segunda-feira, março 21, 2005

Faço-me Entender?

A SIC-Notícias, um fenómeno, se considerado sob vários pontos de observação, mantém um programa, que é um remake de uma edição radiofónica da TSF - nos tempos em que esta foi inovadora . Manteve ao longo dos anos os mesmos intervenientes, com ligeiras alterações, à direita.
Havia, até à última semana três totalistas: Pacheco Pereira, José Magalhães e Carlos Andrade.
A "Quadratura do Círculo" é uma aberração. Desde logo porque dá voz a Pacheco Pereira, que nos entusiasma quando parece ter-se libertado da política partidária, mas que fica corno, a sério, quando perde. Depois porque reduz o Carlos Andrade a uma espécie de imitador do Pacheco Pereira, sem coragem para defender as suas próprias ideias, a fazer o papel idiota do jornalista isento, que já não existe, e não foi imaginado para o original daquele programa.
José Magalhães, agora secretário (ou sub) de uma coisa qualquer, foi sempre, naquele programa, ora o cepo das marradas do corno, ora o palhaço que divertia os representantes da outra direita - sem complexos de alguma vez terem pertencido a correntes de pensamento preocupadas com as pessoas.
Eis que José Magalhães cumpre o destino e é substituído por Jorge Coelho.
Porquê Jorge Coelho?- perguntam-se as pessoas que ali o veêm.
Eu cá também não sei.
Cap.II
O Contra-informação, outro programa de televisão ( no canal público), talvez com outra lógica, parece vender bonecos (agora o Expresso anunciou que o "barão" Miguel vai aparecer e há já gente a perguntar quanto é que o barão - PT - pagou pelo cast) mantém Jorge Coelho como figura de primerio plano no elenco. A que propósito?
Oh! Mafalda! o Jorginho foi varrido. Não tem papel.
O que significa tudo isto?
Que o Jorge Coelho transferiu do governo de Guterres a força necessária para manter as dúvidas quanto à sua capacidade de influenciar o que quer que seja?
Eu não gostaria de responder - doutro modo teria que explicar os "boatos" que dão como certo o Murteira Nabo na presidência da GALP.
Faço-me entender?
Por que razão estes negócios e estas razões são, em Portugal, tão claros?

quinta-feira, março 17, 2005

Mercado alucinado

Alucinado devo estar eu, não o mercado,que eu queria marcado.
Bom! Vamos por outro lado. Ainda recentemente li por aqui uma citação poética muito bonita:
"...uma bola colorida entre as mãos (...)"
E fica-se a sonhar com imagens bonitas, à espera de reconhecer que "o mundo pula e avança".
Mas ou é impressão minha ou o homem anda a sonhar demais e o mundo fica indeciso entre pular e zarpar.
Como os leitores estão fartos de saber a farmácia da aldeia é uma instituição. Na minha, o farmaceutico é um pacholão. Além de saber, ao pormenor, a vida de toda a gente da redondeza,
cuida dos clientes sem cobrar pelo uso da seringa ou de medir a tensão. E, de repente, ficou tão atarefado que nem visto. Mudou as prateleiras, empurrou o balcão, alargou uma portade forma a ter-se acesso a outra sala.
Espantei-me e perguntei-lhe o que é que se estava a passar. Ele explicou que estava a preparar-se para as novas regras de mercado. Tencionava alargar o negócio e vender produtos hegiénicos e dietéticos que não exijam prescrição médica. E mostrou-se um canto onde vai vender vinho alentejano a copo, Cerveja também vai vender, mas só muitro gelada. Vai ter, também, outros produtos de dieta especial, como presunto de Chaves, morcela das Beiras e alguns enchidos de Mirandela. Whisky, também, mas apenas escocês.
- E daquele outro lado do balcão? - perguntei.
- Oh!, ali vai ser a agência de viagens! - E sem ligar a minha cara de pasmo, prosseguiu: - Vamos organizar viagems a Badajoz e à Suiça, para os casos de interrupção voluntária... Na outra sala, ali, vamos vender bilhetes prá Bola...
Eu abanei a cabeça cheio de compreensão pelas modernices e perguntei-lhe em que canto eu podia levar a injecção semanal. Ele abanou a cabeça:
- Oh!, menino, isso não. Uma farmácia não pode servir para tudo... Ali o vizinho do talho tem sala vaga e vai vender injecções, dar massagens e tratar das artroses...

Cabo Verde Na União Europeia

Hoje, dois dos chamados "monstros" da política portuguesa juntaram-se para defender, cada um a seu modo e pelas suas razões um projecto que a muitos poderá parecer louco: a adesão de Cabo Verde à União Europeia:

(ora, aqui está um tema que a Comunicação Social portuguesa bem poderia ter destacado nos seus noticiários - e até não custaria muito dinheiro; é apenas uma questão de atenção, cultura, informação...e pouco mais)

Mário Soares e Adriano Moreira (ou ao contrário, a ordem dos factores é arbitrária) lançaram na Sociedade de Geografia de Lisboa a ideia: Cabo Verde é um país independente, regido por um sistema político democrático, governado por um Estado que pode considerar-se uma pessoa de bem, onde são respeitados os valores fundamentais das liberdades política, religiosa, de oportunidade e todas as outras e, além disso, depositário dos valores mais importantes da civilização europeia.

