terça-feira, junho 14, 2005

IGUALDADES

Entre igualdades e desigualdades venha a diferença e escolha. Por exemplo, a malta de Viseu não vai muito nisso das desigualdades ou da diferença. Como não aceita agride e espanca quem sai dos conformes. Mas há quem aceite e defenda o direito de cada qual ser como é, mas quando é o caso de se forçar a mão, os preconceitos emergem.
Um sindicalista chocado com as condições laborais no Vale do Ave revelava que algumas operárias com salários muito baixos ou até no desemprego se viam constrangidas à prostituição, com conhecimento e condescendência dos maridos. A crueza da crise faz, no entanto, realçar a desigualdade: ante o espectro da fome, a metade feminina do casal prostitui-se. O esposo conforma-se e ganha o respeito do sindicalista condoído. É uma imagem distorcida. Em plena era dos direitos e igualdades, porque é que a jovem senhora empobrecida, que decerto já lava a loiça e as roupas da casa, varre o chão do lar e cozinha para a família, tem ainda de ser ela a prostituir-se?
E porque não a outra parte? Porque não vão eles, varões, para o parque Eduardo VII ou outros similares, onde tanta gente, alguma alta e poderosa, mas igualmente carente, busca com ardor resposta adequada aos seus anseios? A igualdade, como a responsabilidade, quando nasce é para todos. Mas nem sempre, nem em tudo, se pode satisfazer todos. Se fosse só ir ao parque, pela noitinha, era simples. Mas, ele há mais desigualdades. Olá se há! Ainda que algumas imcompreensíveis e quiçá injustas. Como por exemplo a do pobre professor que badala na televisão pública, que só pode reformar-se aos 65 anos, se nessa altura já tiver anos de trabalho suficientes, e outro gajo qualquer pode ter pensão dourada e vitalícia após três ou quatro anos de banca do Estado, ou 12 anos de Parlamento? Ou mais ou melhores, no caso de ser julgador dos semelhantes pecaminosos?
Não é por nenhuma razão razoável ou lógica e muito menos decente. Mas porque quem mandou, manda ou mandará, nessa área aproveita-se e não se lembra de mandar as propostas de lei sobre essas generosas e ilegítimas benesses a votos. Para privilégio não há referendo. Se houvesse era seguro e certo que ninguém jamais se admiraria (como se admirou) com um nãozito de vez em quando.
A questão não se pode pôr em termos de discutir se é legal, razoável ou ético acumular uma pensão com um salário, mas a legitimidade da pensão, sobretudo se for gulosa, antes do tempo e sobretudo, atribuida por serviço mínimo num orgão do Estado que remunera bem os de cima e não avança com pensões prematuras para os de baixo. Pessoalmente preferiria que o senhor ministro (e outros que tais) perdesse a pensão, e que lhe dessem mais taco no vencimento, do que avançassem com alguma generosidade paga pela Segurança Social ao jovem professor dominical...

segunda-feira, junho 13, 2005

O Estado Que Temos

Há momentos na vida de um povo que o definem como tal. A morte de Álvaro Cunhal é um deles. Ninguém pode ficar indiferente à passagem deste homem pela vida colectiva de Portugal.
Todavia, o Estado, essa instituição em nome da qual pagamos impostos, vamos à guerra, somos presos ou libertos, não traduziu uma única vez, num único gesto essa consideração do povo. Álvaro Cunhal passou, definitivamente, à categoria da lenda sem ter recebido das mãos de nenhum representante do Estado uma demonstração de apreço pela vida de luta, dedicação, esforço e sacrifício que viveu.
O Estado português nunca condecorou Álvaro Cunhal, um homem que marcou indelevelmente a vida nacional durante mais de cincoenta anos.
A sua morte serve também para definir a natureza do Estado que, dizendo servir-nos, se serve de nós, decidindo sempre segundo preconceitos ideológicos que nos dividem.

Discursos Políticos II

Apenas ouvi meia dúzia de frases do discurso de Mário Soares sobre o 20º aniversário da adesão de Portugal e Espanha à CEE, hoje UE, por isso, que me desculpe este homem cuja presença na vida pública portuguesa já ultrapassou, seguramente, a da maior parte dos protagonistas da nossa História, talvez com a excepção de Afonso Henriques e D. João V. Espero, todavia, ler, numa primeira oportunidade, tudo quanto disse naquela circunstância.

...Mas ouvi, integralmente, o discurso de Felipe Gonzalez.

Ora aí está o discurso de um político. Ficou claro o seu pensamento: pode a Europa competir com o poderio demonstrado pelos estados emergentes nesta globalização através de salários baixos?
Pode a Europa competir com os saltos tecnológicos conseguidos pelos Estados Unidos, muito à custa da guerra contra o Iraque?

Pode a Europa manter o seu modelo social contra estas ameaças?

Pode a Europa acrescentar a cada hora de trabalho imaginação, criatividade, inovação e, com isso, superar os seus reais competidores neste Mundo globalizado que os europeus desejam e para o qual comparticiparam e comparticiam?

Foram estas as perguntas de Felipe Gonzalez, que se considerou, primeiro, um "HOMEM LIVRE" e, depois, um cidadão" sem responsabilidades mas não irresponsável" e, por isso, preocupado com o actual terramoto que assola a União Europeia. A solução para a crise está nas mãos da geração actualmente detentora do poder europeu. Uma geração já sem as referências fundamentais da primeira e da segunda guerras mundiais. Esta geração - disse Felipe - tem a obrigação de governar o verdadeiro "presente de Deus" que representa a Unidade Europeia, seja a dez , a 25 ou a 35.

