sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Que Desgraçados Nós Somos

Eu acredito que o dr. Medina Carreira tenha razão - parece mesmo que tem! Mas, ouvi-lo ou lê-lo é um verdadeiro exercício de masoquismo.
Que diabo! (ou será meu Deus!), estamos condenados a ser completamente esmagados pela realidade económica, a ser completamente desgraçados? Este povo, que somos nós, não terá capacidade para um golpe de asa?
Por falar nisso, e se a comunicação social mudasse as agulhas e se preocupasse em lembrar-nos o que já fizemos , para concluir que voltaremos a ser capazes?
Alguns dos cronistas de lugar cativo parecem-se muito com a ideia de político disseminada a esmo.
As suas preocupações têm mais a ver com a necessidade de se venderem a si próprios do que ajudar os leitores a perceber o que quer que seja. Recolho da minha leitura diária uma frase espantosa - que deve ter alcançado uma boa cotação no mercado das chamadas frases assassinas - "escolher (o próximo primeiro-ministro) é como escolher entre a pepsi-cola e a coca-cola".
Será plágio ou representa uma venda inédita: dois em um?

vogar no espaço/tempo

Sempre que tento avançar no tempo é o passado que encontro. É como se nada fosse novo e eu já conhecesse a história.Vou tentar começar pelo princípio, mas não garanto que os tempos dos verbos estejam atempados. Então lá vai...

Eu pecador me confesso.
Também, puritano incompetente, também eu subornei. Subornei funcionários públicos, com o intuito vil de lucrar com informações valiosas para o pasquim (e para mim mim, bem entendido), da capital (geográfica, porra) para o qual trabalhava.
Sejamos mais claros: eu subornava, mas era o pasquim que pagava.
Um deles, corcunda, trabalhava na morgue.
Nunca percebi bem se trabalhava ou se vivia na dita morgue, estava sempre lá. E sempre que aparecia um cadáver conveniente ele telefonava-me.

Um cadáver era sempre um ponto de partida para reportagens de sucesso.

Outros dois da minha folha de pagamentos eram da "Judite". Eram-me muito úteis, sobretudo para desviar as atenções. Nesse tempo tinha boas relações naquelas instalações.
O director mostrou sempre alguma simpatia pelo repórter que cobria o Tribunal de Polícia, no qual o director da PJ era juiz.
Essa relação amistosa manteve-se quando o repórter mudou de
categoria e de periódico e incluia outras amizades com dois do principais inspectores.
Deles nunca tive informação privilegiada, salvo um que outro esclarecimento.
Suponho que eles sabiam que eu tinha informação quente dentro e que provavelmente eles próprios tenham utilizado as fontes anónimas para me fazer chegar informação útil para os dois lados, mas, tal como eles, eu nunca esmiucei isso.
Mas, a propósito dos colos e das insinuações lembro-se do citado director me ter contado, e se me dão licença, vou usá-lo na primeira pessoa: Quando pela primeira vez fui a Londres (contava ele) a homosexualidade era considerada no Reino Unido imoral e era proíbida. Era como aqui(ele é que comparou).
Uns tempos mais tarde tive que lá voltar (ele). Então apercebi-me que já não se sentia a imoralidade, ainda que legalmente continuasse proíbida. Mas à terceira vez que lá fui apanhei um susto: já nem era proíbida! Jurei a mim mesmo (ele, chiça, foi ele que jurou) nunca mais lá voltar..

- E porquê? - perguntei eu (eu este sou eu).
- Tenho medo que já seja obrigatório...

Talvez vocês não acreditem mas contei esta memória num noticiário matinal na Rádio, em Lisboa.Tive que ser eu porque nenhum dos jornalistas- locutores esteve pelos ajustes.

Percebem porque eu digo que é o presente que me empurra para o passado? Por estar na matéria, recordo a primeira vez que fui confrontado com a questão.
Menino e moço e ingénuo e desinformado. Aprendia o b-a:bá do futebol e por via do foot que lí no Século, o jornal que o meu pai, que sabia de sapatos, comprava.
Um treinador de futebol do Sporting tinha sido encontrado morto no Parque Eduardo VII. Naquele tempo creio que não havia conexão. Naquele parque o menino que eu era só sabia que Portugal tinha ganho o primeiro mundial em Hoquei em Patins, com os primos Correia, os manos Serpa o Cipriano e um defesa que nem me lembra o nome mas jogava na Amadora.
O crime foi assunto muito comentado.Devia estar bem explicado nas entrelinhas mas eu não sabia ler isso. E um dia um cara do Século chocou-me: "tanto a vítima, como o criminoso eram dois miseráveis!". Lembro-me de ter perguntado ao meu pai se aqueles senhores eram miseráveis só por serem do Sporting...
Isto passou-se muitos anos antes do director aqui de cima ter ido a Londres, mas deve dar uma imagem de como a moralidade da época podia ser podre.

E valeu a pena eu ter durado todos estes anos só para perceber que hoje em dia ninguém é miserável por qualquer coisinha destas. Chateia é para eleições...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os Debates do Debate - Um Filme de Terror

