sexta-feira, fevereiro 18, 2005

vogar no espaço/tempo

Sempre que tento avançar no tempo é o passado que encontro. É como se nada fosse novo e eu já conhecesse a história.Vou tentar começar pelo princípio, mas não garanto que os tempos dos verbos estejam atempados. Então lá vai...

Eu pecador me confesso.
Também, puritano incompetente, também eu subornei. Subornei funcionários públicos, com o intuito vil de lucrar com informações valiosas para o pasquim (e para mim mim, bem entendido), da capital (geográfica, porra) para o qual trabalhava.
Sejamos mais claros: eu subornava, mas era o pasquim que pagava.
Um deles, corcunda, trabalhava na morgue.
Nunca percebi bem se trabalhava ou se vivia na dita morgue, estava sempre lá. E sempre que aparecia um cadáver conveniente ele telefonava-me.

Um cadáver era sempre um ponto de partida para reportagens de sucesso.

Outros dois da minha folha de pagamentos eram da "Judite". Eram-me muito úteis, sobretudo para desviar as atenções. Nesse tempo tinha boas relações naquelas instalações.
O director mostrou sempre alguma simpatia pelo repórter que cobria o Tribunal de Polícia, no qual o director da PJ era juiz.
Essa relação amistosa manteve-se quando o repórter mudou de
categoria e de periódico e incluia outras amizades com dois do principais inspectores.
Deles nunca tive informação privilegiada, salvo um que outro esclarecimento.
Suponho que eles sabiam que eu tinha informação quente dentro e que provavelmente eles próprios tenham utilizado as fontes anónimas para me fazer chegar informação útil para os dois lados, mas, tal como eles, eu nunca esmiucei isso.
Mas, a propósito dos colos e das insinuações lembro-se do citado director me ter contado, e se me dão licença, vou usá-lo na primeira pessoa: Quando pela primeira vez fui a Londres (contava ele) a homosexualidade era considerada no Reino Unido imoral e era proíbida. Era como aqui(ele é que comparou).
Uns tempos mais tarde tive que lá voltar (ele). Então apercebi-me que já não se sentia a imoralidade, ainda que legalmente continuasse proíbida. Mas à terceira vez que lá fui apanhei um susto: já nem era proíbida! Jurei a mim mesmo (ele, chiça, foi ele que jurou) nunca mais lá voltar..

- E porquê? - perguntei eu (eu este sou eu).
- Tenho medo que já seja obrigatório...

Talvez vocês não acreditem mas contei esta memória num noticiário matinal na Rádio, em Lisboa.Tive que ser eu porque nenhum dos jornalistas- locutores esteve pelos ajustes.

Percebem porque eu digo que é o presente que me empurra para o passado? Por estar na matéria, recordo a primeira vez que fui confrontado com a questão.
Menino e moço e ingénuo e desinformado. Aprendia o b-a:bá do futebol e por via do foot que lí no Século, o jornal que o meu pai, que sabia de sapatos, comprava.
Um treinador de futebol do Sporting tinha sido encontrado morto no Parque Eduardo VII. Naquele tempo creio que não havia conexão. Naquele parque o menino que eu era só sabia que Portugal tinha ganho o primeiro mundial em Hoquei em Patins, com os primos Correia, os manos Serpa o Cipriano e um defesa que nem me lembra o nome mas jogava na Amadora.
O crime foi assunto muito comentado.Devia estar bem explicado nas entrelinhas mas eu não sabia ler isso. E um dia um cara do Século chocou-me: "tanto a vítima, como o criminoso eram dois miseráveis!". Lembro-me de ter perguntado ao meu pai se aqueles senhores eram miseráveis só por serem do Sporting...
Isto passou-se muitos anos antes do director aqui de cima ter ido a Londres, mas deve dar uma imagem de como a moralidade da época podia ser podre.

E valeu a pena eu ter durado todos estes anos só para perceber que hoje em dia ninguém é miserável por qualquer coisinha destas. Chateia é para eleições...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os Debates do Debate - Um Filme de Terror

Há um debate político e lá estão eles: os jornalistas da economia e outros, que não o sendo - sem serem nada, porque misturam tudo - lhes imitam os gestos, as palavras e os fatos novos. E até as gravatas garridas.
E o que dizem eles, os economistas-jornalistas, a quem é exigida, por uma directiva da União Europeia, uma declaração de património ?
Sempre o mesmo e sempre com o mesmo ar, de quem tem a solução no bolso. É preciso despedir, reduzir as despesas do Estado, criar alternativas à Segurança Social existente, aumentar a idade da reforma - não pelos bons motivos - mas pelos mesmos de sempre: reduzir despesas com as pessoas.
O que faz confusão a esta gente são as pessoas. As pessoas é que estão a mais. Ainda os vamos ouvir, um dia destes, a pedir a demissão do Povo.
Nunca os ouvi explicar porque é que as grandes empresas estão sempre a criar novas empresas: que se trata de um dos muitos expedientes usados para não pagar os impostos devidos, já que, durante três ou quatro anos ( e às vezes mais), absorvem lucros, transformados em despesa.
Jamais lhes ouvi uma palavra explicativa sobre as razões por que a Banca continua a usufruir de condições especiais no pagamento de impostos, que lhe foram atribuídas há mais de vinte anos com o objectivo de se reorganizar.
E é verdade que a Banca se regorganizou. Tão bem que aproveitou para incorporar todas as novas tecnologias e dispensar o maior número de trabalhadores. Os que ficaram viram os seus direitos reduzidos a quase zero.
Houve até alguns bancos que se permitiram declarar que não aceitariam mulheres como suas trabalhadoras. A gravidez incomodava-os muito...
Também nunca ouvi os tais economistas-jornalistas a explicar ao "povo ignorante" qual o papel da Banca no desenvolvimento e no crescimento da economia. O tal papel indispensável, tão louvado por eles, limita-se à especulação financeira em seu próprio proveito - com o dinheiro dos outros - , à concessão de crédito ao consumo e à construção civil.
O que faz mais a Banca? Transfere as operações rentáveis para os of-shore (o da Madeira é apenas folclore), parasita os médios e pequenos empresários e algumas grandes empresas na condição de accioinistas de referência, e pressiona o poder político para ter mais regalias, mais isenções de pagamento de impostos.
Algumas destas acções da Banca têm como arautos estes jornalistas-economistas (ou serão economistas-jornalistas) sempre de sorriso irónico e fato novo.
Porque não perguntar à Banca pelo apoio à criação de empresas viradas para as novas tecnologias, pela criação de créditos que permita a reconstrução da nossa Indústria, da nossa Agricultura, das nossas Pescas, numa palavra, do nosso aparelho produtivo?
Eles também são os arautos e ferverosos adeptos dos grupos de gestores que se reunem para, assim como entidades supra-estatais, apontarem o dedo.
A última vez que o fizeram foi para acusar os políticos de não ter coragem para dizer aos portugueses os sacrifícios que é necessário exigir-lhes. Mais?
O porta-voz foi o dr. Carrapatoso.
Não ouvi nenhum dos comentadores de debates perguntar se o dr. Carrapatoso ( ele e todos os outros) está disponível para sacrificar os milhões que recebe anualmente, só de prémio pelo desempenho da empresa que dirige, distribuindo uma parte pelos trabalhadores que o ajudaram a obter os resultados premiados.
É que, desse modo, as receitas do Estado seriam bem maiores, já que os impostos a pagar não se concentrariam num único contribuinte.
Não percebo as palmas que estes comentadores batem a tudo quanto é empresário, sem lhes perguntar onde estão os programas de requalificação de mão de obra, de criação de novos empregos.
Percebo, mas gostava de não perceber, o entusiasmo com que acolhem as medidas de reestruturação das grandes empresas, que significam - sempre - dispensa de trabalhadores e o consequente "outsorsing" contratato a uns amigos, donos de empresas com trabalhadores precários e pagos miseravelmente.
Acho mesmo que estes doutores vivem noutro planeta, que não passam pelas mesmas ruas que eu e não veêm as multidões de gente com ar desesperado a andar a esmo, sem ocupação e a maldizer a hora em que aceitaram a conversa do director de recursos humanos ( ou de um seu representante) a convencê-los a assinar o "maldito papel".
Eles ainda não perceberam que a desregulamentação do trabalho é a causadora da crise a nível internacional. Que os empresários (grandes e enormes) se apoderam dos aumentos incríveis de produtividade atingidos pela Humanidade. E querem mais!!!
Essa gente está no filme errado e aterroriza quem os ouve. Por favor, tirem-nos de cena!

Debate com Velório em Fundo

Afinal, o Pedro não chorou. Ainda bem.

E aquela gravata preta assentava-lhe bem: estava como deve ser no seu próprio velório.

Um funeral em grande com flores à direita e tiros à esquerda.

Desta vez, sr. ex-presidente da Figueira da Foz, acertou em cheio.

nada igual a nada

Não vi o debate. Não cheguei tarde, nem me esqueci. Fui ao cinema, depois petisquei comida basca. Foi agradável. Vi, claro, imagens no último telejornal, deu para entender. Parece fácil, parece sobretudo pretensioso. A questão parece ser: se um tipo não se preocupa agora, que direitos terá depois?

Pode-se responder sem responder: o que não tem remédio... quanto pior melhor... O que for soará...

O dia das eleiçõs há-de chegar. Um deles há-ganhar, que se lixa, o que perder vai à vida e um deles vai livrar-se da tropa (ou será a tropa que se livra dele?) , a vida há-de continuar. E, depois, as coisas importantes: o que é que vai acontecer ao Porto? e ao Benfica? E o Sporting? Ah!, e o Boavista? Se depender de um apito, ao menos que seja dourado, que entretém mais e melhor.
Reconheço que baixar os braços não é exemplo. Ocorre-me citar um poeta, ele, sim um exemplo
de tenacidade, de teimosia,que não vergava: (... ) fazei todo o mal que puderdes e passai depressa....