Oxalá Sócrates e todos os outros tenham ouvido igualmente a sua manifestação de esperança na possibilidade de a Europa manter, contra tudo e todos, o seu modelo social

Oxalá.

Os Discurssos Políticos

Acabo de ouvir José Sócrates no seu discurso de comemoração dos 20 anos de adesão de Portugal à então CEE, hoje UE.

Alguém tem que ensinar ao primeiro-ministro que aquele tipo de discurso já não se usa e é cansativo. Mais: aquilo é um tipo de discurso jornalístico que já nem nos jornais fica bem, com as muletas habituais: a retrospectiva histórica capaz de justificar conclusões prospectivas e onde nem sequer falta o estafado "por outro lado...".
Sócrates usa também os truques dos padres da Aldeia, repetindo, no início de cada período, as mesmas frases ou, às vezes, uma única palavra. Aos políticos dispensam-se os truques de oratória.

A um político exige-se, num discurso público, em circunstâncias tão marcantes, a notícia. Um discurso com novidades, com ideias novas, sem tantas referências ao passado. A um político exige-se, quando fala, a indicação para mudanças na sociedade que dirige, sobretudo no nosso tempo, que circula a uma velocidade igual, ou superior, à da velocidade da luz. Um político, quando fala, tem que dizer alguma coisa.

Eu já não me lembro de nada do que ouvi.

As Dívidas E Os Perdões

O Grupo "G-8", de repente, resolveu perdoar as dívidas aos 18 países mais pobres , isto é, aos mais endividados, isto é, aos estados que não pagam as suas dívidas, isto é, resolveram premiar os estados que têm tido ao longo dos tempos uma atitude de menos (ou nenhum) respeito pelas regras da convivência internacional.

Olhamos par a lista e não podemos deixar de ficar surpreendidos. Nenhum dos 18, exceptuando, provavelmente, o Burkina Faso, pelas condições climatéricas, e o Uganda, por via dos sucessivos genocídios levados a cabo por razões ainda não totalmente identificadas publicamente, terão algumas razões para se comportar como não pagadores dos seus compromissos internacionais.

Esse pagamento representaria, de resto, uma afirmação de dignidade e soberania nacionais que a todos honraria.

O escândalo aumenta quando percebemos que na lista seguinte - passível de novos perdões - se encontram países como Angola, Costa do Marfim, Camarões, Congo, Somália, Sudão e Togo.

Esta resolução, que encheu de contentamento os ministros das finanças do grupo "G-8", não tem uma referência, um prémio, para os países que, sendo efectivamente pobres, sempre se esforçaram por cumprir os seus compromissos e, para isso, obrigaram os seus cidadãos a comportamentos responsáveis, plenos de sacrifícios e - por isso também - mais dignos.

Esta decisão é um prémio à corrupção, ao roubo institucionalizado, à exploração desenfreada, ao conluio entre as elites nacionais e as instituições internacionais que prestam assistência, que distribuem verbas ou bens pagos por todo o Mundo.

Esta resolução não resolve problema nenhum. As elites dos países da primeira lista vão ficar mais ricas e prolongar a ocupação do poder de decisão sobre todas as matérias que dizem respeito aos respectivos povos e as da segunda vão tentar perceber, antecipadamente, como desviar em seu próprio benefício os perdões que vão chegar, e com, isso consolidar, igualmente, os esquemas de domínio do poder político nacional.

Mais do que isso: este perdão é, de facto, uma tentativa de construir um esquema institucional de intromissão na gestão de cada um destes países governados por verdadeiros gangs de ladrões.

É interessante verificar que países como Cabo Verde não fazem parte de nenhuma das listas. Sempre cumpriram com os seus compromissos e mantiveram acesa a luta por dignificarem a sua condição de países independentes. Por isso vão ter que continuar a lutar com as suas próprias armas, primeiro contra a organização internacional que favorece a corrupção e depois contra os seus congéneres que não apreciam particularmente o seu modelo da honestidade.

Pode não servir como comparação, mas ela aí vai: é como, quando, em Portugal, um governo se lembra de lançar um perdão fiscal sobre os contribuintes não cumpridores. E os outros? Ficam assim, sem direito a nada e com a obrigação de financiar a corrupção, a irresponsabilidade, a ladroagem daqueles, que, muitas vezes, não se inibem de, com os seus automóveis de topo de gama, passarem propositadamente nas poças de lama e salpicar o coitado que vai a pé porque toda a vida pagou as suas obrigações.

domingo, junho 12, 2005

Os próximos capítulos

Estou verdadeiramente surpreendido: sempre que escrevo alguma coisa sobre o Luís Delgado, os níveis de leitura deste blog sobem em vertigem.
Quer dizer: se eu funcionasse como o Luís Delgado, passaria, desde agora,a escrever só sobre ele. E matéria não faltaria.
O Luís Delgado seria para mim (para este blog) como o romance escaldante de uma vedeta da televisão, do cinema, da política, é para as revistas do coração ou cor de rosa.
Não é isso que verdadeiramente me motiva, mas não posso deixar de me interrogar sobre o efeito "Luís Delgado" na blogoesfera. Será que se está à espera que eu revele alguma coisa verdadeiramente bombástica sobre o LD?
Não percam os próximos episódios...

