quarta-feira, março 23, 2005

Recapitulação II

Este segundo capítulo de recapitulação da "matéria dada" dedico-o à Televisão, repondo um texto que me deu algum trabalho na altura e em que falava de erros- alguns verdadeiramente catastróficos - trazidos pela governação PSD/CDS e do ministro mais ignorante da matéria que passou pela tutela. De facto, Morais Sarmento passou pelo Governo apenas para beneficiar os grandes grupos privados de audiovisual, atrofiando, quer a Televisão, quer a Rádio públicas. Como o programa do actual Governo é pouco explícito em algumas matérias relativas a estes dois importantes sectores da vida nacional, aqui deixo a reposição dos erros apontados.
A Destruição do Audiovisual

Já aqui foi dito que uma das razões por que a Televisão Portuguesa continua com uma qualidade impossível de comparar com qualquer outra europeia tem a ver com a destruição do audiovisual português. É que o ministro Morais Sarmento, enquanto retirava capacidade de produção à RTP, a verdadeira escola nacional de Televisão, entregava a produção televisiva a grandes grupos internacionais .
Quem são eles?
Grupo Telefónica (espanhol), onde estão incluídas as empresas Endemol, Gestmusic, Sonotech, United Broadcast, Telefónica e outras pequenas empresas-satélite, constituídas especificamente para a concretização de determinados contactos ou projectos.
A GesteMusic, por exemplo, só se radicou em Portugal para produzir e realizar a "Operação Triunfo", tendo abandonado o país quase tão vertiginosamente como se implantou.
Entre outros conteúdos, o Grupo Telefónica é responsável por grande parte dos Reality-Shows (Big Brother, Big Brother dos Famosos, Quinta das Celebridades), concursos (Quem Quer Ser Milionário, o Elo Mais Fraco...), Academia das Estrelas (Operação Triunfo), grandes séries, gravação de concertos, algumas transmissões desportivas, etc.
Grupo Media Luso (espanhol) - Apenas duas ou três grandes empresas constituem este grupo, a Media Lusa, Media Burst e a Media Pro, que detêm, quase em exclusivo, todo o mercado das transmissões desportivas nacionais, nomeadamente, o futebol.
A entrada deste grupo em Portugal está, de resto, rodeada de alguns aspectos menos claros, no que respeita aos meios técnicos utilizados e ao pessoal contratado.
Grupo NBP (Colombiano) - A actual NBP pouco ou nada tem a ver com a empresa produtora inicialmente constituída e hoje há alguma dificuldade em determinar, com exactidão, a nacionalidade dos capitais envolvidos, nomeadamente porque não é possível saber o destino que teve o Grupo Bavaria e os fundos ingleses e americanos, inicialmente envolvidos na Media Capital e na TVI.
Após alguns anos de graves dificuldades económicas, a NBP lidera, hoje, em Portugal, a produção de Telenovelas. Continua a produzir, quase em exclusivo, para o mercado nacional por não ter motivado qualquer interesse significativo no mercado externo. Apesar disso, a NBP parece póspera e com grandes projectos para o futuro.
Fremantle - Trata-se de um grande grupo internacional com um representante em Portugal e que faz aprovar, sempre que se proporciona, programas de entretimento, testados e rodados no mercado externo. A produção e os meios técnicos ficam a cargo de uma das empresas nacionais ou estrangeiras, especializadas neste tipo de serviço.
A Portugal Telecom - É um caso único no panorama Audiovisual Europeu.
O Grupo PT tem, na prática, a propriedade efectiva e o controlo da infraestrutura de distribuição do sinal de Cabo.
Tem o quase monopólio da distribuição desse sinal através de um conjunto de empresas que cobrem quase todo o espaço nacional e, na prática, desvirtua os princípios básicos das leis do mercado.
Controla, ainda, os conteúdos transmitidos por via dos canais que selecciona para distribuição pública, não implementando alternativas técnicas que permitam aos assinantes do serviço escolher livremente o conjunto de canais que pretendem receber, dos mais de duzentos a que o grupo tem acesso.
Controla, directamente, os conteúdos de alguns dos canais que transmite e de que é o principal responsável editorial.
Controla a organização da própria oferta do cabo, o chamado" pacote básico", que altera sistematicamente e sem razão plausível, favorecendo alguns canais - escandalosamente todos os canais do grupo SIC - prejudicando outros, sobretudo a RTP e a TVI, retirando da grelha canais de interesse público - M6 - e substituindo-os por autênticas aberrações de interesse e gosto mais do que duvidoso (Vivir, televendas, etc).
Finalmente, controla o mercado publcitário dos canais do cabo, não generalistas, através de contratos de concessão a longo prazo, tudo na ausência de legislação que estabeleça regras, e com a conivência efectiva das entidades reguladoras, a Alta Autoridade para a Comunicação Social e a ANACOM.
Estamos, portanto, perante meia dúzia de grandes produtores ou grupos de produção que, globalmente, controlam a esmagadora maioria do volume de negócios da Televisão Portuguesa e, por esse meio, os próprios conteúdos produzidos.
A maioria das pequenas e médias empresas de produção nacional está à beira da falência, não tem mercado de programas que justifique o investimento e a actualização tecnológica, não dispõe de quadros especializados, não tem projectos nem perspectivas de poder vir a, num futuro próximo, realizar contratos que lhes permitam sobreviver.
Estão "entalados" entre os "grandes produtores" e as empresas de "vão de escada", cuja proliferação se acentuou a partir da entrega do canal 2 da RTp à chamada sociedade civil.
Ao contrário do que se passa no resto da Europa, em que se priveligia a constituição de pequenas e médias empresas, altamente especializadas, a concentração que se verifica em Portugal tem impedido o desenvolvimento tecnológico da grande maioria das empresas, a especialização dos seus quadros técnicos, actualização dos meios e sistemas de produção, enfim a prossecução de um projecto industrial, cultural e de produção autónomo, nacional e participado.
É por isso que hoje não se produz ou realiza, em Portugal, qualquer projecto televisivo inovador, não se conquista uma única parecela de mercado internacional, não se exporta um programa, não se vende uma ideia ou conceito, não se participa em nenhuma grande produção.
Nenhum projecto televisivo dura mais do que uma época (grelha de Verão ou de Inverno), os contratos de produção nunca excedem os seis meses de duração, não há projectos a médio ou longo prazo, as empresas não possuem especializações, não têm capacidade de rentabilização dos meios técnicos e humanos envolvidos, vivem sistematicamente à beira do colapso económico e financeiro.
A maior parte das empresas desconhce as regras de funcionamento do sistema, acreditam que o modelo implantado em Portugal é comum aos restantes países europeus, não desenvolvem parcerias internacionais, não têm capacidade financeira para participar de feiras, exposições e inovações que o normal desenvolvimento do sector impõe, estão completamenmte alheadas do que realmente se produz na Europa, estão quase tão isoladas, em termos internacionais, como durante o anterior regime.
Sr. Ministro M. Sarmento, espero que ainda esteja aí, para lhe explicar que o o sr. não foi um minisitro esforçado, inovador ou porra nenhuma. O sr. condenou um sector importante da vida portuguesa à estagnação. O senhor é responsável por uma grande fatia do desemprego que nos assola. O senhor nunca devia ter sido ministro de coisa alguma.
Teria muito mais a dizer-lhe, mas sabe: tenho um blog e a maioria dos meus leitores já está um bocado cansado desta matéria. Ficamos por aqui, mas não apareça em campanha a fazer do grande homem que salvou a televisão do caos e não sei de que mais!


A Desregulamentação da Televisão em Portugal

O sr. ministro Morais Sarmento devia, de facto, ter feito algum esforço e recorrido a uns acessores criativos para perceber onde estaria a importância do seu papel como entidade tuteladora da Televisão.
Devia, por exemplo, ter obrigado os vários operadores do ramo a cumprir um conjunto de disposições que já se encontram regulamentadas.
Todos eles deviam ser obrigados a cumprir, integralmente, o Contrato Programa que assinaram com o Estado Português e que legaliza as respectivas autorizações de emissão e distribuição de sinal.
Deviam, igualmente, respeitar os diplomas e regulamentos em vigor e que regem o sector Audiovisual, sob pena de lhes serem aplicadas coimas de valor suficientemente exemplar, já que não tem significado a aplicação de uma coima de valor inferior ao lucro que a contravenção proporciona.
Em simultâneo, devia ter estabelecido um novo quadro legal do sector, mais ajustado à realidade decorrente das evoluções tecnológicas recentes, que introduziram no mercado novos produtos: canais distribuídos por satélite e fibra óptica, canais privados e empresariais.
Quanto à Televisão Pública devia ter-se apoiado nas conclusões da comissão independente que convidou e depois desprezou para definir um modelo de televisão e, em seguida, criar uma estrutura técnica e uma direcção administrativa e de conteúdos, de informação e programas adaptadas ao modelo escolhido.
O que é que aconteceu com o sr. ministro M. Sarmento?
A RTP mudou de instalações próprias para umas instalações alugadas, sofreu uma "profunda reestruturação", cujos resultados ainda não são visíveis, mas que, pelo que se passa em sectores vitais da empresa, poderão ser os piores.
Mais alguma coisa, para além da continuada protecção aos canais de Pinto Balsemão, que, de resto, já vinha de trás?

A Televisão do Nosso Descontentamento - Programação

As políticas de "grande esforço e inovação" do ministro M. Sarmento na Televisão não são responsáveis apenas pelo baixo nível da nossa informação televisiva. Eu diria que elas são, sobretudo, a causa do baixíssimo nível da programação de todos os canais portugueses.
Olhemos para o panorama geral das grelhas de programas emitidos pelas televisões portuguesas, cujas diferenças existem apenas nas bengalas em que cada uma delas se apoia: a SIC numa batelada de telenovelas produziadas pela TVGlobo, a TVI nas suas próprias telenovelas e a RTP em concursos já gastos e revistos.
Logo pela manhã, há um tempo de informação e entretenimento, na RTP1, "Bom dia Portugal", na TVI, "Diário da Manhã".
Seguem-se nas três cadeias longos "talk-shows", conversa de estúdio, sobre tudo e coisa nenhuma, com participação do público, geralmente remunerado a custo reduzido, dois ou três "especialistas convidados", figuras de quinto plano.. A opção está entre acompanhar o Jorge Gabriel (RTP1), a Fátima Lopes (SIC) ou o Manuel Goucha (TVI).
Às 13 horas, os noticiários, longos de mais de uma hora e sem qualquer critério editorial - adopção cega do modelo tabloide.
Às 14 horas todos eles adoptam pela repetição de séries, que, às vezes, já vão na quinta e na sexta repetição. Segue-se mais um talk-show em cada um deles. Só a partir do meio da tarde é que recorrem às tais bengalas, o que dá a aparência de programações alternativas.
À noite, depois de mais um longo jornal de pelo menos uma hora, com os critérios já descritos, lá vêm, na SIC e na TVI, programas de anedotas. O mesmo esquema deverá estar a ser seguido pela RTP 1, que, entretanto à falta de tal alarvidade, e por agora, apresenta uma série de produção nacional, de excelente qualidade "Ferreirinha" - uma honrosa excepção em alguns anos.
A seguir às anedotas e à tal série, a SIC e a TVI voltam às telenovelas e a RTP1 aos concursos.
Porquê uma tão confrangedora grelha de programas? Por uma questão de redução de custos? A situação financeira em que se encontra a generalidade das cadeias de Televisão em Portugal não justifica, minimamente, as opções editoriais e de programas adoptadas.
Repare, sr. ministro, vou começar a explicar-lhe: como há alguns anos afirmava o realizador brasileiro, Walter Avancini, o problema da Televisão Portuguesa é de natureza cultural e resume-se à falta de qualquer projecto cultural para o país e consequentemente para os diversos órgãos de comunicação social.
O sr. achou que esta coisa de televisão se resolvia com a entrega da produção televisiva a grandes grupos, sobretudo se fossem estrangeiros, e atirou o audiovisual português para as urtigas, estrangulando a capacidade criadora que as pequenas e médias empresas detinham para alimentar as cadeias televisivas.
O ministro Morais Sarmento não percebeu que a televisão representa o mais poderoso instrumento de divulgação cultural e entendeu apenas a sua condição de principal aparelho ideológico do Estado. Daí que, a certa altura, se deu ao desplante de afirmar que o Estado o devia controlar inteiramente, porque "os jornalistas não vão a votos".
E a verdade é que não desistiu da ideia: basta olhar os telejornais da RTP 1 e perceber as manobras com alguns programas, que podem ser considerados incómodos para o actual poder, como é o "Contra-Informação", um caso raro e notável de sobrevivência perante os ataques demolidores do ministro Sarmento às pequenas e médias empresas de audiovisual.

