segunda-feira, maio 23, 2005

Casa Pia e a "Gagá" de Serviço

Na Casa Pia, cuja importância no ensino em Portugal está a ser obnibulada pelo julgamento da pedofilia, estão a acontecer casos estranhos e seria, talvez, importante, que o actual ministro da tutela, dr. Vieira da Silva ( um homem à prova de qualquer juizo menos pesado) desse mais atenção a algumas vozes ( ainda poucas, porque o medo é muito) discordantes.

A questão é que existe um projecto de redifinição e não apenas de reestruturação da obra casapiana, apresentado por uma comissão presidida pelo engº. Roberto Carneiro, com muitos amigos e muitos filhos e com uma compreensível apetência por novas formas de recolha e distribuição de rendimentos.

O projecto consiste na transformação da Casa Pia numa Fundação de direito privado (quem fôr capaz que faça as contas ao património envolvido) e na redução do papel educativo dos diversos colégios que constituem a Casa Pia, retirando-lhe a mais importante função para que, afinal, foi criada: receber e educar crianças em estado de carência (seja ele qual fôr).

A verdade é que este projecto tem a oposição de grande parte dos grupos que, de uma forma ou de outra, têm ligações institucionais com a Casa Pia, quer se trate de sindicatos ou de associações de pais dos alunos, quer mesmo dos ex-alunos, que se constituem como um órgão de grande prestígio na vida daquele estabelecimento.

Todos eles têm tentado o diálogo com a sua actual provedora, a drª. Catalina Pestana. A todos ela responde de forma malcriada, "aos berros", dizendo-lhes que o que eles querem é lançar "fumo para cima do julgamento da pedofilia", assunto em que ela está particularmente interessada, já que não fala de outra coisa e não se preocupa com mais nada.

Na última reunião que a Associação de Pais da Casa Pia conseguiu fazer com ela, os seus membros foram insultados e invectivados com mimos como este : " eu estou velha, mas não estou gagá...então vocês julgavam que por ter mudado o governo eu ia sair? Vou estar aqui até eu querer..." E outras coisas do género.

E depois... há mais: nenhum órgão de comunicação social se atreve a agarrar neste assunto: uns porque o projecto da fundação interessa aos patrões e outros porque "Casa Pia só vende com pedofilia".

Haja alguma vergonha.

domingo, maio 22, 2005

OSSOS DUROS DE ROER

Mais logo vou ver os jogos, como o fará, estou em crer, uma boa porção de criaturas. Um campeonato duro de roer, dos mais disputados de sempre. Está mal visto pela imprensa, que considera que seja qual for o campeão, será o campeão menos pontuado de todos. Noutros tempos, também os jornais eram diferentes, valiam pela opinião e pela análise. Tempos houve em que nem sequer era conferida qualificação profissional aos homens que escreviam nos jornais desportivos. Mas deles se pode dizer que venceram, porque se souberam impor e respeitar.
Foi o futebol que fez e puxou pelos jornais desportivos, mas o desporto em geral e o futebol em particular também muito deve à imprensa escrita. Talvez a excepção seja o hoquei em patins, que durante os anos dourados andou mais ao colo da Rádio, até se impôr e mesmo, depois, com a Televisão foi perdendo pedalada. A Rádio, primeiro e a Televisão, depois, modificaram o futebol, tornaram diferente o jogo e a participação do público. O homem dos jornais já não conta para a apreciação do jogo, já não influi no julgamento dos casos do jogo. Para se manter à tona, os jornais criaram e alimentam a política, insinuam maquinações, denunciam tramoias, dão eco a rumores a partir de tudo e de nada, semeiam ventos que não raro resultam em tempestades.
Pois sim, é o futebol que há. E é para quem quer. Por mim, sim senhor, de pantufas, e em vez de cachecol, uma pinga de vez em quando.
Diverti-me com o Braga, com o Boavista e com os três do costume. Hoje acaba. Valeu a pena. Tudo vale a pena se a alma não é pequena disse o poeta, que não consta que
fosse à bola.
Campeonatos a decidirem-se na última jornada foram alguns. O primeiro de que me lembro, ainda nos anos quarenta. ficou conhecido como «o do pirolito». Ganhou o Sporting por um golo de diferença e o Diário Popular dizia no dia seguinte que se fosse na Inglaterra o Benfica teria sido campeão, por dispor de melhor cociente ou lá o que era. Mas não foi. O Sporting, porque perdeu no Lumiar por 3-1 e foi vencer no minúsculo Campo Grande (de facto era 28 de Maio, mas quem é que dizia uma barbaridade dessas?) por 4-1, com quatro golos de um tal Peyroteo.E não foi só: numa das derradeiras jornadas, o Sporting foi perder a Setubal, por 1-0; mas o Benfica, em casa, perdeu com o Elvas por 2-1, com dois golos de um tal Patalino.Dizia um amigo meu que «estava escrito».
De outro, ainda do Século passado, em 55, o Belenenses precisava, na última jornada, de vencer o Sporting, nas Salésias. Estava empatado com o Benfica, mas beneficiava de ter empatado na Luz, novinha em folha. A cinco minutos do fim, invasão na Luz! Pela Rádio ouviu-se o golo do Sporting, nas Salésias. O Árbitro foi simpático e esperou que meia dúzia de polícias e alguns jogadores empurrassem os invasores para fora do relvado. Entretanto, em Belém o jogo terminava. Na Luz jogaram-se os últimos minutos e depois foi a nova invasão. Otto Glória estreava-se a ganhar.Com ele o futebol português levou uma volta. Mas isso é outra história.

Ainda a Televisão

Acabo de ver na RTP2 um programa de uma produtora acerca da História Ibérica, amplamente documentada sobre a História de Portugal. Imagens cedidas, obviamente, pelo chamado arquivo da Televisão Portuguesa.

A RTP2, ou qualquer outra coisa que hoje se lhe chame, pagou um preço justo, devido, por tal produção, que vem sendo exibida desde há alguns dias, falada em castelhano, o que obriga a legendas (por enquanto) em português.

Pergunta-se: mas não há gente em Portugal para - utilizando os mesmos recursos - fazer uma série televisiva com outra perspectiva (mais portuguesa), outro ritmo, evidenciando mais capacidade técnica e mais sensibilidade aos temas abordados? Será que das inúmeras produtoras independentes de Televisão em Portugal não surgiu uma proposta para um programa deste género? A própria televisão perdeu capacidade para produzir?

A Administração da RTP, ou lá como se chama, diz: não! Porque, em Portugal é fácil fazer compras como se fosse à loja dos trezentos , já que a indústria do audiovisual está completamente destruída e, para tentar sobreviver, já rasteja. Mas ainda não barafrusta! - não responde e não provoca . Não tem capacidade para responder ao poder. Muito gostaria eu de ainda poder presenciar um protesto a sério dos resquícios da indústria do audio-visual, deixados pelo ex - (felizmente) ministro Morais Sarmento e do seu CA da RTP, cujos negócios, obviamente, vão ter que se transferir para Madrid. Os portugueses vão ter que se contentar com a figura da sua muito celebrada correspondente, Rosa Veloso, cuja carreira jornalísitca sofreu um importante impulso com uma reportagem sobre os rótulos de um queijo da Serra da Estrela,

sábado, maio 21, 2005

As Antenas Internacionais da Televisão

Antes de ser um país de imigração como hoje já é - e dificilmente deixará de ser - Portugal foi, primeiro, uma terra de marinheiros, comerciantes, exploradores, viajantes e, depois um local de onde se fugia, se emigrava.
É justo pensar que todas estas circunstâncias tenham gerado em todo o Mundo núcleos de portugueses, de luso-descendentes, de gente com a memória de um ou mais portugueses na história da sua família.
Parece curial imaginar que esta proliferação de gente descendente de um minúsculo povo, espere e mereça um tratamento especial da parte de quem cá vive e, sobretudo daqueles que nos governam. Especialmente neste tempo de comunicação global, feita em tempo real, nesta época de globalização - um conceito novo para uma prática antiga.
Deveria, aliás, esperar-se que os governantes de Portugal projectassem as suas preocupações também para fora das fronteiras nacionais e conseguissem imaginar a Nação Portuguesa espalhada pelas sete partidas ( à semelhança do que conseguem os judeus de Israel, com os resultados que se conhecem).
Reconheço que é pedir muito a quem chega ao poder sempre com a caderneta da mercearia em atraso, mas uma pequena preocupação ficava-lhes bem...
Refiro-me às antenas internacionais da RTP. Uma delas, a de África pode ver-se em Portugal. Quer dizer: podemos ficar enjoados mesmo em Lisboa, no Porto, em Coimbra, no Algarve, no Alentejo, no Minho, etc. Basta ter TVCabo e ligar o canal respectivo. Aquilo é, de uma forma geral, um verdadeiro nojo.
Para quem viaja e resolve procurar nos hotéis por onde vai ficando a RTP Internacional, trata logo de desligar para não sair à rua envergonhado. Esquece e pronto. Já não está lá quem falou...
Ora, isto deve-se, seguramente, à política que tem vindo a ser seguida pelos vários CA's da RTP e também de algumas direcções de programação e informação.
Por exemplo: quando o Emídio Rangel chegou à direcção da RTP percebeu mal as contas e julgava que ao tirar autonomia à direcção das antenas internacionais, podia utilizar os orçamentos que lhes estavam atribuídos. Engano puro. A maior fatia era para o pagamento de satélites, pelo que a junção de todas as direcções resultou em grandes perdas para a programação internacional.
Hoje em dia, as chamadas antenas internacionais têm autonomia apenas para programar três ou quatro horas de emissão. O resto, o verdadeiramente inenarrável de tudo quanto é velho e revelho, de programas racistas, ofensivos mesmo, vem de outros canais, que para ali despejam todo o lixo possível e imaginário.
A imagem deste país no exterior, entre as comunidades ligadas de alguma forma à língua e à expressão portuguesas, e que neste momento tem um governo que se quer afirmar através de um choque tecnológico, é a de um sítio bonito mas muito mal frequentado, cheio de atrasados mentais e realidades pré-históricas.
Ora, nós sabemos que, felizmente, não é assim, pelo que é justo e curial afirmar que o actual Conselho de Administração da RTP está a cometer um "crime de lesa-pátria" e já devia ter sido chamado à pedra pelo ministro da tutela, o prof. Augusto Santos Silva. De resto, não seria mal pensado que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não deixasse de fazer sentir algum incómodo pela situação das chamadas antenas internacionais da RTP

MEA CULPA

Devo uma explicação a um leitor. Mas antes devo explicar que, por norma, nunca respondo ou comento a opinião de quem expressa seja desacordo ou concordância. Habitualmente quem se dá ao trabalho de ripostar é por desacordo. Para mim merece-me o mesmo respeito. Neste caso, o remoque critica-me o não ter identificado um poeta citado num texto, a propósito de um texto de Fernando Alves, no DN de domingo passado. Não foi um lapso. Não citei o poeta pela poesia dele.Evoquei-o como amigo a propósito de período histórico e sobre um assunto que suponho não ter sido divulgado.Guardo alguma relutância em querer aparecer na fotografia ao lado de. Mas posso acrescentar que o Virgílio referido no texto era Virgílio Martinho.E a roda era no Gelo...