sábado, junho 11, 2005

TAPAR OU DESTAPAR

O que as crises têm de chato é a dificuldade em perceber porque ponta é que se lhes deve pegar. A senhora ministra da Educação quis mostrar obra e, porque crise é crise, avisou que ia
poupar uma pipa de massa, restringindo aqui e ali, travando progressões progressivas. Avisou ainda que uns três mil professores incapacitados de dar aulas iam ser deslocalizados, por assim dizer. Saiam das listas de profs e iriam (ou hão-de ir?) para actividades afins, como bibliotecas, do ministério de de autarquias. A ideia luminosa consistia em não falar de despedimentos.
Acho mal. A crise no mercado de trabalho surge, de repente, falseada. Se há lugares possíveis de preencher nas bibliotecas municipais ou nas do Estado já devia ter-se aberto concursos de preenchimento desses lugares, entre os milhares de desempregados, muitos dos quais com currículo mais que suficiente e que nem sequer estão incapacitados de exercer a sua profissão.
Não se trata de ter ou não ter respeito pelas pessoas, neste caso, pelos trabalhadores. O direito ao trabalho disponível é para todos os desempregados.
Nos três milhares de professores a empandeirar, alguma da incapacidade resulta da recusa em mudar de local de residência ou outras distorções profissionais, mas seja pelo que for a incapacidade de preencher o seu posto de trabalho não lhes dá, a eles, nem à senhora ministra, o direito a usurpar outros postos de trabalho.
É claro que o desvio de docentes deve abrir espaço para novos professores, mas uma coisa não invalida a outra. O preenchimento de vagas, se for caso disso, será por concurso, naturalmente. Mas, minha boa gente, não há concurso para despedimentos. Há que ter algum respeito. Já basta quando alguns artistas da cor entram pela porta do cavalo. O governo deve guardar alguma contenção, mas ser pragmático: quem não pode ou quem não quer o posto de trabalho deve ser dispensado, com o devido respeito. Mas as vagas não podem nem devem ser para alguns.
E por falar em professores, porque não falar de ensino. Não por economia, mas por estímulo. Porque não convidar vultos para lições a vários níveis via TV codificada. A melhoria de técnica de ensino e o sumo de lição podia ser assim, creio eu, valorizados. Não com o intuito de substituir para poupar, mas de enriquecer o ensino, introduzindo alguns pós de qualidade extra.
Porque também este é um ângulo de preocupação: a qualidade. Fico-me por aqui. Tenho que estudar, mas volta não volta oiço o prof. na Televisão. Se aprendi alguma coisa de filha de putice foi a ouvi-lo...

Alívio

É a sensação deste 10 de Junho - que até me basta para não ter que analisar as condecorações do Presidente da República. Já não há ninguém de méritos comprovados para que o povo distinga? Então acabem-se com as condecorações... Tenhamos algum respeito pelos palhaços.

O alívio - com o já entenderam - não tem nada a ver com isso ( medalhas são medalhas e já não valem nada no prego, oxidam muito rapidamente). Tem a ver com a resposta aos inúmeros e-mails que eu e, muito provavelmente toda a gente, recebemos, pedindo bandeiras negras nas janelas.

Não respondi a nenhum deles, mas fiquei à espera. Afinal, nada aconteceu. Estes protestos, mobilizados não se sabe bem de onde, não resultam. Felizmente que a extrema direita, aliada à direita populista ainda não tem terreno para este tipo de acções. Mas, cuidado, a Europa está à beira do abismo. Com lideranças tipo Barroso, Chirac, Blair, Schroeder... não vamos conseguir resistir à pressão neo-liberal ( a rondar o fascismo) dos EUA e ao canto da sereia chinês, sem respeito por qualquer tipo de regras que considere a pessoa humana como a coisa mais importante da política.

Aos portugueses não ficaria nada mal ficarem mais atentos. Os portugueses e já agora o Presidente da República, que parece ter perdido o Norte. Ele já não sabe que o conflito Leste-Oeste nunca existiu, bem como o diálogo Norte-Sul. É o contrário, sr. presidente! E as condecorações servem também para dar sinais...