A Televisão do Nosso Descontentamento - Informação

As políticas de "grande esforço e inovação", levadas a cabo pelo sr. ministro M. Sarmento não tiveram efeitos apenas na RTP, a instituição que ele tutela directamente. No seu conjunto, a Televisão Portuguesa, pertencendo a um País Europeu, membro de pleno direito da União Europeia, de cultura e modo de vida europeus, pode classificar-se dentro de um modelo misto de latino-americano e de canal local americano, mas nunca uma Televisão de modelo europeu.
Analisemos em primeiro lugar, o que se faz em matéria de informação e sem falarmos das trapalhadas que se fazem com as mensagens de órgãos de soberania, por exemplo do Presidente da República ou do Primeiro Ministro, que, normalmente, aparecem a meio dos jornais, comentadas pelos jornalistas de serviço, enquadradas por oráculos de frases soltas, retiradas do contexto, tudo num cenário de feira a que não faltam as notícias de rodapé, sobre matérias que nada têm a ver com a comunicação emitida.
Em nenhuma televisão europeia, notícias de relevante importância nacional são preteridas a favor de informações locais, de interesse duvidoso, numa sucessão noticiosa sem critérios, nem objectivos, sem discernimento nem equilíbrio. Dir-se-ia que, em Portugal, só acontecem faits-divers, desastres, roubos, crimes, violações, assaltos...
É degradante a imagem que os diversos noticiários nacionais dão do País e do Povo Português. Ao relato e análise dos factos prefere-se o comentário especulativo, a informação converte-se em espectáculo: o "vizinho", o "morador", a "turista" e a "testemunha" são o novel critério jornalístico; o jornalista é a "notícia", a "notícia" é uma inimaginável sucessão de banalidades, uma feira de vaidades, pessoais e profissionais, onde a classe política no poder ganhou especial protagonismo.
O falso "volume de informação" criado neste sistema comum aos canais portugueses esconde uma outra realidade, que decorre da profunda fragilidade e incapacidade das diversas direcções de informação, da televisão pública e privadas, que não lhes permitem produzir nenhum bloco noticios sério ou qualquer magazine de informação especializado.
A Televisão Portuguesa interessa-se pouco pelo que, de concreto e capital, se passa no território nacional, despreza, soberanamente, o que ocorre no estrangeiro, sobretudo se a realidade ultrapassa a sua capacidade de compreensão imediata, se a notícia não arrasta o drama, a tragédia ou a vulgaridade e se não chegar pelo sistema diário de troca de informações televisivas internacionais (EVN's).
Este panorama é o resultado das políticas desenvolvidas pelo sr. ministro M. Sarmento, a quem aconselho a não sair daí... porque, lá mais para a frente, vou explicar-lhe porquê.


A RTP Do Nosso Descontentamento III

RTP INTERNACIONAL E ÁFRICA

Na sua política de esforço e inovação, M Sarmento não conseguiu descobir algo para que não era necessário nenhum esforço: a existência de uma RTP África, ao mesmo tempo que uma RTP Internacional é uma aberração. Não faz qualquer sentido fora de um quadro de actuação definido por preocupações neo-coloniais, eu diria mesmo, racistas.
Isto é, a RTP Internacional é para brancos e a RTP África é para negros.
As preocupações, legítimas, de o Estado português utilizar os meios de comunicação social para, por um lado, comunicar com os seus cidadãos espalhados pelo Mundo e, por outro, fazer a defesa dos seus valores culturais junto de comunidades que os partilharam durante séculos e, em alguns casos, ainda partilham, têm que corresponder à elaboração e execução de políticas rigorosas.
A RTP Internacional deverá ser dirigida igualmente para África, sem uma designação específica, mas tendo em atenção as peculariedades das sociedades que ocupam os vários espaços a que se dirigem as suas emissões. Assim, se uma edição para África da RTP Internacional, não deve ter os mesmos conteúdos dos programas destinados a França, estes não podem ser iguais aos que são vistos no Canadá ou nos Estados Unidos, ou no Brasil.
Esta concepção valoriza, de facto, a posição de Portugal no Mundo, mas implica investimentos. Desde logo na investigação das correntes emigratórias nacionais, nas suas várias componentes e na dotação dos departamentos responsáveis por estas emissões de gente qualificada para orientar antenas e programações para públicos eterogénos, mas com uma raíz comum.
A RTP não tem que juntar às suas emissões internacionais produtos que não correspondam a um perfil definido pela preocupação de fazer de cada minuto de televisão transmitido para o estrangeiro um tijolo na construção de uma comunidade respeitada, coesa, culturalmente avançada, com um passado contribuinte indispensável para o Mundo de hoje - uma comunidade que a todos respeita, mas que exige ser respeitada.
Não é essa a ideia que ressalta dos inquéritos, não comprovados cientificamente, mas possíveis graças à troca de ideias que a actual globalização das comunicações vai permitindo.
De resto, para comprovar a desgraçada qualidade das emissões da RTP Internacional e África basta recordar as palavras de um emigrante canadiano, proferidas há pouco tempo, em directo: "não somos só nós que já não vemos a RTP Internacional e África, tudo faremos para que os povos que nos acolheram também não as vejam, porque o País e o Povo que nos dão a conhecer não condiz com a realidade que apreciamos".
Ora aí está, sr. ministro, o resultado da sua política de "tanto esforço e inovação".

A RTP Do Nosso Descontentamento II

O CANAL 2 E A SOCIEDADE CIVIL

Um dos grandes cavalos de batalha do ministro M. Sarmento, na sua política de "grande esforço e inovação", uma adjectivação repetida por ele próprio sempre que tem oportunidade, foi a seguida com a RTP 2, "entregue à sociedade civil".
Esta "entrega" foi a maior mistificação da tal política, já que esta sociedade civil, a que foi entregue o Canal 2, não existe. As instituições que se associaram a este projecto e se constituiram como "parceiros" do canal, que patrocinam uma parte dos programas emitidos, são, na sua maioria, organismos, organizações e empresas , fundações, associações, alimentados por capitais públicos.
Para além dos capitais públicos têm outra característica comum: não têm vocação para produzir, realizar, programar, ou mesmo controlar a produção de programas de televisão. Acrescente-se que, em alguns casos, a contribuição dada ao canal 2, no panorama da tal sociedade civil, tem apenas a ver com "pequenas vaidades pessoais" dos respectivos dirigentes.
As consequências são o que se vê: quando a proclamada sociedade civil ocupa a Antena, sucedem-se os programas sem qualidade técnica, estética, artística, numa confrangedora pobreza de conteúdos e de formatos, a que a direcção do canal parece não querer nem poder pôr fim.
É que aquelas são horas preenchidas com programas entregues, para emissão, a custo zero ou tão baixo que tornam impossível a mínima exigência.
Aliás, à parte os programas produzidos pela RTP Meios, e que em nada se distinguem das piores produções externas, não existe nenhum controlo de qualidade dos programas apresentados, já que os "parceiros" do canal escolhem, soberanamente, as empresas produtoras dos seus "produtos televisivos".
Esta falta de controlo deu origem ao aparecimento das chamadas empresas de vão de escada, produtores completamente desconhecidas até agora e que são escolhidas pelos parceiros do canal para produzir e realizar a baixa qualidade que caracteriza o actual canal 2.
Em conclusão: o orçamento de Estado continua a pagar dois canais de televisão, com duas diferenças importantes: a factura do canal dois é dividida em múltiplas contas, algumas das quais não contribuem, seguramente, para o objectivo estabelecido e, ao mesmo tempo, o Estado alienou o controlo da qualidade de grande parte da grelha de emissão daquele canal.

terça-feira, março 22, 2005

Recapitulação I

Ao longo dos meses - sem quase dar pelos dias a correr - fui escrevendo as minhas impressões sobre o que ia acontecendo à minha volta, sobretudo nop domínio da política. Alguns dos textos, entretanto sobrepostos por outros demonstram-me, agora, que há impress~~oes que valem a pena ser lidas. Deixo hoje alguns exemplos.

O primeiro tem a ver com o desastre PSD/CDS e alguns dos seus anúncios mais evidentes.

O Estado-Empresa ( 10 DEZ 04)

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Problema para netos resolverem (14 DEZ 04)
Quando toda a gente imaginava que o anedotário nacional acabara, eis que os dois se reunem no Ritz e, com toda a pompa e circunstância, anunciam a festa do divórcio. Só não se sabe onde foram passar a lua de mel. Vão regressar em breve ao casamento - a sério - para ralhar um com o outro. Novo casamento entre as respectivas famílias só já entre netos. Nessa altura espera-se que haja netas para a cerimónia.
São apenas conjecturas sugeridas por esta opereta a que temos assistido, com um final anunciado: no palco vai entrar um taxi para levar os deputados do PP ao Parlamento, já que vai ser necessário poupar para pagar as obras do Caldas. Paulo Portas recusar-se-á entrar.No mesmo plano e mesma cena, ainda mais torto do que tem aparecido nos últimos dias, mais vergado e mais coitadinho, Santana Lopes sairá pela porta das traseiras para não ser visto pela multidão dos seus até agora apaniguados. Sem saber para onde ir, acabará, seguramente, por ser acolhido na Quinta, em grande festividade.

Castração (30DEZ04)

A palavra castração é exacta para descrever o actual estado PSD. É espantoso como um partido que sempre soube reagir perante a possibilidade de chegar ao poder ficou parado frente à grande probabilidade de o perder.
Toda a gente perde muito tempo com Santana Lopes. Nos jornais, nas rádios nas televisões, os comentadores encartados e desencartados. Por mim, já escrevi aqui que Santana Lopes, felizmente para o país, é um problema do PSD. Todavia, quando tal escrevi ainda tinha a esperança de ver o PSD reagir e encontrar uma solução que lhe permitisse recuperar alguns dos estragos provocados pela sandice de Santana Lopes e da sua equipa.
Passado algum tempo, concluo que o PSD está mesmo manietado, sem capacidade de recuperação com toda a gente, no partido, a confiar numa coisa espantosa: na capacidade de "combate" do Pedro. Francamente! o homem até a ler os papéis que lhe dão se engasga... E quando fala de improviso só lhe vem lixo à boca!
Os profissionais do marketing político não fazem milagres e alguns, de tanto se esforçarem, acabam mesmo por conseguir os efeitos contrários ao que programaram.
Este PSD está mesmo castrado e isso não é bom para a democracia portuguesa, até porque, depois das eleições, os ajustes de contas não vão ser rápidos. Santana Lopes não é o único responsável. Quem o deixou chegar à liderança também vai ser julgado. Por quem? haverá gente limpa neste processo de destruição de uma força política com a história do PSD?