O Último Acto

Depois da carta que hoje recebi do dr. Santa Lopes, a pedir-me, por amor de Deus, para ir votar (nele). Depois de ler aquela "queixinha" de que é o político mais mal-tratado da face da Terra, acho que ainda o vou ver, na Televisão, a chorar.
Oh! doutor, por quem é, não me faça uma coisa dessas, porque eu não consigo ver sequer uma mulher a chorar, quanto mais um homem. Caramba! um Homem não chora!!! Além disso, o sr. até teve o colinho da Irmã Lúcia. O sr. e o sr Portas. Vá lá, porte-se bem.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

As Homenagens Devidas ao Sr. Ministro

O Ministro Paulo Portas sugeriu aos chefes dos três ramos das Forças Armadas que o condecorassem, atribuindo-lhe o mérito de "melhor ministro da defesa". Esta "sugestão" foi feita logo a seguir à dissolução da Assembleia da República ao Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMFGA).
O Almirante Mendes Cabeçadas teve que explicar ao sr. Ministro que tais condecorações não seriam possíveis por várias razões: desde logo porque o sr. ministro é, do ponto de vista da hierarquia, o chefe. Depois, porque os chefes dos estados maiores de cada um dos ramos das Forças Armadas não têm competência para tal e, finalmente, porque seria ridiculo...
Esta "exigência" do "melhor" ministro da defesa, que, entretanto, tem feito ou mandado fazer as maiores tropelias com alguns dos concursos que estão em curso no âmbito da reestutururação de diversas estruturas militares, tem um precedente:
Logo no primeiro ano do seu consulado, "sugeriu" aos mesmos chefes que deveriam congratular-se, de forma pública e notória, com o facto de o terem como ministro, no dia do seu aniversário. O público e notório seria expresso por ofertas individuais de cada um dos chefes.
Nessa altura mandou o seu secretário de estado telefonar ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea, dizendo-lhe que já tinha a aquiescência do seu homólogo da Marinha.
O ridículo foi evitado porque, entretanto, os generais conversaram uns com os outros.
Será necessário acrescentar alguma coisa?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

ORGIA CARNAVALESCA I

Ao Mundo ninguém o fez. Fez-se. Melhor: foi-se fazendo. Como o homem, que anda a fazer-se há milénios e nunca mais se acaba. Uma confusão dos diabos, convenha-se.
Por isso, que no tempo do paganismo, a gente simples e de pensar a direito, ciente de não ter feito isso duma vida que se alimenta da morte e duma riqueza sustentada pela pobreza, ciente, disso, resolveu inventar os deuses. Alguém explicativo de tamanho despautério: quadros futuros como o da sintonia entre Iraque-Irão-Afeganistão-Ruanda-Sudão-o maremoto-o imperialismo-os fundamentalismos-a Coreia atómica-os comunismos serôdios-secas dilúvios, tudo isto com direito ao contraditório. Que até a natureza o tem porque a agridem diariamente.
No meio de tanta tragédia salva-se um Portugal onde se brinca tanto ao Santana e seus meninos como ao almirante Portas e suas fragatas anti-aborto. Só que a folia, embora não mate povos, mói nações com o grotestco de seus episódios.
ENTÃO:
I - A co-incineração
Rezam as crónicas e os cronistas que os portugueses são o povo mais, ou dos mais, analfabetos da Europa. Pois não obstante essa maior percentagem é formada, quem diria?, por peritos em incineração. Pincipalmente co.
Economistas, bombeiros, futebolistas, políticos, marinheiros, poetas e advogados, também a dona Balbina e o senhor Travassos, de todo esse mundo dos muitos por cento que mal sabem, ou nem sabem mesmo, juntar as letras, anda meio-mundo na rua aos pontapés a um assunto da competência exclusiva dos técnicos. Competentes.
E a chamada democracia, para aumentar o pandemónio, anda por tudo quanto é canto a perguntar ora diga lá de resíduos e da incineração com co , de gases e dos perigos. Questão a que ninguém se recusa porque falar tornou-se um vício. Falo, logo existo.
Então ao telefone e ao microfone todos destapam a sua ignorância porque não têm mais nada para mostrar. Nem vergonha da nudez.
II - Os Revolucionários
O defunto CDS, hoje partido de Portas, descobriu-se revolucionário: um partido de esquerda às direitas.
Nobre Guedes disse que ele, Portas, podia ser o "nosso Malraux".
Nosso deles, evidentemente. Mesmo assim não foram nada modestos, escolheram para comparação um anti-fascista que andou por guerras a sério a lutar contra o fascismo, um intelectual ante a memória de quem a Europa se curva, um homem que até pessoa foi!
Por outro lado, Pires de Lima, afirmando-se "sem medo das palavras garantiu que "nós" (eles) "somos os verdadeiros revolucionários do século XXI". E o próprio Paulinho das Feiras já aceita a transmutação em Paulinho das Revoluções.
Ora, se no meio deste revolucionarismo-PP uns se lembram de Malraux e outros de outras mirabolâncias, fora dele há quem se lembre mais modestamente de revolucionários dá de perto. Da terra portuguesa.
De um revolucionário que, de poder fresco nas mãos, declarou, tão convicto como é hábito entre Portas e seus rapazes:
"Enquanto houver um lar sem pão, a revolução continua".
Chamava-se António de Oliveira Salazar.

ORGIA CARNAVALESCA II

III - A independência da Madeira

Miguel Sousa Tavares tem sido o homem dos jornais mais inconformado com a chantagem de Jardim quando deseja favores políticos dos tacanhos governantes do continente.
Tacanhos, o mínimo que chama aos "inimigos" da Madeira e da autonomia, os quais, com receio duma suposta chantagem com a independência da ilha, vão suportando as bernardices de AJJ.
Chantagem mais implícita que assumida. Existente no entanto. E, como o mais inconformado com ela, a repetição do jornalista, insistindo no tema, não teria novidade se não fossem as serpentinas que lançou para a festa.
Rolos delas a dizer que a melhor maneira de calar Jardim com a cantata da independência seria a de submetê-la a escrutínio popular.
De facto o carnaval desregula a razão.
O território de uma qualquer nação nunca foi, nunca será, formado por imposição dum qualquer plebiscito. Atrás dumas fronteiras nacionais há factos e história. Há razões sociais, políticas e jurídicas, razões de séculos, de mil vivências e de direito internacional, razões de amor à terra, de hábitos e familiariedades e, finalmente, a grande razão do bem-querer à gente que é a nossa.
Há tudo isso amassado num cimento feito da terra do chão nacional.
Não cabe na cabeça de ninguém sugerir a independência do Porto e redondezas em razão do passado galego e de exigências de governantes locais. Ou do Algarve, que foi mouro e hoje tem interesses específicos.
Não cabe e ninguém se lembrou disso.
Assim, a que título, a não ser carnavalesco, vem a lume a independência da Madeira, terra achada por portugueses, povoada por portugueses, que nunca teve outra história nem outra vida que não fosse portuguesa?
A descontinuidade geográfica é argumento juridicamente pobre e a chantagem de Jardim ainda mais pobre.
IV - Havai descontínuo
O Estado norteamericano do Havai são umas ilhas longe, metidas nos Estados Unidos há um século, e que existiam antes disso primeiro como monarquia e depois como república.
Ora no aproveitamento das disputas havidas nessa transição, da guerra interna, os estrangeiros entraram em ajuda a uma parte contra a outra. E poucos anos depois pegam na terra e incorporam-na por sucção.
Aposentam a rainha a troco de um punhado de dólares, manobram com força sua interesses seus e alheios e pronto, já está.
Antes esteve. E ficou.
A Independência para o Havai, já!!! É uma causa justa.
V - Lembrando o truca-truca de Natália Correia
A sina deste Fevereiro que ainda não passou atacou também António Barreto. E levou-o para longe das paragens políticas: para o sexo de governantes.
Aventou, com ar sério de quem pensa, que os responsáveis máximos do país fossem obrigados a apresentar, para além da declaração dos rendimentos e mais teres e haveres, suas habilitações sexuais.
A prática e as tendências.
Na conformidade, ficaríamos a saber se são truca, retruca ou truca-retruca. E como a Constituição não permite discriminações por motivos de raça, sexo e assim, também as mulheres que eventualmente chegassem a cargos presidenciais e primoministeriais teriam de apresentar a sua declaração de fufa, fafu ou fuaf.
Em consequência do que se chegaria ao voyeurismo democrático na cama com o poder político.
Óptima modalidade de programa para a TVI.

Tudo Como Dantes

É bem possível que a Democracia seja o melhor sistema político. Creio que, de um modo geral, os democratas acreditem que seja o único, o supra-sumo. A questão que se levanta é a de saber onde começa e onde acaba. É difícil imaginar virtude na ideologia vendo os democratas perorar na Televisão ou imaginá-los a telefonar para o Expresso ,quando o sr. Balsemão não está lá,bem entendido, ou para o Indep.,seja quem for que lá esteja.Intrigar é em si mesma um passatempo divertido, mesmo sob a forma de filha de putice reles.Deixa de ter graça quando se exerce como acção política. Não venho aqui discutir moral. O que pretendo pôr em questão é o comportamento dos democratas. Não encontro nada de mal na democracia. Aceito que seja um excelente sistema político. embora muito virado para favorecer os políticos, mais do que enriquecer a populaça de mais sopa e de melhores costumes.

Confesso que sem querer pôr em causa a democracia, o que eu tenho dificuldade em aceitar/gostar é de democratas filiados em. vulgo: militantes (?) , militantes militam, militam, de militar, ó Diabo! já me perdi ou estou a perder o fio à meada.

Devo confessar que quando comecei a escrever este doloroso desabafo ainda a irmã Lúcia era viva e o Sporting não tinha esmagado o Rio Ave. Do passamento da vidente se têm encarregue os líderes do PSD arrouba CDS pê-tê ( o hifen é devido ao computador, coitado, que, como eu, não sabe ortografar analfabetices), eu prefiro comentar ou entreter-me com a bola, mas depressa me dou conta de que é tempo perdido. O "Record" é pior que o "Expresso" e isso dói-me. Aprendi a vida com "A Bola", quando a vida era o Benfica e o Benfica era o Bloco de Esquerda. Quando o "marreco" a quem também chamavam Teixeira, ficou fechado num camarote do barco que o trazia da Madeira, com destino - imagine-se! - ao Sporting. Nenhum comandante de navio, mesmo de passageiros faria uma coisa dessas. Foi no Benfica avisar e pela noite lá o levaram e o inscreveram. Isso sim, eram assuntos de jornal. Havia uma revista desportiva "stadium" que funcionava, ainda que não o soubesse, como haveria de ser a Televisão. Desvendou a trama do desvio, do mesmo modo que o Indep. o faz com Amaral, Freitas do.

Caiu o Carmo e a Trindade, como Guterres haveria de cair. Empurrado pela ira vermelha, que não tolerava a admissão de um lagarto, nem que fosse para cabeça de lista em Fornos de Algodres. E quando, na semana seguinte, o Benfica, que residia no Campo 28 de Maio e a que, por patriotismo, a malta chamava Campo Grande, recebia justamente o Sporting. Foi coisa séria. O Benfica ganhou por cinco a quatro e o "marreco" marcou quatro golos...

