sexta-feira, janeiro 21, 2005

A RTP Do Nosso Descontentamento I

Escuto a auto-promoção da RTP e sorrio, ouço os seus administradores falar das realizações do consulado e surpreendo-me. Vou, seguramente, ficar de boca aberta de espanto, quando o ministro Morais Sarmento aparecer em campanha a falar da sua grande obra na Televisão pública.
Antes que o abrir de boca seja nacional e corra tudo para as urgências dos hospitais, será melhor contar o que realmente se passou com tal instituição.
Tenho um amigo que, para resumir a questão da RTP, conta a seguinte estória: "imagina que o dono de um fábrica de sapatos resolveu vender as máquinas e despedir os sapateiros. Todavia, para manter a existência da fábrica arrendou um apartamento, colocou a placa com o nome da fábrica virada para a rua e assegura a toda a gente que ela existe. De facto, está lá, só que já não fabrica sapatos".
É assim a nossa Televisão pública. Acertaram as contas? Eles dizem que sim. Venderam tudo quanto havia para vender, alugaram instalações, despediram pessoal. E agora ?
Agora, o grupo RTP abdicou de intervir nas grandes produções de televisão, de cobrir os grandes acontecimentos, de transmitir os grandes espectáculos.
Dispensou os seus melhores profissionais, nomeadamente em áreas determinantes como a produção e a realização televisiva, alienou parte dos meios técnicos de que dispunha, não se actualizou, não adquiriu novos meios, nem sequer aproveitopu a realização, em Portugal, de grandes acontecimentos, como foi o Eruro 2004, para iniciar um processo sustentado de actualização.
Por mais incrível que possa parecer a RTP não dispõe, actualmente, de meios humanos (realizadores, produtores...), capazes de produzir e realizar um ballet, uma ópera, um grande concerto, um desafio de futebol, uma corrida de fórmula 1...terá mesmo alguma dificuldade em "gravar" uma boa peça de Teatro.
E se quanto a meios humanos a situação é bastante grave, como provam as sucessivas recontratações de funcionários recentemente dispensados, a reestruturação técnica da empresa parece acompanhar o descalabro geral das grandes opções económicas e financeiras nacionais.
Além dos meios técnicos de informação, quer de estúdio, quer de reportagem, de aquisição recente e que são meios ligeiros, a empresa já de poucos meios técnicos de produção dispõe. A grande maioria das unidades está completamente desactualizada, mal equipada, com material antiquado a que falta manutenção, excepção feita para dois carros de exteriores, que ainda estão operacionais, mas que só ligados em série poderão transmitir um grande desafio de futebol.

As Pressas da Venda

A notícia é insistente: o BES quer vender a Lusomundo antes das eleições. Hoje, pela primeira vez, alguém acrescentou que outros accionistas têm opinião diversa. Estas duas informações juntam-se a uma montanha de outras sobre o interesse de toda a gente nos activos da Lusomundo.
A Media Capital, a SonaeCom e até o Jaime Antunes já fizeram circular o seu desejo de compra.

Pinto Balsemão foi ainda mais claro. Disse que quer a TSF e um Jornal Diário - espero que não seja para fazer como com a "A Capital": no dia seguinte ao fim do contrato que o obrigava a manter associado ao jornal o respectivo património, passou o edifício de "A Capital" para o seu nome. Logo a seguir entregou a respectiva direcção a Helena Sanches Osório e depois desfez-se do título.

Hoje também se disse que o ministro Morais Sarmento gostava que a Lusomundo fosse vendida à Cofina, por já possuir uma determinada percentagem do respectivo capital.

Esclareçamos duas coisas:
1-O BES tem apenas cinco por cento da PT, accionista maioritário da Lusomundo. O BES, embora pareça, não é o dono da PT e a comissão executiva do maior grupo empresarial português ainda não foi capaz de esclarecer esta questão. Toda a gente, incluindo as dezenas de milhar de pequenos accionistas da PT , ficam convencidos de que Miguel Horta e Costa e seus pares recebem ordens directas do BES
2 - O sr. ministro Morais Sarmento não tem que preferir coisa nenhuma. A venda de um activo da PT é um acto de gestão da sua Comissão Executiva.
A não ser que as preferências do sr. ministro e a pressa do BES estejam relacionadas e justifiquem o comentário que foi feito ao post publicado neste blog, a 10 de Dezembro de 2004, com o título Administradores-Comentadores.
Oh! sr. ministro ainda está a pressionar o BES ? Ainda tem poder e capacidade para retirar daquele banco as contas do Estado e das empresas públicas?

A República da Madeira

Os portugueses gostam de dizer que são conhecidos no Mundo e arredores pela sua virilidade, pela sua "macheza" ( à brasileira). E não está muito longe o tempo em que "certas ofensas só poiam ser lavadas com sangue". Porque isso de "corno" só paciência.

"Paciência de corno" é o que todos demonstramos - incluindo o Presidente da República - para aturar o presidente do Governo Regional da Madeira, dr. Alberto João Jardim.

Que é isto de "os deputados da Madeira renovam o compromisso de que, sempre e em todas as circunstâncias, colocarão os interesses da Madeira acima de quaisquer outros" ?

É este o levantamento a que Santana Lopes fez apelo ? Ou estas condições já estavam incluídas nas propostas aprovadas por Durão Barroso?

E o Presidente da República concorda com esta proclamação? Já chegámos à República da Madeira, ou ainda demora algum tempo?

Porque não se faz já um referendo para que a "matéria fique clara"?

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Um Ministro da República

O Programa televisivo "Prós e Contras" presta, normalmente, bons serviços à comunidade. Exceptuam-se aquelas edições em que se nota a intenção de conduzir a discussão em determinado sentido. Não foi o caso da última , em que tivemos a oportunidade de ouvir as opiniões de alguns dos nossos"Senadores" sem Senado.
Concordemos ou discordemos deles temos que reconhecer-lhes a sabedoria própria de quem estudou e viveu a vida. Porque uma coisa sem a outra não conduz à sabedoria - a Sabedoria definida por Platão na defesa de um governo de sábios, dos mais sábios.
Eles são os mais sábios de entre nós e, apesar de a democracia mediática do nosso tempo os excluir da possibilidade de nos governarem, não podemos deixar de os ouvir.
Mário Soares e a sua desinibição na análise do programa do Bloco de Esquerda, Freitas do Amaral a lembrar aos eleitores do PSD a dupla escolha que terão de fazer e Adriano Moreira a analisar a decomposição do Estado representaram-nos a todos. Ali estava o País, a analisar-se sem apelos absurdos a levantamentos e sem queixas de esfaqueamentos ou de pontapés em bébes prematuros.
Mas, para além da opinião daqueles três "Senadores" sem Senado, houve a de Miguel Cadilhe, ainda com idade, com força e telegenia para, antes de ser "Senador sem Senado", voltar a ser um "Ministro da República". Não um ministro do PSD ou do PS ou do que quer que seja , mas Da República, uma entidade já sem força e a correr o risco de perder identidade.

Vamos Ser Claros Nesta Matéria III

Oito licenciados em jornalismo respondem a um anúncio de uma agência de comunicação, daquelas que compram e presenteiam jornalistas - não estagiários, jornalistas, alguns com grande nome na praça - e são mimoseados com a proposta de um contrato confidencial, segundo o qual ficarão obrigados a uma prestação diária de duas horas de trabalho, durante quatro meses, sem qualquer remuneração. No caso de não cumprirem ficam sujeitos a uma indemnização de 2.500 Euros.
Ao pedido de levar o contrato para estudar (para, obviamente, pedir a opinião de um advogado) a resposta: "...isso é que era bom. Isto é confidencial e não sai daqui".
Três deles mandam os senhores (dois) da INFOPRESS dar uma volta.
Cinco ficam.
Na esperança de que alguma coisa mude, de que um dia destes talvez tenham um emprego sério e sem saber que estão a entrar no negócio da escravatura do nosso tempo: uma escravatura de luxo, que coloca ao serviço da pressão, da troca e influência e, muitas vezes da chantagem pura e simples um grupo de jovens generosos que cometeram o erro de sonhar com uma profissão aparentemente importante e muito valorizada pela vizinha, pelo sr. Manuel Padeiro, pelo condutor do autocarro da Escola e por algum professor saudoso dos tempos do jornal da sua própria escola.
Afinal não é nada disso!
E onde é que anda a Inspecção do Trabalho. Oh! sr. ministro Álvaro Bissaia Barreto, ao menos respeite um dos seus antepassados ilustres, que, sendo embora amigo do Salazar, tinha um grande respeito pelos trabalhadores. E, olhe que, tal como naqueles tempos já há muitas almas quase ingovernáveis.A Revolta das Palavras/

Vamos Ser claros, Nesta Matéria I

Para além dos muitos pontapés na Gramática que os nossos antepassados nos foram legando ao longo dos séculos, Jorge Coelho inventou o jargão político: "vamos ser muito claros nesta matéria".
Sejamos então:
A SEDES é uma instituição que ao longo da sua já longa existência nos habituou a uma reflexão séria sobre as grandes questões nacionais, sejam elas de carácter filosófico, político ou económico e as suas intervenções públicas pautam-se pela pluralidade, com a preocupação de sugerir diversos caminhos para as soluções dos probelmas em análise.
Por isso não entendo as razões por que vieram agora uma meia dúzia de economistas liberais e neo-liberais, em nome da SEDES, tentar pressionar, , os programas dos partidos concorrentes às eleições antecipadas num único sentido, o mesmo caminho que temos vindo a seguir há três anos. Não entendo, não aceito e tal como José António Barreiros ( a quem já declarei as minhas solidariedade e disponibiliodade) no seu blog REVOLTA DAS PALAVRAS, sinto "A Alma Quase Ingovernável"

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Vamos Ser claros, Nesta Matéria II

Entro numa delegação do Banco que há não sei quantos anos sabe o que ganho o que gasto e, de vez em quando, me faz propostas mais ou menos desonestas. Um rapazinho que aprendeu há dias a usar uma gilette, todo aprumado dentro do seu fato no melhor estilo executivo do tempo, abre-me a porta, afivela um sorriso e enquanto olha a cábula para saber o que fazer com o cheque que lhe deposito em cima do balcão, olha para a porta e abre-a para um outro cliente entrar, mais um gesto e mais um cliente.

No final das operações devidas e enquanto arrumo na carteira os Euros, vou-lhe dizendo: "um dia destes, você e os seus colegas,vão sentir num orifício qualquer um espanador para, enquanto descontam os cheques, dão dinheiro a uns clientes e abrem a porta a outros, aproveitem o tempo para fazer a limpeza da loja".

O senhor fica espantado, mas já não tem tempo para continuar a conversa. Saio a pensar: isto está muito mau, mesmo muito mau. Então, se aquele jovenzinho, que deve ser licenciado para aí em finanças, em enconomia , em gestão, eu sei lá, faz tudo aquilo, o seu índice de produtividade deve ser astronómico...

Como é que os banqueiros, que pagam poucos impostos, que aproveitam todas as oportunidades para nos mexer nos bolsos, andam a reclamar contra a baixa produtividade dos trabalhadores portugueses, a exigir mais receitas (quer dizer, mais impostos para os outros) e menos despesas no sector social.