VELHA PÁSCOA, VELHO VIVER

Todos os anos os judeus comemoram a sua saída do Egipto. Por todos esses mesmos anos os egípcios ignoram essa mesma saída. É coisa que nem consta da sua história, salvo erro, em absoluto. Talvez então que a história continue a ser o que cada um quer que seja, assim como para cada escrevinhador semanal a história da semana seja o que ele quer que seja.
Assim:
O tempo de julgar
Foi notícia dos últimos dias. Pequenina porque dos fracos não reza a história. Mas por cá sabe-se que se juntou em Lisboa um Tribunal Mundial Sobre o Iraque, o qual pretendeu julgar os responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque.
Um julgamento que pretende ser moral num mundo seguramente sem moral. Na prática acto nulo. Que aliás já foi feito há muito tempo. Os povos falaram do Japão à Inglaterra. A política, no entanto, não quis formalizar essa voz. E menos escrutinar resultados. No fundo, a malta barafustou e pronto.
Depois aconteceram os mortos, os feridos, os desaparecidos, a fome, as destruições e também pronto: entrou-se no politicamente correcto, que é o salvar a face da força. Irresponsabilizá-los. Nem há outra saída airosa do atoleiro por causa dos efeitos colaterais duma barrela ao acontecido.
Um verdadeiro julgamento dos invasores e ocupantes, porém, fê-lo a natureza. Em poucas horas conseguiu o que eles não conseguiram em dois anos. Puseram o Iraque a arder e os iraquianos a matar-se uns aos outros, mas mais nada que se saiba. Agora, o maremoto matou 250.000 duma assentada enquanto os outros, ao que consta, ainda não chegaram a 150.000. E com ajudas, com palavras mansas, com a invocação de novas amizades. Na verdade uma vergonha para quem se julgava dono do mundo e nem em dois anos dominou o Iraque. Se a tivessem.
Soubessem eles perceber-se na força que não têm. Ensinem-lhes isso, já que inteligência para se perceberem por si também não. Seria mais útil que proferir sentenças sem força para as executar.
Os vice-versa
Pela originalidade, os dois mais notáveis cronistas portugueses serão Marcelo Rebelo de Sousa e Pulido Valente. O primeiro porque discursa para os apartes (atenção para quando os diz, por vezes é só isso que quer dizer) ; e o segundo porque é um cronista figadal. Depende do lado para que tem a víscera virada.
Originais de facto.
Serão uma espécie de vice-versa. Não porque sejam o avesso do outro, mas porque em originalidade são duas das faces da qualidade. Portanto um nem-vice e outro nem-versa. Mas mais ou menos do mesmo cobril. Cronistas navegando com uma costa à vista e duas intenções no mastro.
O nem-vice
De Rebelo de Sousa a história há de registar o elogio que ofereceu a Mourinho, com reparo à irreverência que este demonstra.
Foi reparo e lembra-lhe que, lá por ser génio, não se lhe pode permitir tudo. Logo a seguir veio o aparte, o importante em suma, que dizia mais ou menos assim:
eu quando era jovem e bom aluno, quer-se dizer, quando ainda não professor universitário, também fui rebelde. Comparou-se a Mourinho, portanto.
Mas não se disse génio, comparou-se só.
Genial aparte, convenhamos.
O nem-versa
Agora o figadal Pulido Valente. Há dias deu-lhe para escrever o que se segue:
Em França, o antiamericanismo( leia-se antinorteamericanismo) e, subsidiariamente, o ódio à Inglaterra continua a ser o fundamento da ortodoxia de Estado. Uma ortodoxia, que, de resto, a França comunicou à "Europa" (ou, no mínimo, às "velha Europa" que não sofreu o comunismo) e que ameaça hoje dividir o Ocidente.
A coisa não está mal pensada de todo. A França tem realmente a mania. E quem estudou por livros seus pode chegar à conclusão de que os franceses também: corre-lhes a presunção nas veias. Nem é preciso lembrar De Gaulle, como costuma fazer-se.
Contudo, o ódio a um poder imperial não é exclusivo dos franceses, que de imperadores parece que só gostam de Napoleão. Há antinorteamericanistas que nem de Napoleão gostam.
Todos os imperialistas, desde antes de Átila a depois de Mussolini, foram odiados.
Serve de exemplo o povo português (o povo, não os senhores de conveniências privadas nem as madames que fizeram boa cama a generais e outros que tais da manada napoleónica que ocupou Portugal), o qual, não obstante os brandos costumes, logo que se sentiu capaz, ofereceu aos franceses o tormento duma vida negra.
Instigado por padres que arregaçaram as batinas e acirrado por suas mulheres, obrigaram-nos a passar as passas do Algarve.
Claro que também houve os militares, os heróis e os ingleses que faziam do antifrancesismo ortodoxia de Estado. Houve esses, sem dúvida. Mas o povo, sem ortodoxia, tratou-os abaixo de cão.
Pulido Valente, que julgo ser historiador, se durar o tempo necessário, ainda há de rir com o que o Asterix vai fazer a Bush quando resolver deixar César e os romanos em paz. Caso, evidentemente, a catadura figadal lhe consentir que a inteligência sorria.

Cinema

Maria José Nogueira Pinto, um dia destes, em entrevista à Dois e à Rádio Renascença, quando lhe pediram uma palavra para definir Paulo Portas: Cinema.
Já naquela altura fiquei espantado com a inteligência da Provedora da Santa Casa da Misericórdia. De facto, PP está permanentemente frente a uma câmara imaginária para quem representa os mais variados papéis.
Para Paulo Portas, todavia, o cinema não passa por todos aqueles processos complexos de gravação, montagem (edição como se diz agora), etc. Não, para ele o cinema já está na tela com espectadores na sala- de preferência a bater palmas.
Foi o que aconteceu hoje, no Parlamento, com aquela sandice sobre a necessidade de José Sócrates corrigir o ministro dos negócios dos estrangeiros, Freitas do Amaral.
Disse tudo aquilo à espera do aplauso da sua claque, que, de resto, conhecia o teor da comunicação que o líder demissionário ia proferir. Todos se divertiam à grande e trocavam olhares cúmplices.
Hoje percebi melhor a palavra Cinema como definição de Paulo Portas. É um cinema de paranóico, de homem transtornado a precisar da chamada "ajuda profissional".

segunda-feira, março 21, 2005

Por morrer uma andorinha

Eram dois polícias jovens. Iam de serviço. Morreram.
Ainda ontem tinha decidido não ser oportuno escrever sobre o assunto. Por respeito. Mas, hoje, porque a indignação é muito grande não deixo esquecer. Tê-lo-ia feito ontem mesmo se tivesse sabido da missa a metade. A metade reles do país que somos. Mas a morte dos dois infelizes agentes não é tanto da responsabilidades dos governantes (de todos os dos últimos governos), como do comando-geral das polícias. Mais destes do que daqueles, sem que a responsabilidade não deixe por isso de ser dividida por igual.
O país ser indigente tem servido de desculpa para muita coisa, mas não justifica, porque nada pode justificar, não haver coletes à prova de bala suficientes para os diferentes tipos de emergência. E quanto mais elevado na hierarquia mais responsável. Não há desculpa. Adquirir umas centenas de coletes não terá significado, ainda não é por aqui que começa a miséria.
Pode parecer mais compreensível a ausência de meios operativos blindados, mas não sei se o seja.
Este governo, acabadinho de chegar, não terá culpa, se bem que alguns dos senhores ministros
já participaram noutros executivos anteriormente e com alguma responsabilidade na matéria.
Não que devam sentir mais culpa que tantos outros que os antecederam ou lhes sucederam.
Penso que não basta um qualquer minuto de silêncio para aliviar as consciências.
Como não bastará, só por si, abrir concursos expeditos para aquisição de viaturas blindadas, haverá talvez por aí algumas sem uso adequado, ou montadas e alinhavadas em unidades fabris extrapoladas ou em vias de...
Nem bastará ir aos saldos comprar os coletes da vergonha.
Não, não basta. É preciso apontar responsáveis, reconhecer responsabilidades, e limpar o prestígio dos organismos públicos de segurança. Quantos ministraram no sector nos últimos anos e quantos quadros chefiaram as forças da ordem pública, todos, sem excepção ,deverão ser afastados, com censura ou sem ela, de cargos públicos.
O mais provável, contudo, é que a culpa acabe por morrer solteira. Se assim for, acabará por afectar as prometidas reformas. ..

Faço-me Entender?

A SIC-Notícias, um fenómeno, se considerado sob vários pontos de observação, mantém um programa, que é um remake de uma edição radiofónica da TSF - nos tempos em que esta foi inovadora . Manteve ao longo dos anos os mesmos intervenientes, com ligeiras alterações, à direita.
Havia, até à última semana três totalistas: Pacheco Pereira, José Magalhães e Carlos Andrade.
A "Quadratura do Círculo" é uma aberração. Desde logo porque dá voz a Pacheco Pereira, que nos entusiasma quando parece ter-se libertado da política partidária, mas que fica corno, a sério, quando perde. Depois porque reduz o Carlos Andrade a uma espécie de imitador do Pacheco Pereira, sem coragem para defender as suas próprias ideias, a fazer o papel idiota do jornalista isento, que já não existe, e não foi imaginado para o original daquele programa.
José Magalhães, agora secretário (ou sub) de uma coisa qualquer, foi sempre, naquele programa, ora o cepo das marradas do corno, ora o palhaço que divertia os representantes da outra direita - sem complexos de alguma vez terem pertencido a correntes de pensamento preocupadas com as pessoas.
Eis que José Magalhães cumpre o destino e é substituído por Jorge Coelho.
Porquê Jorge Coelho?- perguntam-se as pessoas que ali o veêm.
Eu cá também não sei.
Cap.II
O Contra-informação, outro programa de televisão ( no canal público), talvez com outra lógica, parece vender bonecos (agora o Expresso anunciou que o "barão" Miguel vai aparecer e há já gente a perguntar quanto é que o barão - PT - pagou pelo cast) mantém Jorge Coelho como figura de primerio plano no elenco. A que propósito?
Oh! Mafalda! o Jorginho foi varrido. Não tem papel.
O que significa tudo isto?
Que o Jorge Coelho transferiu do governo de Guterres a força necessária para manter as dúvidas quanto à sua capacidade de influenciar o que quer que seja?
Eu não gostaria de responder - doutro modo teria que explicar os "boatos" que dão como certo o Murteira Nabo na presidência da GALP.
Faço-me entender?
Por que razão estes negócios e estas razões são, em Portugal, tão claros?

quinta-feira, março 17, 2005

Mercado alucinado

Alucinado devo estar eu, não o mercado,que eu queria marcado.
Bom! Vamos por outro lado. Ainda recentemente li por aqui uma citação poética muito bonita:
"...uma bola colorida entre as mãos (...)"
E fica-se a sonhar com imagens bonitas, à espera de reconhecer que "o mundo pula e avança".
Mas ou é impressão minha ou o homem anda a sonhar demais e o mundo fica indeciso entre pular e zarpar.
Como os leitores estão fartos de saber a farmácia da aldeia é uma instituição. Na minha, o farmaceutico é um pacholão. Além de saber, ao pormenor, a vida de toda a gente da redondeza,
cuida dos clientes sem cobrar pelo uso da seringa ou de medir a tensão. E, de repente, ficou tão atarefado que nem visto. Mudou as prateleiras, empurrou o balcão, alargou uma portade forma a ter-se acesso a outra sala.
Espantei-me e perguntei-lhe o que é que se estava a passar. Ele explicou que estava a preparar-se para as novas regras de mercado. Tencionava alargar o negócio e vender produtos hegiénicos e dietéticos que não exijam prescrição médica. E mostrou-se um canto onde vai vender vinho alentejano a copo, Cerveja também vai vender, mas só muitro gelada. Vai ter, também, outros produtos de dieta especial, como presunto de Chaves, morcela das Beiras e alguns enchidos de Mirandela. Whisky, também, mas apenas escocês.
- E daquele outro lado do balcão? - perguntei.
- Oh!, ali vai ser a agência de viagens! - E sem ligar a minha cara de pasmo, prosseguiu: - Vamos organizar viagems a Badajoz e à Suiça, para os casos de interrupção voluntária... Na outra sala, ali, vamos vender bilhetes prá Bola...
Eu abanei a cabeça cheio de compreensão pelas modernices e perguntei-lhe em que canto eu podia levar a injecção semanal. Ele abanou a cabeça:
- Oh!, menino, isso não. Uma farmácia não pode servir para tudo... Ali o vizinho do talho tem sala vaga e vai vender injecções, dar massagens e tratar das artroses...

Cabo Verde Na União Europeia

Hoje, dois dos chamados "monstros" da política portuguesa juntaram-se para defender, cada um a seu modo e pelas suas razões um projecto que a muitos poderá parecer louco: a adesão de Cabo Verde à União Europeia:

(ora, aqui está um tema que a Comunicação Social portuguesa bem poderia ter destacado nos seus noticiários - e até não custaria muito dinheiro; é apenas uma questão de atenção, cultura, informação...e pouco mais)

Mário Soares e Adriano Moreira (ou ao contrário, a ordem dos factores é arbitrária) lançaram na Sociedade de Geografia de Lisboa a ideia: Cabo Verde é um país independente, regido por um sistema político democrático, governado por um Estado que pode considerar-se uma pessoa de bem, onde são respeitados os valores fundamentais das liberdades política, religiosa, de oportunidade e todas as outras e, além disso, depositário dos valores mais importantes da civilização europeia.