SABER

O título fugiu-me. Acontece-me. Vou ver se escrevo de molde a servir o título. Saber o quê e sobretudo de quem? Não me lembro. Varreu-se. Sei que queria citar uma velha graçola, que se contava em português, com referências de fora. Era assim: um jornalista americano citava um artigo recente em que verberava uma decisão do seu presidente. E explicava com orgulho ao seu colega soviético, que na América , até se podia criticar o mais alto magistrado da nação. "Eu posso", sublinhava ele, orgulhoso, "dizer mal do meu presidente, percebe?".
"Claro que percebo", dizia o russo: "eu também posso dizer todo o mal que eu quiser do seu presidente"...
É o que se passa com o Santana. Tropeçou e caiu. Antes de tropeçar, subiu demais...
Ficou com a factura na mão.Mas não foi ele que encomendou a tragédia. Fora ele, praticamente sozinho que ganhou a Figueira da Foz, uma câmara que nunca fora do partido dele. Foi ele, sózinho a ganhar a Câmara de Lisboa e arrastou atrás o Rio que extravasou do Douro. Por ser ele. Por ser o que era. Alguns mais dotados, tanto que sabiam que nem valia a pena arriscar, ficaram quietos, a ver, e agoniaram-se, depois.
Mas não foi ele quem quis ir para Bruxelas, mas foi ele quem mais contribiu para a ascenção do outro. Do que se pirou. Do que optou por fazer mais por ele do que pelo partido ou do que pelo país, que tinha jurado servir.
É fácil bater num homem caído, ainda a cambalear da trovoada.Não é que me interesse. Não é guerra minha, já não sou de batalhas, mas ocorre-me, a propósito, citar um poeta, que suportou muito do pesadelo fascista: fazei todo o mal que puderdes/ e passai depressa...

sexta-feira, maio 20, 2005

A CONFUSÃO CONFUNDE

Tanto que uma pessoa se perde no emaranhado das explicações. Dou por exemplo as scut. A ideia é que não se pague portagem, mas...
Antes de seguir em frente, uma pequena marcha pela nacional cento e picos. O vai e vem começou a seguir ao businão na ponte. Uma manif de protesto por mór do aumento da portagem, logo apoiada pelo PCP, levou o PS a reboque. Foi um sucesso. Até então as diferentes greves não aqueciam nem arrefeciam. A Esquerda clamava por imensas adesões e o governo limitava a minúsculas percentagens. O businão surtiu efeito e obrigou o governo de Cavaco Silva a recuar. O que estava em causa era a forma como estava a ser construida a Vasco da Gama. Uma espécie de scut: ponte construida sem custos para o governo. O construtor construia uma ponte e explorava duas, durante uma porção de anos.
Foi então que do lado do PS começaram as críticas à política de asfalto do governo da direita, tanto mais que Cavaco Silva aparecia com a auto-estrada Viana-Porto à borla e um troço de Abrantes a Torres Novas, que deveria prolongar-se até Peniche e no entretanto sem custos.
Mas o pomo da discórdia passou a ser a CREL, que abriu com portagem. Defendia o PS que a CREL era uma rua urbana e que, portanto, não devia pagar.
Seguem-se eleições e o PS volta ao poder e sente-se obrigado a cumprir promessas feitas no ar.
Quer abulir a portagem na CREL, mas esbarra na BRISA, que apresenta a factura da obra. Era esse, pois o problema, que não havia sido equacionado pelo simpático ministro Cravinho. Os troços de auto-estrada sem portagem foram obra da JAE, do Estado, por conseguinte. Os troços com portagem eram obra das concessionárias, que entretanto passaram a ser mais do que uma e sujeitas a concurso público.
O que o governo de Guterres teve de fazer, para salvar a face, foi pagar a portagem de todos os veículos que circularam na CREL. Aliás, do mesmo jeito que fez com a Lusoponte, renegociou o contracto, prolongando o prazo, de modo a sustentar o agravamento de custo na Ponte, até que o comboio começasse a circular.
O problema mantém-se. Registe-se que a CREL é paga pelo utilizador e já lá vão três meses de novo governo socialista. Mas, atenção, também o ministro de Santana Lopes se propunha introduzir portagens na Viana do Castelo-Porto, na algarvia do Infante e na de Abrantes, estendida até à Guarda. A questão não é apenas saber quem paga, como se paga, mas a quem se paga? E porquê?
Podemos olhar o exemplo dos vizinhos. A Espanha construiu inúmeras auto estradas sem custos, mas fez também algumas com portagem. Também certamente teve mais e melhores apoios comunitários. Aproveitou-os bem. Ainda não os ouvi discutir sobre quem paga ou não paga, e eles também têm mudado de cor governativa.
O défice que anda na carteira do dr. Constâncio não resulta, estou em crer, de meia dúzia de quilómetros de asfalto de luxo; nem procurem motivações sociais. Se pretendem exibir ou conceder benefícios sociais desagravem os preços dos transportes colectivos urbanos e sub-urbanos e com isso poderão, se o desejarem cobrar portagem pelos acessos a Lisboa, Porto e outras cidades que o justifiquem...

quinta-feira, maio 19, 2005

Falar de Quê ?

Hoje alguém me interrogava sobre a minha capacidade (teimosia) em continuar a falar, discutir, interessar-me sobre a política portuguesa.
Defendi-me: as políticas dos outros países são iguais.
Destroçaram-me: o chefe do Governo de Espanha já decididu participar numa conferência internacional que vai realizar-se em Novembro e o Engº. Sócrates não decide a sua agenda com mais de quinze dias.
Fiquei aterrado: o primeio-ministro de Portugal vive com o medo do nascer do Sol. Não sabe o que lhe vai acontecer amanhã.
E, sendo assim, acho melhor desistir e começar a discutir os atributos do(a)s vizinh(o)as. Eles que são políticos que se entendam: Mas depois não venham clamar pelo voto. Começo a ficar mais do lado das Ak47.

VIAJAR NO TEMPO

Foi o Fernando Alves que escreveu a sua crónica no DN a falar de viajantes que trazem para o passado a manhã do futuro, que transitam de século em século, para a frente e para trás ao sabor do desejo. Só imagino um veículo capaz desses trajeto: o maximbombo do amor! O comum dos mortais viaja pelo tempo ido, às vezes com saudade mas não raro para mitigar as agruras do presente. Hoje, no mesmo matutino um cronista abalou de manhã para 45, o recomeço da normalidade depois da guerra. Evocou a ameaça que pairou sobre a Península Ibérica e o plano que previa a sua ocupação pelas forças nazis. Era um exercício de história e sublinhava a resistência possível ao salazarismo.
Recordo-me do efeito da guerra no meu dia a dia de outro modo que não o político. Em 44 houve exercícios que consistiam em saber o que fazer em caso de ataque. Em Lisboa, tivemos que colar fitas de papel nas janelas e saber como e quando seria necessário isolar a luzes nocturnas para o exterior ou mesmo apagar de todo.
Não mais que isso. Por essa altura o risco de invasão já seria improvável mas sobrava a probabilidade de ataques aéreos. À distância até disso duvido. Era no Inverno e, portanto, perto do final do ano e o cariz da guerra estava alterado. Penso, hoje, que podia ter sido uma forma de mostrar aos aliados que também nós temíamos a ameaça germânica...
O cronista não referiu, mas podia tê-lo feito para que se entendesse melhor o clima da época, que foi na Península que se testou a capacidade alemã de destruição aérea. Guernica foi arrasada desse modo e por essa razão.
E conheci o poeta desse tempo de contestação, de que fala a crónica. Pertenceu ao MUD juvenil.
Depois foi o Diabo. Fartou-se teimosamente depedir passaporte, teimosamente negado. Até que...
Até que teve o santo passaporte para concretizar o primeiro de todos os sonhos poéticos: ir a Paris!
O melhor que conseguiu foi chegar a Vilar Formoso. Na fronteira apreenderam-lhe o passaporte e mandaram-no de volta. De outra vez foi preso pela PIDE num café da baixa lisboeta, à hora do almoço. Teve outras, igualmente expressivas. Entrou para as bibliotecas itenerantes da Gulbenkian e foi colocado em Vieira doMinho. Num dos itenerários, ao chegar a uma aldeia os sinos tocavam a rebate. Nessa manhã, na missa, o padre tinha preconizado que os livros eram obras do demónio e estava a chegar uma camioneta cheia deles. A carrinha foi apedrejada.
Tempos depois foi um dos agentes da Polícia Política de Portalegre a denunciá-lo como perigoso comuna, de viver com uma preta e de só se dar com comunistas. Azeredo Perdigão quase despachou o sim, mas os responsáveis pela Biblioteca acharam melhor efectuar um inquérito preliminar. Concluiram que o denunciado vivia com a esposa, dra. Amélia (...) e que ao fim da tarde costumava tomar café no centro da cidade com o dr... (José Régio). O dr. Perdigão não achou graça e quis manter o poeta na Biblioteca de Portalegre. Foram os dois responsáveis a insistir que mais valia transferi-lo.
Por graça sempre revelo que o poeta, depois do 25 de Abril viajou para Moscavide, perdão Moscovo. Foi uma desilusão. Éramos amigos, mas ele nunca me falou da experiência viadante.
Soube por terceiros. Na última vez que falámos de política, e já vão poder imaginar quando foi, ele disse-me: "Se o Otelo só tiver um voto, não penses que foi ele que votou nele. Fui eu"...
Oh!Se ele regressou ao futuro, certamente estará com o Virgílio, velho camarada do Gelo, os dois a rir-se de nós e, quero crer, à minha espera...

terça-feira, maio 17, 2005

O Professor Augusto

O Gov. do Engº. José Sócrates prometeu, como medida mais importante, no caso de ganhar as eleições, um choque tecnológico. Mais importante porque ele seria a saída imaginativa para a crise ( todas as crises) - sem paraíso... e ainda bem.
E o que fez o seu governo para promover o tal choque? Até agora, nada.
Ora, a verdade é que o tal choque exigia um primeiro passo, logo anulado na composição e competências do governo. Um choque do que quer que seja - e muito menos tecnológico - não se faz sem um choque na comunicação.
Seria necessário convencer os "pobres sexagenários" de que um computador não morde, informar a juventede de que a saúde dos rios é tão importante como a das pessoas; informar as mulheres de que a sua diferença é apenas fisiológica e que a sua condição não as obriga a nada.
Tantas coisas mais!
E, para essas tantas coisas mais, o que fez José Sócrates? nomeou como ministro da comunicação um "santo senhor", que é, ao mesmo tempo, ministro dos assuntos parlamentares e que já veio, várias vezes, dizer que a comunicação tutelada pelo Estado está no melhor dos mundos.
Oh! prof. Agusto ( e, de repente, lembrei-me da Morgadinha dos Canaviais..) está ser enganado por alguém.
Então não percebe que aquela merda não tem concerto? Onde está a informação capaz de desencadear o choque tecnológico? É o, igualmente prof. , J. Rodrigues dos Santos, a abrir os trelejornais com o Benfica e o Sporting, com os desastres e os atentados e toda a sorte de desgraças - aconteçam elas onde acontecerem? Ou com o José Alberto de Carvalho a esforçar-se por cumprir um noticiário iditota com todos os seus colegas em greve?
Oh. Sr. prof Augusto caia na real. Aquilo precisa de uma volta. O Mundo de hoje, do sec.XXI, vive da informação, portanto, tudo quanto o seu chefe de governo diga que não se traduza num processo de comunicação, não existe ( mas não se tente pela contratação do João Líbano Monteiro, porque ele é pior que o Ricardo Salgado com o negócio das Lezírias...)
Prof. Augusto, peça já a demissão ou exija tratar da comunicação como deve ser e não diga, por favor, que os assuntos parlamentares lhe deixam livre muito tempo. Porque, a verdade é que o gabinete do ministro dos assuntos parlamentares também não mudou nada: continua a ser o cartório das pré-escrituras.
Prof. Augusto, repare que, mais de três meses depois de José Sócrates - e o sr., sr. prof. - terem tomado posse, estamos a ouvir o mesmo discurso de Durão Barroso. Até mesmo Jorge Coelho, que parecia discreto, já aparece a lançar culpas - justas , é certo - mas com o intuito claro de desculpar as suas próprias ( e não são poucas).
Querem um choque tecnológico? então construam uma comunicação social capaz de o fazer a sério. O resto é demagocia e medo: temos um primeiro ministro derrotado pela conversa dos economistas e um governo à espera da sua oportunidades de negócio.
E o que é que eu tenho a ver com isso? perguntarão vocês.
Começo a perder o gozo de me sentir português. Chega?