Dr. João Salgueiro, vamos ser claros nesta matéria: o senhor e os seus pares estão a abusar da passividade deste pobre povo de brandos costumes. Mas olhe que já há gente com " A Alma quase ingovernável" A Revolta das Palavras

Amilcar Cabral

Faz amanhã, 20 de Janeiro, 32 anos que um tiro ecoou nas planícies guineenses, com um estrondo enorme, se repercutiu nas montanhas cabo-verdianas e acabou por abalar o Mundo. Amilcar Cabral era morto, à frente de sua mulher, Ana Maria e, mesmo a morrer não desistiu de convencer o correligionário assassino do seu erro.
Não foi apenas a morte de um Homem. Foi o assassínio de alguém, que, pela inteligência, pela convicção, pelo carácter, derrotava a teoria de que somos todos iguais. Não é verdade. Amílcar é uma das provas.
E nem sequer vale a pena lembrar o seu enorme contributo para a libertação de uma parte importante de África - qual o destino que, entretanto, seguiu é outra questão e não vem ao caso, até porque se não tivesse sido aquele tiro, provavelmente tudo seria diferente.
Hoje, caminhando por esta cidade com música nos ouvidos para me distrair das coisas medonhas que por aqui se constatam, tive a felicidade de ouvir um dos mais importantes poemas de Amilcar Cabral, nas vozes de Cesária Évora e Caetano Veloso - um associação insuperável, já que à ingenuidade e espontaneidade da Cesária se junta a técnica excepcional, ultrapassada apenas pela emoção que o próprio Caetano coloca na sua interpretação do poema "mamãe Velha".
Mamãe velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
E vibra dentro do meu coração.
Venha, mamãe velha, venha ouvir comigo.
Recobre as forças e chegue ao seu portão.
A chuva amiga já falou mantenha.
E bate dentro do meu coração.
A chuva amiga, mamãe velha,
A chuva que há tanto tempo não batia assim.
Ouvi dizer que a Cidade Velha
E a Ilha toda em poucos dias já virou jardim.
Dizem que o campo se cobriu de verde,
Da cor mais bela que é a cor da esperança,
Que a terra agora é mesmo Cabo Verde
E a tempestade já virou bonança.
Aqui fica a minha homenagem ao homem que se preocupava com a estratégia da guerra, com a política de unidade de um partido-dois estados, que foi capaz de fazer reconhecer o seu Estado, ainda ocupado por tropas coloniais, por mais de oitenta outros. Um homem capaz de tudo isso e de se preocupar com o fundamental, com a chuva "que há tanto tempo não batia assim" e com a alegria das pessoas, da mamãe velha já sem força para chegar ao portão.
Aquele tiro de há 32 anos roubou-nos o prazer do convívio, por mais alguns anos, com um verdadeiro dirigente político, um líder autêntico, capaz de transmitir um sonho à sua gente.

Nos Bastidores de...

Finalmente uma produtora cinematográfica resolveu levar a cabo uma super-produção cinematográfica, contando a história de um verdadeiro herói nacional. Hoje as televisões apresentaram os bastidores de algumas das cenas do emocionante filme, interpretado por António Mexia. O homem a anunciar o futuro - sim, porque a estória conta a história toda, incluindo a dos 16 netos de Nuno Álvares Pereira e a sua caminhada gloriosa até S. Bento, entretanto já liberta dos mouros por Afonso Henriques, ajudado por D. Jorge Nuno Pinto da Costa.
O protagonista foi apresentado a dizer que lá para o ano dois mil e 15 (será?) toda a gente pode ir de Lisboa ao Porto em uma hora e quinze - menos tempo do que um jogo de futebol. Portanto, quem tiver o papel necessário já pode ser sócio do FCP e viver na Amadora.
O interesse do enredo está, de resto, nas suas subtilezas, representadas nesta fala do verdadeiro herói português, quando salientou que tem de haver equilibrio entre o português contribuinte e o português utilizador. Nos bastidores houve quem defendesse uma fala mais directa:"estamos aqui para vender, portanto, quem utiliza, paga - é o princípio do utilizador - pagador".
Estou, todavia, informado que o autor do texto insistiu e ganhou contra tudo e contra todos, contra ventos e marés. Por isso é que os pés de microfone, que se veêm atrás do herói estão tão pouco entusiasmados. Já lhes custa acreditar na históra do D. Nuno, quanto mais nesta de uma ponte e de um comboio áquela velocidade.
Como informação de última hora, crê-se agora que a super-produção pode estar em causa porque os patrocinadores entendem os gastos excessivos para tanta fantasia. Eles também não acreditam.
Que havemos de fazer? Vamos ficar sem a tal superprodução que tanta falta faz à história do nosso cinema - quase toda realizada pelo mestre Manuel Oliveira, produtor, interprete, e realizador de "a história do princípe que batia na mãe", mas se recusava a usar símbolos nazis nas festas que fazia em casa do Duque de Viseu, com a senhora do dito - filme que é o verdadeiro começo da sua carreira.
Com esta descoberta fica também resolvido um dos grandes mistérios do nosso tempo: se a carreira de MO não tem fim, será que teve princípio?

terça-feira, janeiro 18, 2005

Os Tabús de Cavaco Silva

Confesso que nunca percebi muito bem as estratégias do prof. Cavaco Silva. Acho mesmo que ele, há dez anos, foi empurrado para a candidatura à Presidência da República com argumentos ligados ao dever de servir o partido e a Pátria.

Na verdade, não tem vocação para Presidente da República. Um presidente - em Portugal - não manda, não comanda, promulga e, para dissolver a Assembleia da República tem que encontrar um primeiro-ministro igual ao ex-presidente da Figueira.

Ora, essa não é a vocação de Aníbal Cavaco Silva. Ele gosta de mandar, mandar promulgar e comandar. Quanto à Figueira é apenas uma breve recordação na sua vida - foi lá fazer a rodagem de um carro novo.

Apesar de tudo , o prof. é apresentado desde há anos como o candidato natural da direita à Presidência da República. Será ele - afirma-se em tom comicieiro - que cumprirá o grande desígnio de "um assembleia, um governo, um presidente", anunciado noutras idades por Sá Carneiro.

São os outros que o dizem e ele encolhe os ombros. Mais do que isso: já demonstrou de formas claras não querer nada com o PSD. E não é apenas o PSL (SL, de Santana Lopes). Qualquer PSD. Estou fora, vai dizendo. Mesmo que não se possam colocar as aspas, as mensagens são claras. E porque será?

É muito fácil: o prof.dr. Aníbal Cavaco Silva não queria, de facto, concorrer à Presidência das República. Ele queria ser o Presidente da Comissão Executiva da União Europeia e foi traído por Durão Barroso e por todo o PSD.

Este foi um verdadeiro tabú, revelado agora por alguém muito próximo dele e longe da Comunicação Social, geralmente bem informada.

Aqui estão - afinal - as razões de todas as provocações , já que Santana sabe que Cavaco Silva não quer ser candidato - nem agora nem depois, quando ele andar à procura de um senhorio que lhe alugue uma casa com renda a perder de vista.


O País dos Primos

Não sei como, um dia destes, uma das televisões portuguesas abriu a antena para o Engº. Melancia, ex-governador de Macau, falar sobre a questão ingente das relações comerciais entre Portugal e a China. Isto, ao mesmo tempo que Jorge Sampaio, viajava para o Império do Oriente, acompanhado de uma comitiva recheada de empresários, e um sindicato, usando um porta-voz façanhudo, daqueles que ainda gritam "viva o marxismo-leninismo", responsabilizava, noutra televisão, o Presidente da República pela deslocalização de empresas do território nacional.
Ora aqui está matéria para uma semana de debate , mas entre gente interessada em analisar problemas e deixá-los, pelo menos, em equação e não entre cavalheiros dispostos a mostrar-se aos próximos patrões.
Queixou-se o engº. Melancia de que nunca se quis saber, em Portugal, das relações com China e do canal privilegiado que Macau representava para o seu desenvolvimento. Disse mais ainda: que nunca tinha sido perguntado pelo que quer que seja ácerca da China, ele, um conhecedor da realidade chinesa, um homem com uma experiência assente num quotidiano de grande exigência.
Ninguém ouviu o Engº Melancia, assim como ninguém ouviu outro dos muitos governadores de Macau. Em Portugal há sempre um primo, ou o amigo de um primo, ou da namorada do primo, ou a própria namorada - a pessoa ideal a quem perguntar, a quem dar um emprego bem remunerado - sobretudo se não tiver trabalho para fazer.
Sr. Engº Melancia: é um mal da nossa terra. Percebeu se alguma entidade com responsabilidades na gestão das relações de Portugal com África tivesse tido a preocupação de perguntar o que quer que fosse aos milhares de quadros - muitos deles altamente qualificados - que vieram das ex- colónias e aqui tiveram que se instalar.
O que é que se passou com esse "know-how"? Muito dele colocou-se ao serviço do estranheiro e o outro esqueceu o que sabia e habituou-se a ser primo. Os que ainda tinha idade fizeram-se de primos da namorada.
Qual é o conhecimento que Portugal tem hoje das realidades africanas? Muito pouco, porque, entretanto, as namoradas e os primos delas descobriram uns empregos simpáticos, que davam umas viagens aos trópicos, sobretudo no Inverno.
Com estas idiossincrasias não admira que os nossos empresários também não estejam muito interessados em gente com ideias lá nas suas empresas. Assim como assim, eles sabem um pouco de tudo e sempre se vão desenrascando. Mais subsídio, menos subsídio, sempre fogem à exigência dessa gente com ideias que quer alterar tudo e "acompanhar o Mundo... e essas coisas".
E, depois, o Presidente quando viaja sempre leva alguns deles e...sempre há uns programas livres: Por mais que o Presidente fale e explique, não entendem: foram convidados porque são pessoas importantes. Estudar os mercados ? Saber se é possível vender na China? Mas, então isso tem algum jeito? O Estado há-de dar. Se não for o Estado, sempre há Deus, e Braga, a cidade dos Arcebispos, onde se pode rezar a todos os santos.


domingo, janeiro 16, 2005

O Reformado

É espantoso! De repente, como se tivesse acontecido uma novidade, a comunicação social portuguesa fala do caso do Comandante da Polícia, desembargador reformado por uma Junta Médica. Aqui d'El Rei que o homem recebe mais de 5 mil Euros de Reforma e mais não sei quanto e não sei que mais.
E embrulham-se nesta análise meticulosa os mais insígnes jornalisas e não jornalistas da praça, ocupando preciosos espaços dos jornais, das revistas, das televisões, das rádios e, provavelmente, desviando as atenções dos chefes de família das suas mais pesadas responsabilidades para dizerem, pelo menos: ora, o malandro!
É isso, malandro. O sr. desembargador José Manuel Branquinho Lobo, chefe da polícia é uma malandro: primeiro, porque a doença dele não é de carácter psicológico. Ele bebe demais. E, por isso foi reformado. Não trabalha, não aparece no comando da polícia, basta ver o número de horas que a bandeira que assinala a sua presença no comando está hasteada.
O sr. desembargador delegou todas as suas competências num chefe de gabinete - que também é desembargador - e que também faz pouco e que também bebe demais. O comando da polícia trasnformou-se num coio de malandros.
Malandros de classe, porque recebem na messe da polícia toda a grã-finagem da alta sociedade portuguesa: Cavaco Silva, Dias Loureiro, Bagão Felix, etc, etc. - par almoçar e - alguns - charutar.
O resto, aquilo a que a nossa comunicação social resolveu, de repente, dar relevo, já foi falado - e muito - logo no dia da tomada de posse do comandante da PSP. E é legal - ele pode ser reformado e assumir aquelas funções, recebendo o que recebe.
A questão não é essa - a questão é saber se neste país não existe ninguém capaz de assumir aquele posto com alguma dignidade. Enfim, alguma, pelo menos... O problema já se punha quando o sr. desembargador Branquinho Lobo era inspector da Segurança Social. Ele é um santanocopófonico e, por isso, é comandante da PSP. Um dia ainda havemos todos de ter vergonha destas coisas.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

