terça-feira, julho 19, 2005

LER JORNAIS É SABER MAIS

Se as contas não me enganam deve ter sido a um sábado que ocorreu em Lisboa um violento atentado terrorista que vitimou o Rei de Portugal e o príncipe herdeiro, seu filho. O DN de sábado comentava o atentado da "véspera", com um título de três linhas, a toda a largura da primeira página.
Li sôfrego, mas aquilo não era notícia. Era um comentário desastroso e não revelava rigorosamente nada. A notícia era da véspera e na véspera os jornais da tarde tinham feito sucessivas edições. Na manhã seguinte o DN comentava na primeira página e remetia para o interior o relato dos acontecimentos. Fiquei pior que estragado e jurei não voltar a comprar o pasquim.
Nem percebi se o articulista era estúpido, vaidoso ou se estava a rebolar de gozo. Não dava para entender. Se bem que um pequeno pormenor me chamou a atenção: «que dura e terrível lição para o moço príncipe que hoje começa tão imprevista e abruptamente o seu reinado! Oxalá o destino lhe seja mais favorável e os fados lhe corram mais propícios! Nada porém ajudará melhor a cumprir a altíssima missão em que subitamente se vê investido, do que o amor entranhado pelo seu povo e o respeito escrupuloso pela lei e pela liberdade».
Eram outros tempos. Os «assumptos» tinham outra importância. Ainda não se praticava a semana inglesa. Podia já ser um atentado suicida. Podia ter sido no Terreiro do Paço, depois do almoço do pistoleiro no Rossio. A tempo dos jornais da tarde darem a notícia, com grã cópia de
pormenores. No DN, neste, nada. Nada sobre o local, a causa, as horas, nem o como, nem o porquê, nem o quem.
Foi chato. Uma coisa é ter dado a matéria na escola, ter lido versões sobre a maquinação de eventual seita radical, outra o gozo de ler a notícia, nas páginas que tenho andado a ver desde 1864. O tempo passa a correr. Ainda me parecia que tinha começado no mês passado e já íamos em 1908, no segundo dia de Fevereiro, imediato ao regicídio. Perdi a fé no que me vão dar a ler daqui a «dois anos», em Outubro...
Hoje fingi que estava distraído e comprei o DN! E não é que era já do 5 de Outubro que se falava, na edição de 6 de Outubro de 1910. Sim, senhor, o país tinha sido «libertado»! Às onze da manhã
fora proclamada a República, na sala nobre dos paços do município. Cinco gravuras tipo passe mostravam o Dr. Joaquim Theóphilo Braga, que presidia ao governo. Como de frescos que eram
ainda não tinham complexos e anunciaram como ministro do Interior, o 2º da lista, o Dr. António José d'Almeida, cuja imagem evidenciava um homem determinado, de testa alta, bigode de pontas retorcidas e pera discreta. O Dr. Affonso Costa. Não, não era gago, eles é que escreviam assim mesmo e hoje nem sei se era forma gramatical ou pedantismo neo-modernista. Seja como for passou a ser ministro da Justiça. Para a Fazenda foi Bazílio Telles, que pelos vistos não era Doutor! Para a Guerra (dizia-se assim) António Xavier Correia Barreto, também sem Dr., o qual devia ser um teso e de família discreta, porque não tinha nenhuma letra a mais no nome, nem consoante nos apelidos!
Outro nome plebeu, sem ornamentos ortográficos, foi nomeado para outra pasta bélica, a da Marinha, era ele Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Para as Necessidades foi (deve ter ido se o ministério já fosse ali) outro ilustre Doutor, Bernardino Luiz Machado Guimarães. Outro Luiz, com zê, com Doutor e tudo, foi para as Obras Públicas e era ele um tal António Luiz Gomes.
Enquanto isso, o sr. governador Civil anunciava que «Ordem e trabalho» era a divisa da Pátria
(trabalho aparece com minúscula e vá lá saber-se porquê!) libertada pela República, enquanto «Pátria e Liberdade» surge como lema...
"Depois da proclamação sentiu-se como que um uníssono grito de entusiasmo".Oito séculos de monarquia tinham-se evaporado. O governo provisório da República saudava as praças de terra e mar que «como o Povo instituia a República, para felicidade da Pátria e confiada no patriotismo de todos»...
Onde é que eu já vi este filme?
Com alguma sorte, talvez, este fim de semana já devemos poder assistir à primeira Grande Guerra, a que se deve seguir o 28 de Maio, tão aguardado!
Mas seja como for é pena que o DN não tenha elaborado uns cadernos especiais, sobre determinadas matérias, apenas com informação noticiosa da época, com base no sumo das notícias, incluidos no jornal ou pagos à parte. Na manhã de 5 de Outurbro o DN pôs na rua pelo menos 4 edições especiais.O «filme» da queda da monarquia, visto à distância, teria sido um sucesso editorial. Retive no matutino de 2 de Fevereiro de 1908, que ia haver um jogo de futebol no campo de Sporting, ao Lumiar!
Numa infelizmente curta visita à Expo do DN, em Belém, pasmei com a viagem ao passado e sobressaltei-me pelo impacte que me causou as referências sobre a implantação do Caminho de Ferro no nosso País. Foi uma obra notável, bem diferente do que viria a ser o parque subterrâneo do Camões, um exemplo exemplar de como não se faz uma obra...

domingo, julho 17, 2005

Jornal "África"

Contam-me que, na RDP, a propósito de não sei bem o quê, se debateu um jornal que já não se publica há não sei quantos anos e que se dedicava exclusivamente à problemática africana. Segundo o relato que me fizeram o "projecto" foi considerado mesmo "heróico". Houve quem acrescentasse qualquer coisa sobre os financiamentos e linha editorial do tal jornal. Já li muito sobre a matéria - em tempos - porque há anos que já não se falava dele, mas nunca percebi que os mentores, construtores e fazedores do "África" alguma vez tenham sido ouvidos. E, ao que me consta, ainda andam por aí. Talvez fosse interessante descobrir se, por exemplo, o seu director tem alguma coisa a dizer a todos esses comentários.
Aqui fica a sugestão.