OS AMANHÃS ESTÃO NA SOMBRA

Mesmo o mais chegado. Um tipo pode prever, mas nada garante que acerte. Qualquer um pode prometer, mas nem o mais votado sabe se pode cumprir. Pode rezar-se à Virgem e a chuva não cair. Ter fé por si só não basta. Quantos crentes fervorosos não foram p'ro futebol sem chapéu de chuva e se lixaram?
Sinto-me, hoje, no dever de alentar os desalentados. Quando o Benfica ganha fico mais tolerante. Não é por ser mais crédulo, mais avisado ou mais reflectido: é por estar bem disposto. E, um pouco por não querer ficar a sismar no Boavista!
Que diabo! Por morrer uma scut não acaba a auto-estrada. Não é lá pelo homem da rádio ser pateta que a informação piorou: está na mesma, como a TV. A colega Sousa Dias está como menos graça, mas continua uma gracinha. O professor diante dela está pior. Ri-se mais mas está pior. A SIC faria melhor se pusesse o Herman no mesmo horário a fazer comentário político com aquela senhora do Nutícias...
Daqui a nada os alunos vão de férias. Vai tudo prá praia. Quem não tem fica a dever. O Avante fez justiça ao Estaline. Ele, sim, é um exemplo de tenacidade, de convicção e de patriotismo. É preciso matar 20 milhões? Ora, matem-se! Ora aqui está um jornal que melhorou imenso. Dantes não se acreditava, agora ainda menos. Puro preconceito. Mentir é a forma mais sublime de mostrar a verdade. Melhor que com qualquer outro, com o PCP não há incertezas. Sabemos todos com o que pudemos contar.
Vá lá, seus desalentados socilistas, levantem-se e caminhem. Façam justiça a Constâncio! Avancem com ele para Belém. Cuidado que os do Diário de Notícias andam a vender o dr. Soares (pai). Eles não são humoristas: têm alguma fisgada...

segunda-feira, maio 16, 2005

Quando É Que Isto Muda?

Confesso: este país começa a pôr-me maluco. Já não aguento mais a saloiada que se passa à minha volta: os ministros, com ar de senhores a dizer as mesmas coisas dos que se foram embora, as televisões com as mesmas caras, a fazer os mesmos disparates.
Hoje ouvi só um pouco ( o que consegui aguentar) da conversa do "prof. Marcelo". Meu Deus! Eu que até achava piada à senhora, à Ana Sousa Dias, fiquei arrepiado. Ele manipula-a totalmente. É pior ainda do que na TVI, porque lá, na televisão do Paes Amaral, o Júlio e todos os outros, estavam lá mesmo para aquilo, de calças em baixo.
Era suposto que a Ana - até porque se apresenta como entrevistadora com créditos firmados - não entrasse naquele jogo das pernas.
Além de que o chamado prof. representa o mesmo retrato de sempre de um país saloio, atrasado, a ouvi-lo como se ele soubesse tudo, como se ele tivesse alguma solução. Aquilo são só palavras, palavras, palavras, não sei quantas por segundo.
Depois, na mesma televisão (eu hoje estava mesmo com uma tendência masoquista) ouvi falar de uma canção portuguesa ( que, afinal, vai ser cantada em inglês) concorrente ao concurso da Eurovisão. No meio de algumas conversas interessantes apareceu um senhor, cheio de gravatas (ou era só uma?) chamado Nuno qualquer coisa, director não sei de quê, a defender a ideia de se cantar em inglês.
Só nessa altura, quando ele disse que o José Cid "estava a ficar velho, coisa em que eu, ele, não acredito", é que eu percebi que aquele 2B se lê "two bee" e que o programa estava a tentar mobilizar os portugueses a viver no estrangeiro para votarem na tal canção, cujo nome nem sequer fixei.
Está tudo doido!
Eu se fosse o José Cid ia à RTP mergulhar a cabeça do tal engravatado na entrada de uma ETAR.
Para mim, o pior de tudo é que nada muda e a minha esperança começa a esgotar-se - e a paciência também. Noutros tempos, quando isto me acontecia, ia-me embora.
PS
O título que eu queria mesmo escrever era : "Quando é que esta merda muda?" Pronto! Está escrito.
l

domingo, maio 15, 2005

A Explicação

Não basta dizer que este é um "governo de negócios". É preciso revelar algumas evidências.
Aí vão: o Ministério da Agricultura, por exemplo, tem um ministro de quem se falou apenas como funcionário da União Europeia. E o aparelho administrativo do ministério, quem o controla? Capoula Santos. Já não precisa dar a cara. Faz como o Ricardo Espírito Santo.
Claro que ainda vai ter que aprender muito, mas o princípio é o mesmo. Também não foi o Ricardo que mandou fazer o chamado massacre da baixa de Cassange ( um pequeno avião que lançou umas granadas defensivas para cima de um grupo de trabalhadores da CADA, uma empresa da família), mas ele aprendeu o suficiente para vergar a Companhia das Lezírias e gizar um plano para ficar com a terra em seu benefício.
Outro Exemplo: o Ministro das Obras Públicas, que ainda agora chegou e já está a defender uma ponte que passe por Benavente, com combóio e tudo. Está-se mesmo a ver que é, outra vez, o Espírito Santo a querer um transporte rápido junto aos seus empreendimentos turísticos e imobiliários.
Outro exemplo: a Televisão virou o negócio da fancaria. Não se pode ver. Nem os canais abertos, nem o cabo. Quem está por detrás disso?: Pinto Balsemão, Almerindo Marques, Paes do Amaral e Zenal Bava.
O primeiro já vendeu tudo quanto podia vender e agora continua a pressionar toda a gente que pode pressionar (enfim, pode chamar-se outra coisa a este pressionar...)
O segundo é um boçal que transformou a RTP e a RDP num mercado abastecedor de miséria cultural e informativa.
O terceiro, em nome dos negócios que iria fazer com o governo de Santana, despediu o amigo Marcelo; antes tinha feito todos os negócios possíveis com os colombianos.
Zenal Bava é um financeiro com ambições, quer ser presidente da PT e não percebe a ponta de um corno de televisão.
Todavia, o ministro Augusto Santos Silva está satisfeito com a política de Televisão que se desenvolve neste momento no país. Apesar de o seu primeiro-ministro ter assente todo o programa de governo no chamado "choque tecnológico".
Daaaa! Eiiii!!! seus idiotas, como é que se pode levar a cabo um choque tecnológico com uma indústria audio-visual entregue a meia dúzia de homens de negócios verdadeiramente trogloditas??
Ainda não entenderam que o tal choque tem que começar por uma informaçãop cultural activa, actual e dinâmica, capaz de celindrar homens com Balsemão Almerindo, Amaral e Bava?
Estas são algumas das razões por que considero que o primeiro-ministro é um homem com medo. As outras prendem-se com o facto de começar a governar com os mesmos argumentos de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite. Felizmente ainda não chegou ao período social-democrata seguinte, mas temo que lá chegue.

sábado, maio 14, 2005

SEGREDOS DE MULTIPLICAÇÃO

Acho que são cento e setental e tal os polícias de trânsito suspeitos de extorsão e abuso de poder que respondem em Tribunal à acusação que sobre eles recai.
Um recluso a cumprir pena por violação aproveitou algumas das saídas precárias para assaltar, roubar e violar três estudantes universitárias.
Um ex-ministro e um dirigente partidário próximo, bem como três gestores do grupo de empresas do BES foram indiciados num processo relacionado com tráfico de influências e financiamento ilegal de um partido político. A gestão ministerial da Defesa está igualmente a ser investigada pelo MP e, também neste caso, é envolvida outra empresa do grupo BES.
Os tempos não parecem ir bem. Deve ser da seca. Se Diógenes, mais a sua dele lanterna, passar por aqui vai ter muito que andar para encontrar alguém merecedor de cumprimentos
Um ministro da nova fornada já nos explicou como vai ser a recuperação. Obras! Muitas obras públicas, semi-públicas, obras altas e obras baixas; estradas e viadutos e pontes. Também já se fala e voltar a falar do novo aeroporto na velha OTA.
- E que fazer primeiro? - pergunta um optimista pasmado.
- Ora! Comprar um fato macaco - responderá o eterno desiludido desconfiado...
De facto, apetece mais brincar com a actualidade do que comentá-la em tom sério. O presente está repleto de casos dificeis de entender. Mas se é difícil perceber, também não deve ser fácil explicar.
No meio disto, ocorre-me um caso curioso: um agente da polícia, numa esquadra do Norte, disparou sobre um detido algemado e matou-o. Um deles era cigano. O que não era cigano justificou-se, alegando que tentou intimidar o detido, supondo que a sua arma estivesse descarregada.
O julgamento acabou com a sentença condenatória suspensa. Alguns dias depois, o guarda estava de serviço no aeroporto de Lisboa. O morto, que tinha sido cigano, continuava morto e definitivmente enterrado. Na altura do incidente, a senhor segundo comandante da PSP do Porto tinha revelado à CS que o detido se tinha suicidado. Nem deve ter sido considerado
suspeito de tráfico de influências.
Quero crer que, hoje, talvez fosse diferente. Por isto e por isso, nem valerá a pena sublinhar que financiamento de partidos sempre houve, salvo nos 48 anos que não houve partidos e o partido único tinha recursos de sobra e tráfico de influências é facto seguro que nunca faltou e teve muitos alvos, muitos destinos. Talvez por isso os últimos dias de bruá-á-á não tenham tido muito eco no parlamento, nem em sedes partidárias.
Não foi por acaso que misturei crimes sujos com colarinhos brancos. Nem só o crime está em foco, também o castigo (ou a falta dele). Quando um tribunal ordena que uma criança seja entregue a um pai com antecedentes de violência e a criança é morta é a legitimidade de um poder que se põe em causa.

As Condenações do Poder

Com o passar dos anos a gente habitua-se a ler as notícias, os gestos, as palavras. O actual governo de Portugal, três meses depois já permite uma leitura: é um governo dos negócios e o primeiro-ministro é um homem com medo.

Tudo isto quer dizer que a confusão se vai instalar dentro de pouco tmpo.

E basta!!! Não vale a pena gastar mais cera. É a condenação do poder político em Portugal.

