domingo, julho 10, 2005

A Minha Outra Heroína

Tem inteligência de jogadora de xadrez. Joga a cada minuto que passa. Exaspera-se porque o adversário leva muito tempo a fazer a jogada seguinte e ela já tem o jogo na mão. Conhece por antecipação todas as jogadas e diverte-se ( mas também sofre) contrariando a jogada seguinte.
É uma fuga. Encontrou o seu próprio sistema para viver num país onde o xadrez não existe e toda a gente é jogador de bancada e contente por nada verdadeiramente palpável. Mais do que uma fuga é um entretenimento. Junta ao jogo da previsão dos movimentos do "adversário", o outro, fatal, o das palavras. É exímia. Acrescenta-lhe a manipulação do sorriso - que é capaz de colocar na voz.
Acontece uma vez em muitos anos, mas acontece. Tem um único problema esta minha outra heroína: continua a insistir em que os outros - todos os outros - também são gente. Ei!!! alguns são, mas outros não voam, são lesmas.

Incêndios e Terrorismo

Os incêndios em Portugal têm várias origens, diversas explicações, mas há duas sobre as quais não restam dúvidas e que recorrem ao mesmo método: fogo posto.
Há os que recorrem a ele por simples prazer, por algo que pode ser identificado como terrorismo, já que tem como único objectivo a destruição. É gente perturbada, muitas vezes - a história não deixa dúvidas - trabalham e são militantes das corpoprações de bombeiros - ( tal como a fronteira entre o polícia e o ladrão é ténue, ela também é frágil entre o bombeiro e o incendiário).
Há outro tipo de incendiário, aquele que quer os seus 15 minutos de fama, de celebridade: ao incendiar o que quer que seja, desde que a televisão apareça e dê notícia, é ele que ali está. É a sua obra ou a sua terra que são faladas.
São casos patológicos, alimentados pelo gosto que as televisões têm pelas imagens das chamas. Desede que haja incêncio há abertura de telejornal, há espaço para tiradas poéticas, apontamentos de reportagem cheios de colorido.
São os repórteres do fogo, fazem o apelo ao fogo, ao crime. Eles, que são destacados para o terreno, como uma espécie de heróis com capacidade para ouvir as vítimas, falar com o bombeiro que "há mais de 24 horas luta contra as chamas" e fazer o retrato dos "soldados da paz" exaustos. Sem os incêndios aqueles pedaços de prosa rebuscados não existiriam.
Tudo isto para dizer que as nossas televisões - aquelas que temos, que Cavaco que nos deu - são, em grande parte, responsáveis pelo aumento espectacular do número de incêndios que acontecem em Portugal.
Há, todavia, outras razões, mais substanciais, que aproveitam a televisão, os bombeiros e os tresloucados, capazes de deitar fogo à própria casa para aparecer na televisão, ainda que de forma projectada.
Estas é que deveriam começar a ser analisadas com algum cuidado pelas autoridades. É que os incêndios de Verão correspodem - quase sempre - a uma recomposição do sistema fundiário. Nas zonas onde os incêndios acontecem com muita frequência - é só olhar o mapa - também está a acontecer uma concentração da propriedade.
Os pequenos proprietários de pequenos pinhais, normalmente a viver em grandes centros urbanos, que iam buscar aos pinheiros vendidos uns extras para obras na casa de Lisboa ou do Porto, para o casamento da filha, para uma viagem, rapidamente percebem que o tal pinhal que o avô deixou pode ser - ou já é - fonte de aborrecimentos. O melhor é vender.
Veja-se o que acontece nas regiões do pinhal. Compare-se.
Os jornalistas que se apresentam aos olhos do povinho como heróis, ali à mão de sememar das chamas, deviam perder mais tempo a investigar a recomposição da propriedade, por exemplo, nos distritos de Castelo Branco, Coimbra, Viseu, etc.
Um última nota: os ingleses resolveram impedir o acesso a jornalistas dos locais onde deflagraram bombas no metro e num autocarro, resultado, ao que tudo indica, de uma acção terrorista. Acho que o Ministério da Administração Interna deveria proibir a captação de imagens dos incêndios que ocorrem todos os verões em Portugal. Na sua maioria - embora por razões diferentes - são actos de puro terrorismo. Não merecem publicidade- não a devem ter.

