar por sobre os intervalos da lentidão, e só depois diziam.
O quê?
Ora, diziam o que dizem os sábios. No caso, sèculos de Angola.
Diferentemente do que dizem os velhos da Europa, que falam à velocidade dos novos europeus as mesmas banalidades que eles.
Mas com surpresas em todas as idades.
Entretanto um pescador em Sines
Um dia de tarde entrei numa taberna de Sines. Ia dar de beber à sede. E numa taberna por gosto do bom vinho de barril, que já não se vende, e de ouvir a sinceridade dos copos, que cada vez se usa menos. Até os bêbados falam o falso português dos jornais e das telefonias, quer-se dizer, falso de bem comportado e sem caixa de velocidades. Com excepções, evidentissimamente.
Três pescadores tinham-se-me antecipado nos copos e estavam em guerra vínica com o governo, um desses do costume que andava em guerra contra eles. O problema era de marisco e de proibições.
Então um deles, quando me percebeu interessado, deu uma lição marisqueira, com explicações de nascimento e procriações, da razoabilidade científica de certas leis e do amadorismo óbvio de outras, após o que transitou para a análise do reflexo económico da atitude governamental com contabilização de ganhos. E perdas, que eram para todos, país e pescadores. Disse.
Foi como ouvir uma sinfonia, um homem de camisa grossa aos quadrados e penso-o descalço, mas já não sei. O que sei é que gostava de ouvir a mesma sonoridade em Sócrates. No que temos.
E a lembrança de Chiesso
Ao ouvi-lo, a esse pescador-talvez-descalço, o vinho trouxe-me o Chiesso à memória.
Não era sèculo. Apenas um negro qualquer arrebanhado para a tropa e que calhou no "meu" pelotão. Já era fora de idade, um recruta com entre 30/40 anos. Acontecia. Era tudo feito a olho. Mediam-se os mancebos pelo pêlo púbico, e se o moço fosse felpudo, tivesse ou não tivesse idade, ia malhar com os ossos na tropa. Ou, de contrário, se fosse escasso de pêlo, tivesse ou não ultrapassado a idade, assentava praça.
Ora Chiesso não devia ser de abundante pilosidade. E no meio da moçada sentia-se deslocado. Ajudei-o com muita simpatia, que ele retribuia passando os domingos a apanhar pássaros que me oferecia. Não convivia com a rapaziada, talvez da idade dos seus filhos.
E aconteceu num dia daqueles tempos de paz, a pax lusitana como lhe chamou Mesquita Lemos, em que eu distribuía tarefas, lhe disse que "nós, que somos amigos" vamos fazer qualauer coisa que se perdeu no tempo. Aí Chiesso formalizou-se e ponderou discordância a respeito da amizade. O que me espantou:
- Não és meu amigo, Chiesso?
- Amigos, quer dizer, amigos, bom eu gosto do meu aspirante, o meu aspirante talvez goste de mim, mas, amigos, o meu aspirante tem os seus amigos e eu tenho os meus amigos.
O mistério no meio daquela amizade está no entender como um analfabeto conseguiu estudar de Karl Marx o seu discurso sobre classes sociais...
Este diz que não mas é
Ao certo, ao certo é benfiquista. Quanto ao ser comunista diz que não mas parece que é. Pelo menos desanca "neles" (PS, PSD e CDS) de manhã à noite. Durão Barrosso e Paulo Portas eram "esses macacos que estão no governo", Sócrates "é um gajo do mais à direita que tem o PS" e andando por essa via (será suspeita?) mas com fio de raciocínio a mostrar escola. Apurada para quem é de poucas letras.
Há dias andava numa de pessimismo sem esperança. Aí temperei com os exemplos da Irlanda e da Finlândia que conseguiram, como países, situação confortável. Embora modestos de capacidades naturais.
E a sua resposta foi instantânea:
- Ah, mas isso foi com confiança nos governantes. E quem é que vai confiar nestes gajos?
A confiança
Portugal é um país que vive asfixiado entre o discurso capcioso de juristas e o discurso contabilístico dos economistas. E, pelos indícios, tudo gente que acabou os cursos já doutores. Provavelmente ninguém lhes ensinou que a Universidade confere aos seus alunos apenas os ensinamentos necessários ao estudo. Não faz sábios. Os sábios fazem-se a si, estudando depois de sairem da escola.
Precisamente aquilo que os nossos ministros (eu excluo da maralha Maria de Lourdes Pintasilgo, António Guterres e assim; talvez outros engenheiros que se tivessem dado ao trabalho de perder, aliás ganhar tempo lendo e meditando sobre os problemas sociais) dizia então que os nossos ministros e deputados, a generalidade deles concerteza, deixou os bancos da faculdade já doutores. E pronto, sentiram-se aptos para doutorar na coisa política.
Daí que nenhum deles, até hoje, se preocupou em perguntar-se o porquê desta bagunça que tem gerido os destinos do país. O meio-comunista-e-benfiquista-completo diz que é por falta de confiança nos governantes. E di-lo do rés-do-chão da sua instrução primária.
Será?
E,se for, qual o projecto? qual o método? qual o estudo? qual o plano apresentado ao país para chamar os portugueses à confiança?
Mas pode ser que não seja. Porquê?
Poucos meses depois das últimas legislativas, Sócrates foi tão explícito quanto ao processo de captar a confiança da nação que já tinha esbanjado, com a salgalhada das pensões juntadas aos vencimentos ministeriais, o capital de confiança que o levara ao poder.
E Marques Mendes, o periquito falante, anda a exigir reformas da Administração Pública já! - em demonstração cabal de não fazer a mínima ideia da complexidade do problema, dos meses que se vão gastar a estudar a matéria, as perguntas de investigação, o que fazer o o como fazer. Talvez nunca tenha trabalhado na função pública nem na função privada. Estudou para doutor e para ministro. Saiu feito da máquina, como as salsichas.
Talvez então mandando esta gente repetir a instrução primária.
Não tanto? Os preparatórios? Então fica assim, preparatórios.

domingo, junho 05, 2005

ENTRE O SIM E O NÃO

Cabe sempre um talvez. E talvez tenha sido por isso que fugi da crónica sobre os nãos e os muitos ses que ela suscita. Pessoalmente sou um europeu do tipo saloio. Conheço melhor a Malveira (e já não passo por lá há uma vintena ou mais de anos) do que a Inglaterra toda. Passei umas horas em Londres, andei de metro e de maximbombo. Jantei um steak com batatas fritas (juro), coisa que nunca como em Lisboa. Das restantes vezes foi só escala nos aeroportos. E por via dos aeroportos londrinos conheço um bom pedaço da Austrália, que não vem para aqui chamada, como as ilhas da Nova Caledónia, da minha viagem de núpcias, aos 65 anos, quando me reformei, tal e qual, sem subsídios extras ou comprometedores.
Bom,que mais? Ah! Sim, pois, a Espanha, isso sim, desde o tempo da peseta barata e do meu primeiro «metro». A França, claro; a Itália menos, mas o suficiente. Da Alemanha um pedaço de Munique, onde fui com um colega buscar o BMW dele, que nos facultou um imenso regresso
a Lisboa, onde estava de passagem, habitava em Luanda.
Bom, esqueceu-me de mencionar o Luxemburso, mas não tem importância. Passei por lá uma vez para apanhar um avião de regresso ao Jornal Novo. Estados Unidos e Brasil não fazem parte da crónica.
Sei pouco da Europa sim ou da Europa não. Nunca fui à Holanda, e gostava de ter ido. Aprendi a gostar dos holandeses, quando estava em Angola e soube das «Minas malucas» por uma revista sueca. Mais tarde um poeta havia de fascinar-me a contar a experiência dele na Holanda, um paraíso de liberdade. Tudo isso já bem na gaveta da História, mas influencia o meu apego pelo país que não conheço.
A história das «minas» data do fim de guerra na Europa. Até então a Holanda era sociedade recatada. Durante a guerra a escassez de mão de obra (praticamente só os homens trabalhavam) levou as fábricas e outros armazéns a abrir as portas às mulheres. Nas principais cidades costeiras mudou a paisagem e iam mudar os hábitos.
Os cafés, as tascas das zonas fabris não tinham sido equipados como lojas mistas. Até então os clientes eram homens e, de repente as mulheres passaram a dividir o consumo. Queriam sentar-se em grupo e discutir modas e sindicalices, que também começava a estar de moda. As tascas não dispunham de sanitários para senhoras. As pequenas não foram de modas e deram volta ao assunto. Ocuparam quase todos os tascos da área; duas ou três ficavam sentadas em cadeiras às portas da «cazinha», a tricotar. Estenderam umas cortinas de rendas por sobre as portas e impediam a entrada a machos. Que festa que seria para as televisões de hoje!
Mas elas ganharam, como hoje em dia se pode verificar, em qualquer momento de aperto!
Outro triunfo do movimento feminista foi contra o excessivo recato. A Rainha de então alimentava um puritanismo rígido. No dia nacional, festejado com um cortejo tradicional, as «minas malucas» integraram-se em grupo no cortejo, carregando um enorme símbolo fálico...
Anos mais tarde, quando o poeta me falou da sua estadia holandesa, a Holanda já era outra e surpreendeu o próprio poeta. Puritanismo nem vê-lo e não fora ele poeta e certamente teria criticado alguns excessos de arroubo.
Hoje, quando é preciso, votam não e não acreditam que seja uma tragédia.

ANTES QUE CASES

Já não é novidade: a França disse não; a Holando gritou não. O sr. Raffarin saiu e entrou outro, mais alto. Chirac é o mesmo, paciência. Hollande afastou Fabius da direcção do PS. Não chegam grandes rumores da Holanda. O estardalhaço é aqui. Um súbito medo do escuro.
O sr. Jorge Miranda defende o adiamento. Adiar, que se saiba, não é solução. Que interessa ou justifica um referendo que só admite uma resposta. Um não como o que cresceu pela Europa
tem a virtude de ensinar os que julgam que sabem tudo. E nem vale a pena explicar agora, muito bem explicadinho, que o não foi por isto e aquilo. Não interessa, por mais análises e teses o efeito é o mesmo. Não é exactamente o contrário de SIM. Uma vez uma vizinha disse-me que não. O que é que eu podia fazer? Ora! Ir à procura de outra que dissesse que sim...

sábado, junho 04, 2005

"Um Lugar Ao Sul"

É um programa de Rádio transmitido na Antena 1 da RDP que os burocratas atiraram para as sete horas da manhã de Sábado.
Tempos houve em que a Rádio era um meio de comunicação nobre, dirigido por gente íntegra e de cultura e que percebia o essencial de um instrumento tão poderoso. Nesses tempos, jornalistas, ou radialistas, como o Rafael Correia, eram considerados num plano de prestígio que nos garantia a salvaguarda dos valores culturais que nos diferenciam no Mundo.
Com a chamada massificação ou globalização, ou lá o que é, passamos o dia ( quando há paciência para isso) a ouvir disparates, conversas ocas de sentido, intercaladas do anúncio das previsões meteorológicas e das horas que vão correndo, além de música que pouco tem a ver connosco, sem nada que nos possa recolocar no nosso espaço, aproximar-nos uns dos outros.
Rafael Correia, todas as semanas nos mostra o caminho de um lugar ao Sul, mas a horas que pouca gente ouve - o que indica, seguramente, a predisposição das gentes que agora dirigem a principal estação de Rádio de Portugal de o atirar tão para Sul, tão para Sul que vai saltar das antenas, já sem espaço e sem voz para nos mostrar a nossa gente.
Hoje lá consegui estar acordado para o ouvir. Espero que muito mais gente tenha tido uma "espertina".
Ora então, muito bom dia, Rafael Correia. Oxalá alguma coisa mude a sério neste país.

A Verdade da Imprensa

Um dia destes, desta semana, passou a correr num daqueles oráculos que todas as televisões usam para mostrar de fugida as notícias importantes, enquanto vão falando e mostrando o sangue da estrada e as caras disfarçadas dos pedófilos e das alegadas vítimas e a história de mais uma velhinha simpática, mas que já não fala nem ouve... um dia destes, num daqueles oráculos, fugiu a notícia segundo a qual o New York Times tinha mandado fazer uma sondagem para seu próprio consumo.
E que resultados obteve nesta sondagem? Que a maior parte dos leitores não acredita em nada do que os seus redactores escrevem.
Esta conclusão - terrível para quem edita um jornal - levou a respectiva direcção a lançar uma reestruturação profunda no modo de fazer jornalismo: por exemplo, acabar com as fontes anónimas, contraditar as fontes oficiais, abrir linhas directas para os leitores e outras medidas.
Será que algum jornal português tem estrutura mental para, honestamente, fazer a mesma sondagem e actuar em conformidade com os resultados obtidos?
Tenho a certeza que não. Nenhum deles ligou a mínima a este processo americano. De resto, da América, só lhes interessam os discursos inteligentes de George Bush.