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO

Quando, em Junho de 1944, o dr. Oliveira N'Dalatando inaugurou o Estádio Nacional, com pompa e circunstância, evidentemente, no Dia de Camões, também conhecido, à época, como "Dia da Raça", pelos bem aventurados do regime, eu tinha dez anos e já os conhecia, quer o citado Presidente do Conselho (monárquico praticante) e o presidente Oscar de Fragoso Uige, a quem também deixavam inaugurar as obras inauguradas, claro, pelo dr. Salazar. Não os conhecia pessoalmente, bem entendido, mas pelos retratos deles, pendurados nas paredes da escola, nas paredes de todos as escolas do país.
Como a guerra ainda não tinha acabado o Estádio podia ter a configuração imperialista germânica, de matriz romana, se preferirem. Uma festa. Muito Sol e muita música. Muitos meninos e meninas a fazer ginástica. O que é que importava que a Europa estivesse a consumir-se numa guerra medonha.
Nesse tempo não havia muitos carros. Nem se sabia o que viriam a ser horas de ponta. Mas quem quisesse e tivesse carro podia ter ido por auto-estrada até ao Estádio, desde as Amoreiras!
O viaduto ainda não se chamava, creio eu, Duarte Pacheco, porque o dito ainda estava vivo e ainda era ministro das Obras Públicas.
Eu fui de comboio. Um pequeno ramal, desviava na Cruz-Quebrada e deixava-nos perto do Estádio. O eléctrico também prolongou a linha até à Cruz-Quebrada.
Eu vi o Salazar na tribuna. O meu pai emprestou-me o binóculo. Espreitei e vi-lhe, juro que vi, as botas.
E finalmente o jogo. O que levou o meu pai a levar a família ao Estádio não foi o Camões nem a Raça, mas o Benfica-Sporting, que disputaram a primeira Taça Império. Não me lembro do jogo.
Acabou às escuras e o Sporting ganhou. O que retive mais daquele dia foi espanto por ver tanto polícia a cavalo e por ter visto as botas do senhor da tribuna.
Nesse tempo o Estado Novo impusera o racionamento. Um racionamento igual para todos que fossem iguais; os outros, os mais ou menos endinheirados, tinham de tudo, compravam de tudo. Os restaurantes também deviam cumprir a lei. Uma lei de opereta. Podia escolher da lista: sopa,um prato de peixe, um prato de carne, queijo e fruta ou doce. Para comer em casa era mais complicado. Havia senhas para o pão, senhas para o arroz, para o sabão, para o açucar e não sei para que mais. Nunca havia nos talhos a carne que se precisava, só da outra. Para ter acesso a bifes de vaca (como se dizia na época) era preciso desenvolver um intenso tráfico de influências, também conhecido por mercado negro.
Na minha escola, ao Conde Barão, a maior parte dos alunos ia descalça. Aos sábados tinhamos a Mocidade Portuguesa. Consistia em marchar, distinguir um chefe de quina de um chefe de castelo; aprender os hinos. Só uma vez em quatro anos assisti a uma distribuição de fardas. Para um desfile nos Restauradores e depois eléctrico até ao Jardim Zoológico. Não fui. Não havia farda para o meu tamanho (era minúsculo).
Na escola, o meu prof era o director. Um trasmontano de Chaves. Aprendi a ler e a fazer contas.
Não me ensinaram cultos religiosos.
Morava na Rua Victor Cordon, abaixo da António Maria Cardoso. Passava todos os sábados duas vezes à porta da PIDE, sem saber o que era, para ir e vir do Chiado Terrasse, o cinema da minha mocidade.
Ia a pé para a escola, mas o eléctrico custava cinco tostões. Telefonar das cabinas também, mas nunca telefonei. Não me lembro que na família alguém tivesse telefone. De vez em quando ia ao cinema à noite, com os pais, a meio da semana. O filme acabava a rondar a meia-noite. Os cafés na Baixa estavam todos abertos. Era altura de engolir um galão e um bolo. No Verão, gelados. A loja ao canto dos Restauradores ainda existe!
Patinhava-se a pé Chiado acima. Bastante gente. Tranquila. Não havia carros patrulha. Mas, aqui e ali havia sempre um polícia a cirandar devagar.
Claro que havia miséria e até havia espionagem de permeio, mas não era visível aos olhos de um garoto de nove/dez anos. Ouvi um tio uma vez referir-se ao Barreiro e o meu pai mandar-se à rua comprar cigarros. E ouvi e não percebi o meu professor ralhar alto a um rapaz descalço por causa de não ter caderno nem lapís. O miudo falou qualquer coisa de terem ido buscar o pai a casa. E rasgou-me meio caderno e deu-o ao rapaz. Durante uns dias, antes da saída, entregava um embrulho pequeno ao rapaz.
(continua, num dos próximos dias, se houver pachorra).

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO(2)

Das outras coisas eu pouco sabia. Da janela de casa via um pedaço do Tejo e à distância as fragatas de vela erguida, como canta Carlos do Carmo, pareciam brinquedos. Como as outras fragatas metálicas, as da Marinha, presas à boia, não pareciam ameaçar nada nem ninguém. Não estou a dourar a pílula. A vida não era tão tranquila como os olhos de menino a viam. Quando subia a encosta para o Castelo passava pelo Aljube, mas não sabia o que era, nem quem albergava. Nem sabia de Caxias ou de Peniche e menos ainda de Tarrafal. Nem tribunal especial com juizes capazes de julgar o injulgável.
À volta do rapazinho que lia o mosquito o mercado negro florescia. Pelo Norte o volfrâmio fazia excêntricos todas as semanas. Por Setubal arribavam, discretamente, navios alemães, para levar o minério.
Aos sábados havia um senhor que contava uma história pela telefonia e aos domingos era Alfredo Quádrios Raposo que fazia o resumo da primeira parte e o relato da segunda, de um jogo de futebol realisado à tarde. Algumas vezes vi o jogo e depois, em casa, ouvia o relato do mesmo jogo.
O meu pai ia por vezes, à noite, a Campo de Ourique ver filmes ingleses fornecidos pela embaixada. Junto ao Chiado, abaixo do teatro da Trindade, que se chamava teatro porque passava filmes, estava o Ginásio, que só dava filmes alemães. Devia ser a maneira mais hábil que se conhecia de exibir uma neutralidade, que em boa verdade nada tinha de neutral. Como seria de esperar o conceito de neutralidade foi evoluindo à medida que o avanço dos aliados já poucas dúvidas deixava sobre o desfecho da guerra. O Estado Novo era bem entendido pró-americano. Era tempo de saber dos judeus e dos campos de extermínio. O governo rezava e não escondia alguma preocupação. A oposição terá acreditado no milagre, mas não terá feito tudo por merecê-lo...

sexta-feira, maio 13, 2005

MEMÓRIAS AO SABOR DO VENTO/3

Mas em 1947, quando Leitão de Barros encenou o Cortejo Histórico, para celebrar os oitocentos anos da tomada de Lisboa, a II Grande Guerra já lá ia. A Festa badalava-se pelas avenidas da Baixa. Género popular do melhor e não digo para memória futura porque a televisão ainda não devia estar inventada na Europa. Eu odiava que me levassem a ver. Era comum o género de manif populista pelas ruas. As marchas, pelos santos populares ou os cortejos com criaturas importantes. Os putos mais pacientes ficavam sentados nas bordas dos passeis horas a fio. Ou então ficava-se de pé, atrás das costas dos mais altos. Datam daí a maioria dos meus complexos.Mas era comum, lá isso era, amontoar pessoas ao longo das ruas e avenidas a ver passar e muitas vezes nem se vislumbrava o que passava ou quem passava. Mas podia bater-se palmas à vontade.De vez em quando consegui ver uma mãozinha a acenar dentro do carro. De uma fez foi o Franco, que veio a Lisboa. Não me recordo se vi só a mãozinha se vi o generalissimo todo, mas vi qualquer coisa.
Oito Séculos de História ficava bem num cortejo festivo e parecia marcar o fim do incómodo governativo com o desfecho da guerra. Suficientemente desmascarado, o fascismo já não incomodava. Mesmo assim, não dava jeito exibir uma ditadura muito severa. De todo conveniente enfeitar o regime e congeminar eleições para inglês ver o país do faz de conta. Os eléctricos eram de uma companhia inglesa; os telefones ainda não tinham espírito santo de orelha, eram anglo-portuguese qualquer coisa. O Vinho do Porto bebia-se na Inglaterra.
O cortejo de Leitão de Barros terminava com as quatro raínhas de Lisboa. A moral vigente ainda não suportava misses meio descascadas. A que ia mais no alto era a Lisboa Eterna era minha colega no Ateneu, uns dois ou três anos mais adiantada.
Pois é! Lisboa era uma aldeia. Daí a nada seria a NATO a vir estruturar-se em Lisboa. Era tempo de ver outra realidade: montes de polícias e metralhadoras pelos telhados, diante do Técnico. A ditadura tinha-se solidificado. Ninguém queria saber, ninguém quis e quando assim é a obra nasce.
Já se podia celebrar à vontade o 28 de Maio. Era a revolução que prevalecia, uma festa de militares, em honra dos que salvaram a Pátria. A Pátria tinha ar de estar um tanto farta de ser salva, mas os militares não tinham sensibilidade, nem percebiam que já pertenciam ao passado.
A ditadura concentrava-se num só homem e assentava numa polícia política. Por isso Spínola esteve na siderurgia de Champalimaud. Maria Armanda Falcão, quando foi preciso, foi com Maria Barroso ao Aljube, visitar Mário Soares.
À beira dos anos 60 reencontei a «Lisboa Eterna» na Parede.Vinha de Moçambique e reencontrava os amigos. Um belo dia fugiu com Manuel da Fonseca, que era dado a distrações.O grupo, de que também fazia parte Mário Henrique Leiria entretinha-se alegremente a escandalizar o comum dos mortais.
A guerra estava esquecida, apesar da Coreia e da Argélia estar a chegar e a Indochina estar a aquecer. Os dias plácidos sucediam-se. Goa estava tão longe. Ainda não havia pílula. Mas estava a chegar...
Faltava uma dúzia de anos, para tudo se acabar na quarta-feira. E começar de novo.

A OESTE ALGO DE NOVO

...E, de súbito, pessoas inesperadas começaram a ser inesperadamente detidas para averiguações e indiciadas e incomodadas. Dei por mim a ler uma qualquer insinuação sobre um avião depositado num banco estrangeiro, perdão, num aeroporto fora de portas, por razões mais estratégicas que económicas. Eu póprio dou por mim a fazer contas. Li algures, e acho que também ouvi, sobre a nova ponte sobre o Tejo, como assunto arrumado: do Carregado para Benavente. Com direito a comboio próximo futuro, que auto-estrada já lá chega. Parecia uma boa notícia, parecia, sim senhor...
Depois é isto, a maldição: não há paz entre as oliveiras ou sobreiros ou lá o que é. Estava em crer que desportivamente Benavente carecia de um jogo de matraquilhos. Mas novo, claro. Pode ser que um campo de golfe também sirva, mas numa coisa daquelas onde é que se mete a moeda?
Além disso ocupa um data de espaço, espaço que chegava de sobra para fazer mais dois ou três estádios de futebol novinhos em folha. E sempre se evitava ter o Benfica de ir jogar a Faro sempre que houvesse corrente de ar no Estoril.
E como a diplomacia do burgo estabeleceu tão cordiais relações com os E.A.U. porque não santificar o espírito da cordialidade, abrindo novas dependências da banca divina, no Dubai, purificados que estão os emirados?...
Seja como for, é necessário ponderar. Se as instâncias judiciais desatam a prender gente inesperada pode criar um problema delicado no largo do Caldas: o partido das imediações ficar sem fotografias para pôr nas paredes...
Mas solução economicamente viável podia encontrar-se por perto, ainda do lado de cá do rio, na linha de caminho de ferro do norte, onde se encontra a estação de Virtudes, onde os homens políticos deviam ter residência fixa e ajuramentada. Qualquer deles podia sempre afirmar-se como um homem de Virtudes. Sem receio de desmentido...

quinta-feira, maio 12, 2005

Notícias giras

Hoje um jornal de economia dizia, citando a Lusa, que indicava fontes "ligadas ao processo" - Ah! Ah! Ah! - que a PT iria reduzir o preço médio das chamadas em 9,8 por cento e passar as comunicações regionais para locais.

O jornal não disse, mas" fontes ligadas ao processso" acrescentaram que a Administração da PT pediu desculpa ao seu director de recurso humanos por apenas lhe conceder um prémio de 35.000 Euros pelo esforço desenvolvido para se ver livre de tanta gente trabalhadora.

O (a) braço direito teve um prémio de apenas 11.000 euros , mas, no futuro, ambos serão compensados pela grande batalha que estão a travar pela construção da empresa ideal: sem pessoas.

Essa será uma batalha vencida, quando o grande timoneiro, Zenal Bava, já presente em tudo quanto é programa televisivo, assumir definitivamente o comando da grande nau e a ancorar no Índico junto de um faustoso palácio digno das das mil e uma noites, onde não se comerá carne de vaca e se ornamentarão as paredes com as fitas enormes das contas dos supermercados portugueses: papel higiénico... sabonete lux... coca-cola... wisky...vinho casal da eira...

Vários Casos de Sucesso e de Seriedade

Um jornal lisboeta noticiava ontem que o Grupo Amorim se preparava para criar um Banco em Angola, tendo como sócia uma filha do presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos.

Ora aqui está uma jovem cheia de talentos!

Como é possível que com gente tão capaz, o país - Angola - continue a ser um dos mais pobres do Mundo, com uma população cada vez mais miserável, a morrer de doenças que já não existiam há dezenas de anos?!!!

Como é que se chama mesmo a senhora tão talentosa, capaz de ter um banco com um grupo tão sério?