sábado, julho 09, 2005

A TEMPO

Quando hoje ainda é ontem aparece a frustração. Já tinha ouvido na Rádio e até visto imagens na Televisão quando, na rua, comprei o jornal e o folheei e vi Londres em festa e Paris a varrer a feira. A Bolsa londrina refulgia de ganhos. Nada daquilo era mentira, mas Londres estava de rastos e a Bolsa estava negativa. O terrorismo era o assunto da Informação. O jornal que eu tinha na mão era, afinal, um conjunto de memórias, como o caderno fotocopiado de Séculos atrás.
Houve tempo em que a Rádio não emitia notícias e Televisão não havia. Os jornais eram a fonte
do conhecimento do que ocorria no Mundo e nesse mundo cabia a nossa terra.
No tempo em que comecei a olhar os jornais já havia Censura. Eu nem sabia o que era, mas o jornais informavam os leitores que «este número foi visado pela comissão de...», mas tal não impedia dessem conta do que ia por esse mundo fora, com mais detalhe do que ocorria nos assuntos internos.
Mas já havia noticiários na Rádio. Tenho ideia de que a EN encerrava a emissão, após o noticiário da meia-noite, com o Hino Nacional. Mas os jornais não eram minimamente atingidos pela concorrência. Sempre que havia acontecimento fora do fecho da edição, preparava-se uma segunda tiragem e, não raro mais, como era o caso da Volta a Portugal em bicicleta. Os vespertinos eram mais vocacionados para esse folclore, mas frequentemente os matutinos reapareciam nas bancas e nas vozes dos ardinas a meio da manhã.
Deve ser conveniente lembrar que os tempos eram outros. Os jornais dispunham cada um de oficinas próprias e de distribuição própria e muito embora o equipamento gráfico nem sempre fosse o último grito, funcionava.
A questão que se coloca, hoje em dia, não é a do profissionalismo ou de falta dele, mas de impotência.É preciso saber primeiro se a oficina tem ou espaço para imprimir outros jornal; depois se a distribuidora de imprensa dispõe de meios para efectuar uma distribuição singular.
Não dá. Na melhor das hipóteses é preciso que o jornal seja avisado da morte súbita do Papa, 48 horas antes do passamento. E nenhum honesto terrorista se disporá a avisar das explosões no metro nem na véspera. Foi um dia de azar para a Imprensa, mas também um aviso: é preciso melhorar a capacidade de resposta...

sexta-feira, julho 08, 2005

MISTÉRIOS URBANOS

Hoje abri o envelope da Epal. Raramente me dou a tal incómodo, deve ser por mór da depressão.
Não esperava encontrar grandes alterações no valor da factura da água. Valor que cresce com aborrecida frequência. Mas hoje dei-me ao cuidado de ler o resumo, nem sei se por qualquer resquício masoquista. E pasmei!
A água consumida em casa valia 0,88 euros. Não se pode dizer que fosse caro, mesmo dando de barato que a casa está quase sempre vazia e o neto que de vez em quando lá dorme não é muito de banhos. Mas o total da factura atinge os 11,85 euros! Espantoso! Por me vender água, a Epal cobra 6.71 euros. A CML, essa, arrecada 3,88 euros, que divide entre Saneamento Fixo (2,01 euros), Saneamento Variável (1,23 euros) e Adicional (0,64 euros).
Saneamento Fixo suponho saber o que seja; Saneamento Variável creio ser o saneamento que umas vezes não há e outras não é preciso; Adicional presumo ser como a tasca do galego, no antigamente lisboeta, que no fim da conta do almoço, botava sempre «a.v.s.p.» 12 tostões. Um dia um cliente reparou na parcela e perguntou o que aquilo queria dizer e o tasqueiro explicou:
«a ver se passa»...
Para completar a factura faltava o IVA (0,64 euros), que surge numa rúbrica alucinada: Serviços
Prestados (?) , talvez o incómodo de contar as moedinhas...
Concluindo. Ainda eu me preocupo em não fazer negócios com ciganos! E isto com uma empresa pública! Estava outra vez enganado. Não é pública porra nenhuma. É simplesmente Empresa Portuguesa de Águas Livres, sociedade anónima. Ocorre-me à memória um amigo fixe, que já lá está,muito apreciador de tinto alentejano, mas que também bebia branco, além de algumas aguardentes, me ter dito uma vez, quando me viu tomar um comprimido: «Olha, meu filho, quem bebe água merece tudo o que lhe aconteça».
Parece que sim!...

quinta-feira, julho 07, 2005

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA

A nódoa pinga sempre, dê lá por onde der. O pano, esse, seja de que qualidade for, é que se mete debaixo. Meter-se debaixo tem os seus riscos e alguns inconvenientes, mas até os alcatruzes o sabem, não se pode estar constantemente por cima. Bom, adiante, não se inquietem, não mudei de estilo, nem estou a ensaiar erotismo saloio. Simplesmente a ganhar embalagem para chegar ao assunto e, confesso, devo estar a ser influenciado, na forma, por um candidato assumido à Câmara de Lisboa, que me encanta com a sua postura, que eu creio seja filosófica, que o distância da plebe, sobretudo a jornaleira, que manifestamente o enfada. Sorri para ela enfastiado e só então diz o que lha apraz.
Não fora a influência e, decerto, já iria na adjectivação contundente, a escrever que aqueles tipos uns filhos da mãe e outros, provavelmente, nem isso! Não querem lá ver que uns se estão nas tintas e os outros ensandecidos pela avidez. Perdão! Embalei antes do tempo. Ainda nem expliquei da origem do furor. Pois, que não vá o sapateiro além da chinela. Vamos lá rebobinar
e recomecer pelo início. A Comissão Nacional de Protecção de Dados chumbou o projecto de instalar câmaras de videovigilância nas auto-estradas, que constava no Orçamento Rectificativo.
A posição da CNPD já vem detrás. Há uns anos as autoridades policiais tentaram em Guimarães
instalar um sistema de vigilância electrónica à zona histórica da cidade, alvo de vandalismo vergonhoso. A Comissão não vai em vergonhas e recusou.
Agora a situação quase se repete, mas a gravidade do que está em causa é bem mais delicada.A vigilância das auto-estradas, que permita identificar prevaricadores ou, melhor que isso, inibir
alguns dos excessos que tornam as auto-estradas portuguesas as mais sinistradas da Europa, não pode avançar por pruridos sobre direitos e liberdades.
Não se entende bem que direitos ou liberdade sejam coarctadas pela vigilância vídeo nas auto
estradas. É talvez mais um destes casos em que a letra da Lei se sobrepõe ao espíto dela.
Aceito que desta vez subsista o direito à reserva: a determinação aparecer incluida no Orçamento Rectificativo. Deixa, assim, de ter conteúdo para se tornar um impopular esquema de caça à multa.
O importante não é que se facture muita coima, mas que amaine o fluxo de excessos e diminua a sinistralidade. Podia-se puxar as orelhas ao governo, sem chumbar a medida. De facto, os direitos constitucionais não vão tão longe quanto se pode pensar ou como pode parecer. Ninguém é livre de pôr em risco a vida alheia nem tem o direito de se eximir às responsabilidades pelos actos que pratica, seja a onde for e mesmo nas estradas ou sobretudo nelas.
E a verdade é que se algum cidadão comum for a um banco depositar economias ou solicitar um empréstimo para ir de férias à Mautitânia, sujeita-se a ser vigiado, tal como, de resto, se for à estação de serviço abastecer o automóvel de gasolina, pode ser vigiado por câmaras de vídeo e se for na auto-estrada não o pode ser? Porque é que nuns casos não se violam os direitos e liberdades das criaturas e no outro, sim?
Não será legítimo que alguém de luto olhe qualquer um dos ilustres senhores da Comissão e não lhe reconheça direito ao mínimo de consideração ou mesmo que o considere responsável moral pela sua dolorosa solidão?
Sejamos claros: a videovigilância das auto-estradas pode ser, em Portugal, o único meio eficaz de normalizar o tráfego e desse modo reduzir a sinistralidade. Mas sejamos coerentes: em vez de um faminto Orçamento Rectificativo, que seja a Assembleia da República a decidir, com o aval
de Belém...