sexta-feira, junho 10, 2005

SALOIADAS

Que um homem tivesse esposa e filhos era tão natural como ser solteiro, antes de casar. Com o desenrolar do tempo cada vez mais é tão natural ser solteiro, com mulher e filhos, como ser casado uma porção de vezes e ser pai de filhos de outros. Simplifiquemos: qualquer um pode ser o que lhe apeteça. Nem sempre foi assim. Tempos houve que uma criança podia nascer já condenada a um BI monstruoso: filho (a) ilegítimo (a). Ainda conheci um caso em que o bebé foi rotulado como filho de mãe incógnita, apesar de ter nascido numa maternidade pública. Ainda podia haver alternativa nos casos fora do casamento em que o pai, casado, anuisse perfilhar a criança, mas para tal era indispensável a concordância da esposa atraiçoada. Com paciência e alguns anos de de intervalo, conseguia-se. Mas a inversa, ser a perversa adúltera a ter a criança, que não do marido, era muito mais complicado. Basta lembrar que os tribunais (e os juizes) reconheciam o direito à honra. Não foram poucos os maridos que lavaram a honra conspurcada a tiro ou à machadada, conforme a época e arcaram com uma sentença de desterro de 30 ou 40 quilómetros.
Há de resto um caso interessante sobre esta matéria justamente sobre uma herdeira do Diário de Notícias, que teve um devaneio sentimental. O marido, com ajuda de médicos puritanos, tentou interná-la como doida, e inibida do uso dos seus bens. De facto usurpou-lhe a propriedade do Jornal.
Hoje o mesmo matutino critica um candidato à Câmara de Lisboa por exibir a esposa e o rebento do casal. Não terá uma coisa a ver com a outra. Os casamentos não são hoje o que foram no passado. Quando referi o Diário de Notícias, não foi a propósito da apresentação pública do candidato, noticiada como um episódio das próximas eleições autárquicas, mas do editorial do jornal. Nem sei que dizer. Talvez inverter os factores. Então, seria assim. Os editoriais já não são o que eram. Dantes os editorialistas sabiam o que deviam saber. Usavam pesos e medidas e escreviam sobre assuntos sérios, criticavam asperamente, mas com elegância. Liam-se com prazer. Podia-se discordar, mas apreciava-se o estilo e a cultura.Quando os ardinas gritavam:
«Fala o Rocha...fala o Rocha» eu comprava o jornal. Continuei a comprar quando ouvia, depois, apregoar «Vem à Cunha...Vem à Cunha», às vezes quase às 7 da tarde.
Não é lá por Carrilho ter dado uma de David Beckham que se tem editorial. Também acho que o homem de cultura que Carrilho sempre se quis afirmar não se compadece com cenas saloias, por mais interessante que possa ser a senhora sua esposa, também ela muito apegada a cultos e a culturas. Mas daí a espaço nobre no matutino vai alguma distância. A mesma, no fim de contas, que vai desde os primórdios ao presente: um percurso quase sempre a descer...

quinta-feira, junho 09, 2005

Por Favor!!!

Essa gente da Lusomundo, da não sei quantos Global, da Multimédia, ou da PT mão consegue entender-se com o F. Balsemão - já que pagam, que paguem!!! - e retirar aquele fantasma do Luís Delgado dos comentários políticos da SIC Notícias? Francamente! Acho que vou retirar o canal 5 do meu "zaping". Assim não corro o risco de o ver e ouvir de novo. Que raio!!! É preciso algum decoro - diria mesmo: é preciso vergonha!. Deixem lá o homem com o BMW, série 5, e o apartamento de luxo no condomínio de Alcântara, mas proibam-no de aparecer em público a comentar a política - seja ela qual fôr: nacional, internacional, autarquica, desportiva ou mesmo da Junta de Freguesia a que pertence. Por favor!!!

É A FALAR ...

...Que a gente se entende. Não sou muito adepto dos silêncios estratégicos. O governo inglês adiou, não fosse o Diabo tecê-las. Em boa verdade já tinha tecido: França e Holanda optaram por um rotundo não. Durão Barroso foi falando sem dizer nada. Sócrates não sabia o que dizer. Não havia estratégia no governo, havia silêncio falado, do género esperar para ver. Freitas do Amaral, esse, sim, falou e traduziu a decisão do governo de Londres com um expressivo "o tratado da constituição europeia não é viável".
Provavelmente não é e provavelmente não vai haver outro referendo sobre o tratado, tal como está.
A reunião na Assembleia da República dos líderes parlamentares evidenciou que não era tão determinada como se afirmava no PS e no PSD a decisão de manter a consulta ao povo português. Optou-se por uma pausa. Não é,pois, um silêncio, é uma gritaria. É natural que o titular da pasta das Necessidades exprima opinião sobre matérias do seu pelouro. Se apenas se limitasse a transmitir o recado do primeiro-ministro não precisaria de ser ministro, qualquer um Fernando Gomes servia. Eles servem para tanta coisa...
Em todo o caso, António Vitorino veio a terreiro explicar o que é que os ministros devem e não devem fazer, e não devem expor posições pessoais que causem ruido. Foi a opinião dele, diria depois Freitas do Amaral, o qual ainda foi a tempo para relançar a nova moda no política portuguesa: a tempestade num copo de água...

terça-feira, junho 07, 2005

METER ÁGUA

O governo anunciou que a água vai ficar mais cara, coisa de nada e o que é importante nem é o consumo, mas a reserva e a qualidade. Para que se cuide melhor da reserva e se sirva qualidade tem que se tomar medidas.Quem se der ao incómodo de ler o recibo da água há-de verificar a porção de taxas e sobretaxas, além da água propriamente dita, que tem de pagar por um líquido que, à cautela, nem deve beber.
Mas nem é pelo preço, nem é pelo aumento que manifesto algum desagrado, mas pelo desinteresse que os poderes públicos têm revelado ao longo dos anos pelos atentados aos veios de água, que alimentam os poços rurais, rios e ribeiros do país. Todos os responsáveis pelos institutos, pelos municípios pelos sucessivos governo sabem o que se passa pelas pecuárias, como são feitas descargas criminosas. O ar incomodado de alguns personagens a tentar fazer crer que vai ser instaurado um inquérito. O caso dormita até ao próximo incidente do género. São praticamente todos ou quase todos os porqueiros ou similares. Os raros que não são ficam mal vistos na fotografia e passam por parvos. E o Estado sabe. E sabe quais são e quantos são, e onde moram. Mas quase sempre faz por esquecer.
É duro que seja o cidadão que tem em casa o contador de consumo de água a pagar a crise e a pagar as águas, quer a trabalhar que esteja no desemprego, enquanto o explorador de suinos opta pela multa em caso de, e são muitos poucos, no fim de contas, os casos de...
Se este governo e este primeiro-ministro quiserem ser coerentes com a preocupação pelos cuidados da manutenção da qualidade da água deveriam ter começado por impor regras à laboração de pecuárias ou qualquer outro tipo de industrias poluidoras. A multa não é uma punição; a multa legitima a infracção. Este é um género de negócio que não pode ser tolerado.
Muita de responsabilidade cabe aos municípios, sempre prontos a olhar para o lado, mas os orgãos do Estado conhecem a situação. Querem fazer crer que existe outra crise de momento para enfrentar e cada dia que passa agrava-se o índice de poluição.
Salvar rios e proteger o ambiente não é só um dever é também investimento. Um rio de cara lavada também pode gerar receitas e pode restituir o respeito pela Natureza e alguma simpatia acrescida pelos agentes do Estado.

