sábado, abril 09, 2005

SEMANA DE LUTOS RUIDOSOS

Já muitos papas morreram. Já muitos deuses até, alguns caídos em completo esquecimento. Nenhum porém com morte tão troante como João Paulo II. Um papa de multidões, verdadeiramente "urbi et orbi". Já muitas insignificâncias morreram. Até muitas significâncias também. Aliás, uma vida que é de morrer, a morte mora com ela. É o seu outro lado. A Terri Schiavo, que não era morte nem vida, o que lhe aconteceu dois dias antes de Karol Jtyla?Nada que ela soubesse, mas um nada que correu mundo em barulhenta discussão.O homem adora casos.

O Papa Pop

K.J., depois de Papa, arrastou multidões. Nessa elevada função, comparativamente, teria sido mais popular que os Beatles. Tão contestado como eles, foi talvez mais adorado.E com razão.Correu extremos: teve a coragem de pedir desculpas pela violência da Igreja, faltou-lhe a coragem para colocar a mulher no lugar que lhe compete como ser humano. Deixou-a tão ostracizada na Igreja como a encontrou quando chegou ao seu cimo.Festejou a queda do comunismo e ao mesmo tempo que alertava para o capitalismo selvagem.Foi um herói quando afirmou que, enquanto as igrejas se mantiverem em guerra, não haverá paz no mundo. Faltou-lhe todavia centelha para, em simultâneo, divulgar que, enquanto as economias se encontrarem em guerra, a paz é um impossível.Em verdade foi o que foi, aquilo que era. Alguma coisa ou coisa pequena, depende.

A vida da morta

Terri Schiavo tinha uma vida vegetativa, ou viveu a sua morte como vegetal?Ninguém sabe, nem ela própria soube.Um dia a ciência saberá. Agora, porém, como as coisas estão, não vale a pena gastar latim com isso. O espanto é neste mundo, nesta carnagem diária, no preciso momento em que balas matam vidas, a histeria colectiva por se deixar morrer uma morte!Os rogos, os choros, as indignações, os insultos até, a tanta coisa por nada, num viver desumano em que se mata por tudo desde o petróleo à raiva, e se morre enquanto se espera pelo pão que não virá.Se toda a histeria pela morte duma morta tivesse graça seria humor negro, não tendo nem ponta de chiste será apenas negra da cor da tristeza. Pena desta gente, desta multidão que vive metida na crueldade e colabora nela activamente ou com a indiferença. O homem continua tão pequeno que a sua moral não passará de tão vegetativa como a vida de Terri Schiavo acabada de morrer.Ou seja, continua a viver por caminhos longe da pessoa humana.

A reza do falcão

W. Bush terá sido dos cristãos que menos importância deu a João Paulo II. Relativamente à função que lhe calhou por ser filho de seu pai, a Presidência dos Estados Unidos da América, foi-o com certeza.Nunca lhe tomou um conselho, nunca lhe satisfez um pedido, ignorou-lhe a palavra, e desprezou pura e simplesmente as críticas, umas claras outras implícitas, com que o Papa procurou amaciar um pouco a dureza cerebral que, segundo os cristãos, Deus lhe ofereceu para ser o homem menor que é.Pois não obstante, ainda o corpo de Karol não tinha partido desta para melhor, já corria mundo a notícia de que W. Bush rezava pelo Papa. Rádios, televisões, jornais, todos os comunicadores sociais informaram. Era bom que Deus existisse, era. Para julgar a ofensa. O mal do mundo é que os cristãos não acreditam nEle. E não têm medo dEle nem enquanto palavra nem como Ser Divino.

O lobo Wolfowitz

Wolfowitz foi o rosto, talvez mas lupino, da administração Bush na fase agressiva do seu imperialismo. Fracassada a experiência imperial, houve que recolher a agressividade, abrandar a velocidade, serenar os ânimos, mudar de política. E abandonar o papel do lobo-mau. Por enquanto.Em consequência do que houve também que escolher cantos onde acoitar os lobos. Tarefa de onde resultou a nomeação de Wolf para chefiar o Banco Mundial. Lugar que aceitou com a boa vontade que o vencimento que vai auferir desperta.Razão por que a luta contra a pobreza passou a ser a sua grande prioridade. Já não o fazer a guerra, já não o fazer pobres, a imensidão de pobres que fez com a aventura no Iraque. Agora, esse fazedor de pobres trata da luta contra a pobreza.Já agora, ao menos que aproveite o lugar a ver se acaba com a pobreza, já nem se pensa no mundo, apenas nos Estados Unidos. No seu país. Na pobreza de que curiosamente ninguém fala. Mas que, dizem os presidentes de câmaras como as de Nova Iorque, Filadélfia e mais cidades importantes, assume números cada vez maiores. Para eles assustadores. Quem diria ?...

Pouca-terra,pouca-terra...

Nestas coisas ferroviárias não sou de fiar. Sou um doido por comboios. Fiquei atento quando ouvi que a CP (façam o favor de não me lembrar que já não é, já não há, ou há mas pouco) é a CP e pronto.O pronto quer dizer que sou retrógado compulsivo, mas de comboios, já entenderam que eu gosto. Isto a propósito de ter ouvido num dos noticiários que extravasaram do óbito papal, em que se dava conta que a CP ia dar bilhetes à borla para promover o tráfego ferroviário entre Sintra e Lisboa. A ideia, tanto quanto dá para perceber é mostrar como os comboios são mais cómodos e as linhas permitem melhores perfomances.
Mas o problema não é esse. O comum das criatures que viaja de carro, dos arrabaldes para a cidade e, depois, ao fim da tarde, em sentido inverso, fá-lo porque, efectivamente não tem alternativa.Porque para o comboio, Sintra é a estação. Sintra, Cacém, Queluz, Amadora, eu sei lá, não são uma coisinha à volta da gare do comboio. Os municípios locais estão preocupados com as urbamizações intestinas, e não muito com o comboio que vai para Lisboa.
O comboio da ponte também é giro, mas Almada não é o Pragal. A questão não está no comboio. esse circula bem, sem engarrafamentos medonhos. Mas como chegar à estação, de forma expedita? Metro por baixo não há e por cima não há muito. Sítio para deixar o carro é o chamado inferno, para encontrar e parking a pagar. Quem se pode dar a esse luxo, não mora daquele lado do Tejo. Ninguém vai habitar para lá de Oeiras, para ter um jardim. Ninguém vai para o Cacém por apreciar o urbanismo tresloucado e quase criminoso, que por lá se pratica.
Para retirar os carros da IC não sei quantos é preciso ter onde deixá-los, junto à estação. Sendo as coisas o que são, os autarcas locais, as CP's, não conseguem, por si, ir longe. A mentalidade dos senhores engenheiros e doutores não é a de fazer o bem sem olhar a quem. Hoje em dia um parking só se entende como um negócio.
É altura de entender e procurar resolver o problema. Um problema que não é só dos arrebaldes de Lisboa. Um bilhete gratuito no comboio não leva longe. Um passe mensal, cujo preço incluisse um lugar no parque de estacionamento, isso sim, isso podia mais facilmente descongestionar a IC19.
E uma data de outras IC's

quinta-feira, abril 07, 2005

Primavera

Dei por mim a ir à cidade e não comprar um jornal. Estive a olhar para imagens do passado e deixei passar os telejornais, sem enfado. Não tive grande pachorra para ver a bola e no intervalo
fui jantar. De manhã espreitei um matutino e só vi os títulos. Rainier foi-se, na sua vez.
Manhã amena, tarde soalheira e dei por mim tranquilamente a interiorizar que não dei por que se falasse do governo, pelo menos que despertasse a atenção. Patinhei pelo jardim da patroa, florido. Rainier? Ah!,pois! Foi o sujeito que casou com Grace Kelly. Tiveram duas filhas castiças e um filho, menos badalado, que vai ter que ser príncipe. Pois, pois, cada um é para o que nasce.
O mais surpreendente é que me senti bem disposto. Nem me ocorre o nome dos ministros. Deve ser chato um ministro da Educação chegar, praticamente com as escolas no último terço do ano ou um ministro do trabalho entrar com meio mundo no desemprego. Um ministro que manifestamente já começou a trabalhar é o das finanças. Já me escreveu a mandar-me uma factura sobre um vago imposto municipal sobre imóveis. Onde é que está a pressa, homem? Se são imóveis, não se mexem, não fogem. E os municípios, coitados, que é que eles vão cobrar, o custo da insularidade ou o imposto sobre valor acrescentado? Nisto de valor acrescentado são todos bons, é vê-los a acrescentar zeros a torto e, sobretudo, à direita!
E por falar na direita, o sr. Berlusconi está a aprender a não se rir de santa Ana, porque, não tarda nada, vai precisar de todos os santos ou de uma câmara qualquer, embora ele, como está cheio de SIC's, pode experimentar dar uma de comentador à maneira de um que a gente cá tem, mas que já teve mais saída do que vai tendo.
Estava a tentar não me esquecer de não me lembrar dos chineses. São muitos e não dá jeito falar deles, mas como Bush vai ao funeral e Fidel é como se já tivesse ido, os pêsames da China são qualquer coisa. Acho que está certo, sempre assim foi.O que melhor define os artistas è a lata. E a este trio, lata é o que menos falta...
E de lata estamos falados, E se um dos ministros que lá vai cumprimentar George Bush...Paciência!

terça-feira, abril 05, 2005

Ricardo Salgado Quer Ser o Dono do Negócio

O "Jornal de Negócios" de hoje reproduz partes da entrevista que o presidente do BES, Ricardo Salgado, deu à RTP 2, no último Sábado, destacando as afirmações respeitantes à PT, "à vulnerabilidade da PT".

Ricardo Salgado traz, de mansinho, de novo, à baila o fantasma espanhol, avisando que a PT pode vir a desaparecer, evidentemente, sob o gigantismo da Telefónica.

A estratégia do banqueiro, que aparece envolvido em todos os grandes negócios deste país e doutros, como por exemplo do Chile de Pinochet, é óbvia.

Este governo - ou outro qualquer, isso não interessa - tem que perceber o fundamental da sua mensagem , repetida o número suficiente de vezes para ser entendida: o BES não pode fazer nada para contrariar o que parece inevitável (tomada da PT por um operador estrangeiro, particularmente pela Telefónica), a menos que sejam levantados "os constrangimentos impostos aos bancos" nas participações não-financeiras.

Isto é, o BES não quer limites à sua participação financeira na PT - e o mesmo em outras empresas - para poder determinar o seu futuro.

E que futuro será esse?

Com mãos livres, o BES fará o que sempre faz: vende com grandes lucros aquilo que reivindica do Estado a baixos preços, como estratégia para a" salvação nacional".

De resto, não deixa de ser curioso que Ricardo Salgado saliente o facto de a "PT se estar a bater contra gigantes", citando a Vodafone, quando toda a gente sabe que ele foi um dos que vendeu à Vodafone a sua participação na Telecel, uma empresa congeminada a partir de um a licença gratuita, concedida pelo Governo de Cavaco Silva, com o objectivo de desenvolver as telecomunicações em Portugal.

Só que a proibição da sua venda tinha um prazo e no dia seguinte o BES e o Grupo Amorim realizaram as suas mais valias.

Mais valias conseguidas à custa de um Estado suficientemente ingénuo para dar o que devia ter vendido, mas, mesmo assim, legítimas à luz das leis do mercado.
Ora, se o mercado se regula por compras e vendas legítimas, onde está o problema de a PT ser adquirida por um grande operador de telecomunicações estrangeiro?

Não foi essa a lógica da privatização da PT? Quando o Estado afirmava querer ficar com , pelo menos 25 por cento do grupo, para o poder defender das ameaças agora evocadas, bancos e banqueiros protestaram.

Que melhor protecção pode ter a PT do que ser integrada num grande grupo de telecomunicações, com capacidade de eliminar as participações que implicam mera especulação financeira?

