sexta-feira, fevereiro 04, 2005

O Debate

Enfim... lá se encontraram aqueles que, no dizer dos jornalistas de serviço, são os únicos com possibilidadedes de chegar a primeiro-ministro de Portugal. Santana Lopes e José Sócrates enfrentaram-se num modelo de debate "à americana". Isto é: uma espécie de tribunal com um júri a que só faltam as cabeleiras empoadas, com semáforos a cronometrar as ideias de cada um.
No final, nada de novo: Sócrates mais firme e Santana, cuja gripe lhe deu tempo para decorar uns números e tomar conhecimento de uns dossiês, a fugir às responsabilidades do passado e a pedir que o deixem continuar.
Venha lá o dia 20 porque já estou cansado.
PS - foi pena que o engº. Sócrates não se tivesse lembrado que as entradas de trabalhadores na Administração Pública nos governos do engº. Guterres serviram para regularizar a situação de milhares e milhares de trabalhadores que trabalhavam na função pública há anos a recibos verdes - uma situação que era da responsabilidade dos dez anos de governação cavaquista. Que diabo ! já que Santana Lopes continua a falar do passado... era só ir um pouco mais atrás!

Televisão Pública Pedinte

Dentro de minutos vai começar o debate entre Santana Lopes e José Sócrates. A realização deste acto político, sobre o qual há grandes expectativas, vai ser realizado num estúdio alugado à empresa privada Valentim de Carvalho.
A Televisão pública já não tem estúdios onde possa realizar um debate político entre os líderes dos dois maiores partidos políticos.
Estes são os resultados das políticas desenvolvidas pelo ministro Morais Sarmento (ver mais atrás, neste blog, a série de posts sobre Televisão).
A Televisão pública já não tem estúdios e, dentro de pouco tempo, não terá ninguém que saiba fazer televisão, já que a sua administração está a pressionar a saída de quadros da empresa com a promessa de contrapartidas espantosas a quem ceder.
Se um dia destes, o Presidente da República, numa qualquer situação de emergência, quiser fazer uma comunicação ao país via televisão, vai ter que perguntar à Telefónica espanhola se tem um carro de exteriores disponível.
Parabéns, ministro M. Sarmento.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

O Mapa de Bush

Para ser franco comigo e convosco, não acredito na possibilidade de Bush perceber que as suas palavras vão denunciando o mapa desenhado na cabeça dos ideólogos-escribas dos seus discursos
No último - sobre "o estado da Nação"- , além de garantir o costume, pediu dinheiro aos compatriotas - não a todos, mas aos que necessitam dos programas estatais de assistência social. Aos ricos, promete descidas de impostos. Mas... isso é com os americanos. Eles que votaram neles, que se entendam.
A outra, a questão do mapa, também é deles porque é lá que o dinheiro vai ser gasto, mas diz respeito a todos nós.
Vamos a ele, ao mapa:
No tal discurso ameaçou a Síria e o Irão, velhos membros do proclamado "eixo do mal". Não apenas ameaçou, prometeu ajuda aos "freedomfighters", sobretudo do Irão.
Olhe-se para um mapa e repare-se nas ligações fronteiriças: Síria, Iraque, Irão, Afeganistão, Paquistão...CHINA. Recordem-se as relações dos EUA com todos estes países.
Volte-se atrás e revejam-se as preocupações de Washington com a Turquia e, já agora, a importância das bases militares ali instaladas.
Tanta preocupação com os outros, com a liberdade dos outros, com os tiranos de outras paragens, não conduzem a uma única palavra sobre o que acontece, por exemplo, na Birmânia ou mesmo no Zimbabwé.
Um dia destes, com mais alguns sorrisos, e temos Bush a integrar a India no grupo dos países do "eixo do mal".
Os ideólogos de Washington andam a desenhar um mapa perigoso no sorriso idiota de Bush.
Espero que, ao contrário dos americanos, o resto do Mundo saiba ler nos lábios do texano fanático.