Tão sério como o outro, o BES, que há anos e anos não desiste de deitar abaixo os sobreiros de Benavente para ali construir um complexo turístico, para o qual - evidentemente - muito há-de contribuir o Estado, já que se trata de um empreendimento de "evidente benefício público"

Vá lá que desta vez foram apanhados alguns dos administradores das centenas de empresas que compoêm o Grupo BES. Um deles, por curiosidade, tem o apelido de Horta e Costa, por certo, família do barão. Será ele o homem que sobe no avião estacionado em Espanha, ou é mesmo o barão?

Quando é que a PJ nos surpreende com a revelação?

quarta-feira, maio 11, 2005

SEMANA DESPORTIVA

Dificilmente o desporto nacional será tão pobre como no futebol. Pobre de mentalidade. Das mentalidades de árbitros, de dirigentes, de adeptos, de jornalistas, de todos: políticos quer dizer governantes, e povo.
Não há semana em que essa pobreza não fique a pairar por sobre a indigência de mente e moral do universos futebolístico. Com excepções evidentemente, mas de ordinário silenciosas.
Na RTP riparam na rapaqueca
O coração de Jorge Perestrelo, que viveu com o Benfica, começou a morrer em Amsterdão com o Sporting. Calhou. Mas a emoção com que gritou "Te amo, Sporting", ao golo do Sporting nos últimos segundos do desafio, sem dúvida que deram um empurrão num corpo, o seu, que estava para morrer.
Os benfiquistas da RTP é que não gostaram. E quando transmitiram a reportagem da sua morte, e o entusiasmo com que festejou a vitória do rival cortaram-se. Não obstante o ter repetido por, pelo menos e salvo erro, três vezes.
Critérios jornalísticos. Se a PIDE tinha critérios jornalísticos, porque é que os jornalistas da RTP não deveriam tê-los? Basta fazer zaping e confrontar os noticiários com os das parceiras da liberdade jornalística para ver que os têm mesmo. Graças a Deus. Como os outros aliás, que Deus é pela igualdade.
A democracia jornalística é que não tanto.
Pois eu, que não sou de felicitações póstumas, deixo aqui ao Rapaqueca um cumprimento. Foi talvez o primeiro retorno das palmas que bati e do dinheiro que gastei com o Benfica. O outro, que toda a gente sabe qual é.
Os directores
Naquilo que os dirigentes dos chamados três grandes se queixam sou tentado a quase dar-lhes razão. Aos factos de que se lembram: à penalidade que o árbitro não marcou, à deslocação que os prejudicou, à vista grossa que fez à violência dos adversários.
Quanto ao que esquecem é que não posso dar. Desconheço-a. Mas como aprendi na escola que a memória é selectiva, que normalmente faz a vontade ao seu portador, calculo o que esquecem e o porque esquecem.
Dava para gorda crónica. Uma resenha explicativa, e documentada, do risível em suas pessoas. Para o que não há tempo nem paciência. Mas para gastar umas linhas com eles há.
Para dizer que não vale a pena, por agora, perder minutos com o Pinto da Costa, quando os tribunais andam às voltas com o seu desportivismo.
Quanto a Vieira e seu lugar-tenente, Veiga, a pobreza é tanta que fazem dó. Para rir só quando se queixam dos árbitros. Com Damásio e Vale Azevedo são o retrato deste Benfica.
Agora a Cunha, o Dom Quixote dos futebóis, é conveniente lembrar que isso de paladino exige compostura. Lealdade. Aquilo que lhe falta para reconhecer as vezes em que os seus adversários são desfavorecidos a favor do seu clube. Lembram-se de M. Vinhas, para quem o importante era o desportivismo, não o ganhar?
O árbitro
Caiu o Carmo e a Trindade com a arbitragem do último Penafiel-Benfica. Porque o árbitro é do Benfica, e podia muito bem sê-lo sem escândalo e não foi; na dúvida foi até contra o Benfica. Do meu ponto de vista, pelo menos perdoou uma grande penalidade ao Penafiel. Se não foram duas.
E a propósito de um árbitro que se sabe que é do Benfica. Qual é o clube dos outros todos? Será que é a Polícia que terá de tomar a iniciativa de saber se foram honestos ou desonestos na declaração de tendência clubística? Ou não tem iomportância saber se foram ou desonestos ou honestos?
E os árbitros auxiliares
Com o objectivo de diminuir os atritos à volta dos foras-de-jogo, os reaccionários e pouco lúcidos dirigentes do futebol internacional, resolveram, desta vez bem, determinar que, no caso de dúvida, é de deixar seguir a jogada. O que, a ser cumprido, favoreceria a beleza do espectáculo e diminuia o risco de punir quem não prevaricou.
Só que os juízes de pau-na-mão apropriaram-se da determinação e fazem gala em assinalar as deslocações duvidosas. Não cumprindo com o que lhes mandaram cumprir, o que lhes dá oportunidade para serem desonestos as vezes que quiserem, obedecendo ou desobedecendo à directiva.
E os chamados jornalistas, que os do futebol são duma pobreza tão grande como o próprio futebol, por seu turno, fazem mira ao pé à frente ou atrás (20cms) que, na sua perspectiva, os autoriza a dizer se foi "ofessaîde" ou não foi. Brilhantes.

terça-feira, maio 10, 2005

RECORDANDO HITLER

E subitamente meio mundo, ou o mundo inteiro, pôs-se a falar de Hitler.
Tenho para mim que Hitler, hoje, não é mais que um adjectivo. Não mais um substantivo. Ele, o seu nome por ele, qualifica.
É um outro Maquiavel. O nome, porque um não tem nada a ver com o outro. Quando se diz que alguém é maquiavélico, mesmo quem diga não faça a menor ideia de quem foi e do que foi Maquiavel, esse que não sabe quem ele foi está a chamar pérfido a outro alguém.
Ora Hitler já é mais ou menos isso: uma ofensa. Mas ele, como adjectivo, não está relacionado com a perfídia. Antes com a crueldade. Sucedeu-lhe porém ter tanto de pérfido como de cruel.
E de estúpido também
Um dia um jornalista, ao entrevistar Edison, chamou-lhe génio. Tinha ele inventado uma das muitas coisas que inventou e depois foram as homenagens e já havia jornalistas a chatear. Então lá veio o adjectivo génio.
Edison ouviu, parou a olhar a palavra, e depois debitou um discurso em que dizia que não sabia o que era isso de génio. Mas tinha uma ideia, e , se a ideia dele não estava errada, definia-a, matematicamente, como noventa e oito por cento de trabalho e dois por cento de inteligência.
- Mas esses dois por cento são muito importantes, acrescentou para que ficasse bem percebido.
Ele, que passou noites inteiras a experimentar a resistência de metais para saber o que devia utilizar nas lâmpadas eléctricas, sabia bem do valor do trabalho na genialidade. Até esse dom parece que cai do céu, a arte, consome ao artista mais horas que as horas de expediente em escritórios, repartições e congéneres. Pergunte-se a um violinista quantas horas gasta em treinos todos os dias. Já para não falar em exemplos como os do pobre Mozart que andou desde criança, mas criança mesmo, como os macacos de feira, de terra em terra a mostrar as suas habilidades.
Mas o Hitler, a pessoa, não o adjectivo, não. Convenceu-se. Deu-lhe a estupidez para ali, e não podia ter dado para pior. Aliás, tudo o que deixou feito e deixou escrito foi tão pequeno, e é, que estupidez não chega para o definir. Nem loucura chega. Loucura talvez seja até uma forma de o desculpar. Claro que louco também, mas imbecil muito mais.
Não esquecer Hitler
Parece que o adjectivo deste intenso rememorar Hitler teve por objectivo lembrar os 53 milhões de mortos na Europa, mais os 6 milhões de judeus que aparecem normalmenmte separados nas contas da mortandade. Rememoração que acontece precisamente no tempo em que se procura lavar a crueldade, as crueldades, crueldades épicas praticadas pelos japoneses na China. É que não foram do cientificismo sinistro das câmaras-de-gás, nem da crueldade holocáustica duma bomba atómica, foram mortes artesanais, uma a uma, desventramentos à baioneta e à faca, à bala também, uma a uma. Foi a crueldade paciente que não cansa, horas, dias, minutos e segundos, porque o tempo era pouco para matar tanto.
Mas o Japão, que foi aliado de Hitler, agora já é um dos fiéis amigos. Portanto, não esquecer Hitler, e quanto aos japoneses o que lá vai, lá vai.
Façamos-lhes então a vontade. E lembremos Hitler. Não apenas o louco, o cruel, o ditador, o carrasco dos judeus, antes e principalmente o pérfido. O traidor, o que fazia acordos de política internacional com aqueles que pensava atacar, o que até convidou o "irmão" Estaline para invadirem juntos a Polónia, dividindo metade-para-mim-metade-para-ti, e tempos depois invade a União Soviética.
Não esquecer então essa perfídia, tê-la sempre bem presente, primeiro que tudo porque as crueldades são incontáveis. Há crueldades para todos os gostos, em todas as idades e em todos os continentes. As perfídias são menos e esquecem mais. Há a palavra dada, o respeito que alguns tiranos têm por si próprios, enfim, há algum prurido. E, por ser menos frequentes, obrigam a mais cautelas.
Alguém faz ideia do que estará por detrás da profunda mudança no comportamento de Bush e todo o seu staff de agressivos economistas e delirantes filósofos?
Bruscamente os filósofos calaram-se todos. E na voz do chefe o que mais se ouve são as palavras "amigos", "aliados" e outras semelhantes.
Pode ser que se trate duma conversa sincera. Deus é grande! Mas também pode ser que não. O diabo tem sido maior.
E menos esquecer a perfídia
De qualquer maneira o que não deve é entrar-se pelo campo da manifestação de intenções. Há apenas dados que servem para ajuizar: os Estados Unidos permanecem no Iraque sem sinais de até quando, continuam a armar-se ferozmente e os seus sábios das químicas e das físicas não desistem de inventar mais instrumentos para matar.
Mesmo assim, os dados de ajuizamento também servem para desajuizar. Dado não é facto.
O que é facto é que a democracia que elegeu Hitler mantem-se intacta. Portanto não esquecer. Hitler é irrepetível, como todo o ser humano. A perfídia não.

Campanhas

O PS iniciou uma pré-campanha para as autárquicas em Lisboa, apresentando um cartaz com Carrilho em várias poses e com uma afirmação: estamos a elaborar um projecto para Lisboa.
Tudo bem. Carrilho tem uma boa imagem, com ou sem gravata e a frase é uma lapalissada, não envergonha ninguém.
Há, todavia, um sinal preocupante: os cartazes da dita campanha estão colocados sobretudo nas entradas e saídas de Lisboa. Ora o que os lisboetas querem é um presidente que se preocupe com eles e não com os que saem e entram. Esses têm que se preocupar com outros projectos. Esta cidade, por exemplo, não tem que ter o seu trânsito desenhado apenas em função das entradas e saídas.
Espero, francamente, que algém se lembre dos liboetas, das suas necessidades específicas, da sua condição muito particular de habitantes da capital do país e que não monte em cima deles mais um projecto megalómano, feito a pensar numa grande capital europeia, habitada por uns desgraçados, alguns dos quais com casas sem casa de banho, com o tecto a cair-lhes em cima.
Espero, com grande esperança, que o tal projecto faça de Lisboa uma terra de que os lisboetas se orgulhem e não tenham que se esconder para que as visitas os não vejam.
Desejo muito, como habitante de Lisboa, que esta cidade se transforme numa terra a que eu possa chamar " a minha terra". Formulo votos sinceros para que, no caso de António Maria Carrilho ganhar estas eleições, vá além dos grandes voos e tenha capacidade para os pequenos passos de que todos precisamos.

segunda-feira, maio 09, 2005

Começo a preocupar-me...