Parece evidente, para quem tem acompanhado os últimos anos da empresa que a PT já não é uma unidade de excelência no domínio da tecnologia, mas antes mais um grupo financeiro, que gere os seus activos de acordo com as tais leis do mercado.
O que o BES quer parece claro: aumentar a sua participação directa no Grupo Portugal Telecom, com as acções a baixos preços, e vender, quando os tais gigantes, agora adormecidos, despertarem.

Nessa altura, Ricardo Salgado aparecerá a defender o negócio com as máximas de sempre: são as leis do mercado; vivemos num mundo globalizado.

Para Salgado este é ainda o tempo de esgrimir o pior fantasma que se pode agitar em Portugal: Espanha.
E diz ele que não é político.Também não é piloto e usa aviões especiais para negócios especiais.

segunda-feira, abril 04, 2005

O pranto

Pronto para o funeral. Fica-se assim no fim, inevitável. Nem sei quem foi que disse que a morte é a única certeza da vida. A vida, sim, a vida é um mistério. Depois de ter feito milhares de quilómetros de avião, de barco e de comboios, de tantos e tantos nos autocarros e eléctricos da Carris e de patinhar a pé tanta e tanta rua de tanta parte do mundo, descanso tranquilamente em casa, sem pensar nos mistérios nem no inevitável, ainda sem pressa, mas sem ilusões. No entretanto, com natural desgosto fui perdendo os antecedentes familiares e numerosos amigos.
Com mais ou menos surpresa, com mais ou menos desgosto.
Mas esta naturalidade, do nascer, crescer, casar, ter filhos e depois netos e por fim morrer, já não vai sendo muito comum. Cada vez há mais excessos de velocidades ou de mau humor. Cada vez há mais armas com mau uso, extremismos sanguinários ou alcoolismo desordenadado. Em nome de tudo, da liberdade, da fé ou da esperança se mata e se morre. Tanto se mata por ciúmes como para almejar uma carteira.
Mas se, efectivamente houvesse uma vontade divina de pôr termo à violência, de nos privar do desejo pelo fruto proíbido e encher de beatitude e desportivismo os adeptos do futebol, mesmo assim, todos nós acabaríamos de igual modo, na hora que nos estivesse (esteja) determinada. De facto é justamente para isso que viemos e por cá vamos andando.
É por isso que o mediatismo pela morte do Papa me exasperou. Não havia jornal e ainda menos telejornal que se pudesse suportar. Não havia notícias, nem intrigas, nem chegadas e partidas, nem jogadores lesionados ou cheios de saúde. Só a morte de um ser humano, de há muito preparado para o desenlace.
Para as TV's foi, vai sendo, uma festa. Um explorar entre o mórbido e o excessivamente comercial e sem contemplações por quantos querem saber como é que o mundo vai pulando e avançando.A resposta do outro lado era a esperada:quem quiser, que espere. Notícias só depois da pub, dos quilos e quilos de pub.
Pelos jornais tem sido o mesmo. Notícias e comentários, como se definitivamente a oeste nada de novo. Bom, se estás em Roma, sê romano.O problema é que não posso. Não sou crente e tudo quanto sei sobre papas foi o que li de Roger Peyrefitte, pouco recomendável para citar nesta altura. E do que me recordo de João Paulo II é das viagens, de o ver nos noticiários a descer de aviões e beijar o chão das aerogares. Retive de memória (e a minha já não é o que era) que ele
ficou a dever e muito a Less Walesa a nomeação, embora do sindicalista polaco já não reze muito a História
A saltitar de canais, à pesca de algo e como via o mesmo, dei por mim a cair no fado e trautear como Carlos do Carmo "por morrer uma andorinha, não acaba a primavera". Valeu que, finalmente, deparei com a TVI a dar o Benfica-Marítimo e lembrando-me da opção devota de Cavaco Silva pela TVI, senti-me no dever de concordar com a crença popular que assegura que Deus é bem capaz de escrever direito por linhas tortas...
Mas foi já bem à noite, quando fui ler a entrevista deliciosa de Cruzeiro Seixas, num dos suplementos do DN, que me reconciliei com a vida. Um dos raros sobreviventes do movimento surrealista, trazido para Portugal, que está, agora, a trazer a lume a sua poesia, tantos anos escondida, dizia: "Eu já não tenho futuro. O meu futuro é o cemitério. Com oitenta e quatro anos
já não há futuro. Agora, gostava de me ir embora com uma visão melhor das coisas e do mundo"...
Quem é que não gostava?

sábado, abril 02, 2005

RANGEL- As Mentiras E Omissões De Uma Estória

Costuma dizer-se que uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser verdade: Há muitos exemplos na História e nas estórias de alguns homens públicos.
Ao longo dos últimos anos, que, reparando bem, já são muitos, Emídio Rangel, quando é entrevistado, repete - sempre da mesma maneira - muitas mentiras que já fazem parte da sua biografia oficial.
Não tenho nada contra o modo como ele tem construído a sua vida , a sua carreira ,e até reconheço e aprecio a sua marca nas principais mudanças na maneira de fazer Rádio e Televisão em Portugal.
Por isso não me proponho analisar todas as mentiras repetidas sistematicamente - algumas delas são mesmo pequenas mentirinhas - nem alguns dos seus métodos de trabalho, onde os fins normalmente justificam os meios.
Todavia, já estou cansado daquela estória - que está a virar História - da fuga heróica de Angola.
A verdade é que Emídio Rangel fugiu como dezenas de milhares de outros colonos, no contexto de uma conjuntura política que não entenderam e com o medo natural de terem que suportar uma guerra que achavam não lhes dizer respeito.
Estava, portanto, no seu direito - fugir.
Mas, a fuga de Emídio Rangel não foi uma simples fuga. Foi, igualmente, uma traição, já que, ao contrário do que sempre vem afirmando ao longo dos anos, ele era um militante "engajado" do MPLA.
Também ao contrário do que sugere em todas as entrevistas, os tiros que aconteceram na madrugada em que fugiu não eram surpresa para ele, uma vez que sabia dos planos para o início da guerra entre os então movimentos de libertação( MPLA contra UNITA/FNLA).
Ele sabia dos planos e, nesse contexto, tinha assumido responsabilidades de comando de um grupo de soldados praticamente sem experiência, que acabaram por se bater sózinhos nesssa guerra, iniciada na madrugada de 20 para 21 de Agosto, altura em que ele fugiu, traindo os homens que deveria ter comandado.
Apesar da fuga dele (planeada durante meses - soube-se depois), o MPLA ganhou a contenda e a 23 de Agosto UNITA/FNLA assinaram a rendição.
Também contrariamente ao que ele sugere, o exército sul-africano não estava ainda em território angolano. É verdade que se tinha concentrado na fronteira, mas, do ponto de vista dele, o perigo acabava logo que passasse a linha.
Quanto às ameaças - que lhe foram transmitidas "por um jornalista ainda hoje na RDP de Coimbra" não é, seguramente, mentira, mas uma verdade para dar côr à estória. É que todos os militantes do MPLA, sobretudo os que, por alguma razão especial se destacavam na vida da cidade, foram ameaçados, quer pela UNITA, quer pelas BJR's da FNLA. A alguns deles fizeram pior: ameaçaram-lhes os filhos.
Só mais um pormenor relativo a esta estória, que sendo uma pequena mentira, não deixa de ser uma grande injustiça:; quem o salvou das garras da secreta sul-africana, que o tinha idenficidado como militante activo do MPLA, foi um outro colega de profissão, de nome Diamantinmo Pereira Monteiro, esse sim sem qualquer ligação política e que arriscou ficar preso em sua substituição, e por isso, teve que suportar por mais algum tempo as condições horríveis dos campos de "concentração" em que foram armazenados os colonos fugitivos de Angola.
Como se vê, as omissões também fazem parte desta estória de Rangel, contada em capítulos oportunos.Além do nome de Pereira Monteiro, há o de Mário Gomes, o tal piloto que levou os pais de avião para Whindoek e o de Saraiva Coutinho, o "ainda hoje jornalista da RDP em Coimbra" .
Na entrevista da revista "Sábado" que me fizeram chegar via Net, Rangel não se refere ao 25 de Abril de 1974, mas, já agora, não quero deixar passar uma outra mentira muito propalada em outras, nomeadamente uma feita por Batista Bastos. Emídio Rangel não era o director da Rádio Comercial de Angola naquela altura e, por isso, não deu instruções nenhumas para que a Revolução de Lisboa fosse noticiada.
Por acaso até conheço a pessoa que era director daquela estação de rádio ao tempo e bem me lembro que ela se transformou, nesse mesmo dia, na primeira voz livre de Angola.
Quanto a outras mentiras que "o velho leão" tem vindo a propalar: é preciso cuidado, porque as pessoas podem cansar-se. Tal como dizia Nheru, referindo-se à ocupação portuguesa de Goa, Damão e Diu: não se pode confundir pacifismo com cobardia.
Alguém avise o Emídio que é melhor servir-se dos seus méritos, das suas qualidades de grande condutor de equipas (desde que não seja contestado), que são muitas, do que continuar a efabular com coisas que já passaram há muitos anos e que só já têm importância para os que, lembrando-as, voltam a sentir-se miseravelmente traídos. E depois, há um perigo de as verdades se trasnformarem em cerejas.
E já agora: fico desejando que recupere completamente dos problemas de saúde que o têm afligido e que volte às lides, para, pelo menos, fazer justiça a alguns amigos (verdadeiros), de quem sempre se serviu para, depois, atirar para o caixote dos ostracizados, uma condição que agora reclama para si próprio, mas que não é verdadeira - outra pequena mentira...


sexta-feira, abril 01, 2005

DEPOIS DA SEMANA SANTA

A Páscoa, para os cristãos, normalmente os que se dizem isso, é um segundo Natal. Um lavar de consciências. Um sossegar o espírito com uma lágrima vertida à lembrança do sacrifício do Cordeiro de Deus. Depois dela é o que se segue. O que se sabe. O pecado nosso de todos os dias. Meses, anos, com um Natal e uma Páscoa para quietação nossa.
Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós agora e na hora da nossa morte. Amém.

Má Páscoa - I

Má para algumas terras desta aldeia portuguesa. Constou que bastantes. Mas isso foi um constar. Ao certo nunca se sabe.
É que com a chuva que molhou o dia da Ressurreição, e com os salpicos de antes, falhou a luz. Em duas importantes vilas (quase cidades) seguramente que sim.
Tal como nas vilórias perdidas pelos matos do Antigo Império Colonial Português. Iluminadas, quando eram, por um motor a gasóleo, que o senhor Gonçalves ou Tavares, seria Mendonça?, comandava com mão de mestre feito pela prática.
Falava-se com ele, ele estava ali, Senhor Mendonça, então?- Vai já, ou então, ainda demora um bocado, eram os dois tipos de resposta mais frequentes. Quando não estoirava uma peça e havia que esperar pela de substituição, que talvez chegasse num depois, que ele, Gonçalves ou Tavares, calculava. Mais mal que bem, mas falava, explicava, dava esperanças.
Agora não há o senhor. Há o não se sabe quem, duma escala hierarquica, que não se sabe qual, encimada por uma desconhecida trupe administrativa. E a luz vai faltando por tempo indeterminado sem responsáveis. E sem responsabilidades.
Os prejuízos também são indeterminados, porque ninguém faz as contas. E indetermináveis porque ninguém se queixa.
Esta ex-metrópole do ex-império do que precisa mesmo é duma colonização da responsabilidade.