Cabo Verde - acrescentaram os defensores do projecto - representa a extensão da Europa no Atlântico Sul, onde a sua posição estratégica é fundamental para a Europa no seu todo ( se não disseram isto foi porque se esqueceram) - logo, a Europa e os próprios cabo-verdianos devem preparar-se para este casamento em que toda a gente ganha.

Só me resta uma curiosidade: por que espera o Governo de Cabo Verde, chefiado por um homem, em tempos classificado como "o futuro de CaboVerde", para lançar uma verdadeira campanha de mobilização do país para atingir este objectivo proposto por dois verdadeiros senadores europeus?

Proponho um slogan: "Por Amor à Nossa Gente, Queremos A Europa Connosco".

Então, Zé Maria, esperamos, ou arrancamos? Olha o Renato gingando, enquanto fala: "nós também somos europeus..."
Ficar amarrado a atavismos em nome de pruridos ideológicos ou a medos de solidariedades impossíveis não resolve problemas.

Cá Se Fazem Cá Se Pagam

De vez en quando acontece: algém divulga números e estabelece tabelas (os media dizem "rankings") . Hoje foi a vez de hierarquizar a valoração que os vários povos dão - ou não dão - aos e(i)migrantes.
O lugar de Portugal é uma vergonha. Só os gregos são mais xenófobos e racistas que nós. Todos os jornais, rádios e televisões o repetem, à falta de verbas para assuntos próprios nas respectivas agendas.
Espantados?
De que se espantam?
Os portugueses nunca respeitaram ou admirararm os seus próprios emigrantes - pelo contrário, sempre os invejaram , exploraram e vilipendiaram. Por que razão haveriam de respeitar os imigrantes, de quem têm medo? Um medo explicado apenas pela diferença...
É tempo de deixar cair o mito: não somos um povo não racista, nem acolhedor para quem precisa de nós. Apenas sabemos ser subservientes, afáveis e simpáticos para quem nos usa.
Esperavam o quê dos números, uma máscara?
Cá se fazem, cá se pagam.

quarta-feira, março 16, 2005

"As Terríveis Questões" Portuguesas

Dois Jornalistas- ainda os há, e dos que não abdicaram da função mais nobre do jornalismo, opinar - na edição de hoje do "Público" tratam, cada um à sua maneira, a questão da confiança da sociedade portuguesa.
Tereza de Sousa, pelo seu lado, e muito bem - em texto que seria um ponto de partida excelente para a discussão da natureza do poder que nos rege, da sua fundamentação e legitimação - verbera o facto de o Estado, na sua versão mais visível, a Administração, tratar o cidadão comum como gente que não merece confiança, passando-lhe, permanentemente, "um atestado de menoridade.
A articulista demonstra, exemplificando, que essa desconfiança sistemática não é apenas uma manifestação de menor respeito pelos direitos dos cidadãos, mas também se traduz em prejuizos para todos nós. A conclusão deste texto pode ser a de que valeria a pena tentar uma administração baseada na confiança e assente no princípio de que cada cidadão é uma pessoa de bem, contrapondo às excepções pesadas punições legais.
Pelo seu lado, José Vitor Malheiros analisa o discurso de tomada de posse de José Sócrates, acompanha os vários raciocínios tornados públicos sobre a nomeação de Freitas do Amaral como ministro dos negócios estrangeiros, acabando por desvalorizar a argumentação que se lhe opôs e debruça-se, igualmente, sobre a medida concreta apresentada pelo primeiro-ministro quanto à venda livre de medicamentos não sujeitos a receita médica.
Malheiros concorda e desmonta os argumentos falaciosos daqueles que se opoêm à medida.
Todavia, no final do texto, num ponto 3, Vitor Malheiros levanta aquilo que considera "uma terrível questão" que é a de saber se estas decisões de Sócrates indicam "sinais de uma vontade ao serviço de uma estratégia (qual?)" ou não passam de "gestos avulsos apenas decididos pelo desejo de marcar agenda mediática, surpreender o homem da rua, entreter os comentadores e gerir o status quo".
Este é o outro lado da nossa marca cultural: a desconfiança dos cidadãos em relação a quem exerce o poder.
Um desconfiança que, obviamente, tem um preço a pagar também pelos cidadãos, porque esta desconfiança sistemática em relação aos agentes políticos, em vez de os punir desresponsabiliza-os.

terça-feira, março 15, 2005

SINAIS?

