sábado, março 05, 2005

APITA O COMBOIO...

... E a composição põe-se em marcha, Sócrates levou a água ao seu moinho. Não só escolheu o seu governo, no recato do escritório, como o apresentou no timing certo, no momento mais apropriado. Mais cedo seria expor inutilmente o governo (e parte substancial dos seus membros) a maquiavelices. A CS, por si, não extravazou para além do razoável. Das oposições a contestação é tão obrigatória, como precipitada. Retive duas: "A montanha pariu um rato" e "Não tem nomes sonantes". A primeira claramente pejorativa, mas da montanha madeiroa sempre brotam ratices fedorentas, sem qualquer significado, A segunda, embora menos injuriosa é também mais ingénua: se incluisse Vitorino, Coelho, Cravinho,Gama ou a quase minúscula Roseira, logo seria tida e achada por sopa requentada.
Pessoalmente desconheço de todo algumas das novidade que constituem o executivo de Sócrates e o mínimo que se deve fazer nestas circunstâncias é conceder-lhes o benefício da dúvida. No meu caso particular vou um pouco mais além e desejo-lhes boa sorte. Não é nenhum favor, mesmo se não sou muito de passar pelo largo do Rato, nem pelas imediações, sinto necessidade de um governo eficaz, preciso disso como de pão para a boca. E quem não precisar que atire a primeira pedra.

Mas em boa e honesta verdade, ele há pedradas que tardam e com o desemprego a atingir níveis assustadores, com as reformas a perder deprimente poder de compra (salvo se forem dos administradores de origem partidária da CGD), é um dó de alma ler o que disse a bem-aventu- rada administração da PT, a propósito de lucros obscenos, que se preparava para despedir mais mil trabalhadores. Oxalá o novo governo possa intervir e optar por despedir com justíssima causa os senhores administradores, por parte da banca. Urge que sejam cada vez mais, e mais diversificados, os que podem sentar-se à mesa onde se abancam os lucros e menos os mesmos de sempre que guardam os trocos...

Sócrates - 1 Comunicação Social - 0

Foi bonito de ver: os repórteres em Belém, preparados para as perguntas encomendadas pelos chefes, e o primeiro-ministro indigitado a dizer que, naquele momento, as redacções estavam a receber um comunicado do seu gabinete com a indicação do governo acabado de apresentar ao Presidente da República.
E os chefes resfastelados em restaurantes de cinco (mais duas ) estrelas...
São as máquinas, estúpidos...os faxes e os e-mails. Daaa... sabem o que é isso?
Sócrates - 1 - Comunicação Social - 0
É uma vitória importante, se ela significar o início de uma relação de respeito mútuo. Talvez o exemplo do "Público", que publicou um novo livro de estilo ( mesmo assim cheio de hesitações e alçapões propícios a interpretações dúbias), possa florescer.
Quanto ao governo, há que esperar pelos actos, apesar do Carlos Magno já ter ditado a sua sentença de condenação, a executar à esquerda e à direita. (oh! Carlos, porque não te reformas e inventas um blog para avaliares a tua audiência. Chama-lhe "Carlos Magno, o arguto")
Duas notas: o aplauso ao reconhecimento da actuação de Freitas do Amaral, quer como um membro fundador da democracia portuguesa, quer como um português notável pelo contributo que deu à comunidade internacional, como presidente da Assembleia Geral da ONU.
A outra diz respeito ao ministro da saúde: a sua reputação entre os profissionais dedicados à causa da saúde pública não é a melhor. Pelo contrário, é muito conotado com os grandes lobies. Aceito e desejo veementemente que os desminta.
Quanto a António Vitorino, o nome da grande especulação: ele - e a mulher - sempre disse que não queria voltar a ser ministro. Fazer o quê?

A Verdadeira Razão

Toda a gente - eu, pelo menos - ficou espantada com a falta de perspicácia, diria mesmo falta de inteligência do ainda primeiro-ministro deste país, que, na noite das eleições, não pediu a demissão do cargo de presidente do partido (PPD/PSD, como ele gosta de dizer).

E logo surgiram os mais variados comentários sobre a sua capacidade de leitura dos resultados eleitorais. Houve mesmo quem duvidasse da sua inteligência. "Será que o Pedro perdeu qualidades?" - interrogavam-se os seus mais fiéis seguidores.

E se a decisão tão comentada tivesse a ver com altos níveis de inteligência, definidos por tempos muito apertados?

E se a hesitação do Pedro pudesse ser comparada às três negações do outro Pedro?

E se a inteligência, a vontade, o querer, o desejo, tudo - do Pedro - estivessem ligados a um pequeno papel rectangular, espantoso, libertador, que a sua condição de primeiro-ministro, por mais um dia que fosse, garantia?

Querem mais dados? E julgam que eu sou bruxo?

sexta-feira, março 04, 2005

Quem Vai Tramar Lisboa?