O ministro que tutela a comunicação social, Augusto Santos Silva, já foi ministro da educação e, na altura, opinou, em várias circunstâncias, sobre a comunicação social tutelada pelo Estado. Pareceu, então, ter algumas ideias arrumadas. Agora, de repente, aparece a dizer que a administração da RTP - que é a mesma da RDP - está a fazer um bom trabalho, que tem todo o seu apoio e mais pátipátátá. Será que o ministro virou, ficou cego ou não percebe nada de comunicação social e só está a ver os negócios por detrás da coisa? Será que já é visita de casa do Pinto Balsemão?
Como é que se pode defender o assassínio de uma indústria tão importante como a do audiovisual em nome de uma gestão doméstica feita por um louco, que acha sua obrigação abrir um concurso público para comprar discos para a RTP 2 , uma vez que as editoras já não oferecem discos?
O que se passa com este PS que, de repente, concorda com tudo o que encontrou? Porque não deixaram lá ficar o Santa Lopes? Pelo menos divirtiamo-nos todos muito mais.

As Presidenciais

Ultimamente não tenho muito tempo para este prazer de escrever sem ter que estar a pensar para além de mim mesmo. Hoje, todavia, vou ter algum tempo para isso e não posso deixar de me lembrar de um "puto", muito orgulhoso da sua condição de jornalista, que me mandou um e-mail, tentando ridicularizar algumas observações que eu fiz a um texto dele. O "moço" mora no Cartaxo, vem de madrugada para Lisboa, trabalha numa daquelas revistas inventadas para fazer sair dinheiros esquisitos mas é muito orgulhoso de si mesmo e, naquela altura acusava-me de ter todo o tempo do mundo para os blogs, já que escrevia às horas mais disparatadas ( para ele).
Pois é, nos últimos tempos, nem a horas disparatadas consigo. Aproveito esta noite de domingo para falar das presidenciaisd e lançar dois palpites. A esquerda vai enfrentar o candidato da direita - Cavaco Silva ( até me arrrepio...) - com dois nomes fortes: António Guterres e Francisco Louçã.
Quem passar à segunda volta ganha!
Louçã, para mim, é certo já. O seu discurso de hoje à tarde foi claro.
Quanto a Guterres, será candidato se, entretanto, fôr escolhido como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Claro que, se não fôr escolhido, não tem a mínima hipótese.
Estes socialistas andam a ler com muito cuidado alguns autores bem antigos...

sexta-feira, maio 06, 2005

BLAIR,TONY:SICOFANTA-NATO?

Lombrose, Cesare Lombroso.
Hoje não é muito conhecido, mas no tempo dele (morreu em 1909) arranjou um sarilho científico dos diabos. Mesmo assim, isto é, mais ou menos esquecido depois da balbúrdia, foi, e é, reconhecido como um dos fundadores da Antropologia Criminal.
Ele, o médico legista e psiquiatra, entrou pela criminologia e fez o retrato-robot do criminoso-nato. Defeituosamente, gatinhando na matéria que estava a inventar, chegou à conclusão de que há homens que nascem predestinados para matar. Com o que distiguiu aquele que comete um crime do que nasceu para os cometer.
Neste século, que alvorou sob o signo da pedofilia, explica-se bem, com exemplo verídico até, o que é um nascido para o crime. Houve um pedófilo que pediu para ser castrado porque, logo que voltasse à liberdade, voltava à pedofilia.
Eis um pedófilo-nato.
Mas Lombroso foi mais longe: avançou com sinais que caracterizariam o homem patibular: queixo largo, testa curta e inclinada para trás, cabeleira nascendo perto das sobrancelas, barba hirsuta e coisas assim tenebrosas. Também caracterizou o sábio.
Só que a ciência pede números, percentagens, amostras significativas. Que o médico não apresentou. Ficou no entanto a ideia para ser trabalhada com outros cuidados.
Cuidados que não são precisos para falar de políticos já que eles não têm cuidado algum para falar ao povo e ao mundo. Nem vergonha. Acusados de mentir mantêm-se em funções, passeiam-se sorridentes como se o direito de mentir fosse constitucional.
Então, seguindo Lobroso, procuremos, em larga margem, e universal, de políticos actuais o que os caracteriza para além da desvergonha generalizada ( que talvez seja cientificamente comprovável). As características exteriores como a testa estreita ou o queixo facinorose dos nascidos para o crime.
Nos nascidos para a mentira, como todos os que mentem sem peso de consciência. E a intuição leva-nos de imediato ao sorriso sicofanta.
Repare-se no sorriso de Durão, Bush, Aznar e Blair. Na falta de franqueza. No lábio estreito, nos dentes escondidos.
Dir-se-á que em Blair se lhe vêm os dentes. Mas no meio do amarelo do fácies nem se sabe se está a defecar se a sorrir. O que torna a mentira ainda maior.
Cheira pior.

quinta-feira, maio 05, 2005

Afinal...

O Governo PS demora tanto tempop a intervir em empresas como os CTT, onde um dos Horta e Costa ( o Carlos) continua a fazer as mais incríveis negocitatas com os amigos, como a PT onde o outro Horta e Costa ( o Miguel) agora dá prioridade aos genros para distribuir as benesses e até já esquece os militantes do PSD ou os recomendados pelo Ricardo, como na ANA, onde tudo continua confuso e outras... que o povo já começa a pensar:" afinal, o PSD tinha um bom, governo, não sabemos para que votámos no Sócrates."

quarta-feira, maio 04, 2005

Presidente-Polícia

A iniciativa de Jorge Sampaio de andar na estrada a ver como os portugueses conduzem, a acompanhar os polícias, a ver como eles multam os prevaricadores tem um lado preverso: o presidente está atrás da Comunicação Social. O tema é recorrente sobretudo nas trelevisões, mas também nas rádios e nos jornais, que, normalmente, publicam os números que a GNR e a PSP lhes fornecem, sem qualquer critério, sem nenhum tratamento.
Para aquelas forças policiais, os condutores são sempre os culpados. Ou porque andam depressa, ou porque conduzem com alcool a mais. Não há mais culpados, como, por exemplo, as más estradas a sinalização anedótica ou a falta dela e a própria ausência da autoridade nas estradas, a quando de situações perigosas ou confusas.
As televisões, sobretudo, "adoram" um "bom" desastre, com muito ferro torcido, muito sangue espalhado pelo chão e muita gente a chorar. Ficam com imagens para dois ou três dias de noticiários.
Por outro lado, as chamadas forças da ordem adoram as épocas altas, porque aparecem sempre na televisão, com aqueles bonés ridiculos a debitar números à toa, sem nenhum termo correcto de comparação, como se cada Páscoa se pudesse comparar com a anterior, o mesmo para os Natáis, paras as férias, para os fins de semana prolongados.
Que autoridades são estas que não têm ninguém capaz de ler estatísticas?
Que autoridades são estas que vão para a estrada para emboscar os cidadãos, aqueles mais pacatos, cumpridores, mas que, por um qualquer discuido pisam um traço contínuo, ultrapassam os 120 kms à hora sem ningém mais na estrada, a não ser o radar emboscado?
Que presidente é este que vai para a estrada defender a emboscada, o disfarce da polícia, ao contrário de uma presença efectiva, visível, da autoridade sem medo dos verdadeiros prevaricadores, os que provocam os tais desastres de que as televisões tantos gostam, mas que as polícias nunca apanham?
Democracia também é isso: lisura das polícias para com os cidadadãos. Este presidente-polícia esqueceu as regras básicas da democracia: as polícias existem para defender os cidadãos e não para os emboscar e tentar surpreender, arrancando-lhes uns cobres porque não cumpriram uma pequena regra de um conjunto de leis - o código da estrada - ele mesmo uma emboscada.
Claro que as televisões, os jornais e as rádios estão a adorar esta presidência policial aberta. E o presidente lá tem mais um tempo de antena.

terça-feira, maio 03, 2005

DOS FRACOS NÃO...

O homem disse que não. Ele que podia dizer sim, se quisesse. Que podia.
Que importa? Não quis. E como não quis, não há: referendo. Que se lixe! Estou um bocado farto daquela gente, que parecem tão diferentes e acabam por ser iguais: uns safardanas. Como estou a usar o plural, devo clarificar os geminados anti-aborto: o sr. Presidente da R. e o sr. ex-Presi-
dente do C.
Um foi sempre solteiro; o outro bi-casado. Percebo melhor um, do que entendo o outro, mas não desculpo, nem um nem o outro. Mas, se um deles, era assumidamente católico praticante, o outro aparentemente nem isso, mesmo se se sujeitou a mendigar uma recepção.
Qualquer deles prezou em mostrar-se a pairar por cima: eles por cima e nós, por baixo. Eles foram e são o que são; nós pagamos, e alguns de nós sofrem. Faltou-me dizer que um era facho. o outro não como definir, com receio de ofender todos quantos são politicamente o que ele diz que é, mas que, por actos e decisões, não parece.
E, no entanto, ele não hesitou fazer abortar o governo do ex-lagarto em plena gestação...
Mas, em boa verdade, não se lhe conhecia (ao governo) mãe e o pai tinha-se ausentado, o que deixava, de facto, presumir um executivo sem pés ou cabeça...
Do ponto de vista meramente democrático o dono da loja permitiu-se fazer o que não permite às demais criaturas, com bem mais direito a ter voto na matéria...
O que vale é que o tempo dele está a acabar. Será mais um a ir sem deixar saudades...