Nem é de agora. Houve tempo que aconteceu várias vezes com Mário Soares. O então primeiro ministro saía para o estrangeiro e atribuía às dificuldades no linguajar estrangeiro algumas da gafes que cometeu. O Jornal Novo tinha para ele um ante-título especial: "Mário Soares disse que não disse". Seguia-se a notícia invariavelmente a desmentir a afirmação produzida. Quando Freitas do Amaral, na sua qualidade de cidadão que carregava uma conotação política que manifestamente já não perfilhava, disse o que disse sobre Bush, não foi nada que não tivese sido já ou dito ou insinuado por muitas e distintas personalidades de vários quadrantes de vários países. O que disseram ficou dito. O que fizeram depois, e o que têm estado a fazer é lá com eles. Já não dizem o que disseram e dão-se palmadinhas nas costas.
E a guerra no Iraque deu no que deu e falta saber ainda no que vai dar.
Seja dito que nenhum deles se desdisse. Deitaram para trás das costas e toca a confraternizar. Menos Aznar, que caiu; menos Durão, que zarpou.
Se não tivesse dito o que disse, Freitas do Amaral possivelmente não seria hoje o ministro que é.
É a partir dessa tirada que ele claramente se demarcou de Portas e do resto da Direita. Fosse ou já não fosse, ele, de Direita, desviava-se da posição do governo. A sua postura relacionada com as eleições que se seguiram, o sinal de voto, era o ponto final parágrafo.
A tentativa de desmentir é um sinal, um mau sinal. É uma brecha no habituem-se que Vitorino em boa hora decretou. O incómodo não se apaga com fraquezas. Os ministros não devem esquecer que não foram eleitos para quatro anos. Freitas disse que não disse é capaz de ser um mau começo...

segunda-feira, março 14, 2005

O JOGO DAS CONVENIÊNCIAS

Usa dizer-ser que o jornalismo é o espelho das sociedades modernas. Em Portugal ultrapassou-se esse dizer. O jornalismo foi o espelho das trapalhadas. Não todas de Santana porque ele, o trapalhão-mor, herdou algumas.
Delgado/Durão/Belmiro
Luís Delgado foi homem que atingiu súbita projecção, um autêntico estrelato, com a poderosa investida de Durão Barroso pela direita reaccionária internacional. Cá dentro maneteve-se nem-peixe-nem-carne, um habilidoso de pouca habilidade de confundir a social-democracia com o populismo, munido no entanto do supremo talento de se mudar como pedra de xadrez no momento exacto. E assim foi mudando desde a extrema-esquerda por caminhos que o levaram da modéstia do folclorismo político a gorda renda mensal.
E a bem da pátria! O que lhe dá vantagem, se um dia chegar a mais rico que Belmiro de Azevedo, não ter de suportar a invejosa auréola que coroa o já ar de suficiência com que o opolento cavalheiro de indústria fala de cátedra, ensinando aos governantes o que devem ou não devem fazer. Ele que chegou a hoje depois de largo tempo de comedimento político. Homem de fala modesta e serena.
O falar da conveniência, que muda em tempo de mudança. O susto de Abril já lá vai. Corram-se as imagens do conversar dos homens de negócios a ver como são outros. Também Barroso é outro, mesmo sem contar com o patriotismo, a tal vantagem. Ele partiu de trauliteiro para conveniência de maior respeito: a de menos traulitar e mais compostura. A da contenção. Ou seja, a mesma conveniência dos cavalheiros de indústrias, mas de sentido inverso.
Ora, foi neste entreacto barrosista, já com paz nas aldeias e cada um a falar no tom do seu interesse, que Luís Delgado floriu.
Delgado/Santana
Mas se floriu com Barroso foi com Santana que atingiu o apogeu. O senhor, que de ignorado colunista do DIÁRIO DE NOTÍCIAS (jornalista de carteira profissional todavia, na realidade, um falta-de-jeito notável), havia subido a administrador-delegado da LUSA, mas com Pedro no poder foi mandado administrar nem mais nem menos que a LUSOMUNDO. O que juntou às funções de comentador político, de entrevistado, de objecto de crónicas, pessoa quase tão importante como o Cristiano Ronaldo. Apto a figurar na Quinta das Celebridades.
E inchou. Quis ser como o Belmiro. Propôs-se a comprador da LUSOMUNDO inteira.
Para quê e para quem?
Para o mau ajuntador de letras que é, seria como que chegar ao céu à velocidade da luz.
Mas com que dinheiro? De quem o dinheiro? Para quem o negócio?
Se Almada Negreiros tivesse alma...
Se tivesse já cá estava ela. A apontar os que, pior que Dantas, cheiravam mal da boca. Pim!
A gritar contra o salvador Oliveira que acabou por ficar com o negócio da LUSOMUNDO logo que despediram o Pedro Santana, à sombra do qual manobrava, dizem, Morais Sarmento com não se sabe bem que interesses e interessados da PT, dizem também. Desconfia-se.
Para aumentar a confusão garante-se, de vários lados, que o negócio é obscuro e, doutro, que a suposta traficância é transparente.
E com boa vontade até é possível achar que um Oliveira de escassas letras esteja interessado, assim a seco, no DN, no JN, na TSF, no 24 e no resto do abecedário lusomundista. A alma do Almada é que não ia nessa. No seu entender, Júlio Dantas, o director do DN que lhe cheirava mal da boca, era um balofo, um cerimonioso, um petulante, um gongórico vazio, mas lavava os dentes. Contudo, dessa gente, agora metida e a meter-se nos jornais e telefonias, queria saber de onde lhes vinha o cheiro. Dúvida que lhe atazanava a sua ainda mania da higiene.
Cadê a inteligência?
Num programa da emissora oficial, Luís Delgado não agoirou bom governo a Augusto Santos Silva porque, esclareceu, o hoje ministro escreveu sobre a sua qualidade jornalística coisas como se fosse Maomé a falar do toucinho.
E rematou o seu mau-agoirar com um sentido reparo de onde constou um "ele nem me conhece!".
Mas quem é que, em Portugal, não conhece um cronista que anda nu pelo meio das letras que escreve, um comentarista radiofónico e televisivo que se despe em cada palavra que profere?
Como prova de escassa inteligência é difícil conceber-se outra mais significativa.