Vocês crêem que Santana é capaz de marcar quatro golos?...

sábado, fevereiro 12, 2005

O Rosto dos Sem Rosto

Há um semanário que não compro há anos, desde que o descobri como o jornal de uma aldeia sem dignidade, povoada de beatas, pequenas intrigas, grandes negócios e negociatas. Vou escolhendo outras leituras de um painel cada vez mais difícil , e , na demanda do que ler, deparo com títulos, com rostos nas capas de revistas. Alguns não conheço, mas outros sei bem que eles são.
A propósito de um rosto que hoje aparece no tal semanário, cujo nome já nem pronuncio, lembro os posts que aqui coloquei nos dias 30 de Janeiro de 2005 e a 01 de Dezembro de 2004. Este último sugere a leitura de mais alguns colocados em datas anteriores.
Ele aí está o rosto dos que não dão a cara. A PGR e a CNVM não estarão a investigar nada a respeito deste jogo de espelhos para o público perceber de quem é verdadeiramente a silhueta de Luís Delgado ? Até pode não ter espelhos mas apenas sombras chinesas.

«Por Ora»

A Procuradoria Geral da República e a Direcção Nacional da Polícia Judiciária fizeram saber, em comunicado tornado público que, "por ora", José Sócrates não é suspeito de coisa nenhuma, relativamente ao empreendimento "Freeport".
Estes pronunciamentos são feitos na sequência de uma notícia do semanário "Independente".
Mesmo depois da indicação de que se trata de um atropelo a todos os códigos deontológicos (que haja, mesmo no inferno), as rádios e as televisões - e pela amostra das edições "online", os jornais - continuam a servir-se do mote dado pelo semanário para ampliar aquilo que o próprio Sócrates já classificou de "campanha negra".
Negra ou branca ela é, de facto, uma granada de fragmentação, um automóvel aramadilhado, atirados contra todos nós, pacíficos cidadãos de um país de brandos costumes, que aceitam estes actos terroristas com um encolher de ombros, na esperança de que não nos caia um estilhaço em cima.
O "Independente" não é estreante neste tipo de actuação. Esta é a marca de um jornalismo que exige contrapartidas, que aponta caminhos para alianças futuras e tem cimentado poderes ocultos, verdadeiros polvos que se alimentam da intriga e da chantagem.
O jornal é apenas o instrumento. Quem o utiliza sabe que a sobrevivência obriga , muitas vezes, a actos desesperados.
Este acto de puro terrorismo anuncia, seguramente, uma verdadeira guerra, porque o tal polvo começa a ficar nervoso perante a possibilidade de todo o seu grande projecto ir água abaixo.
Fico com a esperança de que tal guerra não garanta, no futuro, outras alianças, outros projectos, outros polvos.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Patriarcão

Ele foi -- e é, sem a menor dúvida -- uma referência da democracia em Portugal. Mas até as mais reverendissimas referências são humanas. Os humanos não são perfeitos, nem sempre têm razão e estão sujeitos a tropeçar.

Mário Soares além de ter descido como desceu a Alameda, desceu algumas vezes de outros modos. Para subir teve de contar com certos apoios e uma certa Europa esteve com ele. Por essa altura os partidos recém nascidos eram virgens de princípios e à margem de legislação, como, por exemplo, as dotações pecuniárias. Nada que não tivesse remédio e que não se tivesse procurado regulamentar.

Como líder, primeiro, como primeiro-ministro, depois, teve confrontos naturais na Assembleia,
que nem sempre ganhou. Sossobrou ante uma moção de censura, que o levou à tal coligação com o partido do centro-esquerda de Freitas do Amaral e, depois, perder eleições para a AD.

De regresso ao largo do Rato arranjou algumas desavenças intestinas que haviam de culminar com o abandono da liderança por se recusar a apoiar a recandidatura de Ramalho Eanes.

Data dessa altura a contestação à origem de apoios monetários aos partidos. Para regressar à chefia foi notória a diferença entre o partido empobrecido e os meios postos à disposição dos apoiantes do candidato ao regresso.

Reconquistado o partido, Soares voltou a ganhar legislativas e a chefia do governo. Bem sabemos que o poder desgasta. Nunca são suficientes os problemas da governação. Pior que um défice num capítulo do orçamento pesa a pressão contínua dos militantes candidatos a empregos, a cargos, a tachos ou a negócios.

E o governo sossobrou. Da hecatombe emergiu Cavaco Silva. Mas é justo lembrar que o PS apresentava como candidato Almeida Santos.

Mas Mario Soares não entregou os pontos. Perfilou-se candidato a Belém. E bem mal fizeram
os que não quiseram,dentro do partido, acreditar nele. Soares ganhou a presidência e não poupou os descrentes.

Constâncio entrou na sala do Rato e não havia tostão. E casa onde não há pão... Saiu a bater com a porta. Entretanto Cavaco, governava. Belém não levantou entraves. Era o país das maravilhas.

Nas legislativa que se seguiram o PSD voltou a ganhar e Sampaio foi quase trucidado. E saiu. Mas não era um mau candidato. Não tardou a ganhar a Câmara de Lisboa, vencendo o nadador
Marcelo, o destemido. E avançaria mais tarde para a sucessão de Soares, batendo um tal C. Silva.

Mas isto foi depois do entretanto. O que contava era o implacável ajuste de contas, que até então decorrria entre iguais, como é apanágio dos polícos de topo. Arrumadas as contas a esse
nível, Mário Soares voltava à terra, arregaçava as mangas. Era a vez de Cavaco Silva...

Depois de vencer, com um sorriso nos lábios a reeleição, em que o mais difícil terá sido obter um adversário, socorrrendo-se, como era prática, de um CDS (Basílio Horta), o Presidente retomou o rumo e friamente, durante quatro anos moeu Cavaco Silva, até à exaustão. Ainda hoje, e já lá vão uns anos, o pobre prof. ainda cheira a queimado.

Com pouca saúde ficou o país. Guterres, Durão e Santana não parecem médicos de grande sucesso. Entre votar ou ir à bruxa.. o Diabo que escolha...

Rábulas



Desde que chegou , e se instalou, a democracia tem sofrido, e nós com ela. É preciso tempo para tudo, até para ter paciência. Dito de outra forma: não há remédio. Um bom exemplo, honesto e expressivo, saiu de Manuel Alegre quando criticava diferentes membros do governo Santana e terminava a reconhecer que no exercício do poder sempre se cometem erros “eu próprio cometi alguns”.É quase ternurento tanta compreensão.
A outra verdade, a minha, é que o que se conserva na memória é justamente o disparate, a palhaçada, as artolices. Neste domínio Santana não inventou nada. O poeta socialista disse uma vez: O “Século” não pode fechar. Fechou, claro.
E Soares? Caramba, senhores, caramba: “os senhores pensam que eu ia fazer uma remodelação à trouxe-mouxe na véspera de partir para a Europa?” Fez, bem entendido, ao fim da tarde. E de coligações estamos falados.
A História fará, estou certo, justiça ao homem bom que conduziu o país para o rumo da democracia ocidental, com coragem e determinação. As coligações trapalhonas e os frequentes “Soares disse que não disse” ficam no saco humanista de Manuel Alegre, onde devem estar arrumadas algumas diatribes de Pinto Balsemão, como a de escolher um pobre ministro que, coitado!, nem ganhava para os charutos.
Mesmo Cavaco deixou marca com a história do leite... Na altura era ainda mais mínimo que Santana, mas incoligado e quando quis aumentar o preço dos combustíveis, a maioria da Assembleia, onde ainda morava o PRD, levantou-se contra.. Cavaco choramingou que não o deixavam baixar o preço do leite, o santo leite das criancinhas…
E Soares fez-lhe a vontade, não por mor do leite, claro está, mas para começar a ajustar contas com os eanistas. Novas eleições e Cavaco apareceu de maioria absoluta. E asssim os combustíveis puderam aumentar e o leite também …

Trapalhadas continuaram com Cadilhe e as mudanças de casa e outro da mesma pasta com subsídios para jovem agricultor.
E as maiorias de Guterres não deram pano para mangas, apesar de se dever reconhecer algum mérito ao então líder socialista, pelo menos o de ter ganho com a maior margem de sempre entre os seus pares, mas tal como Durão durou menos do que devia.
Guterres ficou a dever ao país a solução para o problema de interrupção voluntária da gravidez. Durão “engravidou”O PSD e pôs-se a andar.
Ficou Santana para pagar a crise, com o inevitável sorriso nos lábios.
O pior é que Sócrates está com uma vontade doida de o incinerar…

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Este país é mesmo provinciano. O país inteiro, gente e geografia, já que os responsáveis por ele fazem dele uma província da Europa. Espiritual, servindo-se do seu nome como razão arrasadora em tudo o que discutem.

A comparação com o que se faz e não faz na Europa, e se faz deveria repetir-se ou se não faz deveria rejeitar-se, é o argumento máximo. A elaboração intelectual mais sabida.

Um provincianismo que nem dá direito ao contraditório, tal como Marcelo não gostava de dar entre as suas constantes afirmações de ser professor de direito.

- Eu que sou professor de direito ! - lembram-se ?

Não gostava e não dava, para grande irritação de Santana. Enquanto desejava a ocupação da Lusomundo por gente sua. Ou seja, enquanto trabalhava no limiar do direito ao contraditório do povo que ainda ministra. Como se faz na Europa.

Provincianismos, no entanto

Fernando Pessoa dizia, e até deixou escrito, que Eça de Queiroz era o mais provinciano dos escritores portugueses: pelo parisiense que gostava de mostrar-se, pelo estrangeirado de modos e dizeres por que às vezes se fazia passar. Ou passava mesmo.

Para Pessoa, provinciano era o que se enfeitava com plumas alheias, o que se punha em bicos nos pés para que o vissem. Considerava-o como que parvenu , como diria Eça.

Mas há que diferenciar entre uma pose de literato e o senhor Silva ao volante dum Ferrari. À parte isso, o que mais distinguiu, no capítulo, Pessoa de Eça foi que, enquanto este se escreveu, numa das suas "cartas" ( de Londres ou de Paris, embora num enquadramento que diminuiu o entono) um parisiense - a presença do primeiro em terra estrangeira exacerbou-lhe o nacionalismo. Fez dele um patriota místico.

Serviram aqui os talvez maiores nomes, em popularidade, da literatura portuguesa para demonstrar que provincianismos há muitos. Não apenas entre políticos.

O chico-espertismo

O chico-esperto talvez seja um tipo de provinciano, mas mais tosco. No fundo um convencido da estupidez dos outros, que procura explorar.

Paulo Portas, em defesa do seu ministro Nobre Guedes, aquele que arengou ao povo de Coimbra para não deixar entrar Sócrates nas muralhas da cidade, apareceu nas televisões com um arrasoado a dizer que aquilo retumbado pelo governante não foi o que as palavras disseram. Não foi barrá-lo, a Sócrates, com barreiras físicas (paus e pedras) mas com barreiras políticas (votos). No fundo disse que Guedes disse o que não disse.

E falou com tanta convicção que deixou a ideia de crer realmente em que os portugueses a que se dirigiu são estúpidos que nem portas. Ideia de que sobram duas hipóteses: serem os portugueses estúpidos que nem portas, ou Portas que nem porta.