Os apanha-bolas

Existem em várias modalidades desportivas: no ténis, ficam agachados, junto à rede, nos enfiamentos dos vértices das marcações do campo e correm, um dum lado, outro do outro, com o intuito óbvio de propiciarem aos jogadores um jogo sem interrupções e a máxima concentração.
No futebol "vivem" por detrás dos placards publicitários, correm atrás das bolas, mas antes, entregam uma outra aos jogadores. O objectivo é impedir grandes interrupções no jogo e, nessa perspectiva, acelerar o ritmo do espectáculo.
No Volei também existem: fazem circular as bolas de um campo para o outro, de tal forma que, quando o jogador que vai servir tenha à sua disposição um "esférico".
Estou a falar dos apanha-bolas. Já toda a gente percebeu. Dos apanha-bolas bolas e não dos apanha bolas que passam a vida a tentar a agarrar todas as bolas, de papéis na mão, de corredor em corredor, escada acima, escada abaixo, a interromper todos os jogos, a meter-se mesmo em todos os jogos de cartas, sem nada entenderem e sem nada acrescentarem a cada passo que dão, a cada discussão que procuram ou interrompem.
Sãos os apanha-bolas sem utilidade e sem jogo. Que fazer?

sexta-feira, julho 15, 2005

FEIOS,PORCOS E MAUS

O sr. Valentim Loureiro reuniu um grupo de dirigentes de clubes de futebol, de segunda linha, bem endividados ou praticamente falidos, mais uma porção de senhores árbitros, aí uns quinze ou coisa que o valha, para dar a volta ao texto. Dar a volta ao texto quer dizer, como sabem, deixar tudo na mesma e deixar tudo na mesma, às vezes dá uma trabalheira do caraças...
Mesmo assim, eu pasmo. Que mais posso eu fazer, que não seja pasmar e resmungar? 'Tá tudo na mesma, sistematicamente na mesma! Mas este tudo engloba muita coisa e muita gente.
Começa na condescendência: "ele são assim"! pois é, eles são o que são, seja lá isso o que for, pois são, mas desde que se estabeleça que é gente que não interessa ao futebol, ou então é todo o futebol que não presta e alguns senhores da Costa e quejandos pintos são piores. Beras, muito beras, são os que mandam, e se dão ao luxo de mandar ficar tudo na mesma. Fico com a noção de que eu é que sou parvo.
E só agora é que descobriste?, pergunto-me a mim próprio, a lembrar-se que já há muito que devia saber que não adianta. Sei, claro que sei, mas sempre apetece chamar a atenção, porque é realmente premente chamar a atenção: eles são o que são, porque os deixam ser. E se os que deixam deixaram é porque ou são muito distraídos ou são da mesma cepa!
Em boa e honesta verdade o senhor Pinto foi escutado e o senhor Loureiro foi - oh! lá se foi! -muito escutado, e em diversdas vertentes. O advogado do senhor Pinto descobriu - e é para isso que ele é advogado! - que as escutas não deviam ter sido escutadas, por mais isto e mais aquilo,
logo o senhor Pinto e outros pintos e outros loureiros ficaram libertos de coacção limitativa.
Mas uma coisa é a Justiça e o competente Poder Judicial, repletos de princípios democráticos, e outra, diferente, a realidade dos factos. Eles foram escutados e o teor das conversas denunciado.
As leis do futebol são diferentes da rebaldaria da instrução de processos judiciais, o meio mais adequado que se conhece para deixar andar.
Não há como fugir da realidade. Se Salazar fosse vivo diria que no futebol o que parece é! Pior: eles sabem que nós sabemos, e que os da FIFA também sabem. E nós sabemos que eles sabem que nós sabemos. Também é verdaqde que em geral sabemos perfeitamente ser parvos, mas nem sempre.
A verdade no futebol tem que ser muito parecida ou então o caldo entorna-se. Mas como é que se pode acreditar no mundo da bola, se não há um - um só que seja!- que se levante e aponte: o rei vai nu...
Também, com este calor, que mal faz...

O Espanto

A cidade acordou alvoroçada. As autoridades proibiram a entrada de automóveis e mesmo autocarros só os não poluentes. Foi uma festa para os eléctricos, patinadores e ciclistas. E algumas velhinhas que já não saíam à rua desde o tempo do saudoso dr. Salazar se atreveram a dar uns passos no jardim , percorrer alguns metros na avenida.
Pares de espanhóis, recentemenmte chegados de Badajós exibiam o colorido das suas roupas, a graça dos seus penteados. Havia som de apitos e há quem diga que conseguiu ouvir entre alguns sambas uma cuíca desgarrada.
A cidade deslumbrou-se consigo mesma. As gentes cumprimentavam-se e comentavam a última obra prima do património público: como que caída do céu durante a noite, uma estátua de mármore imaculado ocupava a principal praça. E à sua volta, também surgidas do nada, belíssimas rosas com gotícolas de orvalho a deslisarem por suas pétalas acetinadas, marcavam o perímetro de segurança daquela estranha e belíssima estátua, toda coberta com o desenho de uma boca feito pelo arquitecto do Mundo e pintada com o batom mais vermelho de que há memória.
O rosto assim decorado era irreconhecível, mas adivinhava-se-lhe um sorriso de tão grande felicidade que as pessoas se interrogavam se tal poderia retratar-se em carne e osso.
A festa continuou todo o dia. Ao fim da tarde veio mais gente a espreitar o efeito do Sol a reflectir-se no vermelho daqueles lábios capazes de realçar a pureza do mármore em que a obra tinha sido apenas anunciada. Foi um dia de espanto que a cidade vai recordar para sempre.