YES MEN

Comecei a profissão não por ser especialmente dotado, mas porque quem precisa segura a primeira oportunidade. Um amigo, dos que aparecia amiude pelo Gelo, trabalhava na ANI e como bom comuna que era, acreditava que a maneira socialmente correcta de ajudar um próximo era arranjar-lhe trabalho. Influenciou o chefe de turno e eu lá fui fazer uma prova. A prova foi péssima, mas na apreciação o homem foi simpático e sublinhou que embora o texto produzido fosse satisfatório não revelava poder de síntese, além de excessiva lentidão dactilográfica. De facto, não sabia escrever à máquina e como se não bastasse o teclado não começava por azert, o que me baralhou os dois únicos dedos com os quais me ia ( e ainda vou)
desenrascando.
Aproveitei outro amigo, que tinha um biscate na Reuter e tentei a chance. Arranjaram-me umas horas nocturnas para substituir um que estava doente. Nos diferentes turnos havia sempre alguém que precisava de se baldar. Estava por lá quando foi a aventura do Santa Maria. A maior parte dos telexes era censurada, cortada na totalidade ou rasurada. Eu levava alegremente para o Gelo cópias dos telexes cortados e algumas vezes fotocópias dos telexes da censura.
Não levou tempo a que a PIDE colocasse um par de agentes à porta, primeiro da ANI, depois na Reuter e na FP.
A Reuter funcionava naquela altura na Rua do Telhal, num 2º andar. Amarrotava os telexes e
despejava-os pela janela, para a rua. Naqueles tempos ainda não eramos viciados na ecologia urbana. Quando saía, um dos agentes perguntava-me se eu levava alguma cópia de telegrama e eu, além de negar, levantava candidamente os braços. Só três vezes fui revistado e só uma me exigiram que baixasse as calças, mas verdade se diga que não me pediram para baixar mais nada...
E quando chegava à rua era só andar aos papeis e zarpar para o Gelo...

Outra memória (e não é só a RTP que tem memória) tem a ver com um período eleitoral.
A UN era pronta a enviar às agências informação sobre as diferentes actividades eleitorais, relativa à parte que lhe competia. Onde como e quem participava nos comícios. Habitualmente com dois ou três dias de antecedência. Perfeitos luxos. Um deles, que melhor retive, não só transcrevia os discursos que iriam ser lidos, como sublinhava entre parentesis, as frases aplaudidas (muito aplaudidas) , ou mesmo com estrondosas salvas de palmas. A parte divertida foi que um desses apaludidos oradores não pode comparecer no comício e um dos jornais transcreveu a notícia, incluindo os sublinhados...
De repente comecei a notar muitos comentários sobre o novo governo e até sobre o discurso do primeiro ministro e sem perceber porquê comecei a lembrar-me dos velhos tempos. Comoveu-me que o senhor que não gostou de ser ministro tenha aderido muito jovem, ainda adolescente, ao partido, onde ainda se mantém e não estavam sequer a falar de outro muito diferente. Falavam simplesmente dele e da sua voluntária ausência do executivo. Foi ele que falou dos pais e dos avós, e com ironia sublinhou o contraditório no seio familiar, lembrando que os avós haviam sido pró-salazaristas. A minha avó, costureira, que trabalhava de Sol a Sol, também era, se bem que eu, ainda adolescente, não era capaz de perceber, mas também aprendi a entender, mais do que a ser indulgente. Em todo o caso, optei por uma crónica vazia de presente. Como o poeta, apetece-me dizer "para onde vou não sei/ sei que não vou por aí" ...

domingo, março 13, 2005

Oposição Pela Oposição

Logo a seguir à tomada de posse do XVII Governo Constitucional teci algumas considerações sobre os discursos e o enquadramento da cerimónia. Depois ouvi as reacções, sobretudo ao discurso de Sócrates. As Rádios começaram, logo, logo, pelas reacções das corporações farmacêuticas. Lá mais para a tarde aparecereram outras instituições a defender as propostas de Sócrates.

Parece-me óbvio que a venda livre de medicamentos não carecidos de receita médica não tem discussão: pode ser feita em qualquer estabeleciemento comercial, desde que tenha licença - e isso significa pagar impostos - e condições técnicas para o efeito.

Manter a actual situação é pactuar com um enquadramento legal quase do século XIX. Assim como a legislação que obriga a que as Farmácias tenham, necessariamente, que pertencer a licenciados em Farmácia. Essas e outras...

Tudo parece poder vir a ser resolvido com um governo socialista, disposto a afrontar os grupos de interesses, os tais poderosos que possibilitam o aumento exponencial do número de multibilionários, quase na mesma progressão do crescimento da pobreza no Mundo.

O que me espanta é a posição do Bloco de Esquerda - que, disposto a aceitar a despenalização das chamadas drogas leves, cujos efeitos podem ser mortais ( a canabis, por exemplo, tem efeitos vasoconstritores e, por isso, matar pessoas com problemas de coronárias obstruídas ), numa primeira declaração entende que a venda de medicamentos que não obrigam a receita médica em estabelecimentos que não Farmácias deve ser objecto de um mais profundado estudo.