Há um debate político e lá estão eles: os jornalistas da economia e outros, que não o sendo - sem serem nada, porque misturam tudo - lhes imitam os gestos, as palavras e os fatos novos. E até as gravatas garridas.
E o que dizem eles, os economistas-jornalistas, a quem é exigida, por uma directiva da União Europeia, uma declaração de património ?
Sempre o mesmo e sempre com o mesmo ar, de quem tem a solução no bolso. É preciso despedir, reduzir as despesas do Estado, criar alternativas à Segurança Social existente, aumentar a idade da reforma - não pelos bons motivos - mas pelos mesmos de sempre: reduzir despesas com as pessoas.
O que faz confusão a esta gente são as pessoas. As pessoas é que estão a mais. Ainda os vamos ouvir, um dia destes, a pedir a demissão do Povo.
Nunca os ouvi explicar porque é que as grandes empresas estão sempre a criar novas empresas: que se trata de um dos muitos expedientes usados para não pagar os impostos devidos, já que, durante três ou quatro anos ( e às vezes mais), absorvem lucros, transformados em despesa.
Jamais lhes ouvi uma palavra explicativa sobre as razões por que a Banca continua a usufruir de condições especiais no pagamento de impostos, que lhe foram atribuídas há mais de vinte anos com o objectivo de se reorganizar.
E é verdade que a Banca se regorganizou. Tão bem que aproveitou para incorporar todas as novas tecnologias e dispensar o maior número de trabalhadores. Os que ficaram viram os seus direitos reduzidos a quase zero.
Houve até alguns bancos que se permitiram declarar que não aceitariam mulheres como suas trabalhadoras. A gravidez incomodava-os muito...
Também nunca ouvi os tais economistas-jornalistas a explicar ao "povo ignorante" qual o papel da Banca no desenvolvimento e no crescimento da economia. O tal papel indispensável, tão louvado por eles, limita-se à especulação financeira em seu próprio proveito - com o dinheiro dos outros - , à concessão de crédito ao consumo e à construção civil.
O que faz mais a Banca? Transfere as operações rentáveis para os of-shore (o da Madeira é apenas folclore), parasita os médios e pequenos empresários e algumas grandes empresas na condição de accioinistas de referência, e pressiona o poder político para ter mais regalias, mais isenções de pagamento de impostos.
Algumas destas acções da Banca têm como arautos estes jornalistas-economistas (ou serão economistas-jornalistas) sempre de sorriso irónico e fato novo.
Porque não perguntar à Banca pelo apoio à criação de empresas viradas para as novas tecnologias, pela criação de créditos que permita a reconstrução da nossa Indústria, da nossa Agricultura, das nossas Pescas, numa palavra, do nosso aparelho produtivo?
Eles também são os arautos e ferverosos adeptos dos grupos de gestores que se reunem para, assim como entidades supra-estatais, apontarem o dedo.
A última vez que o fizeram foi para acusar os políticos de não ter coragem para dizer aos portugueses os sacrifícios que é necessário exigir-lhes. Mais?
O porta-voz foi o dr. Carrapatoso.
Não ouvi nenhum dos comentadores de debates perguntar se o dr. Carrapatoso ( ele e todos os outros) está disponível para sacrificar os milhões que recebe anualmente, só de prémio pelo desempenho da empresa que dirige, distribuindo uma parte pelos trabalhadores que o ajudaram a obter os resultados premiados.
É que, desse modo, as receitas do Estado seriam bem maiores, já que os impostos a pagar não se concentrariam num único contribuinte.
Não percebo as palmas que estes comentadores batem a tudo quanto é empresário, sem lhes perguntar onde estão os programas de requalificação de mão de obra, de criação de novos empregos.
Percebo, mas gostava de não perceber, o entusiasmo com que acolhem as medidas de reestruturação das grandes empresas, que significam - sempre - dispensa de trabalhadores e o consequente "outsorsing" contratato a uns amigos, donos de empresas com trabalhadores precários e pagos miseravelmente.
Acho mesmo que estes doutores vivem noutro planeta, que não passam pelas mesmas ruas que eu e não veêm as multidões de gente com ar desesperado a andar a esmo, sem ocupação e a maldizer a hora em que aceitaram a conversa do director de recursos humanos ( ou de um seu representante) a convencê-los a assinar o "maldito papel".
Eles ainda não perceberam que a desregulamentação do trabalho é a causadora da crise a nível internacional. Que os empresários (grandes e enormes) se apoderam dos aumentos incríveis de produtividade atingidos pela Humanidade. E querem mais!!!
Essa gente está no filme errado e aterroriza quem os ouve. Por favor, tirem-nos de cena!

Debate com Velório em Fundo

Afinal, o Pedro não chorou. Ainda bem.

E aquela gravata preta assentava-lhe bem: estava como deve ser no seu próprio velório.

Um funeral em grande com flores à direita e tiros à esquerda.

Desta vez, sr. ex-presidente da Figueira da Foz, acertou em cheio.

nada igual a nada

Não vi o debate. Não cheguei tarde, nem me esqueci. Fui ao cinema, depois petisquei comida basca. Foi agradável. Vi, claro, imagens no último telejornal, deu para entender. Parece fácil, parece sobretudo pretensioso. A questão parece ser: se um tipo não se preocupa agora, que direitos terá depois?

Pode-se responder sem responder: o que não tem remédio... quanto pior melhor... O que for soará...

O dia das eleiçõs há-de chegar. Um deles há-ganhar, que se lixa, o que perder vai à vida e um deles vai livrar-se da tropa (ou será a tropa que se livra dele?) , a vida há-de continuar. E, depois, as coisas importantes: o que é que vai acontecer ao Porto? e ao Benfica? E o Sporting? Ah!, e o Boavista? Se depender de um apito, ao menos que seja dourado, que entretém mais e melhor.
Reconheço que baixar os braços não é exemplo. Ocorre-me citar um poeta, ele, sim um exemplo
de tenacidade, de teimosia,que não vergava: (... ) fazei todo o mal que puderdes e passai depressa....

O Último Acto

Depois da carta que hoje recebi do dr. Santa Lopes, a pedir-me, por amor de Deus, para ir votar (nele). Depois de ler aquela "queixinha" de que é o político mais mal-tratado da face da Terra, acho que ainda o vou ver, na Televisão, a chorar.
Oh! doutor, por quem é, não me faça uma coisa dessas, porque eu não consigo ver sequer uma mulher a chorar, quanto mais um homem. Caramba! um Homem não chora!!! Além disso, o sr. até teve o colinho da Irmã Lúcia. O sr. e o sr Portas. Vá lá, porte-se bem.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