CTT - SALÁRIOS DOS AMIGOS

O que está a contecer nos CTT pode(?) ou deve(?) ser considerado crime público? A Procuradoria Geral da República tem que ser solicitada a intervir ou pode e deve fazê-lo por iniciativa própria, face a evidências públicas de gestão danosa de património público?
São muitas interrogações - mas são as que me assaltam face às informações que vão sendo confirmadas e segundo as quais, o actual conselho de administração dos CTT está a desbaratar, a esbanjar, a grande oportunidadade que teve para reforçar, nos últimos dois anos, um empresa de referência em Portugal e até na Europa.
Os CTT estão a receber do Estado entre 120 e 130 milhões de Euros por ano, graças à transferência do seu fundo de pensões para a Caixa Geral de Aposentações, feita por Manuel Ferreira Leite . Por essa transferência, os CTT deixaram de transferir aquelas quantias e, em contrapartida não tiveram, sequer que alienar património.
E o que faz o CA dos CTT com este presente caído do céu. A maior parte da sua actuação é pública: publicidade a rodos - o que permite ao seu presidente aparecer em constantes entrevistas nos jornais -, mudanças de imagem com custos exorbitantes e aumentos salariais extraordinários para os amigos, numa altura em que o país está quase negociar um lugar de pedinte na esquina de um maremoto.
Vejamos: quando este CA entrou em funções, as chamadas primeiras linhas da empresa auferiam mensalmente uma média de 5.000 Euros. Os que as ocupavam foram atirados para as prateleiras e foram substituídos por amigos dos novos "patrões", com vencimentos aumentados para mais de 6.000 Euros.
Em simultâneo foram sendo admitidos através de empresas privadas jovenss quadros, sem concursos, sem coisa nenhuma, apenas com o cartão do PSD ou com a simpatia do presidente.
No final deste ano, as actuais primeiras linhas foram aumentadas entre 33 por cento e 6 por cento. O nome mais falado deste aumento, até pela história da sua passagem pelos CTT e pela GALP é António José Cunha, que ganha agora, por mês, 8.746,10 Euros e está associado ao presidente nas grandes operações de marketing, publicidade e comunicação.
Da lista, apenas quatro dos directores foram aumentados entre 6 e 8 por cento. E são os que não amigos do presidente.
Mas há mais e pior: foram contratados no exterior 20 novos responsáveis, com contratos confidenciais, que não vão sequer aos Recusros Humanos da empresa e que contêm clausulas de indemnização substanciais, a prever já que uma próxima administração tenha que fazer umna limpeza da casa.
Ora aqui está um belíssimo objectivo de investigação para um dos inúmeros jornais económicos que existem em Portugal e que, na grande generalidade, ocupam o seu precioso espaço a falar dos baixos índices de produtividade dos trabalhadores portugueses. Esqueçam a publicidade e investiguem.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Procura-se Instabilidade

Em"Recursos Humanos", pag. 75 da Revista "Prémio", na sua edição de 24 de Dezembro de 2004 (belo dia para tal texto) está um resumo de algumas preciosas afirmações de alguns preciosos administradores executivos da nossa praça, produzidas durante um debate organizado pela preciosa "Portuguese American Post Graduate Society( PAPS).

O jornalista dá destaque a dois dos administradores presentes: Paulo Fernandes, da PT, e Rui Horta e Costa da EDP.

Já sabía que a família do barão se tinha multiplicado pela PT, a ponto de, supostamente, haver nos Recursos Humanos um departamento exclusivo da família Horta e Costa, se tinha estendido aos CTT, mas desconhecia que o baronato já tinha existência na EDP.

Mas, vamos às tais declarações:

Diz Paulo Fernandes, um ex-consultor de uma das empresas que foi dando papéis de reestruturação à PT: «No Grupo PT ainda existem muitos "gonçalvistas". Pessoas pouco ambiciosas e que foram educadas num clima de pós 25 de Abril em que o importante era manter o emprego, mesmo que a ganhar pouco».

A esta pérola, o barão da EDP acrescenta: «os trabalhadores têm de ter alguma coisa a perder. Saber punir é muito mais difícil que saber premiar. E os portugueses têm que se habituar a ser despedidos quando os objectivos não são cumpridos".

Ficamos agora a perceber porque é que algumas empresas em Portugal, em vez de directores de recursos humanos, têm "cangalheiros"...

Ficamos também a saber o que é que o patronato quer dizer com flexibilidade, que é, aliás, o título do tal texto "Procura-se flexibilidade". Qual flexibilidade?Instabilidade é que é, oh! senhor Nuno Abrantes Ferreira - o homem que assina o trabalhinho.

Trabalhinho imcompleto porque poderia ter perguntado áqueles preciosos administradores quanto ganham eles, quais os montante dos auto-prémios pelo cumprimento dos objectivos conseguido no esforço dos tais trabalhadores que devem" perder alguma coisa" e "habituar-se a ser despedidos".

E já agora, sr. Abrantes Ferreira - seja lá quem for - porque não lhes perguntou o que devem eles perder pelos gastos excessivos em mordomias - deles e dos colegas de administração , em despesas de representação, em viagens sumptuosas; pelos ganhos( para eles e para os amigos)conseguidos em negócios com os recursos das empresas que dizem administrar.

Por último, sr. Ferreira, deveria ter-lhes perguntado por que méritos especiais são eles administradores executivos das duas empresas ex-públicas mais importantes do país e que mantêm os preços dos seus produtos no mais alto nível da Europa.

E já agora, sr NAF, mude lá o título do próximo texto que escrever sobre a matéria - lute contra a porcaria do recibo verde que, de certeza, assina no final do mês para lhe pagarem uma porcaria de uma remuneracãozita.

PS. O Sr. Nuno Abrantes Ferreira poderia, inclusivé, no seu texto, e a propósito da PAPS, lembrar aos srs. administradores que os seus congéneres americanos assinam um termo de responsabilidade em que assumem, pessoalmente, as consequências dos seus actos ao serviço das respectivas empresas, incluindo actos de má gestão, prejuizos, etc. Por cá, as empresas apresentem os números que apresentarem os srs. administradores só têm direito aos prémios, que, de resto, vão "cobrando" ao longo do ano.

Misoginia Dominante

Na sua crónica do último domingo, Ana Sá Lopes , de quem sou leitor assíduo, fala da "misoginia dominante" na política nacional. E o que lá está está tudo certo. Todavia, também falta muita coisa. Suponho que a regra dos dois mil caracteres não a deixou ir mais longe.

É que a misoginia execrável que nos vai governando não existe apenas na política. Quantas mulheres existem nos conselhos de administração das grandes empresas, privadas semi-privadas, com golden shares estatais ? Quantas mulheres dirigem jornais, não especificamente femininos, em Portugal, apesar, de , como diz Ana Sá Lopes, as mulheres terem vencido as barreiras das redacções dos jornais?

Quantas mulheres saltaram nas redacções dos jornais em defesa de outras mulheres, nomeadamente políticas, sistematicamente perseguidas pela comunicação social por causa por das suas relações pessoais ? Mesmo nos casos em que a perseguição para além de um miserável sentimento misogino revelava outros, de natureza racista?
É que a misoginia não é uma atitude exclusiva dos homens. É uma condição cultural que também define as mulheres portuguesas e nos conduz a uma sociedade cada vez mais masculina, apesar de "elas" serem em maior número nas Faculdades, nas Empresas, na Administração Pública, etc. E não só mais - mais qualificadas.
As mulheres continuam a achar natural que elas próprias sejam criticadas e até excluídas porque, para além de competentes do ponto de vista técnico e mesmo político, têm os sentidos despertos, enquanto os homens continuam a ser medalhados - nem que seja pelo olhar extasiado de admiração - pela capacidade de derrubar saia atrás de saia, uma capacidade que pode constituir atributo exclusivo para chegar a primeiro-ministro.
São elas que conjugam o poder no masculino. São elas que aceitam as reuniões de horas e horas dos chamados homens importantes, dos poderosos, para quem o poder é uma dádiva divina - pertence-lhes por direito natural. Elas sabem que aquelas reuniões servem de pouco, representam apenas um dos rituais do poder masculino, que não têm outro tipo de preocupações.
Elas sabem que eles sabem que as questões familiares, com os filhos, com o canalizador, com o electricista, com as compras, as refeições, a atenção aos amigos, tudo, são resolvidas por elas.
Elas sabem que eles sabem que a família já não existe, mas eles continuam a fazer de conta (outro dos rituais masculinos...).
Elas sabem tudo isso. E a maior parte faz o quê? Aceita e imita os gestos, as atitudes, copia comportamentos. O resultado desta misoginia dominante será que um dia vamos ter uma sociedade culturalmente masculina, sem o conhecimento feminino da realidade e a consequente capacidade para resolver os problemas inerentes, uma sociedade apenas com os rituais masculinos, com feminilidades artificiais e com pouco sentido.
Enquanto existem esta capacidade e esta lógica de vida feminina é que deveriamos tentar a conjugação do poder no feminino. E nem lhes falta legitimidade, já que elas são o esteio da vida concreta.
Como é que se chega lá ? Não sei. Mas, a imitação não é, seguramente, o melhor caminho.

As Viagens

A viagem de Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe ( e não apenas S. Tomé como toda a comunicação social portuguesa repete) continua a fazer correr tinta. Ouvem-se as mais disparatadas observações. De resto, as viagens dos governantes sempre foram objecto da crítica de toda a gente - porque toda a gente gostaria de ir a alguns sítios onde eles (os governantes )vão ou foram. E não é só em Portugal. Todo o Mundo critica. Coitado do Presidente Lula no Brasil.
Aceite-se que esta viagem teve alguns exageros - ela mesma, pela oportunidade , pelo objecto, pelos gastos e pelas críticas que lhe foram feitas. Parecia um bando de mabecos a perseguir um deles, ferido numa pata...
Por isso, os jornais, as rádios e as trelevisões e as oposições, que agora andam tão atentas, estão a deixar passar uma outra viagem, essa sim uma verdadeira afronta.
Eu explico: a propósito dos 25 anos do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), o seu conselho directivo convida qualquer coisa como cerca de 12.000 (doze mil) pessoas para uma missa, um almoço e uma sessão solene em Coimbra, no próximo dia 29 de Janeiro.
O aniversário ocorreu a 29 de Dezembro e a direccção IEFP convida todos os colaboradores da instituição, que - supõe-se - deve estar a passar uma grave crise financeira, para uma viagem paga a eles e mais aos acompanhantes declarados até 18 de Janeiro.
Isto é que vai ser uma missa! As viagens estão asseguradas com partidas de todas as delegações regionais e da sede nacional, em Lisboa.
Coma falatde padres que há, ainda vamos ver algumas mulheres a rezar missa em Coimbra.