A administração da CP está a estudar a possibilidade de abandonar as instalações da sede social da empresa, na Calçada do Duque, para concentrar num único local a totalidade dos serviços que tem espalhados por Lisboa.
"Se tudo correr bem, talvez consigamos atingir esse objectivo dentro de dois ou três anos", disse o presidente da companhia, António Ramalho - confirmando parcialmente as referências que vêm sendo feitas ao assunto por dirigentes sindicais e activistas do PS organizados no interior da empresa.
Posta a circular logo a seguir às eleições - num comunicado de um"núcleo partidário" que António Ramalho não quis identificar, e posteriormente divulgada pelo "site" do sindicato Sindefer -, a notícia é apresentada pelos críticos da administração como uma"negociata" que "lesa a CP, o Estado e os contribuintes", "abrindo caminho à especulação imobiliária".
De acordo com a informação do Sindefer, o abandono da vasta e valiosa área que a empresa ocupa por cima da estação do Rossio, entre a Calçada do Duque (Escadinhas doDuque) e a Calçada da Glória, estaria "em preparação adiantada" e as novas instalações já estariam escolhidas: um edifício da Parque da Expo para onde a Refer mudou recentemente uma parte dos seus serviços e onde funciona também a sede da Rave, a empresa responsável pelo projecto dos comboios de alta velocidade.
Confrontado com esta versão dos factos, o presidente da CP garantiu que nada está decidido e que não tem qualquer fundamento a ideia de que a empresa iria ocupar um edifício onde já está a Refer. "Nem se ionde é que fica esse edifício", afirmou.
Este excerto de um texto publicado pelo jornalista António Cerejo no "Público", mais o que poderá existir por detrás destas trocas e baldorcas, associados à ligação que é possível fazer entre os empreendimentos imobiliários do grande beneficiário do regime "Durão-Santana", João Pereira Coutinho, na zona das Amoreiras (Artilharia 1 e Duarte Pacheco) com a construção do Túnel do Marquês e o encerramento do Túnel ferroviário do Rossio - de que nunca mais se falou- ...tudo isto pode dar uma ideia do que se pode estar a preparar em termos de uma nova cidade, donde muitos terão de ser excluídos.
Uma nova cidade em que muito do património do Estado poderá passar para mãos privadas, interessadas, quiçá, em mais valiadas extraordinárias com a venda do resultado a grupos estrangeiros. Desta vez, os lisboetas e os que aqui trabalham vão mesmo fazer uma forte figura de parvos.
Já venho escrevendo sobre estas matérias há algum tempo: posts "Heranças", de 15Dez04, "Artilharia Um, o Túnel do Marquês e o Túnel do Rossio", de 21Jan05.
Mas eu só posso escrever - sempre com a convicção de ter leitores tão impotentes como eu. Fazer o quê?...

As Diferenças da Diáspora

Conheceram-se os resultados das eleições entre os nossos compatriotas residentes e recensados no estrangeiro. Com uma divisão mais ou menos imcompreesnsível, entre Europa e fora da Europa, esses portugueses elegem quatro deputados, dois para cada um dos lados.
Resultado: três para o PSD, um para o PS.
Já estava tudo decidido, pelo que estes quatro deputados contam pouco para o final destas eleições.
Todavia, há que pensar neste processo e concluir alguma coisa de útil: em primeiro lugar, não faz sentido que a contagem destes votos se faça tanto tempo depois. O problema pode resolver-se alargando os prazos para trás, isto é, determinando que a votação por Correio se faça muito antes da eleição presencial.
Nos Estados Unidos, as urnas para a eleição presidencial abriram com a campanha ainda em marcha.
Em segundo lugar há que meditar na disparidade dos resultados quando confrontados com os obtidos no território nacional.
Os nossos compatriotas não são verdadeiramente esclarecidos dos problemas do país e é entre eles onde o voto clubista é mais acentuado.
Esta conclusão leva-nos a considerar a qualidade da informação que se passa nos órgãos de comunicação social do Estado e que têm a obrigação de esclarecer esses portugueses .
Refiro, explicitamente, a Lusa, a RDP e a RTP, que não conseguem - porque não querem - transmitir o retrato o mais fiel possível da realidade política e social do país, usando os respectivos tempos de antena a divulgar desgraças e "fait-divers"
Esperemos que haja alguém com capacidade e discernimento para perceber a importância da aproximação das várias comunidades que a Nação contém.

OS DESACORDOS

Os desacordos em geral são o sumo dos acordos, o fim das convergências, mas em si não tem nada de mal. Pinto da Costa fica no seu melhor quando não concorda, seja com a Liga, seja com a Federação, seja com lampiões, seja com com lagartos e mesmo quando acorda com (não me venham pr'aqui com colos,poça, comento acordos em geral) um deles ou é por estar em desacordo com o outro. Malhas que o império (da bola) tece...
Mas há melhores desacordos, por certo. Cravinho já explicou que o caminho passa pelo aeroporto da Ota, pois, ele lá sabe, ele é que foi o da ideia. Claro que ele está mesmo a adivinhar que o próximo aglomerado anti-populista nem vai retirar as portagens das auto-estradas, nem desatar a construir infraestrururas em Malveira da Serra, ou será SantaMaria da Azoia ou lá onde fica a Ota, porque a vida está cara, a crise vai alta e as ajudas comunitárias não mais vão ser o que eram.
Mais divertido é o gozo de J.Coelho sobre "o Paulinho das feiras" e o populismo, sobre Santana Lopes e o populismo, mas este revestido de preocupação mediática, salientando sobretudo, já se vê, os desacordos quase permanentes dos signatários do acordo. Analisada a conjuntura da curta existência da coligação, Coelho não levou tempo a perceber e a explicar aos leitores do DN que o populismo, isto e o populismo aquilo ... Logo, como se podia confiar num acordo pós-eleitoral?
A velha expressão popular "diz o roto ao nu..." ficava aqui a matar, mas deve-se acrescentar, ao de leve e de passagem, que o CDS já experimentara antes outro tipo de coligação governamental, não muito bem sucedida, pode assinalar-se, ainda que Salgado Zenha tenha achado por bem esclarecer que o parceiro de coligação com o Partido Socialista era um partido de centro-esquerda. Claro que a tirada do dirigente socialista foi levada à conta de populismo. E porque, no fim de contas praticamente nada é novo ao cimo da terra apetece glozar,tal como já o havia experimentado acima,outro admirável poeta: populistas somos nós todos / ou ainda menos/ populistas somos nós todos/ desde pequenos...