Provincianismo erótico

Disse-se que eram mil. Elas

E apenas um. Ele.

Ele, Pedro, que não é pedra como o São, mas carne de um colo, o seu, para muitos colos, os delas. As que foram pôr-se-lhe à volta num colar de orgia política.

Colar que espichou lubricidade. Jacto, Santo Deus! Que por descuido foi atingir os desprovidos de tal aconchego. Uma variante dos sem-abrigo: os sem-regaço. Pelo menos delas, as que se regaçaram para Pedro. A quem Nosso Senhor não livrou da tentação de apontar José-Suposto-Sem-Colo com um gesto largo de mostrar-lhe elas todas adornando-o. A si. Não a ele, sobre quem boatos oportunos lançaram suspeitas.

Que Pedro Santana Lopes se prestasse ao papel a que se prestou, hoje não admira. A mãe de Kennedy também orientou uma campanha à presidência dos EUA apelando ao eleitorado feminino; os conselheiros de Lopes, ao que consta brasileiros, teriam agrrado na ideia e, de modo grosseiro, lembraram-se de fazer dos mil colos um facto político. Até aqui, tudo vá que não vá. Santana Lopes tem sido uma desilusão, até para os que lhe achavam graça. Portanto, para os técnicos de imagem levá-lo ao caricato não deve ter sido difícil. E mulheres arranjaram-nas. Pelo menos veio na informação que elas estiveram lá.

Aqui é que foi o mal. A mulher, hoje, já não é nada que foi. A mulher, hoje, tem obrigações para si como mulher. E, ir de colo a a abanar em demonstração de como qualquer político é femeeiro, ofende-a como pessoa.

Se houvesse justiça, deveriam todas as mil ser julgadas por interrupção voluntária da dignidade feminina.

Os Filhos do Pedro

O Pedro não faz campanha na rua, não gosta de andar a apertar as mãos às pessoas...o Pedro não fez campanha na terça-feira de Carnaval e chamou os jornalistas a S. Bento, para lhes mostrar os jardins, os filhos a passear de ar compostinho e criticar José Sócrates.
Oh! Pedro, tudo isso até capaz de resultar no Brasil, onde dois terços da população pertence ao quarto Mundo. Lembro-lhe, todavia, um facto brasileiro: o Ciro Gomes, candidato à Presidência do Brasil, com Lula da Silva, liderava as sondagens quando um jornalista lhe perguntou se o papel de Patrícia Pilar, sua mulher, era importante na campanha.
Ele respondeu à cafageste: "é importante, dorme comigo". Desde esse dia as sondagens não pararam de descer. Ciro Gomes, é, hoje, um cadáver político bem enterrado.
Que dizer de si, que só lhe falta estar enterrado e só faz e diz estes disparates ? Dizem que a conselho do mesmo brasileiro que levou Ciro Gomes ao topo das sondagens e não o impediu de se esborondar nos gráficos das agências.
Quando os filhos deste Pedro tiverem a sua própria vida e as suas próprias responsabilidades vão dizer o quê deste pai, ao verem as imagens de arquivo das televisões de então. Televisões que terão, seguramente, outros patrões e não o dr. Pinto Balsemão que manda transmitir comícios inteiros em directo, numa tentativa desesperada de salvar alguma coisa.
Salvar o quê? Perguntarão então os filhos do Pedro. "Os seus próprios interesses, prometidos pelo Morais Sarmento e confirmados pelo vosso pai" - responderão os interrogados.
Só estórias tristes de um futuro defunto.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Para Que Serve a Política

Sempre se lhe abre um largo sorriso quando apareço. Um sorriso de alegria, a mostrar a falta de dentes levados pela idade, mas também a alma limpa, carregada de amizade, bondade, solidariedade. Para os seus quase oitenta anos, o meu amigo trabalha quase como nos velhos tempos, quando andava de pinhal em pinhal a fazer pela vida e a gozar as alegrias da mocidade. Delas fala quando sente alguma esperança de melhores dias e sente aliviado o peso da sua condição de idoso, trabalhador por conta própria e português.
Ontem, a propósito da campanha eleitoral, lá veio a política à baila e a sua conclusão habitual: "Oh meu amigo, a política não serve para nada!"
Com alguma paciência e amizade tentei dar-lhe o meu ponto de vista: "bem que os poderosos do Mundo gostariam de a eliminar da nossa vida.Por causa daquilo a que chamamos política é que não somos todos peças de uma engrenagem de produção, sem direito às pequenas alegrias e às pequenas ou grandes ideias que gostamos de trocar".
Ficou pensativo, o meu amigo, mas não me quis deixar sem resposta: "mas, então acha que estes gajos que nos estão a governar são políticos?".
"Não, esses fazem parte dos que gostariam de eliminar a política da nossa vida. Esses são apenas lacaios dos que têm tudo, dos que se apoderaram da maior parte do esforço que a Humanidade fez para progredir. Esses são os que estão a permitir a importação dos métodos chineses para gerir as empresas. Mas, felizmente, ao contrário do que acontece na China, nós temos a possibilidade de os mandar borda fora".
"Você é danado! - riu-se o meu velho amigo. E lá voltámos à conversa sobre os achaques dele e meus.
Na despedida, um abraço e o remoque final: "... eu acho que não vou votar...para quê?"
"Olhe, nem que seja para voltar a sentir alguma esperança"
Tenho que passar por lá outra vez. Talvez se o frio passar ele se sinta melhor consigo mesmo.

domingo, fevereiro 06, 2005

A Realidade Não É Essa

Inicia-se hoje mais uma campanha eleitoral em Portugal. Os Portugueses voltam a votos a 20 de Fevereiro.

Demos graça à força da razão que levou os homens deste país a lutar por esta tão simples forma de decidir quem nos deve governar. Se tivessemos que dar graças a Deus - tal como o concebe D. José Policarpo - ainda estaríamos, seguramente, de joelhos, a agradecer a algum iluminado a nossa condição de homem ou mulher, de português ou senegalês, negro ou branco. Teríamos de esquecer Sócrates, que dava graças por ter nascido livre e não escravo.
A proibição de os católicos serem, em simultâneo, maçãos é, para um homem livre, imcompreensível. Tal imcompatibilidade, a juntar a tantas outras, ajuda a transformar o catolicismo numa seita restritiva, que, um dia, quando constatar o seu completo desajustamento com as sociedades em que vive, terá de voltar à clandestinidade - para aí cumprir as suas regras, defender as suas proibições e praticar a sua hipocrisia.
Mas, não é apenas a Igreja Católica que está desajustada da realidade.
Também os Partidos Políticos que arrancam hoje para mais uma campanha eleitoral não percebem a sociedade que querem governar e perdem-se em análises abstractas, propostas imcompreensíveis, discussões de modelos irrealizáveis.
A nossa sociedade já não está organizada como os seus dirigentes supõem. As medidas que foram sendo tomadas ao longo dos anos conduziram a vários fenómenos de que ninguém fala.
Por exemplo, a nossa Juventude está a entrar em esquemas de trabalho definidores de um modelo de uma escravatura impressionantemente veloz: os estágios não remunerados de que se alimentam pequenas, médias e grandes empresas; os contratos de trabalho precaríssimos, que alimentam os salários de miséria e desmobilizam qualquer apetência para especializações, aprendizagens avançadas; as regras de avaliação monolíticas, espartilhadas, aparentemente exigidas pelo cumprimento de objectivos a favor dos accionistas das grandes empresas, transformam o dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas em infernos.
A constatação de que, sobretudo nas grandes empresas, as diferenças são cada vez mais abissais e de que, afinal, os objectivos que obrigam os trabalhadores ao cumprimento de regras ilógicas, absurdas e mesmo estúpidas, contribui para a descrença e consequente crescimento do espírito carreirista, oportunista, quando não para comportamentos de deslealdade e de desonestidade.
A ideia de que um trabalhador aos 50 anos é velho e precisa de ser substituído por alguém mais novo e, por isso, mais disponível para aceitar as regras da escravatura dos objectivos definidos por meia dúzia de gestores de capitais alheios, é outra das realidades deste país que os políticos e as suas políticas foram construindo - pedindo, aos poucos, umas brasas ao inferno dos católicos.
E nesta campanha não há nenhum partido capaz de agarrar o touro pelos cornos. Aos que ouvi só percebo estratégias de poder para a sociedade, cuja existência é fruto das suas imaginações. E, quando fazem o apelo ao voto, contra a abstenção, continuam desajustados. Se a abstenção sobe é porque a população não se reconhece nos problemas enunciados e nas propostas políticas publicitadas.
Os que votam fazem-no por uma questão de jogo. Estão viciados nele. Mas, mesmo esses, acreditam pouco, porque percebem que o futuro depende do presente e, para este, os políticos nem sequer são capazes de fazer o diagnóstico. Trocam tudo, mesmo quando acertam numa palavra: confiança.
Identificam-na com o sistema económico. Nada disso, do que eles precisam é da confiança dos cidadãos.
Tal como a Igreja de D. Policarpo, também estes partidos vão, um dia, ter que viver de si mesmos, logo numa clandestinidade que lhes permita falar das suas fantasias.

sábado, fevereiro 05, 2005

O Bom Tempo

Queixamo-nos nós das elites - sobretudo das políticas.
Há pouco, ao seguir um noticiário de uma das nossas Rádios - a que liga Portugal - lá ouvi o RM da meteorologista de serviço, a prever chuva para os próximos dias e o "regresso do bom tempo" lá para terça ou quarta-feira.
A minha alma fica parva. É suposto tratar-se de alguém licenciada em curso relacionado com as várias geografias, logo com aberturas para a análise científica das consequências gravosas da actual evolução do clima, não só em Portugal, mas em todo o Planeta.
E o que diz ela? Que bom tempo é o céu limpo, temperaturas amenas, mesmo agora, no Inverno, altura em que, supostamente, deveria chover e fazer frio.
E o que diz o "locutor" de serviço da tal Rádio que liga Portugal ? Nada. Nada, porque ele não sabe que o país rural está suplicando aos céus por chuva e clamando junto dos poderes instituídos por apoios que lhe permitam manter os animais, as pastagens e a esperança de ter condições para lançar algumas sementes à terra.
Que maneira de ligar Portugal!
É claro que todas as outras rádios e todas as televisões estão a repetir o conceito de "bom tempo", desligando-o da ideia de chuva. Ora, a verdade é que, muitas vezes, a ideia de bom tempo não pode ser dissociada da de chuva.