Estamos a fazer o quê, bloquistas? Oposição pela oposição ? Ainda não perceberam que a vossa margem de crescimento será directamente proporcional à vossa inteligência? O "bota abaixo" resultava sempre com o Pedro. Agora há que entender as propostas dos outros e ter alguma paciência para as iniciativas próprias. O CDS/PP mandou entregar o retrato, tal foi o choque da derrota. Não queiram, vocês, um fotógrafo exclusivo para vos tirar fotografias. E depois? Quem as quereria?

sábado, março 12, 2005

Uma Esperança Substantiva

Parece-me legítimo falar em esperança, depois dos últimos actos da política nacional: formação de um governo levada a cabo na intimidade , uma tomada de posse sem beija-mão, dois discursos verdadeiramenmte de Estado, virados para as questões importantes da gestão da República.
Hoje, ao ouvir Jorge Sampaio, pareceu-me senti-lo completamente confiante, senhor de si mesmo, com a esperança de, finalmente, ser entendido.
José Sócrates recuperou a atitude própria de um chefe de Governo: anunciou as ideias norteadoras do seu projecto. Fê-lo com determinação, com simplicidade e num tom grave, mas sereno. Os exemplos concretos que deu da futura acção do seu governo foram bem escolhidos, já que, um deles fala do dia-a-dia dos portugueses - o acesso aos medicamentos - e o outro da necessidade de uma opção de fundo em matéria constitucional.
Dedicou poucas palavras ao passado e fez bem.
No final, os repórteres de serviço, que se entretiveram a ouvir gente a esmo para passar o tempo, tiveram a desilusão de não poder ouvir nenhum dos empossados, à procura de uma primeira hesitação, de uma primeira gaffe.
Também aqui este XVII Governo Constitucional parece ter uma estratégia correcta: os ministros vão falar quando entenderem e não porque estão à mão de um qualquer microfone.
Para um cidadão especialista em generalidades, como é o meu caso, são estes os factos mais relevantes desta manhã de passagem de testemunho entre dois governos, no cumprimento do determinado pela escolha popular.
E estes factos transmitem a esperança de que a passagem do testemunho represente, efectivamente, uma mudança substantiva nas políticas governativas.

sexta-feira, março 11, 2005

Ser Ministro

Ser ministro deve ser horrível. Só o trabalho para desligar todos os receptores de televisão, de rádio e ordenar que não lhe tragam nenhum jornal!!! Só o trabalho...para não ouvir tantos ministros a dizer-lhe o que fazer!!! Um homem (mulheres são poucas) deve ficar louco. Qual deles - dos que falam e/ou escrevem (porque há os que acumulam) - tem razão?Que faço eu ? - grita, já desesperado, o até há pouco tempo técnico reputado e prazenteiro.Que fazer ?Oh! Homem, escute o que lhe digo: não ouça, não olhe, não leia. Faça o que sempre pensou que devia ser feito. Afinal, foi por isso que o escolheram. Desligue tudo - mesmo este blogue que nunca chegou a ler

HERÓI OU MORALISTA

No DN desta manhã o comentarismo aparece em destaque a propósito de um livro de Rita Figueiras, o qual deverá estar a ser apresentado na Universidade Católica de Lisboa, e versa sobre comentadores ao longo dos últimos 20 anos. O jornal destaca seis deles, mas, de facto não
sendo muitos os que se têm mantido em permanência, em 1990 eram mais de cem.
Sem muito eco, na maior parte dos casos. Os que mais se destacavam na TV passaram a ser mais procurados pelos matutinos, uma vez que os vespertinos se foram diluindo até ao sumiço total. A ideia que tem passado para fora é a de que interessa mais o comentador que o comentário; não é tanto a lucidez e o a-propósito, mas o populismo da mensagem, que quanto mais contiver de intriga mais eco obtém.
Nos últimos tempos começa a estar de moda, começou pelo futebol, claro, é o comentarismo por grosso e atacado. Começou por dois, passou para três, já vai em quatro e não imagino até onde vai chegar. Na Quadratura, Magalhães é o chato de serviço. Praticamente não comenta, resmunga, interrompe, chalaça, sorri, uma espécie de bobo da corte, uma corte soturna e sonolenta.
Um que nem é citado no DN e que já há muito preenche uma coluna no
matutino da Av. da Liberdade, recentemente posto à venda, Francisco Sarsfield Cabral faz uma análise sobre o que tem sido o combate contra o terrorismo, "uma guerra subterrânea, oculta e, decerto, pouco limpa - mas indispensável". Por um lado aceita que algo se tem feito, porque em boa verdade não houve mais nenhum atentado nos EUA, depois do 11 de Setembro. Reconhece que apesar de tudo foi possível efectuar eleições no Iraque. Entre esses dois polos cita os atentados no Quénia, no Bali e em Madrid.
Mas como violam valores éticos, os que combatem o terrorismo, "os ocidentais dão o flanco aos seus inimigos. É que para nós, os fins não justificam os meios".
O problema com os humanistas é que eles não se explicam bem. Se um grupo de terroristas raptar a mãe de um qualquer de nós e nos avisar que lhe vai cortar a cabeça, em directo, diante da câmara de televisão, podemos contar com o senhor Francisco? Esperar que ele se ofereça como voluntário para substituir na filmagem a pobre senhora?
Humanismo não é pieguice, nem dar esmola ao pobrezinho. É preciso uma grande dose de sofrimento e de sacrifício para entender e respeitar os valores éticos. Não há fins justificáveis sem princípios elementares. Nem tudo se pode perdoar. Nem tudo se deve tolerar. Nem o terrorismo, nem o humanismo sócio-profissional.

quinta-feira, março 10, 2005

A BOLA PARADA NAS MÃOS DA VELHARIA

Disso, do mundo que pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança, a gente gosta porque gosta do arco-íris e outras aparências: luzes, cintilações. No fundo, bem dentro de todos nós, há sempre um patego que olha o balão.