As Homenagens Devidas ao Sr. Ministro

O Ministro Paulo Portas sugeriu aos chefes dos três ramos das Forças Armadas que o condecorassem, atribuindo-lhe o mérito de "melhor ministro da defesa". Esta "sugestão" foi feita logo a seguir à dissolução da Assembleia da República ao Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMFGA).
O Almirante Mendes Cabeçadas teve que explicar ao sr. Ministro que tais condecorações não seriam possíveis por várias razões: desde logo porque o sr. ministro é, do ponto de vista da hierarquia, o chefe. Depois, porque os chefes dos estados maiores de cada um dos ramos das Forças Armadas não têm competência para tal e, finalmente, porque seria ridiculo...
Esta "exigência" do "melhor" ministro da defesa, que, entretanto, tem feito ou mandado fazer as maiores tropelias com alguns dos concursos que estão em curso no âmbito da reestutururação de diversas estruturas militares, tem um precedente:
Logo no primeiro ano do seu consulado, "sugeriu" aos mesmos chefes que deveriam congratular-se, de forma pública e notória, com o facto de o terem como ministro, no dia do seu aniversário. O público e notório seria expresso por ofertas individuais de cada um dos chefes.
Nessa altura mandou o seu secretário de estado telefonar ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea, dizendo-lhe que já tinha a aquiescência do seu homólogo da Marinha.
O ridículo foi evitado porque, entretanto, os generais conversaram uns com os outros.
Será necessário acrescentar alguma coisa?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

ORGIA CARNAVALESCA I

Ao Mundo ninguém o fez. Fez-se. Melhor: foi-se fazendo. Como o homem, que anda a fazer-se há milénios e nunca mais se acaba. Uma confusão dos diabos, convenha-se.
Por isso, que no tempo do paganismo, a gente simples e de pensar a direito, ciente de não ter feito isso duma vida que se alimenta da morte e duma riqueza sustentada pela pobreza, ciente, disso, resolveu inventar os deuses. Alguém explicativo de tamanho despautério: quadros futuros como o da sintonia entre Iraque-Irão-Afeganistão-Ruanda-Sudão-o maremoto-o imperialismo-os fundamentalismos-a Coreia atómica-os comunismos serôdios-secas dilúvios, tudo isto com direito ao contraditório. Que até a natureza o tem porque a agridem diariamente.
No meio de tanta tragédia salva-se um Portugal onde se brinca tanto ao Santana e seus meninos como ao almirante Portas e suas fragatas anti-aborto. Só que a folia, embora não mate povos, mói nações com o grotestco de seus episódios.
ENTÃO:
I - A co-incineração
Rezam as crónicas e os cronistas que os portugueses são o povo mais, ou dos mais, analfabetos da Europa. Pois não obstante essa maior percentagem é formada, quem diria?, por peritos em incineração. Pincipalmente co.
Economistas, bombeiros, futebolistas, políticos, marinheiros, poetas e advogados, também a dona Balbina e o senhor Travassos, de todo esse mundo dos muitos por cento que mal sabem, ou nem sabem mesmo, juntar as letras, anda meio-mundo na rua aos pontapés a um assunto da competência exclusiva dos técnicos. Competentes.
E a chamada democracia, para aumentar o pandemónio, anda por tudo quanto é canto a perguntar ora diga lá de resíduos e da incineração com co , de gases e dos perigos. Questão a que ninguém se recusa porque falar tornou-se um vício. Falo, logo existo.
Então ao telefone e ao microfone todos destapam a sua ignorância porque não têm mais nada para mostrar. Nem vergonha da nudez.
II - Os Revolucionários
O defunto CDS, hoje partido de Portas, descobriu-se revolucionário: um partido de esquerda às direitas.
Nobre Guedes disse que ele, Portas, podia ser o "nosso Malraux".
Nosso deles, evidentemente. Mesmo assim não foram nada modestos, escolheram para comparação um anti-fascista que andou por guerras a sério a lutar contra o fascismo, um intelectual ante a memória de quem a Europa se curva, um homem que até pessoa foi!
Por outro lado, Pires de Lima, afirmando-se "sem medo das palavras garantiu que "nós" (eles) "somos os verdadeiros revolucionários do século XXI". E o próprio Paulinho das Feiras já aceita a transmutação em Paulinho das Revoluções.
Ora, se no meio deste revolucionarismo-PP uns se lembram de Malraux e outros de outras mirabolâncias, fora dele há quem se lembre mais modestamente de revolucionários dá de perto. Da terra portuguesa.
De um revolucionário que, de poder fresco nas mãos, declarou, tão convicto como é hábito entre Portas e seus rapazes:
"Enquanto houver um lar sem pão, a revolução continua".
Chamava-se António de Oliveira Salazar.