ALARMISMO REPELENTE

Houve tempo em que, por mór da crise, de então, para promover a leitura de jornais se criou um slogan atractivo: ler jornais é saber mais.
Hoje em dia as coisas mudaram e, cada vez mais, fica-nos a sensação de logro, de conto do vigário, de alarmismo elevado ao quadrado, quando não de tristeza. Devem ter visto, pelo menos ouviram muito,quer nos noticiários da Rádio quer da TV, a manchete do DN: Um terço das adolescentes portugueses já usou a pílula do dia seguinte". Manchete aberta a branco sobre fundo negro, para estimular os preconceitos pseudo moralistas de raiz religiosa. A questão que se põe nem tem tanto a ver com a notícia em si, como se vai ver, mas com o alarmismo que se pretende criar à volta ( a Renascença já ouviu o cardeal). Mas vejamos como começa a notícia sobre um estudo da Faculdade Portuguesa de Ginecologia, transcrita da primeira página do matutino:
"Uma em cada seis adolescentes portuguesas tem uma vida sexual activa sem utilizar qualquer contraceptivo. Dessas, 33 % já recorreram à pílula do dia seguinte "... O resto é blá-blá.
Nada contra a investigação, que tem, aliás, dados interesantes. Mas contra a aproveitamento tendencioso, como é o caso do título. Como se pode contabilizar um terço das adolescentes como
tendo usado já a pílula do dia seguinte ( e com a carga pejorativa que tal manchete provoca),se logo a abrir a notícia sobre o estudo é revelado que uma em cada seis (na minha aritmética básica significava um sexto) sim, senhor, faz sexo, "e dessas" (desse sexto,pois) um terço já recorrerreu (e ainda bem, porque não é crime nenhum) à pilula do dia seguinte. No interior do jornal o título da notícia é repetido, o que deixa pouco espaço para qualquer dúvida sobre a intenção.

A divulgação de pormenores do estudo e a preocupação que causarem é legítima, de resto está repleta de informação que convirá reter pelos pais outros responsáveis pela educação de adolescentes, no seu conjunto, e não apenas as raparigas. Saber mais, e sobretudo melhor, também é conveniente para os adolescentes masculinos e possivelmente também urgente para alguns jornalistas da Av. da Liberdade...

quarta-feira, março 02, 2005

OS AZEITES

Houve tempo, já lá vão uns anos, o slogan repetia-se ao longo dos dias, eram dias e dias a ouvir "a sapataria oliveira calça Lisboa inteira". Puxa!
Tanto quanto se sabe, era um único Oliveira. E o que ele era capaz de calçar! E eis que...
Pois, eis que aparece outro Oliveira com o irmão Oliveira. Pasma o país!, qual pais!,o lusomundo inteiro!
Quando o cinema italiano despontou do pós-guerra, um filme se destacou: Não há paz entre oliveiras". Subtraí o artigo, e logo no plural, que não dá jeito, por causa do género (basta de confusões: o género, por acaso feminino,do artigo gramatical). No filme a fonte das azeitonas era naturalmente o olival, um espaço agrícola que reune a espécie agrícola, de onde provém o azeite. No filme, os azeites tinham, bem entendido, outra origem: a bela e tentadora Silvana Mangano.
Os mais devotos sabemos que a tentação é uma fraqueza, se bem que as Silvanas do estilo de Mangano inspirem tudo menos fraqueza!
Mas podemos aprender as lições que a realidade e a ficção nos proporcionam. Fui espeitar uma montra de sapatos e pareceu-se produto pouco próprio para lisboeta ambicioso. Fui ler alguns jornais e comecei a prever qual vai ser o porvir.Tanto faz que se perceba o que vai por trás do olival como não, o país inteito vai pasmar...

Fogem de Quê?

A PT, presidida por Miguel Horta e Costa, decidiu - assim, rezam os jornais de 1 de Março de 2005 - vender a Lusomundo, que inclui 23,35 do capital da Agência Lusa, além do Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas, Tal e Qual e outros e a Rádio TSF, ao Joaquim Oliveira.

Assim, de repente, depois de algumas hesitações, declarações contraditórias, mas sempre com o BES por detrás, à espera que a máquina registadora faça plim.

Ora, não é verdade que a PT tem uma golden share do Estado e que quem administra essa golden é o Governo?

Não é verdade que o negócio é polémico (ter um grupo de média nas mãos de um grupo com a dimensão empresarial da PT não é a mesma coisa que o ter nas mãos de um homem que vive da publicidade e das influências futebolísticas) ?

Não é verdade que o actual governo já não tem legitimidade para sancionar tais negócios?

Se tudo isto é verdade, porquê tanta pressa? Está em causa a comissão do BES ? Ou outras coisas?

Porque é que o presidente dos CTT, Carlos Horta e Costa, anda em reuniões com a CGD e com o BANIF por causa do Banco Postal dos CTT, uma iniciativa do governo PS que o PSD desconsiderou, mas que, ao que parece, a todo o custo, quer concretizar, mesmo quando já não tem legitimidade para tal?

Porque é que o presidente dos CTT quer reunir a Assembleia Geral dos CTT a 7 de Março para eleger os novos membros dos órgãos sociais da empresa, numa altura em, claramente, tudo indica a sua substituição?

Os Horta e Costa, destacados financiadores do PSD, fogem de quê?

Tenham Vergonha e TINO

As nossas televisões - todas - são uma vergonha.

Querem sangue, sangue, violações e mais violações, desgraça, desgraça e mais desgraça.

Nãos lhes chegam as desgraças locais. Vão procurá-las onde as houver.

E este "houver" em televisão significa IMAGEM.

Desde que tenham imagem têm notícia. Ora, nem todas as imagens são dignas de legendar notícias.

Foi o que aconteceu hoje, com a transmissão de imagens de uma jornalista francesa, refém de não se sabe de quem, que apareceu nos ecrãs de todas as televisões portuguesas a dizer coisas que não queria dizer, ameaçada por não se sabe quem, num trabalho de televisão sem assinatura, sem responsabilidade.

Um trabalho que envergonha todos os que fazem ou fizeram da sua vida a informãção.

Só não envergonhou os directores das televisões portuguesas, que permitiram a sua exibição.