Direitos do Consumidor

Estrada fora, a ouvir a minha música, isto é, a música que eu escolhi, sem me sujeitar às encomendas das editoras, que continuam a matraquear os portugueses com a mais descarada música pimba anglosaxónica e, de repente - porque eu autorizei - entra-me uma estação de rádio no sistema audio do automóvel, para me dar informações de trânsito.

Tudo certo.

Apenas um senão: quando accionei o mecanismo do meu auto-rádio que me permite saber como vai o trânsito, não autorizei mais nada. Não quero saber quem patrocina a informação, que porcarias está a oferecer em troca de não seio o quê; e também não quero saber o que é que a emissora vai trasnmitir a seguir.

A todas as horas os meus direitos estão a ser agredidos, a minha privacidade, violada. E o que fazem as organizações que se dizem defensoras dos consumidores? Publicam revistas, onde é possível vislumbrar informação não completamente isenta, projectam a imagem dos seus líderes, instalam-se como verdadeiras instituições de exploração da credibilidade dos otários que somos todos nós- os consumidores.
Não quero ouvir publicidade no meu auto-rádio. Já desliguei. Ponto final

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Carlos Magno

Conhece toda a gente, entende todos, percebe as atitudes, recomenda roturas, faz citações eruditas - é ele, o Carlos Magno, em todo o seu esplendor.

Ouço-o colocar em dúvida a candidatura de M. Sarmento por (pergunta à bengala do outro lado...em Lisboa: por que círculo?...)

Isso mesmo, Castelo Branco. E fica satisfeito, porque, se por um lado, compreendeu a atitude do sr. ministro ("conhecendo-o como conheço, não esperaria outra coisa..."), por outro, lançou uma dúvida intrigante: será que vamos ter "o combate SarmentoXSócrates em Castelo Branco?".

É esta habilidade que faz do Carlos Magno o concorrente mais sério ao prémio "Rolha das últimas duas décadas". É nestas épocas de transição que todas as suas qualidades de "comentador político" se notam. Dá até para pensar que as botas de sete léguas estão com ele, tal é o desembaraço das suas viagens pelo mundo da crítica. Nunca a bengala jornalística do "por um lado...por outro lado..." se aplicou com tanta propriedade.
Lá vamos ter que o ouvir por mais uma década, pelo menos.

A Ópera do Malandro

O José Nuno Martins que nos tem servido, nos últimos tempos, alguns pedaços de boa Rádio, e que foi atirado para aquele horário de que ninguém gosta, lá vai reaparecer a horas cristãs para nos devolver alguma da alegria que anda arredia de Portugal, segundo um estudo da Reuters - que agora já não se dedica em exclusivo aos números da bolsa. (Está mau, isto dos negócios com números...)
Em bora hora José Nuno volta a um horário decente. Assim terá a oportunidade de explicar a um maior número de portugueses que o espectáculo a trazer a Portugal, chamado "A Ópera do Malandro" é uma das muitas obras primas do Chico Buarque e não uma revista do novíssimo Parque Mayer,escritaa partir das peripécias do ex-presidente da Figueira da Foz, a que se juntou mais um verdadeiro malandro, um ministro de confiança, ex-habitante de S.Tomé, ex-boxeur e que na perspectiva de ver o seu pedido de demissão aceite já tinha mandado fazer novos cartões de visita:
M. SARMENTO, ex-passageiro de Falcon
em viagem de 83.000 Euros

terça-feira, janeiro 11, 2005

Os´´Indices de criminalidade"

Durante anos o deputado Paulo Portas matraqueou os ouvidos do Parlamento e de toda a gente com o crescente índice de criminalidade. Os números saltavam-lhe da garganta como coelhos da cartola de qualquer mágico. Assustava: as senhoras apertavam as carteiras contra o peito, os homens entravam no Metro a apalpar o bolso das calças e toda a gente fechava bem as janelas de toda a casa antes de ir para a cama. Mas, no dia seguinte, lá gritava o então deputado Paulo Portas - às vezes lançava o seu grito nas feiras - :" estamos a ser roubaaaaados!!!!".
Mas, isso foi há alguns anos. Agora, eu já fui à polícia sete vezes para dizer que me assaltaram o carro para roubar o rádio (vejam lá!... um insignificância) e há sempre um agente da ordem, com ar inteligente, que me diz para ter cuidado. Ele quer lá saber que eu pago impostos, que, supostamente, o obrigam a a velar pelos meus bens. Provavelmente, pensa que devo levar o carro para a cama, ou para um daqueles parques de estacionamento que o ex-presidente da Figueira prometeu para Lisboa.
Conheço outras pessoas a quem aconteceram coisas piores, mas não há um deputado como Paulo Portas para gritar: "aqui del-rei!!! que nos roubaaaaam!". Nem agora, que um ministro foi a S. Tomé doar uns gravadores de som, e uns microfones velhos e gastou oitenta e três mil euros. Oh! dr. Paulo Sacadura Cabral Portas, está a perder oportunidades! Mais de oitenta mil euros é um roubo a sério. Para mais num país em crise, em recessão, à beira da falência...

"Para Elisa"

No começo chamava-se LUNA. Depois, os probelmas habituais, os costumados protestos e (não sei se chegou aí) os abaixo-assinados, houve um tubarão que comprou. O actual ministro-demissionário (felizmente) do ambiente ( não sei bem como ele se chama) juntou a Luna à sua colecção de Rádios. Já se chamou Clássica e agora chama-se classe 96. Falo de uma estação de Rádio que transmite música sem berros, a partir do Montijo, sem amplificadores de má qualidade e que está a descobrir algumas coisas simpáticas, sem eliminar o básico (aquele vestidinho preto...).

Entre o básico está o "Fur Elise"... que repetem...repetem...repetem. Alguma jovem descobriu que gosta daqueles acordes, tão harminosos, que lhe despertam a Juventude. Não sei se quem controla o computador é um ou uma jovem, mas tem uma jovem metida nisso, porque aquela canção foi escrita para uma mulher de olhos negros e de olhar alegre, na força da vida, a querer descobrir o que existia para além dela. Beethoven era mais para os olhos claros, mas a verdade é que também era surdo e escreveu a música qu escreveu.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Domingo - Vieira da Silva

Um friozinho cortante, dia cinzento, nem os pardais do Jardim das Amoreiras se atrevem ao saltitar constante do saibro para a relva e refugiam-se nos beirais. Museu da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva e a surpresa de salas cheias para ver a exposição " Vieira da Silva Nas Colecções Internacionais - Em Busca do Essencial".

O conforto inexplicável de um diálogo que nunca acaba porque se descobre um novo quadro, e no mesmo quadro um outro traço, uma outra tonalidade e o génio de uma cabeça que esteve sempre à frente do seu e do nosso tempo. Helena Vieira da Silva tranquiliza-me no desassossego da certeza das respostas que dá e das interrogações que me sugere.

À saída do Museu - ainda com muita gente a entrar - descobri no Jardim das Amoreiras uma verdadeira floresta de encantamentos.

PS. - A Exposição encerra apenas a 30 de Janeiro.

Domingo - Entrevista de Miguel Cadilhe

Este "homem do Norte" justifica a minha desconfiança relativamente à chamada "renovação das listas" assente em critérios de idade.

Aqui está um homem do país cuja experiência e sabedoria têm que ser úteis. Não se lhe pode atribuir a condição de "senador", sem Senado.

As suas preocupações políticas servem para mobilizar a economia ao serviço de projectos integrados numa realidade social que não pode ser analisada à luz das concepções europeias ou americanas dos consultores, com pós-graduações feitas em Universidades célebres e que, aos poucos, vão tomando conta dos executivos importantes, quer nas empresas, quer nos governos.

Portugal é um país concreto, com necessidades, qualidades e defeitos concretos. Não é uma abstracção e para o entender não basta um grande curriculum, obtido na frequência sucessiva de universidades cotadas. São precisas experiência e sabedoria.
Excluir deste processo de entendimento gente só porque já não suscita a admiração pela juventude, é condenar o país aos sobressaltos de experiências sempre interrompidas. É perda de tempo.

Sábado - Sondagens

As sondagens são o outro lado das cartomantes. A última que veio a público parece de uma bruxa má. Se os resultados das eleições se aproximarem daqueles números: um terço dos portugueses a querer continuar o actual estado de coisas, com mais seis ponto não sei quantos a deixar-se convencer pelo discurso das feiras, vou perguntar onde se pede a demissão desta Federação.
É que a política em Portugal faz lembrar uma disputa entre Sporting e Benfica: sejam quais forem os resultados ninguém abdica da simpatia clubista e das acusações ao árbitro.

sábado, janeiro 08, 2005

A estória da minha ida ao futebol

Amanhã, dia 8 de Janeiro, o país vai vibrar com mais um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica. Velha tradição a que se chamam os mais variados nomes: "clássico", "derby", "campeonato na segunda circular", eu sei lá mais quantas coisas, inventadas pela imaginação sempre muito fértil dos jornalistas desportivos. Lembro-me de um com uma imaginação tão brilhante que acabou confidente do director nacional da PJ.

Eu não vou ao estádio Alvalade XXI. Até talvez pudesse ir, mas tenho as minhas razões para não ir. É uma pequena história: no último dia 4 de Janeiro, disputava-se um jogo de futebol de pequeno cartaz naquele estádio, que eu ainda não tinha visto. Também por outras razões que não vêm ao caso, mas porque pensei ser aquele um jogo de pouco cartel e, portanto, com pouca gente, seria a oportunidade ideal.

Cheguei ao local das bilheteiras para comprar bilhete com meia hora de antecedência. Havia tanta gente que tive vontade de desistir - palavrinha difícil esta!... - e lá estive o tempo necessário para obter o rectângulo de papel que me deu direito, primeiro, a ser apalpado, e depois, a entrar no Estádio. Estava a primeira parte do jogo a acabar.

Enquanto esperava que o pobre jogo recomeçasse fui matutanto nesta desgraça portuguesa da desorganização. Dantes, os estádios eram incómodos, frios, estavam à chuva e tantas outras coisas. Agora, o espaço é mais acolhedor, não se corre o risco de uma gripe se começar a chover, tem tudo um ar limpo.

Tudo muito bem. E os clientes? Deixam-se uma hora e meia à espera para ver o espetáculo!

Fazemos tantas vezes lembrar um país do terceiro mundo que começo a pensar na hipótese de não ser só piada. Estas falhas são uma questão de organização. A estrutura está lá: bonita, acolhedora, funcional -construída apenas para o futebol, mas está lá.