Cabo Verde - acrescentaram os defensores do projecto - representa a extensão da Europa no Atlântico Sul, onde a sua posição estratégica é fundamental para a Europa no seu todo ( se não disseram isto foi porque se esqueceram) - logo, a Europa e os próprios cabo-verdianos devem preparar-se para este casamento em que toda a gente ganha.

Só me resta uma curiosidade: por que espera o Governo de Cabo Verde, chefiado por um homem, em tempos classificado como "o futuro de CaboVerde", para lançar uma verdadeira campanha de mobilização do país para atingir este objectivo proposto por dois verdadeiros senadores europeus?

Proponho um slogan: "Por Amor à Nossa Gente, Queremos A Europa Connosco".

Então, Zé Maria, esperamos, ou arrancamos? Olha o Renato gingando, enquanto fala: "nós também somos europeus..."
Ficar amarrado a atavismos em nome de pruridos ideológicos ou a medos de solidariedades impossíveis não resolve problemas.

Cá Se Fazem Cá Se Pagam

De vez en quando acontece: algém divulga números e estabelece tabelas (os media dizem "rankings") . Hoje foi a vez de hierarquizar a valoração que os vários povos dão - ou não dão - aos e(i)migrantes.
O lugar de Portugal é uma vergonha. Só os gregos são mais xenófobos e racistas que nós. Todos os jornais, rádios e televisões o repetem, à falta de verbas para assuntos próprios nas respectivas agendas.
Espantados?
De que se espantam?
Os portugueses nunca respeitaram ou admirararm os seus próprios emigrantes - pelo contrário, sempre os invejaram , exploraram e vilipendiaram. Por que razão haveriam de respeitar os imigrantes, de quem têm medo? Um medo explicado apenas pela diferença...
É tempo de deixar cair o mito: não somos um povo não racista, nem acolhedor para quem precisa de nós. Apenas sabemos ser subservientes, afáveis e simpáticos para quem nos usa.
Esperavam o quê dos números, uma máscara?
Cá se fazem, cá se pagam.

quarta-feira, março 16, 2005

"As Terríveis Questões" Portuguesas

Dois Jornalistas- ainda os há, e dos que não abdicaram da função mais nobre do jornalismo, opinar - na edição de hoje do "Público" tratam, cada um à sua maneira, a questão da confiança da sociedade portuguesa.
Tereza de Sousa, pelo seu lado, e muito bem - em texto que seria um ponto de partida excelente para a discussão da natureza do poder que nos rege, da sua fundamentação e legitimação - verbera o facto de o Estado, na sua versão mais visível, a Administração, tratar o cidadão comum como gente que não merece confiança, passando-lhe, permanentemente, "um atestado de menoridade.
A articulista demonstra, exemplificando, que essa desconfiança sistemática não é apenas uma manifestação de menor respeito pelos direitos dos cidadãos, mas também se traduz em prejuizos para todos nós. A conclusão deste texto pode ser a de que valeria a pena tentar uma administração baseada na confiança e assente no princípio de que cada cidadão é uma pessoa de bem, contrapondo às excepções pesadas punições legais.
Pelo seu lado, José Vitor Malheiros analisa o discurso de tomada de posse de José Sócrates, acompanha os vários raciocínios tornados públicos sobre a nomeação de Freitas do Amaral como ministro dos negócios estrangeiros, acabando por desvalorizar a argumentação que se lhe opôs e debruça-se, igualmente, sobre a medida concreta apresentada pelo primeiro-ministro quanto à venda livre de medicamentos não sujeitos a receita médica.
Malheiros concorda e desmonta os argumentos falaciosos daqueles que se opoêm à medida.
Todavia, no final do texto, num ponto 3, Vitor Malheiros levanta aquilo que considera "uma terrível questão" que é a de saber se estas decisões de Sócrates indicam "sinais de uma vontade ao serviço de uma estratégia (qual?)" ou não passam de "gestos avulsos apenas decididos pelo desejo de marcar agenda mediática, surpreender o homem da rua, entreter os comentadores e gerir o status quo".
Este é o outro lado da nossa marca cultural: a desconfiança dos cidadãos em relação a quem exerce o poder.
Um desconfiança que, obviamente, tem um preço a pagar também pelos cidadãos, porque esta desconfiança sistemática em relação aos agentes políticos, em vez de os punir desresponsabiliza-os.

terça-feira, março 15, 2005

SINAIS?

Nem é de agora. Houve tempo que aconteceu várias vezes com Mário Soares. O então primeiro ministro saía para o estrangeiro e atribuía às dificuldades no linguajar estrangeiro algumas da gafes que cometeu. O Jornal Novo tinha para ele um ante-título especial: "Mário Soares disse que não disse". Seguia-se a notícia invariavelmente a desmentir a afirmação produzida. Quando Freitas do Amaral, na sua qualidade de cidadão que carregava uma conotação política que manifestamente já não perfilhava, disse o que disse sobre Bush, não foi nada que não tivese sido já ou dito ou insinuado por muitas e distintas personalidades de vários quadrantes de vários países. O que disseram ficou dito. O que fizeram depois, e o que têm estado a fazer é lá com eles. Já não dizem o que disseram e dão-se palmadinhas nas costas.
E a guerra no Iraque deu no que deu e falta saber ainda no que vai dar.
Seja dito que nenhum deles se desdisse. Deitaram para trás das costas e toca a confraternizar. Menos Aznar, que caiu; menos Durão, que zarpou.
Se não tivesse dito o que disse, Freitas do Amaral possivelmente não seria hoje o ministro que é.
É a partir dessa tirada que ele claramente se demarcou de Portas e do resto da Direita. Fosse ou já não fosse, ele, de Direita, desviava-se da posição do governo. A sua postura relacionada com as eleições que se seguiram, o sinal de voto, era o ponto final parágrafo.
A tentativa de desmentir é um sinal, um mau sinal. É uma brecha no habituem-se que Vitorino em boa hora decretou. O incómodo não se apaga com fraquezas. Os ministros não devem esquecer que não foram eleitos para quatro anos. Freitas disse que não disse é capaz de ser um mau começo...

segunda-feira, março 14, 2005

O JOGO DAS CONVENIÊNCIAS

Usa dizer-ser que o jornalismo é o espelho das sociedades modernas. Em Portugal ultrapassou-se esse dizer. O jornalismo foi o espelho das trapalhadas. Não todas de Santana porque ele, o trapalhão-mor, herdou algumas.
Delgado/Durão/Belmiro
Luís Delgado foi homem que atingiu súbita projecção, um autêntico estrelato, com a poderosa investida de Durão Barroso pela direita reaccionária internacional. Cá dentro maneteve-se nem-peixe-nem-carne, um habilidoso de pouca habilidade de confundir a social-democracia com o populismo, munido no entanto do supremo talento de se mudar como pedra de xadrez no momento exacto. E assim foi mudando desde a extrema-esquerda por caminhos que o levaram da modéstia do folclorismo político a gorda renda mensal.
E a bem da pátria! O que lhe dá vantagem, se um dia chegar a mais rico que Belmiro de Azevedo, não ter de suportar a invejosa auréola que coroa o já ar de suficiência com que o opolento cavalheiro de indústria fala de cátedra, ensinando aos governantes o que devem ou não devem fazer. Ele que chegou a hoje depois de largo tempo de comedimento político. Homem de fala modesta e serena.
O falar da conveniência, que muda em tempo de mudança. O susto de Abril já lá vai. Corram-se as imagens do conversar dos homens de negócios a ver como são outros. Também Barroso é outro, mesmo sem contar com o patriotismo, a tal vantagem. Ele partiu de trauliteiro para conveniência de maior respeito: a de menos traulitar e mais compostura. A da contenção. Ou seja, a mesma conveniência dos cavalheiros de indústrias, mas de sentido inverso.
Ora, foi neste entreacto barrosista, já com paz nas aldeias e cada um a falar no tom do seu interesse, que Luís Delgado floriu.
Delgado/Santana
Mas se floriu com Barroso foi com Santana que atingiu o apogeu. O senhor, que de ignorado colunista do DIÁRIO DE NOTÍCIAS (jornalista de carteira profissional todavia, na realidade, um falta-de-jeito notável), havia subido a administrador-delegado da LUSA, mas com Pedro no poder foi mandado administrar nem mais nem menos que a LUSOMUNDO. O que juntou às funções de comentador político, de entrevistado, de objecto de crónicas, pessoa quase tão importante como o Cristiano Ronaldo. Apto a figurar na Quinta das Celebridades.
E inchou. Quis ser como o Belmiro. Propôs-se a comprador da LUSOMUNDO inteira.
Para quê e para quem?
Para o mau ajuntador de letras que é, seria como que chegar ao céu à velocidade da luz.
Mas com que dinheiro? De quem o dinheiro? Para quem o negócio?
Se Almada Negreiros tivesse alma...
Se tivesse já cá estava ela. A apontar os que, pior que Dantas, cheiravam mal da boca. Pim!
A gritar contra o salvador Oliveira que acabou por ficar com o negócio da LUSOMUNDO logo que despediram o Pedro Santana, à sombra do qual manobrava, dizem, Morais Sarmento com não se sabe bem que interesses e interessados da PT, dizem também. Desconfia-se.
Para aumentar a confusão garante-se, de vários lados, que o negócio é obscuro e, doutro, que a suposta traficância é transparente.
E com boa vontade até é possível achar que um Oliveira de escassas letras esteja interessado, assim a seco, no DN, no JN, na TSF, no 24 e no resto do abecedário lusomundista. A alma do Almada é que não ia nessa. No seu entender, Júlio Dantas, o director do DN que lhe cheirava mal da boca, era um balofo, um cerimonioso, um petulante, um gongórico vazio, mas lavava os dentes. Contudo, dessa gente, agora metida e a meter-se nos jornais e telefonias, queria saber de onde lhes vinha o cheiro. Dúvida que lhe atazanava a sua ainda mania da higiene.
Cadê a inteligência?
Num programa da emissora oficial, Luís Delgado não agoirou bom governo a Augusto Santos Silva porque, esclareceu, o hoje ministro escreveu sobre a sua qualidade jornalística coisas como se fosse Maomé a falar do toucinho.
E rematou o seu mau-agoirar com um sentido reparo de onde constou um "ele nem me conhece!".
Mas quem é que, em Portugal, não conhece um cronista que anda nu pelo meio das letras que escreve, um comentarista radiofónico e televisivo que se despe em cada palavra que profere?
Como prova de escassa inteligência é difícil conceber-se outra mais significativa.

YES MEN

Comecei a profissão não por ser especialmente dotado, mas porque quem precisa segura a primeira oportunidade. Um amigo, dos que aparecia amiude pelo Gelo, trabalhava na ANI e como bom comuna que era, acreditava que a maneira socialmente correcta de ajudar um próximo era arranjar-lhe trabalho. Influenciou o chefe de turno e eu lá fui fazer uma prova. A prova foi péssima, mas na apreciação o homem foi simpático e sublinhou que embora o texto produzido fosse satisfatório não revelava poder de síntese, além de excessiva lentidão dactilográfica. De facto, não sabia escrever à máquina e como se não bastasse o teclado não começava por azert, o que me baralhou os dois únicos dedos com os quais me ia ( e ainda vou)
desenrascando.
Aproveitei outro amigo, que tinha um biscate na Reuter e tentei a chance. Arranjaram-me umas horas nocturnas para substituir um que estava doente. Nos diferentes turnos havia sempre alguém que precisava de se baldar. Estava por lá quando foi a aventura do Santa Maria. A maior parte dos telexes era censurada, cortada na totalidade ou rasurada. Eu levava alegremente para o Gelo cópias dos telexes cortados e algumas vezes fotocópias dos telexes da censura.
Não levou tempo a que a PIDE colocasse um par de agentes à porta, primeiro da ANI, depois na Reuter e na FP.
A Reuter funcionava naquela altura na Rua do Telhal, num 2º andar. Amarrotava os telexes e
despejava-os pela janela, para a rua. Naqueles tempos ainda não eramos viciados na ecologia urbana. Quando saía, um dos agentes perguntava-me se eu levava alguma cópia de telegrama e eu, além de negar, levantava candidamente os braços. Só três vezes fui revistado e só uma me exigiram que baixasse as calças, mas verdade se diga que não me pediram para baixar mais nada...
E quando chegava à rua era só andar aos papeis e zarpar para o Gelo...