A estória

Quem me lê habitualmente já adivinhou o fim da estória que prometi ontem: ela, jovem ( 24, ou 25?) vai ganhar o seu lugar, lutando e rindo, mas com fibra ( antes torcer que quebrar).

Ela, todavia, vai continuar a ser portuguesa e, um dia, muito mais tarde, entre as suas gargalhadas contagiantes e os pesos mortos instalados à sua volta, vai reconhecer que, apesar de tudo, valeu a pena a luta.

Porquê? porque se divertiu com a vida, porque cimentou, consolidou os seus princípios e, inclusivé, foi capaz de os transmitir a outros - jovens e menos jovens, capazes e menos capazes.

Um dia - e eu ainda vou ver - ela vai confirmar que vale mais ser optimista. O mundo do "diz que disse" vai continuar a passar-lhe ao lado e, embora lhe possa provocar mossas, o fim da estória desta aminha heroína vai ser uma garagalha. Força.

quarta-feira, julho 06, 2005

Água fresca

Tenho uma estória para vos contar de uma jovem com 24 ( ou serã0 26?) anos. Começa o dia a dar explicações de inglês e de mais não sei quantas coisas. Chega a horas para fazer o seu "trabalho" de devoção. Entusiasma a "populaça", com a sua alegria a vontade de viver. Nos intervalos, vai atendendo uns telefonemas e resolve problemas familiares. Ralha, quando perecebe que a companhia de seguros a está a enganar com as questões da morte do pai em acidente de trabalho e pemanece uma verdadeira Lady Di na hora de falar com uma vedeta de TV, da ciência ou tecnologia.
A estória fica para depois.
Boa noite. Sonhos de luta , um acordar ligeiro e água fresca!

FAZ DE CONTA /2

Era um bando, noutro canal. Augusto Mateus falava, falava, mas não dizia nada. Ao lado, Belmiro sorria e o sorriso do patrão lusitano dizia muito mais. Um deles era pateta, nem me lembra quem e de que é que era rico. Havia outro que não gostava de espanhois. Então não é que eles queriam o TGV em Badajoz! Oh! E porque eles querem...
Os espanhois estão a tratar da rede ferroviária deles e, naturalmente, de forma a prolongar-se para além das suas fronteiras. Eles não obrigam o pateta do senhor rico a ir por Badajoz para chegar a Madrid. O senhor pateta (que fazia sorrir o senhor Azevedo) pode, se quiser, ir por Marvão, desde que trate ele da linha e, depois, convença os espanhois em prolongar o seu devaneio: ir de TGV até Madrid.
Entretanto Augusto Mateus ia falando, falando e o senhor Belmiro ia sorrindo, reduzindo Augusto a nada. Depois, o próprio Belmiro de Azevedo mostrou o seu desagrado contra o projecto do comboio da modernidade. Nada contra o comboio mas contra o custo. Vir do Porto a Lisboa em menos de duas horas não compensa o preço. Pois não. Eu gosto de comboios e acho que qualquer comboio confortável que efectue o trajecto nas tais duas horas e meia que já efectuou, quando a linha não tinha ainda consumido alguns milhões em melhoramentos, é muito razoável. Mas a questão, e eu peço desculpa de não ser rico, não é essa. A opção por comboios de alta velocidade não é para chegar mais depressa à Malveira, mas sim às outras cidades europeias da Europa. E o comboio é bom para isso. Reconheço que pela nossa parte não precisamos de super comboios, mas precisamos de rede, precisamos de linhas e de tráfego regular que nos leve a nós e nos traga muitos visitantes de longe, de muito longe e que cheguem depressa. Porque da nossa parte, só temos de chegar à fronteira.
Sei do que falo. Já tomei o TGV genuino em Paris com destino a Lisboa. O dito sai e a primeira paragem é em Bordeus, qualquer coisa como seiscentos e picos quilómetros. Calma, nada de excitações. O percurso é rápido, umas três horas. Mas, depois, calma. Depois a ideia é despejar
gente pelas zonas balneares. Pára-se cada quarto de hora, até à fronteira, onde ainda não havia
nenhum comboio de alta velocidade com destino a Lisboa. Viaja-se uma longa noite por Espanha e chega-se a Vilar Formoso ao romper da aurora. Alguns dormem, outros conversam. Alguns sofrem.
Na maioria, os passageiros são portugueses, emigrados em França. Pelo caminho entram e saem
muitos espanhois. Os que ficam no comboio antiquado, habituados, habituaram-se e são gentis para os neófitos. Com o tempo e com a adaptação, trocaram o comboio pelo avião, até porque os preços aligeiraram no ar e agravaram-se nos caminhos de ferro.
Seja como for, o que está em causa não é ir mais depressa a Campanhã, pessoalmente só lá vou empurrado. A questão é saber se vale a pena criar condições para que se possa ir a Madrid, como quem vai a Braga, ou ir ver os filhos ou conhecer os netos a França, à Bélgica ou Suiça, do mesmo modo que (não) se vai a Fornos de Algodres.
Já na questão do aeroporto na Ota manifestamos (só me falta ser rico) o mesmo ponto de vista, eu na Net, ele no debate, não se deve trocar Lisboa. Ele defende que se deve dar mais espaço aos aeroportos de Faro e Porto. Nós por cá aceitamos a Ota, como complemento, ficando Lisboa como apeadeiro da comunidade europeia, durante o dia.
Havia outros senhores ostensivamente ricos, é verdade e deviam estar cheios de razão, mas não me lembro quem eram, nem o que é que disseram...