ORGIA CARNAVALESCA II

III - A independência da Madeira

Miguel Sousa Tavares tem sido o homem dos jornais mais inconformado com a chantagem de Jardim quando deseja favores políticos dos tacanhos governantes do continente.
Tacanhos, o mínimo que chama aos "inimigos" da Madeira e da autonomia, os quais, com receio duma suposta chantagem com a independência da ilha, vão suportando as bernardices de AJJ.
Chantagem mais implícita que assumida. Existente no entanto. E, como o mais inconformado com ela, a repetição do jornalista, insistindo no tema, não teria novidade se não fossem as serpentinas que lançou para a festa.
Rolos delas a dizer que a melhor maneira de calar Jardim com a cantata da independência seria a de submetê-la a escrutínio popular.
De facto o carnaval desregula a razão.
O território de uma qualquer nação nunca foi, nunca será, formado por imposição dum qualquer plebiscito. Atrás dumas fronteiras nacionais há factos e história. Há razões sociais, políticas e jurídicas, razões de séculos, de mil vivências e de direito internacional, razões de amor à terra, de hábitos e familiariedades e, finalmente, a grande razão do bem-querer à gente que é a nossa.
Há tudo isso amassado num cimento feito da terra do chão nacional.
Não cabe na cabeça de ninguém sugerir a independência do Porto e redondezas em razão do passado galego e de exigências de governantes locais. Ou do Algarve, que foi mouro e hoje tem interesses específicos.
Não cabe e ninguém se lembrou disso.
Assim, a que título, a não ser carnavalesco, vem a lume a independência da Madeira, terra achada por portugueses, povoada por portugueses, que nunca teve outra história nem outra vida que não fosse portuguesa?
A descontinuidade geográfica é argumento juridicamente pobre e a chantagem de Jardim ainda mais pobre.
IV - Havai descontínuo
O Estado norteamericano do Havai são umas ilhas longe, metidas nos Estados Unidos há um século, e que existiam antes disso primeiro como monarquia e depois como república.
Ora no aproveitamento das disputas havidas nessa transição, da guerra interna, os estrangeiros entraram em ajuda a uma parte contra a outra. E poucos anos depois pegam na terra e incorporam-na por sucção.
Aposentam a rainha a troco de um punhado de dólares, manobram com força sua interesses seus e alheios e pronto, já está.
Antes esteve. E ficou.
A Independência para o Havai, já!!! É uma causa justa.
V - Lembrando o truca-truca de Natália Correia
A sina deste Fevereiro que ainda não passou atacou também António Barreto. E levou-o para longe das paragens políticas: para o sexo de governantes.
Aventou, com ar sério de quem pensa, que os responsáveis máximos do país fossem obrigados a apresentar, para além da declaração dos rendimentos e mais teres e haveres, suas habilitações sexuais.
A prática e as tendências.
Na conformidade, ficaríamos a saber se são truca, retruca ou truca-retruca. E como a Constituição não permite discriminações por motivos de raça, sexo e assim, também as mulheres que eventualmente chegassem a cargos presidenciais e primoministeriais teriam de apresentar a sua declaração de fufa, fafu ou fuaf.
Em consequência do que se chegaria ao voyeurismo democrático na cama com o poder político.
Óptima modalidade de programa para a TVI.

Tudo Como Dantes

É bem possível que a Democracia seja o melhor sistema político. Creio que, de um modo geral, os democratas acreditem que seja o único, o supra-sumo. A questão que se levanta é a de saber onde começa e onde acaba. É difícil imaginar virtude na ideologia vendo os democratas perorar na Televisão ou imaginá-los a telefonar para o Expresso ,quando o sr. Balsemão não está lá,bem entendido, ou para o Indep.,seja quem for que lá esteja.Intrigar é em si mesma um passatempo divertido, mesmo sob a forma de filha de putice reles.Deixa de ter graça quando se exerce como acção política. Não venho aqui discutir moral. O que pretendo pôr em questão é o comportamento dos democratas. Não encontro nada de mal na democracia. Aceito que seja um excelente sistema político. embora muito virado para favorecer os políticos, mais do que enriquecer a populaça de mais sopa e de melhores costumes.

Confesso que sem querer pôr em causa a democracia, o que eu tenho dificuldade em aceitar/gostar é de democratas filiados em. vulgo: militantes (?) , militantes militam, militam, de militar, ó Diabo! já me perdi ou estou a perder o fio à meada.

Devo confessar que quando comecei a escrever este doloroso desabafo ainda a irmã Lúcia era viva e o Sporting não tinha esmagado o Rio Ave. Do passamento da vidente se têm encarregue os líderes do PSD arrouba CDS pê-tê ( o hifen é devido ao computador, coitado, que, como eu, não sabe ortografar analfabetices), eu prefiro comentar ou entreter-me com a bola, mas depressa me dou conta de que é tempo perdido. O "Record" é pior que o "Expresso" e isso dói-me. Aprendi a vida com "A Bola", quando a vida era o Benfica e o Benfica era o Bloco de Esquerda. Quando o "marreco" a quem também chamavam Teixeira, ficou fechado num camarote do barco que o trazia da Madeira, com destino - imagine-se! - ao Sporting. Nenhum comandante de navio, mesmo de passageiros faria uma coisa dessas. Foi no Benfica avisar e pela noite lá o levaram e o inscreveram. Isso sim, eram assuntos de jornal. Havia uma revista desportiva "stadium" que funcionava, ainda que não o soubesse, como haveria de ser a Televisão. Desvendou a trama do desvio, do mesmo modo que o Indep. o faz com Amaral, Freitas do.

Caiu o Carmo e a Trindade, como Guterres haveria de cair. Empurrado pela ira vermelha, que não tolerava a admissão de um lagarto, nem que fosse para cabeça de lista em Fornos de Algodres. E quando, na semana seguinte, o Benfica, que residia no Campo 28 de Maio e a que, por patriotismo, a malta chamava Campo Grande, recebia justamente o Sporting. Foi coisa séria. O Benfica ganhou por cinco a quatro e o "marreco" marcou quatro golos...

Vocês crêem que Santana é capaz de marcar quatro golos?...

sábado, fevereiro 12, 2005

O Rosto dos Sem Rosto

Há um semanário que não compro há anos, desde que o descobri como o jornal de uma aldeia sem dignidade, povoada de beatas, pequenas intrigas, grandes negócios e negociatas. Vou escolhendo outras leituras de um painel cada vez mais difícil , e , na demanda do que ler, deparo com títulos, com rostos nas capas de revistas. Alguns não conheço, mas outros sei bem que eles são.
A propósito de um rosto que hoje aparece no tal semanário, cujo nome já nem pronuncio, lembro os posts que aqui coloquei nos dias 30 de Janeiro de 2005 e a 01 de Dezembro de 2004. Este último sugere a leitura de mais alguns colocados em datas anteriores.
Ele aí está o rosto dos que não dão a cara. A PGR e a CNVM não estarão a investigar nada a respeito deste jogo de espelhos para o público perceber de quem é verdadeiramente a silhueta de Luís Delgado ? Até pode não ter espelhos mas apenas sombras chinesas.