Os Nãos Europeus

Não deixa de ser interessante verificar as reacções portuguesas aos "nãos" dos outros, neste caso, o não dos franceses e dos holandeses à proposta de um novo tratado de constituição europeia.
Um tratado para substituir um outro, o de Nice, que entrou em vigor em Janeiro de 2005, concebido para albergar a turba de europeus do Centro e do Leste.
Para uns quantos portugueses ilustres, o não francês podia ser uma catástrofe, para outros, igualmente ilustres, com direito a tempo de antena e a escritos nos jornais, foi o produto da ignorância e da falta de informação, representou, não uma resposta à proposta da constituição europeia, mas uma vontade incontrolável de deitar abaixo o governo.
As versões da análise sobre o não holandês são um pouco diferentes, mas vão ter sempre à falta de consciência e de informação.
Claro que também os dinamarqueses - que se preparam para dizer não - vão ser rotulados de mal-informados, ignorantes e outras coisas piores.
Bons, bons, mesmo vão ser os portugueses. Nós sim, estamos perfeitamente informados e, como, ao contrário dos franceses, não atravessamos nenhuma crise de identidade, vamos votar "SIM". Como a Espanha também já disse sim, em referendo, e uma série de outros países também já aprovaram o novo tratado nos respectivos parlamentos, sempre temos a possibilidade de juntar umas quantas bandeiras e ir fazer uma outra Europa, ali mesmo ao lado, para ficarmos a apreciar o inferno dos não informados, dos ignorantes, com profundas crises de identidade.
O que custa mesmo nisto tudo é verificar a incapacidade de reacção dos líderes políticos a um resultado que se adivinhava. Durão Barroso fez declarações absolutamente idiotas, do tipo, "faço um apelo à reflexão, à calma ..." e coisas quejandas.
Em Portugal, o meio metro veio logo dizer que não realizar o referendo era sujeitar o heróico povo português à humilhação de não sei o quê.
E ninguém conseguiu explicar por que razão povos como os de França e da Holanda votaram "NÃO".
Ora, como não aparece ninguém a explicar nada, é bom que se olhe para algumas outras reacções: em Itália, apareceu logo um ministro a dizer que o melhor será fazer circular, de novo, a lira, ao mesmo tempo que o euro.
O mesmo acontecerá brevemente noutros estados europeus, provavelmente mesmo em Portugal. Tal seria bom para os políticos que gostariam de voltar a ter nas políticas cambiais um instrumento de política económica.
Enfim... estão para acontecer algumas coisas interessantes e nós, por cá, continuamos a olhar-nos como os mais inteligentes, os mais sábios, os mais bonitos. Por isso bem merecemos uma Europa só para nós. Em Outubro ela vai cair-nos no sapatinho. Afinal, Natal não é quando um homem quer?

quinta-feira, junho 02, 2005

A CRISE E O ACESSÓRIO

Recebi uma mukanda interessante a dar-me conta de que, afinal, o senhor Banco de Portugal/Constâncio é um instrumento do primeiro-ministro. Com a autoridade que lhe advém do cargo deve advertir, alertar e precaver o Governo e/ou a Assembleia da República. Dá o mote e o governo que estiver no poleiro está justificado para impor medidas drásticas. Foi o que aconteceu com Barroso e, depois, com Santana. E, agora, de forma mais sumarenta. O governador do BP tem cumprido com zelo o compromisso de ser a todo o instante, como cantava a senhora do fado, sentinela vigilante da honra do marido dela e, neste caso, da nação, o que, de algum modo, também se deve aceitar como natural, considerando a remuneração que aufere pela colaboração que presta aos senhores primeiros ministros e colaboradores afins. Ao pé do senhor Victor, o que Fernando Gomes vai auferir parece remuneração de marçano.
De facto, considerando o volume da crise, anunciada por gente abastada, poderia sugerir-se começar por aí a poupança, remunerando um pouco menos alguns cargos principescos e que por via disso se tornam suspeitos de colaboracionismo excessivo.
Mas em vez de meditar nas formas de governar a crise, o que preocupa os agentes políticos ditos de oposição é o convite formulado pela RTP a António Vitorino de comentar, provavelmente os comentários dos outros, ou os acontecimentos em versão pessoal. Pode entender-se que pelo facto de se ser próximo de um partido se seja proíbido de emitir opinião?
Tanto quanto me lembro, Marcelo Rebelo de Sousa ainda era afilhado do padrinho e já botava opinião no Expresso e quando calhou ser colega de governo do seu ex-director, telefonava imenso a dar informações estratégicas, com comentários a condizer, a uns quantos fulanos da comunicação social, mais ou menos conotados com a posição democrática do governo tripartido.
Deve ser mais agradável e salutar escutar essa alta personalidade do PS, que é António Vitorino, do que gramar os pontos de vista do ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. O ex-de Gondomar teria mais graça, sobretudo se fosse para debater assuntos sérios ou de arbitragem!
Não, meus senhores, já basta de censuras e de censores, sobretudos destes. Deixem falar quem
tiver audiência e é isso que interessa aos canais de TV e às respectivas audiências. Qualquer de nós dispõe do único instrumento de censura legítimo: o comando da TV.
Tal como os políticos estão de moda e a ser contratados pelos canais de TV, tempos houve em que eram os profissionais da Televisão os escolhidos para acessorar os poderosos dos governos ou mesmo para engrossar as listas eleitorais. Lembro-me de uma colega que tanto lhe fazia ser acessora de Maria de Lurdes Pintasilgo, como de Proença de Carvalho e que não tinha dificuldade em deputar na Assembleia e actuar na Televisão. No fim de contas a vida é um espectáculo e muitas vezes nem se dá pelas figuras que se fazem...

quarta-feira, junho 01, 2005

OS TEMPOS MUDAM

E nós mudamos com eles. Não sei. Vi que desde ontem a cidade fechou, perdão, perdão, mudou, lá ia eu plagiando o heterónimo dele. Aconteceu-me vir a Lisboa e, de repente, vejo duas esquinas, a primeira na Paiva Couceiro, onde, do outro lado da Morais Soares, um banco que estava lá, já não estava. Desço a calçada; no Chile rumo à esquerda, Almirante Reis abaixo, como se fosse para a Portugália. E de repente outra esquina sem banco. Sem o banco que lá estava.
A quantidade de cafés que eu perdi em Lisboa, tornados bancos. Agora parece ser a vez da banca se reduzir. Só que não aparecem cafés.
O que eu não daria para reaver o Royal, com a esplanada, no Cais do Sodré, à esquina com a rua do Alecrim. Já nem sei andar em Lisboa, já nem sei às quantas ando.
Um pretexto para tomar café. Da tv no alto saiu um som estranho vil pão. Não era, claro, nada contra o paposseco, foi o Chirac a mudar de primeiro-ministro. O melhor é telefonar para lá saber o que é isto. Não é preciso um dicionário para dizer alô em francês. Villepin é um artista com história. Era primeiro-ministro, com maioria. Dissolveu-se a Assembleia, novas eleições e lá se foi a maioiria. Não parece o caso dos bancos, que tão depressa são bancos, como passam a lojas de fancaria!
Não esqueçam que o primeiro não é o que custa mais. Amanhã é a vez dos holandeses expressar a sua imensa vontade de não dizer sim.
Pois, sim, pois, sim, e que será de nós, que somos mais vocacionados para dizer talvez?
Talvez já nem haja Europa, nem Durão.
Quando chegar a altura dos saldos, Bush compra a metade de cima e dará a parte de baixo aos pobrezinhos. Eu farei como os cafés do Rossio: vendo-me ao primeiro que passar...
Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

segunda-feira, maio 30, 2005

Sansão Social

O Ministro das Finanças anunciou na Televisão uma intenção altamente meritória, por parte do Estado: publicitar as empresas que devem dinheiro ao fisco. Para melhor completar a ideia de sanção fiscal que lhe está subjacente, talvez não fosse mal pensado publicitar igualmente as dívidas que o Estado tem para com as empresas. E já não falo das grandes, refiro-me apenas às PME's, algumas das quais vão à falência por causa do despudor com que o Estado não lhes paga as dívidas, durante anos e anos. Ora aí está: o Estado a exibir-se como "pessoa de bem".

Carta

Chega carta de uma amiga( carta...imagine-se!!!). Triste comigo. Que perdi a esperança, o humor, que "distribuo chapada a torto e direito..."

A carta da minha amiga faz-me pensar: é verdade que tenho o mesmo desembaraço na escrita, mas já não são as mesmas palavras que me rodeiam. Algumas sumiram-se de todo e outras, quando reaparecem, é por pouco tempo; assim como flash de fotógrafo, quando muito relâmapago de trovoada, em noite de Deus zangado - sem saber muito bem para que fez o Mundo:se para se comprazer e deliciar-se com a obra ou ficar todos os dias, a cada hora, em cada minuto, no tempo que ele próprio inventou, a cuidar das criaturas com que o povoou.

Enfim...desatinos.

Desatinos de fim de semana de quem tem alguma dificuldade em perceber os caminhos propostos: escola de Salazar, igreja de PioXII, guerra de Salazar, proposta de salvação de João XXIII, de Paulo VI; revolução de Abril, morte (assassinato?) de João Paulo I; democracia, corrupção a crescer como cogumelos - João Paulo II, George Bush, Guerra do Iraque, o Mundo a dividir-se; Bento XVI.

Para trás, " não faças a guerra, faz Amor", flores, a caminho de S. Francisco, os amigos mortos nas guerras que não eram do Salazar, nem dos Pios, ou dos João Paulo. Para trás fico eu e a minha amiga escandalizada (mas ainda doce, ainda amorosa) por não perceber a nova eficácia da minha escrita.

Minha amiga, as minhas palavras já não são eficazes. Já ninguém as percebe. Este já não é o tempo das palavras, mas a era dos dicionários.

domingo, maio 29, 2005

CÁ SE FAZEM...

E agora se pagam. Miguel Cadilhe não é esquecido e pagou a dívida ao primeiro-ministro, do seu tempo no governo. Como ministro das Finanças foi inventado por Cavaco Silva. A oposição viu-se aflita com ele. Era eficiente e pragmático. Razoavelmente jovem para ter sido visto na Lisboa nocturna e de ter absorvido uma popularidade que talvez incomodasse o austero inquilino da residência oficial, à Estrela. Sem contestação técnica ou política, o ministro das Finanças teve de ser atacado pelo seu desembaraço como cidadão, a vasculhar nos buracos das leis, para não pagar sisas, nas frequentes trocas de habitação; de utilizar os meios da GNR para as mudanças de residência, a que tinha direiro por ser ministro das Finanças, logo com sigilos a preservar. E foi mesmo o par do Independente, Esteves Cardoso e Paulo Portas a lixá-lo, ao transcrever um diálogo telefónico, que escutaram a Tomás Taveira, no seu, dele, escritório, em que tratava por tu um tal Miguel, que ia mudar-se para as torres das Amoreiras.
Recatado e puritano como só um antigo antecessor na residência oficial de primeiros ministros, Cavaco Silva achou excessivo e prescindiu abruptamente do homem do taco. Cadilhe não disfarçou uma certa amargura e quando lhe puseram a questão da solidariedade ele disse: "A solidariedade é como o chapéu de chuva: só damos pela sua falta, quando chove"...
Não sei se Cavaco estava ou não precavido, mas ficou a saber que, com chapéu ou sem ele, quem anda à chuva molha-se. Como economista ele sabe que o resultado é a soma dos factores. Mas a ordem destes é arbitrária...