Iniciou-se a segunda parte do pobre jogo e os meus pobres tímpanos começaram a ser agredidos por sons estranhos: tambores e gritos amplificados por sistemas de som de má qualidade. Uma mistura que resultava num espectáculo horroroso, grotesco, que alguns espectadores, nas bancadas de topo acompanhavam com saltos simiescos e gestos descabidos.

Tudo isto, sem aparente justificação, porque na relva bem cuidada o pobre jogo continuava sem grandes primores técnicos.

Já há muito tempo que não ia ao futebol ao vivo - tenho-o preferido na televisão -. E com razão: pensei. Então perco eu alguma do meu tempo em deslocações, em esperas e depois, para além de um jogo mau, ainda tenho que assitir aquele espectáculo escabroso!

São as claques organizadas - dizem-me depois.

E são permitidas ? pergunto eu. Não só permitidas, estimuladas. Volto para casa a pensar que, para além de mal organizados no trabalho continuamos a ser mal organizados no lazer. Como é que eu algum dia convenceria a família a ir ao futebol comigo? A minha paixão pelo futebol seria definitivamente deitada no cesto das aberrações. Agora, já tenho que desligar o som por causa das crianças.Não vão elas aprender aquele linguajar dos jornalistas e comentadores futebolísticos, "aqueles que..."

sexta-feira, janeiro 07, 2005

As Listas

Os Partidos concorrentes às próximas eleições antecipadas têm vindo a divulgar as suas listas de deputados, mas o que os nossos jornais nos relatam não são as listas mas as opiniões que alguns dos jornalistas e não jornalistas (mais estes do que aqueles ) têm acerca das pessoas cujos nomes são divulgados.

Há até casos curiosos de directores de jornais - é o caso do JM Fernandes, que está agora menos gordo como diria o saudoso Mário Castrim - que se atiram "que nem gato a bofe" às listas do PS só porque, claramente, não gosta do partido nem de alguns dos nomes. Nota-se, de resto, que lhe parecendo não conseguir evitar a derrota do PS, começa já a fazer-lhe oposição - talvez na esperança de que alguns dos seus amigos, como o caso do David Justino, volte à ribalta.

As listas de deputados é claramente uma questão dos Partidos, dos seus dirigentese e quem neles milita. Aos cidadãos, e em particular aos jornalistas, cabe-lhes o principal papel que é o julgamento da actuação dos eleitos.

E, tal como não me parece justo estar a criticar desde já a composição das listas, também não me parece curial estar a louvar com algum frenesim a chamada renovação das listas com o critério da média das idades.

É que uma média de idade baixas entre os políticos significa inexperiência, transição, tudo o que não estamos a precisar neste momento . Nós necessitamos de renovação, mas renovação de qualidade e a juventude é boa, seguramente, para o futebol, não para a política. Já Platão o dizia na sua "República"

Viagem à China

O Presidente da República vai à China, para a semana. Com ele viajam mais de duzentas pessoas, a maioria empresários.

Ficamos a aguardar que, ao menos na China, os empresários nacionais consigam vender mais (não sei muito bem o quê... mas alguma coisa será: vinho, cortiça...). Os empresários nunca falam destas viagens, quando abrem a boca é sempre para dizer que a vida está má e que o Estado tem que abrir os cordões à bolsa para pagar os seus ferraris e outras máquinas assim.

Ficamos igualmente à espera que os homens de negócios se portem bem no intervalo dos ditos, porque os chineses não apreciam os disparates que levam os empresários portugueses a estas viagens.

Os chineses também não apreciam que os negociadores dos documentos a assinar em cerimónias protocolares estejam ausentes destas. É o que vai acontecer durante a assinatura do protocolo da RTP com a Televisão Chinesa, que permitirá à RTPI a utilização do sistema de satélites chineses e outras facilidades.

É óbvio que o Presidente não saberá desta gaffe diplomática, um hábito da nossa gente.
Uma coisa que o Presidente seguramente saberá é fazer notar às autoridades o seu grande apreço e respeito por todos os portugueses que residem naquele país. Assim, eles serão mais respeitados pelos chineses. É que os duzentos que vão são importantes, mas os que estão e ficam são-no mais ainda.

O Destino

Esta coisa das previsões económicas a que se juntam eleições começa a fazer-me alguma confusão. Afinal, vamos votar para quê, se os economistas já sabem que daqui a dois anos ainda andaremos de mão estendida?

Hoje foi o Governador do Banco de Portugal a dizer "chegou a hora" e a sugerir consensos. Mais consensos?

Já ouvi falar de conspirações de silêncio, nunca ningém me tinha sugerido a possibilidade de uma conspiração de consensos. Parece ser o que está a acontecer. Se assim é, para quê votar? Os cidadãos não são chamados a votar as propostas políticas dos partidos? Eles ainda não as deram a conhecer, mas é sabido que os cidadãos pretendem uma mudança de políticas, sem consensos.

O povo está cansado de consensos, porque os consensos confirmam as previsões dos economistas.

Deixem os políticos falar e falar de política e não de défices. Depois iremos votar todos, ou quase todos. Que se calem os economistas. Parecem os jagudis da Guiné Bissau a sobrevoar o Hospital Simão Mendes, as cartomantes a adivinhar desgraças do destino.

É que se a política se resume a previsões económicas, então deixemo-nos de conversas e entreguemos tudo isto aos Bancos. Ficava tudo mais claro, cumpria-se rapidamente o destino.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

As Pequenas Mentiras

Há por todo o lado, sobretudo na blogoesfera, um grande frenesim na procura das grandes mentiras do nosso tempo. Nos chamados instrumentos de comunicação de massas essa preocupação já há muito desapareceu e não vale a pena falar deles enquanto instrumentos de debate.
É que, de uma forma geral, estão ao serviço das grandes mentiras e até das pequenas.
O Grupo Portugal Telecom, o maior grupo empresarial português, fez anunciar em grande parangonas dois programas de envolvimento do grupo com as famílias dos seus colaboradores.
Um deles diz respeito à facilidade de cada colaborador adquirir, por um período de quatro anos, um computador portátil, sem qualquer encargo: Findos os quatro anos, o colaborador obriga-se a pagar um valor residual do equipamento, "que venha a ser estipulado".
Esta e outras condições ainda se percebem. O que não se entende é o nº2 do Artigo 2º (Condições de aplicação), do respectivo regulamento:
"podem candidatar-se os colaboradores, referidos no número anterior, com rendimento per capita inferior ou igual a 5oo,oo Euros, apurado com base na última declaração de rendimentos".
Ora aqui está uma pequena mentira de que são feitos os nossos dias. Para quê tanta conversa do presidente do maior grupo empresarial português para oferecer uma coisa que nenhum dos colaboradores que preencham aquela condição vai poder aceitar? Com aquele rendimento ningém tem dinheiro para assumir "a responsabilidade de todos os encargos mensais decorrentes da adesão ao SAPO ADSL". Além disso, o tempo é pouco para outro emprego que lhe garanta a subsitência da família.
Francamente, dr. Miguel Horta e Costa, os seus consultores de imagem, a JLM, estão a perder qualidades. Ou será que têm a certeza de que nenhum órgão de comunicação social vai falar destas condições, decididas na reunião de 04.12.15 da Comissão Executiva, deixando prevalecer a ideia de que as preocupações da PT são reais?

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Rosa Enjeitada

Há uma palavra que me bate na cabeça de há muito tempo a esta parte. Um dia, num ano destes, em casa de um intelectual de renome no Brasil, que me mostrava os tesouros da família, guardados desde gerações, dos tempos da colonização, quando a Igreja congregava a Fé e a riqueza, tive a ousadia de dizer que o Brasil só teria solução quando tivesse coragem de assumir a necessidade de uma rotura. Respondeu-me o meu interlocutor: "você quer dizer, guerra!".
Não, nada disso, a guerra não é solução para coisa nenhuma, mas, no caso brasileiro, há que entender que a sucessão de elites que foi governando o país o deixou sem solução. Não há terra para mais ninguém. O imperador distribuiu, distribuiu, tudo, o que conhecia (pouco) e o que não conhecia (muito) e os vindouros ficaram agarrados à propriedade e à não propriedade.
No Brasil é necessária uma rotura que redefina a propriedade da terra, pelo usufruto, pelo aproveitamento, por qualquer critério que rompa a definição social que vem desde os tempos da colonização, passou pela época dos coroneis e se instalou na actual burguesia, que, tal como os seus antecessores continua a ter necessidade de âncoras financeiras no estrangeiro. A burguesia brasileira não investe no país porque não acredita e nem o presidente Lula da Silva conseguiu, até ao momento, liderar o Estado para uma rotura que signifique a igualdade entre cidadãos e o fim da verdadeira guerra civil que ali existe - uma guerra da pobreza contra a riqueza.
A palavra rotura dança-me na cabeça todos os dias, quando me angustio com arealidade que me rodeia, evidenciada nos jornais que leio, nas rádios que ouço, nas televisões que vejo e - mais do que isso - no comportamento das forças políticas, dos dirigentes que temos.
Ora, exactamente, a palavra rotura saltou-me aos olhos, quando, abrindo este blog, deparei com um comentário a um dos meus últimos posts, aquele em que verberava o conteúdo da mensagem de ano novo do Presidente da República - também ele incapaz de romper com o discurso estupidamentre economicista que se instalou entre nós.
É isso, meu caro "comentador": é nececessário romper! Romper com os conceitos políticos, desde logo. Romper com esta elite medíocre, seráfica, que não tem, sequer, capacidade, para vender um sonho. Este país foi grande - vanguarda europeia - quando teve uma elite capaz de sonhar.
Há quantos séculos isso aconteceu? Que é feito agora dos homens e das mulheres da nossa terra que não se conformam com a mediocridade que a sua condição de portugueses lhes oferece? Rumam outros lugares, outras nacionalidades, outras culturas, esquecem...esquecem que foram portugueses e fazem dos filhos gente de outras nacionalidades, de outros valores, de outras línguas. Já nem o conceito de Pátria defendio por Fernando Pessoa é válido!
Enquanto isso, assistimos diariamente ao desfilar da imensa mediocridade de quem nos governa, de quem escreve nos jornais e os dirige, de quem se opõe a quem nos governa, de toda esta gente que, entretanto, vai destilando boatos, acerca da sexualidade dos outros, acerca dos hábitos de honradez do próximo. Um mundo escabroso sem saída, sem solução, a não ser uma ROTURA inteligente.
Que rotura será essa ?
Rotura de conceitos, em primeiro lugar. O mais pindérico jornalista do mais pindérico jornal da praça já é capaz de escrever que é necessário reduzir as despesas de saúde, diminuir o número de trabalhadores da Administração Pública, acautelar os custos da Segurança Social, porque a sociedade está a envelhecer... Que o Estado existe para pagar o que não dá lucro e ( isso, eles não escrevem) para proteger os poderosos, que continuam, como há séculos, a viver dos subsídios estatais e do não pagamento de impostos.
São os conceitos da direita mais retrógrada a fazer escola, a determinar comportamentos, a definir atitudes.
E o que faz a esquerda?
O PCP lança para o ar um senil grito de "Viva o Marxismo-Leninismo", dando, claramente, a indicação de que, depois destes anos todos, não percebeu que o leninismo afogou o marxismo.
O PS fala em "esquerda moderna", mas joga o mesmo jogo de sempre, dentro dos mesmos grupos, sem entender que a modernidade da esquerda se cola ao mais moderno dos conceitos da política e da economia de hoje : a globalização.
A globalização que os portugueses abriram ao Mundo. Antes que americanos e japoneses falassem do fenómeno, já os portugueses o praticavam, levando e trazendo, mercadorias e ideias, gente e tecnologia. A diferença está em que a globalização dos portugueses não foi nunca um projecto de estado, mas antes mil e um projectos individuais de aventura, de fuga à mediocridade, à pobreza, à humilhação. O Estado - as várias formas de estado - nunca conseguiu entender esta dispersão de vontades, de inteligências que foram construindo outros mundos, sob outras bandeiras, servindo-se de outras línguas, de outras linguagens.
Os vários estados implantados aqui à beira-rio ( a beira-mar é outra coisa) nunca quis saber desses milhões de pedaços espalhados pelas sete partidas. E mesmo o poeta que cantou a primeira gesta desses homens lançados borda fora por esse Mundo além, foi marginalizado e ainda hoje - para glória da sua poesia, da sua generosidade e das suas ideias - continua a ser marginal.
A tal "esquerda moderna" ainda não percebeu que as sementes da rotura já foram lançadas há séculos. Há, agora, que buscar os frutos e lançar aos portugueses e seus descendentes por esse Mundo fora as flores de uma auto-estima que fará de Portugal e dos Portugueses, não apenas a vanguarda europeia, mas um exemplo para outra forma de encarar o Mundo, fazendo da globalização não uma forma de pilhagem alargada, mas um sistema de solidariedade.
O PS está longe de entender isto porque trata os portugueses residentes no estrangeiro e que ainda se interessam pelo que acontece no país (uma vez que votam) como gente de segunda, a quem faz o favor de sugerir dois representantes. Que diz Maria Carrilho e Aníbal Araújo a esses portugueses?
Que espécie de ligações é possível fazer com esta gente? Como é que esta gente será capaz de mobilizar uma ideia de Portugal espalhado pelo Mundo, de um povo presente em toda a parte onde, para construir alguma coisa, foi necessária força, espírito de sacrifício e respeito pelo próximo?
E O BE - que faz ele? Espera o barco do descontentamento generalizado para embarcar numa boleia que o leve ao poder e possa, como todas outras forças políticas, fazer os jogos da pequena política e do poder. Por que razão não se afirma com um programa alternativo a todos os disparates que andam no ar. Por que razão não se abalançam a construir um novo sonho para os portugueses, para todos os portugueses?
Onde está a capacidade de rotura das nossas elites políticas? Vamos continuar a fazer o discurso da desgraçadinha? " Afinal, Rosa enjeitada, quem és tu ? Uma mulher que sofreu!"