NÃO SEI...NÃO VI...NÃO ESTAVA LÁ

Sopra uma brisa quente, abrasadora, sem graça. Vale que estou à beira da piscina. Um amigo aproxima-se com dois copos na mão. Um é para mim. Refastelado, dou por mim a pensar: quem não tem amigos não bebe! Reflectir nestas circunstâncias acentua a sede. Em geral preciso de vários amigos. Pelo menos um para me levar de carro e outro para me acolher, onde haja piscina e brandies a condizer. E, claro, intrigas a fervilhar. Retive uma deliciosa, na tarde passada e bem mergulhada. Tinha tudo a ver com um conhecido xerife, carente de televisão, referenciado como consultor do primeiro ministro para a área audiovisual da C.S.
Não se trata de discutir o "ranking" diário ou coisa do género, explica o que traz as bebidas sem gelo.
- Não tens gelo? - grita a mulher de um dos dois que estão do outro lado.
- Já vem! - diz o dono da casa, que prossegue: - A ideia é verificar os termos da concessão dos canais... Tás a ver?... Já se sabe que é temporal, mas imagina-se que se trata de renegociar...
- E então? - perguntei eu, que não gosto de gelo na bebida. -Não é assim?
- Pode não ser, pode não ser! A ideia - responde ele com um sorrizinho cínico - pode não ser essa. Pode ser a de confiscar a concessão de exploração do canal televisivo, com base na violação dos termos do contrato de concessão. Qualquer coisa serve... Sei lá... excesso de pub... abusos e imoralidades... menos espaços criativos...
- Mas o que é isso? - pergunta-se lá do fundo. - Isso é perseguição ou quê? Já não bastava o Salgado? Vem agora o próprio Socrates tirar o pão da boca ao homem?
- Não é nada disso! - interrompe o intriguista. - A ideia é pô-los em sentido. Ou amocham ou ficam a ver navios...
-Não dizes nada? - pergunta-me uma das madonas que vinha em busca de qualquer coisa para pôr no gelo. - Tás sempre a dar bafos...
Sorri e endireitei-me na cadeira, sem me preocupar com o copo, de todo vazio. Reflecti uns dois bons minutos e quis ser claro:
- Não sei! Não faço ideia!
Calei-me fui à cozinha, deitei mais um golinho no copo e, como quem não quer a coisa, saí para a rua, a pensar, com os meus botões de maior confiança: "Não querem lá ver, por causa da porcaria de um copo! Querem que um gajo se comprometa...

quinta-feira, julho 14, 2005

Os Reis e Rainhas do Nosso Mundo

Aquilo ali atrás ( é esquisito porque no blogue é à frente...) da civilização ocidental e mais não sei o quê, foi uma recaída. Um estilo que volta, outro que se vai e aqui estou a retomar estórias antigas de reis e rainhas - logo de felicidade - gente com capacidade para transformar um sorriso num reino e um reino num olhar que se espraia pela manhã e entra pelo fim da tarde.
Porque um rei quando chama pela sua rainha é ouvido por todo o povo. O povo fica contente, faz movimentar a roda da vida e aguarda, em silêncio recolhido, a resposta da sua (deles) rainha.
Para quê falar da civilização Ocidental, do Bush, dos muçulmanos ingleses, para quê tudo isso, se o mundo se pode resumir a uma bela estória de princípes e princesas?
Alguém acredita em mais alguma coisa?
Então, não andem de metro - que é perigoso, sobretudo para os claustrofóbicos.