Outra memória (e não é só a RTP que tem memória) tem a ver com um período eleitoral.
A UN era pronta a enviar às agências informação sobre as diferentes actividades eleitorais, relativa à parte que lhe competia. Onde como e quem participava nos comícios. Habitualmente com dois ou três dias de antecedência. Perfeitos luxos. Um deles, que melhor retive, não só transcrevia os discursos que iriam ser lidos, como sublinhava entre parentesis, as frases aplaudidas (muito aplaudidas) , ou mesmo com estrondosas salvas de palmas. A parte divertida foi que um desses apaludidos oradores não pode comparecer no comício e um dos jornais transcreveu a notícia, incluindo os sublinhados...
De repente comecei a notar muitos comentários sobre o novo governo e até sobre o discurso do primeiro ministro e sem perceber porquê comecei a lembrar-me dos velhos tempos. Comoveu-me que o senhor que não gostou de ser ministro tenha aderido muito jovem, ainda adolescente, ao partido, onde ainda se mantém e não estavam sequer a falar de outro muito diferente. Falavam simplesmente dele e da sua voluntária ausência do executivo. Foi ele que falou dos pais e dos avós, e com ironia sublinhou o contraditório no seio familiar, lembrando que os avós haviam sido pró-salazaristas. A minha avó, costureira, que trabalhava de Sol a Sol, também era, se bem que eu, ainda adolescente, não era capaz de perceber, mas também aprendi a entender, mais do que a ser indulgente. Em todo o caso, optei por uma crónica vazia de presente. Como o poeta, apetece-me dizer "para onde vou não sei/ sei que não vou por aí" ...

domingo, março 13, 2005

Oposição Pela Oposição

Logo a seguir à tomada de posse do XVII Governo Constitucional teci algumas considerações sobre os discursos e o enquadramento da cerimónia. Depois ouvi as reacções, sobretudo ao discurso de Sócrates. As Rádios começaram, logo, logo, pelas reacções das corporações farmacêuticas. Lá mais para a tarde aparecereram outras instituições a defender as propostas de Sócrates.

Parece-me óbvio que a venda livre de medicamentos não carecidos de receita médica não tem discussão: pode ser feita em qualquer estabeleciemento comercial, desde que tenha licença - e isso significa pagar impostos - e condições técnicas para o efeito.

Manter a actual situação é pactuar com um enquadramento legal quase do século XIX. Assim como a legislação que obriga a que as Farmácias tenham, necessariamente, que pertencer a licenciados em Farmácia. Essas e outras...

Tudo parece poder vir a ser resolvido com um governo socialista, disposto a afrontar os grupos de interesses, os tais poderosos que possibilitam o aumento exponencial do número de multibilionários, quase na mesma progressão do crescimento da pobreza no Mundo.

O que me espanta é a posição do Bloco de Esquerda - que, disposto a aceitar a despenalização das chamadas drogas leves, cujos efeitos podem ser mortais ( a canabis, por exemplo, tem efeitos vasoconstritores e, por isso, matar pessoas com problemas de coronárias obstruídas ), numa primeira declaração entende que a venda de medicamentos que não obrigam a receita médica em estabelecimentos que não Farmácias deve ser objecto de um mais profundado estudo.

Estamos a fazer o quê, bloquistas? Oposição pela oposição ? Ainda não perceberam que a vossa margem de crescimento será directamente proporcional à vossa inteligência? O "bota abaixo" resultava sempre com o Pedro. Agora há que entender as propostas dos outros e ter alguma paciência para as iniciativas próprias. O CDS/PP mandou entregar o retrato, tal foi o choque da derrota. Não queiram, vocês, um fotógrafo exclusivo para vos tirar fotografias. E depois? Quem as quereria?

sábado, março 12, 2005

Uma Esperança Substantiva

Parece-me legítimo falar em esperança, depois dos últimos actos da política nacional: formação de um governo levada a cabo na intimidade , uma tomada de posse sem beija-mão, dois discursos verdadeiramenmte de Estado, virados para as questões importantes da gestão da República.
Hoje, ao ouvir Jorge Sampaio, pareceu-me senti-lo completamente confiante, senhor de si mesmo, com a esperança de, finalmente, ser entendido.
José Sócrates recuperou a atitude própria de um chefe de Governo: anunciou as ideias norteadoras do seu projecto. Fê-lo com determinação, com simplicidade e num tom grave, mas sereno. Os exemplos concretos que deu da futura acção do seu governo foram bem escolhidos, já que, um deles fala do dia-a-dia dos portugueses - o acesso aos medicamentos - e o outro da necessidade de uma opção de fundo em matéria constitucional.
Dedicou poucas palavras ao passado e fez bem.
No final, os repórteres de serviço, que se entretiveram a ouvir gente a esmo para passar o tempo, tiveram a desilusão de não poder ouvir nenhum dos empossados, à procura de uma primeira hesitação, de uma primeira gaffe.
Também aqui este XVII Governo Constitucional parece ter uma estratégia correcta: os ministros vão falar quando entenderem e não porque estão à mão de um qualquer microfone.
Para um cidadão especialista em generalidades, como é o meu caso, são estes os factos mais relevantes desta manhã de passagem de testemunho entre dois governos, no cumprimento do determinado pela escolha popular.
E estes factos transmitem a esperança de que a passagem do testemunho represente, efectivamente, uma mudança substantiva nas políticas governativas.

sexta-feira, março 11, 2005

Ser Ministro

Ser ministro deve ser horrível. Só o trabalho para desligar todos os receptores de televisão, de rádio e ordenar que não lhe tragam nenhum jornal!!! Só o trabalho...para não ouvir tantos ministros a dizer-lhe o que fazer!!! Um homem (mulheres são poucas) deve ficar louco. Qual deles - dos que falam e/ou escrevem (porque há os que acumulam) - tem razão?Que faço eu ? - grita, já desesperado, o até há pouco tempo técnico reputado e prazenteiro.Que fazer ?Oh! Homem, escute o que lhe digo: não ouça, não olhe, não leia. Faça o que sempre pensou que devia ser feito. Afinal, foi por isso que o escolheram. Desligue tudo - mesmo este blogue que nunca chegou a ler

HERÓI OU MORALISTA

No DN desta manhã o comentarismo aparece em destaque a propósito de um livro de Rita Figueiras, o qual deverá estar a ser apresentado na Universidade Católica de Lisboa, e versa sobre comentadores ao longo dos últimos 20 anos. O jornal destaca seis deles, mas, de facto não
sendo muitos os que se têm mantido em permanência, em 1990 eram mais de cem.
Sem muito eco, na maior parte dos casos. Os que mais se destacavam na TV passaram a ser mais procurados pelos matutinos, uma vez que os vespertinos se foram diluindo até ao sumiço total. A ideia que tem passado para fora é a de que interessa mais o comentador que o comentário; não é tanto a lucidez e o a-propósito, mas o populismo da mensagem, que quanto mais contiver de intriga mais eco obtém.
Nos últimos tempos começa a estar de moda, começou pelo futebol, claro, é o comentarismo por grosso e atacado. Começou por dois, passou para três, já vai em quatro e não imagino até onde vai chegar. Na Quadratura, Magalhães é o chato de serviço. Praticamente não comenta, resmunga, interrompe, chalaça, sorri, uma espécie de bobo da corte, uma corte soturna e sonolenta.
Um que nem é citado no DN e que já há muito preenche uma coluna no
matutino da Av. da Liberdade, recentemente posto à venda, Francisco Sarsfield Cabral faz uma análise sobre o que tem sido o combate contra o terrorismo, "uma guerra subterrânea, oculta e, decerto, pouco limpa - mas indispensável". Por um lado aceita que algo se tem feito, porque em boa verdade não houve mais nenhum atentado nos EUA, depois do 11 de Setembro. Reconhece que apesar de tudo foi possível efectuar eleições no Iraque. Entre esses dois polos cita os atentados no Quénia, no Bali e em Madrid.
Mas como violam valores éticos, os que combatem o terrorismo, "os ocidentais dão o flanco aos seus inimigos. É que para nós, os fins não justificam os meios".
O problema com os humanistas é que eles não se explicam bem. Se um grupo de terroristas raptar a mãe de um qualquer de nós e nos avisar que lhe vai cortar a cabeça, em directo, diante da câmara de televisão, podemos contar com o senhor Francisco? Esperar que ele se ofereça como voluntário para substituir na filmagem a pobre senhora?
Humanismo não é pieguice, nem dar esmola ao pobrezinho. É preciso uma grande dose de sofrimento e de sacrifício para entender e respeitar os valores éticos. Não há fins justificáveis sem princípios elementares. Nem tudo se pode perdoar. Nem tudo se deve tolerar. Nem o terrorismo, nem o humanismo sócio-profissional.

quinta-feira, março 10, 2005

A BOLA PARADA NAS MÃOS DA VELHARIA

Disso, do mundo que pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança, a gente gosta porque gosta do arco-íris e outras aparências: luzes, cintilações. No fundo, bem dentro de todos nós, há sempre um patego que olha o balão.

Freitas do Amaral

Entre todos os políticos portugueses foi a Freitas do Amaral que a vida concedeu a rara oportunidade de enriquecimento individual, político, social (total) entregando-lhe a presidência da assembleia das Nações Unidas. Logo a ele que já era respeitável intelectual, tinha sido fundador de partido político e ministro lúcido.

No entanto, o anúncio da sua escolha para ministro dum governo socialista soltou mais demónios pelos cinzentos da política e do jornalismo português do que aqueles de que belzebu dispôs para levar ao pecado os candidatos à santidade.

E, pelo visto, os que chegaram a santos conseguiram fugir ao rabudo. Mas Freitas mergulhou na trentação.

Qual o Crime ?

Difícil de responder a quem quiser saber do artigo do código político infringido. Primeiro porque não é crime servir o seu país desde que não mandado por interesses extranacionais, como não raro acontece. E depois, e fundamentalmente, porque, entre a doutrina sociall da Igreja (ela própria e não a garotada e as garotices do portismo popular), a social-democracia de hoje e o socialismo inventado para servir de almofada entre a revolução e a reacção, a diferença é de difícil distinção.

As preocupações são mais ou menos as mesmas, a terminologia vai dar, mais volta menos volta, ao mesmo e a alma ideológica funda-se mais ou menos nas mesmas raízes.

Na prática há, de facto, interesses que se servem mais de uma ou doutra maneira. Mas, entre todas, as coisas não andam muito distantes. Quando, por exemplo, a xenofobia ou o menor respeito pelo direito das mulheres vão parar a este ou àquele desses partidos é mais por defeito das pessoas que de doutrina. Com excepções, evidentemente. Estamos no campo do mais ou menos.

Na conformidade, é difícil entender o tanto espanto, por vezes indignação por se saber de um democrata-cristão em governo socialista. O alvoroço deveria morar, e aí sim, com a chegada à direita de gente vinda da extrema-esquerda. Os 180 º de rotação política.

Contudo eles andam por aí, doutores sem carta de curso, a sentenciar em matéria de honestidade política sem assombro que se levante. Assombrosamente portanto.

O crime de ter tocado em Bush

Depois de passar pela presidência da assembleia das Nações Unidas, Freitas do Amaral não ficou o mesmo. É facto. Só que, quem consegue sair duma função tão enriquecedora como essa igual ao "eu" que entrou, nunca lá devia ter entrado.

É que dela vê-se por dentro o pântano internacional. Bem mais fedorento que o nacional que Guterres viu e depois fugiu, provavelmente com carradas de razão. A razão que lamentavelmente não denunciou ao país.

Esse o pecado em que Freitas do Amaral não incorreu. Cometeu até o crime de comparar Bush a Hitler. Um exagero sem dúvida. Mas todo o mundo sabe que as semelhanças encontradas com Hitler, Mussolini, Salazar e Franco são mais uma adjectivação que uma comparação. Aliás todos os tiranos foram até diferentes entre si. Todos eles tiveram a sua medida, a medida que os respectivos países lhes consentiram.

Hitler na governação dos Estados Unidos seria outro Hitler e Salazar outro Salazar. Marcaram foi a história da crueldade. A do tirano alemão, então, chegou até à loucura.