MAIS POEIRA

No mesmo «DN», há momentos citado, vem hoje outro passado. O matutino da Liberdade (avenida da) anuncia 140 Anos de primeiras páginas. Para doirar a pílula (e com patrocínio banqueiro) acrescenta um poema diário, devidamente comentado. Quase século e meio vezes 365 dias, vai dar aí, sei lá, uma data incomensurável deles. Lido um por dia vai dar aso, pelo menos, a uma licenciatura a português arcaico.
Seja como for estou encantado. Finalmente aparece um transporte direitinho ao antigamente.
Estou fascinado por ir ler a reportagem do cinco de Outubro e dos dias subsequentes. Deve ter sido parecido do que eu vi a 27 de Abril, quando cheguei a Lisboa, de comboio, vindo de Luanda. Via Paris, primeiro e Madrid, de seguida. Não assisti à saída do sr. Américo, acompanhado com o padrinho do afilhado e o ministro do Interior, que era cheio e anafado. Vi-os no Funchal, no dia 2 de Maio, de cima de uns telhados, de onde foram fotografados.
Já sonho em levantar-me cedo no próximo 28 de Maio para saber, ao pormenor, como foi a festa, devidamente fotografada. Vou, talvez, ter acesso aos nomes dos malandros, tinham que ser malandros, porque todos os que perdem são malandros, são isto e aquilo. Afinal a História não os julgou. Acho mesmo que desde essa altura a História deixou de se ralar. Faz o mesmo que o Tribunal de Haia: deixa andar. Mais vai ser giro ler a comunicação ao povo. Saber novas da Concordata. Ver como se contou a partida dos nossos soldado para a guerra.
Aguardo com impaciência a descida até 34, aquando da atribuição do prémio literário do SNI.
Soube, por quebra dolosa do segredo de justiça, que um padre vai arrecadar o primeiro lugar com uma Romaria e deixar A Mensagem, uma espécie de Lusíadas, corrigido e aumentado, elaborado por pessoa, praticamente anónima, na sombra. E assim foi. Não conheço ninguém que tenha lido a Romaria. Quando conheci Reis Ventura, em Luanda, ele já não era padre, mas tinha a mesma configuração, escrevia um folhetim sobre a guerra para um jornal de Luanda. Parecia
um personagem do Eça. Estava cheio de certezas. Soube sempre quem foram os bons e os maus
e que foram os russos que nos lixaram.
E quero novas de Peyroteo. Dos golos dele, das vezes que me lixou a paciência. Hão-de me lembrar o Santa Maria, que foi, estou em crer, a primeira aventura do género, seguida pouco depois pelo desvio de um avião, que despejou prospectos sobre Lisboa. Mesmo sem choque tecnológico tempos houve em se inovou.

Ainda O Empresariado

No post abaixo (publicado anteriormente a este) poderão constatar um certo tipo de "veneno" dirigido aos empresários. Chamo-vos, agora, a atenção para outro tipo de empresário. O"chico esperto", que, por uns cunhas metidas a um amigo do partido ou da câmara, ou mesmo de um deputado conhecido no elefante branco, ou coisa assim, conseguiu ter acesso a uns financiamentos da UE.

O que é que ele fez (é regra geral, sobretudo se se trata de empresários ligados aos texteis das chamadas zonas deprimidas economicamente) ?

Arranjou uns armazéns, comprou umas máquinas, contratou umas trabalhadoras, pô-las a costurar uns modelos que alguém com habilidade desenhou e a quem pagou, com dificuldade, uns tostões e, com mais umas cunhas, uns copos bebidos com pessoas ilustres, umas mãos untadas e mais uns tantos truques, conseguiu começar a vender os tais texteis para as grandes marcas europeias.

"É uma questão de etiqueta", malandro, dizem eles uns as outros.

Só que - mais uma vez - Portugal ficou para trás. Porque, de facto, é uma questão de marcas. Toda a gente - e não apenas os jovens - adoram exibir a etiqueta das roupas que vestem. A qualidade dos produtos pouco importa, porque é para usar por seis meses - no máximo - percebem, seus bimbos?

E agora que a China coloca na Europa tudo o que a Europa veste a preço de mercado chinês, explorando ao preço de uma malga de arroz para dez trabalhadores um povo que há muito extravasa o continente em que vive, o que é que fica para os europeus?

As marcas, seus bimbos!

E onde é que estão as marcas portuguesas? Onde? em parte nenhuma. Não existem.

E o que é os políticos e os "jornalistas" portugueses discutem? O abstracto a que estão, evidentemente, subjacentes, os seus próprios negócios.

É o Marcelo (o afilhado, como diz aqui ao lado o Rafael) a manipular vergonhosamente o sorriso ( e sabe-se l á mais o quê) da Ana e são os dois compadres do Expresso da Meia Noite - o Ricardo Costa, cujos negócios com o Paulo Camacho e mais a SIC deveriam ser esclarecidos, e o Nicolau Santos, que também deveria prestar contas sobre aquele caderno de economia do jornal de que é sub-director.

Imaginem um programa de televisão de grande audiência que explicasse todos estes negócios... talvez os "chicos espertos" se transferissem para o audio-visual e desbancassem o "ti Chico Balsemão".

sábado, maio 28, 2005

Sacrifícios

Parece mesmo que o País, este país, precisa de conjugar o verbo sacrificar com o objectivo de assegurar a sua viabilidade como terra independente, capaz de decidir do seu futuro e deixar às gerações vindouras um nome honrado e uma pátria digna e não um sítio onde os seus naturais se sintam como que apátridas.

Só que a conjugação deve ser feita em todos os tempos e em todas as pessoas e não saltar algumas. O que mais se ouve é "eles devem sacrificar-se", sendo que os "eles" são sempre os mesmos - os que trabalham por conta de outrém e, por isso, não têm formas de escapar ao sacrifício. Para estes, o verbo já não é sacrifícar mas torturar.

Os outros, os que exigem sacrifícios e batem palmas logo que eles se anunciam, permanecem incólumes, a coberto de uma legislação feita para os servir, para lhes permitir o aproveitamento do extraordinário aumento de produtividade conseguido nos últimos anos.

São eles, igualmente, que não abrem mão das regalias que o Estado, através de sucessivos governos, lhes concedeu para reestruturar empresas, para se reapetrechar tecnicamente, sendo que alguns destes apoios foram desviados para compras sumptuosas de grandes carros e enormes vivendas...

Os empresários, cujos porta-vozes aparecem sempre a reclamar menos estado e mais apoios para as suas actividades, são incapazes de reconhecer o óbvio: se o sistema de segurança social está em dificuldades, se o estado está "gordo", sobretudo pelo peso das participações sociais, é porque os empresários reformaram, despediram; é porque os empresários não reorganizaram as suas empresas com o objectivo de as transformar em instrumentos de criação de riqueza para o todo nacional.

Os empresários reestruturam as empresas por forma a pagar menos salários e obter mais lucros e também com o objectivo de fugir o mais possível ao pagamento de impostos.

Veja-se o exemplo das empresas que foram privatizadas: o que é que aconteceu? O Estado passou a pagar-lhes os serviços integralmente, muitas vezes em condições desvantajosas se comparadas com os consumidores privados e passou a receber menos impostos, porque oe seus administradores entraram na dança da fuga aos impostos através das mais variadas manobras. Tudo com o intuito de - dizem eles - remunerar os accionistas.

Quais accionistas? Aqueles, que tendo capacidade económica para ter voz nas administrações, as obrigam a assinar contratos, a pagar empresas mais ou menos falidas e outras coisas piores.

Onde estão os sacrifícios desta gente que está sempre à espera de ter um governo favorável aos seus desígnios para obter mais lucros, mais regalias?

São eles - os grandes empresários - que exigem do Estado tudo e impoêm aos governos que governem em seu proveito. E, se um dia, as coisas derem para o torto, fazem o mesmo que as multinacionais: fogem, porque os seus capitais estão a coberto, protegidos pelo monstro da globalização capitalista.

POEIRA

Hoje nem precisei de nostalgia. Bastou-me uma bica e começar a ler o jornal. Lá vinha: «e a noite
inventou-se assim». Li um bocado atravessado e acho que estes de hoje descobriram que sair à noite começou a ser prática nos anos 80, até aí não era normal. Fala-se, bem entendido de Lisboa, duma Lisboa meio saloia e perdida no tempo. Não é inteiramente justo. Lisboa foi bem animada nos anos pós guerra, por exemplo, embora a guerra não tivesse afligido ou impedindo
os lisboetas de se divertir noite fora. Não era a movida, como era em Madrid, e hoje já não é, mas era animada. Os café comuns fechavam às duas da manhã, as cervejarias idem, idem, e as tascas começavam a fechar à meia-noite. Os teatros exibiam-se em duas sessões nocturnas e não lhes faltava público. A cidade estava repleta de cinemas. O parque Mayer era um bem animado centro de diversão, onde se cruzavam casais burgueses com libertinos. Nas instalações da Gulbenkian funcionou durante alguns anos a Feira Popular, que enchia de luz os olhos das famílias lisboetas. Ainda não havia «Metro», mas os eléctricos e autocarros circulavam sem levantar queixas.
Para o pessoal topo de gama também não faltavam cabarets com barulho de luzes e com mais ou menos requinte. Os mais discretos abalavam para os Estoris e por lá davam largas ao seu poder de sedução. Em Lisboa era o que não faltava: poder de sedução para todos os gostos e preços.
Também se ia ouvir o fado, aos retiros de Alfama, Mouraria e Bairro Alto. A ramboiada tinha por onde se estender!
A animação nocturna de grupos por afinidades, como os dos artistas plásticos, poetas, actores, também encontraram, nos finais de 50 as boites ruidosas, para onde se ia depois do café ( ler depois da meia-noite)! Um dos primeiros e um dos mais notáveis foi «A Mansarda», na D.PedroV, ao Príncipe Real. Era uma festa. Foi um espaço «roubado» à loja das tintas para telas e outros apetrechos de belas artes. Foi uma lufada na Lisboa estroina. E fez escola. Apareceria
depois, na Rua do Século, outra, que ainda lá mora. Também animada e cheia de jornalistas noite fora. Muito festejada foi também uma em Cascais. Bom, depois banalizou-se.
E, no Verão, com os festejos dos santos populares, os bairros enfeitados com arcos e balões,
as noites eram de festa. Não era ainda o tempo das bandas, mas havia um Clube de Jazz.
Que diabo aconteceu, que «matou» a cidade?
Primeiro que tudo a Economia. Os cafés a vender bicas a quinze tostões já não se safavam. E para isso tinha contribuido a chegada da Televisão. Primeiro como novidade e depois como hábito. A Banca foi adquirindo os café para filiar. Os cinemas e teatros cada vez menos visitados.
Lisboa começou a deitar-se cada vez mais cedo.
Por essa altura abalei para África. Que bom, que bom! Não havia Televisão...