quinta-feira, abril 28, 2005

NA TERRA DA NOSSA IGNORÂNCIA

Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Parafraseando: nas terras da ignorância todos falam e ninguém sabe o que diz.
Claro que sempre há alguém que sabe o que diz. Uma ou outra excepção no meio da santa ignorância, que é o caminho mais eficaz de chegar ao céu. Por isso o inferno está quase vazio...
Carvalho da Silva, uma excepção
A gente da política faz profundos cálculos sobre a velocidade necessária ao despedimento dos funcionários da Administração Pública. E a profundidade oscila, salvo erro, entre os 100 à hora e os 6.000/ 6.500 ao ano.
Mas, espanto dos espantos! apareceu na santa terra lusitana um homem, Carvalho da Silva de seu nome, a perguntar por quê?
A querer saber como se pode chegar a números sem primeiro se definirem necessidades. Sem primeiro se estudarem as reformas da Administração Pública.
Um querer saber lapalissiano: ignorando-se o tamanho e o peso da carroça, como se pode calcular o número de bois necessários a puxá-la? A qualidade da carroça, aqui, tem de andar à frente do número de bois. É para isso que existe a ciência e o método científico. Para contrariar o que a ignorância diz.
E com isto somos chegados a um caso de polícia, a partir do qual todo o departamento de investigação terá de formular duas interrogações:
1 . Em que faculdades se formaram os senhores governantes, opositores e toda essa chusma de iluminados que vai para a política porque, diz-se, é um emprego que "tem saída"?
2. Que universidades portuguesas ensinam metodologia ?
De posse destes dados poderá, então, formular-se a extensão do crime, bem como as condições sociais que levam à proliferação de criminosos.
Marcelo Rebelo de Sousa, o génio
Um homem de outra galáxia. Génio como o Mourinho, ele próprio se sugeriu. Modestamente, como é seu timbre.
- No PSD não o acharam tão genial assim. E viram-no até de muito bons olhos pelas costas quando abandonou a direcção do partido. Provavelmente ingratos duma ingratidão que lhe classificou o génio como de serpe dum cobril sinistro;
- Na TVI despediram-no sob um cortejo de flores, desde o volte sempre até às juras de admiração, mas com o desejo secreto de que fosse andando e não voltasse;
- E na RTP já deve haver gente a pensar em como mandar passear um ilustre professor que utiliza o seu ziguezaguear como muleta de toureiro frente a um pacífico interlocutor sem direito à interlocução. Agora interlocutora, e com bonito penteado. Elogiou o mestre.
É que ele , o eu-sou-professor-universitário, a estar bem, só poderia estar na SIC, na TVI, entre gente da sua gente e nunca num órgão da informação estatal. Uma casa que tem obrigações de isenção, de suprapartidarismo, de supra-egocentrismo, dispensa de bom grado quem jornalisticamente mais parece um trapezista saltando entre os seus desígnios. Antiprofissionalmente.
Esperemos, portanto, que Ana de Sousa Dias lhe saiba pôr cobro ao tagarelar com que a atropela, ou tenha a coragem de o deixar a falar sozinho. Ele com ele dá-se muito bem, a palestra portanto teria melhor efeito. E mais verdade.
A flor do jardim
1. Julgo que foi D. João V. Também se não foi ele foi outro assim: uma magestade mandante.
E ia a magestade em seu coche quando, cruzando-se com um escravo, recebe deste um cumprimento desde o alto até ao chão. Ao qual responde com outro de igual tamanho.
Incomodado, o acompanhante real fez-lhe ver que o outro da troca de delicadezas era um escravo. Observação a que a magestade respondeu (mais ou menos, claro) :
- Em Portugal ninguém pode ser mais bem-educado que o rei de Portugal.
2. No tempo do colonialismo, o Estatuto do Funcionalismo Ultramarino obrigava todos os funcionários públicos, desde o governador ao servente, à urbanidade no trato. E um artigo do mesmo Estatuto estabelecia a pena a que correspondia a falta-de-educação. A qual, dependendo das circunstâncias e gravidade da ofensa, merecia registo no cadastro.
A partir destes dois pontos é importante investigar, em especial na democracia que governo, oposição, constituição, presidência da república, ministério-público e mais instituições democráticas dizem que Portugal é, quem é que deu, e dá, autorização a Alberto João Jardim para ser tão grosseiro.
Não há memória, na história portuguesa da ditadura recém-falecida e da democracia recém-nascida, de alguém tão incivil. E se nem a ditadura consentia que um seu servidor fosse assim, a que título e sob a responsabilidade de quem a democracia consente.
Será que a democracia portuguesa é da irresponsabilidade?
Ou será que os ditos democratas portugueses não sabem que a democracia sem responsabilidade não existe?
E o periquito tremeu
Alberto João também tremeu. Mas foi de fúria.
E mandou os seus recados ao partido de Marcelo Rebelo de Sousa, que é o seu e de outros espécimes igualmente notáveis, a propósito da limitação dos mandatos. Portanto da limitação do seu. Seu emprego. E parece que único porque não consta que saiba fazer mais nada.
Mandou recado mas só a fazer uh! uh!
E foi a vez de o periquito tremer. Mas de medo. Então periquito falou que sim senhor, que limitação sim senhor, que ele é pela limitação sim senhor, mas só daqui a 12 anos.
Esperto. Está convencido que doze anos chegam para que o Jardim seja acometido por um AVC vínico. Um AVCV portanto.
A ganda nóia
O periquito Marques Mendes da Nóia entrou em funções propriamente depois do uh! uh! que lhe fez o grande-chefe Jardim. Assustou-se primeiro, que uh! não é para menos, e depois teve que resolver de imediato, e duma assentada, as hipóteses de referendo sobre a constituição europeia e sobre a libertação da mulher portuguesa das garras dos tribunais e da polícia no caso de aborto.
E resolveu: o referendo sobre a Europa para já, é de interesse nacional; o referendo sobre a despenalização do aborto é do interesse do mulherio. Fica para depois.
Com a chegada do periquito que subiu ao poder no PSD, o partido transformou-se numa espécie de gaiola para a passarada.
Primeiro foi o passarão que voou atrás do seu interesse; depois foi o despassarado que o país pôs a voar por não ter interesse; agora arribou um passarinho que mal chega ao poleiro.
Não chega, mas se um dia o periquito crescer vão ver como o passarinho ainda se faz um homenzinho.

segunda-feira, abril 25, 2005

Viva o 25 de Abril

VIVA o 25 de ABRIL!!!
O grito é óbvio. Viva!
Mas, trinta e um anos depois, era natural esperar que a história se virasse para outros ângulos, para os daqueles que, embora gritando VIVA!!!, o tinham que fazer para dentro de um saco, escondidos, porque à sua volta havia medos, angústias, responsáveis por atitudes impensadas, precipitadas e, em alguns casos, por via disso, a tender para o crime.
Refiro os portugueses que viviam nas ex-colónias. Para uns, a Revolução, o golpe de estado, o que quer que seja, era um alívio, o resultado de uma luta que também tinha sido e era deles. Para outros, foi um sobressalto, a evidência de que, afinal, tinham vivido toda a sua vida dentro de uma mentira e agora (então) não tinham saída, ficavam sem rumo. Pior do que isso: não percebiam nada.
Para ambos os grupos, de Lisboa, só chegavam notícias de disparates. Na ânsia de se apresentarem com os governantes mais revolucionários, os homens que iam salvar o Mundo, os responsáveis pela gestão dos negócios do Estado - que interessavam a todos os cidadãos - comportavam-se como os adeptos de um qualquer- Sporting-Benfica e esqueceram a cidade "destruida".
De onde resultou que, nem para uns (os dos Vivas), nem para outros (os das angústias), nada se salvou de tal destruição. Por lá, Portugal morreu mesmo e em seu lugar, com a excepção de Cabo Verde nasceu nada, ou antes nasceu tudo: corrupção, crime, desprezo pelo direito dos outros, etc, etc. E esta realidade nem Bento XVI com toda a sua humildade germânica pode salvar.
De qualquer modo, VIVA o 25 de ABRIL

domingo, abril 24, 2005

Cherchez o negócio

Durão Barroso voltou às primeiras páginas dos jornais por causa de um amigo. Um amigo multimilionário, grego, antigo colega de estudos, enfim...o habitual: amigo convida amigo e sai um cruzeiro de luxo. Eles e as famílias e uma tripulação completa.
Tal com da outra vez, quando outro amigo convidou Durão Barroso para umas férias numa ilha particular, no Brasil. Neste caso, o amigo multimilionário era português e chamava-se João Pereira Coutinho, cujo irmão acabou por comprar a Quinta da Falagueira pelo preço da uva mijona.
O João já havia comprado o quartel da Artilharia 1 e os terrenos do antigo Colégio dos Maristas, entre a Travessa da Légua da Póvoa e a Avenida Duarte Pacheco. Já estão desenhadas e vendidas as respectivas urbanizações, entretanto hipervalorizadas pelo chamado Túnel do Marquês.
Quando as férias brasileiras do José Manuel levantaram alguma celeuma, o gabinete do primeiro-ministro afirmou que se tratava da sua vida privada.
O mesmo argumento usou agora o gabinete do presidente da Comissão da União Europeia, a propósito das férias gregas do sr. Barroso.
Esperemos pelo negócio.

Os Tiques do Poder

Um semanário traz hoje a notícia de algumas movimentações na gestão de empresas públicas ou participadas pelo Estado e é incrível como esses nomes nos fazem adivinhar que, afinal, nada mudou na forma de gerir o Estado. Lá estão os lobies todos escarrapachados. Prefiro não comentar a notícia, já que ela pode não passar de especulação. Todavia, a confirmar-se, terei algumas coisas a dizer a propósito de alguns nomes. Esperemos então pelo anúncio do Ministro das Obras públicas, Transportes e Comunicações.

sábado, abril 23, 2005

JÁ SE VISLUMBRA LUZ AO FUNDO

Não me surpreende, como calculam, que cerca de 500 médicos estejam a ser investigados pela Inspecção-Geral de Saúde, a propósito da colocação de professores. O que me surpreendia, e disso dei nota esta madrugada, era que não estivessem. Mas ocorre com os médicos, agora visados, o mesmo que defendi em relação aos professores: o hábito faz o monge!
Não devem, os médicos, passar, de um dia para o outro, de gajos porreiros a filhos da mãe, para evitar a forma mais expressiva que usou Fernando Alves relativamente aos jornalistas...
O hábito de sacar/passar atestados médicos vem de longe e há muito que se tornou uma válvula burocrática. Valia o que valia. Mas era uma nódoa. Pouco visível, é certo. Mas suja, mesmo assim.
Ocorre-me um caso típico. Um professor estrangeiro, a exercer em Lisboa, numa escola não portuguesa, assistiu a um acidente de trânsito, assás violento, de que resultou a deficiência num dos condutores, que ficou pelo resto da vida confinado a uma cadeira de rodas. Fez o que lhe pareceu natural, testemunhou. Um processo mais a seguir trâmites. E entretanto, o professor terminou o seu tempo de Lisboa e regressou ao seu país.
Quando o processo chegou a tribunal, anos depois, o professor foi citado. Apesar do incómodo e da despesa, achou natural. E no dia e hora aprazados lá estava, à espera da audiência.
Que não houve, bem entendido. Geralmente nunca há, em geral o réu não comparece, mune-se de atestado médico. Da vez seguinte, não foi o réu, mas uma das testemunhas, que faltou. Bom, é melhor não dramatizar. Nem sei como acabou o caso. A testemunha deixou simplesmente de comparecer.
E eu paro de citar outros casos paralelos, todos iguais, todos diferentes. Nem quero desculpar A ou B, nem pegar numa lanterna e procurar alguém que tenha razão. É tarde para encontrar um
culpado ou uma dúzia deles, talvez seja tempo de glozar Cesariny: culpados somos nós todos /ou ainda menos/ culpados somos nós todos/ desde pequenos...
A Ordem dos Médicos sai deste caso mal vista. Ao longo dos anos não se preocupou com o assunto. E o assunto era/é simples: a idoneidade da classe...

sexta-feira, abril 22, 2005

COMO SAIR DE UM BURACO?

A maneira mais prática de evitar um dilema destes é não entrar no buraco. Mas sem problemas não há soluções. Pronto! Lá estou eu a atirar-me às cegas pelo beco fora e, depois, esbracejar como um doido. E tudo porque li o matutino, que fazia queixa do matutino do lado. Não era a rufiada de um contra o outro que me pôs mal disposto, já lá vai o tempo em que os jornais me mereciam respeito. Hoje folheia-se um jornal com a mesma placidez com que se busca na lista telefónica o número da salsicharia.
O caso dos profs e dos seus deles atestados médicos deixou-me mal disposto. Principalmente por, a meu ver, ter sido mal abordado. O desenrascanso lusitano tem tradição. Nasce da necessidade e, como é sabido, esta aguça o engenho. No caso vertente, um caos administrativo, politicamente vergonhoso, pôs em risco o ano escolar. Misturou-se escassês de massa, (taco, pilim, cacau, ah! euros!) com falta de programas, falta de organigramas, falta colocações e excesso de vontade de diminuir encargos e pessoal docente. Muita falta e pouca uva.
O resto já se sabe e deu na palhaçada que deu.
E, agora, com o ano já na fase derradeira, ergue-se a questão moral, levantam-se vozes escandalizadas e preparam-se inquéritos impiedosos. Atenção:não vai haver inquéritos aos efeitos da balbúrdia que foi a montagem do ano. O que se põe em causa é a legitimidade dos profs serem aldrabões, como se a aldrabice fosse privilégio exclusivo de outros escalões da função pública.
Muito provavelmente noventa por cento dos atestados médicos em moeda falsa. O que é que se podia esperar?
Não se praticou nenhuma falsificação incomum. Os tribunais recebem imensa papelada dessa para adiar julgamentos. Réus e testemunhas fartam-se de se baldar com recurso desse tipo. Os funcionários que gostam de fazer crecer o fim-de-semana também utilizam esse documento trivial.E toda a gente sabe. É daquelas coisas...
Vamos dar de barato que sim, que no caso da colocação dos profs se exorbitou e que, bom!,pois!, enfim, nasce uma oportunidade para finalmente se sair do buraco. Pode concordar-se com esta tese, mas, senhores, antes de tudo convirá enquadrar bem o buraco. Não será altura para pedir explicações à Ordem dos Médicos?
De facto, não é um sapateiro qualquer que assina o atestado que paraliza o juiz, desautoriza o director-geral ou o director debaixo-do-geral. Nunca se achou por bem pôr em causa a idoneidade do documento assinado à toa pelo clínico mais à mão, o qual as mais das vezes assina por amabilidade ou por ser simpático, sem disso tirar grande proveito. É muitas vezes certo. Será. Mas ao ser simpático, o médico acaba por prejudicar alguém no processo ou, no caso vertente, prejudicou outros docentes igualmente carecidos de colocação e sempre se soube que essa era uma prática corrente, apesar dos prejuizos que causava ( e causa) ao Estado.
E, pela mesma razão, devemos acusar de irresponsabilidade na matérias os sucessivos governos, progressistas ou não, os supremos tribunais com todo o cortejo de ilustres mestres, os quais, de facto, nunca mostraram grande aptidão para prevenir, que é, sem dúvida preferível a julgar?
É manifesto que a legislação nesta matéria terá de ser revista e actualizada com rigor, mas a Ordem terá de intervir também no sentido de impôr respeito pelos valores éticos da classe. Punir só os profs será manifestamente injusto. Como se diz na terra da minha prima: tão ladrão
é o que vai à horta, como o que fica à porta...