Malditos sejam! Parasitas de uma profissão que já foi muito honrada na Pátria de Camões, Padrer António Vieira e Afonso de Albuquerque; Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis e Aquilino Ribeiro. Quem vos fez depositários da honra profissional de toda a gente que está com a jornalista do Liberation?

terça-feira, março 01, 2005

Quem Deve Desculpas A Quem

Ontem, ao almoço, um velho amigo contou-me, meio estupefacto, meio displicente, que o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, depois de uma cerimónia na Universidade do Minho, onde foi agraciado com o grau de doutor honoris causa, lançou para o ar a ideia da necessidade de desculpas, por parte das sociedades que, alegadamente, teriam beneficiado da escravatura, aos alegados descendentes dos escravos.
É uma ideia velha, que, de vez em quando, faz o seu caminho entre sectores conhecidos nos Estados Unidos - os mesmos que acusam D. Catarina de Bragança de ter fomentado a escravatura e impediram, por isso, a inauguração de uma estátua sua em Nova Yorque.
O tema é vasto, complicado e conduz-nos, sinteticamente, a algumas conclusões, sobretudo no que ao dr. honoris causa diz respeito.
Uma das questões que se pode levantar sobre a eventual escravatura de naturais de Moçambique noutros séculos tem a ver com africanos e, quando muito, com os mercadores muçulmanos, já que os colonizadores das Américas, do Norte e do Sul, não se arriscavam a ir procurar escravos para além das Costas Ocidental e Central Africanas. Não dobravam o Cabo das Tormentas
De resto, a escravatura era uma instituição em toda a África, praticada pelos próprios africanos, pelo que as desculpas deveriam começar pela família.
E, por falar de família: entre os moçambicanos, quem deve pedir desculpa a quem?
A FRELIMO e a RENAMO receberam dos colonizadores um país próspero, com um grande nível de desenvolvimento, com uma sistema de saúde operacional, um sistema de educação que só perdia para Angola numa comparação alargada a toda a África. Herdaram um país organizado, com sistemas rodoviários e ferroviários operativos e eficazes, com uma indústria de turismo próspera.
Receberam das mãos dos colonizadores um projecto de desenvolvimento para o Vale do Zambeze que só tinha paralelo com o plano de desenvolvimento para o Rio Cunene, em Angola, uma barragem absolutamente extraordinária, mesmo se comparada com as grandes obras do Mundo inteiro: uma das suas previstas dez turbinas produz mais energia que todas as barragens juntas em Portugal.
E o que fizeram os moçambicanos (poder e oposição) que receberam este país: começaram por perseguir os não negros, criaram centros de recuperação paras os chamados reaccionários, um projecto levado a cabo pelo actual presidente do Projecto do Zambeze, ex-ministro de estado da segurança nacional, Sérgio Vieira e protegido pelo actual presidente da República de Moçambique, general Guebuza.
Fizeram mais o quê?
Transformaram o país numa terra de muito ricos e miseráveis, mandaram assassinar pelo menos um jornalista que se propunha lutar pela justiça, Carlos Cardoso.
Será que Joaquim Chissano e todos os outros, trinta anos depois da Independência, se sente autorizado a exigir que alguém peça desculpas ao seu povo. Porque não fazer, ele e todos os outros, no próximo dia 25 de Junho (dia da Independência de Moçambique) um acto de contrição público, pedindo desculpas sinceras ao seu povo.
E já agora, porque não aproveitam e explicam onde foram buscar o dinheiro que lhes permite ostentar tanta prosperidade pessoal. Obriguem mesmo o ex-ministro-governador do Banco de Moçambique, Sérgio Vieira a explicar as suas relações com algumas figuras europeias, nomeadamemte portuguesas.
Este ano também se comemoram os trinta anos das Independências de Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Princípe. A Guiné Bissau comemorou já esssa data ( 24 de Setembro de 2003), mas não ouvimos ninguém pedir desculpas ao povo pelo mesmo tipo de destruição que foi levado a cabo em Moçambique, ou mesmo pior, já que aquele estado corre o risco de desagregação pura e simples.
Esperemos que os angolanos exijam desculpas públicas a todos os responsáveis pela destruição de um país que em 1973 era autosuficiente do ponto de vista alimentar, que, inclusivé, exportava alimentos; um país onde tinham sido definitivamente erradicadas doenças como a tuberculose e onde a malária estava a ser combatida com grande eficiência; um país que tinha uma rede escolar impressionante, a ponto de a própria OUA ter reconhecido no sistema implantado o melhor de toda a África. Um país que fez tudo isso sem o petróleo, que apenas depois entrou na economia.
Esperemos que os responsáveis de agora se atrevam ao pedido de desculpas, mesmo em nome de alguns fantasmas que por lá andam ainda.
O único país cujo povo não deve esperar desculpas pela Independência é o de Cabo Verde, que, apesar de pobre, ou talvez por isso, conseguiu fazer da independência uma arma de progresso e dignificação.
Os sãotomenses também devem erguer-se e exigir às várias cliques que lhes expliquem para onde foram as promessas de uma vida melhor. Sãos dirigentes de São Tomé e Princípe, de ontem e hoje, que devem pedir desculpas pela maneira infantil como governaram, no princípio, o pais, e pelos negócios pouco claros com que o governam actualmente.
Afinal, quem deve pedir desculpas a quem?
Como conclusão para reflexão ainda acrescento que, afinal, os descendentes dos escravos de há séculos vivem hoje uma vida com muito melhores perspectivas do que os descendentes daqueles que, tendo ficado nas suas terras, vivem na escravidão da pobreza e da corrupção.
É uma conclusão quase cínica, mas a responsabilidade dela é de homens como Joaquim Chissano, que entendem que a sua condição de negros lhes atribui um estatuto de imunidade congénita.

Um Contra-Peso Chamado Delgado

O BES continua cheio de pressa, a querer vender a Lusomundo ( eu bem gostaria de saber quanto é que o banco do dr. Salgado vai ganhar com a operação...)

Todavia, esta urgência cheira muito a precipitação, tanto mais que já não é possível ao ministro Morais Sarmento continuar a ameaçar quem quer que seja.

Por exemplo: ainda ninguém falou de dois apêndices do chamado pacote Lusomundo.