Freitas do Amaral

Entre todos os políticos portugueses foi a Freitas do Amaral que a vida concedeu a rara oportunidade de enriquecimento individual, político, social (total) entregando-lhe a presidência da assembleia das Nações Unidas. Logo a ele que já era respeitável intelectual, tinha sido fundador de partido político e ministro lúcido.

No entanto, o anúncio da sua escolha para ministro dum governo socialista soltou mais demónios pelos cinzentos da política e do jornalismo português do que aqueles de que belzebu dispôs para levar ao pecado os candidatos à santidade.

E, pelo visto, os que chegaram a santos conseguiram fugir ao rabudo. Mas Freitas mergulhou na trentação.

Qual o Crime ?

Difícil de responder a quem quiser saber do artigo do código político infringido. Primeiro porque não é crime servir o seu país desde que não mandado por interesses extranacionais, como não raro acontece. E depois, e fundamentalmente, porque, entre a doutrina sociall da Igreja (ela própria e não a garotada e as garotices do portismo popular), a social-democracia de hoje e o socialismo inventado para servir de almofada entre a revolução e a reacção, a diferença é de difícil distinção.

As preocupações são mais ou menos as mesmas, a terminologia vai dar, mais volta menos volta, ao mesmo e a alma ideológica funda-se mais ou menos nas mesmas raízes.

Na prática há, de facto, interesses que se servem mais de uma ou doutra maneira. Mas, entre todas, as coisas não andam muito distantes. Quando, por exemplo, a xenofobia ou o menor respeito pelo direito das mulheres vão parar a este ou àquele desses partidos é mais por defeito das pessoas que de doutrina. Com excepções, evidentemente. Estamos no campo do mais ou menos.

Na conformidade, é difícil entender o tanto espanto, por vezes indignação por se saber de um democrata-cristão em governo socialista. O alvoroço deveria morar, e aí sim, com a chegada à direita de gente vinda da extrema-esquerda. Os 180 º de rotação política.

Contudo eles andam por aí, doutores sem carta de curso, a sentenciar em matéria de honestidade política sem assombro que se levante. Assombrosamente portanto.

O crime de ter tocado em Bush

Depois de passar pela presidência da assembleia das Nações Unidas, Freitas do Amaral não ficou o mesmo. É facto. Só que, quem consegue sair duma função tão enriquecedora como essa igual ao "eu" que entrou, nunca lá devia ter entrado.

É que dela vê-se por dentro o pântano internacional. Bem mais fedorento que o nacional que Guterres viu e depois fugiu, provavelmente com carradas de razão. A razão que lamentavelmente não denunciou ao país.

Esse o pecado em que Freitas do Amaral não incorreu. Cometeu até o crime de comparar Bush a Hitler. Um exagero sem dúvida. Mas todo o mundo sabe que as semelhanças encontradas com Hitler, Mussolini, Salazar e Franco são mais uma adjectivação que uma comparação. Aliás todos os tiranos foram até diferentes entre si. Todos eles tiveram a sua medida, a medida que os respectivos países lhes consentiram.

Hitler na governação dos Estados Unidos seria outro Hitler e Salazar outro Salazar. Marcaram foi a história da crueldade. A do tirano alemão, então, chegou até à loucura.

E modernamente Hitler é mais utilizado como ofensa que como figura histórica. Paul Auster, um grande romancista e uma lúcida inteligência norteamericana, escreveu, para que o mundo soubesse, que a democracia, no seu país, era quase uma ditadura. Uma maneira mais suave de adjectivar, mas um mais ou menos dizer a mesma coisa por outro processo.

Jornalistas a pedir reforma

Talvez que o maior problema do jornalismo português seja o de, nele, serem, há anos sem descanso, sempre os mesmos a perorar. Dantes pensava-se que, pior que um director do "Diário de Notícias" só podia ser outro director do "Diário de Notícias". Hoje, o que mais se vê na comunicação social portuguesa, são directores do DN, unha com carne com o patrão.

Gente com quem o mundo não pula e menos avança. Gente do cinzentão nacional.

quarta-feira, março 09, 2005

Azedumes

Hoje, logo pela manhã, tive que ouvir a Maria João Avilez. Alguém, perto de mim, tinha um receptor de Rádio sintonizado na TSF.

Lá ouvi a senhora a perorar contra Freitas do Amaral e a adivinhar males terríveis pelo facto de o recém-nomeado ministro dos negócios estrangeiros não gostar de Bush: Mal seria de nós se ele gostasse. Mais de 80 por cento do Mundo não gosta!