O Debate - Comentários

Algumas vezes na minha vida tive este sentimento de "pioneiro", de alguém que dá alguma coisa de si para construir algo que pode servir a todos.
Desde os finais de Novembro de 2004, altura em que inaugurei este blog, cujo título devo a um amigo do coração, voltei a esse sentimento gratificante.
A blogoesfera é, na realidade, o futuro que começou ontem ( eu ainda estou a correr atrás do combóio, mas já com um enorme sorriso...). Na verdade, esta rede de cabeças que exigem continuar a apensar por si, representa a maravilha do nosso tempo. Um dia, estaremos todos ligados, não como no "Big Brother", mas a postos, para discutir ideias e sistemas para a sua execução ; estaremos capacitados para, finalmente, decidir um poder de gente sábia, em primeiro lugar, honesta, no mesmo plano, competente, logo a seguir, preocupada com os outros, antes de tudo.
Que me desculpem os meus pouco leitores estes desabafos.
Vêm eles a propósito de dois comentários que o meu post sobre o Debate entre SL e JS mereceram: o primeiro da DespenteadaMental, a quem cumprimento, tirando o chapéu, a imitar o gesto elegante do meu avô, que se recusava sair sem o dito, porque "não podia andar na rua à estudante".
Fui olhar o seu blog. Vou incluí-lo na minha lista de preferidos, porque não quero roubar aos que me visitam o prazer de a conhecer. E agradeço-lhe a rectificação. Ainda bem que José Sócrates disse que aquela entrada maciça de funcionários públicos, durante os governos de António Guterres, tinha o objectivo de rectificar situações irregulares de gente que trabalhava há anos par a FC a recibos verdes.
Foi pena, todavia, que não tivesse responsabilizado a "era cavaquista". Porque foram os "cavaquistas"os responsáveis pela deterioração da Administração Pública. Foi Cavaco Silva que fez todos os jogos para, no final de cada legislatura, ter o eleitorado na mão. Foi a sua gente que enriqueceu de forma escandalosa. Em notícia largamente documentada do "Expresso" de um ano e de um mês que não recordo ( e já não tenho paciência para pesquisar) foi apresentado o enriquecimento extraordinário de Manuel Dias Loureiro ( o tal que telefonou ao pai a dizer que já era ministro) e que, pouco tempo depois de chegar ao poder, tinha acumulado um património em Lisboa, de mais de um milhão de contos, tendo como base uma herança sem quantificação precisa, tão pequena era ela.
E ele não é caso único dessa década negra da história recente do nosso país.
E já que Santana Lopes e "sus muchachos" não param de falar dos seis anos de governação guterrista, era saudável lembrar aos portugueses os dez anos de cavaquismo.
DespenteadaMental, muito obrigado por me permitir este desabafo.
Quanto a LS, do Abnegado: também lhe agradeço a generosidade da partilha das suas ideias, dos seus textos. Já faz parte da minha rotina diária, uma visita ao seu blog.
Não deixa de ser curioso que ao ouvir Carlos Magno na Dois me tenha ocorrido a ideia: "ora aqui está um homem que só não é o Luís Delgado porque não teve a coragem de se assumir como um verdadeiro "carraceiro" do poder - é verdade que o o outro, o verdadeiro Luís Delgado, teve e tem, um patrão, o JLM, e o Carlos Magno anda sempre à procura de alguém".
Tem razão, LS, o carlos Magno faz lembrar um palhaço a quem o nariz "bola vermelha" não se ajusta, porque já tem uma séria dificuldade em confrontar-se consigo mesmo.
Mas, infelizmente, não é o único

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

O Debate e os Foruns

Ouço, a propósito do debate Santana/Sócrates as reacções habituais: os representantes dos patrões, dos trabalhadores, desde e daquele sector e os habituais foruns de algumas rádios. Toda a gente manifesta a sua frustração por não ter sido esclarecido, por não ter ouvido falar do que acha importante.
Nesta matéria (como dizem os políticos) os candidatos estão absolutamente inocentes. Os jornalistas, a quem cabia interpretar a opinião pública e fazer as perguntas adequadas, estiveram, como quase sempre estão, fora da realidade. Desta vez foram eles que se esqueceram do país e se imaginaram perante audiências de milhões - como na América.
Esta preocupação de amerecanizar tudo ainda nos vai levar a considerar o hamburguer como um prato regional do Alentejo.
Pelo exemplo de ontem, talvez possamos concluir que o país não está assim tão mau; os jornalistas que temos é que andam a representar mal o papel deles

O Debate

Enfim... lá se encontraram aqueles que, no dizer dos jornalistas de serviço, são os únicos com possibilidadedes de chegar a primeiro-ministro de Portugal. Santana Lopes e José Sócrates enfrentaram-se num modelo de debate "à americana". Isto é: uma espécie de tribunal com um júri a que só faltam as cabeleiras empoadas, com semáforos a cronometrar as ideias de cada um.
No final, nada de novo: Sócrates mais firme e Santana, cuja gripe lhe deu tempo para decorar uns números e tomar conhecimento de uns dossiês, a fugir às responsabilidades do passado e a pedir que o deixem continuar.
Venha lá o dia 20 porque já estou cansado.
PS - foi pena que o engº. Sócrates não se tivesse lembrado que as entradas de trabalhadores na Administração Pública nos governos do engº. Guterres serviram para regularizar a situação de milhares e milhares de trabalhadores que trabalhavam na função pública há anos a recibos verdes - uma situação que era da responsabilidade dos dez anos de governação cavaquista. Que diabo ! já que Santana Lopes continua a falar do passado... era só ir um pouco mais atrás!

Televisão Pública Pedinte

Dentro de minutos vai começar o debate entre Santana Lopes e José Sócrates. A realização deste acto político, sobre o qual há grandes expectativas, vai ser realizado num estúdio alugado à empresa privada Valentim de Carvalho.
A Televisão pública já não tem estúdios onde possa realizar um debate político entre os líderes dos dois maiores partidos políticos.
Estes são os resultados das políticas desenvolvidas pelo ministro Morais Sarmento (ver mais atrás, neste blog, a série de posts sobre Televisão).
A Televisão pública já não tem estúdios e, dentro de pouco tempo, não terá ninguém que saiba fazer televisão, já que a sua administração está a pressionar a saída de quadros da empresa com a promessa de contrapartidas espantosas a quem ceder.
Se um dia destes, o Presidente da República, numa qualquer situação de emergência, quiser fazer uma comunicação ao país via televisão, vai ter que perguntar à Telefónica espanhola se tem um carro de exteriores disponível.
Parabéns, ministro M. Sarmento.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

O Mapa de Bush

Para ser franco comigo e convosco, não acredito na possibilidade de Bush perceber que as suas palavras vão denunciando o mapa desenhado na cabeça dos ideólogos-escribas dos seus discursos
No último - sobre "o estado da Nação"- , além de garantir o costume, pediu dinheiro aos compatriotas - não a todos, mas aos que necessitam dos programas estatais de assistência social. Aos ricos, promete descidas de impostos. Mas... isso é com os americanos. Eles que votaram neles, que se entendam.
A outra, a questão do mapa, também é deles porque é lá que o dinheiro vai ser gasto, mas diz respeito a todos nós.
Vamos a ele, ao mapa:
No tal discurso ameaçou a Síria e o Irão, velhos membros do proclamado "eixo do mal". Não apenas ameaçou, prometeu ajuda aos "freedomfighters", sobretudo do Irão.
Olhe-se para um mapa e repare-se nas ligações fronteiriças: Síria, Iraque, Irão, Afeganistão, Paquistão...CHINA. Recordem-se as relações dos EUA com todos estes países.
Volte-se atrás e revejam-se as preocupações de Washington com a Turquia e, já agora, a importância das bases militares ali instaladas.
Tanta preocupação com os outros, com a liberdade dos outros, com os tiranos de outras paragens, não conduzem a uma única palavra sobre o que acontece, por exemplo, na Birmânia ou mesmo no Zimbabwé.
Um dia destes, com mais alguns sorrisos, e temos Bush a integrar a India no grupo dos países do "eixo do mal".
Os ideólogos de Washington andam a desenhar um mapa perigoso no sorriso idiota de Bush.
Espero que, ao contrário dos americanos, o resto do Mundo saiba ler nos lábios do texano fanático.

Fórmula 1 e Patrocínios

Se se trata de um crime passional, de um acidente, de uma suspeita de pedofilia, de um escândalo financeiro, da doença papal, de coisas assim, a comunicação social monta acampamento, fomenta o mercado da venda de cachorros quentes e cerveja. E se o escândalo ou a desgraça demora o tempo suficiente juntam-se aos vendedores de DVD's piratas os de chupetas para bébés.
Notícia é assim mesmo: complicada, a cheirar a sangue e lágrimas. As coisas simples ficam para adivinhar.
Por exemplo, hoje foi notícia em todo o lado: Tiago Monteiro vai correr na Fórmula 1 . Toda a comunicação salienta as qualidades do piloto - de que não duvido - para justificar a inclusão de um quatro português no chamado "circo da fórmula 1".
Há um jornal que, citando a porta-voz do piloto, refere que o contrato foi assinado, depois de resolvidas todas as questões com os patrocinadores em Portugal.
Ninguém fala do patrocinador que permitiu a Tiago Monteiro esta nova aventura na sua vida - oxalá lhe corra muito bem. E ninguém fala por duas razões: 1 - acham que seria publicidade gratuita; 2 - teriam que revelar os montantes do patrocínio.
E se o patrocinador é uma empresa de capitais públicos ? Vamos voltar ao caso de Pedro Lamy, patrocinado pela Portugal Telecom, então empresa pública, e que nunca chegou a revelar o preço de tal patrocínio, sujeitando-se à "verdade" dos boatos e dos rumores?
A informação correcta sobre esta participação de Tiago Monteiro nas corridas de automóveis revelará ainda uma outra circunstância desagradável: é que o piloto paga para correr. Os patrocínios são entregues aos construtores. Sem esse dinheiro não há "mais uma volta, mais uma corrida".
Na fórmula 1 é assim. Muito poucos são pagos para correr.