Um deles é importante: trata-se dos 23,35 do capital da Agência Lusa detidos pela PT - uma comparticipação que existia antes de a PTMultimédia comprar a Lusomundo ao Coronel Luís Silva.

O outro não é assim tão importante mas não deixa de ser um embrulho: há quem diga, agora, que o Luís Delgado é quadro da PT; outros, todavia, atribuem-no ao" plantel" da Lusa. Isto pode significar que quem levar o pacote pode ter que suportar o contra-peso: Luís Delgado.

De acordo com o "Contra-Informação", todavia, o dito preferiria ir para os Estados Unidos, onde se juntaria a George W. Bush e à sua equipa de génios.

Parece que esta seria a melhor solução para todos: nós ver-nos-iamos livres dele e Bush podia constatar que não nasceu néscio sózinho. Talvez, só por isso, nos distribuisse uns contratos na reconstrução do Iraque, um dos grandes objectivos de Durão Barroso, entretanto também ele emigrado e agora chamado José Barroso, em Bruxelas.

CÁ POR CASA TUDO BEM

Quer-se dizer: tudo antes assim que pior. É o bem maior que, de momento, é concedido a Portugal e aos portugueses.

Bagunça política

É difícil perceber o porquê das campanhas eleitorais em país, como Portugal, onde as legislaturas não passam de longos anos de campanha eleitoral. Tirando o dia do ufa.

De onde a política à portuguesa (só?) se resumir a campanha sobre campanha com um dia de descanso. O dia de gozar a verdade do silêncio. O prazer dum ufa de vinte e quatro horas.

Bagunça Cultural - I

Foi uma bagunça silenciosa. Aliás é, porque composta de vários capítulos que não param de se suceder. E continuam. Mas o silêncio mais significativo foi o que rodeou a possibilidade de compra da Lusomundo por empresas espanholas. As que entraram no concurso organizado pelo BES para venda dos órgãos da comunicação social da pertença da PT.

Pareceu curial que isso da compra e venda de instrumentos fundamentais da cultura de um povo seja a coisa mais natural do mundo. E ainda por cima vendidos por nacionais e comprados por estrangeiros.

O negócio não se realizou nesses termos, mas ficou a naturalidade com que se encarou o ter sido possível. A cultura nacional transaccionada como a palha que vem de Espanha por causa da seca. Palha para os burros que chamam a isso democracia: os incultos políticos que ainda não perceberam que é pela cultura que se matam as nações.

Bagunça Cultural-II

Mas Deus Nosso Senhor meteu-se nessa operação comercial e, assim como decidiu o vencedor da Batalha de Ourique, resolveu também que a Lusomundo, ao que parece, vá parar às mãos do Oliveira dos carcanhóis ganhos com os futebóis. Pelo menos foi o que a imprensa pôs a circular, depois de Santana se despedir do PR e antes de Sócrates assumir funções perante o mesmo.

Ora, a verdade seja dita, isso de entregar instrumentos de cultura a espanhóis ou a um Oliveira qualquer não altera em muito os dados do problema. É que a ignorância, mesmo nacional, também é um poderosos instrumento de matar a cultura dum povo. A Nacional.

Bagunça Cultural - III

Disso de espanhóis metidos na cultura portuguesa aconteceram-me duas tragédias dignas de procedimento inquisitório. Com fogueiras e tudo.

Tenho em casa, comprado aos nacionais da nação de Cervantes, o D. Quixote. A coroa da glória literária da grande Espanha. Dois volumes de bonita capa dura, recheados de dourados, a envolver uma tradução miserável. Uma vergonha Ibérica.

A produção pertenceu a uma S.A. espanhola que não vem ao caso nomear porque a guerra não é de nomes, e a tradução coube a um vago gabinete de traduções. Mas há responsáveis. De lá e de cá também. Só que com a cultura tratada como banha da cobra, legalmente, adiante-se, nem vale a pena pedir responsabilidades.

Desse "Dom Quixote" como de um "Pai Goriot", de Balzac, obra espanhola mas de tradução portuguesa, a qual nem por isso foi favorecida pela Santa de Fátima. A cultura em Portugal só lá vai com outra Santa Inquisição.

Bagunça jornalística
Nem só na RTP atiram programas para hora incerta, como ela faz com o "contra-informação". Fazem-no todas. Mas, pior que isso, é o não cumprimento da programação anunciada em tudo o que é informação escrita. Obviamente se dirá que se trata de falta de respeito pelos telespectadores. Poderá contudo dizer-se, igualmente, que se trata de falta de educação dos responsáveis pelos vários canais. Dos directores dos jornalistas, com anuência dos jornalistas dirigidos por tais directores.
Mas poderá um povo impontual por deseducação exigir pontualidade a alguém? Na conformidade, que é desconformidade, esta bagunça nem será jornalística. Antes educativa. Cultural.
Bagunça farmacêutica
A muito custo conseguiu o PSD que os medicamentos genéricos fossem lançados no mercado, como por essa Europa fora.
Honra portanto ao PSD. E desonra para o PS que perdeu a guerra com os interesses antigenéricos. Instaladíssimos que estavam.
Sucede no entanto que, por culpa dos médicos (dizem os farmacêuticos), que não os receitam, a venda dos referidos medicamentos fica-se por uma percentagem ridícula.
Muito bem, culpa dos médicos.
E qual é a culpa dos políticos que consentem que os médicos receitem por marcas e não os obrigam a fazê-lo pela composição química dos remédios?
Isto do apuramento de culpas em Portugal é sempre tão complicado que, de modo geral, uma bagunça é mais um emaranhado delas que ela.