A senhora acrescentou, todavia, outros dislates: que Freitas do Amaral está fora do Mundo, que não conhece a Europa actual, que não percebe o Brasil e África e não sei que mais...

Francamente! Um cidadão não pode distrair-se e ser educado. Bem podia ter pedido à pessoa que ouvia estes disparates para mudar de estação ou desligar. Mas não. Lá fiquei a ouvi-la. Acho que foi a primeira vez, porque, mesmo na SIC Notícias, sempre que aparece, uso o meu poder pessoal para zerpar dali.

De resto, a senhora só tinha piada quando as suas crónicas passavam sem que alguém com jeito lhes desse um jeito.

O perigo não está nas convicções de Freitas do Amaral e no seu percurso intelectual e político. O perigo está em manter no ar este azedume serôdio e trôpego. Mas, como o patrão manda e gosta, cumpra-se. Eles sabem por que se entendem.

Tanto Disparate!!!

"O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pretende fazer uma escala em Lisboa no fim-de-semana ou nos dias seguintes, no âmbito de uma viagem que o leva a Espanha e a Israel, para se encontrar com José Sócrates..." in DN de hoje, 8 de Março de 2005.
Que editor deixa passar tamanho disparate?
Que director-adjunto confirma tanta asneira?
Que director se responsabiliza por isto?
E, ainda por cima, a notícia foi desmentida logo de manhã. O desmentido não esperou pelo "fim de semana ou dias seguintes", ou por um dia qualquer de um ano destes.
Começo a concordar com a ideia de uma Ordem de jornalistas com estatutos que permitam a depuração deste analfabetismo instalado

COMO E ONDE É O FUTURO

Sempre que se avança para o futuro é no passdo que tropeçamos. Posto isto percebe-se melhor o que disse Marcelo, de Freitas. E até se entende qualquer coisa sobre a fotografia devolvida ao remetente.
Quando era mais novo, não 25, mas quase 50 anos, recebi duas fotos, de mim mesmo, sete postais ilustrados e uma vintena de cartas de amor intenso e escaldante. Não percebi logo de que é que se tratava. A esbelta criatura tinha mudado, não de partido (só havia um a União Nacional e mais nenhum), mas de namorado!
Um quarto de Século decorrido, quando a menina do parágrafo acima se preparava para ser avó, a situação política tinha levado uma volta. Partidos era o que mais havia. Por isso era possível escolher os percursos. Havia quem se iniciasse no radical de esquerda, flectisse para a
extrema esquerda e, aos poucos acabasse no mirn. Durão e Santana, por exemplo, devem ser capazes de explicar isto melhor. E podia, claro que podia, citar uma boa meia dúzia de pesos pesados de raiz marxista-leninista que fizeram a mala e abalaram para outros horizontes mais dados ao espírito democrático, ainda que com nuances que se vocacionariam para o centro. De fotos ou rasgadas ou devolvidas não consta a História. A democracia dava ares de ter costas largas e as únicas fotografias a banir foram as do Estado Novo, mas por razões, digamos. higiénicas.
Justamente para lavar a imagem os notáveis do Largo do Caldas manifestam-se contra portas e marés.
Segundo reza Marcelo, o ministro para as Necessidades vai ser Freitas do Amaral. Mal, reza o prof.
Freitas tem mais 25 anos do que tinha quando foi ministro dos Negócios Estrangeiros, logo... não devia ser ele...
Mas...mas há mais...Freitas disse mal de Bush...
Dizer bem dele tem feito mal à saúde, digo eu. Aznar disse e caiu; Durão também e também foi embora.
A ideia inicial parecia ser a de que apoiando ia-se para as obras. No Iraque as explosões não param, morre gente aumentam as ruinas. Só as obras não começam. Quem sabe se não vão começar daqui a 25 anos. Nessa altura estará por certo Marcelo Novo na costa, sabe-se lá se ,
com 25 anos mais na mesma, melhor que nunca, a despachar Marques Mendes por excesso de veterania...

O Dia da Mulher

É um bom dia para voltar à "antena", depois de algum tempo afastado - o que já me valeu uma reprimenda aqui do meu colega de carteira do lado.
Enfim, Rafael, há que saber escolher os dias em que vale a pena exercitar esta difícil tarefa de viver. E o dia da Mulher é óptimo.
Tanto mais que me fartei de ouvir gente a falar das percentagens de mulheres aqui e ali, sobretudo no exercício de cargos políticos - o "máximo" para os nossos analistas e também para os democratas da multimédia.
O que interessa às mulheres estar no Governo ou no Parlamento, se o poder concreto, o das empresas continua com os homens, com homens cada vez menos homens e cada vez mais marionettes e palhaços?
Se as mulheres me permitem, neste dia internacional delas, deixou aqui um conselho (dos tais que servem para pouco, porque se prestassem sempre se vendiam) : mandem os homens para o Governo e para o Parlamento e governem as empresas, os Hospitais, as Universidades, os Jornais, as Rádios, as Televisões, Laboratórios... estamos todos a precisar de algum bom senso feminino.
Para além de que é preciso desconfiar deste movimento de contestação tão oficiosa. Será para entreter as mulheres numa manobra de diversão que as leve a esquecer as propostas de criação de quotas nas faculdades de medicina - um começo para outras ?