«Por Ora»

A Procuradoria Geral da República e a Direcção Nacional da Polícia Judiciária fizeram saber, em comunicado tornado público que, "por ora", José Sócrates não é suspeito de coisa nenhuma, relativamente ao empreendimento "Freeport".
Estes pronunciamentos são feitos na sequência de uma notícia do semanário "Independente".
Mesmo depois da indicação de que se trata de um atropelo a todos os códigos deontológicos (que haja, mesmo no inferno), as rádios e as televisões - e pela amostra das edições "online", os jornais - continuam a servir-se do mote dado pelo semanário para ampliar aquilo que o próprio Sócrates já classificou de "campanha negra".
Negra ou branca ela é, de facto, uma granada de fragmentação, um automóvel aramadilhado, atirados contra todos nós, pacíficos cidadãos de um país de brandos costumes, que aceitam estes actos terroristas com um encolher de ombros, na esperança de que não nos caia um estilhaço em cima.
O "Independente" não é estreante neste tipo de actuação. Esta é a marca de um jornalismo que exige contrapartidas, que aponta caminhos para alianças futuras e tem cimentado poderes ocultos, verdadeiros polvos que se alimentam da intriga e da chantagem.
O jornal é apenas o instrumento. Quem o utiliza sabe que a sobrevivência obriga , muitas vezes, a actos desesperados.
Este acto de puro terrorismo anuncia, seguramente, uma verdadeira guerra, porque o tal polvo começa a ficar nervoso perante a possibilidade de todo o seu grande projecto ir água abaixo.
Fico com a esperança de que tal guerra não garanta, no futuro, outras alianças, outros projectos, outros polvos.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Patriarcão

Ele foi -- e é, sem a menor dúvida -- uma referência da democracia em Portugal. Mas até as mais reverendissimas referências são humanas. Os humanos não são perfeitos, nem sempre têm razão e estão sujeitos a tropeçar.

Mário Soares além de ter descido como desceu a Alameda, desceu algumas vezes de outros modos. Para subir teve de contar com certos apoios e uma certa Europa esteve com ele. Por essa altura os partidos recém nascidos eram virgens de princípios e à margem de legislação, como, por exemplo, as dotações pecuniárias. Nada que não tivesse remédio e que não se tivesse procurado regulamentar.

Como líder, primeiro, como primeiro-ministro, depois, teve confrontos naturais na Assembleia,
que nem sempre ganhou. Sossobrou ante uma moção de censura, que o levou à tal coligação com o partido do centro-esquerda de Freitas do Amaral e, depois, perder eleições para a AD.

De regresso ao largo do Rato arranjou algumas desavenças intestinas que haviam de culminar com o abandono da liderança por se recusar a apoiar a recandidatura de Ramalho Eanes.

Data dessa altura a contestação à origem de apoios monetários aos partidos. Para regressar à chefia foi notória a diferença entre o partido empobrecido e os meios postos à disposição dos apoiantes do candidato ao regresso.

Reconquistado o partido, Soares voltou a ganhar legislativas e a chefia do governo. Bem sabemos que o poder desgasta. Nunca são suficientes os problemas da governação. Pior que um défice num capítulo do orçamento pesa a pressão contínua dos militantes candidatos a empregos, a cargos, a tachos ou a negócios.

E o governo sossobrou. Da hecatombe emergiu Cavaco Silva. Mas é justo lembrar que o PS apresentava como candidato Almeida Santos.

Mas Mario Soares não entregou os pontos. Perfilou-se candidato a Belém. E bem mal fizeram
os que não quiseram,dentro do partido, acreditar nele. Soares ganhou a presidência e não poupou os descrentes.

Constâncio entrou na sala do Rato e não havia tostão. E casa onde não há pão... Saiu a bater com a porta. Entretanto Cavaco, governava. Belém não levantou entraves. Era o país das maravilhas.

Nas legislativa que se seguiram o PSD voltou a ganhar e Sampaio foi quase trucidado. E saiu. Mas não era um mau candidato. Não tardou a ganhar a Câmara de Lisboa, vencendo o nadador
Marcelo, o destemido. E avançaria mais tarde para a sucessão de Soares, batendo um tal C. Silva.

Mas isto foi depois do entretanto. O que contava era o implacável ajuste de contas, que até então decorrria entre iguais, como é apanágio dos polícos de topo. Arrumadas as contas a esse
nível, Mário Soares voltava à terra, arregaçava as mangas. Era a vez de Cavaco Silva...

Depois de vencer, com um sorriso nos lábios a reeleição, em que o mais difícil terá sido obter um adversário, socorrrendo-se, como era prática, de um CDS (Basílio Horta), o Presidente retomou o rumo e friamente, durante quatro anos moeu Cavaco Silva, até à exaustão. Ainda hoje, e já lá vão uns anos, o pobre prof. ainda cheira a queimado.

Com pouca saúde ficou o país. Guterres, Durão e Santana não parecem médicos de grande sucesso. Entre votar ou ir à bruxa.. o Diabo que escolha...

Rábulas



Desde que chegou , e se instalou, a democracia tem sofrido, e nós com ela. É preciso tempo para tudo, até para ter paciência. Dito de outra forma: não há remédio. Um bom exemplo, honesto e expressivo, saiu de Manuel Alegre quando criticava diferentes membros do governo Santana e terminava a reconhecer que no exercício do poder sempre se cometem erros “eu próprio cometi alguns”.É quase ternurento tanta compreensão.
A outra verdade, a minha, é que o que se conserva na memória é justamente o disparate, a palhaçada, as artolices. Neste domínio Santana não inventou nada. O poeta socialista disse uma vez: O “Século” não pode fechar. Fechou, claro.
E Soares? Caramba, senhores, caramba: “os senhores pensam que eu ia fazer uma remodelação à trouxe-mouxe na véspera de partir para a Europa?” Fez, bem entendido, ao fim da tarde. E de coligações estamos falados.
A História fará, estou certo, justiça ao homem bom que conduziu o país para o rumo da democracia ocidental, com coragem e determinação. As coligações trapalhonas e os frequentes “Soares disse que não disse” ficam no saco humanista de Manuel Alegre, onde devem estar arrumadas algumas diatribes de Pinto Balsemão, como a de escolher um pobre ministro que, coitado!, nem ganhava para os charutos.
Mesmo Cavaco deixou marca com a história do leite... Na altura era ainda mais mínimo que Santana, mas incoligado e quando quis aumentar o preço dos combustíveis, a maioria da Assembleia, onde ainda morava o PRD, levantou-se contra.. Cavaco choramingou que não o deixavam baixar o preço do leite, o santo leite das criancinhas…
E Soares fez-lhe a vontade, não por mor do leite, claro está, mas para começar a ajustar contas com os eanistas. Novas eleições e Cavaco apareceu de maioria absoluta. E asssim os combustíveis puderam aumentar e o leite também …