domingo, fevereiro 27, 2005

Cada Coisa no Seu Lugar

A forma como José Sócrates está a administrar a comunicação social no processo de formação do seu governo é exemplar. O que tem aparecido nos jornais, nas rádios e nas televisões é, visivelmente, especulação.
Isto quer dizer que o próximo governo será constituído por gente que tem um compromisso com o primeiro-ministro: não vai haver fugas de informação.
Este compromisso pode ser definido como o verdadeiro "fusível" do XVII Governo Constitucioanal. No dia em que alguém quebrar o compromisso haverá um curto-circuito e o chefe da equipa terá que fazer de "electricista".
Neste plano - o do relacionamento do poder com a comunicação social - permito-me uma sugestão: o regresso a uma certa institucionalização, nomeadamente com as televisões. Em Portugal, tal como em todos os países europeus, existe uma estação de Televisão oficial.
É através dela que os representantes do Estado apresentam as suas comunicações aos respectivos povos.
Isto não quer dizer que as outras estações não tenham direito à transmissão de tais mensagens. Quer apenas dizer que cabe à Televisão Pública disponibilizar os meios técnicos e humanos para que os eleitos do Povo a ele se dirijam. As televisões públicas são obrigadas - evidentemente - a disponibilizar o sinal a todas as outras.
Deste modo se evitam as cenas desagradáveis de multidões de câmaras e microfones, disputas, birras e outras coisas feias. Com tudo bem definido a vida é mais fácil.

OS DO RESTELO

Quem mais espreita os sucessos alheios o que mais deseja é vê-los cair. Sempre ouvi dos menos afoitos, dos menos dotados a sabedoria dos que nunca descobriram a pólvora:
quanto mais se sobe/maior é o trambolhão!
De medroso que sempre fui, aprendi que não se deve bater num homem caído.Subsiste sempre o risco de ele se levantar.Quem mais empurrou Santana para o abismo foi o Lopes que havia nele. O mesmo Santana que ganhou a Figueira da Foz, a fazer lembrar Helena Roseta a candidatar-se por Setubal, porque não era fácil. Mais fácil seria depois Cascais. Era muito, era demais e não lhe perdoram e ela abalou. Marcelo não ganhou Lisboa e depois voltou a perder naquilo que ele julga que é forte: a intrigalhada. Portas deitou-o por terra e como se não bastasse o Santana, com Lopes e tudo, afoitou-se a Lisboa. E ganhou.
Ganhou é uma forma de dizer, de facto ele perdeu-se nas teias emaranhadas do Pelourinho, enquanto Durão Barroso descortinava forma de, ele próprio, sair da crise, trespassando-a para o nº2.
Agora é fácil e simples concluir que o nº2 do Partido falhou como nº1 na condução
dos assuntos do Estado, na chefia do governo.
A primeira questão que se pode levantar é o porquê? Porque motivo era ele o nº2 do nº1? Seria porque o nº3 era mau de mais para ser verdade? E, decerto, nem valerá a pena citar o nº4 ou o nº5, deviam ser péssimos.
Os bons estavam prudentemente recolhidos.O mais excelentíssimo recolheu-se demais, tanto que se queimou. Já pode guardar o tabu na gaveta.
Tenho, confesso pouco geito para prever o futuro, mesmo próximo. Do jogo de amanhã prevejo que ou o Porto ou o Benfica ganhe, porque se não for assim, empatam. Mais longe que isso habitualmente não me afoito, mas admito que estive estes últimos dias à espera que o prof. Freitas aderisse ao Bolco de Esquerda. Ali ficaria a matar...

sábado, fevereiro 26, 2005

Aos Empresários Compete Investir

Não sei o que deu aos empresários deste país. Agora deu-lhes para alvitrar sobre matérias que não lhes dizem respeito. Vêm dizer-nos como formariam um governo, quem escolheriam para esta e para aquela pasta e até se permitem interferir no cumprimento do programa eleitoral do partido que ganhou as eleições por uma maioria estrondosa.

Francamente, senhores!

Então a CIP acha que o PS não deve mexer uma linha do Código de Trabalho e os srs. Belmiro de Azevedo e Artur Santos Silva e mais não sei quem entendem que os governos são muito grandes e deviam isto e mais aquilo.

Então, e os senhores fazem o quê? Por acaso, foram a eleições? Por acaso contentar-se-iam com os míseros vencimentos, relativamente às fortunas que cada um de vós ganha, que os ministros recebem.

(Um dia destes alguém se lembrou de publicar num jornal qualquer a notícia de que o engº Zenal Bava poderia vir a ser ministro da Educação. Era para rir, seguramente. De quanto seria necessário aumentar o orçamento do Ministério da Educação? E o engº iria receber comissões de quem?)

Fechado o parentesis: os srs. empresários dizem estes disparates porque os jornalistas os interrogam sobre estas matérias. Ninguém lhes pergunta: e agora, sr. engº. vai investir? E agora sr.dr., vai criar postos de trabalho.

E já agora, uma pergunta especialmente dirigida a um que não esteve no tal programa da SIC Notícias, o dr. Ricardo Salgado: vai deixar de parasitar a PT?

Srs. empresários, é hora de arregaçar as mangas e investir. Despir foi antes, já passou. Assumam as vossas responsabilidades e deixem de armar em políticos.

Quanto aos jornalistas económicos: aprendam, a fazer perguntas. Os empresários não se interrogam sobre como formar governos.

E já agora, um último parentesis: aquela notícia do engº Bava tinha como objectivo assegurar que também o PS aceitará a sua candidatura à presidência da PT - é o que ele quer.