terça-feira, janeiro 04, 2005

Instrumentos de Comunicação de Massas

Os intrumentos de comunicação de massas raramente falam, mostram ou escrevem o lado mais positivo dos portugueses. De resto, para se ser objecto de notícia em Portugal é preciso ser político ou futebolista. As alternativas são mesmo más: ladrões, vigaristas, bêbados, violadores, pedófilos, prostitutas e coisas assim.
Poucos portugueses, dos que se ficam pela atenção aos instrumentos de comunicação de massas, saberão, por exemplo, que as tecnologias da via verde e do sistema de pré-pagamento dos telemóveis são criações portuguesas.
Por outro lado, os mesmos portugueses desconhecerão que grande parte dos portugueses e portuguesas com capacidades para além do normal têm que sair do país para realizar os seus projectos, cumprir os seus planos de investigação.
A maior parte deles acaba por ficar pelo estrangeiro, contribuindo para o enriquecimento das suas terras de acolhimento. Muitos ficam contra a sua vontade, porque a sua terra, Portugal, os rejeita.
Conto-vos a história de uma doutorada em Biologia nos Estados Unidos. Depois do doutoramento imaginou que a sua especilização poderia ser útil à sua gente e rumou Lisboa. Difilmente conseguiu entrar na Faculdade de Ciências, em Lisboa, onde nada lhe davam para fazer - nem sequer um lugar para estar.
Cansada da situação mandou o seu curriculum para Universidades americanas e inglesas. Quinze dias depois teve que escolher entre uma de Londres e outra da Califórnia. Optou por Londres, uma vez que lhe ofereciam um contrato permanente. O seu curriculum era muito bom, brilhante, consideraram os ingleses. E lá foi a nossa doutora. Tem saudades? Certamenmte terá, mas passam.
Porque é que isto acontece? por muitas razões, mas uma delas é, seguramente, a atenção desmedida que quem decide sobre coisas importantes na nossa terra, dá aos instrumentos de comunicação de massas. Quem decide não tem informação, não tem cultura, só se preocupa com os jogos da pequena política e de conservação de poder. Ora, como dizia a Engª. Pintasilgo, a política tem de ser sempre um acto de cultura. Por isso ela lançou a ideia das presidencias abertas, que outros aproveitaram para se manterem nas primeiras páginas dos instrumentos de comunicação de massas.

Solidariedade

O Mundo ficou chocado com a catástrofe do Sudeste Asiático e esse choque tem tido reflexos claros nos movimentos de solidariedade que, entretanto, se geraram e que se traduzem no envio dos mais variados artigos, considerados de primeira necessidade naquelas circunstâncias e na abertura de contas nos bancos por iniciativa de organizações de índoles diversas. Entre elas contam-se Bancos, associados a órgãos de comunicação social.
Estas contas são importantes para se concretizar a ajuda humanitária e, por isso mesmo, é curial imaginar que há já montado im sistema de controlo, de modo a que os dinheiros reunidos desta maneira não vão parar aos bolsos já treinados em recolher o que não devem.
Por outro lado, aos bancos que movimentam estas contas, também não ficava nada mal que, ao abri-las publicitassem o montante com que contribuem para elas. O mesmo se esperaria dos órgãos de comunicação social que anunciam insistentemente as suas iniciativas. Que tal ? Desse modo, nem os bancos, nem os seus associados estariam apenas a explorar a desgraça alheia.

domingo, janeiro 02, 2005

Um Presidente-Contabilista

No princípio de cada ano aí os temos, os presidentes da República a enviar mensagens, com votos de um bom ano. Os cidadãos vão ouvindo, cada vez menos, mas lá vão emprestando um ouvido no meio do habitual "zaping". Este ano, graças às guerras entre as televisões, não foi necessário um ouvido inteiro - meio chegou - para ouvir a comunicação de Sua Excelência. Somados os excertos que se foram anotando aos pedaços de prosa lidos nos resumos da impensa, a conclusão parece óbvia: não foi neste homem que os portugueses votaram para presidente da República.
Este não é o dr. Jorge Sampaio, que chegou a ter o cognome de "Rocard português", este homem preocupado com as contas do Estado, tal como os partidos e os economistas lhas apresentam não é o político brilhante de há doze ou quinze anos atrás. Também ele se deixou amolecer na convivência fácil com os verdadeiramente poderosos, que se apoderam da riqueza criada pela labuta diária dos portugueses - a quem o presidente dirige as mensagens. Também ele deixou de fazer as perguntas certas e nos atira com as mesmas palavras usadas por todos os outros que têm acesso às televisões, aos jornais, às rádios: "competitvidade", "produtividade".
Também ele faz o apelo ao entendimento entre os partidos de poder em Portugal, esquecendo-se - como? - de que eles estão coligados há mais de vinte anos, com os resultados que se conhecem: um país cada vez mais pobre, com cidadãos cada vez mais incultos, cada vez menos informados; um país com cada vez menos perspectivas de garantir à sua gente melhores condições de vida, mas com dirigentes políticos a quem, de repente, são detectadas contas secretas na Suiça.
Também ele faz o apelo a medidas que diminuam as despesas na saúde, esquecendo-se de referir a necessidade óbvia de verificar as relações entre os vários agentes que têm a responsabilidade da sua manutenção e administração, incluindo laboratórios farmaceuticos e o Ministério da Saúde, na sua globalidade.
Também ele faz apelo aos pactos sociais, esquecendo a evidência da necessidade de reestruturação do empresariado nacional, exigindo-lhes o pagamento dos impostos devidos, a actualização de métodos de gestão, a actualização tecnológica; esquecendo os números que indicam os gestores portugueses como os mais bem pagos da União Europeia.
Também ele se esquece de exigir que as autoridades do chamado bloco central, que governam, há mais de vinte e cinco anos, as estruturas da Educação, parem de desenvolver esquemas para cumprir números exigidos pela União Europeia e introduzam no sistema educativo normas de verdade, regras de disciplina, de rigor na avaliação, obrigando os nossos jovens a perceber que não se aprende sem esforço, que não se pode viver em sociedade sem respeito pelos outros.
Que presidente é este que apela aos pactos sociais em nome da competitividade e se esquece que os portugueses são, na Europa, os que mais trabalham e menos ganham?
Não foi neste líder que eu votei. Eu votei num homem a quem reconhecia qualidades excepcionais, capaz de, nesta altura, ter a coragem de dizer: o que está mal é a injustiça galopante que a globalização tem vindo a criar. Temos que lutar para que, pelo menos no espaço em que nos inscrevemos, na União Europeia, termine a ideia de que as empresas têm que apresentar, todos os anos, mais lucros do que o ano anterior. Temos que derrotar o deus "lucro".
Sr. Presidente, há mais vida para além da competitividade! E há mais verdades para além da dos contabilistas.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Os Céus e os Infernos do Nosso Tempo