quarta-feira, julho 13, 2005

NASCIDO DO MAR

Não foi no mar. Mas foi do mar que nasceu Portugal. Embora mais crescer que nascer. Mas isso são contas muito complicadas de fazer. De qualquer maneira, mais milímetro-menos milímetro, a dada altura o país ficou aquático. Até teve um império marítimo. E outro terrestre, mas o marítimo é que vem na história. Com marés, maresias e tudo. O Adamastor.
Agora Portugal voltou. Coisas do tempo. Está sempre a mudar a história e resolveu mandar os marinheiros para terra. No mar sobraram poucos, os que carregam petróleo e outra carga. Profissionais sem passado histórico, embora o país, no Oriente, também tenha sido recoveiro.
No entanto os portugueses quando voltaram tinham-se é esquecido de si. Gente hoje de passado sem presente. Como patos fora da água andam aos solavancos, pata-aqui-pata-ali. Gingam como os marinheiros em terra. Suspiram saudades de si porque deixaram de se ser. Até o Atlântico, que foi oceano, já só é praias.
Democracia, mas náutica
Saído do colonialismo a tempo de fechar a porta antes que lha fechassem, acabou com o ultramar. Mas ficou uma democracia marítima, da tanta água restante e da muita fabricada pelos nacionais: os democratas filhos de Salazar, os democratas filhos de Estaline e os democratas a quererem saber o que é isso de democracia.
No meio deles nasceu Alberto João Jardim. O Adalberto da copofonia. O gualberto da broncofonia. O Roberto das macacadas. O Liberto da incivilidade. O Florberto da grosseria. O Herberto não, por respeito ao Herberto Helder. Antes o Felisberto da monomania.
Da mania que é o dono dfa Madeira. Aprendeu que era como os patos em terra.
Lembram-se da FLAMA, ou lá o que era esse movimento dito de libertação? Lembram-se do medo de que os Estados Unidos apoiassem a independência da Madeira?
Esses sustos apanhados pelos democratas feitos à pressa que eram todos os portugueses ( quem não era?) foi a lição onde Floriberto se percebeu. Depois foi andando, andando na javardice até chegar aos gritos de filhos da puta. Porque o português não dá para mais.
Se desse, com a certeza que tem da cobardia de presidentes disto-e-daquilo, do partido à república, ele avançava. Portanto, os cínicos que dizem mal dele pelas costas, presidentes disto e daquilo, ministros daquilo e disto, dentro do partido e fora do partido, que não o culpem. Ele não tem culpa de o português ser uma língua pequena para o tão grande homem que é.
Cobardia jornalística
O momento mais importante da recente reunião da Assembleia da República onde o actual pupilo de Sócrates, o Platão possível, defendeu o seu orçamento rectificativo, foi aquele em que Louça apontou para a fuga ao fisco, praticada pelo Banco Totta. Para as quarenta e tal mil mudanças de banco-subterrâneo para banco-mais-subterrâneo que a patriótica instituição bancária fez com o objectivo de prejudicar a pátria. Diria Alberto João Jardim, se não fosse sacristão numa confraria da igreja off-shore, com o objectivo de foder a pátria.
As patrióticas televisões que ouvi focaram Louçã e transmitiram as palavras que disse. Mas passaram por cima do significativo silêncio do ministro perante tão grave acusação. De onde se conclui que ministro e jornalistas se puseram off-shore.
Cobardia jornalísitica II
O outro momento de importância maior foi aquele em que o ministro, réu dum défice orçamental de 6,2, passou a juiz e mostrou ao CDS e PSD que esse défice se encontra precisamente na linha dos défices dos últimos três anos. E anunciou os défices reais das gestões PSD/CDS.
Aqui as televisões omitiram as declarações ministeriais. É um off-shore curioso este da informação isenta. Puseram-se fora ou dentro consoante critérios jornalísticos.
Se culpas pecaminosas houver, são dos critérios não dos jornalistas. Nem dos prejuízos materiais nascidos dos défices fabricados.
A guerra das civilizações
Bush é um homem de sorte. Neto do petróleo e de amizades com descendentes de Maomé, emires petroleiros e coisas assim, foi aquilo a que se chama nascido de rabo virado para a Lua. E continuou assim na tropa, na faculdade, nos negócios em que meteu a pata na poça, nos copos em que a poça ia à pata, até que o elegeram presidente dos EUA. Um escândalo que correu mundo e com que ele pouco se importou. Nem se importa.
Mas à segunda foi eleito, à grande e à francesa. Nem um pio piou. Lá se foi por causa da guerra ou do medo terrorístico dos americanos-do-norte, isso de pouco interessa. A verdade é que foi, e foi mesmo.
Estava agora a perder popularidade. O seu povo, como Tresa Batista, já cansado de guerra, fartou-se da que ele tinha declarado acabada. Mas os seus terroristas de estimação voltaram a ajudar, (dá-lo a ele) com explosões em Londres. Longe dos Estados Unidos, como o excelentíssimo gosta. Daí que, com contida satisfação, o próprio em corpo e alma se assomou às imagens das Tvês a dizer palavras de indignação pela morte de inocentes. Ele que, à sua conta já mandou matar tantos que, a continuar assim, nem o substantivo inocência fica vivo para contar o massacre das inocências.
Um português que pensa
Cansado de ouvir os portugueses perguntar a Sócrates se vai aumentar, ou não, os impostos durante a legislatura, coisa que, a mudar como as coisas andam, ninguém sabe, e mais cansado ainda de sempre isso, todos os dias isso, a grosseria de Jardim já a jardinar por entre a mediocridade dos deputados que temos, quando li no "público", o jornal dos duros da linha Bush (José Manuel Fernandes e Pacheco Pereira), um trabalho de Jorge de Almeida Fernandes. Com cabeça, tronco e membros. A cabeça que às tantas escreveu:
Os americanos estão num atoleiro.
Irónico é que os países europeus estejam crescentemente reféns do Iraque. Recusar um papel na normalização do país é agravar a situação no Médio Oriente e subir exponencialmente os riscos para a sua própria segurança.
Sua. Da Europa e dos europeus, não dos Estados Unidos e dos estadunidenses. Leiam com atenção porque é raro dar com um português a pensar.
Bush e a ciência
A óptica científica não é de precipitações. E rejeita o facilitismo de entrar com adjectivos pela integridade mental de Bush.
Precisa de parar face às hipóteses de trabalho formuladas e exigir que sejam comprovadas. Mesmo quando as coisas parecem claras, como o subdesenvolvimento intelectual do presidente dos Estados Unidos.
Se o senhor sofrer de dismnésia algébrica pode muito bem entender que a mais de centena de milhar de mortos, matados à sua conta durante o exercício do cargo presidencial, é menor que as vítimas do terror fundamentalista acontecido em capitais do Ocidente. Nesta conformidade o homem não é tão selvagem como parece. É dismnésico.
Nome bonito que até lhe fica bem na lapela, ao lado dos emblemas foleiros que usa. Um toque de distinção na saloiada

terça-feira, julho 12, 2005

COMO OUTRORA

Tempos houve que Lisboa era mourisca. Ainda não haveria o bairro de Alvalade, mas já se devia subir a calçada do Poço dos Mouros. A Sé viria muito depois, assente sobre outras religiosidades, debruçadas sobre Alfama. O Castelo também,claro. Ainda não era de S.Jorge por certo. Nem sei o que seria a av. da Liberdade ou sequer se haveria a rua das Pretas. Já o poço dos Negros era mais provável. Mesmo nessa era remota haveria decerto quem pagasse a crise!
Nós, os lisboetas, eramos, bem entendido, mouros ou coisa equivalente. Muitos de nós nascemos e morremos naturalmente sob ditâmes arabescos. Saberiamos o que haveria a saber do Corão e de mesquitas.
Fomos invadidos pelos cristãos e martirizados por eles. Mais do que expulsos, fugiu-se alucinadamente. Mas a perseguição impiedosa dos cristãos empurrou-nos para o sul. Vamos deixar de fora os que se refugiaram em Castelo de Vide. Eram de outra religião, mas ainda assim diferente do cristianismo fanático, que emergia na Europa.
Foram incontáveis os nossos concidadãos expoliados e mortos, nem sei se alguns meus ancestrais, em nome da Fé cristã.
Oitocentos anos depois, mais minuto menos minuto, apanha-se o eléctrico para a Estrela, o mesmo que, em sentido inverso, leva turistas à Graça. Pertencemos a uma nova espécie( que teve origem, imaginem no Norte, à beira da foz do Douro!) ainda em formação, a europeia.
Mudamos de campo e de religião e se hoje em dia quisermos ter uma pálida ideia do que fomos não há como ir a Granada. Ainda há marcas de explendor. Ainda por lá ficamos algum tempo, mesmo depois dos cristãos portugueses arrecadarem para eles o Algarve.
Já depois de sermos portugueses patriotas e cristãos devotos, tratamos mui mal os judeus, mas é tempo perdido, não vale a pena falar disso: o dr. Mário Soares já pediu perdão.
Mas antes, ainda fizemos das feias no Brasil, dizimando os índios nativos, que nem sabiam rezar.
Bom, os castelhanos fizeram o mesmo no resto do Continente e os ingleses, um pouco mais acima!
Talvez tenhamos de mandar lá alguém pedir desculpa, embora os brasileiros que geramos deixem muito a desejar na matéria. Mas, princípios são princípios e assim como assim, Freitas do Amaral já ensaiou com os chineses...
Este nosso mundo foi sendo feito de tragédia. E parece que não está pronto! À laia de aviso lembro o poeta António José Forte: «...Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas os mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa».
E porque subsitem dúvidas sobre se o poeta é um visionário ou é simplesmente um fingidor, recorremos aos mesmo António J. Forte, que publicou em 1963:
« UM HOMEM
De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda»
Será da natureza humana ou maldição cósmica?