Trapalhadas continuaram com Cadilhe e as mudanças de casa e outro da mesma pasta com subsídios para jovem agricultor.
E as maiorias de Guterres não deram pano para mangas, apesar de se dever reconhecer algum mérito ao então líder socialista, pelo menos o de ter ganho com a maior margem de sempre entre os seus pares, mas tal como Durão durou menos do que devia.
Guterres ficou a dever ao país a solução para o problema de interrupção voluntária da gravidez. Durão “engravidou”O PSD e pôs-se a andar.
Ficou Santana para pagar a crise, com o inevitável sorriso nos lábios.
O pior é que Sócrates está com uma vontade doida de o incinerar…

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Este país é mesmo provinciano. O país inteiro, gente e geografia, já que os responsáveis por ele fazem dele uma província da Europa. Espiritual, servindo-se do seu nome como razão arrasadora em tudo o que discutem.

A comparação com o que se faz e não faz na Europa, e se faz deveria repetir-se ou se não faz deveria rejeitar-se, é o argumento máximo. A elaboração intelectual mais sabida.

Um provincianismo que nem dá direito ao contraditório, tal como Marcelo não gostava de dar entre as suas constantes afirmações de ser professor de direito.

- Eu que sou professor de direito ! - lembram-se ?

Não gostava e não dava, para grande irritação de Santana. Enquanto desejava a ocupação da Lusomundo por gente sua. Ou seja, enquanto trabalhava no limiar do direito ao contraditório do povo que ainda ministra. Como se faz na Europa.

Provincianismos, no entanto

Fernando Pessoa dizia, e até deixou escrito, que Eça de Queiroz era o mais provinciano dos escritores portugueses: pelo parisiense que gostava de mostrar-se, pelo estrangeirado de modos e dizeres por que às vezes se fazia passar. Ou passava mesmo.

Para Pessoa, provinciano era o que se enfeitava com plumas alheias, o que se punha em bicos nos pés para que o vissem. Considerava-o como que parvenu , como diria Eça.

Mas há que diferenciar entre uma pose de literato e o senhor Silva ao volante dum Ferrari. À parte isso, o que mais distinguiu, no capítulo, Pessoa de Eça foi que, enquanto este se escreveu, numa das suas "cartas" ( de Londres ou de Paris, embora num enquadramento que diminuiu o entono) um parisiense - a presença do primeiro em terra estrangeira exacerbou-lhe o nacionalismo. Fez dele um patriota místico.

Serviram aqui os talvez maiores nomes, em popularidade, da literatura portuguesa para demonstrar que provincianismos há muitos. Não apenas entre políticos.

O chico-espertismo

O chico-esperto talvez seja um tipo de provinciano, mas mais tosco. No fundo um convencido da estupidez dos outros, que procura explorar.

Paulo Portas, em defesa do seu ministro Nobre Guedes, aquele que arengou ao povo de Coimbra para não deixar entrar Sócrates nas muralhas da cidade, apareceu nas televisões com um arrasoado a dizer que aquilo retumbado pelo governante não foi o que as palavras disseram. Não foi barrá-lo, a Sócrates, com barreiras físicas (paus e pedras) mas com barreiras políticas (votos). No fundo disse que Guedes disse o que não disse.

E falou com tanta convicção que deixou a ideia de crer realmente em que os portugueses a que se dirigiu são estúpidos que nem portas. Ideia de que sobram duas hipóteses: serem os portugueses estúpidos que nem portas, ou Portas que nem porta.

Provincianismo erótico

Disse-se que eram mil. Elas

E apenas um. Ele.

Ele, Pedro, que não é pedra como o São, mas carne de um colo, o seu, para muitos colos, os delas. As que foram pôr-se-lhe à volta num colar de orgia política.

Colar que espichou lubricidade. Jacto, Santo Deus! Que por descuido foi atingir os desprovidos de tal aconchego. Uma variante dos sem-abrigo: os sem-regaço. Pelo menos delas, as que se regaçaram para Pedro. A quem Nosso Senhor não livrou da tentação de apontar José-Suposto-Sem-Colo com um gesto largo de mostrar-lhe elas todas adornando-o. A si. Não a ele, sobre quem boatos oportunos lançaram suspeitas.

Que Pedro Santana Lopes se prestasse ao papel a que se prestou, hoje não admira. A mãe de Kennedy também orientou uma campanha à presidência dos EUA apelando ao eleitorado feminino; os conselheiros de Lopes, ao que consta brasileiros, teriam agrrado na ideia e, de modo grosseiro, lembraram-se de fazer dos mil colos um facto político. Até aqui, tudo vá que não vá. Santana Lopes tem sido uma desilusão, até para os que lhe achavam graça. Portanto, para os técnicos de imagem levá-lo ao caricato não deve ter sido difícil. E mulheres arranjaram-nas. Pelo menos veio na informação que elas estiveram lá.

Aqui é que foi o mal. A mulher, hoje, já não é nada que foi. A mulher, hoje, tem obrigações para si como mulher. E, ir de colo a a abanar em demonstração de como qualquer político é femeeiro, ofende-a como pessoa.

Se houvesse justiça, deveriam todas as mil ser julgadas por interrupção voluntária da dignidade feminina.