quinta-feira, maio 26, 2005

Fim de Dia

Recordo o 25 de Maio. "Dia de África". Simbolicamente, ao que parece, uma amiga muito querida resolveu deixar-nos. Todos os anos me lembro da notícia a martelar-me a cabeça. Sempre me pergunto porquê no dia de África? Seria o anúncio do que está a acontecer com o "Continente do Futuro"?. Hoje, pela primeira vez, em 20 anos, falo disso publicamente. É a minha homenagem à "Cacula"
Fim de dia, em 2005: um amigo (daqueles a sério) telefona-me e diz-me que o BES explica no Diário de Notícias, em duas páginas, a sua posição sobre a situação da Companhia das Lezírias.
Já depois das sete da noite - para aí uns cinco minutos - desço à rua, em Lisboa, à procura de uma tabacaria onde possa comprar o jornal, depois de verificar que na edição electrónica do jornal não estava a tal explicação.
Os pequenos comerciantes queixam-se todos da vida , que está má e mais que isto e mais que aquilo, mas numa zona da capital, com uma vida particularmente intensa à hora do jantar e posteriores, as tabacarias fecham às 19 horas. Direitos - dizem. Então , mas no comércio não se devem procurar os clientes ?. Enfim... lá subo para casa a pensar nas informações do meu amigo: o BES afirma não querer nada comprar a Companhia das Lezírias às fatias, que tudo aquilo era deles antes do 25 de Abril, que nunca foram ressarcidos, etc., etc.
O meu amigo também não deixou de me fazer notar que todos os governos têm - sempre - um ou dois, ou mesmo mais - ministros que vêm do Grupo BES.
Continuo a pensar: se a companhia das Lezírias era deles e não lha pagaram, foram muito bem pagos por outras formas. Já são quase donos de tudo e não dão a cara para nada. A cobardia é a marca Salgado (BES) - mesmo hoje, com o anúncio das medidas de austeridade do governo PS.
Não vi nada que possa afectar o dr. Ricardo Salgado e seus pares - ou mesmos os seus lacaios, como Hortas e Costa e Cª..
No fundo, vai ficar tudo na mesma e o Ricardo Salgado ou um dos seus filhos vai, um dia destes, ficar dono de tudo. Espero que nessa altura pague impostos para sustentar a terra e as gentes. O melhor mesmo é entregarmos já tudo e fugir para Espanha, onde, segundo o dr. Catroga - que, de acordo com informações difundidas pela imprensa há uns anos, tem uma reforma de 3.000 contos e agora vai para a Televisão dizer que o Estado está "gordo"- se está muito bem.
Juntemo-nos a Olivença e apreciemos, do outro lado, o reinado dos Ricardos Salgados. Afinal, em Portugal - está provado - o problema são as pessoas, que não têm alternativas ao pagamento de impostos.
Seria interessante dar a todos os cidadãos a possibilidade de, voluntariamente, pagar os seus impostos, tal como se dá às empresas. Cada um de nós apresentava as suas contas de vida e, do que sobrasse, pagava o respectivo imposto. Tal como fazem as empresas, a coberto das quais vivem os Ricardos Salgados deste país

quarta-feira, maio 25, 2005

IDA E VOLTA

É uma seca pegar num jornal, nos dias que vão correndo. O défice esmaga ou, como disse o Fernando, primeiro estranha-se, depois entranha-se, quero dizer é uma chatice. Depois vem a repetição das lições de Marcelo (o afilhado), depois o défice e mais défice. É um problema. A dra. Fereira Leite está pasmada. O meu vizinho, que me espeitava o jornal por cima do ombro concluiu que se tivermos sorte estamos todos lixados. E como o Benfica já não ganha desde domingo ia ficando sem assunto, quando esbarrei, de repente, ao canto da página, muito,muito interior: Nikias vence prémio
de artes plásticas. Em boa verdade não o conheço pessoalmente, mas vi-o algumas vezes e espreitei ocasionalmente alguns dos seus quadros, para além do Painel na Brasileira,e faz parte das minhas recordações de Lisboa, pelos fins dos anos 50, quando os pintores passavam, obrigatoriamente por Paris, com bolsa da Gulbenkian ou sem ela, que calcorreavam Saint Germain e frequentavam a casa de Vieira da Silva. Era uma espécie de curriculo.
De súbito, lembrei-me de, uma noite, ter sido inesperadamente convidado, por Cesariny, para tomar um café. Descemos do Chiado para o Cais do Sodré. Um pouco antes,viramos à esquerda e entramos no bar.
Tomei o café e não tardei a perceber o motivo do convite:o poeta queria que eu visse Nikias no bar da rua do Ferregial. Na descida, pelo Alecrim, ele tinha feito algumas referências a pessoas que eram uma coisa em Paris e outra em Lisboa.Era disso que se tratava e ele quereria, pensei, que eu contasse noutro café o que tinha visto naquele bar.
De algum modo "cumpri" ao falar do convite a João Rodrigues e a Ernesto Sampaio. Rimos bastante e ainda rimos mais quando o Ernesto contou à Fernanda Alves, a maroteira, com a maldade refinada que só ele era capaz. A actriz não queria acreditar: «ou não!O Mário não fez isso»...
Voltei a ouvir novas do pintor (Skapinalis, Cesariny ainda não pintava para expor)outra noite, após um dia agitado de turbulência política, quando o noticiário da EN da meia-noite revelou que alguns dos manifestantes arruaceiros tinham sido presos(sem referir a Pide), com pormenores um tuda nada insidiosos. Era assim: fulano de tal, pedreiro,outro tal, marceneiro, outro ainda, servente, outro, sei lá, serralheiro, Nikias Skapinakis, pintor, e por aí fora. Nem sei,hoje, se a ideia era baixar o nível da contestação abaixo da burguesia, ou se uma habilidade de quem elaborou a notícia para chamar a atenção. Claro que não era vergonha nenhuma ser contestatário ou anti-fascista, pelo contrário, um atestado de qualificação e de coragem. E foi também, por essa altura, o fim dos carros da água a jorrar sobre manifs. Vieram depois os carros de tinta. Não só encharcavam as gentes como lhes estragavam o fato...
E por essa altura já havia mais que contestação.Em Goa esperava-se pelo fim. Uma noite, pela Rádio, aflita, porque não havia sinal de heroismo, dava-se conta da invasão. Este país ia mudar. Faltavam 15 anos.Sei bem. Vivi-os com intensidade.

segunda-feira, maio 23, 2005

ADIVINHA QUEM VEM JANTAR

O turvo olhar posto no lucro não é, em si, um defeito. Também não é certo que se possa apostar que seja uma ambição essencialmente virtuosa. A pretenção de negócio, sobretudo rentável, é naturalmente uma característica do sector privado, que aceita sem esforço que o dever social pertença ao Estado.Seja como for, não existe uma fronteira a separar os dois polos da sociedade. Não é interdito aos privados dar esmola aos pobrezinhos, nem ao Estado se proíbe a gestão de sectores de actividade rentáveis.
Nos últimos dias tem-se discutido muito sobre o direito do Grupo BES pretender fazer um complexo turístico em Benavente; mais recentemente é outro caso Casa Pia no horizonte, a pôr em causa a tutela.
Parece evidente que não é crime explorar novas áreas de turismo endinheirado, a questão que se levanta, de cada vez que o assunto vem à tona é a legitimidade do negócio, a maneira como foi evoluindo todo o estranho processo de alienação de bens do património do Estado, demasiado obscuro e muito nublado e que consiste mais ou menos num princípio: pague já, levante amanhã e, no entretanto, leve dois ministros de mata-bicho...
Ora bem: não é legítimo burlar o Estado, ainda que um dos burlões seja o próprio Estado, por interposto governo ou parte dos seus agentes, o que ocorre com excessiva frequência.
No «ataque» iminente à Casa Pia, por uma vez, o assunto chega à praça pública antes de consumada a alienação. Pelo menos, espero que sim.Mas receio que simplesmente fique adormecido, até uma próxima calmaria.
Em todo o caso o que ressalta destes casos é a pouca capacidade dos governos em aprender com os erros do passado ou a pouca vontade de evoluir e entender as novas tendências da Economia. Em vez de alienar bens do Estado, para agilizar défices,vão à luta, entrem no jogo, engrossem o mercado. O património da Casa Pia, como o do Ribatejo, praticamente não tem peso nos cofres do Estado, mas se passarem para a posse dos privados rapidamente se valorizam. Pois bem, o que impedirá um governo de acomodar-se às regras do mercado e extrair mais valias do património em beneficio do Estado e das suas instituições?

ADIVINHA QUEM;POIS (2)

A história do aeroporto para Lisboa só é parecida na forma: faz-se um novo, todo aperaltado e dá-se o velho para a construção civil e a diferença aparece em forma de fundo comunitário, a par disso e sem que se percebesse um partido haveria de ver as contas todas arrumadinhas. A vida está cara e só uma auto-estradazita não chega para tudo. Foi chão que deu uvas, os défices não são só para quem os merece. Mas, em si, a ideia de um segundo aeroporto para Lisboa não é errada. Mas um segundo, não só segundo no nome, no volume e na importância, embora se possa projectar numa perspectiva de poder alargar-se, no caso de.
A Portela oferece vantagens que não são de esbanjar. E tem alguns delicados inconvenientes, lá isso tem. Estes podiam ser atenuados se o aeroporto adormecesse ás nove da noite.O «segundo», na OTA, ficaria com o serviço nocturno.Nem será preciso o TGV do senhor Coelho. Qualquer trem de meia tijela fará o percurso em 15 minutos.
Quando começou a alastrar a confusão sobre a terceira ponte não direi no Tejo, mas sobre ele, na Grande Lisboa, o ministro da tutela desmentiu a construção de uma: a que ainda nem sequer tinha projecto, nem traçado, de Algés à Trafaria e que tanto poderia ser ponte como túnel, e provinha do ministro do anterior governo. As deste são mais viradas para o comboio chegar à capital do lado de lá do rio. Já existe, de resto, uma ponte ferroviária,não muito afastada da zona, creio que desactivada há muito. Mas está lá, existe. Poderia igualmente servir o plano, se o plano não for só para obras públicas reprodutivas.
Mas da maneira como as coisa evoluem, estou em crer que seja o quer for vai ser lá mais para diante, quando houver legislativas no horizonte.Permito-me sugerir um projecto menos ambicioso para o entretanto: um percurso pedonal até onde for possível...

Casa Pia e a "Gagá" de Serviço

Na Casa Pia, cuja importância no ensino em Portugal está a ser obnibulada pelo julgamento da pedofilia, estão a acontecer casos estranhos e seria, talvez, importante, que o actual ministro da tutela, dr. Vieira da Silva ( um homem à prova de qualquer juizo menos pesado) desse mais atenção a algumas vozes ( ainda poucas, porque o medo é muito) discordantes.

A questão é que existe um projecto de redifinição e não apenas de reestruturação da obra casapiana, apresentado por uma comissão presidida pelo engº. Roberto Carneiro, com muitos amigos e muitos filhos e com uma compreensível apetência por novas formas de recolha e distribuição de rendimentos.

O projecto consiste na transformação da Casa Pia numa Fundação de direito privado (quem fôr capaz que faça as contas ao património envolvido) e na redução do papel educativo dos diversos colégios que constituem a Casa Pia, retirando-lhe a mais importante função para que, afinal, foi criada: receber e educar crianças em estado de carência (seja ele qual fôr).

A verdade é que este projecto tem a oposição de grande parte dos grupos que, de uma forma ou de outra, têm ligações institucionais com a Casa Pia, quer se trate de sindicatos ou de associações de pais dos alunos, quer mesmo dos ex-alunos, que se constituem como um órgão de grande prestígio na vida daquele estabelecimento.

Todos eles têm tentado o diálogo com a sua actual provedora, a drª. Catalina Pestana. A todos ela responde de forma malcriada, "aos berros", dizendo-lhes que o que eles querem é lançar "fumo para cima do julgamento da pedofilia", assunto em que ela está particularmente interessada, já que não fala de outra coisa e não se preocupa com mais nada.

Na última reunião que a Associação de Pais da Casa Pia conseguiu fazer com ela, os seus membros foram insultados e invectivados com mimos como este : " eu estou velha, mas não estou gagá...então vocês julgavam que por ter mudado o governo eu ia sair? Vou estar aqui até eu querer..." E outras coisas do género.

E depois... há mais: nenhum órgão de comunicação social se atreve a agarrar neste assunto: uns porque o projecto da fundação interessa aos patrões e outros porque "Casa Pia só vende com pedofilia".