FUTEBOL E CULTURA

O principal da cultura são as coisas simples. As que fazem o dia-a-dia: a língua, o amar, os paladares, a música, o desporto e assim. Claro que a erudição também é cultura, tem até um patamar especial. Mas, por exemplo, o "Fátima, fado e futebol" diz mais dum povo de analfabetismo elevado, como o português, que referências à ilustração das suas elites.
É acto de cultura, portanto, falar do futebol português, de suas indignidades e inocências, negociatas e altruismos, lhanezas e caciquismos. E mais de cultura ainda pelas evidentes semelhanças com a acção dos agentes políticos quando exercem o poder, pela desvergonha destes quando se metem pelo futebol adentro na caça ao voto e pela cobardia que demonstram quando têm de se assumir em casos de dignificação da modalidade.
No futebol vê-se muito de Portugal e dos portugueses.
Atrevimento Jornalístico
Comparando "A Bola" com uma sociedade anónima de evidente simpatia da publicação, Vitor Serpa, que foi, para quem esqueceu ou não sabe, um modesto jornalista desportivo e hoje é o director, escreveu, como bom juiz em causa própria, em editorial:
"A dois dias de completar 60 anos, A Bola continua a ser um jornal de causas e um jornal místico. E isso só se tornou possível num jornal onde o mais importante ainda são as pessoas."
Grande ousadia, de facto!
Tirando o sinónimo de graça sobre-humana, a palavra mística, aplicada à folha de futebolês, só pode significar "fanatismo" ou "adesão entusiástica a grandes valores, a princípios ideiais".
Ora, só do titular e da paginação de "A Bola" se lhe vê a "grandeza" dos princípios. Se é para favorecimento de determinada sociedade anónima em detrimento de outras, o grande princípio é o fanatismo; se favorece para conseguir maiores vendas, logo maiores lucros, o grande princípio é conseguir dinheiro à custa do antijornalismo...
Aliás, "A Bola", de Vitor Serpa, pouco tem a ver com o "jornal de todos os desportos" que foi dirigido por Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis. Até fica mal a Vitor Serpa entrar por comparações desse tipo. E fica pior reclamar para um jornal a mística de um clube de futebol. É que o jornalismo tem dignidade própria, por sinal bem difícil de cumprir. Não precisa de mística emprestada.
A pobreza do dirigismo
Polícias, prisões, inquéritos, tribunais e suspeitas a rodos caem hoje sobre quem dirige os negócios dos futebóis como se um deus furioso se resolvesse a entornar enxofre sobre uma Sodoma desportiva. E não sabe da missa a metade!
Porquê?
Porque o dirigismo desportivo foi inundado por gente de passado duvidoso, por caciques consagrados e por analfabetos de ignorância atestada sempre que exprimem um pensamento. Pacóvios à procura de lugar na sociedade que julgam merecer por mérito das contas bancárias, como é típico nos chamados provincianos. Ou seja, não por serem da província, como a maioria da população, mas por limitação própria.
Por outro lado, para o ambicioso comum que se serve do futebol como trrampolim, vale tudo. Desde o lícito ao ilícito. De onde o caos desportivo, social, cultural a que se chegou - na esperança que polícia e tribunais consigam a dignificação necessária.
O problema da arbitragem
O árbitro, este árbitro que há, é uma consequência do ambiente degradado em que se enterrou o futebol. E que não se venha com o argumento de que os árbitros também erram na Inglaterra, na Escócia, em Espanha e assim. Erram sim senhor, e volta não volta bem se vê. Só que o problema não é de erro mas de percentagem. Além de que há erros e erros. Há o erro casual, há o erro por ignorância, há o erro grosseiro, e há o erro científico: o erro exacto na hora certa, o erro de preparação da "estocada" final, o erro para disfarçar e o erro praticado cientificamente num outro desafio, a quilómetros de distância, mas que também conta para a soma de pontos do campeonato.
Tudo isso é uma questão já com anos. E, por junto, entre berros e acusações, apuraram-se os casos Calheiros, Guímaro e poucos mais. Tudo de acordo com a vontade de não os encontrar.
Mudaram-se os tempos. A ver vamos se se mudaram as vontades.

Parabéns, Abnegado

Esta penosa queda é um texto que dignifica a blogoesfera pela intensidade que se desprende do encadeado de sentimentos que o seu autor consegue transmitir a quem o lê. Uma intensidade proibida na chamada imprensa livre. Parabéns ao Abnegado.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Misoginia Dominante II

Lembrando o que escrevi a 13 de Janeiro deste ano, não posso deixar de aconselhar Este texto .
Entendo que passa pela solução desta contradição própria de bárbaros a solução de alguns dos principais problemas da nossa sociedade. Sem que isso implique que os homens sejam menos homens ou as mulheres menos mulheres no seus papéis específicos. Pelo contrário.

Quem controla o que Se Come?

A medicina deu passos espantosos nos últimos anos. O país, independentemente de todas as dicussões políticas em torno da saúde e do assalto dos poderes financeiros à sua exploração, construiu um sistema de saúde com alternativas que a cada ano se valorizam e prestam melhores serviços à população.

Por isso se entende mal que as notícias nos apresentem as crianças e os adolescentes como estando em progressão na contagem dos doentes cancerígenos.

O cancro nunca foi entendida como uma epidemia da Humanidade porque, em regra, apenas atingia as pessoas que já tinham ultrapassado a idade da reprodução. Não parece que essa regra esteja a ser observada com o mesmo ávontade de há alguns anos.

Será legítimo desconfiar da alimentação, dos produtos sem controlo que cada um de nós compra para nossa casa?

Um dia destes abri uma embalagem de um produto alimentar que, no rótulo escrito em português, assegurava ser um produto importado da União Europeia. Todavia, o texto em alemão, garantia ser um produto importado da China. Em que ficamos?

Os alemães importam produtos em que não confiam e depois exportam-nos para países onde não há controlo efectivo dos produtos postos à venda? Portugal é um desses países?

domingo, janeiro 30, 2005

Leituras de Fim de Semana - Sábado

Por uma vez. Procuro outras leituras. Passo na Tabacaria e " As Aventuras do Miguel" levaram-me à compra. A leitura foi uma surpresa: "MEC na Sábado". Um membro da direcção diz que Miguel Esteves Cardoso é um génio do jornalismo português. Génio ? do jornalismo português ?
Até acredito que o MEC tenha carteira profissional, mas, apesar de todo o respeito que tenho por ele e pelas suas crónicas, penso que nunca tenha ido à procura de uma notícia, de uma reportagem. Entrevistas? sim, algumas. E uma delas é publicada nesta edição de "Sábado"- feita a Francisco Louçã.
Eu não a apresentaria como exemplo de entrevista. É mais um exercício literário, esteticamente perfeito, mas duvidoso do ponto de vista ético, sobretudo porque, logo a seguir, diminui o seu entrevistado numa crónica completamente reprovável, embora de bom estilo.
De resto, não é apenas MEC que trata mal Louçã. A direcção da revista ataca o Bloco de Esquerda, retirando do contexto frases do seu dirigente para, com uma forma verdadeiramente infantil, ingénua, "assustar" a classe média com o fantasma da "ruptura com o capitalismo" e as alterações ao "modelo de sociedade".
Lendo esta espécie de editorial percebe-se o fascínio da Direcção pela presença de MEC.
A leitura da entrevista do Ferreira Fernandes ao Miguel Sousa Tavares compensa. Ainda bem que nenhnum deles é apresentado como génio. Acredito mesmo que, continuando a escrever tão limpo como escreve na sua coluna de opinião, na última página da Revista, Ferreira Fernandes venha a ter algumas dificuldades em conviver com tanto génio.

As Novidades da Lusomundo

O Expresso publicou "A NOTÍCIA": Luís Delgado é candidato à compra da Lusomundo, na sua condição de colaborador da empresa. Ora aqui está uma verdadeira novidade - que se soube mesmo antes de Luís Delgado ter sido imposto por Morais Sarmento ao BES e à Comissão Executiva da PT como presidente do grupo de Media.

Esta novidade já está escrita num post deste blog do dia 1 de Dezembro de 2004 e em alguns outros, a seguir. Donde virá o dinheiro a Luís Delgado para a operação? O Expresso não será capaz de descobrir?

E a Bolsa de Valores de Lisboa será capaz de encontrar nesta operação de lançamento de MBO uma actuação concertada dentro da estrutura decisora do resultado final?

E a Comissão Executiva da PT vai continuar a deixar-se pressionar?

E os accionistas da PT? Que podem fazer eles?

Leitura de Fim de Semana - Público

Helena Matos assina na edição de Sábado um texto notável, lembrando o essencial e o acessório da política, nomeadamente nesta fase de campanha eleitoral, em que os principais dirigentes dos partidos políticos portugueses se afadigam a falar de coisa nenhuma, deixando para trás o tanto (importante) que existe para tratar acerca da vida da nossa sociedade, organizada no mais antigo estado da Europa.
O mais antigo e, seguramente, aquele que reproduziu a sua Nação por mais Mundo, espalhando gente pelas sete partidas.
No seu texto, "A Natureza do Mal", a cronista clama contra a tentativa de os "líderes independentistas" espanhóis procurarem "obter em Portugal o reconhecimento tácito do seu estatudo de chefes de Estado".
Lamenta que Santa Lopes, na última reunião cimeira luso-espanhola tenha permitido ser tratado ao nível dos presidentes das comunidades autónomas de Espanha e que, nem ele, nem Sócrates se pronunciem sobre o que Josep Carol Rovira, líder da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) veio dizer a Portugal sobre o nosso próprio Estado: que devemos preparar-nos para um futuro de mera região ibérica, no quadro de um" Estado multipolar".
A indignação de Helena Matos tem toda a razão: os principais dirigentes deste país - principais porque disputam a possibilidade de nos governar - esquecem-se, perigosamente, de que a política tem a ver com a boa governação dos povos e não com interrogações ao espelho ou à fita métrica.
Ao sr. Rovira terá que haver alguém a lembrar que Portugal não é apenas o mais antigo Estado da Europa, mas aquele que fez sair o velho continente do seu confinamento miserabilista e doentio. Alguém que diga, com voz grossa, que na Península Ibérica existem e vão continuar a existir, pelo menos, dois Estados. Não nos misturem na confusão e nos erros dos espanhóis.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Os Resultados da Crise

A crise política portuguesa, que já se arrasta há demasiado tempo, está a ter consequências verdadeiramente surpreendentes. Em alguns casos, delirantes. Atente-se na repentina capacidade de unidade dos patrões - todos juntos para pressionar o poder político, que ainda não rstá definido, mas cujo retrato começa a ser pintado nas sondagens tornadas públicas e nas outras também.

É um verdadeiro desaforo porque aparecem em alturas de crise a apontar as pistolas, de rostos façanhudos, a exigir menos despesas sociais, menos estado, cada vez menos, mas não explicam onde meteram os resultados de trinta anos de trabalho com um taxa de produtividade que eles nunca especificam.

Estes mesmos patrões que aparecem a condicionar o poder político, a sair da vontade livremente expressa pelo povo, não explicam as falências fraudulentas, a má gestão das empresas, a pouca qualificação dos seus quadros e trabalhadores. Não explicam os seus altos níveis de vida, seus e dos seus gestores.

Não explicam, mas exigem. E fazem-no porque já dominam quase tudo.

Já é tão evidente o seu domínio sobre a Comunicação Social que uma das revistas deles apareceu com a ideia delirante de constituir "um governo de sonho" em que aparecem alguns nomes de gestores considerados grandes sumidades.

A Revista, que se chama Exame, só não fez uma coisa, as contas. Quanto custaria um Governo daqueles?

O Estado teria dinheiro para lhes pagar?