Os Filhos do Pedro

O Pedro não faz campanha na rua, não gosta de andar a apertar as mãos às pessoas...o Pedro não fez campanha na terça-feira de Carnaval e chamou os jornalistas a S. Bento, para lhes mostrar os jardins, os filhos a passear de ar compostinho e criticar José Sócrates.
Oh! Pedro, tudo isso até capaz de resultar no Brasil, onde dois terços da população pertence ao quarto Mundo. Lembro-lhe, todavia, um facto brasileiro: o Ciro Gomes, candidato à Presidência do Brasil, com Lula da Silva, liderava as sondagens quando um jornalista lhe perguntou se o papel de Patrícia Pilar, sua mulher, era importante na campanha.
Ele respondeu à cafageste: "é importante, dorme comigo". Desde esse dia as sondagens não pararam de descer. Ciro Gomes, é, hoje, um cadáver político bem enterrado.
Que dizer de si, que só lhe falta estar enterrado e só faz e diz estes disparates ? Dizem que a conselho do mesmo brasileiro que levou Ciro Gomes ao topo das sondagens e não o impediu de se esborondar nos gráficos das agências.
Quando os filhos deste Pedro tiverem a sua própria vida e as suas próprias responsabilidades vão dizer o quê deste pai, ao verem as imagens de arquivo das televisões de então. Televisões que terão, seguramente, outros patrões e não o dr. Pinto Balsemão que manda transmitir comícios inteiros em directo, numa tentativa desesperada de salvar alguma coisa.
Salvar o quê? Perguntarão então os filhos do Pedro. "Os seus próprios interesses, prometidos pelo Morais Sarmento e confirmados pelo vosso pai" - responderão os interrogados.
Só estórias tristes de um futuro defunto.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Para Que Serve a Política

Sempre se lhe abre um largo sorriso quando apareço. Um sorriso de alegria, a mostrar a falta de dentes levados pela idade, mas também a alma limpa, carregada de amizade, bondade, solidariedade. Para os seus quase oitenta anos, o meu amigo trabalha quase como nos velhos tempos, quando andava de pinhal em pinhal a fazer pela vida e a gozar as alegrias da mocidade. Delas fala quando sente alguma esperança de melhores dias e sente aliviado o peso da sua condição de idoso, trabalhador por conta própria e português.
Ontem, a propósito da campanha eleitoral, lá veio a política à baila e a sua conclusão habitual: "Oh meu amigo, a política não serve para nada!"
Com alguma paciência e amizade tentei dar-lhe o meu ponto de vista: "bem que os poderosos do Mundo gostariam de a eliminar da nossa vida.Por causa daquilo a que chamamos política é que não somos todos peças de uma engrenagem de produção, sem direito às pequenas alegrias e às pequenas ou grandes ideias que gostamos de trocar".
Ficou pensativo, o meu amigo, mas não me quis deixar sem resposta: "mas, então acha que estes gajos que nos estão a governar são políticos?".
"Não, esses fazem parte dos que gostariam de eliminar a política da nossa vida. Esses são apenas lacaios dos que têm tudo, dos que se apoderaram da maior parte do esforço que a Humanidade fez para progredir. Esses são os que estão a permitir a importação dos métodos chineses para gerir as empresas. Mas, felizmente, ao contrário do que acontece na China, nós temos a possibilidade de os mandar borda fora".
"Você é danado! - riu-se o meu velho amigo. E lá voltámos à conversa sobre os achaques dele e meus.
Na despedida, um abraço e o remoque final: "... eu acho que não vou votar...para quê?"
"Olhe, nem que seja para voltar a sentir alguma esperança"
Tenho que passar por lá outra vez. Talvez se o frio passar ele se sinta melhor consigo mesmo.

domingo, fevereiro 06, 2005

A Realidade Não É Essa

Inicia-se hoje mais uma campanha eleitoral em Portugal. Os Portugueses voltam a votos a 20 de Fevereiro.

Demos graça à força da razão que levou os homens deste país a lutar por esta tão simples forma de decidir quem nos deve governar. Se tivessemos que dar graças a Deus - tal como o concebe D. José Policarpo - ainda estaríamos, seguramente, de joelhos, a agradecer a algum iluminado a nossa condição de homem ou mulher, de português ou senegalês, negro ou branco. Teríamos de esquecer Sócrates, que dava graças por ter nascido livre e não escravo.
A proibição de os católicos serem, em simultâneo, maçãos é, para um homem livre, imcompreensível. Tal imcompatibilidade, a juntar a tantas outras, ajuda a transformar o catolicismo numa seita restritiva, que, um dia, quando constatar o seu completo desajustamento com as sociedades em que vive, terá de voltar à clandestinidade - para aí cumprir as suas regras, defender as suas proibições e praticar a sua hipocrisia.
Mas, não é apenas a Igreja Católica que está desajustada da realidade.
Também os Partidos Políticos que arrancam hoje para mais uma campanha eleitoral não percebem a sociedade que querem governar e perdem-se em análises abstractas, propostas imcompreensíveis, discussões de modelos irrealizáveis.
A nossa sociedade já não está organizada como os seus dirigentes supõem. As medidas que foram sendo tomadas ao longo dos anos conduziram a vários fenómenos de que ninguém fala.
Por exemplo, a nossa Juventude está a entrar em esquemas de trabalho definidores de um modelo de uma escravatura impressionantemente veloz: os estágios não remunerados de que se alimentam pequenas, médias e grandes empresas; os contratos de trabalho precaríssimos, que alimentam os salários de miséria e desmobilizam qualquer apetência para especializações, aprendizagens avançadas; as regras de avaliação monolíticas, espartilhadas, aparentemente exigidas pelo cumprimento de objectivos a favor dos accionistas das grandes empresas, transformam o dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas em infernos.
A constatação de que, sobretudo nas grandes empresas, as diferenças são cada vez mais abissais e de que, afinal, os objectivos que obrigam os trabalhadores ao cumprimento de regras ilógicas, absurdas e mesmo estúpidas, contribui para a descrença e consequente crescimento do espírito carreirista, oportunista, quando não para comportamentos de deslealdade e de desonestidade.
A ideia de que um trabalhador aos 50 anos é velho e precisa de ser substituído por alguém mais novo e, por isso, mais disponível para aceitar as regras da escravatura dos objectivos definidos por meia dúzia de gestores de capitais alheios, é outra das realidades deste país que os políticos e as suas políticas foram construindo - pedindo, aos poucos, umas brasas ao inferno dos católicos.
E nesta campanha não há nenhum partido capaz de agarrar o touro pelos cornos. Aos que ouvi só percebo estratégias de poder para a sociedade, cuja existência é fruto das suas imaginações. E, quando fazem o apelo ao voto, contra a abstenção, continuam desajustados. Se a abstenção sobe é porque a população não se reconhece nos problemas enunciados e nas propostas políticas publicitadas.
Os que votam fazem-no por uma questão de jogo. Estão viciados nele. Mas, mesmo esses, acreditam pouco, porque percebem que o futuro depende do presente e, para este, os políticos nem sequer são capazes de fazer o diagnóstico. Trocam tudo, mesmo quando acertam numa palavra: confiança.
Identificam-na com o sistema económico. Nada disso, do que eles precisam é da confiança dos cidadãos.
Tal como a Igreja de D. Policarpo, também estes partidos vão, um dia, ter que viver de si mesmos, logo numa clandestinidade que lhes permita falar das suas fantasias.