Haja alguma vergonha.

domingo, maio 22, 2005

OSSOS DUROS DE ROER

Mais logo vou ver os jogos, como o fará, estou em crer, uma boa porção de criaturas. Um campeonato duro de roer, dos mais disputados de sempre. Está mal visto pela imprensa, que considera que seja qual for o campeão, será o campeão menos pontuado de todos. Noutros tempos, também os jornais eram diferentes, valiam pela opinião e pela análise. Tempos houve em que nem sequer era conferida qualificação profissional aos homens que escreviam nos jornais desportivos. Mas deles se pode dizer que venceram, porque se souberam impor e respeitar.
Foi o futebol que fez e puxou pelos jornais desportivos, mas o desporto em geral e o futebol em particular também muito deve à imprensa escrita. Talvez a excepção seja o hoquei em patins, que durante os anos dourados andou mais ao colo da Rádio, até se impôr e mesmo, depois, com a Televisão foi perdendo pedalada. A Rádio, primeiro e a Televisão, depois, modificaram o futebol, tornaram diferente o jogo e a participação do público. O homem dos jornais já não conta para a apreciação do jogo, já não influi no julgamento dos casos do jogo. Para se manter à tona, os jornais criaram e alimentam a política, insinuam maquinações, denunciam tramoias, dão eco a rumores a partir de tudo e de nada, semeiam ventos que não raro resultam em tempestades.
Pois sim, é o futebol que há. E é para quem quer. Por mim, sim senhor, de pantufas, e em vez de cachecol, uma pinga de vez em quando.
Diverti-me com o Braga, com o Boavista e com os três do costume. Hoje acaba. Valeu a pena. Tudo vale a pena se a alma não é pequena disse o poeta, que não consta que
fosse à bola.
Campeonatos a decidirem-se na última jornada foram alguns. O primeiro de que me lembro, ainda nos anos quarenta. ficou conhecido como «o do pirolito». Ganhou o Sporting por um golo de diferença e o Diário Popular dizia no dia seguinte que se fosse na Inglaterra o Benfica teria sido campeão, por dispor de melhor cociente ou lá o que era. Mas não foi. O Sporting, porque perdeu no Lumiar por 3-1 e foi vencer no minúsculo Campo Grande (de facto era 28 de Maio, mas quem é que dizia uma barbaridade dessas?) por 4-1, com quatro golos de um tal Peyroteo.E não foi só: numa das derradeiras jornadas, o Sporting foi perder a Setubal, por 1-0; mas o Benfica, em casa, perdeu com o Elvas por 2-1, com dois golos de um tal Patalino.Dizia um amigo meu que «estava escrito».
De outro, ainda do Século passado, em 55, o Belenenses precisava, na última jornada, de vencer o Sporting, nas Salésias. Estava empatado com o Benfica, mas beneficiava de ter empatado na Luz, novinha em folha. A cinco minutos do fim, invasão na Luz! Pela Rádio ouviu-se o golo do Sporting, nas Salésias. O Árbitro foi simpático e esperou que meia dúzia de polícias e alguns jogadores empurrassem os invasores para fora do relvado. Entretanto, em Belém o jogo terminava. Na Luz jogaram-se os últimos minutos e depois foi a nova invasão. Otto Glória estreava-se a ganhar.Com ele o futebol português levou uma volta. Mas isso é outra história.

Ainda a Televisão

Acabo de ver na RTP2 um programa de uma produtora acerca da História Ibérica, amplamente documentada sobre a História de Portugal. Imagens cedidas, obviamente, pelo chamado arquivo da Televisão Portuguesa.

A RTP2, ou qualquer outra coisa que hoje se lhe chame, pagou um preço justo, devido, por tal produção, que vem sendo exibida desde há alguns dias, falada em castelhano, o que obriga a legendas (por enquanto) em português.

Pergunta-se: mas não há gente em Portugal para - utilizando os mesmos recursos - fazer uma série televisiva com outra perspectiva (mais portuguesa), outro ritmo, evidenciando mais capacidade técnica e mais sensibilidade aos temas abordados? Será que das inúmeras produtoras independentes de Televisão em Portugal não surgiu uma proposta para um programa deste género? A própria televisão perdeu capacidade para produzir?

A Administração da RTP, ou lá como se chama, diz: não! Porque, em Portugal é fácil fazer compras como se fosse à loja dos trezentos , já que a indústria do audiovisual está completamente destruída e, para tentar sobreviver, já rasteja. Mas ainda não barafrusta! - não responde e não provoca . Não tem capacidade para responder ao poder. Muito gostaria eu de ainda poder presenciar um protesto a sério dos resquícios da indústria do audio-visual, deixados pelo ex - (felizmente) ministro Morais Sarmento e do seu CA da RTP, cujos negócios, obviamente, vão ter que se transferir para Madrid. Os portugueses vão ter que se contentar com a figura da sua muito celebrada correspondente, Rosa Veloso, cuja carreira jornalísitca sofreu um importante impulso com uma reportagem sobre os rótulos de um queijo da Serra da Estrela,

sábado, maio 21, 2005

As Antenas Internacionais da Televisão

Antes de ser um país de imigração como hoje já é - e dificilmente deixará de ser - Portugal foi, primeiro, uma terra de marinheiros, comerciantes, exploradores, viajantes e, depois um local de onde se fugia, se emigrava.
É justo pensar que todas estas circunstâncias tenham gerado em todo o Mundo núcleos de portugueses, de luso-descendentes, de gente com a memória de um ou mais portugueses na história da sua família.
Parece curial imaginar que esta proliferação de gente descendente de um minúsculo povo, espere e mereça um tratamento especial da parte de quem cá vive e, sobretudo daqueles que nos governam. Especialmente neste tempo de comunicação global, feita em tempo real, nesta época de globalização - um conceito novo para uma prática antiga.
Deveria, aliás, esperar-se que os governantes de Portugal projectassem as suas preocupações também para fora das fronteiras nacionais e conseguissem imaginar a Nação Portuguesa espalhada pelas sete partidas ( à semelhança do que conseguem os judeus de Israel, com os resultados que se conhecem).
Reconheço que é pedir muito a quem chega ao poder sempre com a caderneta da mercearia em atraso, mas uma pequena preocupação ficava-lhes bem...
Refiro-me às antenas internacionais da RTP. Uma delas, a de África pode ver-se em Portugal. Quer dizer: podemos ficar enjoados mesmo em Lisboa, no Porto, em Coimbra, no Algarve, no Alentejo, no Minho, etc. Basta ter TVCabo e ligar o canal respectivo. Aquilo é, de uma forma geral, um verdadeiro nojo.
Para quem viaja e resolve procurar nos hotéis por onde vai ficando a RTP Internacional, trata logo de desligar para não sair à rua envergonhado. Esquece e pronto. Já não está lá quem falou...
Ora, isto deve-se, seguramente, à política que tem vindo a ser seguida pelos vários CA's da RTP e também de algumas direcções de programação e informação.
Por exemplo: quando o Emídio Rangel chegou à direcção da RTP percebeu mal as contas e julgava que ao tirar autonomia à direcção das antenas internacionais, podia utilizar os orçamentos que lhes estavam atribuídos. Engano puro. A maior fatia era para o pagamento de satélites, pelo que a junção de todas as direcções resultou em grandes perdas para a programação internacional.
Hoje em dia, as chamadas antenas internacionais têm autonomia apenas para programar três ou quatro horas de emissão. O resto, o verdadeiramente inenarrável de tudo quanto é velho e revelho, de programas racistas, ofensivos mesmo, vem de outros canais, que para ali despejam todo o lixo possível e imaginário.
A imagem deste país no exterior, entre as comunidades ligadas de alguma forma à língua e à expressão portuguesas, e que neste momento tem um governo que se quer afirmar através de um choque tecnológico, é a de um sítio bonito mas muito mal frequentado, cheio de atrasados mentais e realidades pré-históricas.
Ora, nós sabemos que, felizmente, não é assim, pelo que é justo e curial afirmar que o actual Conselho de Administração da RTP está a cometer um "crime de lesa-pátria" e já devia ter sido chamado à pedra pelo ministro da tutela, o prof. Augusto Santos Silva. De resto, não seria mal pensado que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não deixasse de fazer sentir algum incómodo pela situação das chamadas antenas internacionais da RTP

MEA CULPA

Devo uma explicação a um leitor. Mas antes devo explicar que, por norma, nunca respondo ou comento a opinião de quem expressa seja desacordo ou concordância. Habitualmente quem se dá ao trabalho de ripostar é por desacordo. Para mim merece-me o mesmo respeito. Neste caso, o remoque critica-me o não ter identificado um poeta citado num texto, a propósito de um texto de Fernando Alves, no DN de domingo passado. Não foi um lapso. Não citei o poeta pela poesia dele.Evoquei-o como amigo a propósito de período histórico e sobre um assunto que suponho não ter sido divulgado.Guardo alguma relutância em querer aparecer na fotografia ao lado de. Mas posso acrescentar que o Virgílio referido no texto era Virgílio Martinho.E a roda era no Gelo...

SABER

O título fugiu-me. Acontece-me. Vou ver se escrevo de molde a servir o título. Saber o quê e sobretudo de quem? Não me lembro. Varreu-se. Sei que queria citar uma velha graçola, que se contava em português, com referências de fora. Era assim: um jornalista americano citava um artigo recente em que verberava uma decisão do seu presidente. E explicava com orgulho ao seu colega soviético, que na América , até se podia criticar o mais alto magistrado da nação. "Eu posso", sublinhava ele, orgulhoso, "dizer mal do meu presidente, percebe?".
"Claro que percebo", dizia o russo: "eu também posso dizer todo o mal que eu quiser do seu presidente"...
É o que se passa com o Santana. Tropeçou e caiu. Antes de tropeçar, subiu demais...
Ficou com a factura na mão.Mas não foi ele que encomendou a tragédia. Fora ele, praticamente sozinho que ganhou a Figueira da Foz, uma câmara que nunca fora do partido dele. Foi ele, sózinho a ganhar a Câmara de Lisboa e arrastou atrás o Rio que extravasou do Douro. Por ser ele. Por ser o que era. Alguns mais dotados, tanto que sabiam que nem valia a pena arriscar, ficaram quietos, a ver, e agoniaram-se, depois.
Mas não foi ele quem quis ir para Bruxelas, mas foi ele quem mais contribiu para a ascenção do outro. Do que se pirou. Do que optou por fazer mais por ele do que pelo partido ou do que pelo país, que tinha jurado servir.
É fácil bater num homem caído, ainda a cambalear da trovoada.Não é que me interesse. Não é guerra minha, já não sou de batalhas, mas ocorre-me, a propósito, citar um poeta, que suportou muito do pesadelo fascista: fazei todo o mal que puderdes/ e passai depressa...

sexta-feira, maio 20, 2005

A CONFUSÃO CONFUNDE

Tanto que uma pessoa se perde no emaranhado das explicações. Dou por exemplo as scut. A ideia é que não se pague portagem, mas...
Antes de seguir em frente, uma pequena marcha pela nacional cento e picos. O vai e vem começou a seguir ao businão na ponte. Uma manif de protesto por mór do aumento da portagem, logo apoiada pelo PCP, levou o PS a reboque. Foi um sucesso. Até então as diferentes greves não aqueciam nem arrefeciam. A Esquerda clamava por imensas adesões e o governo limitava a minúsculas percentagens. O businão surtiu efeito e obrigou o governo de Cavaco Silva a recuar. O que estava em causa era a forma como estava a ser construida a Vasco da Gama. Uma espécie de scut: ponte construida sem custos para o governo. O construtor construia uma ponte e explorava duas, durante uma porção de anos.
Foi então que do lado do PS começaram as críticas à política de asfalto do governo da direita, tanto mais que Cavaco Silva aparecia com a auto-estrada Viana-Porto à borla e um troço de Abrantes a Torres Novas, que deveria prolongar-se até Peniche e no entretanto sem custos.
Mas o pomo da discórdia passou a ser a CREL, que abriu com portagem. Defendia o PS que a CREL era uma rua urbana e que, portanto, não devia pagar.
Seguem-se eleições e o PS volta ao poder e sente-se obrigado a cumprir promessas feitas no ar.
Quer abulir a portagem na CREL, mas esbarra na BRISA, que apresenta a factura da obra. Era esse, pois o problema, que não havia sido equacionado pelo simpático ministro Cravinho. Os troços de auto-estrada sem portagem foram obra da JAE, do Estado, por conseguinte. Os troços com portagem eram obra das concessionárias, que entretanto passaram a ser mais do que uma e sujeitas a concurso público.
O que o governo de Guterres teve de fazer, para salvar a face, foi pagar a portagem de todos os veículos que circularam na CREL. Aliás, do mesmo jeito que fez com a Lusoponte, renegociou o contracto, prolongando o prazo, de modo a sustentar o agravamento de custo na Ponte, até que o comboio começasse a circular.
O problema mantém-se. Registe-se que a CREL é paga pelo utilizador e já lá vão três meses de novo governo socialista. Mas, atenção, também o ministro de Santana Lopes se propunha introduzir portagens na Viana do Castelo-Porto, na algarvia do Infante e na de Abrantes, estendida até à Guarda. A questão não é apenas saber quem paga, como se paga, mas a quem se paga? E porquê?
Podemos olhar o exemplo dos vizinhos. A Espanha construiu inúmeras auto estradas sem custos, mas fez também algumas com portagem. Também certamente teve mais e melhores apoios comunitários. Aproveitou-os bem. Ainda não os ouvi discutir sobre quem paga ou não paga, e eles também têm mudado de cor governativa.
O défice que anda na carteira do dr. Constâncio não resulta, estou em crer, de meia dúzia de quilómetros de asfalto de luxo; nem procurem motivações sociais. Se pretendem exibir ou conceder benefícios sociais desagravem os preços dos transportes colectivos urbanos e sub-urbanos e com isso poderão, se o desejarem cobrar portagem pelos acessos a Lisboa, Porto e outras cidades que o justifiquem...

quinta-feira, maio 19, 2005

Falar de Quê ?