segunda-feira, julho 11, 2005

A Civilização Ocidental

A propósito dos ataques terroristas e dos perdões de dívidas aos africanos dei comigo a pensar nos perigos que a Europa corre, primeiro, por não ter lideranças credíveis e, depois por se confundir, em termos civilizacionais com os Estados Unidos.
De resto, a falta de lideranças é que permite a confusão civilizacional. Nenhum líder europeu consciente dos valores do seu continente permitiria qualquer confusão com a filosofia belicista, expansionista, verdadeira apologia da terra queimada defendida e praticada por Bush.
A civilização ociental teve já muitas interpretações, a pior das quais era traduzida pela expansão da fé. Hoje, felizmente, a chamada civilização ocidental tem a ver com a defesa dos valores da liberdade individual, garantias de protecção social, defesa dos mais desfavorecidos, dos desprotegidos, velhos e crianças.
São esses os valores da verdadeira Europa, daquela que, sendo velha, mantém uma eterna capacidade de renovação para proporcionar aos seus cidadãos o ambiente, o clima para uma vida tranquila, harmoniosa e onde a igualdade de oportunidades funcione como estímulo de valorização pessoal.
Estes valores não têm nada ver com o neo-liberalismo económico dos Estados Unidos levado ao extremo pela irracionalidade dos conselheiros de Bush e também não se idenficia com a exploração de mão de obra escrava leva a cabo na China, na Índia e em outros locais, que, aproveitando a generosidade da chama "civilização ocidental", entraram na disputa de mercados organizados sem cumprirem, pelo seu lado, nenhuma regra.
Os europeus têm, por isso, que voltar a redifinir-se. Não podemos oferecer o nosso espaço, a nossa organização à conquista de verdadeiras barbáries que escravizam nas suas terras as suas gentes. E neste saco entram, de igual forma os Estados Unidos ( onde a pobreza galopa a olhos vistos), a China e todos os outros.
Assim como também não me parece justo que se perdoe a dívida dos africanos sem critério. Em muitos casos, as dívidas representam o resultado da corrupção dos estados que dizem representar os respectivos povos.
Sejamos exigentes: obriguemos esses governos à prestação de contas.
Provavelmente - dizem alguns - também já é tarde: os chineses estão a atirar dinheiro para cima de tudo quanto pode significar energia.
E donde vem o dinheiro dos chineses? Do seu sistema de exploração desenfreado das mais valias dos seus trabalhadores, escravizados ao peso da necessidade de uma malga de arroz para sobreviver.
Em conclusão: a Europa, por falta de liderança, está a pagar duramente o facto de não se ter prevenido contra estes inimigos poderosos, um dos quais - os EUA - utiliza para sua própria definição, a matriz europeia.

domingo, julho 10, 2005

A Rita Está Doente

A Rita é um doce. Atrevida. Tem talento, mas acha que é só piada. Adora comer, mas sofre porque se acha gorda. Tem uns olhos escuros, de sevilhana, que escondem todos os gramas que uns belos caramelos de Badajoz, ou de outro lado qualquer, fabriquem.
Ficou doente a Rita. Uma gastroentrite - aquilo que noutros tempos se chamava uma caganeira e se curava com dois dias a água de arroz, mas arroz mal lavado.
Está triste a Rita. Verdadeiramente triste, embora entenda que os quilos perdidos são batalhas ganhas.
Todavia, a tristeza dela é que é sincera:a Rita gosta de bons pitéus, bom queijo, bom marisco (arroz, ou feijoada). A Rita gosta de tudo o que faz as pessoas felizes, mas agora está doente, triste, mas continua a ser um doce, cheia de talento, alegria de viver contagiante. Amanhã a Rita já não estará doente e não vai precisar da canja de galinha. Essa eu prometo.

A Minha Outra Heroína

Tem inteligência de jogadora de xadrez. Joga a cada minuto que passa. Exaspera-se porque o adversário leva muito tempo a fazer a jogada seguinte e ela já tem o jogo na mão. Conhece por antecipação todas as jogadas e diverte-se ( mas também sofre) contrariando a jogada seguinte.
É uma fuga. Encontrou o seu próprio sistema para viver num país onde o xadrez não existe e toda a gente é jogador de bancada e contente por nada verdadeiramente palpável. Mais do que uma fuga é um entretenimento. Junta ao jogo da previsão dos movimentos do "adversário", o outro, fatal, o das palavras. É exímia. Acrescenta-lhe a manipulação do sorriso - que é capaz de colocar na voz.
Acontece uma vez em muitos anos, mas acontece. Tem um único problema esta minha outra heroína: continua a insistir em que os outros - todos os outros - também são gente. Ei!!! alguns são, mas outros não voam, são lesmas.