E modernamente Hitler é mais utilizado como ofensa que como figura histórica. Paul Auster, um grande romancista e uma lúcida inteligência norteamericana, escreveu, para que o mundo soubesse, que a democracia, no seu país, era quase uma ditadura. Uma maneira mais suave de adjectivar, mas um mais ou menos dizer a mesma coisa por outro processo.

Jornalistas a pedir reforma

Talvez que o maior problema do jornalismo português seja o de, nele, serem, há anos sem descanso, sempre os mesmos a perorar. Dantes pensava-se que, pior que um director do "Diário de Notícias" só podia ser outro director do "Diário de Notícias". Hoje, o que mais se vê na comunicação social portuguesa, são directores do DN, unha com carne com o patrão.

Gente com quem o mundo não pula e menos avança. Gente do cinzentão nacional.

quarta-feira, março 09, 2005

Azedumes

Hoje, logo pela manhã, tive que ouvir a Maria João Avilez. Alguém, perto de mim, tinha um receptor de Rádio sintonizado na TSF.

Lá ouvi a senhora a perorar contra Freitas do Amaral e a adivinhar males terríveis pelo facto de o recém-nomeado ministro dos negócios estrangeiros não gostar de Bush: Mal seria de nós se ele gostasse. Mais de 80 por cento do Mundo não gosta!

A senhora acrescentou, todavia, outros dislates: que Freitas do Amaral está fora do Mundo, que não conhece a Europa actual, que não percebe o Brasil e África e não sei que mais...

Francamente! Um cidadão não pode distrair-se e ser educado. Bem podia ter pedido à pessoa que ouvia estes disparates para mudar de estação ou desligar. Mas não. Lá fiquei a ouvi-la. Acho que foi a primeira vez, porque, mesmo na SIC Notícias, sempre que aparece, uso o meu poder pessoal para zerpar dali.

De resto, a senhora só tinha piada quando as suas crónicas passavam sem que alguém com jeito lhes desse um jeito.

O perigo não está nas convicções de Freitas do Amaral e no seu percurso intelectual e político. O perigo está em manter no ar este azedume serôdio e trôpego. Mas, como o patrão manda e gosta, cumpra-se. Eles sabem por que se entendem.

Tanto Disparate!!!

"O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pretende fazer uma escala em Lisboa no fim-de-semana ou nos dias seguintes, no âmbito de uma viagem que o leva a Espanha e a Israel, para se encontrar com José Sócrates..." in DN de hoje, 8 de Março de 2005.
Que editor deixa passar tamanho disparate?
Que director-adjunto confirma tanta asneira?
Que director se responsabiliza por isto?
E, ainda por cima, a notícia foi desmentida logo de manhã. O desmentido não esperou pelo "fim de semana ou dias seguintes", ou por um dia qualquer de um ano destes.
Começo a concordar com a ideia de uma Ordem de jornalistas com estatutos que permitam a depuração deste analfabetismo instalado

COMO E ONDE É O FUTURO

Sempre que se avança para o futuro é no passdo que tropeçamos. Posto isto percebe-se melhor o que disse Marcelo, de Freitas. E até se entende qualquer coisa sobre a fotografia devolvida ao remetente.
Quando era mais novo, não 25, mas quase 50 anos, recebi duas fotos, de mim mesmo, sete postais ilustrados e uma vintena de cartas de amor intenso e escaldante. Não percebi logo de que é que se tratava. A esbelta criatura tinha mudado, não de partido (só havia um a União Nacional e mais nenhum), mas de namorado!
Um quarto de Século decorrido, quando a menina do parágrafo acima se preparava para ser avó, a situação política tinha levado uma volta. Partidos era o que mais havia. Por isso era possível escolher os percursos. Havia quem se iniciasse no radical de esquerda, flectisse para a
extrema esquerda e, aos poucos acabasse no mirn. Durão e Santana, por exemplo, devem ser capazes de explicar isto melhor. E podia, claro que podia, citar uma boa meia dúzia de pesos pesados de raiz marxista-leninista que fizeram a mala e abalaram para outros horizontes mais dados ao espírito democrático, ainda que com nuances que se vocacionariam para o centro. De fotos ou rasgadas ou devolvidas não consta a História. A democracia dava ares de ter costas largas e as únicas fotografias a banir foram as do Estado Novo, mas por razões, digamos. higiénicas.
Justamente para lavar a imagem os notáveis do Largo do Caldas manifestam-se contra portas e marés.
Segundo reza Marcelo, o ministro para as Necessidades vai ser Freitas do Amaral. Mal, reza o prof.
Freitas tem mais 25 anos do que tinha quando foi ministro dos Negócios Estrangeiros, logo... não devia ser ele...
Mas...mas há mais...Freitas disse mal de Bush...
Dizer bem dele tem feito mal à saúde, digo eu. Aznar disse e caiu; Durão também e também foi embora.
A ideia inicial parecia ser a de que apoiando ia-se para as obras. No Iraque as explosões não param, morre gente aumentam as ruinas. Só as obras não começam. Quem sabe se não vão começar daqui a 25 anos. Nessa altura estará por certo Marcelo Novo na costa, sabe-se lá se ,
com 25 anos mais na mesma, melhor que nunca, a despachar Marques Mendes por excesso de veterania...

O Dia da Mulher

É um bom dia para voltar à "antena", depois de algum tempo afastado - o que já me valeu uma reprimenda aqui do meu colega de carteira do lado.
Enfim, Rafael, há que saber escolher os dias em que vale a pena exercitar esta difícil tarefa de viver. E o dia da Mulher é óptimo.
Tanto mais que me fartei de ouvir gente a falar das percentagens de mulheres aqui e ali, sobretudo no exercício de cargos políticos - o "máximo" para os nossos analistas e também para os democratas da multimédia.
O que interessa às mulheres estar no Governo ou no Parlamento, se o poder concreto, o das empresas continua com os homens, com homens cada vez menos homens e cada vez mais marionettes e palhaços?
Se as mulheres me permitem, neste dia internacional delas, deixou aqui um conselho (dos tais que servem para pouco, porque se prestassem sempre se vendiam) : mandem os homens para o Governo e para o Parlamento e governem as empresas, os Hospitais, as Universidades, os Jornais, as Rádios, as Televisões, Laboratórios... estamos todos a precisar de algum bom senso feminino.
Para além de que é preciso desconfiar deste movimento de contestação tão oficiosa. Será para entreter as mulheres numa manobra de diversão que as leve a esquecer as propostas de criação de quotas nas faculdades de medicina - um começo para outras ?

segunda-feira, março 07, 2005

A DIFICIL ARTE DE VIVER

Não é por questão de sobrevivência, mas de bem estar. De facto ninguém escreve ao coronel. E eu preciso. E preciso, sobretudo, que me escrevam, não para me dar ares, mas para as loas que me são devidas. Pensem na tinta que se gastou com o Lopes, ainda por cima era lagarto! Imaginem o que ainda vão sofrer com os novíssimos, porque Deus é assim! Seria bem mais simples e reflectivo assumirem o Rafael como iluminado. Fazia-lhe jeito. Não que ele seja ecuménico ou possuído pelo demónio, coitado, nada disso: é vaidoso, tem a mania.
Farão o favor de aceitar que não é caso único, se fosse não havia tanto blog.
A vaidade do coronel Soares ainda vá que não vá, mas a preguiça dos que vão que não vão tem menos desculpa. É preciso saber assumir, tanto quanto é preciso que cada qual se saiba sumir.É preciso e urgente gabar o coronel e, depois sim, depois fugir, como se fugiu nos séculos dezoito e dezanove para o Brasil, e depois disso para a França mal refeita da ira nazi.
E se a previsão metereológica é má, se falar de catástrofes e outras formas cíclicas de governação socialista, pós-moderna, fujam que estão perdoados, mas não sem escrever ao Rafael, como quem pede a extrema unção, porque dele vai ser - é seguro -, o reino dos céus.
Mas se o não fizerem, ao menos não deixem este cantinho à mingua de paleio.
Que o altíssimo vos guarde...

sábado, março 05, 2005

APITA O COMBOIO...

... E a composição põe-se em marcha, Sócrates levou a água ao seu moinho. Não só escolheu o seu governo, no recato do escritório, como o apresentou no timing certo, no momento mais apropriado. Mais cedo seria expor inutilmente o governo (e parte substancial dos seus membros) a maquiavelices. A CS, por si, não extravazou para além do razoável. Das oposições a contestação é tão obrigatória, como precipitada. Retive duas: "A montanha pariu um rato" e "Não tem nomes sonantes". A primeira claramente pejorativa, mas da montanha madeiroa sempre brotam ratices fedorentas, sem qualquer significado, A segunda, embora menos injuriosa é também mais ingénua: se incluisse Vitorino, Coelho, Cravinho,Gama ou a quase minúscula Roseira, logo seria tida e achada por sopa requentada.
Pessoalmente desconheço de todo algumas das novidade que constituem o executivo de Sócrates e o mínimo que se deve fazer nestas circunstâncias é conceder-lhes o benefício da dúvida. No meu caso particular vou um pouco mais além e desejo-lhes boa sorte. Não é nenhum favor, mesmo se não sou muito de passar pelo largo do Rato, nem pelas imediações, sinto necessidade de um governo eficaz, preciso disso como de pão para a boca. E quem não precisar que atire a primeira pedra.

Mas em boa e honesta verdade, ele há pedradas que tardam e com o desemprego a atingir níveis assustadores, com as reformas a perder deprimente poder de compra (salvo se forem dos administradores de origem partidária da CGD), é um dó de alma ler o que disse a bem-aventu- rada administração da PT, a propósito de lucros obscenos, que se preparava para despedir mais mil trabalhadores. Oxalá o novo governo possa intervir e optar por despedir com justíssima causa os senhores administradores, por parte da banca. Urge que sejam cada vez mais, e mais diversificados, os que podem sentar-se à mesa onde se abancam os lucros e menos os mesmos de sempre que guardam os trocos...

Sócrates - 1 Comunicação Social - 0

Foi bonito de ver: os repórteres em Belém, preparados para as perguntas encomendadas pelos chefes, e o primeiro-ministro indigitado a dizer que, naquele momento, as redacções estavam a receber um comunicado do seu gabinete com a indicação do governo acabado de apresentar ao Presidente da República.
E os chefes resfastelados em restaurantes de cinco (mais duas ) estrelas...
São as máquinas, estúpidos...os faxes e os e-mails. Daaa... sabem o que é isso?
Sócrates - 1 - Comunicação Social - 0
É uma vitória importante, se ela significar o início de uma relação de respeito mútuo. Talvez o exemplo do "Público", que publicou um novo livro de estilo ( mesmo assim cheio de hesitações e alçapões propícios a interpretações dúbias), possa florescer.
Quanto ao governo, há que esperar pelos actos, apesar do Carlos Magno já ter ditado a sua sentença de condenação, a executar à esquerda e à direita. (oh! Carlos, porque não te reformas e inventas um blog para avaliares a tua audiência. Chama-lhe "Carlos Magno, o arguto")
Duas notas: o aplauso ao reconhecimento da actuação de Freitas do Amaral, quer como um membro fundador da democracia portuguesa, quer como um português notável pelo contributo que deu à comunidade internacional, como presidente da Assembleia Geral da ONU.
A outra diz respeito ao ministro da saúde: a sua reputação entre os profissionais dedicados à causa da saúde pública não é a melhor. Pelo contrário, é muito conotado com os grandes lobies. Aceito e desejo veementemente que os desminta.
Quanto a António Vitorino, o nome da grande especulação: ele - e a mulher - sempre disse que não queria voltar a ser ministro. Fazer o quê?

A Verdadeira Razão

Toda a gente - eu, pelo menos - ficou espantada com a falta de perspicácia, diria mesmo falta de inteligência do ainda primeiro-ministro deste país, que, na noite das eleições, não pediu a demissão do cargo de presidente do partido (PPD/PSD, como ele gosta de dizer).

E logo surgiram os mais variados comentários sobre a sua capacidade de leitura dos resultados eleitorais. Houve mesmo quem duvidasse da sua inteligência. "Será que o Pedro perdeu qualidades?" - interrogavam-se os seus mais fiéis seguidores.

E se a decisão tão comentada tivesse a ver com altos níveis de inteligência, definidos por tempos muito apertados?

E se a hesitação do Pedro pudesse ser comparada às três negações do outro Pedro?