Má Páscoa - II

E, faltando a luz, os telefones desregulam. Alguns, porque apenas uns. E, se uns, os outros não. Então telefona-se do vizinho do lado ou da vizinha da frente.
Não ao senhor Gonçalves ou Tavares, talvez Mendonça. Telefona-se a uma máquina que nos manda carregar no algarismo 1 se tem problemas no útero, no 2 se se sofre da próstata, no 3 se a erecção fraqueja até que se vai dar a um cemitério onde uma fala de cangalheira pergunta do que é que se queixa e, depois de ouvidas as queixas, com voz maquinal-tal-qual recita que o seu pedido vai ser atendido logo que possível.
E pronto. Estou à espera do que é possível com o telefone avariado desde sexta-feira. Hoje é quinta e continuo a receber chamadas sem poder fazer chamadas. Quem responde por isso? Quem me indemniza por isso?
A EDP e a PT respondem, com os bastos lucros que arrebanham anualmente, pelos prejuízos que causam aos portugueses e à Nação portuguesa? Há alguma forma expedita de pedir responsabilidades? Os senhores da privada que quase já tomaram conta dos bens públicos, porque competentes, eficientes, convenientes não pensarão ao menos ser um dia tão esclarecedores e eficazes como o talvez Mendonça?

Boa Páscoa

A propósito de um negócio qualquer com armas, compra de armamento ou coisa assim da guerra, a televisão, talvez a oficial, correu imagens do ex-ministro-da-guerra, ex-Paulinho-das-feiras, actualmente Paulo Portas a passar revista a uma guarda de honra.
Aquilo é que era farfalhudo! De fato domingeiron(o senhor deve ter mais fatos que domingos tem o ano) olhar ausente, estatal, cerimonial, as aletas do nariz em pose solene, a zabumba rufando a preceito e ele de glúteos a dar-a-dar, tão ao som das pancadas do bombo que aquilo era a imagem do fingimento a fingir. Correcta.
Um espectáculo.
Graças a Deus sem repetição. Que Deus repita o milagre de todas as Páscoas como esta. Dele só em imagem.

Péssima Páscoa

A Europa anda em guerra, primeiro com os Estados Unidos, depois entre alguns dela com toda ela. A questão é a criação do mercado único de serviços, e o resultado seria (se conseguissem) a passagem de tudo o que dá riqueza ao Estado para as mãos dos privados.
A riqueza do mundo foi criada à conta da exploração dos pobres. Dos trabalhadores. E os países que ficaram ricos não viram, e não vêem, com bons olhos que os demais (ex: China, Coreia) quisessem, e queiram, fazer o mesmo.
Argumentam que a concorrência desses países em vias de desenvolvimento é ilegítima porque é feita à custa dos baixos salários dos trabalhadores. Ou seja, que é feita imitando o que ela fez: à conta da pobreza portanto.
Mas a riqueza não pode hostilizar uma China, uma Índia, por exemplo. Então resolveu ressuscitar-se: voltar a explorar a sua pobreza: dum lado com flexibilizações e coisas parecidas, e doutro pondo fim às regalias sociais que, no passado, ofereceu aos trabalhadores. E agora já não quer.
O exemplo vem dos Estados Unidos, quer dizer da chusma de neos (neo-isto e neo-aquilo) componentes da camarilha Bush, assanhada privatizadora e pouco preocupada com a coisa estranha de o país mais rico do mundo ser também povoado por uma notável, em número, camada de pobres.
Esse o exemplo. Mas na Europa já se discute como seguir tal exemplo: fazer com que uma nem-crise (porque os ricos estão cada vez mais ricos) seja sustentada por quem não tem defesa: a pobreza.
Querem fechar, assim, a pescadinha de rabo na boca: com a pobreza enriqueceu a sua riqueza, e com a pobreza pensa combater a concorrência, a qual, por sua vez, à conta da pobreza própria está a enriquecer.
Pobre sofre...

Via longa

Choraminguei, ontem, por me sentir impotente face aos abusos publicitários, uma espécie de praga, surgida no Século passado, transmissível via televisão, rádio e outros meios de CS, e cuja irradicação não se me afigura possível no decurso dos anos que se vão seguir.
"Praga" é uma forma de expresão, não é uma doença, antes uma maleita que tortura a paciência e a tranquilidade do espírito.
Para entender melhor o flagelo talvez seja útil recordar os primórdios e reflectir sobre a responsabilidades dos governos dos diveros países, que aceitaram de bom grado ver alienados do Estado os custos da modernidade, que constituia a recém chegada Televisão. Isto porque não foi em Portugal que o eixo do mal começou. Na Europa, àquem- cortina de ferro, a Televisão era propriedade estatal. O Estado, o nosso, como muitos outros, lançou mais uma taxa, a da televisão, que perdurou alguns anos na maior tranquilidade, penso eu, porque são os meus anos de África, dita portuguesa, onde não havia nem taxa, nem sequer TV. Soube pela imprensa da época da primeira investida para vender espaço televisivo à Pub. A Lei vigente opôs-se, ao reconhecer que a cobrança da taxa interditava o recurso a receitas publicitárias, como já acontecia na Rádio (Emissora Nacional).
A chico-espertice à época não perdeu tempo a avançar com a solução: abrir um segundo canal, esse, sim, sem pub (e também sem outras coisas). Nada de novo. Nada que não tivesse ocorrido, em França, por exemplo, onde, e embora já dispusesse de dois canais, avançou com um terceiro, regionalizado, mas com noticiários nacionais, a hora nobre.
Em França, lembro-me, foi uma luta. Com a saída de De Gaulle, o regime democrático existente
democratizou-se um bom pedaço mais. Até então a mão segura do governo mantinha a TV na ordem e chegou a pesar sobre um dos mais populares palradores desportivos da época, que cobria os jogos da França, no torneio das 5 nações, em rugby, que foi despedido. Estava-se na ressaca do Maio de 68. O homem foi trabalhar para uma rádio, estrategicamente sediada fora das fronteiras francesas, mas que emitia para dentro delas. E quando havia jogos, transmitidos em directo, a malta em casa, baixava o som da televisão, e escutava a transmissão pelo popular locutor, que nem hesitava pôr alguma malícia na expressão, frequente; "como os senhores telespectadores podem ver"...
Haveria de regressar à TV, mas noutro canal, que não o primeiro, o que se tornou ainda mais rídiculo, pois ambos os canais passaram a transmitir os jogos da selecção francesa. Era manifesto que a maioria da audição estava na 2...
Mas foi com Giscard (estou em crer) que começava, então, a operação publicidade na tv. Os jornais e as rádios, orgãos que não sentiam qualquer peso censório, eram, por isso mesmo, poderosos e não muito receptivos a mudanças, nesse domínio. O governo viu-se forçado a negociar e fazer cedências, nos impostos, nas tarifas dos correios e outras artimanhas, mas conseguiu entrar na nova era.
É bom recordar que, nos termos do acordo, a pub não podia interromper nenhum programa, nem intervalar qualquer noticiário. Cada espaço publicitário tinha dimensão máxima perfeitamente suportável. Não durou muito. Assim que Giscard perdeu o lugar para Mitterrand
tudo mudou e continuou a mudar, e de que maneira, com Chirac no governo de Mitterrand, quando se abriu a televisão aos privados, alienando-se inclusivamente o primeiro canal.
E foi assim... Por cá foi Cavaco Silva que abriu a porta e que extinguiu a taxa de Televisão. Não ganhou com isso o reino dos céus, antes a ira de quantos lhe sucederam, que tinham de pagar a factura dos canais do Estado, que não parava de crescer. Mesmo enorme como era, o prédio da 5 de Outubro já nem tinha onde alojar os trabalhadores que não tinham que fazer. Seguia-se a saga da rescisão dos contratos de trabalho. Mas isso é outra história.. O resto todos sabem..
O último sinal de progresso, do andar prá frente deve ter sido da responsabilidade de Morais Sarmento, que inventou o regresso ao passado, acasalando a RTP com a RDP, mordendo-lhe parte da taxa da Rádio.

quinta-feira, março 31, 2005

A Gestão Do Silêncio

Quem viveu em regime de partido único sabe como é(foi) : a informação não é (era) feita de notíticas, mas de silêncio.
Quem viveu os últimos dois anos em Portugal sabe como foi: a informação era feita de trapalhadas, desmentidos e contra-desmentidos, uns do primeiro-ministro, outros dos ministros e outros ainda da central de informação clandestina.
Hoje, em Portugal, vive-se uma situação de normalidade: o governo parece estar a tratar das coisas da res publica, os cidadãos estão na expectativa e os jornais, rádios e televisões atolam-se em noticiários de desgraças ( quando não estão perto, mesmo as de longe servem) e enchem as páginas e os minutos com as opiniões de comentadores, que, não tendo nada para comentar, comentam isso mesmo - o silêncio.
Nos corredores das instituições, entretanto, começam os boatos - tal como acontecia na gestão das notícias pelo silêncio. Por exemplo: na RTP diz-se que tudo vai ficar na mesma, isto é, mesma administração, mesma direcção e a mesma sem vergonha de ausência total de projecto.
Na RDP, o mesmo, com a agravante de na RDP África se murmurar, com pânico, que o substituto de David Borgers vai ser o Ricardo Jorge, "analfabeto de pai e mãe, que nem sabe ouvir rádio, um burocrata autocrata"...etc, etc.
Para a Galp, João Líbano Monteiro e os seus pequenos polvos lançam a notícia um pouco por toda a parte: Murteira Nabo e sus muchachos e muchachas (Ah! Ah!).
Na PT, tudo na mesma: o Barão não sei das quantas até já pagou um boneco para o contra-informação a ver se ganha alguma notoriedade. Mas, coitados dos autores dos textos... vão tirar o quê de um boneco que apenas é conhecido por querer muito ser barão e boneco do contra-informação.
E assim por diante.
Os boatos são os filhos do silêncio.
Se a estratégia é gerir o silêncio até ter tudo reorganizado - como parece estar a acontecer, por exemplo no Ministério da Agricultura, com Capoulas a colocar as pedras convenientes no tabuleiro - se a estratégia é essa, então também será conveniente que o barulho das notícias ocupe não mais de três dias de uma semana destas, para que tudo se acabe num Sábado, com o Expresso a dizer o pior possível das alterações efectuadas. É que na segunda-feira seguinte voltar-se-á ao normal.
Espera-se, portanto, que, por exemplo, o anúncio de uma nova administração para a Agência de Notícias Lusa, bem como a nomeação de uma nova direcção de informação, seja feito ao mesmo tempo das novas administrações e direcções da RTP e RDP, finalmente separadas.
Que no dia seguinte sejam anunciados os nomes dos novos admnistradores das empresas cujos mandatos já terminaram. No mesmo dia podem, por exemplo, ser anunciados os novos directores gerais de algumas estruturas da admnistração pública.
Assim mesmo: tudo de uma vez, durante três dias: terça, quarta e quinta-feira.
O país respirará de alívio e os boatos acabar-se-ão com a normalização de um processo de informação democrático.
Valeu?
Como veêm, é fácil, basta consultar a blogoesfera. Nem cobramos nada pelo conselho. Uma estratégia destas decidida por uma qualquer agência de comunicação ( por exemplo a JLM & Associados) custaria uns milhões de Euros. Vai uma aposta?