Incêndios e Terrorismo

Os incêndios em Portugal têm várias origens, diversas explicações, mas há duas sobre as quais não restam dúvidas e que recorrem ao mesmo método: fogo posto.
Há os que recorrem a ele por simples prazer, por algo que pode ser identificado como terrorismo, já que tem como único objectivo a destruição. É gente perturbada, muitas vezes - a história não deixa dúvidas - trabalham e são militantes das corpoprações de bombeiros - ( tal como a fronteira entre o polícia e o ladrão é ténue, ela também é frágil entre o bombeiro e o incendiário).
Há outro tipo de incendiário, aquele que quer os seus 15 minutos de fama, de celebridade: ao incendiar o que quer que seja, desde que a televisão apareça e dê notícia, é ele que ali está. É a sua obra ou a sua terra que são faladas.
São casos patológicos, alimentados pelo gosto que as televisões têm pelas imagens das chamas. Desede que haja incêncio há abertura de telejornal, há espaço para tiradas poéticas, apontamentos de reportagem cheios de colorido.
São os repórteres do fogo, fazem o apelo ao fogo, ao crime. Eles, que são destacados para o terreno, como uma espécie de heróis com capacidade para ouvir as vítimas, falar com o bombeiro que "há mais de 24 horas luta contra as chamas" e fazer o retrato dos "soldados da paz" exaustos. Sem os incêndios aqueles pedaços de prosa rebuscados não existiriam.
Tudo isto para dizer que as nossas televisões - aquelas que temos, que Cavaco que nos deu - são, em grande parte, responsáveis pelo aumento espectacular do número de incêndios que acontecem em Portugal.
Há, todavia, outras razões, mais substanciais, que aproveitam a televisão, os bombeiros e os tresloucados, capazes de deitar fogo à própria casa para aparecer na televisão, ainda que de forma projectada.
Estas é que deveriam começar a ser analisadas com algum cuidado pelas autoridades. É que os incêndios de Verão correspodem - quase sempre - a uma recomposição do sistema fundiário. Nas zonas onde os incêndios acontecem com muita frequência - é só olhar o mapa - também está a acontecer uma concentração da propriedade.
Os pequenos proprietários de pequenos pinhais, normalmente a viver em grandes centros urbanos, que iam buscar aos pinheiros vendidos uns extras para obras na casa de Lisboa ou do Porto, para o casamento da filha, para uma viagem, rapidamente percebem que o tal pinhal que o avô deixou pode ser - ou já é - fonte de aborrecimentos. O melhor é vender.
Veja-se o que acontece nas regiões do pinhal. Compare-se.
Os jornalistas que se apresentam aos olhos do povinho como heróis, ali à mão de sememar das chamas, deviam perder mais tempo a investigar a recomposição da propriedade, por exemplo, nos distritos de Castelo Branco, Coimbra, Viseu, etc.
Um última nota: os ingleses resolveram impedir o acesso a jornalistas dos locais onde deflagraram bombas no metro e num autocarro, resultado, ao que tudo indica, de uma acção terrorista. Acho que o Ministério da Administração Interna deveria proibir a captação de imagens dos incêndios que ocorrem todos os verões em Portugal. Na sua maioria - embora por razões diferentes - são actos de puro terrorismo. Não merecem publicidade- não a devem ter.

sábado, julho 09, 2005

A TEMPO

Quando hoje ainda é ontem aparece a frustração. Já tinha ouvido na Rádio e até visto imagens na Televisão quando, na rua, comprei o jornal e o folheei e vi Londres em festa e Paris a varrer a feira. A Bolsa londrina refulgia de ganhos. Nada daquilo era mentira, mas Londres estava de rastos e a Bolsa estava negativa. O terrorismo era o assunto da Informação. O jornal que eu tinha na mão era, afinal, um conjunto de memórias, como o caderno fotocopiado de Séculos atrás.
Houve tempo em que a Rádio não emitia notícias e Televisão não havia. Os jornais eram a fonte
do conhecimento do que ocorria no Mundo e nesse mundo cabia a nossa terra.
No tempo em que comecei a olhar os jornais já havia Censura. Eu nem sabia o que era, mas o jornais informavam os leitores que «este número foi visado pela comissão de...», mas tal não impedia dessem conta do que ia por esse mundo fora, com mais detalhe do que ocorria nos assuntos internos.
Mas já havia noticiários na Rádio. Tenho ideia de que a EN encerrava a emissão, após o noticiário da meia-noite, com o Hino Nacional. Mas os jornais não eram minimamente atingidos pela concorrência. Sempre que havia acontecimento fora do fecho da edição, preparava-se uma segunda tiragem e, não raro mais, como era o caso da Volta a Portugal em bicicleta. Os vespertinos eram mais vocacionados para esse folclore, mas frequentemente os matutinos reapareciam nas bancas e nas vozes dos ardinas a meio da manhã.
Deve ser conveniente lembrar que os tempos eram outros. Os jornais dispunham cada um de oficinas próprias e de distribuição própria e muito embora o equipamento gráfico nem sempre fosse o último grito, funcionava.
A questão que se coloca, hoje em dia, não é a do profissionalismo ou de falta dele, mas de impotência.É preciso saber primeiro se a oficina tem ou espaço para imprimir outros jornal; depois se a distribuidora de imprensa dispõe de meios para efectuar uma distribuição singular.
Não dá. Na melhor das hipóteses é preciso que o jornal seja avisado da morte súbita do Papa, 48 horas antes do passamento. E nenhum honesto terrorista se disporá a avisar das explosões no metro nem na véspera. Foi um dia de azar para a Imprensa, mas também um aviso: é preciso melhorar a capacidade de resposta...