E se a inteligência, a vontade, o querer, o desejo, tudo - do Pedro - estivessem ligados a um pequeno papel rectangular, espantoso, libertador, que a sua condição de primeiro-ministro, por mais um dia que fosse, garantia?

Querem mais dados? E julgam que eu sou bruxo?

sexta-feira, março 04, 2005

Quem Vai Tramar Lisboa?

A administração da CP está a estudar a possibilidade de abandonar as instalações da sede social da empresa, na Calçada do Duque, para concentrar num único local a totalidade dos serviços que tem espalhados por Lisboa.
"Se tudo correr bem, talvez consigamos atingir esse objectivo dentro de dois ou três anos", disse o presidente da companhia, António Ramalho - confirmando parcialmente as referências que vêm sendo feitas ao assunto por dirigentes sindicais e activistas do PS organizados no interior da empresa.
Posta a circular logo a seguir às eleições - num comunicado de um"núcleo partidário" que António Ramalho não quis identificar, e posteriormente divulgada pelo "site" do sindicato Sindefer -, a notícia é apresentada pelos críticos da administração como uma"negociata" que "lesa a CP, o Estado e os contribuintes", "abrindo caminho à especulação imobiliária".
De acordo com a informação do Sindefer, o abandono da vasta e valiosa área que a empresa ocupa por cima da estação do Rossio, entre a Calçada do Duque (Escadinhas doDuque) e a Calçada da Glória, estaria "em preparação adiantada" e as novas instalações já estariam escolhidas: um edifício da Parque da Expo para onde a Refer mudou recentemente uma parte dos seus serviços e onde funciona também a sede da Rave, a empresa responsável pelo projecto dos comboios de alta velocidade.
Confrontado com esta versão dos factos, o presidente da CP garantiu que nada está decidido e que não tem qualquer fundamento a ideia de que a empresa iria ocupar um edifício onde já está a Refer. "Nem se ionde é que fica esse edifício", afirmou.
Este excerto de um texto publicado pelo jornalista António Cerejo no "Público", mais o que poderá existir por detrás destas trocas e baldorcas, associados à ligação que é possível fazer entre os empreendimentos imobiliários do grande beneficiário do regime "Durão-Santana", João Pereira Coutinho, na zona das Amoreiras (Artilharia 1 e Duarte Pacheco) com a construção do Túnel do Marquês e o encerramento do Túnel ferroviário do Rossio - de que nunca mais se falou- ...tudo isto pode dar uma ideia do que se pode estar a preparar em termos de uma nova cidade, donde muitos terão de ser excluídos.
Uma nova cidade em que muito do património do Estado poderá passar para mãos privadas, interessadas, quiçá, em mais valiadas extraordinárias com a venda do resultado a grupos estrangeiros. Desta vez, os lisboetas e os que aqui trabalham vão mesmo fazer uma forte figura de parvos.
Já venho escrevendo sobre estas matérias há algum tempo: posts "Heranças", de 15Dez04, "Artilharia Um, o Túnel do Marquês e o Túnel do Rossio", de 21Jan05.
Mas eu só posso escrever - sempre com a convicção de ter leitores tão impotentes como eu. Fazer o quê?...

As Diferenças da Diáspora

Conheceram-se os resultados das eleições entre os nossos compatriotas residentes e recensados no estrangeiro. Com uma divisão mais ou menos imcompreesnsível, entre Europa e fora da Europa, esses portugueses elegem quatro deputados, dois para cada um dos lados.
Resultado: três para o PSD, um para o PS.
Já estava tudo decidido, pelo que estes quatro deputados contam pouco para o final destas eleições.
Todavia, há que pensar neste processo e concluir alguma coisa de útil: em primeiro lugar, não faz sentido que a contagem destes votos se faça tanto tempo depois. O problema pode resolver-se alargando os prazos para trás, isto é, determinando que a votação por Correio se faça muito antes da eleição presencial.
Nos Estados Unidos, as urnas para a eleição presidencial abriram com a campanha ainda em marcha.
Em segundo lugar há que meditar na disparidade dos resultados quando confrontados com os obtidos no território nacional.
Os nossos compatriotas não são verdadeiramente esclarecidos dos problemas do país e é entre eles onde o voto clubista é mais acentuado.
Esta conclusão leva-nos a considerar a qualidade da informação que se passa nos órgãos de comunicação social do Estado e que têm a obrigação de esclarecer esses portugueses .
Refiro, explicitamente, a Lusa, a RDP e a RTP, que não conseguem - porque não querem - transmitir o retrato o mais fiel possível da realidade política e social do país, usando os respectivos tempos de antena a divulgar desgraças e "fait-divers"
Esperemos que haja alguém com capacidade e discernimento para perceber a importância da aproximação das várias comunidades que a Nação contém.

OS DESACORDOS

Os desacordos em geral são o sumo dos acordos, o fim das convergências, mas em si não tem nada de mal. Pinto da Costa fica no seu melhor quando não concorda, seja com a Liga, seja com a Federação, seja com lampiões, seja com com lagartos e mesmo quando acorda com (não me venham pr'aqui com colos,poça, comento acordos em geral) um deles ou é por estar em desacordo com o outro. Malhas que o império (da bola) tece...
Mas há melhores desacordos, por certo. Cravinho já explicou que o caminho passa pelo aeroporto da Ota, pois, ele lá sabe, ele é que foi o da ideia. Claro que ele está mesmo a adivinhar que o próximo aglomerado anti-populista nem vai retirar as portagens das auto-estradas, nem desatar a construir infraestrururas em Malveira da Serra, ou será SantaMaria da Azoia ou lá onde fica a Ota, porque a vida está cara, a crise vai alta e as ajudas comunitárias não mais vão ser o que eram.
Mais divertido é o gozo de J.Coelho sobre "o Paulinho das feiras" e o populismo, sobre Santana Lopes e o populismo, mas este revestido de preocupação mediática, salientando sobretudo, já se vê, os desacordos quase permanentes dos signatários do acordo. Analisada a conjuntura da curta existência da coligação, Coelho não levou tempo a perceber e a explicar aos leitores do DN que o populismo, isto e o populismo aquilo ... Logo, como se podia confiar num acordo pós-eleitoral?
A velha expressão popular "diz o roto ao nu..." ficava aqui a matar, mas deve-se acrescentar, ao de leve e de passagem, que o CDS já experimentara antes outro tipo de coligação governamental, não muito bem sucedida, pode assinalar-se, ainda que Salgado Zenha tenha achado por bem esclarecer que o parceiro de coligação com o Partido Socialista era um partido de centro-esquerda. Claro que a tirada do dirigente socialista foi levada à conta de populismo. E porque, no fim de contas praticamente nada é novo ao cimo da terra apetece glozar,tal como já o havia experimentado acima,outro admirável poeta: populistas somos nós todos / ou ainda menos/ populistas somos nós todos/ desde pequenos...

ALARMISMO REPELENTE

Houve tempo em que, por mór da crise, de então, para promover a leitura de jornais se criou um slogan atractivo: ler jornais é saber mais.
Hoje em dia as coisas mudaram e, cada vez mais, fica-nos a sensação de logro, de conto do vigário, de alarmismo elevado ao quadrado, quando não de tristeza. Devem ter visto, pelo menos ouviram muito,quer nos noticiários da Rádio quer da TV, a manchete do DN: Um terço das adolescentes portugueses já usou a pílula do dia seguinte". Manchete aberta a branco sobre fundo negro, para estimular os preconceitos pseudo moralistas de raiz religiosa. A questão que se põe nem tem tanto a ver com a notícia em si, como se vai ver, mas com o alarmismo que se pretende criar à volta ( a Renascença já ouviu o cardeal). Mas vejamos como começa a notícia sobre um estudo da Faculdade Portuguesa de Ginecologia, transcrita da primeira página do matutino:
"Uma em cada seis adolescentes portuguesas tem uma vida sexual activa sem utilizar qualquer contraceptivo. Dessas, 33 % já recorreram à pílula do dia seguinte "... O resto é blá-blá.
Nada contra a investigação, que tem, aliás, dados interesantes. Mas contra a aproveitamento tendencioso, como é o caso do título. Como se pode contabilizar um terço das adolescentes como
tendo usado já a pílula do dia seguinte ( e com a carga pejorativa que tal manchete provoca),se logo a abrir a notícia sobre o estudo é revelado que uma em cada seis (na minha aritmética básica significava um sexto) sim, senhor, faz sexo, "e dessas" (desse sexto,pois) um terço já recorrerreu (e ainda bem, porque não é crime nenhum) à pilula do dia seguinte. No interior do jornal o título da notícia é repetido, o que deixa pouco espaço para qualquer dúvida sobre a intenção.

A divulgação de pormenores do estudo e a preocupação que causarem é legítima, de resto está repleta de informação que convirá reter pelos pais outros responsáveis pela educação de adolescentes, no seu conjunto, e não apenas as raparigas. Saber mais, e sobretudo melhor, também é conveniente para os adolescentes masculinos e possivelmente também urgente para alguns jornalistas da Av. da Liberdade...

quarta-feira, março 02, 2005

OS AZEITES

Houve tempo, já lá vão uns anos, o slogan repetia-se ao longo dos dias, eram dias e dias a ouvir "a sapataria oliveira calça Lisboa inteira". Puxa!
Tanto quanto se sabe, era um único Oliveira. E o que ele era capaz de calçar! E eis que...
Pois, eis que aparece outro Oliveira com o irmão Oliveira. Pasma o país!, qual pais!,o lusomundo inteiro!
Quando o cinema italiano despontou do pós-guerra, um filme se destacou: Não há paz entre oliveiras". Subtraí o artigo, e logo no plural, que não dá jeito, por causa do género (basta de confusões: o género, por acaso feminino,do artigo gramatical). No filme a fonte das azeitonas era naturalmente o olival, um espaço agrícola que reune a espécie agrícola, de onde provém o azeite. No filme, os azeites tinham, bem entendido, outra origem: a bela e tentadora Silvana Mangano.
Os mais devotos sabemos que a tentação é uma fraqueza, se bem que as Silvanas do estilo de Mangano inspirem tudo menos fraqueza!
Mas podemos aprender as lições que a realidade e a ficção nos proporcionam. Fui espeitar uma montra de sapatos e pareceu-se produto pouco próprio para lisboeta ambicioso. Fui ler alguns jornais e comecei a prever qual vai ser o porvir.Tanto faz que se perceba o que vai por trás do olival como não, o país inteito vai pasmar...

Fogem de Quê?

A PT, presidida por Miguel Horta e Costa, decidiu - assim, rezam os jornais de 1 de Março de 2005 - vender a Lusomundo, que inclui 23,35 do capital da Agência Lusa, além do Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas, Tal e Qual e outros e a Rádio TSF, ao Joaquim Oliveira.

Assim, de repente, depois de algumas hesitações, declarações contraditórias, mas sempre com o BES por detrás, à espera que a máquina registadora faça plim.

Ora, não é verdade que a PT tem uma golden share do Estado e que quem administra essa golden é o Governo?

Não é verdade que o negócio é polémico (ter um grupo de média nas mãos de um grupo com a dimensão empresarial da PT não é a mesma coisa que o ter nas mãos de um homem que vive da publicidade e das influências futebolísticas) ?

Não é verdade que o actual governo já não tem legitimidade para sancionar tais negócios?

Se tudo isto é verdade, porquê tanta pressa? Está em causa a comissão do BES ? Ou outras coisas?

Porque é que o presidente dos CTT, Carlos Horta e Costa, anda em reuniões com a CGD e com o BANIF por causa do Banco Postal dos CTT, uma iniciativa do governo PS que o PSD desconsiderou, mas que, ao que parece, a todo o custo, quer concretizar, mesmo quando já não tem legitimidade para tal?

Porque é que o presidente dos CTT quer reunir a Assembleia Geral dos CTT a 7 de Março para eleger os novos membros dos órgãos sociais da empresa, numa altura em, claramente, tudo indica a sua substituição?

Os Horta e Costa, destacados financiadores do PSD, fogem de quê?

Tenham Vergonha e TINO

As nossas televisões - todas - são uma vergonha.

Querem sangue, sangue, violações e mais violações, desgraça, desgraça e mais desgraça.

Nãos lhes chegam as desgraças locais. Vão procurá-las onde as houver.