Até porque alguns deles começariam por estabelecer percentagens comissionistas sobre todo os negócios em que participassem.

A Surpresa do Apoio de Freitas do Amaral

Este país parece não ter memória. Freitas do Amaral escreve um texto numa revista nacional a apoiar (mais do que apoiar, a pedir) uma maioria absoluta para o PS nas próximas eleições legislativas e toda a gente faz um ar espantado. Paulo Portas, inclusivé, diz que aquele não é o Freitas que ele conheceu.
Portas ainda andava de calções - ou bibe? - e já Freitas do Amaral fazia alianças com o PS. Esqueceram o governo PS/CDS, com Salgado Zenha a dar a cara para defender a iniciativa, classificando o CDS como partido do centro-esquerda?
Além disso, o próprio Diogo Freitas do Amaral, num daqueles programas televisivos para recordar os primeiros anos pós 25 de Abril, disse -não mandou ninguém dizer por ele - que Mário Soares o tinha incentivado a formar o CDS.
É evidente que a estratégia, nessa altura, era do secretário geral do PS: queria dividir a direita.
Mais tarde, quando foi necessário indicar alguém para Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Mário Soares indicou quem ? Diogo Freitas do Amaral.
Mais história: o PSD de Cavaco Silva não pagou a parte das contas que lhe cabia da campanha para a Presidência da República em que Freitas defrontou Soares. E ele assumiu o compromisso de as liquidar pessoalmente, com os proventos obtidos através dos seus pareceres jurídicos.
Mais ainda? Depois da vitória da AD, com Sá Carneiro, o PPM e a ASDI, o CDS ficou reduzido a um partido de taxi. E porquê? porque Pinto Balsemão, na sequência da morte de Sá Carneiro, não chegando a ser igual a Santana Lopes, andou lá perto.
Além da história, há a consciência cívica de Freitas do Amaral. Só os cidadãos sem consciência cívia hipotecam o seu voto a um cartão de partido, como se de um clube de futebol se tratatasse, assim como aquele que conta em público que no dia seguinte a ter nascido era sócio do Sporting.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Engano dos Números

Quando chegou ao poder em Lisboa, o ex-presidente da Figueira da Foz teve uma única preocupação: esconder os números, mistificá-los, para, desse modo criar, à semelhança do que fez na cidade de onde viajou para várias voltas ao Mundo, de automóvel, um oásis que levasse os portugueses a dar-lhe um mandato de, pelo menos, dez anos.
Par esse desiderato encontrou o parceiro ideal: António Bagão Felix, que já tinha enganado o pessoal na Segurança Social.
E assim, os dois, de mãos dadas, foram apresentando números cada vez mais optimistas, até que... afinal a receita fiscal não só não subiu 4,5 por cento, como até desceu 0,5 por cento.
É um hábito português: enganamo-nos uns aos outros com os números e com as percentagens. Somos peritos em manobrar percentagens. Mas não só.
Atentemos nas facturações de Dezembro das grandes empresas prestadoras de serviços. Os enganos que acontecem, sempre no sentido de aumentar os valores que lhes permitam apresentar melhores resultados do que os que realmente têm.
Mas não só: há empresas que param os pagamentos aos fornecedores a partir de Setembro. Para quê? Para apresentarem, com as necessárias engenharias financeiras, grandes resultados no final do ano. Os tais resultados que justificam os altos prémios de desempenho no cumprimento de objectivos.
Não é apenas no Estado, portanto. Também as grandes empresas mistificam os números. E estas com um objectivo provavelmente fraudulento.
E, se no Estado há a possibilidade de um novo governo pôr tudo a claro e iniciar uma nova vida, nas empresas ninguém arrisca, porque desmontar as engenharias financeiras de anos e anos pode significar o descalabro.
Foi este país e esta gente que nos coube em sorte. Que havemos de fazer?
PS. tenho recebido alguns e-mails que me interrogam sobre a razão por que trato o actual primeiro-ministro por ex-presidente da Figueira da Foz. Eu explico: é que foi a única coisa que ele fez na vida. E mesmo assim mal. Não chegou ao fim de nenhum outro mandato ou de qualquer outra tarefa.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

A Blogoesfera

Leio os jornais, ouço as rádios, vejos as televisões e volto ao computador, para a blogoesfera, onde encontro informação clara, comentários esclarecidos, poetas inspirados, fotógrafos com objectivas limpas.
E isto lembra-me a rede clandestina de cultura e informação que se desenvolveu na antiga União Soviética, à margem do poder instituído e que, aos poucos, foi impondo a exigência de uma informação que retratasse o mais possível aquela realidade e a do resto do Mundo.
A União Soviética começou a desmoronar-se quando atirou a informação do estrangeiro para os envelopes fechados dos correspondentes da TASS e a realidade nacional para as catacumbas dos intelectuais proscritos.
A comparação ainda está longe mas já ocorre, quando se leêm os nossos jornais, se ouvem as nossas rádios e se veêm as nossas televisões Eles retratam um regime tão fechado à volta de interesses de minorias tão parasitas como as do aparelho de poder da União Soviética.
A diferença, para além das dimensões, está, sobretudo, na aparência. Para quem não frequenta a blogoesfera, a comunicação oficial, de papel passado, parece livre e democrática. E colorida!

O PORTUGAL DA POLÍTICA

De modo geral toda a actualidade política é feita de coisas velhas. E loisas também. Realidades velhas, ideias velhas, métodos velhos e políticos velhíssimos: até os novos, envelhecidos que são pelos vícios em que mergulham ao iniciar funções. Vícios institucionalizados.
Posto isto falemos de modernas velharias portuguesas.
O bafo duma onça chamada George
O poder é tão poderoso que até manda da distância. Realidade a caminho da eternização. Basta existir para ser obedecido. Até por adivinhação do seu pensamento.
Perceba-se agora a razão profunda da escolha de Durão Barroso para a presidência da União Europeia. Ou, o que é o mesmo, perceba-se a utilidade de ter servido café a Bush. O célebre café dos Açores, tão gozado na Europa mas que se tornou decisivo na preferência, ao fim de quatro tentativas, dada a um pardilho (sinónimo de pardacento, que politicamenmte era, e de cherne, como se soube por uxoriano anúncio público) lusitano.
Pardilho esse que foi, em consequência, juntamente com armamentistas, petrolíferas e assim, um dos raros e felizes contemplados com a desgraça do Iraque. Um tsunami que já vai em mais de 100.000 mortos, já se prolongou por mais de um ano e já se anuncia sem paz à vista, mas sorte grande para quem conseguiu um vencimento patriótico.
Ora, para tanta felicidade de Durão, bastou o bafo que talvez a onça não tenha dado. Mera suspeição dos seus capangas da U.E. .
La Fontaine, se fosse vivo, poderia construir, a partir daqui, a fábula do bafo adivinhado.

O PORTUGAL DA POLÍTICA

A Tragédia de Santana
E lá seguiu sacrificado ao interesse da pátria, o ex-esquerdista transmutado em neoconservador, oferecendo um país em crise ao seu ex-adversário, transmutado em companheiro neoliberal, Santana Lopes. Que, inocente, delirou com o presente envenenado.
Mas com muito veneno. Encapotado um, descarado outro, de dentro do partido, de fora dele, de membros da coligação, de adversários da mesma, enfim, comunistas, socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos, de todos os lados largaram vespas a ferrar em Santana. Exposto numa cruz de Santo André.
Contudo, as maiores ferroadas, pelo menos para magoar mais, partiram de pardos como Durão, de políticos que mudaram de valores. E mudaram porque para se calcorrearem os pedregosos atalhos que separam Mao ou Lenine de um Bush é fundamental, antes de mais, mudá-los. Vender a alma ao Diabo.
E é, pelo menos, de estranhar tanta agressividade partida de quem defendeu as atitudes de Bush, de quem lhe aceitou a insolência, de quem lhe perdoou as agressões aos direitos humanos, de quem lhe compreendeu as mentiras, de quem alinhou com as suas agressões ao direito internacional, de quem inventou justificações para as suas ambições político-imperiais, de quem o absolveu, e absolve, da sua pobreza mental.
De estranhar porque Santana Lopes é muito mais democrata que Bush, muito mais humano que Bush e, fundamentalmente, muito mais civilizado que Bush. Em verdade, e resumindo, muito mais pessoa.

O PORTUGAL DA POLÍTICA

A Razão de Sampaio, no entanto

Ora, mesmo precisamente por Bush ser, como pessoa, tão pouco é que o ser, comparativamente, mais que ele não basta para credenciar politicamente alguém.

Sampaio tinha mesmo que demitir Santana.

Encheu o seu mandato de vacilações. O que suportou a Rocha Vieira e, principalmente, a Alberto Jardim, ultrapassou até os limites do aceitável. Não tem margem para se repetir.

Faltava-lhe espaço, até moral, para deixar a inabilidade política (populismo não quer dizer talento) e escassez de conhecimentos de Santana Lopes, aliada à farfalhice de Paulo Portas, à rédea solta durante os últimos meses de presidência.

Ninguém é capaz de fazer ideia exacta do que aconteceria no país com a dupla Santana/Portas a governar dominando a A.R. e sem a tutela do P.R.. A balbúrdia dos escassos meses que levam do exercício do poder não auguram nenhum sossego.

E um país não é propriamente um parque de recreio. Para além de que um populista despassarado como Santana, no exercício das funções de primeiro-ministro, corresponde à imagem do homem errado no lugar errado. Da bagunça no poder.