segunda-feira, junho 06, 2005

EM BUSCA DA SABEDORIA PERDIDA

Quando fiz a tropa, era Angola antes dos idos de um Março qualquer, um dos prazeres que raro voltei a ter era o de falar com os cabelos brandos dos velhos. Aliás realmente velhos porque o cabelo de negro é resistente ao encanecer.
Era então o falar com a sabedoria.
Falavam pausado, deixando a inteligência descansar por sobre os intervalos da lentidão, e só depois diziam.
O quê?
Ora, diziam o que dizem os sábios. No caso, sèculos de Angola.
Diferentemente do que dizem os velhos da Europa, que falam à velocidade dos novos europeus as mesmas banalidades que eles.
Mas com surpresas em todas as idades.
Entretanto um pescador em Sines
Um dia de tarde entrei numa taberna de Sines. Ia dar de beber à sede. E numa taberna por gosto do bom vinho de barril, que já não se vende, e de ouvir a sinceridade dos copos, que cada vez se usa menos. Até os bêbados falam o falso português dos jornais e das telefonias, quer-se dizer, falso de bem comportado e sem caixa de velocidades. Com excepções, evidentissimamente.
Três pescadores tinham-se-me antecipado nos copos e estavam em guerra vínica com o governo, um desses do costume que andava em guerra contra eles. O problema era de marisco e de proibições.
Então um deles, quando me percebeu interessado, deu uma lição marisqueira, com explicações de nascimento e procriações, da razoabilidade científica de certas leis e do amadorismo óbvio de outras, após o que transitou para a análise do reflexo económico da atitude governamental com contabilização de ganhos. E perdas, que eram para todos, país e pescadores. Disse.
Foi como ouvir uma sinfonia, um homem de camisa grossa aos quadrados e penso-o descalço, mas já não sei. O que sei é que gostava de ouvir a mesma sonoridade em Sócrates. No que temos.
E a lembrança de Chiesso
Ao ouvi-lo, a esse pescador-talvez-descalço, o vinho trouxe-me o Chiesso à memória.
Não era sèculo. Apenas um negro qualquer arrebanhado para a tropa e que calhou no "meu" pelotão. Já era fora de idade, um recruta com entre 30/40 anos. Acontecia. Era tudo feito a olho. Mediam-se os mancebos pelo pêlo púbico, e se o moço fosse felpudo, tivesse ou não tivesse idade, ia malhar com os ossos na tropa. Ou, de contrário, se fosse escasso de pêlo, tivesse ou não ultrapassado a idade, assentava praça.
Ora Chiesso não devia ser de abundante pilosidade. E no meio da moçada sentia-se deslocado. Ajudei-o com muita simpatia, que ele retribuia passando os domingos a apanhar pássaros que me oferecia. Não convivia com a rapaziada, talvez da idade dos seus filhos.
E aconteceu num dia daqueles tempos de paz, a pax lusitana como lhe chamou Mesquita Lemos, em que eu distribuía tarefas, lhe disse que "nós, que somos amigos" vamos fazer qualauer coisa que se perdeu no tempo. Aí Chiesso formalizou-se e ponderou discordância a respeito da amizade. O que me espantou:
- Não és meu amigo, Chiesso?
- Amigos, quer dizer, amigos, bom eu gosto do meu aspirante, o meu aspirante talvez goste de mim, mas, amigos, o meu aspirante tem os seus amigos e eu tenho os meus amigos.
O mistério no meio daquela amizade está no entender como um analfabeto conseguiu estudar de Karl Marx o seu discurso sobre classes sociais...
Este diz que não mas é
Ao certo, ao certo é benfiquista. Quanto ao ser comunista diz que não mas parece que é. Pelo menos desanca "neles" (PS, PSD e CDS) de manhã à noite. Durão Barrosso e Paulo Portas eram "esses macacos que estão no governo", Sócrates "é um gajo do mais à direita que tem o PS" e andando por essa via (será suspeita?) mas com fio de raciocínio a mostrar escola. Apurada para quem é de poucas letras.
Há dias andava numa de pessimismo sem esperança. Aí temperei com os exemplos da Irlanda e da Finlândia que conseguiram, como países, situação confortável. Embora modestos de capacidades naturais.
E a sua resposta foi instantânea:
- Ah, mas isso foi com confiança nos governantes. E quem é que vai confiar nestes gajos?
A confiança
Portugal é um país que vive asfixiado entre o discurso capcioso de juristas e o discurso contabilístico dos economistas. E, pelos indícios, tudo gente que acabou os cursos já doutores. Provavelmente ninguém lhes ensinou que a Universidade confere aos seus alunos apenas os ensinamentos necessários ao estudo. Não faz sábios. Os sábios fazem-se a si, estudando depois de sairem da escola.
Precisamente aquilo que os nossos ministros (eu excluo da maralha Maria de Lourdes Pintasilgo, António Guterres e assim; talvez outros engenheiros que se tivessem dado ao trabalho de perder, aliás ganhar tempo lendo e meditando sobre os problemas sociais) dizia então que os nossos ministros e deputados, a generalidade deles concerteza, deixou os bancos da faculdade já doutores. E pronto, sentiram-se aptos para doutorar na coisa política.
Daí que nenhum deles, até hoje, se preocupou em perguntar-se o porquê desta bagunça que tem gerido os destinos do país. O meio-comunista-e-benfiquista-completo diz que é por falta de confiança nos governantes. E di-lo do rés-do-chão da sua instrução primária.
Será?
E,se for, qual o projecto? qual o método? qual o estudo? qual o plano apresentado ao país para chamar os portugueses à confiança?
Mas pode ser que não seja. Porquê?
Poucos meses depois das últimas legislativas, Sócrates foi tão explícito quanto ao processo de captar a confiança da nação que já tinha esbanjado, com a salgalhada das pensões juntadas aos vencimentos ministeriais, o capital de confiança que o levara ao poder.
E Marques Mendes, o periquito falante, anda a exigir reformas da Administração Pública já! - em demonstração cabal de não fazer a mínima ideia da complexidade do problema, dos meses que se vão gastar a estudar a matéria, as perguntas de investigação, o que fazer o o como fazer. Talvez nunca tenha trabalhado na função pública nem na função privada. Estudou para doutor e para ministro. Saiu feito da máquina, como as salsichas.
Talvez então mandando esta gente repetir a instrução primária.
Não tanto? Os preparatórios? Então fica assim, preparatórios.