E este "houver" em televisão significa IMAGEM.

Desde que tenham imagem têm notícia. Ora, nem todas as imagens são dignas de legendar notícias.

Foi o que aconteceu hoje, com a transmissão de imagens de uma jornalista francesa, refém de não se sabe de quem, que apareceu nos ecrãs de todas as televisões portuguesas a dizer coisas que não queria dizer, ameaçada por não se sabe quem, num trabalho de televisão sem assinatura, sem responsabilidade.

Um trabalho que envergonha todos os que fazem ou fizeram da sua vida a informãção.

Só não envergonhou os directores das televisões portuguesas, que permitiram a sua exibição.

Malditos sejam! Parasitas de uma profissão que já foi muito honrada na Pátria de Camões, Padrer António Vieira e Afonso de Albuquerque; Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis e Aquilino Ribeiro. Quem vos fez depositários da honra profissional de toda a gente que está com a jornalista do Liberation?

terça-feira, março 01, 2005

Quem Deve Desculpas A Quem

Ontem, ao almoço, um velho amigo contou-me, meio estupefacto, meio displicente, que o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, depois de uma cerimónia na Universidade do Minho, onde foi agraciado com o grau de doutor honoris causa, lançou para o ar a ideia da necessidade de desculpas, por parte das sociedades que, alegadamente, teriam beneficiado da escravatura, aos alegados descendentes dos escravos.
É uma ideia velha, que, de vez em quando, faz o seu caminho entre sectores conhecidos nos Estados Unidos - os mesmos que acusam D. Catarina de Bragança de ter fomentado a escravatura e impediram, por isso, a inauguração de uma estátua sua em Nova Yorque.
O tema é vasto, complicado e conduz-nos, sinteticamente, a algumas conclusões, sobretudo no que ao dr. honoris causa diz respeito.
Uma das questões que se pode levantar sobre a eventual escravatura de naturais de Moçambique noutros séculos tem a ver com africanos e, quando muito, com os mercadores muçulmanos, já que os colonizadores das Américas, do Norte e do Sul, não se arriscavam a ir procurar escravos para além das Costas Ocidental e Central Africanas. Não dobravam o Cabo das Tormentas
De resto, a escravatura era uma instituição em toda a África, praticada pelos próprios africanos, pelo que as desculpas deveriam começar pela família.
E, por falar de família: entre os moçambicanos, quem deve pedir desculpa a quem?
A FRELIMO e a RENAMO receberam dos colonizadores um país próspero, com um grande nível de desenvolvimento, com uma sistema de saúde operacional, um sistema de educação que só perdia para Angola numa comparação alargada a toda a África. Herdaram um país organizado, com sistemas rodoviários e ferroviários operativos e eficazes, com uma indústria de turismo próspera.
Receberam das mãos dos colonizadores um projecto de desenvolvimento para o Vale do Zambeze que só tinha paralelo com o plano de desenvolvimento para o Rio Cunene, em Angola, uma barragem absolutamente extraordinária, mesmo se comparada com as grandes obras do Mundo inteiro: uma das suas previstas dez turbinas produz mais energia que todas as barragens juntas em Portugal.
E o que fizeram os moçambicanos (poder e oposição) que receberam este país: começaram por perseguir os não negros, criaram centros de recuperação paras os chamados reaccionários, um projecto levado a cabo pelo actual presidente do Projecto do Zambeze, ex-ministro de estado da segurança nacional, Sérgio Vieira e protegido pelo actual presidente da República de Moçambique, general Guebuza.
Fizeram mais o quê?
Transformaram o país numa terra de muito ricos e miseráveis, mandaram assassinar pelo menos um jornalista que se propunha lutar pela justiça, Carlos Cardoso.
Será que Joaquim Chissano e todos os outros, trinta anos depois da Independência, se sente autorizado a exigir que alguém peça desculpas ao seu povo. Porque não fazer, ele e todos os outros, no próximo dia 25 de Junho (dia da Independência de Moçambique) um acto de contrição público, pedindo desculpas sinceras ao seu povo.
E já agora, porque não aproveitam e explicam onde foram buscar o dinheiro que lhes permite ostentar tanta prosperidade pessoal. Obriguem mesmo o ex-ministro-governador do Banco de Moçambique, Sérgio Vieira a explicar as suas relações com algumas figuras europeias, nomeadamemte portuguesas.
Este ano também se comemoram os trinta anos das Independências de Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Princípe. A Guiné Bissau comemorou já esssa data ( 24 de Setembro de 2003), mas não ouvimos ninguém pedir desculpas ao povo pelo mesmo tipo de destruição que foi levado a cabo em Moçambique, ou mesmo pior, já que aquele estado corre o risco de desagregação pura e simples.
Esperemos que os angolanos exijam desculpas públicas a todos os responsáveis pela destruição de um país que em 1973 era autosuficiente do ponto de vista alimentar, que, inclusivé, exportava alimentos; um país onde tinham sido definitivamente erradicadas doenças como a tuberculose e onde a malária estava a ser combatida com grande eficiência; um país que tinha uma rede escolar impressionante, a ponto de a própria OUA ter reconhecido no sistema implantado o melhor de toda a África. Um país que fez tudo isso sem o petróleo, que apenas depois entrou na economia.
Esperemos que os responsáveis de agora se atrevam ao pedido de desculpas, mesmo em nome de alguns fantasmas que por lá andam ainda.
O único país cujo povo não deve esperar desculpas pela Independência é o de Cabo Verde, que, apesar de pobre, ou talvez por isso, conseguiu fazer da independência uma arma de progresso e dignificação.
Os sãotomenses também devem erguer-se e exigir às várias cliques que lhes expliquem para onde foram as promessas de uma vida melhor. Sãos dirigentes de São Tomé e Princípe, de ontem e hoje, que devem pedir desculpas pela maneira infantil como governaram, no princípio, o pais, e pelos negócios pouco claros com que o governam actualmente.
Afinal, quem deve pedir desculpas a quem?
Como conclusão para reflexão ainda acrescento que, afinal, os descendentes dos escravos de há séculos vivem hoje uma vida com muito melhores perspectivas do que os descendentes daqueles que, tendo ficado nas suas terras, vivem na escravidão da pobreza e da corrupção.
É uma conclusão quase cínica, mas a responsabilidade dela é de homens como Joaquim Chissano, que entendem que a sua condição de negros lhes atribui um estatuto de imunidade congénita.

Um Contra-Peso Chamado Delgado

O BES continua cheio de pressa, a querer vender a Lusomundo ( eu bem gostaria de saber quanto é que o banco do dr. Salgado vai ganhar com a operação...)

Todavia, esta urgência cheira muito a precipitação, tanto mais que já não é possível ao ministro Morais Sarmento continuar a ameaçar quem quer que seja.

Por exemplo: ainda ninguém falou de dois apêndices do chamado pacote Lusomundo.

Um deles é importante: trata-se dos 23,35 do capital da Agência Lusa detidos pela PT - uma comparticipação que existia antes de a PTMultimédia comprar a Lusomundo ao Coronel Luís Silva.

O outro não é assim tão importante mas não deixa de ser um embrulho: há quem diga, agora, que o Luís Delgado é quadro da PT; outros, todavia, atribuem-no ao" plantel" da Lusa. Isto pode significar que quem levar o pacote pode ter que suportar o contra-peso: Luís Delgado.

De acordo com o "Contra-Informação", todavia, o dito preferiria ir para os Estados Unidos, onde se juntaria a George W. Bush e à sua equipa de génios.

Parece que esta seria a melhor solução para todos: nós ver-nos-iamos livres dele e Bush podia constatar que não nasceu néscio sózinho. Talvez, só por isso, nos distribuisse uns contratos na reconstrução do Iraque, um dos grandes objectivos de Durão Barroso, entretanto também ele emigrado e agora chamado José Barroso, em Bruxelas.

CÁ POR CASA TUDO BEM

Quer-se dizer: tudo antes assim que pior. É o bem maior que, de momento, é concedido a Portugal e aos portugueses.

Bagunça política

É difícil perceber o porquê das campanhas eleitorais em país, como Portugal, onde as legislaturas não passam de longos anos de campanha eleitoral. Tirando o dia do ufa.

De onde a política à portuguesa (só?) se resumir a campanha sobre campanha com um dia de descanso. O dia de gozar a verdade do silêncio. O prazer dum ufa de vinte e quatro horas.

Bagunça Cultural - I

Foi uma bagunça silenciosa. Aliás é, porque composta de vários capítulos que não param de se suceder. E continuam. Mas o silêncio mais significativo foi o que rodeou a possibilidade de compra da Lusomundo por empresas espanholas. As que entraram no concurso organizado pelo BES para venda dos órgãos da comunicação social da pertença da PT.

Pareceu curial que isso da compra e venda de instrumentos fundamentais da cultura de um povo seja a coisa mais natural do mundo. E ainda por cima vendidos por nacionais e comprados por estrangeiros.

O negócio não se realizou nesses termos, mas ficou a naturalidade com que se encarou o ter sido possível. A cultura nacional transaccionada como a palha que vem de Espanha por causa da seca. Palha para os burros que chamam a isso democracia: os incultos políticos que ainda não perceberam que é pela cultura que se matam as nações.

Bagunça Cultural-II

Mas Deus Nosso Senhor meteu-se nessa operação comercial e, assim como decidiu o vencedor da Batalha de Ourique, resolveu também que a Lusomundo, ao que parece, vá parar às mãos do Oliveira dos carcanhóis ganhos com os futebóis. Pelo menos foi o que a imprensa pôs a circular, depois de Santana se despedir do PR e antes de Sócrates assumir funções perante o mesmo.

Ora, a verdade seja dita, isso de entregar instrumentos de cultura a espanhóis ou a um Oliveira qualquer não altera em muito os dados do problema. É que a ignorância, mesmo nacional, também é um poderosos instrumento de matar a cultura dum povo. A Nacional.

Bagunça Cultural - III

Disso de espanhóis metidos na cultura portuguesa aconteceram-me duas tragédias dignas de procedimento inquisitório. Com fogueiras e tudo.

Tenho em casa, comprado aos nacionais da nação de Cervantes, o D. Quixote. A coroa da glória literária da grande Espanha. Dois volumes de bonita capa dura, recheados de dourados, a envolver uma tradução miserável. Uma vergonha Ibérica.

A produção pertenceu a uma S.A. espanhola que não vem ao caso nomear porque a guerra não é de nomes, e a tradução coube a um vago gabinete de traduções. Mas há responsáveis. De lá e de cá também. Só que com a cultura tratada como banha da cobra, legalmente, adiante-se, nem vale a pena pedir responsabilidades.

Desse "Dom Quixote" como de um "Pai Goriot", de Balzac, obra espanhola mas de tradução portuguesa, a qual nem por isso foi favorecida pela Santa de Fátima. A cultura em Portugal só lá vai com outra Santa Inquisição.

Bagunça jornalística
Nem só na RTP atiram programas para hora incerta, como ela faz com o "contra-informação". Fazem-no todas. Mas, pior que isso, é o não cumprimento da programação anunciada em tudo o que é informação escrita. Obviamente se dirá que se trata de falta de respeito pelos telespectadores. Poderá contudo dizer-se, igualmente, que se trata de falta de educação dos responsáveis pelos vários canais. Dos directores dos jornalistas, com anuência dos jornalistas dirigidos por tais directores.
Mas poderá um povo impontual por deseducação exigir pontualidade a alguém? Na conformidade, que é desconformidade, esta bagunça nem será jornalística. Antes educativa. Cultural.
Bagunça farmacêutica
A muito custo conseguiu o PSD que os medicamentos genéricos fossem lançados no mercado, como por essa Europa fora.
Honra portanto ao PSD. E desonra para o PS que perdeu a guerra com os interesses antigenéricos. Instaladíssimos que estavam.
Sucede no entanto que, por culpa dos médicos (dizem os farmacêuticos), que não os receitam, a venda dos referidos medicamentos fica-se por uma percentagem ridícula.
Muito bem, culpa dos médicos.
E qual é a culpa dos políticos que consentem que os médicos receitem por marcas e não os obrigam a fazê-lo pela composição química dos remédios?
Isto do apuramento de culpas em Portugal é sempre tão complicado que, de modo geral, uma bagunça é mais um emaranhado delas que ela.