SINAIS DOS TEMPOS /3

É uma questão de tempo e o tempo não abunda. Isto justamente para sugerir ao novo governo que terá decerto empenho em dar seguimento ao enunciado eleitoral -- as reformas, porque reformar é preciso.E como já vinha alvitrando a maneira mais coerente de avançar com o programa é começar por reformar por dentro. Num país minúsculo como o nosso, o peso tumultuoso do Estado representa um travão restritivo a qualquer programa governativo. Para se avançar há que diminuir a herança herdada do Estado Novo, nessa matéria. O Estado-patrão ou o Estado-senhor-doutor ou o Estado-senhor-professor ou o Estado-vaca-leiteira terá de ser brutalmente interrompido.
Um governo ambicioso não pode aceitar ser mero tesoureiro do Patrão, tem que ambicionar mais.Um ministro não pode mais continuar a ser um mero chefe de repartição. Ao ministro da Saúde caberá traçar a política sectorial e o governo determinar a sua execução, logo que aprovada pela A.R., e quer seja a Ordem dos Médicos, se quiser, ou o senhor doutor Espirito Santo (que já tem alguma prática) ou, porque não, a Olivedesportos (que é muito, muito prática)tratem de encher os hospitais de clínicos e de doentes, com remédios de marca ou genéricos. Competirá ao estado controlar e ser exigente. O mesmo, mas mais depressa, para a Educação e com mais calma para a Agricultura. Até o pessoal burocrático nos ministérios não deveria ser constituido por funcionários públicos. O serviço assegurado por empresas privadas, de acordo com as necesidades
Claro que no Palácio das Necesidades as coisas são diferentes. Na maioria dos outros não. Um ministro não deve perder tempo a negociar com sindicatos ou o serviço paralizado por uma greve.
Não vale a pena ignorar um dado adquirido:a gestão privada é mais rentável e mais eficaz. Enquanto um governo for um mero director de pessoal, perde tempo e meios para governar.Poderão eventualmente sobreviver alguns, mas o funcionalismo público, tal como o conhecemos hoje não pode continuar Hidra de sete cabeças.
Por-se-á a questão delicada e que fazer com os funcionários? Não é do jornalista a receita dos milagres, mas haverá decerto soluções. Ocorre-me quando foi do regresso maciço das ex-colónias, que envolveu não só funcionários públicos, improvisou-se um Quadro Geral de Adidos.
Poderá sempre determinar-se directivas que obriguem as empresas que prestarem serviço ao Estado a recrutar percentagens expressivas de ex-funcionários e mesmo entre estes, com diferentes graus para os diferentes escalões etários.
Claro que a solução mais fácil para qualquer governo é deixar tudo na mesma, mas com outros nomes.
Pois é, mas acaba na mesma e com o mesmo resultado.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

SINAIS DOS TEMPOS/2

Mesmo Alta, o que uma pessoa é não é o que foi. O que foi Filho talvez não aceitasse ser Alto, mas se aceitasse por certo haveria de intervir de forma a não pactuar com a vil tristeza a que chegou a CS. Compram-se escandalos para abrir tj ou primeiras páginas de semanários (a moda já começa a chegar aos diários). Compram-se e jogam-se para o ar mesmo que manifestamente sejam falsos ou falseados e quando é preciso desmentir fazem-no de modo a que o desmentido soe a falso.

No meio disto o cronista avençado/comprometido passa ao lado. Os círculos de comentadores políticos, esses, sim, esses têm outro peso e, por conseguinte, outra autoridade, mesmo moral, porque não disfarçam as conotações. Pacheco Pereira foi tão duro contra Santana Lopes quanto
Marcelo, afilhado de outra Marcelo, mas foi este quem mais empurrou o líder da irmandade
para o caos. Mas a que preço? O partido de todos eles já está a pagar e mesmo a prestações vai ser duro.

Enquanto isso o estado de graça do PS começa a ser sobressaltado. Os prazos regimentais são um tormento para a estabilidade que se pretende. Precisa-se, precisa o PS, de um governo sem convulsões, tranquilo, tão natural como a sede, que possa avançar para as santas reformas. E avançar para elas o mais imediatamente possível, porque reformar contunde com hábitos e vícios, que não cedem facilmente. Que esbracejam, refilam e inundam cabeçalhos, abrem tj e atiçam os cronistas pró-interesses constituidos. O estado de graça some-se. O remédio consiste em começar cedo e acabar dezoito meses e meio antes das próximas legislativas, de forma a ter tempo para fazer render as reformas, as mudanças, e valorizar os índices económicos. Para começar cedo era necessário dispôr de projectos, planificados que mobilizem. Sem isso será difícil avançar, porque tempo é como o dinheiro; não há...

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

SINAIS DOS TEMPOS

Um colega de carteira derrama incontrolável ira sobre colunistas amplamente conhecidos por posições (atenção que não estou a referir-me a colos) pouco ou nada isentas. Numa onda de euforia, a imparcialidade é subjectiva e só se dá pela sua falta quando ataca, ofende, a onda.
Mas é verdade que a parcialidade do contra não é ingénua, é claramente mercantilista.

Sendo um dado adquirido que a comunicação social é uma loja, que frequentemente vende produtos em saldo ou que pratica descontos avultados na venda por atacado, é natural que se aproveite o intervalo em que um governo ainda não está e outro ainda não saiu para esvaziar as prateleiras dos monos afim de dar espaço aos luzidios lugares comuns da nova temporada.
Isso porque vai ter de haver lugar para os outros, com outra noção de imparcialidade convenientemente parcial. Em todo o caso, eles dão a cara e mesmo que não seja por amor à camisola comprometem-se.

Não tenho em mente justificar, seja quem for e de que lado estiver. São muito poucos os cronistas que vou lendo ( e apreciando) e cada vez mais os que deixei de ler. Vou envelhecendo
sem ver telenovelas, séries boas (que as vai havendo, quero crer) ou más. Nem filmes. Quase sempre, porque algumas vezes o apelo é irresistível. E mesmo assim, não raro acabo por sair do filme, à segunda ou terceira interrupção, por imperativos comerciais da Estação. Não tolero a
publicidade em doses maciças, e na 2, a dita institucional, chega a ser tão chata como a comercial

Mas busco sempre a Informação (é um vício natural ou, se preferirem, deformação profissional) , dando-me ao incómodo de saltitar de canal em canal. Mas até os tele-jornais me começam a enfadar. A falta de ética é gritante. Nem acredito que os modelos de informação
sejam todos impostos com finalidade inconfessável. Na maior parte dos casos é manifesto o cunho pessoal, tanta o destempero, a ignorância e a irresponsabilidade. Um pequeno exemplo: o apresentador do tj anuncia: A "X" (pode-se aplicar a qualquer uma das três) soube que fulano de tal e tal de fulano foram convidados para integrar o próximo governo e entram imagens.Um
repórter (ou uma ou uma chuva deles) aponta o microfone ao fulano visado e grita:o senhor foi convidado para integrar o governo?
A resposta foi simples: não fui nem tinha quer. Perguntem ao eng. Sócrates. E o bando ulula: "mas se for aceita"?!!!
Colocaram a mesma questão a mais suspeitos, obtendo o mesmo tipo de resposta, mas foi como se nada se tivesse passado. Os noticiários seguintes (no Cabo e nas generalistas) continuaram a divulgar, ao longo da noite e no dia seguinte, como certa a informação desmentida e nunca confirmada. A Sic sabe, a Sic soube, a TVI, a TVI aquilo e pronto, quem quiser que engula. Desculpem por não ter citado a RTP, mas podia ter citado.