FAZ DE CONTA

De facto, é a falar que a gente não se entende. Foi só um pedaço. Ao fim do dia já não há paciência. Apanhei Vitorino no caminho e o assunto era o perdão das dívidas aos países africanos.O estratega socialista é um bom conversador, sabe do que fala e, sobretudo, sabe falar. E também sabe, olaré se sabe, não falar do que não deve. A jornalista, claro, queria empurrá-lo para a velha questão: os africanos passam fome, têm imensa Sida, quer dizer são imensos milhões com a doença. Mas têm líderes ultra milionários. E muita da ajuda internacional foi parar aos bolsos dos ditadores.
António Vitorino sorriu, com um sorriso muito simpático, disse um pois é, mas...
O que um simples mas, pode ser venenoso. A corrupção, explicou, não esteve apenas nos que receberam, também foi dividida por alguns dos que deram!
Pessoalmente sempre acreditei que a corrupção é como a água benta. Um corrupto teve de ser corrompido senão não é corrupto nem é nada.
Para dourar melhor a pílula ele acrescentou que, desta vez, o plano de ajuda humanitária terá observadores atentos. Se forem suficientemente atentos talvez possam compreender como um país com jazidas de diamantes e com petróleo tem gente a morrer à fome.

terça-feira, julho 05, 2005

Crianças

Parada, a sorrir, de carapinha em tranças, aquela criança, quando por ela passei, estendeu-me a mão. De olhos negros, enormes, a rir

Era uma rua de Lisboa, apinhada de gente.

E ela, ali, a olhar para mim. A mãe - percebi depois- conversava com uma amiga. Problemas, confidências, troca de esperanças. A pequenita estendeu-me a mão, pequenina!!!
Segurei-a e ela pôs-se a caminhar junto a mim.
Assustou-se, a mãe. Quase ralhou, mas, no ar, ficou, apenas um gesto, a surpresa. E veio o sorriso. A filha tinha, afinal, conquistado, com a sua simpatia, simplicidade e desejo de ver o resto da cidade, um estranho, um cidadão vulgar, encantado com o gesto: "vem comigo, leva-me contigo..."

É assim, a nossa cidade, sem lugar para recusas ao mundo, aos outros que chegam e partem. Ficam para ganhar a vida ou viver a vida connosco porque gostam de nós.Somos um porto virado a Sul, ao Sol. À vida. Festejemos e demos as mãos a todas as crianças. Ensinemos-lhe o caminho da ternura, da solidariedade. Elas saberão responder construindo uma cidade sem lugar para exclusões, para os tribunos do ódio, da fanfarronice, da arrogância, da pobreza de carácter.

Façamos das crianças da nossa cidade, de todas as crianças, a razão das nossas vidas. Depositemos em suas mãos não apenas o futuro delas mas o nosso presente. E assim nos sentiremos - todos - mais dignos delas e de nós também.

segunda-feira, julho 04, 2005

Questões de Estilo

Anunciei ontem que tinha pendurado as luvas. Recebi alguns telefonemas, uns tantos e-mails e, publicamente houve dois simpáticos membros da blogoesfera: LS, do Abnegado e Pindérico, do Só Palpites, lamentando o abandono que, segundo eles, eu anunciava.
Devo, seguramente, ter-me explicado mal.
Apenas anunciei mudança de estilo. Pendurei as luvas e vou tentar mostrar alguma habilidade para distribuir rosas, esperanças e sorrisos.
Ainda ontem, por exemplo, ao entrar em Lisboa, deixei-me arrastar pelo enlevo da luminosidade da nossa cidade e preferi maravilhar-me com a luz do fim de tarde a pensar noutras coisas.
Veio-me então à lembrança o encantamnento de uma velha amiga, habitante de outro país europeu, igualmente luminoso, mas que, quando chegava a Lisboa, se surpreendia com a sua própria irritação por constatar a existência de outros estrangeiros a gozar a luz de Lisboa.
Lisboa, espraindo-se na luz de um fim de tarde, sugere a descoberta de todos os encantos de mulher vivida, de menina atrevida, de mestiça de olhos doces e sorriso cumplice.
Lisboa, plantada de jacarandás e roseirais é um jardim de esperança que eu quero cultivar.