domingo, junho 05, 2005

ENTRE O SIM E O NÃO

Cabe sempre um talvez. E talvez tenha sido por isso que fugi da crónica sobre os nãos e os muitos ses que ela suscita. Pessoalmente sou um europeu do tipo saloio. Conheço melhor a Malveira (e já não passo por lá há uma vintena ou mais de anos) do que a Inglaterra toda. Passei umas horas em Londres, andei de metro e de maximbombo. Jantei um steak com batatas fritas (juro), coisa que nunca como em Lisboa. Das restantes vezes foi só escala nos aeroportos. E por via dos aeroportos londrinos conheço um bom pedaço da Austrália, que não vem para aqui chamada, como as ilhas da Nova Caledónia, da minha viagem de núpcias, aos 65 anos, quando me reformei, tal e qual, sem subsídios extras ou comprometedores.
Bom,que mais? Ah! Sim, pois, a Espanha, isso sim, desde o tempo da peseta barata e do meu primeiro «metro». A França, claro; a Itália menos, mas o suficiente. Da Alemanha um pedaço de Munique, onde fui com um colega buscar o BMW dele, que nos facultou um imenso regresso
a Lisboa, onde estava de passagem, habitava em Luanda.
Bom, esqueceu-me de mencionar o Luxemburso, mas não tem importância. Passei por lá uma vez para apanhar um avião de regresso ao Jornal Novo. Estados Unidos e Brasil não fazem parte da crónica.
Sei pouco da Europa sim ou da Europa não. Nunca fui à Holanda, e gostava de ter ido. Aprendi a gostar dos holandeses, quando estava em Angola e soube das «Minas malucas» por uma revista sueca. Mais tarde um poeta havia de fascinar-me a contar a experiência dele na Holanda, um paraíso de liberdade. Tudo isso já bem na gaveta da História, mas influencia o meu apego pelo país que não conheço.
A história das «minas» data do fim de guerra na Europa. Até então a Holanda era sociedade recatada. Durante a guerra a escassez de mão de obra (praticamente só os homens trabalhavam) levou as fábricas e outros armazéns a abrir as portas às mulheres. Nas principais cidades costeiras mudou a paisagem e iam mudar os hábitos.
Os cafés, as tascas das zonas fabris não tinham sido equipados como lojas mistas. Até então os clientes eram homens e, de repente as mulheres passaram a dividir o consumo. Queriam sentar-se em grupo e discutir modas e sindicalices, que também começava a estar de moda. As tascas não dispunham de sanitários para senhoras. As pequenas não foram de modas e deram volta ao assunto. Ocuparam quase todos os tascos da área; duas ou três ficavam sentadas em cadeiras às portas da «cazinha», a tricotar. Estenderam umas cortinas de rendas por sobre as portas e impediam a entrada a machos. Que festa que seria para as televisões de hoje!
Mas elas ganharam, como hoje em dia se pode verificar, em qualquer momento de aperto!
Outro triunfo do movimento feminista foi contra o excessivo recato. A Rainha de então alimentava um puritanismo rígido. No dia nacional, festejado com um cortejo tradicional, as «minas malucas» integraram-se em grupo no cortejo, carregando um enorme símbolo fálico...
Anos mais tarde, quando o poeta me falou da sua estadia holandesa, a Holanda já era outra e surpreendeu o próprio poeta. Puritanismo nem vê-lo e não fora ele poeta e certamente teria criticado alguns excessos de arroubo.
Hoje, quando é preciso, votam não e não acreditam que seja uma tragédia.