Até já mostrou que sim!

segunda-feira, janeiro 24, 2005

A Destruição do Audiovisual

Já aqui foi dito que uma das razões por que a Televisão Portuguesa continua com uma qualidade impossível de comparar com qualquer outra europeia tem a ver com a destruição do audiovisual português. É que o ministro Morais Sarmento, enquanto retirava capacidade de produção à RTP, a verdadeira escola nacional de Televisão, entregava a produção televisiva a grandes grupos internacionais .
Quem são eles?
Grupo Telefónica (espanhol), onde estão incluídas as empresas Endemol, Gestmusic, Sonotech, United Broadcast, Telefónica e outras pequenas empresas-satélite, constituídas especificamente para a concretização de determinados contactos ou projectos.
A GesteMusic, por exemplo, só se radicou em Portugal para produzir e realizar a "Operação Triunfo", tendo abandonado o país quase tão vertiginosamente como se implantou.
Entre outros conteúdos, o Grupo Telefónica é responsável por grande parte dos Reality-Shows (Big Brother, Big Brother dos Famosos, Quinta das Celebridades), concursos (Quem Quer Ser Milionário, o Elo Mais Fraco...), Academia das Estrelas (Operação Triunfo), grandes séries, gravação de concertos, algumas transmissões desportivas, etc.
Grupo Media Luso (espanhol) - Apenas duas ou três grandes empresas constituem este grupo, a Media Lusa, Media Burst e a Media Pro, que detêm, quase em exclusivo, todo o mercado das transmissões desportivas nacionais, nomeadamente, o futebol.
A entrada deste grupo em Portugal está, de resto, rodeada de alguns aspectos menos claros, no que respeita aos meios técnicos utilizados e ao pessoal contratado.
Grupo NBP (Colombiano) - A actual NBP pouco ou nada tem a ver com a empresa produtora inicialmente constituída e hoje há alguma dificuldade em determinar, com exactidão, a nacionalidade dos capitais envolvidos, nomeadamente porque não é possível saber o destino que teve o Grupo Bavaria e os fundos ingleses e americanos, inicialmente envolvidos na Media Capital e na TVI.
Após alguns anos de graves dificuldades económicas, a NBP lidera, hoje, em Portugal, a produção de Telenovelas. Continua a produzir, quase em exclusivo, para o mercado nacional por não ter motivado qualquer interesse significativo no mercado externo. Apesar disso, a NBP parece póspera e com grandes projectos para o futuro.
Fremantle - Trata-se de um grande grupo internacional com um representante em Portugal e que faz aprovar, sempre que se proporciona, programas de entretimento, testados e rodados no mercado externo. A produção e os meios técnicos ficam a cargo de uma das empresas nacionais ou estrangeiras, especializadas neste tipo de serviço.
A Portugal Telecom - É um caso único no panorama Audiovisual Europeu.
O Grupo PT tem, na prática, a propriedade efectiva e o controlo da infraestrutura de distribuição do sinal de Cabo.
Tem o quase monopólio da distribuição desse sinal através de um conjunto de empresas que cobrem quase todo o espaço nacional e, na prática, desvirtua os princípios básicos das leis do mercado.
Controla, ainda, os conteúdos transmitidos por via dos canais que selecciona para distribuição pública, não implementando alternativas técnicas que permitam aos assinantes do serviço escolher livremente o conjunto de canais que pretendem receber, dos mais de duzentos a que o grupo tem acesso.
Controla, directamente, os conteúdos de alguns dos canais que transmite e de que é o principal responsável editorial.
Controla a organização da própria oferta do cabo, o chamado" pacote básico", que altera sistematicamente e sem razão plausível, favorecendo alguns canais - escandalosamente todos os canais do grupo SIC - prejudicando outros, sobretudo a RTP e a TVI, retirando da grelha canais de interesse público - M6 - e substituindo-os por autênticas aberrações de interesse e gosto mais do que duvidoso (Vivir, televendas, etc).
Finalmente, controla o mercado publcitário dos canais do cabo, não generalistas, através de contratos de concessão a longo prazo, tudo na ausência de legislação que estabeleça regras, e com a conivência efectiva das entidades reguladoras, a Alta Autoridade para a Comunicação Social e a ANACOM.
Estamos, portanto, perante meia dúzia de grandes produtores ou grupos de produção que, globalmente, controlam a esmagadora maioria do volume de negócios da Televisão Portuguesa e, por esse meio, os próprios conteúdos produzidos.
A maioria das pequenas e médias empresas de produção nacional está à beira da falência, não tem mercado de programas que justifique o investimento e a actualização tecnológica, não dispõe de quadros especializados, não tem projectos nem perspectivas de poder vir a, num futuro próximo, realizar contratos que lhes permitam sobreviver.
Estão "entalados" entre os "grandes produtores" e as empresas de "vão de escada", cuja proliferação se acentuou a partir da entrega do canal 2 da RTp à chamada sociedade civil.
Ao contrário do que se passa no resto da Europa, em que se priveligia a constituição de pequenas e médias empresas, altamente especializadas, a concentração que se verifica em Portugal tem impedido o desenvolvimento tecnológico da grande maioria das empresas, a especialização dos seus quadros técnicos, actualização dos meios e sistemas de produção, enfim a prossecução de um projecto industrial, cultural e de produção autónomo, nacional e participado.
É por isso que hoje não se produz ou realiza, em Portugal, qualquer projecto televisivo inovador, não se conquista uma única parecela de mercado internacional, não se exporta um programa, não se vende uma ideia ou conceito, não se participa em nenhuma grande produção.
Nenhum projecto televisivo dura mais do que uma época (grelha de Verão ou de Inverno), os contratos de produção nunca excedem os seis meses de duração, não há projectos a médio ou longo prazo, as empresas não possuem especializações, não têm capacidade de rentabilização dos meios técnicos e humanos envolvidos, vivem sistematicamente à beira do colapso económico e financeiro.
A maior parte das empresas desconhce as regras de funcionamento do sistema, acreditam que o modelo implantado em Portugal é comum aos restantes países europeus, não desenvolvem parcerias internacionais, não têm capacidade financeira para participar de feiras, exposições e inovações que o normal desenvolvimento do sector impõe, estão completamenmte alheadas do que realmente se produz na Europa, estão quase tão isoladas, em termos internacionais, como durante o anterior regime.
Sr. Ministro M. Sarmento, espero que ainda esteja aí, para lhe explicar que o o sr. não foi um minisitro esforçado, inovador ou porra nenhuma. O sr. condenou um sector importante da vida portuguesa à estagnação. O senhor é responsável por uma grande fatia do desemprego que nos assola. O senhor nunca devia ter sido ministro de coisa alguma.
Teria muito mais a dizer-lhe, mas sabe: tenho um blog e a maioria dos meus leitores já está um bocado cansado desta matéria. Ficamos por aqui, mas não apareça em campanha a fazer do grande homem que salvou a televisão do caos e não sei de que mais!

A Desregulamentação da Televisão em Portugal

O sr. ministro Morais Sarmento devia, de facto, ter feito algum esforço e recorrido a uns acessores criativos para perceber onde estaria a importância do seu papel como entidade tuteladora da Televisão.
Devia, por exemplo, ter obrigado os vários operadores do ramo a cumprir um conjunto de disposições que já se encontram regulamentadas.
Todos eles deviam ser obrigados a cumprir, integralmente, o Contrato Programa que assinaram com o Estado Português e que legaliza as respectivas autorizações de emissão e distribuição de sinal.
Deviam, igualmente, respeitar os diplomas e regulamentos em vigor e que regem o sector Audiovisual, sob pena de lhes serem aplicadas coimas de valor suficientemente exemplar, já que não tem significado a aplicação de uma coima de valor inferior ao lucro que a contravenção proporciona.
Em simultâneo, devia ter estabelecido um novo quadro legal do sector, mais ajustado à realidade decorrente das evoluções tecnológicas recentes, que introduziram no mercado novos produtos: canais distribuídos por satélite e fibra óptica, canais privados e empresariais.
Quanto à Televisão Pública devia ter-se apoiado nas conclusões da comissão independente que convidou e depois desprezou para definir um modelo de televisão e, em seguida, criar uma estrutura técnica e uma direcção administrativa e de conteúdos, de informação e programas adaptadas ao modelo escolhido.
O que é que aconteceu com o sr. ministro M. Sarmento?
A RTP mudou de instalações próprias para umas instalações alugadas, sofreu uma "profunda reestruturação", cujos resultados ainda não são visíveis, mas que, pelo que se passa em sectores vitais da empresa, poderão ser os piores.
Mais alguma coisa, para além da continuada protecção aos canais de Pinto Balsemão, que, de resto, já vinha de trás?

A Televisão do Nosso Descontentamento - Programação

As políticas de "grande esforço e inovação" do ministro M. Sarmento na Televisão não são responsáveis apenas pelo baixo nível da nossa informação televisiva. Eu diria que elas são, sobretudo, a causa do baixíssimo nível da programação de todos os canais portugueses.
Olhemos para o panorama geral das grelhas de programas emitidos pelas televisões portuguesas, cujas diferenças existem apenas nas bengalas em que cada uma delas se apoia: a SIC numa batelada de telenovelas produziadas pela TVGlobo, a TVI nas suas próprias telenovelas e a RTP em concursos já gastos e revistos.
Logo pela manhã, há um tempo de informação e entretenimento, na RTP1, "Bom dia Portugal", na TVI, "Diário da Manhã".
Seguem-se nas três cadeias longos "talk-shows", conversa de estúdio, sobre tudo e coisa nenhuma, com participação do público, geralmente remunerado a custo reduzido, dois ou três "especialistas convidados", figuras de quinto plano.. A opção está entre acompanhar o Jorge Gabriel (RTP1), a Fátima Lopes (SIC) ou o Manuel Goucha (TVI).
Às 13 horas, os noticiários, longos de mais de uma hora e sem qualquer critério editorial - adopção cega do modelo tabloide.
Às 14 horas todos eles adoptam pela repetição de séries, que, às vezes, já vão na quinta e na sexta repetição. Segue-se mais um talk-show em cada um deles. Só a partir do meio da tarde é que recorrem às tais bengalas, o que dá a aparência de programações alternativas.
À noite, depois de mais um longo jornal de pelo menos uma hora, com os critérios já descritos, lá vêm, na SIC e na TVI, programas de anedotas. O mesmo esquema deverá estar a ser seguido pela RTP 1, que, entretanto à falta de tal alarvidade, e por agora, apresenta uma série de produção nacional, de excelente qualidade "Ferreirinha" - uma honrosa excepção em alguns anos.
A seguir às anedotas e à tal série, a SIC e a TVI voltam às telenovelas e a RTP1 aos concursos.
Porquê uma tão confrangedora grelha de programas? Por uma questão de redução de custos? A situação financeira em que se encontra a generalidade das cadeias de Televisão em Portugal não justifica, minimamente, as opções editoriais e de programas adoptadas.
Repare, sr. ministro, vou começar a explicar-lhe: como há alguns anos afirmava o realizador brasileiro, Walter Avancini, o problema da Televisão Portuguesa é de natureza cultural e resume-se à falta de qualquer projecto cultural para o país e consequentemente para os diversos órgãos de comunicação social.
O sr. achou que esta coisa de televisão se resolvia com a entrega da produção televisiva a grandes grupos, sobretudo se fossem estrangeiros, e atirou o audiovisual português para as urtigas, estrangulando a capacidade criadora que as pequenas e médias empresas detinham para alimentar as cadeias televisivas.
O ministro Morais Sarmento não percebeu que a televisão representa o mais poderoso instrumento de divulgação cultural e entendeu apenas a sua condição de principal aparelho ideológico do Estado. Daí que, a certa altura, se deu ao desplante de afirmar que o Estado o devia controlar inteiramente, porque "os jornalistas não vão a votos".
E a verdade é que não desistiu da ideia: basta olhar os telejornais da RTP 1 e perceber as manobras com alguns programas, que podem ser considerados incómodos para o actual poder, como é o "Contra-Informação", um caso raro e notável de sobrevivência perante os ataques demolidores do ministro Sarmento às pequenas e médias empresas de audiovisual.