quarta-feira, março 30, 2005

Enfado

Deve ser de facto das melhores coisas do mundo: não fazer népia e depois descansar!
Mas, é preciso reconhecer, tem os seus ângulos obtusos, quer dizer: sem razão para ser infeliz, um tipo sente-se quase culpado; melhor dizendo: sem ter que fazer, acontece ao felizardo sortudo ficar mal disposto. É o caso. Ainda não mexi uma palha, nem fiz a barba. li ao de leve um jornal, aqui, no computador. A única tarefa compulsiva foi tomar o pequeno almoço, que por acaso nem foi pequeno
À minha frente, pela janela, vejo um dia claro. O céu não está inteiramente limpo, mas bastante claro. Não há vento. Apenas uma leve brisa. Como moro no campo. por aqui passam poucos carros e abstraindo o mau humor dos cães, está tudo calmo. Anui-me (deve estar mal dito, mas soa-me bem) a fazer uma paciência com a cartas e, quase sem dar por isso, ligo o rádio. Na RDP, que é suposto não impingir publicidade. Cinco minutos depois, desligo o aparelho e comecei a praguejar, enquanto a pobre paciência decorria sem dificuldade alguma. A extrema dificuldade
consistia na minha recusa em admitir a causa do mau humor: a impotência, a pior de todas as impotencias: não é física, quer dizer, não é aquela que vocemecês estão a pensar, cheios de gozo, É psíquica, mas ao contrário da outra, esta fode a paciência a um gajo. E tudo por mór da publicidade!
A RDP não passa publicidade. Pois não, que não passa. Passa a pior de todas, a promoção sistemática e exaustiva das porcarias que produz, ainda que umas quantas até sejam de qualidade passíveis de ser escutadas, As rádios privadas exploram a publicidade como fonte de receita, quem quiser oiça, eu não oiço, habitualmente, a não ser no carro, porque a patroa não me deixa desligar. É chato, mas evita-me ter de falar. Para as viagens compridas, levo um monte de cd's. Mas a RDP, não. Nem tem o direito de passar tanto tempo a autopublicitar-se,
porque, como é do domínio público, cobra portagem, perdão, taxa. E cobra coersivamente, através da cobrança pelo consumo de electricidade, Mesmo que um tipo não goste de ouvir a RDP, mesmo que não tenha receptor de rádio. E mais, agora até contribui para a solvência da RTP, que se farta de impingir publicidade. No princípio era a taxa, a taxa que cada um por si ia pagar. Como acontecia com os isqueiros, porque era premente, determinava o prof. Oliveira não sei quê, acautelar os legítimos direitos dos fazedores de fósforos. Mas o sistema era puro. Na licença para uso de isqueiro constava o regulamento todo, incluindo a refência de que era devida
ao "vil delator" uma parte da multa. No caso da Rádio era mais fino: o fiscal podia, estava investido desse direito, penetrar nas casas para verificar se os donos das ditas possuiam ou não o famigerado receptor radiofónico.
Mas se os senhores leitores quiserem que eu admita que tal era uma filha da putice reles e salazaresca, eu digo: era, sim senhor. E depois, quando é que isso acabou? Baixem um bocadinho a bola e pensem: quando?
Com o advento da TV criou-se a taxa compulsiva. Para ser compulsiva tinham que existir compulsores, palavrão que suponho não exista no léxico, lá vai: fiscais. Havia-os antes e depois
do sr. António da Calçada. Enquanto andei por Angola, costumava identificá-lo por Oliveira Dalatando ( o N com apóstrofo só apareceu depois da independência) e quem andou por lá sabe porquê.
Sim, isso mesmo, mesmo depois de Marcelo(padrinho do outro, porra). Morreu (a licença, caraças) de morte natural, quando Cavaco Silva acabou com a taxa. Em boa verdade, morrer, o que se chama morrer, não morreu. Se tivesse escrito que ressuscitou ia incomodar uma data de gente que vai à missa, digamos, pois, que reapareceu, encolhida, imiscuindo-se na taxa da Rádio, uma taxa curiosa cujo valor praticamente ninguém conhece e nunca se é avisado se aumenta e quanto aumenta. Vem na conta da luz e tu, ó meu, que tás pr'aí a mandar vir, se não pagas, ficas às escuras...
Vamos lá ter tento na língua e falar melhor. Uma criatura paga taxa aparentemente de Rádio para a empresa EP que acasalou a RDP com a RTP. Uma faz publicidade tal e qual e a outra chateia com publicidade intestina, tão chata uma como a outra.
E depois não querem que um felizardo que não tem nada que fazer ande chateado...

A travessia do deserto

Continuando com os jornais e virando, de vez em quando, um olho para dentro, vou despachando a torto e a direito, antes que me despachem a mim. "A moda dos códigos" e Marcelo reportado para o pasquim da Liberdade (avenida de), administrado pelo administrador Delgado, que assina "A moda". É notório como cada um deles se esfalfa para saltar para outro lado. A areia incomoda e faz sede. Esta tem, como se sabe, duas componentes: ou de bière (pr'a dar uma de cosmopolita) ou do mal. Esta última tem, evidentemente, mais sumo. Cada um a seu modo deixa transparecer ou assume-se mesmo da relegiosidade. Marcelo baloiça "pra cá e pra"
lá no drama Terri, invocando a própria mãe. Isso eu compreendo, também tive esse problema
e assumi as responsabilidades.Não foi isso que fez de mim um mau católico, porque já não o era, nem espero vir a ser e já agora deixo expresso que se me acontecer algo do género desejo firmemente que me aviem muito depressa e pode qualquer hospital ficar com as miudezas susceptíveis de conversão. Mas passemos adiante. Para ganhar embalagem Marcelo fez uma referência amena ao primeiro-ministro, mas tem perdido audiências. A minha não lhe deve fazer falta. Vi a primeira e por aí me quedei, mas o DN deixa-me espeitar, mas como é muito papel só espreito uns pedacitos.
O outro disfarça menos; também lhe falta o engenho, que ao outro sobra. O blá-blá sobre a profusão literária dos códigos é para dar conta da preocupação do tema ser tão badalado. Não é, creio eu, por acaso que a opinião corrobora a mesma posição da santissíma igreja, que tem evidente dificuldade em aceitar que se diga que Jesus dava umas quecas, como Dan Brown escreveu, com a delicadeza possível, concedendo a Madalena a condição de esposa. É verdade que a Bíblia opta por considerar a senhora como prostituta. A posição do escritor parece-me mais positiva e susceptível de humanizar o mito , pois como tal não carecia de piedade. Não é preciso adorar ou ter pena de quem ressuscita. Mas é o mito que alimenta outros códigos, como os da castidade e a Igreja ser um negócio só de senhores. Mulher não dá jeito, a não ser para ser crente e serva.Este, confesso, não é assunto da minha simpatia, mas chateia um pouco quando os beatos exorbitam...
Também por aqui se exorbita um tanto com o novo código da estradas, bem menos piedoso. Não quero entrar pela avaliação, mas pela necessidade que havia ( e há) de fazer alguma coisa, ante a carnificina nas estradas, que não parava de crescer. Simplesmente o problema não é só nas ruas, nas estradas, nos coletes e nas cadeirinhas (esqueci-me do copo de vinho), mas no resto. O trânsito tem a ver com o que mexe e o que fica parado. O que é que vai acontecer aos carros arrumados noite fora, ou dias inteiros, durante meses, sobre os passeios. O novo Código da Estrada vai resolver o problema? Os municípios vão garantir estacionamento nocturno e diurno, ainda que de modo diferenciado, mas vão? Não chega proíbir é necessário oferecer alternativas.
Fazer doer (nos bolsos) é um meio de pressão susceptível de levantar um pouco o pé do pedal. Uns dias de cadeia podem concorrer para que os condutores bebam mais água e menos alcool. Não é possível reprimir sem fazer doer. Agora há questões difíceis de conciliar. O limite de velocidade é uma delas. Há carros e carros. Pois, mas não é possível fazer destrinça. Mas é possível fazer concessões. Algumas auto-estradas podiam ter limites acima dos 120 Km/hora, como em França, por exemplo, que é de 130 Km, já que como na Alemanha (não há limite) não se vislumbra a hipótese. Os alemães têm outro tipo de controlo, que incide na condução e no qual são implacáveis.
No caso das multas, a severidade tem alguma justificação: a maior parte delas nunca foram pagas. Em grande parte eram amnistiadas. Isso sim era problema que ultrapassava a Polícia de Trânsito, foi mais da responsabilidade dos governos, que nunca quiseram resolver o assunto. Actualmente nem é difícil de resolver. Quando um automobilista é controlado pode saber-se tudo o que interessa, se liquidou ou não as coimas que lhe foram aplicadas. É uma situação que não oferece dificuldade e possibilita que não se efectue a cobrança coerciva no acto. Evita atritos e até a relação de confiança entre cidadãos e autoridade. Fixa-se um prazo, sei lá, 48 horas? Qualquer coisa assim. Nos casos em que haja coimas anteriores por pagar, aí, sim, aí a viatura
ou/e os documentos seriam apreendidos.
Nem sempre é ao estaladão que se resolve, mas um tabefe de vez em quando ajuda. A Justiça não precisa sempre de ser cega, de vez em quando pode piscar num lampejo solidário. Saltou-se do oito para o oitenta. Foi excessivo. Dêem, por favor, a volta ao texto. Concedam ao automobilistas o benefício da dúvida e lembrem-lhes que à primeira qualquer um cai, mas que à segunda só cai quem quer...

Hotel Celeste/2

Em boa e honesta verdade, o primeiro título não teve nada a ver com o texto. Comecei com uma ideia e desviei-me no caminho, nem me lembro bem porquê, e no fim nem me ocorreu modificar o título. Era ainda o efeito múltiplo de andar de comboio e ao mesmo tempo ler um jornal, Foi no problema de palavras cruzadas que cruzei o pasmo:"cada uma das mulheres extremamente belas que, segundo o Alcorão, hão-de desposar no Céu os crentes muçulmanos"!Como podem calcular, foi daqui que partiu o título, agora repetido. Não que eu seja religioso, mas a ideia de ter lá em cima, à minha espera "uma das diáfanas", desperta até o mais adormecido dos ateus. Só falta o nome da diva e o volume dos recursos humanos. Pudesse eu crer no Alcorão ou outra qualquer literatura do género e, decerto, já não estaria aqui à espera do polícia de trânsito usurário. Já teria abalado, de colete rodoviário, não sem ter o cuidado de perguntar ao Altíssimo, se se pode ir de mãos a abanar ou se é conveniente algum Viagra...

terça-feira, março 29, 2005

Os Assaltos das Fardas

O Governo chefiado por José Sócrates tem estado a conseguir o objectivo a que se propôs para os primeiros tempos: ganhar a confiança dos Portugueses.
Digamos que em alguns sectores, sim.
Digamos que noutros, não.
Por exemplo: com o novo código da estrada os portugueses correm o risco de ser verdadeiramente assaltados pela BT da GNR e pela PSP.
Assaltos provenientes de verdadeiras emboscadas. Os agentes da BT e da PSP não andam na rua para proteger os cidadãos cumpridores. Eles sabem os locais onde podem esconder-se para verdadeiras emboscadas, cujo resultado é sempre um roubo à carteira dos incautos - roubos cujos produtos agora podem multiplicar, com o novo valor das coimas ou das multas, ou lá como se chama essa cobrança que faz lembrar os velhos tempos dos impostos mandados cobrar pelos reis a quem lhes atravessava as propriedades.
A verdade é que os tais agentes nunca aparecem quando há verdadeiras dificuldades de trânsito. Nessas horas estão sempre longe, encostados.
Era bom que o novo ministro da administração interna, ou lá o que é isso, proíba emboscadas policiais. Que andem na rua, com carros devidamente identificados, que se coloquem nas auto-estradas, nas estradas mais problemáticas, mas à vista de todos, para evitar os desastres.
E já agora, de uma vez por todas: deixem-se de dar publicidade a estatísticas que não dizem nada, que não comparam nada, que são verdadeiras anedotas. O que é isto de , "no mesmo período" terem ocorrido menos acidentes e ter havido menos vítimas mortais? Que raio de comparação é esta? Então na Páscoa (ou no Natal, tanto faz,) deste ano houve o mesmo volume de tráfego em todas as estradas, com o mesmo tipo de veículos?...
Esperemos que no tal ministério apareça alguém que saiba alguma coisa de Matemática e que obrigue a DGV e todas as polícias a estudar estatística - umas pequenas luzes que sejam para perceberem a figura de parvos que andam a fazer há anos, com as televisões, as rádios e os jornais a ajudar.