ANTES QUE CASES

Já não é novidade: a França disse não; a Holando gritou não. O sr. Raffarin saiu e entrou outro, mais alto. Chirac é o mesmo, paciência. Hollande afastou Fabius da direcção do PS. Não chegam grandes rumores da Holanda. O estardalhaço é aqui. Um súbito medo do escuro.
O sr. Jorge Miranda defende o adiamento. Adiar, que se saiba, não é solução. Que interessa ou justifica um referendo que só admite uma resposta. Um não como o que cresceu pela Europa
tem a virtude de ensinar os que julgam que sabem tudo. E nem vale a pena explicar agora, muito bem explicadinho, que o não foi por isto e aquilo. Não interessa, por mais análises e teses o efeito é o mesmo. Não é exactamente o contrário de SIM. Uma vez uma vizinha disse-me que não. O que é que eu podia fazer? Ora! Ir à procura de outra que dissesse que sim...

sábado, junho 04, 2005

"Um Lugar Ao Sul"

É um programa de Rádio transmitido na Antena 1 da RDP que os burocratas atiraram para as sete horas da manhã de Sábado.
Tempos houve em que a Rádio era um meio de comunicação nobre, dirigido por gente íntegra e de cultura e que percebia o essencial de um instrumento tão poderoso. Nesses tempos, jornalistas, ou radialistas, como o Rafael Correia, eram considerados num plano de prestígio que nos garantia a salvaguarda dos valores culturais que nos diferenciam no Mundo.
Com a chamada massificação ou globalização, ou lá o que é, passamos o dia ( quando há paciência para isso) a ouvir disparates, conversas ocas de sentido, intercaladas do anúncio das previsões meteorológicas e das horas que vão correndo, além de música que pouco tem a ver connosco, sem nada que nos possa recolocar no nosso espaço, aproximar-nos uns dos outros.
Rafael Correia, todas as semanas nos mostra o caminho de um lugar ao Sul, mas a horas que pouca gente ouve - o que indica, seguramente, a predisposição das gentes que agora dirigem a principal estação de Rádio de Portugal de o atirar tão para Sul, tão para Sul que vai saltar das antenas, já sem espaço e sem voz para nos mostrar a nossa gente.
Hoje lá consegui estar acordado para o ouvir. Espero que muito mais gente tenha tido uma "espertina".
Ora então, muito bom dia, Rafael Correia. Oxalá alguma coisa mude a sério neste país.

A Verdade da Imprensa

Um dia destes, desta semana, passou a correr num daqueles oráculos que todas as televisões usam para mostrar de fugida as notícias importantes, enquanto vão falando e mostrando o sangue da estrada e as caras disfarçadas dos pedófilos e das alegadas vítimas e a história de mais uma velhinha simpática, mas que já não fala nem ouve... um dia destes, num daqueles oráculos, fugiu a notícia segundo a qual o New York Times tinha mandado fazer uma sondagem para seu próprio consumo.
E que resultados obteve nesta sondagem? Que a maior parte dos leitores não acredita em nada do que os seus redactores escrevem.
Esta conclusão - terrível para quem edita um jornal - levou a respectiva direcção a lançar uma reestruturação profunda no modo de fazer jornalismo: por exemplo, acabar com as fontes anónimas, contraditar as fontes oficiais, abrir linhas directas para os leitores e outras medidas.
Será que algum jornal português tem estrutura mental para, honestamente, fazer a mesma sondagem e actuar em conformidade com os resultados obtidos?
Tenho a certeza que não. Nenhum deles ligou a mínima a este processo americano. De resto, da América, só lhes interessam os discursos inteligentes de George Bush.

Os Nãos Europeus

Não deixa de ser interessante verificar as reacções portuguesas aos "nãos" dos outros, neste caso, o não dos franceses e dos holandeses à proposta de um novo tratado de constituição europeia.
Um tratado para substituir um outro, o de Nice, que entrou em vigor em Janeiro de 2005, concebido para albergar a turba de europeus do Centro e do Leste.
Para uns quantos portugueses ilustres, o não francês podia ser uma catástrofe, para outros, igualmente ilustres, com direito a tempo de antena e a escritos nos jornais, foi o produto da ignorância e da falta de informação, representou, não uma resposta à proposta da constituição europeia, mas uma vontade incontrolável de deitar abaixo o governo.
As versões da análise sobre o não holandês são um pouco diferentes, mas vão ter sempre à falta de consciência e de informação.
Claro que também os dinamarqueses - que se preparam para dizer não - vão ser rotulados de mal-informados, ignorantes e outras coisas piores.
Bons, bons, mesmo vão ser os portugueses. Nós sim, estamos perfeitamente informados e, como, ao contrário dos franceses, não atravessamos nenhuma crise de identidade, vamos votar "SIM". Como a Espanha também já disse sim, em referendo, e uma série de outros países também já aprovaram o novo tratado nos respectivos parlamentos, sempre temos a possibilidade de juntar umas quantas bandeiras e ir fazer uma outra Europa, ali mesmo ao lado, para ficarmos a apreciar o inferno dos não informados, dos ignorantes, com profundas crises de identidade.
O que custa mesmo nisto tudo é verificar a incapacidade de reacção dos líderes políticos a um resultado que se adivinhava. Durão Barroso fez declarações absolutamente idiotas, do tipo, "faço um apelo à reflexão, à calma ..." e coisas quejandas.
Em Portugal, o meio metro veio logo dizer que não realizar o referendo era sujeitar o heróico povo português à humilhação de não sei o quê.
E ninguém conseguiu explicar por que razão povos como os de França e da Holanda votaram "NÃO".
Ora, como não aparece ninguém a explicar nada, é bom que se olhe para algumas outras reacções: em Itália, apareceu logo um ministro a dizer que o melhor será fazer circular, de novo, a lira, ao mesmo tempo que o euro.
O mesmo acontecerá brevemente noutros estados europeus, provavelmente mesmo em Portugal. Tal seria bom para os políticos que gostariam de voltar a ter nas políticas cambiais um instrumento de política económica.
Enfim... estão para acontecer algumas coisas interessantes e nós, por cá, continuamos a olhar-nos como os mais inteligentes, os mais sábios, os mais bonitos. Por isso bem merecemos uma Europa só para nós. Em Outubro ela vai cair-nos no sapatinho. Afinal, Natal não é quando um homem quer?