Outra Fase

Blogue. Foi uma ideia. Gira! Dá, aparentemente, uma certa capacidade de intervenção. Não nos ficamos apenas pela posição de espectadores...Óptimo. Mas, de repente, descobrimos que é uma espécie de masturbação intelectual. Quem lê não comenta e quem acredita não dá retorno. Quem anda à procura de ideias acha que as encontrou no quintal. E depois, vêmo-las florir, ali mesmo no jardim do vizinho, bem regado e adubado.

É giro, mas cansei. Das palmadas nas costas dos amigos, do sorriso simpático e das críticas cáusticas. "é só porrada, é só porrada!".

Estou Noutra.

Que me desculpem os parceiros aqui do lado. Vou virar-me para as coisas lindas da vida. Querem ver como é?

- " para quem estavas a falar com voz de cama...?
- .....???
- Sim, voz de cama, que bem a senti.
- ....???
- Escusas de olhar para o lado! Voz de Cama!!! Percebes?!
- Sabes, está na minha natureza: oferecer rosas, falar com voz doce, gostar que me respodam por enigmas, com sugestões. Está na minha natureza. Que fazer?
- ....????
- Cansei de falar de problemas sérios de denunciar a cáfila que vive aqui em cima de nós, a olhar para nós a sorrir para nós. Cansei de nós, assim, a aturar o carro do vizinho, o olhar da vizinha e adivinhar-lhe as intimidades...
-...???
- Está na minha natureza: gosto de rosas, de sorrisos, de beijos, nem que sejam apenas sugeridos. É tarde para voltar atrás... e tempo de seguir em frente.
-?????!!!!!

A parte deste blogue que me cabe é já outra. Pendurei as luvas.

domingo, julho 03, 2005

Narciso

Abro o portão, olho a relva, noto o excesso de sol, a falta de água. Desvio os olhos e reencontro o narciso. Assento os pés na pedra e deixo-me fascinar pelo amarelo . Poiso a mala e deixo-me enlevar. Parado, olho dentro de mim e descubro-me naquela flôr - tão frágil - ameaçada pela seca, sobrevivente, quase a gritar-me. De repente, noto, que além de amarelo, o narciso, que eu próprio plantei há meses, é também vermelho, um círculo, bem marcado.
Sento-me aturdido. Aquela flôr afronta-me.
Que fazer?
Recupero a mala, entro em casa. Procuro água, lavo as mãos, o rosto e ergo os olhos: no espelho está o vermelho do meu narciso, a rir do meu incómodo. Volto ao jardim e colho a flor. Coloco-a numa jarra com água. Tenho a certeza de que aquele vermelho desmaiará com o tempo.

sábado, julho 02, 2005

SONHOS DE VERÃO

Um aeroporto na OTA e um TGV na rua da Betesga. Foi um foguete para bulir com as almas penadas, para desviar os jornais das greves e dos aumentos que estavam a chegar. Era e é necessário retomar o caminho, antes que a Auto-Europa vá à vida. E como os tesos nem água bebem, a Espanha já começou a desviar o caudal do Tejo. Que fazer?
Habituemo-nos.
Lisboa dispõe de um aeroporto especial: literalmente dentro da cidade. Habitualmente considera-se essa situação desapropriada. Será. Mas no caso de Lisboa dá jeito. Diria melhor: no caso português dá um jeitão. Se a Portela pudesse ter um acessório escorreito na OTA seria excelente. Se o governo, encostado aos problemas económicos, quisesse reduzir a aerogare de Sacavém a uma espécie de estação de Metro-aéreo, isto é funcionando apenas para voos de e para a Europa, durante o dia, fechando à noite. E por falar de Metro, se a rede deste chegasse à Portela, por baixo, que festa seria!
A OTA podia ser uma realidade interessante, recebendo tráfego intercontinental e nocturno. Um aeroporto amplo, limpo, sem excessos de luxo.
Mudar pura e simplesmente da Portela para a Ota para um projecto grandioso, só porque é caro? Parece excessivo para os tempos que correm, tanto mais que aglutinaria necessariamente
outros investimentos em ligações rodoviárias e ferroviárias, deixando para trás outras zonas do país.
Aliás, para um país tão pequeno a rede ferroviária é estranhamente escassa e de má qualidade. Quem quis visitar a exposição do DN, relativa aos 140 anos de existência teria tido oportunidade de constatar o ritmo espantoso para a época da construção do caminho de ferro e a forma rápida como se expandiu. Com o fim da guerra 39/45 a industria automóvel, com lobbies poderosissimos pressionou os estados para o desenvolvimento das redes de estradas e auto-estradas, sempre e mais, sempre mais, defendendo que o comboio já não respondia às necessidades de desenvolvimento. Foram 30 e picos anos que quase puseram de lado o tráfego ferroviário na Europa ocidental. Até que a Alta Velocidade recuperou para o comboio o antigo fascínio.
Não foi ainda o caso português. A recuperação tem sido lenta. Fala-se por aí de TGV, mas sem referir que, por exemplo as ligações a Madrid ou a Irun se fazem por vias únicas. As linhas não suportam velocidades. Só devagar, devagarinho ou quase parado. A linha do norte tem troços melhores e dispõe de comboios capazes de ligar Lisboa ao Porto em 2 horas, claro que tem, mas a linha não dá. Em muitos casos não chega só mudar a linha, é preciso quadriplicar ou criar caminhos alternativos.
Há quase tudo por fazer. Por ora só podemos sonhar. Tempos houve que só de burro se levava a água ao moínho. Ainda assim e como estamos em tempo de férias, aproveitem um pequeno passeio pelo passado. Façam uma viagem curta pela linha do Tua e pasmem, que hão-de gritar de medo ao ver um minúsculo comboio a rir-se da ferocidade fascinante do Marão...