Hotel Celeste

Antes de jantar já vos deixei entender que cometi a leviandade de ler no comboio. De ler não um livro interessante ou, pelo menos que estivesse de moda, mas um simples matutino, cujo nome dobrou o século. Estou lixado. Peguei no pasquim para clarificar a existência e descortinar a data da fundação. Não vi. Devo ter procurado mal e devo andar a ler pior. Então não li que a sede é no Porto e a filial na Av.da Liberdade, em Lisboa.
Devo estar doido. Que direito tenho eu de andar por aqui a dar bafos, se nem sei o que se passa à minha volta...
E, agora? Como é que posso continuar, se os dados estão baralhados? Ia extrapolar sobre a crónica de L Delgado, com a intençao de exprimir "o gajo disse", porra, não posso, o "gajo" é administrador, caraças, de uma loja de jornais do Porto. com uma filial em Lisboa. O senhor administrador disse, a propósito do pungente drama de Terri, qualquer coisa como "igual relevo devia ter sido dado à sua condição de católica romana, que impede a opção pela morte". Ao pé disto um tal Bid Laden, ou lá como ele se chama, é um pateta de coro.
De repente nem é a comoção pelo sofrimento da senhora, nem a coragem do marido em querer por fim ao martírio, mas a raiva contra esta estranha manifestação de intransigência que cheira a insídia. Um sujeito bem posto e bem instalado que incute o fanatismo católico e o coloca ao mesmo nível que o fanatismo muçulmano é suspeito. Não de ser parvo, mas de ser interesseiro.
Nem é a pobre Terri que está em causa, nem a devoção dela, qualquer que seja, nem o amor do marido, mas a tentação diabólica de mandar, de deter o supremo poder. Bush quer, e logo os delgados se amocham.
Será que a Santa Inquisição está de volta?

Pelos jornais

De comboio o jornal dá jeito. Quando as notícias são agradáveis, a viagem faz-se melhor e o tempo não pesa. Chovia quando entrei no "inter regional" e continuava a chover quando saí. Não teve importância. Li que José Mourinho tinha ido a Israel, a convite de Shimon Perez, para gáudio de meninos que dão os primeiros passos do chuto na bola. A notícia referia que quatro guarda-costas e tal e coisas, um blá-blá. De facto o que interessa é que o homem foi convidado por ser uma personalidade; o que interessa é que o treinador aceitou por ser um homem. Por ser nosso concidadão, E por ser um concidadão com prestígio. Que raio!senhores! Não foi o sr. Santana que foi convidado, nem o sr. Portas, nem o sr. Soares(pai) e menos ainda o filho. Foi o Zé. Podia ter sido o princípe casadoiro ou a mais recente patroa dele, mas não foi, nem um, nem a outra, como não foi o Maradona, nem o Pelé, nem Zidane. Foi Mourinho.
E nós, que lemos jornais, merecemos que se atente melhor em alguns fenómenos e que se mostre o merecido respeito.

segunda-feira, março 28, 2005

Manda quem pode

O direito de mandar adquire-se em democracia e ao ser sufragado torma-se um dever. É ao governo que cabe decidir sobre variadas matérias, com mais ou menos intervenção da Assembleia da República, onde não raro, sobre as propostas do governo, se travam sonolentos diálogos de surdos. Resta, para prevalecer a tese do governo, o parecer do Presidente da República sobre a constitucionalidade da Lei.
Frequeentei um curso de formação sobre a Constituição, apoiado em fundos estruturais europeus, ou lá como isso se chamava, e saí dele com um pomposo diploma, atestando simplesmente a frequência. Como desde o princípio (foi um curso longo, longo, durou dois dias, um atrás do outro) não achei piada, nem à matéria, nem ao constitucionalista e passei o tempo a levantar reservas e a revelar claro cepticismo. Ganhei o rótulo de esquerdista o que, isso sim, me divertiu imenso. E isto para ter de reconhecer que tenho pouco jeito para citar a Constituição ou para fazer dela um auto de fé. Por exemplo, nem sei se a questão do aborto é ou não um dogma constitucional. Dava-me jeito que não, mas se for que se lixe!
Um grupo de artistas comentadores discutiu, num canal de televisão, o assunto e alguns não disfarçaram o mal estar que a posição da Igreja lhes transmitia. De repente viam o referendo em risco. A hipótese do não se sobrepor é, de facto, asustadora, mas seja como for, as regras do jogo são essas: ganha quem tem mais votos, perde a razão.
Estou em crer que este é o lado errado. Não é tema de religião. É matéria de intervenção política(de governação) porque interfere com direitos e liberdades dos cidadãos, que não podem nem devem estar sujeitos a dogmas, seja lá isso o que for, religiosos; e científica, pelos efeitos que exerce sobre a saúde física e psicológica.
É ao governo que cabe decidir sobre o peso dos impostos que o cidadão deve pagar (ou ficar a dever) sobre se os pópós podem ou não estacionar nos passeios. Sim, senhor, é ao governo que compete definir quem é que pode soprar em apitos dourados (e quem não pode!), é o governo que deve fixar as propinas e deve também ensinar o caminho do futuro, assegurando um presente digno. A Igreja é outra coisa e por muito respeito que possa merecer é um pouco como a TV Cabo -- serve para os tempos livres e só lá vai quem quiser. Pode pregar a fraternidade e a castidade (sobre isso Eça já disse o bastante!); pode abençoar os baptizados, abrilhantar os casamentos e ajudar os vivos a chorar os mortos. Mas não se pode, nem deve, permitir a qualquer culto entrar na cama das pessoas, na vida íntima dos crentes ou limitar o livre arbítrio.
E não é só o governo que tem de entender isto, é também, e sobretudo, a Igreja: façam do culto uma festa, não um trauma.

Leis das Finanças

Das leis do hóquei em patins para as leis das finanças: vejo na SIC Notícias um programa sobre a falência da ENRO.
Fico a pensar: agora que o PS declarou guerra aos grupos de pressão e até salvou os sobreiros de Benavente, talvez chegue a vez de fiscalizar as contas das empresas que especulam para além do que devem com as finanças. Talvez chegue a hora de chamar à razão alguns administradores de grandes empresas que atiram gente para o desemprego para poderem gastar "à tripa forra".
Talvez algumas empresas mereçam mesmo o tratamento que foi sujeita a ENRO. Papéis para isso não devem faltar
Talvez alguns administradores devam mesmo ser algemados e conduzidos à prisão, se, entretanto, ao sistema judicial for colocada uma venda nos olhos como a que é colocada à figura da Justiça em todos os "Palácios" dela.
Talvez possamos vir a ter um país a sério.
Talvez valha a pena viver os anos seguintes.

domingo, março 27, 2005

As Leis do Hóquei em Patins

Há muito tempo que trago na cabeça a ideia de escrever sobre o Hóquei em Patins, uma modalidade desportiva em que Portugal é, normalmente campeão, embora, ultimamente o seja com muito mais dificuldades. Aproveito a oportunidade da realização do Torneio de Montreux.

É sobre as cada vez maiores dificuldades do Hóquei português que me ocorre discorrer: fomos enganados há já muitos anos - não sei quantos - quando consentimos na alteração de leis fundamentais da tal modalidade em que eramos quase imbatíveis.

Na verdade, os hoquistas portugueses tinham ( e têm) sobre todos os seus adversários uma habilidade inata do controlo da bola e dos patins.

Estas duas habilidades permitem-lhes jogar a grande velocidade, desde que usem todo o campo.

Ora, foi aqui que os dirigentes do Hóquei nacional foram enganados, ao permitirem a criação de uma linha de anti-jogo, que reduz o campo de jogo a metade. De facto, o hóquei em patins, que era uma modalidade espectacular passou a ser uma espécie de andebol sobre rodas com um pau na mão, sem velocidade, sem imaginação e sem graça.

Os adversários de Portugal eram e ainda são, sobretudo a Espanha e a Itália e foram eles que lutaram pela tal linha de anti-jogo - um verdadeira aberração. Para que são as rodas se não para dar velocidade ao jogo?

Não há maneira de voltar a libertar o espaço e, desse modo, permitir aos jogadores que usem todo o campo para praticarem um hóquei veloz, tal como o fizeram Jesus Correia, Correia dos Santos, Cruzeiro, Lisboa, Adrião e tantos outros?

De resto, há outras leis introduzidas no jogo que prejudicam a sua espectacularidade. Refiro-me às que regulam a capacidade de intervenção do guarda-redes - que se pode deitar na baliza e defender sem que isso acarrete qualquer penalidade e o próprio tamanho das balizas...

Enfim... aí fica o desabafo de um amante desiludido. Hoje, o hóquei em patins já não é o que foi e, por isso, nem sequer ganha nada com as transmissões televisivas, ao contrário de outros tempos em que bastava um relato radiofónico para mobilizar o país.

DA BAÍA DOS TIGRES A VISEU

Da corda por se destinar a rememorar o passado. Como se sabe, quanto mais passado mais podre. O nosso passado comum é ainda recente e, no entanto, tudo se alterou e nada foi do que se esperava. Mas serviu para forjar um presente envenenado. Calma, calma, não estou a sugerir que o Barbas tenha congeminado de propósito a maldade de lixar os brancos que estavam em África e enfernizar a vida aos pretos que por lá ficaram. Referia-me mais terra-a-terra ao presente que se criou entre a chamada civilização ocidental e o resto, considerando como "resto" os locais aprazíveis onde os civilizados de parte do Ocidente costumam ir de férias, explorar a mão de obra alheia, bem como outras partes da anatomia local.Mesmo mau, o presente que hoje se vive, tem para nós mais e melhores recordações que para o comum dos civilizados que nos rodeiam, que vive os seus problemas sem o polvilhar de recordações. Quem, hoje, se pode lembrar da Baía dos Tigres, onde a pista era de lajes e servia de passeio dominical, porque tudo o mais era areia fina e o motor mantinha a luz acesa até às 22 horas. E onde fiquei pasmado a olhar pasteis denata, tal e qual.Havia também bolas de berlim e outra doçaria corriqueira das pastelarias, mas na Baía dos Tigres não havia pastelarias, nem lojas chinesas, nem pronto-a-vestir. Só havia areia e uns barcos que pescavam e, em algum curto período do ano quase se podia passar a pé para o continente. E havia cães! Cães que comiam peixe, se queriam comer alguma coisa, E gente gira, que sabia valer a pena viver, mas para isso havia que saber sobreviver. Aos domingos as gentes juntavam-se num dos serviços aéro-portuários, com o lanche ajantarado.Passeavam pista fora, arreados por ser domingo.Estive lá mas foi como se não estivesse estado. Não percebi nada. E nem sabia que não precisava de perceber. Estive lá. E sei que, se um dia for rico ou poderoso, gostaria de lá acabar e lá ficar, sob a areia...Entretanto vou pairando por aí. Ontem, ao fim da tarde, passei perto de Viseu.Vinha de Mirandela para a Régua, pela montanha deslumbrante.Missão dura: almoçar na Galafura, no miradouro de S. Leonardo. Nem quero falar disso. Não vão lá; aquilo é demais, não vale a pena. Nem é justo haver uma coisa assim.Miguel Torga é que sabia. É preciso esconder. É tudo mentira. Tudo.Não vão a Galafura. Vão a Viseu. É mais animado. Moral sólida econvencional. É gente tesa e lá os polícias são distraídos, nem sei bem, mas ou são distraídos ou mal pagos. Em todo o caso melhor seria que fossem para as obras ou, porque não? para a Síria, que isso do Iraque já deu...E a mim deu-me para ser infeliz. Queria falar a um amigo sobre o antigamente. Quando eu era menino e moço e aprendia a vida indo às meninas. Meninas era uma espécie de lojas em voga, nesse tempo distante, ainda por cima salazaresco.Por dez escudos podia-se. Nalguns casos de sedução bem sucedida podia-se mais. Havia antros a vinta paus. Aí a escolha era permitida.Uma jovem precocemente envelhecida ensinou-me: "que queres, meu querido, cabeça que não tem juizo, o cu é que paga"...Pronto,pronto. Agora já sabem porque me esforço tanto para ter juizo...

sábado, março 26, 2005

Antes que seja tarde

Chove que Deus dá! Papagaio. Já não se aguenta. Tento sair, que o pobre cão já não aguenta. Os pés cheios de lama. Inquieto-me. Acho que devo telefonar ao ministro novo, por causa do velho que se esqueceu de meter os papeis para o subsídio da seca. É urgente avisar o novo, dos efeitos avassaladores do mau tempo. É preciso começar a meter os papeis em Bruxelas. Precisamos de ajudas comunitárias urgentes. As colheitas do que não teve tempo de secar estão em perigo de se afogar. Vamos todos padecer à míngua. Força, minha gente, toca a mexer. Que não se guarde para o amanhã o subsídio que se deve pedir hoje, já. Avisem, se faz favor, os senhores ministros da chuva e dos malefícios de ser indolente. O dever primeiro das maiorias é saber o como, o a quem e o quando exigir o que nos é moralmente devido.
Deve igualmente exigir-se do executivo medidas urgentes para aproveitamento das infraestruturas da Bombardier, enquanto houver por lá umas maquinetas, para produzir chapéus de chuva impenetráveis e com aquecimento central e galochas antiderrapantes. E luvas, claro, assépticas, com as quais se possa coçar seja quem for. Urge evidenciar a nossa capacidade
de enfrentar as piores tormentas, com subsídios a preço da uva mijona, apesar do risco a que a dita está sujeita.
Deve igualmente aproveitar-se a invernia para melhorar a programação televisiva de forma a minorar os efeitos nocivos no mercado de trabalho. Se os desocupados não têm que fazer, que possam, ao menos, ter que ver, sem se aborrecer de morte.
Enquanto isto, as previsões metereológicas revelam-se assustadores. As rajadas de sudoeste estão a ser influenciadas por um anticiclone qualquer e podem diminuir e se parar a chuva, lá virá, outra vez a porcaria da seca. Com chuva ou sem chuva querem apostar em como o Portugal-Canadá vai ser uma seca!...