segunda-feira, março 07, 2005

A DIFICIL ARTE DE VIVER

Não é por questão de sobrevivência, mas de bem estar. De facto ninguém escreve ao coronel. E eu preciso. E preciso, sobretudo, que me escrevam, não para me dar ares, mas para as loas que me são devidas. Pensem na tinta que se gastou com o Lopes, ainda por cima era lagarto! Imaginem o que ainda vão sofrer com os novíssimos, porque Deus é assim! Seria bem mais simples e reflectivo assumirem o Rafael como iluminado. Fazia-lhe jeito. Não que ele seja ecuménico ou possuído pelo demónio, coitado, nada disso: é vaidoso, tem a mania.
Farão o favor de aceitar que não é caso único, se fosse não havia tanto blog.
A vaidade do coronel Soares ainda vá que não vá, mas a preguiça dos que vão que não vão tem menos desculpa. É preciso saber assumir, tanto quanto é preciso que cada qual se saiba sumir.É preciso e urgente gabar o coronel e, depois sim, depois fugir, como se fugiu nos séculos dezoito e dezanove para o Brasil, e depois disso para a França mal refeita da ira nazi.
E se a previsão metereológica é má, se falar de catástrofes e outras formas cíclicas de governação socialista, pós-moderna, fujam que estão perdoados, mas não sem escrever ao Rafael, como quem pede a extrema unção, porque dele vai ser - é seguro -, o reino dos céus.
Mas se o não fizerem, ao menos não deixem este cantinho à mingua de paleio.
Que o altíssimo vos guarde...

sábado, março 05, 2005

APITA O COMBOIO...

... E a composição põe-se em marcha, Sócrates levou a água ao seu moinho. Não só escolheu o seu governo, no recato do escritório, como o apresentou no timing certo, no momento mais apropriado. Mais cedo seria expor inutilmente o governo (e parte substancial dos seus membros) a maquiavelices. A CS, por si, não extravazou para além do razoável. Das oposições a contestação é tão obrigatória, como precipitada. Retive duas: "A montanha pariu um rato" e "Não tem nomes sonantes". A primeira claramente pejorativa, mas da montanha madeiroa sempre brotam ratices fedorentas, sem qualquer significado, A segunda, embora menos injuriosa é também mais ingénua: se incluisse Vitorino, Coelho, Cravinho,Gama ou a quase minúscula Roseira, logo seria tida e achada por sopa requentada.
Pessoalmente desconheço de todo algumas das novidade que constituem o executivo de Sócrates e o mínimo que se deve fazer nestas circunstâncias é conceder-lhes o benefício da dúvida. No meu caso particular vou um pouco mais além e desejo-lhes boa sorte. Não é nenhum favor, mesmo se não sou muito de passar pelo largo do Rato, nem pelas imediações, sinto necessidade de um governo eficaz, preciso disso como de pão para a boca. E quem não precisar que atire a primeira pedra.

Mas em boa e honesta verdade, ele há pedradas que tardam e com o desemprego a atingir níveis assustadores, com as reformas a perder deprimente poder de compra (salvo se forem dos administradores de origem partidária da CGD), é um dó de alma ler o que disse a bem-aventu- rada administração da PT, a propósito de lucros obscenos, que se preparava para despedir mais mil trabalhadores. Oxalá o novo governo possa intervir e optar por despedir com justíssima causa os senhores administradores, por parte da banca. Urge que sejam cada vez mais, e mais diversificados, os que podem sentar-se à mesa onde se abancam os lucros e menos os mesmos de sempre que guardam os trocos...

Sócrates - 1 Comunicação Social - 0

Foi bonito de ver: os repórteres em Belém, preparados para as perguntas encomendadas pelos chefes, e o primeiro-ministro indigitado a dizer que, naquele momento, as redacções estavam a receber um comunicado do seu gabinete com a indicação do governo acabado de apresentar ao Presidente da República.
E os chefes resfastelados em restaurantes de cinco (mais duas ) estrelas...
São as máquinas, estúpidos...os faxes e os e-mails. Daaa... sabem o que é isso?
Sócrates - 1 - Comunicação Social - 0
É uma vitória importante, se ela significar o início de uma relação de respeito mútuo. Talvez o exemplo do "Público", que publicou um novo livro de estilo ( mesmo assim cheio de hesitações e alçapões propícios a interpretações dúbias), possa florescer.
Quanto ao governo, há que esperar pelos actos, apesar do Carlos Magno já ter ditado a sua sentença de condenação, a executar à esquerda e à direita. (oh! Carlos, porque não te reformas e inventas um blog para avaliares a tua audiência. Chama-lhe "Carlos Magno, o arguto")
Duas notas: o aplauso ao reconhecimento da actuação de Freitas do Amaral, quer como um membro fundador da democracia portuguesa, quer como um português notável pelo contributo que deu à comunidade internacional, como presidente da Assembleia Geral da ONU.
A outra diz respeito ao ministro da saúde: a sua reputação entre os profissionais dedicados à causa da saúde pública não é a melhor. Pelo contrário, é muito conotado com os grandes lobies. Aceito e desejo veementemente que os desminta.
Quanto a António Vitorino, o nome da grande especulação: ele - e a mulher - sempre disse que não queria voltar a ser ministro. Fazer o quê?