sexta-feira, julho 08, 2005

MISTÉRIOS URBANOS

Hoje abri o envelope da Epal. Raramente me dou a tal incómodo, deve ser por mór da depressão.
Não esperava encontrar grandes alterações no valor da factura da água. Valor que cresce com aborrecida frequência. Mas hoje dei-me ao cuidado de ler o resumo, nem sei se por qualquer resquício masoquista. E pasmei!
A água consumida em casa valia 0,88 euros. Não se pode dizer que fosse caro, mesmo dando de barato que a casa está quase sempre vazia e o neto que de vez em quando lá dorme não é muito de banhos. Mas o total da factura atinge os 11,85 euros! Espantoso! Por me vender água, a Epal cobra 6.71 euros. A CML, essa, arrecada 3,88 euros, que divide entre Saneamento Fixo (2,01 euros), Saneamento Variável (1,23 euros) e Adicional (0,64 euros).
Saneamento Fixo suponho saber o que seja; Saneamento Variável creio ser o saneamento que umas vezes não há e outras não é preciso; Adicional presumo ser como a tasca do galego, no antigamente lisboeta, que no fim da conta do almoço, botava sempre «a.v.s.p.» 12 tostões. Um dia um cliente reparou na parcela e perguntou o que aquilo queria dizer e o tasqueiro explicou:
«a ver se passa»...
Para completar a factura faltava o IVA (0,64 euros), que surge numa rúbrica alucinada: Serviços
Prestados (?) , talvez o incómodo de contar as moedinhas...
Concluindo. Ainda eu me preocupo em não fazer negócios com ciganos! E isto com uma empresa pública! Estava outra vez enganado. Não é pública porra nenhuma. É simplesmente Empresa Portuguesa de Águas Livres, sociedade anónima. Ocorre-me à memória um amigo fixe, que já lá está,muito apreciador de tinto alentejano, mas que também bebia branco, além de algumas aguardentes, me ter dito uma vez, quando me viu tomar um comprimido: «Olha, meu filho, quem bebe água merece tudo o que lhe aconteça».
Parece que sim!...

quinta-feira, julho 07, 2005

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA

A nódoa pinga sempre, dê lá por onde der. O pano, esse, seja de que qualidade for, é que se mete debaixo. Meter-se debaixo tem os seus riscos e alguns inconvenientes, mas até os alcatruzes o sabem, não se pode estar constantemente por cima. Bom, adiante, não se inquietem, não mudei de estilo, nem estou a ensaiar erotismo saloio. Simplesmente a ganhar embalagem para chegar ao assunto e, confesso, devo estar a ser influenciado, na forma, por um candidato assumido à Câmara de Lisboa, que me encanta com a sua postura, que eu creio seja filosófica, que o distância da plebe, sobretudo a jornaleira, que manifestamente o enfada. Sorri para ela enfastiado e só então diz o que lha apraz.
Não fora a influência e, decerto, já iria na adjectivação contundente, a escrever que aqueles tipos uns filhos da mãe e outros, provavelmente, nem isso! Não querem lá ver que uns se estão nas tintas e os outros ensandecidos pela avidez. Perdão! Embalei antes do tempo. Ainda nem expliquei da origem do furor. Pois, que não vá o sapateiro além da chinela. Vamos lá rebobinar
e recomecer pelo início. A Comissão Nacional de Protecção de Dados chumbou o projecto de instalar câmaras de videovigilância nas auto-estradas, que constava no Orçamento Rectificativo.
A posição da CNPD já vem detrás. Há uns anos as autoridades policiais tentaram em Guimarães
instalar um sistema de vigilância electrónica à zona histórica da cidade, alvo de vandalismo vergonhoso. A Comissão não vai em vergonhas e recusou.
Agora a situação quase se repete, mas a gravidade do que está em causa é bem mais delicada.A vigilância das auto-estradas, que permita identificar prevaricadores ou, melhor que isso, inibir
alguns dos excessos que tornam as auto-estradas portuguesas as mais sinistradas da Europa, não pode avançar por pruridos sobre direitos e liberdades.
Não se entende bem que direitos ou liberdade sejam coarctadas pela vigilância vídeo nas auto
estradas. É talvez mais um destes casos em que a letra da Lei se sobrepõe ao espíto dela.
Aceito que desta vez subsista o direito à reserva: a determinação aparecer incluida no Orçamento Rectificativo. Deixa, assim, de ter conteúdo para se tornar um impopular esquema de caça à multa.
O importante não é que se facture muita coima, mas que amaine o fluxo de excessos e diminua a sinistralidade. Podia-se puxar as orelhas ao governo, sem chumbar a medida. De facto, os direitos constitucionais não vão tão longe quanto se pode pensar ou como pode parecer. Ninguém é livre de pôr em risco a vida alheia nem tem o direito de se eximir às responsabilidades pelos actos que pratica, seja a onde for e mesmo nas estradas ou sobretudo nelas.
E a verdade é que se algum cidadão comum for a um banco depositar economias ou solicitar um empréstimo para ir de férias à Mautitânia, sujeita-se a ser vigiado, tal como, de resto, se for à estação de serviço abastecer o automóvel de gasolina, pode ser vigiado por câmaras de vídeo e se for na auto-estrada não o pode ser? Porque é que nuns casos não se violam os direitos e liberdades das criaturas e no outro, sim?
Não será legítimo que alguém de luto olhe qualquer um dos ilustres senhores da Comissão e não lhe reconheça direito ao mínimo de consideração ou mesmo que o considere responsável moral pela sua dolorosa solidão?
Sejamos claros: a videovigilância das auto-estradas pode ser, em Portugal, o único meio eficaz de normalizar o tráfego e desse modo reduzir a sinistralidade. Mas sejamos coerentes: em vez de um faminto Orçamento Rectificativo, que seja a Assembleia da República a decidir, com o aval
de Belém...

A estória

Quem me lê habitualmente já adivinhou o fim da estória que prometi ontem: ela, jovem ( 24, ou 25?) vai ganhar o seu lugar, lutando e rindo, mas com fibra ( antes torcer que quebrar).

Ela, todavia, vai continuar a ser portuguesa e, um dia, muito mais tarde, entre as suas gargalhadas contagiantes e os pesos mortos instalados à sua volta, vai reconhecer que, apesar de tudo, valeu a pena a luta.

Porquê? porque se divertiu com a vida, porque cimentou, consolidou os seus princípios e, inclusivé, foi capaz de os transmitir a outros - jovens e menos jovens, capazes e menos capazes.