Código da Estrada

Primeiro erro da governação PS: a promulgação de um Códio da Estrada feito por outros e que continua a constituir-se como uma armadilha (emboscada) para os cidadãos cumpridores. Este Código não traduz a necessidade de fazer para a estrada uma lei que obrigue as pessoas a um relacionamento civilizado. Pelo contrário, leva para a estrada o medo das emboscadas montadas de forma arbitrária pelas autoridades que, incapazes de combater os verdadeitros delinquentes e criminosos, ocupam o seu tempo a assustar e a explorar os cidadãos cumpridores.
O PS tinha a obrigação de suspender a promulgação deste código de "cobardes" para fazer um outro, susceptível de acolher o apoio dos homens e mulheres de bem deste país. Deste modo continuamos a justitificar a existência de uma autoridade caprichosa que faz da lei um chicote ou um caminho de fuga.
Para quê tanta pressa? Para poder dizer que o código foi feito por outros. É verdade, mas não deixa de ser um atentado à inteligência de um a Nação.
Porra!

sexta-feira, março 25, 2005

Rdp África II

Para a RDP África o importante é libertar-se das influências instaladas pelo seu anterior director- David Borges - já que a sua propalada ascendência cuanhama se tem casado com algum sucesso com o "quipungo" Kundy Payama, exactamente o primeiro comissário do Cunenne ( Ongiva), e também o primeiro a fugir da invasão sul-africana, de pasta à " James Bond" e pulseira de ouro no braço esquerdo. Lembras-te David Borges? Não? É verdade, não estavas lá, já tinhas fugido muito antes.

É verdade: são mensagens cifradas, as chamadas "private jokes", mas eu explico: David Borges, branco de gema, filho de sargento do exército colonial português, nascido em Pereira d'Eça perfeitamente por acaso, simpatizante da UNITA de Jonas Savimbi desde a primeira hora, depois de ter fugido para Portugal , assim que as condições o permitiram - diria mesmo, exigiram - transformou-se em Cuanhama ( tribo pertencente a uma nação importante do Sul de Angola e do Norte da Namíbia - a Nação Ambó) apenas porque tinha nascido na então Pereira d'Eça.

Nunca falou uma palavra Cuanhama, nunca usou tchinkuani, nunca manipulou uma zagaia, mas acha-se um cuanhama, súbdito do rei Mandume.

Porquê? ( ele não sabe o que é um tchinkuani, o rei Mandume... a Nação Ambó)

Porquê?

Porque lhe serviu de chave para algumas portas: Aldemiro da Conceição , " o acessor prás gajas" do presidente Eduardo dos Santos, no tempo em que o ZéDu utilizava a piscina do Futungo... Kundy Payama...

Aqui está a porta estranha: é que Kundy Payama, ex-primeiro cabo do Exército Português, no ASMA, em Luanda, natural do Kipungo, Província da Huíla, foi nomeado como primeiro comissário do MPLA na Província do Cunnene, com capital em Ongiva (ex-Pereira d'Eça) e foi também o primeiro a fugir perante a eminência da invasão sul-africana.

Em Outubro de 1975, com uma pasta à "James Bond" e uma pulseira de ouro à "betinho dos anos sessenta", apareceu no Lubango implorando uma boleia para Luanda. Nunca ninguém percebeu o ar assustado do actual e ex-ministro não sei de quê. Eu acho que ele queria mudar de calças e de tudo o resto em terreno seguro - Luanda.

São estes dois homens (David Borges e Kundy Payama) que têm, hoje, uma aliança perfeita, com o acessor de ZéDu pelo meio.

São estes dois homens - que não sabendo a história de Mandume - também não sabem as do Comandante Kapofy (Cowboy) e do militante-poeta Vidigal, esses sim verdadeiramente cuanhamas - mortos com tiros nas costas, quando defendiam o seu povo dos canhões racistas sul-africanos.

Fazer o quê, David? Ensinar-te outra vez a história? Vai, vai, mas deixa-nos em paz. Escusas de dizer que não gostas " do rumo que as coisas estão a tomar".

Que rumo?

Alguma vez o tiveste?

RDP ÁFRICA

Republiquei há dias um texto sobre a televisão, especificando em capítulo àparte a RTP África. A republicação tem um objectivo claro: quem vai tomar decisões sobre a matéria não pode esquecer as observaões que são feitas ao serviço prestado - isto é, mais vale a pena fechar.
Outra questão é a RDP África - feche-se hoje mesmo. Demita-se o director, peça-se-lhe, por favor: aceita o convite do Aldemiro da Conceição. Desse modo toda a gente ganha, fica tudo claro. É ou não é, David Borges?
Angola reganha um filho, o Aldemiro uma voz autorizada e a RDPÁfrica um novo espaço de afirmação, sem os telefonemas do Futungo - que é longe "pacaraças..."

quarta-feira, março 23, 2005

Recapitulação II

Este segundo capítulo de recapitulação da "matéria dada" dedico-o à Televisão, repondo um texto que me deu algum trabalho na altura e em que falava de erros- alguns verdadeiramente catastróficos - trazidos pela governação PSD/CDS e do ministro mais ignorante da matéria que passou pela tutela. De facto, Morais Sarmento passou pelo Governo apenas para beneficiar os grandes grupos privados de audiovisual, atrofiando, quer a Televisão, quer a Rádio públicas. Como o programa do actual Governo é pouco explícito em algumas matérias relativas a estes dois importantes sectores da vida nacional, aqui deixo a reposição dos erros apontados.
A Destruição do Audiovisual

Já aqui foi dito que uma das razões por que a Televisão Portuguesa continua com uma qualidade impossível de comparar com qualquer outra europeia tem a ver com a destruição do audiovisual português. É que o ministro Morais Sarmento, enquanto retirava capacidade de produção à RTP, a verdadeira escola nacional de Televisão, entregava a produção televisiva a grandes grupos internacionais .
Quem são eles?
Grupo Telefónica (espanhol), onde estão incluídas as empresas Endemol, Gestmusic, Sonotech, United Broadcast, Telefónica e outras pequenas empresas-satélite, constituídas especificamente para a concretização de determinados contactos ou projectos.
A GesteMusic, por exemplo, só se radicou em Portugal para produzir e realizar a "Operação Triunfo", tendo abandonado o país quase tão vertiginosamente como se implantou.
Entre outros conteúdos, o Grupo Telefónica é responsável por grande parte dos Reality-Shows (Big Brother, Big Brother dos Famosos, Quinta das Celebridades), concursos (Quem Quer Ser Milionário, o Elo Mais Fraco...), Academia das Estrelas (Operação Triunfo), grandes séries, gravação de concertos, algumas transmissões desportivas, etc.
Grupo Media Luso (espanhol) - Apenas duas ou três grandes empresas constituem este grupo, a Media Lusa, Media Burst e a Media Pro, que detêm, quase em exclusivo, todo o mercado das transmissões desportivas nacionais, nomeadamente, o futebol.
A entrada deste grupo em Portugal está, de resto, rodeada de alguns aspectos menos claros, no que respeita aos meios técnicos utilizados e ao pessoal contratado.
Grupo NBP (Colombiano) - A actual NBP pouco ou nada tem a ver com a empresa produtora inicialmente constituída e hoje há alguma dificuldade em determinar, com exactidão, a nacionalidade dos capitais envolvidos, nomeadamente porque não é possível saber o destino que teve o Grupo Bavaria e os fundos ingleses e americanos, inicialmente envolvidos na Media Capital e na TVI.
Após alguns anos de graves dificuldades económicas, a NBP lidera, hoje, em Portugal, a produção de Telenovelas. Continua a produzir, quase em exclusivo, para o mercado nacional por não ter motivado qualquer interesse significativo no mercado externo. Apesar disso, a NBP parece póspera e com grandes projectos para o futuro.
Fremantle - Trata-se de um grande grupo internacional com um representante em Portugal e que faz aprovar, sempre que se proporciona, programas de entretimento, testados e rodados no mercado externo. A produção e os meios técnicos ficam a cargo de uma das empresas nacionais ou estrangeiras, especializadas neste tipo de serviço.
A Portugal Telecom - É um caso único no panorama Audiovisual Europeu.
O Grupo PT tem, na prática, a propriedade efectiva e o controlo da infraestrutura de distribuição do sinal de Cabo.
Tem o quase monopólio da distribuição desse sinal através de um conjunto de empresas que cobrem quase todo o espaço nacional e, na prática, desvirtua os princípios básicos das leis do mercado.
Controla, ainda, os conteúdos transmitidos por via dos canais que selecciona para distribuição pública, não implementando alternativas técnicas que permitam aos assinantes do serviço escolher livremente o conjunto de canais que pretendem receber, dos mais de duzentos a que o grupo tem acesso.
Controla, directamente, os conteúdos de alguns dos canais que transmite e de que é o principal responsável editorial.
Controla a organização da própria oferta do cabo, o chamado" pacote básico", que altera sistematicamente e sem razão plausível, favorecendo alguns canais - escandalosamente todos os canais do grupo SIC - prejudicando outros, sobretudo a RTP e a TVI, retirando da grelha canais de interesse público - M6 - e substituindo-os por autênticas aberrações de interesse e gosto mais do que duvidoso (Vivir, televendas, etc).
Finalmente, controla o mercado publcitário dos canais do cabo, não generalistas, através de contratos de concessão a longo prazo, tudo na ausência de legislação que estabeleça regras, e com a conivência efectiva das entidades reguladoras, a Alta Autoridade para a Comunicação Social e a ANACOM.
Estamos, portanto, perante meia dúzia de grandes produtores ou grupos de produção que, globalmente, controlam a esmagadora maioria do volume de negócios da Televisão Portuguesa e, por esse meio, os próprios conteúdos produzidos.
A maioria das pequenas e médias empresas de produção nacional está à beira da falência, não tem mercado de programas que justifique o investimento e a actualização tecnológica, não dispõe de quadros especializados, não tem projectos nem perspectivas de poder vir a, num futuro próximo, realizar contratos que lhes permitam sobreviver.
Estão "entalados" entre os "grandes produtores" e as empresas de "vão de escada", cuja proliferação se acentuou a partir da entrega do canal 2 da RTp à chamada sociedade civil.
Ao contrário do que se passa no resto da Europa, em que se priveligia a constituição de pequenas e médias empresas, altamente especializadas, a concentração que se verifica em Portugal tem impedido o desenvolvimento tecnológico da grande maioria das empresas, a especialização dos seus quadros técnicos, actualização dos meios e sistemas de produção, enfim a prossecução de um projecto industrial, cultural e de produção autónomo, nacional e participado.
É por isso que hoje não se produz ou realiza, em Portugal, qualquer projecto televisivo inovador, não se conquista uma única parecela de mercado internacional, não se exporta um programa, não se vende uma ideia ou conceito, não se participa em nenhuma grande produção.
Nenhum projecto televisivo dura mais do que uma época (grelha de Verão ou de Inverno), os contratos de produção nunca excedem os seis meses de duração, não há projectos a médio ou longo prazo, as empresas não possuem especializações, não têm capacidade de rentabilização dos meios técnicos e humanos envolvidos, vivem sistematicamente à beira do colapso económico e financeiro.
A maior parte das empresas desconhce as regras de funcionamento do sistema, acreditam que o modelo implantado em Portugal é comum aos restantes países europeus, não desenvolvem parcerias internacionais, não têm capacidade financeira para participar de feiras, exposições e inovações que o normal desenvolvimento do sector impõe, estão completamenmte alheadas do que realmente se produz na Europa, estão quase tão isoladas, em termos internacionais, como durante o anterior regime.
Sr. Ministro M. Sarmento, espero que ainda esteja aí, para lhe explicar que o o sr. não foi um minisitro esforçado, inovador ou porra nenhuma. O sr. condenou um sector importante da vida portuguesa à estagnação. O senhor é responsável por uma grande fatia do desemprego que nos assola. O senhor nunca devia ter sido ministro de coisa alguma.
Teria muito mais a dizer-lhe, mas sabe: tenho um blog e a maioria dos meus leitores já está um bocado cansado desta matéria. Ficamos por aqui, mas não apareça em campanha a fazer do grande homem que salvou a televisão do caos e não sei de que mais!