Vamos entrar, dentro de algumas horas, no sexto ano do sec. XXI da era cristã. As comemorações da passagem atravessam o Mundo, independentemente do tipo de civilização vigente nas diversas latitudes e toda a gente formula votos de que os próximos 365 dias sejam melhores do que os anteriores.
São já desejos formulados mecanicamente, porque, no fundo, as práticas do chamado mundo cristão, que define as datas e os ritmos de crescimento, não auguram nada de bom. O que aí vem é mais descriminação, mais exclusão, mais miséria, mais fome. E também mais riqueza acumulada, mais desigualdade, mais arrogância, mais hipocrisia.
E mais pilhagem.
Ao longo de todos os últimos vinte séculos desta nossa era se registaram acções de pilhagem, feitas em nome dos mais variados desígnios: a expansão da fé foi um dos mais evocados e também o que deu origem à maior acumulação de riqueza e, em consequência, à criação de grandes polos criadores de pobreza e exclusão.
Por isso, o Mundo ainda se divide - em primeiro lugar - em ricos e pobres. Uns são tão ricos que é impossível, sequer, imaginar como vivem, onde vivem, que rosto têm; outros são tão pobres que só os podemos ver descendo aos infernos que a nossa civilização foi criando.
Com o feroz abandono de alguns dos valores que classificavam pela positiva o cristianismo, como o amor pelo próximo e a caridade; com o atropelo permanente das regras que ao longo dos séculos se foram definindo para a convivência entre os homens, tais como a liberdade, igualdade, fraternidade; com tudo isto, assistimos à edificação de um Mundo em que os mais fortes esmagam os mais fracos, umas vezes em directo, à vista de todos, outras às escondidas, sem vergonha e também sem ética.
O sistema capitalista, que tomou conta do mundo cristão, no começo regido por princípios da ética protestante, foi perdendo referências e hoje tomou o freio nos dentes: não tem regras e executa a maior pilhagem de todos os séculos, apropriando-se de toda a capacidade de produção que a Humanidade foi criando, sempre na esperança de melhores dias para todos os Homens.
A verdade é que a riqueza criada pela capacidade tecnológica do nosso tempo, pertença da humanidade, pelo trabalho de milhões e milhões de homens e mulheres está a ser apropriada por meia dúzia de criadores de céus e infernos, gente que já não tem rosto nem nome
São eles que determinam o futuro, pelo que os desejos dos simples mortais, como eu, são apenas pequenos instantes de ilusão, desfeitos nas pequenas bolhas de um espumante, a fingir de champanhe, que partilhamos com os que nos rodeiam.
Para os portugueses, em especial, o futuro não é tranquilizador: porque, sem conseguirmos ver o tamanho da nossa Nação, continuamos a achar-nos pequenos e a confiar numa elite sem capacidade, sem imaginação e sem coragem para fugir aos desígnios da globalização da pilhagem.
Por cá também existem os pequenos pilhadores, os criadores de céus e infernos, gente sem rosto, que molda as ambições das novas gerações.
Uma nova geração de dirigentes políticos está a chegar ao poder. Na perspectiva da gestão do poder dos próximos tempos, seja o lado para que se olhe, não se vislumbra nada de bom ou de novo. Não há sequer a perspectiva de alguém anunciar a intenção de romper com o actual estado de coisas: o sistema político vai continuar a ser gerido em círculos fechados, dentro da lógica dos compadrios e amiguismos.
Esta nova geração vai ajudar à criação de mais céus e muitos mais infernos.
De qualquer modo, e porque estamos a poucas horas das borbulhas do espumante, não quero deixar de formular o meu desejo: que estas novas gerações de políticos reconheçam que precisam de introduzir na sua prática alguns dos valores que se foram perdendo e tenham a coragem de defender alterações no nosso sistema político: por exemplo, redução do número de deputados e a criação de um Senado, uma espécie de Conselho de Sábios, com as competências necessárias para garantirem que a República não se afunda num grande inferno.

Os Recuos das Demissões

Em Portugal ninguém se demite. Toda a gente aguarda a demissão, de papel passado. Dá garantias, indemnizações, reparações futuras, novas funções outros cargos e, "se Deus quiser" novas demissões. Não admira, portanto que o Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) tenha recuado na sua demissão depois de o governo se ter apropriado indevidamente dos valores do fundo de pensões dos trabalhadores da instituição.
Este recuo é ainda mais perceptível ao cidadão normal se ele entender os poderes de um membro do Conselho de Administração ( CA) do mais importante grupo financeiro de Portugal.
Apenas uma estória simples: Celeste Cardona , ex-ministra da Justiça, esposa de uma deputado europeu, sócia de uma firma de advogados especialista em encontrar saídas para as fraudes fiscais, logo a seguir aos primeiros dias da sua nomeação para membro do CA da CGD reuniu alguns directores responsáveis pela resolução de hipotecas nas Caldas da Rainha e disse: "há o caso do F... , em Óbidos, que é preciso ser resolvido...".
E foi. Tratava-se de uma hipoteca. A Caixa perdeu uma percentagem substancial do valor do bem hipotecado que voltou à posse de F...
Um poder destes não pode trocar-se pela palavra de um compromisso. Em nome do patriotismo, do interesse nacional ( estamos com sorte que já não se evoca a defesa nacional) , os srs. administradores continuam em funções. O próximo governo, se os quiser demitir, terá que lhes pagar as indemnizações previstas nas linhas e nas entrelinhas dos contratos, feitos e assinados a pensar no papel passado da demissão.

A Universalidade Da Estupidez

Não é possível fugir ao tema do momento: a Tragédia do Sul e Sudeste Asiáticos. Ninguém pode ficar indiferente ao verdadeiro holocausto provocado pela Natureza, com um número ainda indeterminado de vítimas , mas que, no final, vai seguramente, surpreender toda a gente. O Homem não foi feito para acreditar em semelhantes números - o Homem do nosso tempo (já ultrapassámos as verdades bíblicas...)
As análises técnico-científicas, as especulações filosóficas, as previsões, etc., etc., deixo-as para os epecialistas. Eu não posso deixar de notar que as televisões portuguesas não se cuibiram de transmitir imagens verdadeiramente indecorosas, sob a capa de grandes histórias humanas.
Assisti verdadeiramente compungido a uma entrevista de uma mãe que explicava com um ar perfeitamente normal ao repórter que registava o seu depoimento a grande angústia da sua necessidade de optar entre o filho mais novo e o mais velho, enquanto este a olhava e chorava convulsivamente.
Aquela mãe é, verdadeiramente, uma não-mãe, já que expõe a sua opção de forma clara ao excluído, sem nenhuma manifestação de afecto - sempre exibida perante o preferido. E aquele jornalista - será? - regista o momento, permitindo que ele passe à posteridade e amplie o sentimento de rejeição daquela criança, cuja recordação mais amarga do marmoto do Srilanka não vai ser a força das ondas mas a escolha da mãe.
Que tudo isto se registe numa câmara de televisão, num gravador, a quente, entende-se, mas que, depois, a frio, se sirva ao público, sabendo que, daqui a a alguns anos aquela criança vai ter uma prova inexorável para apresentar à mãe, responsabilizando-a por todas as brigas com o irmão mais novo, por todos os conflitos com os camaradas da Escola, etc., etc., é demais e não vale carreira nenhuma. Isto, no caso de ele ter consciência de que o seu comportamento é fruto de tal rejeição evidente, publicitada aos quatro ventos e conhecida de todos os cinco continentes. Porque se não tiver essa consciência, pode fazer coisas verdadeiramente bíblicas, assim como a catástrofe Asiática.
No meio de tudo isto, custa perceber que um apresentador de telejornal ainda se dê ao desplante de se apresentar comovido (só lhe faltam as lágrimas...) perante a cena.
Na verdade, o que se exigia ao cabeça de cartaz (neste caso, o Carlos Daniel da RTP) era rejeitar tal reportagem, ainda que corresse o risco de quebar uma cadeia internacional de iditotice. A verdade é que, infelizmente para a Humanidade, não existem mentecaptos apenas em Portugal.l

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Castração

A palavra castração é exacta para descrever o actual estado PSD. É espantoso como um partido que sempre soube reagir perante a possibilidade de chegar ao poder ficou parado frente à grande probabilidade de o perder.

Toda a gente perde muito tempo com Santana Lopes. Nos jornais, nas rádios nas televisões, os comentadores encartados e desencartados. Por mim, já escrevi aqui que Santana Lopes, felizmente para o país, é um problema do PSD. Todavia, quando tal escrevi ainda tinha a esperança de ver o PSD reagir e encontrar uma solução que lhe permitisse recuperar alguns dos estragos provocados pela sandice de Santana Lopes e da sua equipa.
Passado algum tempo, concluo que o PSD está mesmo manietado, sem capacidade de recuperação com toda a gente, no partido, a confiar numa coisa espantosa: na capacidade de "combate" do Pedro. Francamente! o homem até a ler os papéis que lhe dão se engasga... E quando fala de improviso só lhe vem lixo à boca!
Os profissionais do marketing político não fazem milagres e alguns, de tanto se esforçarem, acabam mesmo por conseguir os efeitos contrários ao que programaram.
Este PSD está mesmo castrado e isso não é bom para a democracia portuguesa, até porque, depois das eleições, os ajustes de contas não vão ser rápidos. Santana Lopes não é o único responsável. Quem o deixou chegar à liderança também vai ser julgado. Por quem? haverá gente limpa neste processo de destruição de uma força política com a história do PSD?

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Um Regresso

A notícia tem alguns dias - diria mesmo algumas semanas - mas não foi devidamente comentada por ninguém (pelo menos de forma notória). E merecia pelo menos um nota de rodapé a lembrar alguma da história recente da única agência de notícias portuguesa e algumas das suas vicissitudes.

Refiro-me ao regresso de José Manuel Barroso (sem Durão no meio) à tal Agência, agora Lusa, chamada de ANOP no tempo da sua direcção, quando tinha a força da principal e melhor Redacção do país.
Essa força custou-lhe a extinção, como sempre acontece em Portugal a qualquer projecto que ultrapasse os limites da mediocridade das elites governantes deste país há séculos. Foi extinta, depois de ter tido de conviver com uma outra, chamada NP (Notícias de Portugal), cuja criação foi da responsabilidade do primeiro-ministro de então, Pinto Balsemão, do secretário de estado da comunicação social, José Alfaia e do seu homem-todo-poderoso, José Manuel Barroso.
Barroso transformou-se no principal adversário da ANOP, levada a fundir-se com a NP neste projecto de agora, num processo verdadeiramente kafkiano, com os principais quadros da ANOP a dizerem-se dispostos a lutar pela sua manutenção, mas nos bastidores a negociarem com a administração da NP, isto é, com Barroso, o seu fim.
Barroso acabou por pagar os zig-zags das suas alianças políticas, mas regressa agora à gestão da Agência que substituiu a ANOP, cujo fim ele preconizou. Este seu regresso tem alguma coisa de errado. Parece o "making off" de alguns editoriais da breve direcção interina do Diário de Notícias. Se assim é, os anos não mudaram o homem. Esperemos que, do ponto de vista técnico, não tenha perdido capacidades e se tenha actualizado para colocar as novas tecnologias ao serviço da única Agência portuguesa num Mundo cada vez mais globalizado, mas com uma comunicação social cada vez mais controlada pelos grandes interesses internacionais (ele sabe do que falo).

O Partido-Estado

A vida dá muitas voltas. Umas esquecem-se, mas outras são como que marcadas a fogo na memória de quem as deu. Viver numa sociedade em que não se sabe muito bem quem manda, se o partido no poder, se o Estado, é uma delas

Hoje assaltou-me um temor ao ver um homem, com uma gravata flamejante, chamado Relvas, a falar em nome do PSD e a desmentir uma notícia que dizia respeito ao governo.

Garantia o sr. Relvas que a notícia publicada pelo "Diário Económico", segundo a qual o governo tinha protelado o pagamento dos subsídios de desemprego e de saúde até ao início do próximo ano, para, dessa maneira, equilibrar ainda mais o défice, era mentira e quase insultava o jornal que a tinha publicado.

O que é que o sr. Relvas tem a ver com o assunto? Porquê um desmentido tão veemente?

Não sabe o sr. Relvas que o truque já é velho e que até algumas empresas cotadas em bolsa, que não podem deixar de pagar aos seus fornecedores no prazo máximo de sessenta dias, deixam de cumprir os seus compromissos a partir de Setembro para, dessa maneira, enganarem sobretudo os accionistas, que, depois, sancionam os chorudos prémios que os administradores distribuem entre si?