quinta-feira, junho 30, 2005

QUE NINGUEM BRINQUE COM COISAS SÉRIAS

O referendo sobre o aborto anunciado pelo senhor primeiro-ministro teve todo o ar de pílula do dia seguinte, talvez mais do que opção rectificativa. Quem não toma cuidado e não se precavê acaba por meter-se em trabalhos. A minha madrinha matava-se a avisar a sobrinha para ter juizo. Mas qual quê, a fulaninha gastava-se à fartazana e fartou-se e quando despertou era a crise. Tudo se resolveu pela calada. Com a prima foi pior, teve mesmo de ir a Badajoz, porque em Badajoz é mais barato. Se pudesse esperar mais umas semanitas podia ter ido a uma clínica das avenidas, que o dr. Correia de Campos pagava e ficava com a crise para ele.
Acho que sim. Acho que é melhor deixar o dr. Correia de Campos ir apagando as crises, pagando. Pelo menos até as presidenciais passarem. Não misturem alhos com bugalhos. Estão a ver um referendo sobre o aborto misturado com eleições presidenciais? Imaginem o que pode sair daquilo? No melhor, vai vai dar um presidente arrancado a ferros e um outro nado-morto...
Tenham cuidado. Não brinquem com coisas sérias, que só façam rir. Ele há coisas sérias que devem ser levadas a sério, muito a sério.
E o aborto (referendo sobre) é uma delas...

EDUCAÇÃO SEXUAL

Se há assunto que a Igreja, sobretudo a Igreja Católica, devia evitar é justamente o da educação sexual. De há muito que perdeu autoridade na matéria. E perdeu-a pela pior das razões. A memória das pessoas, e até dos crentes, não é assim tão curta. A Conferência Episcopal saberá que pouco se ganha em agitar as águas , até porque subsiste o risco de tombar afogado.
Podem e devem os cidadãos estar atentos, mas deve conceder-se ao Estado o dever de tratar da matéria de maneira adequada.
A tese de que compete às famílias decidir as orientações educativas que deseja para os filhos está eivada de preconceito e pretende, sobretudo, travar o processo iniciado pelo Ministério da Educação, opondo-lhe o fervor religioso.
Deve reconhecer-se, por outro lado, alguma delicadeza na elaboração do programa e nas formas de o desenvolver na escola. Do passado recente sobrou-nos alguns obscurantismo, muito do qual instigado pela Igreja, que ainda limita alguns dos adultos, pais de família. Mais difícil do que abrir as janelas aos meninos e meninas, durante as aulas, é acalmar o pudor dos papás e levá-los, a eles também à descoberta da forma primária da Natureza, muito escondida e diluida pela religião, que pode ser cristã por princípio, mas não pela prática. Deixemos pois que seja a Escola
a decifrar os mistérios que perpetuam a vida.