É verdade que existe uma autoridade (alta) para a Comunicação Social. Se fosse clandestina seria por certo mais activa, como não é, funciona como um instrumento com tecnologia sideral, alimentado a pilhas e é activado para não fazer ondas. (continua, depois do jantar)...

Ansiedades

A informação em Portugal funciona numa lógica absolutamente preversa, determinada por um sem número de factores, cuja identificação rigorosa é indispensável a quem quiser fazer dela um instrumento de comunicação social.
Desde logo a sua natureza de negócio. Tal como a venda de sapatos ou a concessão de créditos. É um negócio. Os seus factores de produção são considerados da mesma maneira que numa empresa de telecomunicações ou num restaurante.
Nessa perspectiva, os seus trabalhadores valem pelo que produzem e pelo que ganham. O melhor trabalhador para um empresário de comunicação social é aquele que produz mais e ganha menos.
O negócio, por sua vez, é alimentado pelos leitores e pela publicidade - em Portugal, mais por esta do que por aqueles, já que os leitores são cada vez menos. Cada vez mais os únicos leitores de jornais são os quadros de empresas que têm direito ao jornal diário, pago pelo orçamento.
Há, todavia, em matéria de leitura, dois concorrentes sérios: a blogoesfera e os jornais distribuídos gratuitamente nos transportes públicos. Para quem quiser saber dos instrumentos de comunicação social, deve dedicar alguma atenção sobretudo a este último fenómeno.
A publicidade é a chamada pescada com o rabo na boca, já que os grupos proprietários de jornais têm interesses nas agências de publicidade e os dinheiros passam de um lado para o outro, engordando ou emagrecendo orçamentos, mas sem resultados importantes.
A informação portuguesa vive da pressão política que faz sobre os detentores dos poderes de Estado. Os grupos económicos, que dominam a informação, vivem, sobretudo, dos favores que obtêm do Estado. Por isso fazem pressão e dão guarida a todo o tipo de lixo, desde que possa representar uma pistola apontada ao peito de alguém.
É neste contexto que se interpreta a ansiedade - quase desespero - da comunicação social a propósito na nova situação política de Portugal. Chega a ser ridículo ficar atento ao que escreve ou diz.
Todavia, é necessário ter alguma compreensão acerca de tal ansiedade. Os jornalistas estiveram habituados, durante muitos anos, aos telefonemas privilegiados, às relações próximas com os gabinetes do poder. Alguns deles foram formados nesse esquema - não imaginam outro. Nunca produziram uma notícia, fizeram sempre redações a partir de ditados do sr. dr (nos últimos anos, os ditados já têm erros de ortografia).
Percebe-se, portanto, que os jornalistas desesperem e que os profissionais da intriga aproveitem o desespero para atirar para as redacções as chamadas análises inteligentes.
Também não custa perceber que o País - todo ele e não apenas os jornais - esteja perplexo com os resultados das eleições do último fim de semana. Eu atrever-me-ia a dizer que a própria Europa está, mais uma vez, de boca aberta. Como é possível uma viragem tão acentuada na contagem dos votos?
Contagem de votos - digo bem.
Essa contagem deve ser lida sobretudo pelo PS. É que ela não representa uma onda entusiastica favorável aos socialistas e ao seu secretário-geral. É, sobretudo, um grito de rejeição. Tão forte que até deu para alguns dos votos socialistas irem alimentar o crescimento do PCP e do BE.
Esta maioria absoluta não pertence ao PS e ao engº Sócrates. Pertence a este povo e à sua esperança na mudança de rumo.
Ao contrário do que dizem os intriguistas profissionais, tais como António Ribeiro Ferreira, Vasco Graça Moura, Luís Delgado e outros, o povo não rejeita a ideia do sacrifício. Está disponível para ele, mas quer ver os resultados. Por isso se mobilizou nesta votação maciça na esquerda - não porque é esquerda, mas porque é a única alternativa.
É aqui que deve entrar a inteligência de quem vai formar governo, de quem vai delinear políticas, de quem vai assumir este cheque em branco, onde é preciso, urgentemente, colocar os números e a assinatura.
Na rua, conversando com as pessoas, percebe-se que é tudo muito simples: toda a gente quer uma vida mais simples, mais cómoda e mais recompensadora e quer entender o que os políticos propõem.
Espero que o engº José Sócrates não confunda amizades com política e tenha capacidade para identificar algumas figuras socialistas que o povo não quer voltar a ver com responsabilidades de governo. Alguns deles até podem ser amados pelo povo socialista, mas não são queridos dos outros.
A outros é o próprio PS que se esforça por esconder nos bastidores, mas o resto do país reconhece-lhes competência, seriedade, amor à causa pública.
Esta maioria absoluta ainda não pertence ao próximo primeiro-ministro de Portugal e ao PS, mas eles têm todas as possibilidades de a ganhar, de a justificar e , quiçá, ampliá-la. Há muitos casos na história de granders líderes que o foram, sendo-o. Não chegaram à liderança através de um caminho longo de conquistas na construção de carismas irresistíveis. Há muitos exemplos na história em que o poder construiu o carisma e a capacidade de liderança incontestável e incontestada. Em Portugal já há algum tempo que tal não acontece.