Teve azar o governo e foi apanhado em mais uma trapalhada. E o que é que o PSD e o seu secretário geral têm com isso? Estamos a caminho de um regime ML, de partido único, em que o partido manda no Estado? Se assim é, avisem com antecedência, porque a emigração não está fechada para todos os lados e ainda há uns onde se pode viver, sem a escravatura do capital e sem a ditadura do proletariado.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Um Hora Certa

Corro o risco de transformar este blog numa peça de tema único. Não era essa a intenção, mas a verdade é que - tenho que o admitir - reajo às agressões do meio social com toda a minha energia.

A chamada comunicação social ( sobretudo a televisão) é hoje o principal meio de agressão dos cidadãos que se disponibilizem a dar-lhe atenção.

Para esses, as doses estão calculadas: todas as televisões generalistas têm jornais de horas certas: das 13 às 14 h e das 20 às 21 horas. Uma hora certa de notícias, dê por onde der.

Há uma das televisões de canal aberto, a SIC, que termina o telejornal das 13 sempre às 14 (em ponto), porque a essa hora principia a série do cão polícia REX, que, nem o facto de ir já na enésima repetição lhe retira o mérito de ser melhor do que a hora inteira de notícias e palhaçadas, apresentadas com o ar de coisa importante que todos os pivots dos jornais televisivos fazem para introduzir mais um desgraça, um desastre ou uma violação.

Este é outro dos aspectos caricatos dos telejornais : o ar compungido, sério, trágico, que os apresentadores de notícias das nossas televisões fazem para ler os telepontos. Com um pouco de atenção percebe-se que a responsabilidade que o espectador lhes atribui não existe, mesmo quando o dito leitor é o próprio director de informação.

O texto é o mesmo de todas as outras e foi fornecido pela mesma Agência, normalmente, a Lusa, que já fez o trabalho de tradução - e agora até imagens fornece.

Quando ficamos minimamente atentos percebemos que aquele ar interessado que o José dos Santos ou o José Alberto, ou a Clara não sei quantos e o Rodrigo Carvalho e mais a Alberta e até o Henrique Garcia... fazem é apenas representação. Não têm nada a ver com os textos, não visionaram nada antes, não têm e a mínima responsabilidade do que leêm ou das reportagens que introduzem.
Apenas têm que aguentar o jornal o tempo determinado. Depende da publicidade que têm ou não têm - e da que o patrão gostaria de ter e da que a concorrência exibe. E se, para estar no ar mais cinco minutos têm que ouvir um iditota qualquer que foi apanhado desprevenido na rua, então ouça-se o idiota!
Bem poderiam aparecer com outro ar, mais descomprometido - é que ainda há gente que acredita nas notícias que leêm. Esta crença complica tudo, quando aparecem com a mesma cara interessada e até com a mesma gravata a dar voz a coisas realmente importantes. Ao menos, mudem de cenário, de guarda-roupa ou tão só de gravata!
Para o caso de alguém que me lê achar que exagero, um pormenor: há cerca de um mês, soube que, finalmente, a NASA tinha conseguido pôr no ar um avião que consome como combustível o hidrogénio da atmosfera e anda a uma velocidade de 10.000 quilómetros por hora porque vi o Telejornal do GNT às 00H15. Foi a notícia de abertura daquele canal da Globo. Algém viu essa notícia na Televisão Portuguesa?... AS IMAGENS DEVIAM SER MUITO CARAS.


domingo, dezembro 26, 2004

A Solidariedade Natalícia

A Solidariedade Natalícia transformou-se em operação de marketing de imagem. Faz parte dos manuais de qualquer assessor : o Natal é uma época excelente para fazer passar a ideia de que as grandes empresas não existem apenas para capitalizar lucros, fugir aos impostos, arrecadar percentagens excessivas dos índices de produtividade alcançados por toda a sociedade em que e de que vivem. Não. Elas também são solidárias com as desgraças que fomentam ao longo de todo o ano. Desempregam e desalojam gente, exploram o trabalho até ao limite do possível, sugam as capacidade do Estado, obrigando-o a privatizar os serviços que dão lucros, depois de livres das despesas de caracter social, etc., etc. E, na época natalícia (ou natalina, como dizem os brasileiros), aparecem vestidos com a capa de solidariedade, a divulgar as suas preocupações com a desgraça dos outros...
Este Natal a preocupação atingiu o limite da hipocrisia e já parece uma anedota de mau gosto, contada no Ri-te Ri-te da SIC.
O presidente da BES , Ricardo Salgado, ele mesmo em pessoa, apareceu numa das televisões nacionais, de canal aberto, a divulgar a sua brilhante ideia: abriu uma conta no seu banco para que as pessoas se solidarizem com os desgraçados, com os enjeitados, com os desprotegidos da sorte, com as criaturas que não conseguiram resistir às pressões que a Banca, no seu conjunto, desenvolveu durante o resto dos dias deste e de todos os outros anos em que todos eles ficaram cada vez mais ricos.
Esta operação vergonhosa de marketing de imagem só se percebe num contexto de senilidade de de mau aconselhamento. Porque não aparece o dr. Roberto Salgado a fazer uma verdadeira notícia, anunciando que o seu banco disponibilizou uns tantos dos muitos milhões que ganhou durante este ano apenas em operações de off shore ou em contratos que obrigaram empresas que controla de forma ilícita para assistência dos muitos dos sacrificados no seu próprio altar de lucros desenfreados?
Assim, sim, estaríamos a assistir a uma operação de genuína solidariedade e não apenas a mais uma manobra de marketing de imagem, associada a um último esforço para compôr os números do ano de 2004.
Depois de uma destas só resta um conselho: mude de assessor de imagem, mas não contrate a JLM & Associados porque essa também está a cobrir de ridículo algumas das grandes empresas deste país. Além de que já obrigou o dr. Ricardo Salgado a aceitar como presidente da Lusomundo o Luís Delgado...

As Propostas da Vergonha

Hoje é dia de Natal e, por isso, é a altura certa para falar de coisas sérias. Há, nesta Terra de Deus gente sem vergonha a desempenhar papéis destinados a gente honrada e séria. Refiro-me à direcção de alguns jornais que não têm vergonha de tentar contratar jornalistas licenciados, com experiência profissional, com curriculo a que associam capacidades evidentes, oferecendo títulos de alimentação e transporte, num montante de 125 Euros, ou seja, 25 contos por mês. E são direcções representadas por gente que depois se apresentam em público defendendo as chamadas ideias de esquerda.
Enquanto esta vergonha continuar a comunicação social será o que é, porque sujeita às pressões das agências de comunicação, que já tomaram conta das editorias dos jornais das rádios e das televisões a troco de carteiras de publicidade que lhes foram entregues de mão beijada pelas administrações das grandes empresas.
Por isso, os presidentes podem aparecer a dizer que nunca fizeram pressão sobre ninguém. Pois não: pagam - e bem - a quem faça o trabalho sujo por eles.
Não há melhor dia do que o de Natal para lembrar que este país se está a reestruturar em cima de gente sem escrúpulos e com muito poder e que a chamada liberdade de imprensa não é mais do que uma peça de um leilão feito em feiras semelhantes à de Carcavelos.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Défice e Produtividade

Ouço políticos, economistas e professores de uma e outra coisa e não posso deixar de ficar surpreendido. A conversa de uns e outros é sempre a mesma. Alguns jornalistas da área económica (os tais, que, por determinação da Comissão Europeia deveriam fazer declaração de património) dizem que sim, abanando a cabeça. As soluções apresentadas traduzem-se sempre na necessidade de reduzir trabalhadores da função pública, subtrair gastos à saúde, à educação, na obrigação de fazer os cidadãos pagar mais pelos serviços, pelas auto-estradas, mais impostos, etc.
Como nunca aparece ninguém a defender outra saída, já que os meios de comunicação foram tomados de vez por gente clonada de algum cifrão, fico com a certeza de que é isso mesmo que vai acontecer. Num futuro não muito longíncuo vamos pagar mais por tudo. Teremos mesmo alguma sorte se não aparecer ninguém a inventar um imposto que cubra os desvarios de governantes e autarcas, tipo ex-presidente da Câmara da Figueira da Foz, que, com os quilómetros que debitou durate o seu mandato teria dado várias voltas ao Mundo.
Todavia, a desgraça, a calamidade, a fatalidade não está, seguramente, no excesso de trabalhadores e nos "baixos" impostos que pagamos.
Atente-se neste facto: os CTT, por exemplo, há trinta anos, ou menos, tinha um complexo sistema de selecção de correspondência, com centenas de trabalhadores que se ocupavam dessa tarefa - para só falar desta. Hoje - uma das televisões apresentou há poucos dias uma reportagem sobre o tema - a selecção das cartas é toda automatizada. Quantos trabalhadores desapareceram com o sistema?
Qual é o índice de produtividade entretanto atingido? Nesta e noutras actividades - em todas elas (indústra, comércio, serviços, etc., etc.) ?
O resultado desse aumento espectacular - inimaginável há trinta anos - de produtividade está aonde? porque é que temos um Estado miserável, governado por parolos que se fazem transportar em viaturas de topo de gama, protegidos por um pelotão de seguranças e por um sistema de emergência médica complicado?
Para onde(foi) vai o produto desse aumento de produtividade? Voltando ao exemplo dos CTT: não foi para melhorar a qualidade dos serviços ou para os embaratecer.É que, por exemplo, uma carta enviada de Lisboa para a Finlândia, em correio azul, custa 1,30Euros. O mesmo tipo de serviço, da Finândia para Lisboa custa 0,65 Euros.
A Finlândia é, como se sabe, o primeiro país do Mundo em matéria de satisfação dos seus cidadãos.
Insistindo ainda nos CTT: a transferência do respectivo fundo de pensões, levada a cabo por Manuela Ferreira Leite e tão criticada agora por Bagão Felix, retirou à respectiva administração um enorme encargo, transferindo-o para o Estado. Esse facto vai aparecer reflectido nos resultados e, seguramente, permitir a Carlos Horta e Costa mandar rezar mais uma missa de acção de graças.
Fugindo da anedota: porque é que os homens da chamada comunicação social não aprofundam estas questões e se ficam a pontuar as conversas dos "sábios"?- tão sábios que já nem conhecem a realidade dos pobres mortais.
Será que os "pontos" da chamada comunicação social também se identificam com os problemas dos administradores, que fazem as empresas pagar todas as suas despesas, incluindo as do super-mercado e depois anunciam "ambiciosos projectos de reestruturação", que, no essencial, consistem na redução de mais uns milhares de trabalhadores?
A verdade é que, ao ouvir alguns directores de jornais, temos a sensação de estar a ouvir directores comerciais. Isto para já não falar dos auto-intitulados jornalistas e que são presidentes e vice-presidentes de empresas e comunicação social e de jornalistas que colaboram com as entidades patronais em mais do que uma função, sendo que a de jornalista é claramente prejudicada pelas outras.
Concluindo: é necessário levar a discussão sobre o défice do Estado para outro nível, escolher outro patamar e outros interlocutores e deixar de atormentar o cidadão que vive (mal) do seu trabalho, que tem que pagar tudo e ainda se preocupa com as asneiras dos governantes. Asneiras, isto é, descaminhos, porque quando se trata dos seus interesses e dos respectivos amigos só há operações de sucesso.