quarta-feira, junho 29, 2005

IMPUNIDADES

Se é verdade que todo o crime merece castigo, não é menos verdade que muito dele fica impune. Claro que há outras verdades. As verdades devem ser como as cerejas e, aqui, surge a primeira contestação: as cerejas ou são doces ou não são; ou são rijas e deliciosas ou moles e desoladoras. O principal problema com a Lei (com as leis) começa logo pela confusão entre o espírito e a letra. Nunca se estabelece um critério e as mais das vezes os próprios juizes se confundem entre ajuizar à letra ou interpretar o espírito. E não raro fazem a opção errada porque... claro,claro: errar é humano.
Era por ser humano que o senhor Chirac, quando era presidente da Câmara, pagava salários simpáticos a correlegionários, como se os ditos trabalhassem no município local. Daí não teria vindo mal ao mundo se os adversários políticos não fossem gente de coração empedernido e tivessem clamado pela Lei. A Lei é como o Sol quando nasce: é para todos, menos para alguns, bem entendido!
Estabalecido que as coisas são como são há que agir em conformidade. Uma das conformidades é evitar chatices. Há coisas de que não se deve falar. Justiça e política devem coexistir e nunca afrontar-se. Cada uma das partes não deve esquecer-se do que acontece quando o mar bate na rocha...
Tivemos recentemente dois casos muito badalados, em áreas diferenciadas. De uma vez o ministro Sarkozy clamou contra um juiz, o qual concedera liberdade condicional a um condenado e que este aproveitou para cometer um assassínio violento. O ministro ameaçou mesmo ir agir contra o magistrado. Villepin ainda deu um bafo qualquer sobre a independência da Justiça, recado do senhor de cima, o presidente Chirac. Ocorre-me uma velha história que me contou um poeta madeirense sobre uma curiosa afirmação que um tribuno proferiu numa assembleia da região sobre uma daquelas coisas de que se não fala alto e que é suposto ser muito do agrado das senhoras:«Meus senhores, não sei como é, mas a verdade é que todos os dias aparecem feitos, na Madeira, duzentos, eu faço dois, quem é que faz os outros?»
Isto para acentuar que ele há coisas de que se não deve falar. Os erros de juizes não são erros da Justiça, são erros humanos. É dever de quem governa agir de forma a corrigir, mas fazê-lo sem alarido. Pode empandeirar o juiz um serviço qualquer mais chato ou exigir a abertura de um processo. Ao desautorizar o seu ministro Villepin fez pior: recolheu a ira popular e alargou o populismo de Sarkozy.
O segundo caso, mais recente e mais próximo, ocorreu no aeródromo de Espinho: uma avioneta embateu num automóvel. A história em si é horrenda e inadmissível, mas aconteceu e aconteceu porque numa pista que foi militar e já não é mas que possui a peculariedade ser atravessada por estrada. São absurdos que restam do passado e hoje em dia já não se aceitam. Por isso mesmo, o acidente é da responsabilidade do Estado. Claro que o Estado tem que olhar para o senhor culpado e ralhar com ele. Ora o que o estado permitiu é que alguém tido por responsável pela aeronáutica interna falasse não para explicar fosse o que fosse, mas para dizer barbaridades dignas de qualquer interno do Júlio de Matos. Dizia o senhor que a pista de mil e quinhentos metros só tinha 460 metros. A estrada que atravessava a pista não atravessava nada, porque a pista já tinha acabado. Vejamos: a ideia era explicar que a passagem da pista militar para a parte civíl, retirava um quilómetro e assim sendo o aeroclube ficava com 460 metros de pista, uma
estrada e outra pista, ainda maior, sem utilização. Dizia a criatura do Estado que a estrada, sim senhor, os aeroportos também têem estradas no fim das pistas. Foi ele que disse, e não tinha ar de estar a brincar. O Estado ficou a saber (e nós também) que tem um tipo a mais e que devia começar por ele a redução do défice. Este artista ainda foi pior que a ministra, que quis riscar os Açores do mapa lusitano. Um lapso de linguagem pode corrigir-se, é mais discutível quando se pretende ostensivamente tapar o Sol com a peneira...

segunda-feira, junho 27, 2005

GENTE FINA

É bem verdade que se vê mais da outra, da grossa. E nem me refiro aos das quintas, prefiro perder algum do meu tempo com os mais badalados nos fins de semana. Devo começar por reconhecer que não sendo quinteiro, vivo num quintal. É aqui que leio os jornais e evito, tanto quanto posso, as televisões. Li a indispensável análise às audiências televisivas. Não vi nenhum dos programas mais vistos e nem um dos menos mirados. Desisti de ver a programação porque não suporto a publicidade. Mesmo os telejornais, que ainda vou vendo, acabam para mim, quase sempre, logo que entra a pub. Em casos de interesse especial, vou saltitando no Cabo até retomar um dos noticiários, mas são poucas as vezes.
Por isto mesmo é que me dei ao incómodo de ler a entrevista com o responsável pela Informação da SIC. A primeira impressão/informação que retive foi a de que o senhor em causa é mentiroso ou, se preferirem não fala verdade. A rábula mais evidente: «Noticiário dura o tempo que as notícias exigem" é tudo menos verdade. Dura mais, muito mais e dura mais por mór da publicidade. Para justificar tanta pub em horário nobre é preciso encher o chouriço e para segurar o telespectador é preciso pintar alguns quadros com cores de tragédia ou intriga brejeira. É justamente disso que se foge ou que fogem pessoas como eu. Quero crer que, no mais o director de informação da SIC, tenha eventualmente razão e não seja preciso duvidar da preferência por integração e não fusão de redacções ou que as relações entre as criaturas sejam óptimas, com certeza, ainda que a comissão de serviço de Cândida Pinto no Expresso deva ter alguma água no bico...
Albarran consegue outra primeira página no DN. As suspeitas do Mninistério Público nos «offshores» do antigo homem da TV são o destaque da edição. Mas a segunda, senhores, é sempre tão difícil! É claramente forçada a preciosidade biografada do suspeito. Desde a alusão
a «o revolucionário que abraçou o capitalismo», no caso do assalto à embaixada de Espanha ou
outra mais delicada «a relação com Maria Elisa passou pela realização de um documentário sobre a Europa». Discreto. Bom o jornalista bem podia servir-se do exemplo para descrever o período revolucionário do pasquim, onde trabalha, no pós 25 de Abril e como ele é hoje em dia... Quem tem telhados de vidro deve evitar as pedradas. Não é a notícia, em si, que está em causa. Os personagens televisivos, por mais isto ou mais aquilo, são um pouco como os que encheram a crónica de Fernando Alves, gostam de massa e isso às vezes faz mal à linha...