A Desregulamentação da Televisão em Portugal

O sr. ministro Morais Sarmento devia, de facto, ter feito algum esforço e recorrido a uns acessores criativos para perceber onde estaria a importância do seu papel como entidade tuteladora da Televisão.
Devia, por exemplo, ter obrigado os vários operadores do ramo a cumprir um conjunto de disposições que já se encontram regulamentadas.
Todos eles deviam ser obrigados a cumprir, integralmente, o Contrato Programa que assinaram com o Estado Português e que legaliza as respectivas autorizações de emissão e distribuição de sinal.
Deviam, igualmente, respeitar os diplomas e regulamentos em vigor e que regem o sector Audiovisual, sob pena de lhes serem aplicadas coimas de valor suficientemente exemplar, já que não tem significado a aplicação de uma coima de valor inferior ao lucro que a contravenção proporciona.
Em simultâneo, devia ter estabelecido um novo quadro legal do sector, mais ajustado à realidade decorrente das evoluções tecnológicas recentes, que introduziram no mercado novos produtos: canais distribuídos por satélite e fibra óptica, canais privados e empresariais.
Quanto à Televisão Pública devia ter-se apoiado nas conclusões da comissão independente que convidou e depois desprezou para definir um modelo de televisão e, em seguida, criar uma estrutura técnica e uma direcção administrativa e de conteúdos, de informação e programas adaptadas ao modelo escolhido.
O que é que aconteceu com o sr. ministro M. Sarmento?
A RTP mudou de instalações próprias para umas instalações alugadas, sofreu uma "profunda reestruturação", cujos resultados ainda não são visíveis, mas que, pelo que se passa em sectores vitais da empresa, poderão ser os piores.
Mais alguma coisa, para além da continuada protecção aos canais de Pinto Balsemão, que, de resto, já vinha de trás?

A Televisão do Nosso Descontentamento - Programação

As políticas de "grande esforço e inovação" do ministro M. Sarmento na Televisão não são responsáveis apenas pelo baixo nível da nossa informação televisiva. Eu diria que elas são, sobretudo, a causa do baixíssimo nível da programação de todos os canais portugueses.
Olhemos para o panorama geral das grelhas de programas emitidos pelas televisões portuguesas, cujas diferenças existem apenas nas bengalas em que cada uma delas se apoia: a SIC numa batelada de telenovelas produziadas pela TVGlobo, a TVI nas suas próprias telenovelas e a RTP em concursos já gastos e revistos.
Logo pela manhã, há um tempo de informação e entretenimento, na RTP1, "Bom dia Portugal", na TVI, "Diário da Manhã".
Seguem-se nas três cadeias longos "talk-shows", conversa de estúdio, sobre tudo e coisa nenhuma, com participação do público, geralmente remunerado a custo reduzido, dois ou três "especialistas convidados", figuras de quinto plano.. A opção está entre acompanhar o Jorge Gabriel (RTP1), a Fátima Lopes (SIC) ou o Manuel Goucha (TVI).
Às 13 horas, os noticiários, longos de mais de uma hora e sem qualquer critério editorial - adopção cega do modelo tabloide.
Às 14 horas todos eles adoptam pela repetição de séries, que, às vezes, já vão na quinta e na sexta repetição. Segue-se mais um talk-show em cada um deles. Só a partir do meio da tarde é que recorrem às tais bengalas, o que dá a aparência de programações alternativas.
À noite, depois de mais um longo jornal de pelo menos uma hora, com os critérios já descritos, lá vêm, na SIC e na TVI, programas de anedotas. O mesmo esquema deverá estar a ser seguido pela RTP 1, que, entretanto à falta de tal alarvidade, e por agora, apresenta uma série de produção nacional, de excelente qualidade "Ferreirinha" - uma honrosa excepção em alguns anos.
A seguir às anedotas e à tal série, a SIC e a TVI voltam às telenovelas e a RTP1 aos concursos.
Porquê uma tão confrangedora grelha de programas? Por uma questão de redução de custos? A situação financeira em que se encontra a generalidade das cadeias de Televisão em Portugal não justifica, minimamente, as opções editoriais e de programas adoptadas.
Repare, sr. ministro, vou começar a explicar-lhe: como há alguns anos afirmava o realizador brasileiro, Walter Avancini, o problema da Televisão Portuguesa é de natureza cultural e resume-se à falta de qualquer projecto cultural para o país e consequentemente para os diversos órgãos de comunicação social.
O sr. achou que esta coisa de televisão se resolvia com a entrega da produção televisiva a grandes grupos, sobretudo se fossem estrangeiros, e atirou o audiovisual português para as urtigas, estrangulando a capacidade criadora que as pequenas e médias empresas detinham para alimentar as cadeias televisivas.
O ministro Morais Sarmento não percebeu que a televisão representa o mais poderoso instrumento de divulgação cultural e entendeu apenas a sua condição de principal aparelho ideológico do Estado. Daí que, a certa altura, se deu ao desplante de afirmar que o Estado o devia controlar inteiramente, porque "os jornalistas não vão a votos".
E a verdade é que não desistiu da ideia: basta olhar os telejornais da RTP 1 e perceber as manobras com alguns programas, que podem ser considerados incómodos para o actual poder, como é o "Contra-Informação", um caso raro e notável de sobrevivência perante os ataques demolidores do ministro Sarmento às pequenas e médias empresas de audiovisual.

A Televisão do Nosso Descontentamento - Informação

As políticas de "grande esforço e inovação", levadas a cabo pelo sr. ministro M. Sarmento não tiveram efeitos apenas na RTP, a instituição que ele tutela directamente. No seu conjunto, a Televisão Portuguesa, pertencendo a um País Europeu, membro de pleno direito da União Europeia, de cultura e modo de vida europeus, pode classificar-se dentro de um modelo misto de latino-americano e de canal local americano, mas nunca uma Televisão de modelo europeu.
Analisemos em primeiro lugar, o que se faz em matéria de informação e sem falarmos das trapalhadas que se fazem com as mensagens de órgãos de soberania, por exemplo do Presidente da República ou do Primeiro Ministro, que, normalmente, aparecem a meio dos jornais, comentadas pelos jornalistas de serviço, enquadradas por oráculos de frases soltas, retiradas do contexto, tudo num cenário de feira a que não faltam as notícias de rodapé, sobre matérias que nada têm a ver com a comunicação emitida.
Em nenhuma televisão europeia, notícias de relevante importância nacional são preteridas a favor de informações locais, de interesse duvidoso, numa sucessão noticiosa sem critérios, nem objectivos, sem discernimento nem equilíbrio. Dir-se-ia que, em Portugal, só acontecem faits-divers, desastres, roubos, crimes, violações, assaltos...
É degradante a imagem que os diversos noticiários nacionais dão do País e do Povo Português. Ao relato e análise dos factos prefere-se o comentário especulativo, a informação converte-se em espectáculo: o "vizinho", o "morador", a "turista" e a "testemunha" são o novel critério jornalístico; o jornalista é a "notícia", a "notícia" é uma inimaginável sucessão de banalidades, uma feira de vaidades, pessoais e profissionais, onde a classe política no poder ganhou especial protagonismo.
O falso "volume de informação" criado neste sistema comum aos canais portugueses esconde uma outra realidade, que decorre da profunda fragilidade e incapacidade das diversas direcções de informação, da televisão pública e privadas, que não lhes permitem produzir nenhum bloco noticios sério ou qualquer magazine de informação especializado.
A Televisão Portuguesa interessa-se pouco pelo que, de concreto e capital, se passa no território nacional, despreza, soberanamente, o que ocorre no estrangeiro, sobretudo se a realidade ultrapassa a sua capacidade de compreensão imediata, se a notícia não arrasta o drama, a tragédia ou a vulgaridade e se não chegar pelo sistema diário de troca de informações televisivas internacionais (EVN's).
Este panorama é o resultado das políticas desenvolvidas pelo sr. ministro M. Sarmento, a quem aconselho a não sair daí... porque, lá mais para a frente, vou explicar-lhe porquê.


A RTP Do Nosso Descontentamento III

RTP INTERNACIONAL E ÁFRICA

Na sua política de esforço e inovação, M Sarmento não conseguiu descobir algo para que não era necessário nenhum esforço: a existência de uma RTP África, ao mesmo tempo que uma RTP Internacional é uma aberração. Não faz qualquer sentido fora de um quadro de actuação definido por preocupações neo-coloniais, eu diria mesmo, racistas.
Isto é, a RTP Internacional é para brancos e a RTP África é para negros.
As preocupações, legítimas, de o Estado português utilizar os meios de comunicação social para, por um lado, comunicar com os seus cidadãos espalhados pelo Mundo e, por outro, fazer a defesa dos seus valores culturais junto de comunidades que os partilharam durante séculos e, em alguns casos, ainda partilham, têm que corresponder à elaboração e execução de políticas rigorosas.
A RTP Internacional deverá ser dirigida igualmente para África, sem uma designação específica, mas tendo em atenção as peculariedades das sociedades que ocupam os vários espaços a que se dirigem as suas emissões. Assim, se uma edição para África da RTP Internacional, não deve ter os mesmos conteúdos dos programas destinados a França, estes não podem ser iguais aos que são vistos no Canadá ou nos Estados Unidos, ou no Brasil.
Esta concepção valoriza, de facto, a posição de Portugal no Mundo, mas implica investimentos. Desde logo na investigação das correntes emigratórias nacionais, nas suas várias componentes e na dotação dos departamentos responsáveis por estas emissões de gente qualificada para orientar antenas e programações para públicos eterogénos, mas com uma raíz comum.
A RTP não tem que juntar às suas emissões internacionais produtos que não correspondam a um perfil definido pela preocupação de fazer de cada minuto de televisão transmitido para o estrangeiro um tijolo na construção de uma comunidade respeitada, coesa, culturalmente avançada, com um passado contribuinte indispensável para o Mundo de hoje - uma comunidade que a todos respeita, mas que exige ser respeitada.
Não é essa a ideia que ressalta dos inquéritos, não comprovados cientificamente, mas possíveis graças à troca de ideias que a actual globalização das comunicações vai permitindo.
De resto, para comprovar a desgraçada qualidade das emissões da RTP Internacional e África basta recordar as palavras de um emigrante canadiano, proferidas há pouco tempo, em directo: "não somos só nós que já não vemos a RTP Internacional e África, tudo faremos para que os povos que nos acolheram também não as vejam, porque o País e o Povo que nos dão a conhecer não condiz com a realidade que apreciamos".
Ora aí está, sr. ministro, o resultado da sua política de "tanto esforço e inovação".