Um dia - e eu ainda vou ver - ela vai confirmar que vale mais ser optimista. O mundo do "diz que disse" vai continuar a passar-lhe ao lado e, embora lhe possa provocar mossas, o fim da estória desta aminha heroína vai ser uma garagalha. Força.

quarta-feira, julho 06, 2005

Água fresca

Tenho uma estória para vos contar de uma jovem com 24 ( ou serã0 26?) anos. Começa o dia a dar explicações de inglês e de mais não sei quantas coisas. Chega a horas para fazer o seu "trabalho" de devoção. Entusiasma a "populaça", com a sua alegria a vontade de viver. Nos intervalos, vai atendendo uns telefonemas e resolve problemas familiares. Ralha, quando perecebe que a companhia de seguros a está a enganar com as questões da morte do pai em acidente de trabalho e pemanece uma verdadeira Lady Di na hora de falar com uma vedeta de TV, da ciência ou tecnologia.
A estória fica para depois.
Boa noite. Sonhos de luta , um acordar ligeiro e água fresca!

FAZ DE CONTA /2

Era um bando, noutro canal. Augusto Mateus falava, falava, mas não dizia nada. Ao lado, Belmiro sorria e o sorriso do patrão lusitano dizia muito mais. Um deles era pateta, nem me lembra quem e de que é que era rico. Havia outro que não gostava de espanhois. Então não é que eles queriam o TGV em Badajoz! Oh! E porque eles querem...
Os espanhois estão a tratar da rede ferroviária deles e, naturalmente, de forma a prolongar-se para além das suas fronteiras. Eles não obrigam o pateta do senhor rico a ir por Badajoz para chegar a Madrid. O senhor pateta (que fazia sorrir o senhor Azevedo) pode, se quiser, ir por Marvão, desde que trate ele da linha e, depois, convença os espanhois em prolongar o seu devaneio: ir de TGV até Madrid.
Entretanto Augusto Mateus ia falando, falando e o senhor Belmiro ia sorrindo, reduzindo Augusto a nada. Depois, o próprio Belmiro de Azevedo mostrou o seu desagrado contra o projecto do comboio da modernidade. Nada contra o comboio mas contra o custo. Vir do Porto a Lisboa em menos de duas horas não compensa o preço. Pois não. Eu gosto de comboios e acho que qualquer comboio confortável que efectue o trajecto nas tais duas horas e meia que já efectuou, quando a linha não tinha ainda consumido alguns milhões em melhoramentos, é muito razoável. Mas a questão, e eu peço desculpa de não ser rico, não é essa. A opção por comboios de alta velocidade não é para chegar mais depressa à Malveira, mas sim às outras cidades europeias da Europa. E o comboio é bom para isso. Reconheço que pela nossa parte não precisamos de super comboios, mas precisamos de rede, precisamos de linhas e de tráfego regular que nos leve a nós e nos traga muitos visitantes de longe, de muito longe e que cheguem depressa. Porque da nossa parte, só temos de chegar à fronteira.
Sei do que falo. Já tomei o TGV genuino em Paris com destino a Lisboa. O dito sai e a primeira paragem é em Bordeus, qualquer coisa como seiscentos e picos quilómetros. Calma, nada de excitações. O percurso é rápido, umas três horas. Mas, depois, calma. Depois a ideia é despejar
gente pelas zonas balneares. Pára-se cada quarto de hora, até à fronteira, onde ainda não havia
nenhum comboio de alta velocidade com destino a Lisboa. Viaja-se uma longa noite por Espanha e chega-se a Vilar Formoso ao romper da aurora. Alguns dormem, outros conversam. Alguns sofrem.
Na maioria, os passageiros são portugueses, emigrados em França. Pelo caminho entram e saem
muitos espanhois. Os que ficam no comboio antiquado, habituados, habituaram-se e são gentis para os neófitos. Com o tempo e com a adaptação, trocaram o comboio pelo avião, até porque os preços aligeiraram no ar e agravaram-se nos caminhos de ferro.
Seja como for, o que está em causa não é ir mais depressa a Campanhã, pessoalmente só lá vou empurrado. A questão é saber se vale a pena criar condições para que se possa ir a Madrid, como quem vai a Braga, ou ir ver os filhos ou conhecer os netos a França, à Bélgica ou Suiça, do mesmo modo que (não) se vai a Fornos de Algodres.
Já na questão do aeroporto na Ota manifestamos (só me falta ser rico) o mesmo ponto de vista, eu na Net, ele no debate, não se deve trocar Lisboa. Ele defende que se deve dar mais espaço aos aeroportos de Faro e Porto. Nós por cá aceitamos a Ota, como complemento, ficando Lisboa como apeadeiro da comunidade europeia, durante o dia.
Havia outros senhores ostensivamente ricos, é verdade e deviam estar cheios de razão, mas não me lembro quem eram, nem o que é que disseram...

FAZ DE CONTA

De facto, é a falar que a gente não se entende. Foi só um pedaço. Ao fim do dia já não há paciência. Apanhei Vitorino no caminho e o assunto era o perdão das dívidas aos países africanos.O estratega socialista é um bom conversador, sabe do que fala e, sobretudo, sabe falar. E também sabe, olaré se sabe, não falar do que não deve. A jornalista, claro, queria empurrá-lo para a velha questão: os africanos passam fome, têm imensa Sida, quer dizer são imensos milhões com a doença. Mas têm líderes ultra milionários. E muita da ajuda internacional foi parar aos bolsos dos ditadores.
António Vitorino sorriu, com um sorriso muito simpático, disse um pois é, mas...
O que um simples mas, pode ser venenoso. A corrupção, explicou, não esteve apenas nos que receberam, também foi dividida por alguns dos que deram!
Pessoalmente sempre acreditei que a corrupção é como a água benta. Um corrupto teve de ser corrompido senão não é corrupto nem é nada.
Para dourar melhor a pílula ele acrescentou que, desta vez, o plano de ajuda humanitária terá observadores atentos. Se forem suficientemente atentos talvez possam compreender como um país com jazidas de diamantes e com petróleo tem gente a morrer à fome.