Hoje alguém me interrogava sobre a minha capacidade (teimosia) em continuar a falar, discutir, interessar-me sobre a política portuguesa.
Defendi-me: as políticas dos outros países são iguais.
Destroçaram-me: o chefe do Governo de Espanha já decididu participar numa conferência internacional que vai realizar-se em Novembro e o Engº. Sócrates não decide a sua agenda com mais de quinze dias.
Fiquei aterrado: o primeio-ministro de Portugal vive com o medo do nascer do Sol. Não sabe o que lhe vai acontecer amanhã.
E, sendo assim, acho melhor desistir e começar a discutir os atributos do(a)s vizinh(o)as. Eles que são políticos que se entendam: Mas depois não venham clamar pelo voto. Começo a ficar mais do lado das Ak47.

VIAJAR NO TEMPO

Foi o Fernando Alves que escreveu a sua crónica no DN a falar de viajantes que trazem para o passado a manhã do futuro, que transitam de século em século, para a frente e para trás ao sabor do desejo. Só imagino um veículo capaz desses trajeto: o maximbombo do amor! O comum dos mortais viaja pelo tempo ido, às vezes com saudade mas não raro para mitigar as agruras do presente. Hoje, no mesmo matutino um cronista abalou de manhã para 45, o recomeço da normalidade depois da guerra. Evocou a ameaça que pairou sobre a Península Ibérica e o plano que previa a sua ocupação pelas forças nazis. Era um exercício de história e sublinhava a resistência possível ao salazarismo.
Recordo-me do efeito da guerra no meu dia a dia de outro modo que não o político. Em 44 houve exercícios que consistiam em saber o que fazer em caso de ataque. Em Lisboa, tivemos que colar fitas de papel nas janelas e saber como e quando seria necessário isolar a luzes nocturnas para o exterior ou mesmo apagar de todo.
Não mais que isso. Por essa altura o risco de invasão já seria improvável mas sobrava a probabilidade de ataques aéreos. À distância até disso duvido. Era no Inverno e, portanto, perto do final do ano e o cariz da guerra estava alterado. Penso, hoje, que podia ter sido uma forma de mostrar aos aliados que também nós temíamos a ameaça germânica...
O cronista não referiu, mas podia tê-lo feito para que se entendesse melhor o clima da época, que foi na Península que se testou a capacidade alemã de destruição aérea. Guernica foi arrasada desse modo e por essa razão.
E conheci o poeta desse tempo de contestação, de que fala a crónica. Pertenceu ao MUD juvenil.
Depois foi o Diabo. Fartou-se teimosamente depedir passaporte, teimosamente negado. Até que...
Até que teve o santo passaporte para concretizar o primeiro de todos os sonhos poéticos: ir a Paris!
O melhor que conseguiu foi chegar a Vilar Formoso. Na fronteira apreenderam-lhe o passaporte e mandaram-no de volta. De outra vez foi preso pela PIDE num café da baixa lisboeta, à hora do almoço. Teve outras, igualmente expressivas. Entrou para as bibliotecas itenerantes da Gulbenkian e foi colocado em Vieira doMinho. Num dos itenerários, ao chegar a uma aldeia os sinos tocavam a rebate. Nessa manhã, na missa, o padre tinha preconizado que os livros eram obras do demónio e estava a chegar uma camioneta cheia deles. A carrinha foi apedrejada.
Tempos depois foi um dos agentes da Polícia Política de Portalegre a denunciá-lo como perigoso comuna, de viver com uma preta e de só se dar com comunistas. Azeredo Perdigão quase despachou o sim, mas os responsáveis pela Biblioteca acharam melhor efectuar um inquérito preliminar. Concluiram que o denunciado vivia com a esposa, dra. Amélia (...) e que ao fim da tarde costumava tomar café no centro da cidade com o dr... (José Régio). O dr. Perdigão não achou graça e quis manter o poeta na Biblioteca de Portalegre. Foram os dois responsáveis a insistir que mais valia transferi-lo.
Por graça sempre revelo que o poeta, depois do 25 de Abril viajou para Moscavide, perdão Moscovo. Foi uma desilusão. Éramos amigos, mas ele nunca me falou da experiência viadante.
Soube por terceiros. Na última vez que falámos de política, e já vão poder imaginar quando foi, ele disse-me: "Se o Otelo só tiver um voto, não penses que foi ele que votou nele. Fui eu"...
Oh!Se ele regressou ao futuro, certamente estará com o Virgílio, velho camarada do Gelo, os dois a rir-se de nós e, quero crer, à minha espera...

terça-feira, maio 17, 2005

O Professor Augusto

O Gov. do Engº. José Sócrates prometeu, como medida mais importante, no caso de ganhar as eleições, um choque tecnológico. Mais importante porque ele seria a saída imaginativa para a crise ( todas as crises) - sem paraíso... e ainda bem.
E o que fez o seu governo para promover o tal choque? Até agora, nada.
Ora, a verdade é que o tal choque exigia um primeiro passo, logo anulado na composição e competências do governo. Um choque do que quer que seja - e muito menos tecnológico - não se faz sem um choque na comunicação.
Seria necessário convencer os "pobres sexagenários" de que um computador não morde, informar a juventede de que a saúde dos rios é tão importante como a das pessoas; informar as mulheres de que a sua diferença é apenas fisiológica e que a sua condição não as obriga a nada.
Tantas coisas mais!
E, para essas tantas coisas mais, o que fez José Sócrates? nomeou como ministro da comunicação um "santo senhor", que é, ao mesmo tempo, ministro dos assuntos parlamentares e que já veio, várias vezes, dizer que a comunicação tutelada pelo Estado está no melhor dos mundos.
Oh! prof. Agusto ( e, de repente, lembrei-me da Morgadinha dos Canaviais..) está ser enganado por alguém.
Então não percebe que aquela merda não tem concerto? Onde está a informação capaz de desencadear o choque tecnológico? É o, igualmente prof. , J. Rodrigues dos Santos, a abrir os trelejornais com o Benfica e o Sporting, com os desastres e os atentados e toda a sorte de desgraças - aconteçam elas onde acontecerem? Ou com o José Alberto de Carvalho a esforçar-se por cumprir um noticiário iditota com todos os seus colegas em greve?
Oh. Sr. prof Augusto caia na real. Aquilo precisa de uma volta. O Mundo de hoje, do sec.XXI, vive da informação, portanto, tudo quanto o seu chefe de governo diga que não se traduza num processo de comunicação, não existe ( mas não se tente pela contratação do João Líbano Monteiro, porque ele é pior que o Ricardo Salgado com o negócio das Lezírias...)
Prof. Augusto, peça já a demissão ou exija tratar da comunicação como deve ser e não diga, por favor, que os assuntos parlamentares lhe deixam livre muito tempo. Porque, a verdade é que o gabinete do ministro dos assuntos parlamentares também não mudou nada: continua a ser o cartório das pré-escrituras.
Prof. Augusto, repare que, mais de três meses depois de José Sócrates - e o sr., sr. prof. - terem tomado posse, estamos a ouvir o mesmo discurso de Durão Barroso. Até mesmo Jorge Coelho, que parecia discreto, já aparece a lançar culpas - justas , é certo - mas com o intuito claro de desculpar as suas próprias ( e não são poucas).
Querem um choque tecnológico? então construam uma comunicação social capaz de o fazer a sério. O resto é demagocia e medo: temos um primeiro ministro derrotado pela conversa dos economistas e um governo à espera da sua oportunidades de negócio.
E o que é que eu tenho a ver com isso? perguntarão vocês.
Começo a perder o gozo de me sentir português. Chega?

OS AMANHÃS ESTÃO NA SOMBRA

Mesmo o mais chegado. Um tipo pode prever, mas nada garante que acerte. Qualquer um pode prometer, mas nem o mais votado sabe se pode cumprir. Pode rezar-se à Virgem e a chuva não cair. Ter fé por si só não basta. Quantos crentes fervorosos não foram p'ro futebol sem chapéu de chuva e se lixaram?
Sinto-me, hoje, no dever de alentar os desalentados. Quando o Benfica ganha fico mais tolerante. Não é por ser mais crédulo, mais avisado ou mais reflectido: é por estar bem disposto. E, um pouco por não querer ficar a sismar no Boavista!
Que diabo! Por morrer uma scut não acaba a auto-estrada. Não é lá pelo homem da rádio ser pateta que a informação piorou: está na mesma, como a TV. A colega Sousa Dias está como menos graça, mas continua uma gracinha. O professor diante dela está pior. Ri-se mais mas está pior. A SIC faria melhor se pusesse o Herman no mesmo horário a fazer comentário político com aquela senhora do Nutícias...
Daqui a nada os alunos vão de férias. Vai tudo prá praia. Quem não tem fica a dever. O Avante fez justiça ao Estaline. Ele, sim, é um exemplo de tenacidade, de convicção e de patriotismo. É preciso matar 20 milhões? Ora, matem-se! Ora aqui está um jornal que melhorou imenso. Dantes não se acreditava, agora ainda menos. Puro preconceito. Mentir é a forma mais sublime de mostrar a verdade. Melhor que com qualquer outro, com o PCP não há incertezas. Sabemos todos com o que pudemos contar.
Vá lá, seus desalentados socilistas, levantem-se e caminhem. Façam justiça a Constâncio! Avancem com ele para Belém. Cuidado que os do Diário de Notícias andam a vender o dr. Soares (pai). Eles não são humoristas: têm alguma fisgada...

segunda-feira, maio 16, 2005

Quando É Que Isto Muda?

Confesso: este país começa a pôr-me maluco. Já não aguento mais a saloiada que se passa à minha volta: os ministros, com ar de senhores a dizer as mesmas coisas dos que se foram embora, as televisões com as mesmas caras, a fazer os mesmos disparates.
Hoje ouvi só um pouco ( o que consegui aguentar) da conversa do "prof. Marcelo". Meu Deus! Eu que até achava piada à senhora, à Ana Sousa Dias, fiquei arrepiado. Ele manipula-a totalmente. É pior ainda do que na TVI, porque lá, na televisão do Paes Amaral, o Júlio e todos os outros, estavam lá mesmo para aquilo, de calças em baixo.
Era suposto que a Ana - até porque se apresenta como entrevistadora com créditos firmados - não entrasse naquele jogo das pernas.
Além de que o chamado prof. representa o mesmo retrato de sempre de um país saloio, atrasado, a ouvi-lo como se ele soubesse tudo, como se ele tivesse alguma solução. Aquilo são só palavras, palavras, palavras, não sei quantas por segundo.
Depois, na mesma televisão (eu hoje estava mesmo com uma tendência masoquista) ouvi falar de uma canção portuguesa ( que, afinal, vai ser cantada em inglês) concorrente ao concurso da Eurovisão. No meio de algumas conversas interessantes apareceu um senhor, cheio de gravatas (ou era só uma?) chamado Nuno qualquer coisa, director não sei de quê, a defender a ideia de se cantar em inglês.
Só nessa altura, quando ele disse que o José Cid "estava a ficar velho, coisa em que eu, ele, não acredito", é que eu percebi que aquele 2B se lê "two bee" e que o programa estava a tentar mobilizar os portugueses a viver no estrangeiro para votarem na tal canção, cujo nome nem sequer fixei.
Está tudo doido!
Eu se fosse o José Cid ia à RTP mergulhar a cabeça do tal engravatado na entrada de uma ETAR.
Para mim, o pior de tudo é que nada muda e a minha esperança começa a esgotar-se - e a paciência também. Noutros tempos, quando isto me acontecia, ia-me embora.
PS
O título que eu queria mesmo escrever era : "Quando é que esta merda muda?" Pronto! Está escrito.
l