quinta-feira, junho 02, 2005

A CRISE E O ACESSÓRIO

Recebi uma mukanda interessante a dar-me conta de que, afinal, o senhor Banco de Portugal/Constâncio é um instrumento do primeiro-ministro. Com a autoridade que lhe advém do cargo deve advertir, alertar e precaver o Governo e/ou a Assembleia da República. Dá o mote e o governo que estiver no poleiro está justificado para impor medidas drásticas. Foi o que aconteceu com Barroso e, depois, com Santana. E, agora, de forma mais sumarenta. O governador do BP tem cumprido com zelo o compromisso de ser a todo o instante, como cantava a senhora do fado, sentinela vigilante da honra do marido dela e, neste caso, da nação, o que, de algum modo, também se deve aceitar como natural, considerando a remuneração que aufere pela colaboração que presta aos senhores primeiros ministros e colaboradores afins. Ao pé do senhor Victor, o que Fernando Gomes vai auferir parece remuneração de marçano.
De facto, considerando o volume da crise, anunciada por gente abastada, poderia sugerir-se começar por aí a poupança, remunerando um pouco menos alguns cargos principescos e que por via disso se tornam suspeitos de colaboracionismo excessivo.
Mas em vez de meditar nas formas de governar a crise, o que preocupa os agentes políticos ditos de oposição é o convite formulado pela RTP a António Vitorino de comentar, provavelmente os comentários dos outros, ou os acontecimentos em versão pessoal. Pode entender-se que pelo facto de se ser próximo de um partido se seja proíbido de emitir opinião?
Tanto quanto me lembro, Marcelo Rebelo de Sousa ainda era afilhado do padrinho e já botava opinião no Expresso e quando calhou ser colega de governo do seu ex-director, telefonava imenso a dar informações estratégicas, com comentários a condizer, a uns quantos fulanos da comunicação social, mais ou menos conotados com a posição democrática do governo tripartido.
Deve ser mais agradável e salutar escutar essa alta personalidade do PS, que é António Vitorino, do que gramar os pontos de vista do ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. O ex-de Gondomar teria mais graça, sobretudo se fosse para debater assuntos sérios ou de arbitragem!
Não, meus senhores, já basta de censuras e de censores, sobretudos destes. Deixem falar quem
tiver audiência e é isso que interessa aos canais de TV e às respectivas audiências. Qualquer de nós dispõe do único instrumento de censura legítimo: o comando da TV.
Tal como os políticos estão de moda e a ser contratados pelos canais de TV, tempos houve em que eram os profissionais da Televisão os escolhidos para acessorar os poderosos dos governos ou mesmo para engrossar as listas eleitorais. Lembro-me de uma colega que tanto lhe fazia ser acessora de Maria de Lurdes Pintasilgo, como de Proença de Carvalho e que não tinha dificuldade em deputar na Assembleia e actuar na Televisão. No fim de contas a vida é um espectáculo e muitas vezes nem se dá pelas figuras que se fazem...

quarta-feira, junho 01, 2005

OS TEMPOS MUDAM

E nós mudamos com eles. Não sei. Vi que desde ontem a cidade fechou, perdão, perdão, mudou, lá ia eu plagiando o heterónimo dele. Aconteceu-me vir a Lisboa e, de repente, vejo duas esquinas, a primeira na Paiva Couceiro, onde, do outro lado da Morais Soares, um banco que estava lá, já não estava. Desço a calçada; no Chile rumo à esquerda, Almirante Reis abaixo, como se fosse para a Portugália. E de repente outra esquina sem banco. Sem o banco que lá estava.
A quantidade de cafés que eu perdi em Lisboa, tornados bancos. Agora parece ser a vez da banca se reduzir. Só que não aparecem cafés.
O que eu não daria para reaver o Royal, com a esplanada, no Cais do Sodré, à esquina com a rua do Alecrim. Já nem sei andar em Lisboa, já nem sei às quantas ando.
Um pretexto para tomar café. Da tv no alto saiu um som estranho vil pão. Não era, claro, nada contra o paposseco, foi o Chirac a mudar de primeiro-ministro. O melhor é telefonar para lá saber o que é isto. Não é preciso um dicionário para dizer alô em francês. Villepin é um artista com história. Era primeiro-ministro, com maioria. Dissolveu-se a Assembleia, novas eleições e lá se foi a maioiria. Não parece o caso dos bancos, que tão depressa são bancos, como passam a lojas de fancaria!
Não esqueçam que o primeiro não é o que custa mais. Amanhã é a vez dos holandeses expressar a sua imensa vontade de não dizer sim.
Pois, sim, pois, sim, e que será de nós, que somos mais vocacionados para dizer talvez?
Talvez já nem haja Europa, nem Durão.
Quando chegar a altura dos saldos, Bush compra a metade de cima e dará a parte de baixo aos pobrezinhos. Eu farei como os cafés do Rossio: vendo-me ao primeiro que passar...
Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.