A RTP Do Nosso Descontentamento II

O CANAL 2 E A SOCIEDADE CIVIL

Um dos grandes cavalos de batalha do ministro M. Sarmento, na sua política de "grande esforço e inovação", uma adjectivação repetida por ele próprio sempre que tem oportunidade, foi a seguida com a RTP 2, "entregue à sociedade civil".
Esta "entrega" foi a maior mistificação da tal política, já que esta sociedade civil, a que foi entregue o Canal 2, não existe. As instituições que se associaram a este projecto e se constituiram como "parceiros" do canal, que patrocinam uma parte dos programas emitidos, são, na sua maioria, organismos, organizações e empresas , fundações, associações, alimentados por capitais públicos.
Para além dos capitais públicos têm outra característica comum: não têm vocação para produzir, realizar, programar, ou mesmo controlar a produção de programas de televisão. Acrescente-se que, em alguns casos, a contribuição dada ao canal 2, no panorama da tal sociedade civil, tem apenas a ver com "pequenas vaidades pessoais" dos respectivos dirigentes.
As consequências são o que se vê: quando a proclamada sociedade civil ocupa a Antena, sucedem-se os programas sem qualidade técnica, estética, artística, numa confrangedora pobreza de conteúdos e de formatos, a que a direcção do canal parece não querer nem poder pôr fim.
É que aquelas são horas preenchidas com programas entregues, para emissão, a custo zero ou tão baixo que tornam impossível a mínima exigência.
Aliás, à parte os programas produzidos pela RTP Meios, e que em nada se distinguem das piores produções externas, não existe nenhum controlo de qualidade dos programas apresentados, já que os "parceiros" do canal escolhem, soberanamente, as empresas produtoras dos seus "produtos televisivos".
Esta falta de controlo deu origem ao aparecimento das chamadas empresas de vão de escada, produtores completamente desconhecidas até agora e que são escolhidas pelos parceiros do canal para produzir e realizar a baixa qualidade que caracteriza o actual canal 2.
Em conclusão: o orçamento de Estado continua a pagar dois canais de televisão, com duas diferenças importantes: a factura do canal dois é dividida em múltiplas contas, algumas das quais não contribuem, seguramente, para o objectivo estabelecido e, ao mesmo tempo, o Estado alienou o controlo da qualidade de grande parte da grelha de emissão daquele canal.

terça-feira, março 22, 2005

Recapitulação I

Ao longo dos meses - sem quase dar pelos dias a correr - fui escrevendo as minhas impressões sobre o que ia acontecendo à minha volta, sobretudo nop domínio da política. Alguns dos textos, entretanto sobrepostos por outros demonstram-me, agora, que há impress~~oes que valem a pena ser lidas. Deixo hoje alguns exemplos.

O primeiro tem a ver com o desastre PSD/CDS e alguns dos seus anúncios mais evidentes.

O Estado-Empresa ( 10 DEZ 04)

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Problema para netos resolverem (14 DEZ 04)
Quando toda a gente imaginava que o anedotário nacional acabara, eis que os dois se reunem no Ritz e, com toda a pompa e circunstância, anunciam a festa do divórcio. Só não se sabe onde foram passar a lua de mel. Vão regressar em breve ao casamento - a sério - para ralhar um com o outro. Novo casamento entre as respectivas famílias só já entre netos. Nessa altura espera-se que haja netas para a cerimónia.
São apenas conjecturas sugeridas por esta opereta a que temos assistido, com um final anunciado: no palco vai entrar um taxi para levar os deputados do PP ao Parlamento, já que vai ser necessário poupar para pagar as obras do Caldas. Paulo Portas recusar-se-á entrar.No mesmo plano e mesma cena, ainda mais torto do que tem aparecido nos últimos dias, mais vergado e mais coitadinho, Santana Lopes sairá pela porta das traseiras para não ser visto pela multidão dos seus até agora apaniguados. Sem saber para onde ir, acabará, seguramente, por ser acolhido na Quinta, em grande festividade.

Castração (30DEZ04)

A palavra castração é exacta para descrever o actual estado PSD. É espantoso como um partido que sempre soube reagir perante a possibilidade de chegar ao poder ficou parado frente à grande probabilidade de o perder.
Toda a gente perde muito tempo com Santana Lopes. Nos jornais, nas rádios nas televisões, os comentadores encartados e desencartados. Por mim, já escrevi aqui que Santana Lopes, felizmente para o país, é um problema do PSD. Todavia, quando tal escrevi ainda tinha a esperança de ver o PSD reagir e encontrar uma solução que lhe permitisse recuperar alguns dos estragos provocados pela sandice de Santana Lopes e da sua equipa.
Passado algum tempo, concluo que o PSD está mesmo manietado, sem capacidade de recuperação com toda a gente, no partido, a confiar numa coisa espantosa: na capacidade de "combate" do Pedro. Francamente! o homem até a ler os papéis que lhe dão se engasga... E quando fala de improviso só lhe vem lixo à boca!
Os profissionais do marketing político não fazem milagres e alguns, de tanto se esforçarem, acabam mesmo por conseguir os efeitos contrários ao que programaram.
Este PSD está mesmo castrado e isso não é bom para a democracia portuguesa, até porque, depois das eleições, os ajustes de contas não vão ser rápidos. Santana Lopes não é o único responsável. Quem o deixou chegar à liderança também vai ser julgado. Por quem? haverá gente limpa neste processo de destruição de uma força política com a história do PSD?

VELHA PÁSCOA, VELHO VIVER

Todos os anos os judeus comemoram a sua saída do Egipto. Por todos esses mesmos anos os egípcios ignoram essa mesma saída. É coisa que nem consta da sua história, salvo erro, em absoluto. Talvez então que a história continue a ser o que cada um quer que seja, assim como para cada escrevinhador semanal a história da semana seja o que ele quer que seja.
Assim:
O tempo de julgar
Foi notícia dos últimos dias. Pequenina porque dos fracos não reza a história. Mas por cá sabe-se que se juntou em Lisboa um Tribunal Mundial Sobre o Iraque, o qual pretendeu julgar os responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque.
Um julgamento que pretende ser moral num mundo seguramente sem moral. Na prática acto nulo. Que aliás já foi feito há muito tempo. Os povos falaram do Japão à Inglaterra. A política, no entanto, não quis formalizar essa voz. E menos escrutinar resultados. No fundo, a malta barafustou e pronto.
Depois aconteceram os mortos, os feridos, os desaparecidos, a fome, as destruições e também pronto: entrou-se no politicamente correcto, que é o salvar a face da força. Irresponsabilizá-los. Nem há outra saída airosa do atoleiro por causa dos efeitos colaterais duma barrela ao acontecido.
Um verdadeiro julgamento dos invasores e ocupantes, porém, fê-lo a natureza. Em poucas horas conseguiu o que eles não conseguiram em dois anos. Puseram o Iraque a arder e os iraquianos a matar-se uns aos outros, mas mais nada que se saiba. Agora, o maremoto matou 250.000 duma assentada enquanto os outros, ao que consta, ainda não chegaram a 150.000. E com ajudas, com palavras mansas, com a invocação de novas amizades. Na verdade uma vergonha para quem se julgava dono do mundo e nem em dois anos dominou o Iraque. Se a tivessem.
Soubessem eles perceber-se na força que não têm. Ensinem-lhes isso, já que inteligência para se perceberem por si também não. Seria mais útil que proferir sentenças sem força para as executar.
Os vice-versa
Pela originalidade, os dois mais notáveis cronistas portugueses serão Marcelo Rebelo de Sousa e Pulido Valente. O primeiro porque discursa para os apartes (atenção para quando os diz, por vezes é só isso que quer dizer) ; e o segundo porque é um cronista figadal. Depende do lado para que tem a víscera virada.
Originais de facto.
Serão uma espécie de vice-versa. Não porque sejam o avesso do outro, mas porque em originalidade são duas das faces da qualidade. Portanto um nem-vice e outro nem-versa. Mas mais ou menos do mesmo cobril. Cronistas navegando com uma costa à vista e duas intenções no mastro.
O nem-vice
De Rebelo de Sousa a história há de registar o elogio que ofereceu a Mourinho, com reparo à irreverência que este demonstra.
Foi reparo e lembra-lhe que, lá por ser génio, não se lhe pode permitir tudo. Logo a seguir veio o aparte, o importante em suma, que dizia mais ou menos assim:
eu quando era jovem e bom aluno, quer-se dizer, quando ainda não professor universitário, também fui rebelde. Comparou-se a Mourinho, portanto.
Mas não se disse génio, comparou-se só.
Genial aparte, convenhamos.
O nem-versa
Agora o figadal Pulido Valente. Há dias deu-lhe para escrever o que se segue:
Em França, o antiamericanismo( leia-se antinorteamericanismo) e, subsidiariamente, o ódio à Inglaterra continua a ser o fundamento da ortodoxia de Estado. Uma ortodoxia, que, de resto, a França comunicou à "Europa" (ou, no mínimo, às "velha Europa" que não sofreu o comunismo) e que ameaça hoje dividir o Ocidente.
A coisa não está mal pensada de todo. A França tem realmente a mania. E quem estudou por livros seus pode chegar à conclusão de que os franceses também: corre-lhes a presunção nas veias. Nem é preciso lembrar De Gaulle, como costuma fazer-se.
Contudo, o ódio a um poder imperial não é exclusivo dos franceses, que de imperadores parece que só gostam de Napoleão. Há antinorteamericanistas que nem de Napoleão gostam.
Todos os imperialistas, desde antes de Átila a depois de Mussolini, foram odiados.
Serve de exemplo o povo português (o povo, não os senhores de conveniências privadas nem as madames que fizeram boa cama a generais e outros que tais da manada napoleónica que ocupou Portugal), o qual, não obstante os brandos costumes, logo que se sentiu capaz, ofereceu aos franceses o tormento duma vida negra.
Instigado por padres que arregaçaram as batinas e acirrado por suas mulheres, obrigaram-nos a passar as passas do Algarve.
Claro que também houve os militares, os heróis e os ingleses que faziam do antifrancesismo ortodoxia de Estado. Houve esses, sem dúvida. Mas o povo, sem ortodoxia, tratou-os abaixo de cão.
Pulido Valente, que julgo ser historiador, se durar o tempo necessário, ainda há de rir com o que o Asterix vai fazer a Bush quando resolver deixar César e os romanos em paz. Caso, evidentemente, a catadura figadal lhe consentir que a inteligência sorria.

Cinema

Maria José Nogueira Pinto, um dia destes, em entrevista à Dois e à Rádio Renascença, quando lhe pediram uma palavra para definir Paulo Portas: Cinema.
Já naquela altura fiquei espantado com a inteligência da Provedora da Santa Casa da Misericórdia. De facto, PP está permanentemente frente a uma câmara imaginária para quem representa os mais variados papéis.
Para Paulo Portas, todavia, o cinema não passa por todos aqueles processos complexos de gravação, montagem (edição como se diz agora), etc. Não, para ele o cinema já está na tela com espectadores na sala- de preferência a bater palmas.
Foi o que aconteceu hoje, no Parlamento, com aquela sandice sobre a necessidade de José Sócrates corrigir o ministro dos negócios dos estrangeiros, Freitas do Amaral.
Disse tudo aquilo à espera do aplauso da sua claque, que, de resto, conhecia o teor da comunicação que o líder demissionário ia proferir. Todos se divertiam à grande e trocavam olhares cúmplices.
Hoje percebi melhor a palavra Cinema como definição de Paulo Portas. É um cinema de paranóico, de homem transtornado a precisar da chamada "ajuda profissional".