sábado, fevereiro 05, 2005

O Bom Tempo

Queixamo-nos nós das elites - sobretudo das políticas.
Há pouco, ao seguir um noticiário de uma das nossas Rádios - a que liga Portugal - lá ouvi o RM da meteorologista de serviço, a prever chuva para os próximos dias e o "regresso do bom tempo" lá para terça ou quarta-feira.
A minha alma fica parva. É suposto tratar-se de alguém licenciada em curso relacionado com as várias geografias, logo com aberturas para a análise científica das consequências gravosas da actual evolução do clima, não só em Portugal, mas em todo o Planeta.
E o que diz ela? Que bom tempo é o céu limpo, temperaturas amenas, mesmo agora, no Inverno, altura em que, supostamente, deveria chover e fazer frio.
E o que diz o "locutor" de serviço da tal Rádio que liga Portugal ? Nada. Nada, porque ele não sabe que o país rural está suplicando aos céus por chuva e clamando junto dos poderes instituídos por apoios que lhe permitam manter os animais, as pastagens e a esperança de ter condições para lançar algumas sementes à terra.
Que maneira de ligar Portugal!
É claro que todas as outras rádios e todas as televisões estão a repetir o conceito de "bom tempo", desligando-o da ideia de chuva. Ora, a verdade é que, muitas vezes, a ideia de bom tempo não pode ser dissociada da de chuva.

O Debate - Comentários

Algumas vezes na minha vida tive este sentimento de "pioneiro", de alguém que dá alguma coisa de si para construir algo que pode servir a todos.
Desde os finais de Novembro de 2004, altura em que inaugurei este blog, cujo título devo a um amigo do coração, voltei a esse sentimento gratificante.
A blogoesfera é, na realidade, o futuro que começou ontem ( eu ainda estou a correr atrás do combóio, mas já com um enorme sorriso...). Na verdade, esta rede de cabeças que exigem continuar a apensar por si, representa a maravilha do nosso tempo. Um dia, estaremos todos ligados, não como no "Big Brother", mas a postos, para discutir ideias e sistemas para a sua execução ; estaremos capacitados para, finalmente, decidir um poder de gente sábia, em primeiro lugar, honesta, no mesmo plano, competente, logo a seguir, preocupada com os outros, antes de tudo.
Que me desculpem os meus pouco leitores estes desabafos.
Vêm eles a propósito de dois comentários que o meu post sobre o Debate entre SL e JS mereceram: o primeiro da DespenteadaMental, a quem cumprimento, tirando o chapéu, a imitar o gesto elegante do meu avô, que se recusava sair sem o dito, porque "não podia andar na rua à estudante".
Fui olhar o seu blog. Vou incluí-lo na minha lista de preferidos, porque não quero roubar aos que me visitam o prazer de a conhecer. E agradeço-lhe a rectificação. Ainda bem que José Sócrates disse que aquela entrada maciça de funcionários públicos, durante os governos de António Guterres, tinha o objectivo de rectificar situações irregulares de gente que trabalhava há anos par a FC a recibos verdes.
Foi pena, todavia, que não tivesse responsabilizado a "era cavaquista". Porque foram os "cavaquistas"os responsáveis pela deterioração da Administração Pública. Foi Cavaco Silva que fez todos os jogos para, no final de cada legislatura, ter o eleitorado na mão. Foi a sua gente que enriqueceu de forma escandalosa. Em notícia largamente documentada do "Expresso" de um ano e de um mês que não recordo ( e já não tenho paciência para pesquisar) foi apresentado o enriquecimento extraordinário de Manuel Dias Loureiro ( o tal que telefonou ao pai a dizer que já era ministro) e que, pouco tempo depois de chegar ao poder, tinha acumulado um património em Lisboa, de mais de um milhão de contos, tendo como base uma herança sem quantificação precisa, tão pequena era ela.
E ele não é caso único dessa década negra da história recente do nosso país.
E já que Santana Lopes e "sus muchachos" não param de falar dos seis anos de governação guterrista, era saudável lembrar aos portugueses os dez anos de cavaquismo.
DespenteadaMental, muito obrigado por me permitir este desabafo.
Quanto a LS, do Abnegado: também lhe agradeço a generosidade da partilha das suas ideias, dos seus textos. Já faz parte da minha rotina diária, uma visita ao seu blog.
Não deixa de ser curioso que ao ouvir Carlos Magno na Dois me tenha ocorrido a ideia: "ora aqui está um homem que só não é o Luís Delgado porque não teve a coragem de se assumir como um verdadeiro "carraceiro" do poder - é verdade que o o outro, o verdadeiro Luís Delgado, teve e tem, um patrão, o JLM, e o Carlos Magno anda sempre à procura de alguém".
Tem razão, LS, o carlos Magno faz lembrar um palhaço a quem o nariz "bola vermelha" não se ajusta, porque já tem uma séria dificuldade em confrontar-se consigo mesmo.
Mas, infelizmente, não é o único