domingo, maio 15, 2005

A Explicação

Não basta dizer que este é um "governo de negócios". É preciso revelar algumas evidências.
Aí vão: o Ministério da Agricultura, por exemplo, tem um ministro de quem se falou apenas como funcionário da União Europeia. E o aparelho administrativo do ministério, quem o controla? Capoula Santos. Já não precisa dar a cara. Faz como o Ricardo Espírito Santo.
Claro que ainda vai ter que aprender muito, mas o princípio é o mesmo. Também não foi o Ricardo que mandou fazer o chamado massacre da baixa de Cassange ( um pequeno avião que lançou umas granadas defensivas para cima de um grupo de trabalhadores da CADA, uma empresa da família), mas ele aprendeu o suficiente para vergar a Companhia das Lezírias e gizar um plano para ficar com a terra em seu benefício.
Outro Exemplo: o Ministro das Obras Públicas, que ainda agora chegou e já está a defender uma ponte que passe por Benavente, com combóio e tudo. Está-se mesmo a ver que é, outra vez, o Espírito Santo a querer um transporte rápido junto aos seus empreendimentos turísticos e imobiliários.
Outro exemplo: a Televisão virou o negócio da fancaria. Não se pode ver. Nem os canais abertos, nem o cabo. Quem está por detrás disso?: Pinto Balsemão, Almerindo Marques, Paes do Amaral e Zenal Bava.
O primeiro já vendeu tudo quanto podia vender e agora continua a pressionar toda a gente que pode pressionar (enfim, pode chamar-se outra coisa a este pressionar...)
O segundo é um boçal que transformou a RTP e a RDP num mercado abastecedor de miséria cultural e informativa.
O terceiro, em nome dos negócios que iria fazer com o governo de Santana, despediu o amigo Marcelo; antes tinha feito todos os negócios possíveis com os colombianos.
Zenal Bava é um financeiro com ambições, quer ser presidente da PT e não percebe a ponta de um corno de televisão.
Todavia, o ministro Augusto Santos Silva está satisfeito com a política de Televisão que se desenvolve neste momento no país. Apesar de o seu primeiro-ministro ter assente todo o programa de governo no chamado "choque tecnológico".
Daaaa! Eiiii!!! seus idiotas, como é que se pode levar a cabo um choque tecnológico com uma indústria audio-visual entregue a meia dúzia de homens de negócios verdadeiramente trogloditas??
Ainda não entenderam que o tal choque tem que começar por uma informaçãop cultural activa, actual e dinâmica, capaz de celindrar homens com Balsemão Almerindo, Amaral e Bava?
Estas são algumas das razões por que considero que o primeiro-ministro é um homem com medo. As outras prendem-se com o facto de começar a governar com os mesmos argumentos de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite. Felizmente ainda não chegou ao período social-democrata seguinte, mas temo que lá chegue.

sábado, maio 14, 2005

SEGREDOS DE MULTIPLICAÇÃO

Acho que são cento e setental e tal os polícias de trânsito suspeitos de extorsão e abuso de poder que respondem em Tribunal à acusação que sobre eles recai.
Um recluso a cumprir pena por violação aproveitou algumas das saídas precárias para assaltar, roubar e violar três estudantes universitárias.
Um ex-ministro e um dirigente partidário próximo, bem como três gestores do grupo de empresas do BES foram indiciados num processo relacionado com tráfico de influências e financiamento ilegal de um partido político. A gestão ministerial da Defesa está igualmente a ser investigada pelo MP e, também neste caso, é envolvida outra empresa do grupo BES.
Os tempos não parecem ir bem. Deve ser da seca. Se Diógenes, mais a sua dele lanterna, passar por aqui vai ter muito que andar para encontrar alguém merecedor de cumprimentos
Um ministro da nova fornada já nos explicou como vai ser a recuperação. Obras! Muitas obras públicas, semi-públicas, obras altas e obras baixas; estradas e viadutos e pontes. Também já se fala e voltar a falar do novo aeroporto na velha OTA.
- E que fazer primeiro? - pergunta um optimista pasmado.
- Ora! Comprar um fato macaco - responderá o eterno desiludido desconfiado...
De facto, apetece mais brincar com a actualidade do que comentá-la em tom sério. O presente está repleto de casos dificeis de entender. Mas se é difícil perceber, também não deve ser fácil explicar.
No meio disto, ocorre-me um caso curioso: um agente da polícia, numa esquadra do Norte, disparou sobre um detido algemado e matou-o. Um deles era cigano. O que não era cigano justificou-se, alegando que tentou intimidar o detido, supondo que a sua arma estivesse descarregada.
O julgamento acabou com a sentença condenatória suspensa. Alguns dias depois, o guarda estava de serviço no aeroporto de Lisboa. O morto, que tinha sido cigano, continuava morto e definitivmente enterrado. Na altura do incidente, a senhor segundo comandante da PSP do Porto tinha revelado à CS que o detido se tinha suicidado. Nem deve ter sido considerado
suspeito de tráfico de influências.
Quero crer que, hoje, talvez fosse diferente. Por isto e por isso, nem valerá a pena sublinhar que financiamento de partidos sempre houve, salvo nos 48 anos que não houve partidos e o partido único tinha recursos de sobra e tráfico de influências é facto seguro que nunca faltou e teve muitos alvos, muitos destinos. Talvez por isso os últimos dias de bruá-á-á não tenham tido muito eco no parlamento, nem em sedes partidárias.
Não foi por acaso que misturei crimes sujos com colarinhos brancos. Nem só o crime está em foco, também o castigo (ou a falta dele). Quando um tribunal ordena que uma criança seja entregue a um pai com antecedentes de violência e a criança é morta é a legitimidade de um poder que se põe em causa.

As Condenações do Poder

Com o passar dos anos a gente habitua-se a ler as notícias, os gestos, as palavras. O actual governo de Portugal, três meses depois já permite uma leitura: é um governo dos negócios e o primeiro-ministro é um homem com medo.

Tudo isto quer dizer que a confusão se vai instalar dentro de pouco tmpo.

E basta!!! Não vale a pena gastar mais cera. É a condenação do poder político em Portugal.

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO

Quando, em Junho de 1944, o dr. Oliveira N'Dalatando inaugurou o Estádio Nacional, com pompa e circunstância, evidentemente, no Dia de Camões, também conhecido, à época, como "Dia da Raça", pelos bem aventurados do regime, eu tinha dez anos e já os conhecia, quer o citado Presidente do Conselho (monárquico praticante) e o presidente Oscar de Fragoso Uige, a quem também deixavam inaugurar as obras inauguradas, claro, pelo dr. Salazar. Não os conhecia pessoalmente, bem entendido, mas pelos retratos deles, pendurados nas paredes da escola, nas paredes de todos as escolas do país.
Como a guerra ainda não tinha acabado o Estádio podia ter a configuração imperialista germânica, de matriz romana, se preferirem. Uma festa. Muito Sol e muita música. Muitos meninos e meninas a fazer ginástica. O que é que importava que a Europa estivesse a consumir-se numa guerra medonha.
Nesse tempo não havia muitos carros. Nem se sabia o que viriam a ser horas de ponta. Mas quem quisesse e tivesse carro podia ter ido por auto-estrada até ao Estádio, desde as Amoreiras!
O viaduto ainda não se chamava, creio eu, Duarte Pacheco, porque o dito ainda estava vivo e ainda era ministro das Obras Públicas.
Eu fui de comboio. Um pequeno ramal, desviava na Cruz-Quebrada e deixava-nos perto do Estádio. O eléctrico também prolongou a linha até à Cruz-Quebrada.
Eu vi o Salazar na tribuna. O meu pai emprestou-me o binóculo. Espreitei e vi-lhe, juro que vi, as botas.
E finalmente o jogo. O que levou o meu pai a levar a família ao Estádio não foi o Camões nem a Raça, mas o Benfica-Sporting, que disputaram a primeira Taça Império. Não me lembro do jogo.
Acabou às escuras e o Sporting ganhou. O que retive mais daquele dia foi espanto por ver tanto polícia a cavalo e por ter visto as botas do senhor da tribuna.
Nesse tempo o Estado Novo impusera o racionamento. Um racionamento igual para todos que fossem iguais; os outros, os mais ou menos endinheirados, tinham de tudo, compravam de tudo. Os restaurantes também deviam cumprir a lei. Uma lei de opereta. Podia escolher da lista: sopa,um prato de peixe, um prato de carne, queijo e fruta ou doce. Para comer em casa era mais complicado. Havia senhas para o pão, senhas para o arroz, para o sabão, para o açucar e não sei para que mais. Nunca havia nos talhos a carne que se precisava, só da outra. Para ter acesso a bifes de vaca (como se dizia na época) era preciso desenvolver um intenso tráfico de influências, também conhecido por mercado negro.
Na minha escola, ao Conde Barão, a maior parte dos alunos ia descalça. Aos sábados tinhamos a Mocidade Portuguesa. Consistia em marchar, distinguir um chefe de quina de um chefe de castelo; aprender os hinos. Só uma vez em quatro anos assisti a uma distribuição de fardas. Para um desfile nos Restauradores e depois eléctrico até ao Jardim Zoológico. Não fui. Não havia farda para o meu tamanho (era minúsculo).
Na escola, o meu prof era o director. Um trasmontano de Chaves. Aprendi a ler e a fazer contas.
Não me ensinaram cultos religiosos.
Morava na Rua Victor Cordon, abaixo da António Maria Cardoso. Passava todos os sábados duas vezes à porta da PIDE, sem saber o que era, para ir e vir do Chiado Terrasse, o cinema da minha mocidade.
Ia a pé para a escola, mas o eléctrico custava cinco tostões. Telefonar das cabinas também, mas nunca telefonei. Não me lembro que na família alguém tivesse telefone. De vez em quando ia ao cinema à noite, com os pais, a meio da semana. O filme acabava a rondar a meia-noite. Os cafés na Baixa estavam todos abertos. Era altura de engolir um galão e um bolo. No Verão, gelados. A loja ao canto dos Restauradores ainda existe!
Patinhava-se a pé Chiado acima. Bastante gente. Tranquila. Não havia carros patrulha. Mas, aqui e ali havia sempre um polícia a cirandar devagar.
Claro que havia miséria e até havia espionagem de permeio, mas não era visível aos olhos de um garoto de nove/dez anos. Ouvi um tio uma vez referir-se ao Barreiro e o meu pai mandar-se à rua comprar cigarros. E ouvi e não percebi o meu professor ralhar alto a um rapaz descalço por causa de não ter caderno nem lapís. O miudo falou qualquer coisa de terem ido buscar o pai a casa. E rasgou-me meio caderno e deu-o ao rapaz. Durante uns dias, antes da saída, entregava um embrulho pequeno ao rapaz.
(continua, num dos próximos dias, se houver pachorra).

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO(2)

Das outras coisas eu pouco sabia. Da janela de casa via um pedaço do Tejo e à distância as fragatas de vela erguida, como canta Carlos do Carmo, pareciam brinquedos. Como as outras fragatas metálicas, as da Marinha, presas à boia, não pareciam ameaçar nada nem ninguém. Não estou a dourar a pílula. A vida não era tão tranquila como os olhos de menino a viam. Quando subia a encosta para o Castelo passava pelo Aljube, mas não sabia o que era, nem quem albergava. Nem sabia de Caxias ou de Peniche e menos ainda de Tarrafal. Nem tribunal especial com juizes capazes de julgar o injulgável.
À volta do rapazinho que lia o mosquito o mercado negro florescia. Pelo Norte o volfrâmio fazia excêntricos todas as semanas. Por Setubal arribavam, discretamente, navios alemães, para levar o minério.
Aos sábados havia um senhor que contava uma história pela telefonia e aos domingos era Alfredo Quádrios Raposo que fazia o resumo da primeira parte e o relato da segunda, de um jogo de futebol realisado à tarde. Algumas vezes vi o jogo e depois, em casa, ouvia o relato do mesmo jogo.
O meu pai ia por vezes, à noite, a Campo de Ourique ver filmes ingleses fornecidos pela embaixada. Junto ao Chiado, abaixo do teatro da Trindade, que se chamava teatro porque passava filmes, estava o Ginásio, que só dava filmes alemães. Devia ser a maneira mais hábil que se conhecia de exibir uma neutralidade, que em boa verdade nada tinha de neutral. Como seria de esperar o conceito de neutralidade foi evoluindo à medida que o avanço dos aliados já poucas dúvidas deixava sobre o desfecho da guerra. O Estado Novo era bem entendido pró-americano. Era tempo de saber dos judeus e dos campos de extermínio. O governo rezava e não escondia alguma preocupação. A oposição terá acreditado no milagre, mas não terá feito tudo por merecê-lo...