É MUNDO QUE TEMOS

Achei por bem oferecer-me umas férias curtas. Como não tenho nenhum amigo milionário, não
fui de canhoneira e nem por isso me vi grego, por ir de carro. Fui sem net, sem portátil, e sem preocupação. O Papa já tinha falecido que me chegasse, mas depois de três dias de viagem, quando liguei a televisão, para saber do mundo, era ainda a morte dele o assunto. Já tinha de sobra e o conclave que estava para seguir-se não me dizia nada. Paris está muito na mesma.
Finalmente comprei um matutino, de uma prateleira de um supermercado de Chateau Thierry e quase caí: era o desemprego, os desempregados a lastimar-se, uma senhora, quadro superior de uma grande empresa comercial a queixar-se que a inflação lhe comia mais de dez por cento do salário. Enfim, populices!
É bem verdade que também eu sou vítima do sistema: entre um bourgogne e um bordeaux não
se coloca a questão de gosto, eu não coloco, mas de preço e, por isso, opto pelo que posso comprar. Bom, mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, não tive a mais pequena curiosidade sobre o que teria acontecido numa aldeola onde houve um congresso, mas passei algum tempo a folhear pasquins expostos à espera de saber coisas da minha terra. Um portuga não deixa de ser saloio só por estar numa lojeca de Saint Germain. Nada. Finalmente, na quinta-feira o Nouvel Obs trazia uma página de pub, com uma foto de Lisboa, do alto de Alfama, bem bonita, por sinal.
Isso lembrou-me que é bem verdade que Lisboa é um dos destinos de agrado dos executivos e dos quadros médios franceses, para as escapadelas de fins-de-semana. No sábado, foi o suplemento do Figaro a incluir uma página de anúncio, mas desta feita de promoção do Algarve. Foi pelo telefone que acabei por saber que o Benfica perdeu e que estava muito vento em Lisboa.
E de repente dei por mim a rir como um perdido. Villepin é ministro do Interior. Achou por bem dizer que a seguir ao referendo, fosse qual fosse a opção, a política ia ser outra, mais isto e mais aquilo. Raffarin foi aos arames e o seu ministro do Interior achou por bem insinuar que foi Chirac que lhe encomendou o serviço. O Presidente, bem entendido, não confirmou nada, nem desmentiu coisa nenhuma. "Uma tempestade num copo de água" -concluiu. Do lado da oposição, o PS debate-se com um dilema: metade é pelo sim, a outra metade é pelo não, o que está a deixar o PC embaraçado. Mas entre a direita a contradição é semelhante. Chirac entrou na liça mas sem grande sucesso. O Canard divulgava ontem que o presidente apenas convenceu a neta de um velho amigo e colaborador, já falecido.
Isto de políticos está complicado, está. Até parece que, afinal, Santana Lopes fez escola!
Mas não é só de política. Pela Polícia, pelos tribunais passa-se de tudo, como nas farmácias e mesmo sem receita. Um exemplo, retirado de um dos vários processos tipo Casa Pia que ocorrem, mesmo onde menos se espera. Sobre um dos mais badalados, o "scandale d'Outreau"
o mesmo Canard editou um dossier a que chama "O horror judiciário", onde conta como dois homens foram presos devido a um erro de transcrição do interrogatório de um dos rapazes abusados que terá descrito um dos pretensos violadores como "Dany le grand (o alto)". Ao
passar ao papel o agente escreveu "Dani Legrand". E eis como, de repente, na Bélgica dois homens de nome Daniel Legrand, pai e filho, foram detidos e acusados no processo, ficando presos. Ao londo do processo o pai Daniel fez parte de um grupo de seis detidos inocentados, mas o filho aguarda há três anos recurso à condenação. Este e outros casos, agora divulgados, estão
a causar algum embaraço aos diferentes orgãos judiciários.
Pois, então, é assim mesmo. Na minha terra a economia vai mal, nos governos é a trapalhada que se sabe, nos tribunais os processos arrastam-se e isto e aquilo. Pois, sim, pois sim. Mas se não fosse o Benfica ser o que é, seriamos todos iguais, todos europeus, com mais ou menos sim, com mais ou menos não. Ah, grande Trapattoni!...

terça-feira, abril 19, 2005

O "Senhor Engenheiro"

Dantes, nos noticiários, chamava-se-lhe "senhor engenheiro João Proença", secretário-geral da UGT. A democracia, entretanto, foi-se acentuando e o título foi-lhe retirado. Hoje é apenas João Proença, secretário-geral da UGT. E o que diz João Proença ?: que a Administração Pública deve ser reduzida entre vinte e quarenta mil trabalhadores.
E porquê, João Proença pensa isto?
Por razões orçamentais - diz, "com muito desgosto".
Mais valera que João Proença continuasse a ser "o senhor engenheiro". Ficavam-lhe melhor as preocupações orçamentais. Assim, sem recomendar um estudo aturado, sem reconhecer a necessidade de um reajustamento dos recursos humanos da Administração Pública, assim, de sopetão, aceitar a dispensa de tanta gente, mesmo em quatro anos, não fica bem a um sindicalista.
Não é, sr. engº?

Os Jornalistas são "umas putas"

No segundo congresso dos Jornalistas - segundo e último - um dos oradores, Fernando Alves, que, felizmente para todos nós, continua de boa saúde e constitui um exemplo de que as generalizações podem ser perigosas, subiu ao palco dos trabalhos e pronunciou a célebre frase: "os jornalistas são umas putas". E explicou porquê.
Ontem, ao ver o comportamento de dois ou três "jornalistas" da RTP, que recorreram a todos os expedientes para encobrir o que se passava na sua própria casa, chegando ao ponto de aproveitar, miseravelmente, as imagens repetitivas de cerca de uma centena de velhos decrépitos, mascarados para um qualquer cortejo carnavalesco - imagens que, posteriormente repetiram no jornal da 2... ontem ao constatar esta verdadeira "filhadaputice", lembrei-me da frase do Fernando Alves.
Coitados dos filhos deles.

NOS DIAS DE NADA

Há semanas assim: não morre um papa nem escolhem outro, não treme a terra nem o mar invade a Ásia, Bush não liberta o Iraque nem Carlos dá escapadelas à cama de Camila, nem o petróleo desce nem o príncipe da batota e dos iates repete o seu trajecto de cá para lá (paz à sua alma e à do Papa (ex) também, em verdade nem mais nada..
Foi uma semana sem importância.
Portanto um rescaldo
Disse-o de ela própria uma fraqueza muito explicada, para que o mundo a visse e ouvisse enquanto dizia, por conseguinte falando aos microfones duma televisão que era ateia.
Ateia a sério, dessas de não acreditar mesmo, confessou-se. Não acreditar nem antes nem depois da morte de J.P. II.
Não obstante sentiu-se chamada a Roma, quando do passamento de um polaco sucessor de Pedro. Não sabia porquê!, admirou-se.
Então pôs-se a falar disso "urbi et orbi"como os papas fazem nos dias de festa cristã. Aventando porém que o chamamento talvez tivesse partido da personalidade falecida.
Queria ela dizer, e não disse, carisma. Por isso a ajudamos aqui. E a ajudamos também lembrando que as exéquias a que ela foi tinham o seu quê de agrado.
Era festa, reliogiosa mas aparatosa. Mais que ritual, um espectáculo, um espectáculo oferecido pela morte. Uma solenidade vestida de roupagens e mostrada por sentimentos. Sentidos uns, mostrados outros.
Uma cena chamando a atenção das indiferenças cosmopolitas. Que gostam de ver tudo e vão a todas.
A festa das chamas
Mas espectáculo de impossível comparação, foi o da pompa e dos ritos com que a igreja se engalanava depois de passar a ser apoiada por reis e suportada pelos respectivos braços seculares: o das fogueiras purificadoras de almas. As que mandavam para o inferno. A queima de hereges constituiu o acúmen da espectacularidade. Judeus, judaizantes, pagãos, bruxas, uma chusma de incréus corria sérios riscos de ser trasnformada em archote iluminante desde que o santo do tribunal da inquisição assim o entendesse.
Então a igreja vestia galas.
Estranhamanete, dada a sua origem judia e a nacionalidade do Filho que Deus mandou à Terra.
É que os judeus, quando martirizavam os seus incréus: os cristãos e outros idólatras (como chamavam, e chamam ainda, aos crentes na santidade de Cristo), eram de festas mais modestas.
Talvez por serem mais forretas.
Crucificavam-nos, e espetavam-nos com compridas lanças que chegavam até ao cimo das cruzes. Mas a pompa e circunstância era coisa barata. Não metia a ostentação de decotes a convidar ao pecado, usados pela rainha e mais damas da corte, nem o passeio de circunspectos bispos e luzidios nobres pelo palco se iriam assar pessoas.
Claro que o ar com que assistiam à gala era grave, mas curioso da festa em que as chamas engoliam os gritos. Calavam-nos tão completamente que deles ficava apenas o cheiro, diz-se que nauseabundo, além do lixo que as vidas deixam quando se vão.
Entre as duas festas, a dos judeus e a dos cristãos, a ciência ainda não escolheu qual a mais cruel: se o esplendor das labaredas se a sovinice duma tosca cruz onde se pregavam e espetavam pecados e pecadores.
Mas, como uma igreja é filha da outra, bem se pode dizer que tal pai tal filho. Ou tal mãe tal filha.
Os Clubes da Política
Em política recuso-me a ter clube. Poderia até votar nas eleições de todos os partidos e escolheria sempre o candidato que a honestidade aconselhasse.
Por isso que no PSD votaria em Marques Mendes. Depois do despassaramento santanista era de obrigação. Escolher Menezes pareceu grave risco à honestidade. O homem deu a impressão de ter um carreto fora do lugar. Ou dois.
E Marques Mendes não. Fala até o politiquês corrente, o daquelas frases redondas cheias de vazio, mas di-las com convicção. Homem a mostrar que não brinca em serviço. Portanto antes ele que outro.
Agora, tirando-lhe a convicção não lhe sobra grande coisa.
E, sendo pequeno de mais para chegar a papagaio, fica-se por periquito. Mas repete as palavras muito bem. Será portanto um periquito amestrado. O qual, falando da Administração Pública, repetiu isso que está na moda dizer: o isso que os empresários querem ouvir, o isso que o liberalismo defende para já, o isso da reacção. Convenha-se então que, mesmo para periquito não foi muito original. Embora tenha a chamada ideologia de ouvido. De onde se depreendeu que ignora que, em Portugal, a instituição Administração Pública nunca funcionou. Que foi sempre dominada pelos governantes. Dominada, infiltrada, esmagada. E que, em consequência, levará muito tempo e muito mais estudo até se perceber o que fazer dela. Como a remendar. Como reformar.
Daí a naturalidade da interrogação a querer saber onde trabalhou este homem, que só sabe periquitar.
Parece que trabalhou em lado nenhum, mas dá uma mãozinha na política. Ou seja, outro político de aviário.
Santo Deus! Está a ser cruel o destino deste Portugal, crucificado na política e assado por aprendizes da governação.