domingo, junho 26, 2005

Independência Nacional

Ouve-se o ministro da defesa (é assim que se chama?) a dizer que a actual crise económica tem tais consequências que pode colocar em risco a independência nacional e assustamo-nos - seja isso o que fôr.
Meditamos sobre o significado da expressão e desesperamos - seja isso o que fôr.
Porque, a verdade é que nada já quer dizer alguma coisa.
Os políticos - sejam eles quem forem - vendem-nos, sistematicamente, o melhor -mesmo as gravatas que usam e nos mostram na televisão.
E nós acreditamos: a União Europeia! boa. Podemos andar de um lado para o outro, trabalhar aqui e ali, ver as loiras e os loiros, combóios, espanholas, Paris.
Constituição europeia - uma "nice" - todos iguais, todos diferentes.
Nada disso - dizem os políticos . Como assim? Então, não são os mesmos direitos, as mesmas obrigações, não somos todos iguais, bonitos de gravatas garridas, camisas côr de rosa e elas de vestidos transparentes...? Afinal, a vida não é o paraíso na terra e , depois, logo se vê, o que vier virá?
Não!!!!! A França recebe 25 por cento de todo o orçamento da PAC. Portugal não vê um centavo e corre o risco de ter que contribuir para aí com uns 10 milhões de contos por ano para o orçamento geral da tal PAC.
A Inglaterra recebe anualmente um cheque de compenssação que já ninguém percebe o que significa e , entretanto, a China exporta gente, tecidos, louças, peças de automóveis, CD's e tudo o resto, pagando malgas de arroz a dividir por dois ou três trabalhadores.
Os Estados Unidos, com aquele estúpido a mandar nas tropas, fazem guerras e aumentam a capacidade tecnológica - competem com todo o Mundo em termos que ninguém tem capacidade para perceber ou acompanhar, mas, ao mesmo tempo, multiplicam o número de habitantes dos vãos das pontes.
Das vinte universidades de topo em todo o Mundo apenas duas são europeias... A India licencia mais gente que toda a Europa junta
E mais quê?
É fim de semana. Passei uma semana a tentar resolver problemas insolúveis - alguns não eram tanto assim - deixem-me, agora, não ir mais longe na nossa desgraça.
Apenas quero, em cima destas preocupações todas, apontar uma nota: há mais de trinta anos que a Europa anda a fazer de África - sobretudo -, mas também da América Latina, uma espécie de caixa de reserva para os movimentos menos claros, para as corrupções escondidas e mais lucrativas.
É verdade que os governos africanos são corruptos. A sério! Mas, onde começa a corrupção que os alimenta (alguns dos responsáveis, eu sei, nem sequer sabiam assinar um cheque) ?Nas capitais europeias. E também em Washington. Os africanos ficam com uma mísera parte do jogo da corrupção.
Os políticos europeus não perceberam que uma ajuda ao desenvolvimento a África e à América Latina, concebida em termos correctos, sérios, teria construído uma aliança capaz de oferecer resistência a estes ataques muldireccionais e diversificados, responsáveis pela actual crise económica e política deste velho continente, convencido de que o seu modelo social serviria de exemplo para todo o Mundo, e agora posto perante a triste realidade de ter que admitir a impossibilidade de lutar por ele, mesmo intra-muros.
Independência nacional. O que é isso? perguntam as novas gerações a quem se dispensou do serviço militar obrigatório e a quem se prometeu a Europa toda para passear?

sexta-feira, junho 24, 2005

SÃO CONTAS

Jorge Sampaio, na pele de Presidente da República, foi hoje severamente julgado no editorial do matutino da avenida da Liberdade. Não foi simplesmente criticado por opinião expressa. Foi julgado e asperamente condenado. Foi aparentemente a reacção da banca à censura presidencial da véspera. A deixa dos dirigentes da social-democracia, ao acusar Sampaio de favorecer os correlegionários, foi avidamente aproveitada e o inquilino de Belém surge como um socialista mais, e nessa condição, responsabilizado pela hecatombe económica, porque em devido tempo não soube travar os desmandos dos ministros da área das finanças dos governo de Gueterres.
Agora compreende-se melhor o azedume da banca, quando os negócios marginais ou, no mínimo pouco claros, são revelados ou comentados. Não só e apenas não apreciam como parecem agora, mais do que nunca, apostados em não tolerar intromissões ou críticas a actividade sanguessuga, a dar crédito à informação do mesmo jornal que refere amplos pormenores sobre diferentes formas de crédito bancário mais ou menos expedito com taxas lucrativas acima dos 25%, por operação. Não tenho nada contra. Nunca me emprestaram e que saiba não obrigam ninguém a pedir. Claro que não são obrigados a exorbitar. Fazem o que se lhes permite. E sobre o que se lhes permite, muito boa gente da governação podia e devia ser interpelada.
Mas ele há maneiras de interpelar e de assumir as dores alheias. Como há maneiras de ler e entender um jornal. Em 140 anos de actividade o jornal variou e inflectiu algumas vezes. Saltar de Século, da monarquia para a república, da ditadura para a democracia é muita fruta. É, pois natural que tenha alterado ou variado a linha editorial. O vento tem muito a ver com a opinião.
Tempos houve em que a opinião era controlada. Com Salazar a censura era oficial. Os jornais podiam exibir «visado pela Comissão de Censura». Marcelo (padrinho) aligeirou para «exame prévio». Com a democracia instalada terminaram tais inibições. Cada orgão de comunicação social é livre de expressar convicções (apetecia-me ter dito "quase livre", mas não disse). Livre de determinar a linha editorial, que pode alterar sempre que entender ou quando mude de patrão. E até pode optar, se assim o entender, preferir editar uma linha de crédito, provavelmente melhor remunerada. Mais rentável que a mera análise político-partidária. Afinal que diferença haverá entre abater uma porção de sobreiros ou um presidente? Por mim, não sei. A Banca que diga...