sexta-feira, maio 13, 2005

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO/3

Mas em 1947, quando Leitão de Barros encenou o Cortejo Histórico, para celebrar os oitocentos anos da tomada de Lisboa, a II Grande Guerra já lá ia. A Festa badalava-se pelas avenidas da Baixa. Género popular do melhor e não digo para memória futura porque a televisão ainda não devia estar inventada na Europa. Eu odiava que me levassem a ver. Era comum o género de manif populista pelas ruas. As marchas, pelos santos populares ou os cortejos com criaturas importantes. Os putos mais pacientes ficavam sentados nas bordas dos passeis horas a fio. Ou então ficava-se de pé, atrás das costas dos mais altos. Datam daí a maioria dos meus complexos.Mas era comum, lá isso era, amontoar pessoas ao longo das ruas e avenidas a ver passar e muitas vezes nem se vislumbrava o que passava ou quem passava. Mas podia bater-se palmas à vontade.De vez em quando consegui ver uma mãozinha a acenar dentro do carro. De uma fez foi o Franco, que veio a Lisboa. Não me recordo se vi só a mãozinha se vi o generalissimo todo, mas vi qualquer coisa.
Oito Séculos de História ficava bem num cortejo festivo e parecia marcar o fim do incómodo governativo com o desfecho da guerra. Suficientemente desmascarado, o fascismo já não incomodava. Mesmo assim, não dava jeito exibir uma ditadura muito severa. De todo conveniente enfeitar o regime e congeminar eleições para inglês ver o país do faz de conta. Os eléctricos eram de uma companhia inglesa; os telefones ainda não tinham espírito santo de orelha, eram anglo-portuguese qualquer coisa. O Vinho do Porto bebia-se na Inglaterra.
O cortejo de Leitão de Barros terminava com as quatro raínhas de Lisboa. A moral vigente ainda não suportava misses meio descascadas. A que ia mais no alto era a Lisboa Eterna era minha colega no Ateneu, uns dois ou três anos mais adiantada.
Pois é! Lisboa era uma aldeia. Daí a nada seria a NATO a vir estruturar-se em Lisboa. Era tempo de ver outra realidade: montes de polícias e metralhadoras pelos telhados, diante do Técnico. A ditadura tinha-se solidificado. Ninguém queria saber, ninguém quis e quando assim é a obra nasce.
Já se podia celebrar à vontade o 28 de Maio. Era a revolução que prevalecia, uma festa de militares, em honra dos que salvaram a Pátria. A Pátria tinha ar de estar um tanto farta de ser salva, mas os militares não tinham sensibilidade, nem percebiam que já pertenciam ao passado.
A ditadura concentrava-se num só homem e assentava numa polícia política. Por isso Spínola esteve na siderurgia de Champalimaud. Maria Armanda Falcão, quando foi preciso, foi com Maria Barroso ao Aljube, visitar Mário Soares.
À beira dos anos 60 reencontei a «Lisboa Eterna» na Parede.Vinha de Moçambique e reencontrava os amigos. Um belo dia fugiu com Manuel da Fonseca, que era dado a distrações.O grupo, de que também fazia parte Mário Henrique Leiria entretinha-se alegremente a escandalizar o comum dos mortais.
A guerra estava esquecida, apesar da Coreia e da Argélia estar a chegar e a Indochina estar a aquecer. Os dias plácidos sucediam-se. Goa estava tão longe. Ainda não havia pílula. Mas estava a chegar...
Faltava uma dúzia de anos, para tudo se acabar na quarta-feira. E começar de novo.

A OESTE ALGO DE NOVO

...E, de súbito, pessoas inesperadas começaram a ser inesperadamente detidas para averiguações e indiciadas e incomodadas. Dei por mim a ler uma qualquer insinuação sobre um avião depositado num banco estrangeiro, perdão, num aeroporto fora de portas, por razões mais estratégicas que económicas. Eu póprio dou por mim a fazer contas. Li algures, e acho que também ouvi, sobre a nova ponte sobre o Tejo, como assunto arrumado: do Carregado para Benavente. Com direito a comboio próximo futuro, que auto-estrada já lá chega. Parecia uma boa notícia, parecia, sim senhor...
Depois é isto, a maldição: não há paz entre as oliveiras ou sobreiros ou lá o que é. Estava em crer que desportivamente Benavente carecia de um jogo de matraquilhos. Mas novo, claro. Pode ser que um campo de golfe também sirva, mas numa coisa daquelas onde é que se mete a moeda?
Além disso ocupa um data de espaço, espaço que chegava de sobra para fazer mais dois ou três estádios de futebol novinhos em folha. E sempre se evitava ter o Benfica de ir jogar a Faro sempre que houvesse corrente de ar no Estoril.
E como a diplomacia do burgo estabeleceu tão cordiais relações com os E.A.U. porque não santificar o espírito da cordialidade, abrindo novas dependências da banca divina, no Dubai, purificados que estão os emirados?...
Seja como for, é necessário ponderar. Se as instâncias judiciais desatam a prender gente inesperada pode criar um problema delicado no largo do Caldas: o partido das imediações ficar sem fotografias para pôr nas paredes...
Mas solução economicamente viável podia encontrar-se por perto, ainda do lado de cá do rio, na linha de caminho de ferro do norte, onde se encontra a estação de Virtudes, onde os homens políticos deviam ter residência fixa e ajuramentada. Qualquer deles podia sempre afirmar-se como um homem de Virtudes. Sem receio de desmentido...

quinta-feira, maio 12, 2005

Notícias giras

Hoje um jornal de economia dizia, citando a Lusa, que indicava fontes "ligadas ao processo" - Ah! Ah! Ah! - que a PT iria reduzir o preço médio das chamadas em 9,8 por cento e passar as comunicações regionais para locais.

O jornal não disse, mas" fontes ligadas ao processso" acrescentaram que a Administração da PT pediu desculpa ao seu director de recurso humanos por apenas lhe conceder um prémio de 35.000 Euros pelo esforço desenvolvido para se ver livre de tanta gente trabalhadora.

O (a) braço direito teve um prémio de apenas 11.000 euros , mas, no futuro, ambos serão compensados pela grande batalha que estão a travar pela construção da empresa ideal: sem pessoas.

Essa será uma batalha vencida, quando o grande timoneiro, Zenal Bava, já presente em tudo quanto é programa televisivo, assumir definitivamente o comando da grande nau e a ancorar no Índico junto de um faustoso palácio digno das das mil e uma noites, onde não se comerá carne de vaca e se ornamentarão as paredes com as fitas enormes das contas dos supermercados portugueses: papel higiénico... sabonete lux... coca-cola... wisky...vinho casal da eira...

Vários Casos de Sucesso e de Seriedade

Um jornal lisboeta noticiava ontem que o Grupo Amorim se preparava para criar um Banco em Angola, tendo como sócia uma filha do presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos.

Ora aqui está uma jovem cheia de talentos!

Como é possível que com gente tão capaz, o país - Angola - continue a ser um dos mais pobres do Mundo, com uma população cada vez mais miserável, a morrer de doenças que já não existiam há dezenas de anos?!!!

Como é que se chama mesmo a senhora tão talentosa, capaz de ter um banco com um grupo tão sério?

Tão sério como o outro, o BES, que há anos e anos não desiste de deitar abaixo os sobreiros de Benavente para ali construir um complexo turístico, para o qual - evidentemente - muito há-de contribuir o Estado, já que se trata de um empreendimento de "evidente benefício público"

Vá lá que desta vez foram apanhados alguns dos administradores das centenas de empresas que compoêm o Grupo BES. Um deles, por curiosidade, tem o apelido de Horta e Costa, por certo, família do barão. Será ele o homem que sobe no avião estacionado em Espanha, ou é mesmo o barão?

Quando é que a PJ nos surpreende com a revelação?

quarta-feira, maio 11, 2005

SEMANA DESPORTIVA

Dificilmente o desporto nacional será tão pobre como no futebol. Pobre de mentalidade. Das mentalidades de árbitros, de dirigentes, de adeptos, de jornalistas, de todos: políticos quer dizer governantes, e povo.
Não há semana em que essa pobreza não fique a pairar por sobre a indigência de mente e moral do universos futebolístico. Com excepções evidentemente, mas de ordinário silenciosas.
Na RTP riparam na rapaqueca
O coração de Jorge Perestrelo, que viveu com o Benfica, começou a morrer em Amsterdão com o Sporting. Calhou. Mas a emoção com que gritou "Te amo, Sporting", ao golo do Sporting nos últimos segundos do desafio, sem dúvida que deram um empurrão num corpo, o seu, que estava para morrer.
Os benfiquistas da RTP é que não gostaram. E quando transmitiram a reportagem da sua morte, e o entusiasmo com que festejou a vitória do rival cortaram-se. Não obstante o ter repetido por, pelo menos e salvo erro, três vezes.
Critérios jornalísticos. Se a PIDE tinha critérios jornalísticos, porque é que os jornalistas da RTP não deveriam tê-los? Basta fazer zaping e confrontar os noticiários com os das parceiras da liberdade jornalística para ver que os têm mesmo. Graças a Deus. Como os outros aliás, que Deus é pela igualdade.
A democracia jornalística é que não tanto.
Pois eu, que não sou de felicitações póstumas, deixo aqui ao Rapaqueca um cumprimento. Foi talvez o primeiro retorno das palmas que bati e do dinheiro que gastei com o Benfica. O outro, que toda a gente sabe qual é.
Os directores
Naquilo que os dirigentes dos chamados três grandes se queixam sou tentado a quase dar-lhes razão. Aos factos de que se lembram: à penalidade que o árbitro não marcou, à deslocação que os prejudicou, à vista grossa que fez à violência dos adversários.
Quanto ao que esquecem é que não posso dar. Desconheço-a. Mas como aprendi na escola que a memória é selectiva, que normalmente faz a vontade ao seu portador, calculo o que esquecem e o porque esquecem.
Dava para gorda crónica. Uma resenha explicativa, e documentada, do risível em suas pessoas. Para o que não há tempo nem paciência. Mas para gastar umas linhas com eles há.
Para dizer que não vale a pena, por agora, perder minutos com o Pinto da Costa, quando os tribunais andam às voltas com o seu desportivismo.
Quanto a Vieira e seu lugar-tenente, Veiga, a pobreza é tanta que fazem dó. Para rir só quando se queixam dos árbitros. Com Damásio e Vale Azevedo são o retrato deste Benfica.
Agora a Cunha, o Dom Quixote dos futebóis, é conveniente lembrar que isso de paladino exige compostura. Lealdade. Aquilo que lhe falta para reconhecer as vezes em que os seus adversários são desfavorecidos a favor do seu clube. Lembram-se de M. Vinhas, para quem o importante era o desportivismo, não o ganhar?
O árbitro
Caiu o Carmo e a Trindade com a arbitragem do último Penafiel-Benfica. Porque o árbitro é do Benfica, e podia muito bem sê-lo sem escândalo e não foi; na dúvida foi até contra o Benfica. Do meu ponto de vista, pelo menos perdoou uma grande penalidade ao Penafiel. Se não foram duas.
E a propósito de um árbitro que se sabe que é do Benfica. Qual é o clube dos outros todos? Será que é a Polícia que terá de tomar a iniciativa de saber se foram honestos ou desonestos na declaração de tendência clubística? Ou não tem iomportância saber se foram ou desonestos ou honestos?
E os árbitros auxiliares
Com o objectivo de diminuir os atritos à volta dos foras-de-jogo, os reaccionários e pouco lúcidos dirigentes do futebol internacional, resolveram, desta vez bem, determinar que, no caso de dúvida, é de deixar seguir a jogada. O que, a ser cumprido, favoreceria a beleza do espectáculo e diminuia o risco de punir quem não prevaricou.
Só que os juízes de pau-na-mão apropriaram-se da determinação e fazem gala em assinalar as deslocações duvidosas. Não cumprindo com o que lhes mandaram cumprir, o que lhes dá oportunidade para serem desonestos as vezes que quiserem, obedecendo ou desobedecendo à directiva.
E os chamados jornalistas, que os do futebol são duma pobreza tão grande como o próprio futebol, por seu turno, fazem mira ao pé à frente ou atrás (20cms) que, na sua perspectiva, os autoriza a dizer se foi "ofessaîde" ou não foi. Brilhantes.