Fórmula 1 e Patrocínios

Se se trata de um crime passional, de um acidente, de uma suspeita de pedofilia, de um escândalo financeiro, da doença papal, de coisas assim, a comunicação social monta acampamento, fomenta o mercado da venda de cachorros quentes e cerveja. E se o escândalo ou a desgraça demora o tempo suficiente juntam-se aos vendedores de DVD's piratas os de chupetas para bébés.
Notícia é assim mesmo: complicada, a cheirar a sangue e lágrimas. As coisas simples ficam para adivinhar.
Por exemplo, hoje foi notícia em todo o lado: Tiago Monteiro vai correr na Fórmula 1 . Toda a comunicação salienta as qualidades do piloto - de que não duvido - para justificar a inclusão de um quatro português no chamado "circo da fórmula 1".
Há um jornal que, citando a porta-voz do piloto, refere que o contrato foi assinado, depois de resolvidas todas as questões com os patrocinadores em Portugal.
Ninguém fala do patrocinador que permitiu a Tiago Monteiro esta nova aventura na sua vida - oxalá lhe corra muito bem. E ninguém fala por duas razões: 1 - acham que seria publicidade gratuita; 2 - teriam que revelar os montantes do patrocínio.
E se o patrocinador é uma empresa de capitais públicos ? Vamos voltar ao caso de Pedro Lamy, patrocinado pela Portugal Telecom, então empresa pública, e que nunca chegou a revelar o preço de tal patrocínio, sujeitando-se à "verdade" dos boatos e dos rumores?
A informação correcta sobre esta participação de Tiago Monteiro nas corridas de automóveis revelará ainda uma outra circunstância desagradável: é que o piloto paga para correr. Os patrocínios são entregues aos construtores. Sem esse dinheiro não há "mais uma volta, mais uma corrida".
Na fórmula 1 é assim. Muito poucos são pagos para correr.

FUTEBOL E CULTURA

O principal da cultura são as coisas simples. As que fazem o dia-a-dia: a língua, o amar, os paladares, a música, o desporto e assim. Claro que a erudição também é cultura, tem até um patamar especial. Mas, por exemplo, o "Fátima, fado e futebol" diz mais dum povo de analfabetismo elevado, como o português, que referências à ilustração das suas elites.
É acto de cultura, portanto, falar do futebol português, de suas indignidades e inocências, negociatas e altruismos, lhanezas e caciquismos. E mais de cultura ainda pelas evidentes semelhanças com a acção dos agentes políticos quando exercem o poder, pela desvergonha destes quando se metem pelo futebol adentro na caça ao voto e pela cobardia que demonstram quando têm de se assumir em casos de dignificação da modalidade.
No futebol vê-se muito de Portugal e dos portugueses.
Atrevimento Jornalístico
Comparando "A Bola" com uma sociedade anónima de evidente simpatia da publicação, Vitor Serpa, que foi, para quem esqueceu ou não sabe, um modesto jornalista desportivo e hoje é o director, escreveu, como bom juiz em causa própria, em editorial:
"A dois dias de completar 60 anos, A Bola continua a ser um jornal de causas e um jornal místico. E isso só se tornou possível num jornal onde o mais importante ainda são as pessoas."
Grande ousadia, de facto!
Tirando o sinónimo de graça sobre-humana, a palavra mística, aplicada à folha de futebolês, só pode significar "fanatismo" ou "adesão entusiástica a grandes valores, a princípios ideiais".
Ora, só do titular e da paginação de "A Bola" se lhe vê a "grandeza" dos princípios. Se é para favorecimento de determinada sociedade anónima em detrimento de outras, o grande princípio é o fanatismo; se favorece para conseguir maiores vendas, logo maiores lucros, o grande princípio é conseguir dinheiro à custa do antijornalismo...
Aliás, "A Bola", de Vitor Serpa, pouco tem a ver com o "jornal de todos os desportos" que foi dirigido por Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis. Até fica mal a Vitor Serpa entrar por comparações desse tipo. E fica pior reclamar para um jornal a mística de um clube de futebol. É que o jornalismo tem dignidade própria, por sinal bem difícil de cumprir. Não precisa de mística emprestada.
A pobreza do dirigismo
Polícias, prisões, inquéritos, tribunais e suspeitas a rodos caem hoje sobre quem dirige os negócios dos futebóis como se um deus furioso se resolvesse a entornar enxofre sobre uma Sodoma desportiva. E não sabe da missa a metade!
Porquê?
Porque o dirigismo desportivo foi inundado por gente de passado duvidoso, por caciques consagrados e por analfabetos de ignorância atestada sempre que exprimem um pensamento. Pacóvios à procura de lugar na sociedade que julgam merecer por mérito das contas bancárias, como é típico nos chamados provincianos. Ou seja, não por serem da província, como a maioria da população, mas por limitação própria.
Por outro lado, para o ambicioso comum que se serve do futebol como trrampolim, vale tudo. Desde o lícito ao ilícito. De onde o caos desportivo, social, cultural a que se chegou - na esperança que polícia e tribunais consigam a dignificação necessária.
O problema da arbitragem
O árbitro, este árbitro que há, é uma consequência do ambiente degradado em que se enterrou o futebol. E que não se venha com o argumento de que os árbitros também erram na Inglaterra, na Escócia, em Espanha e assim. Erram sim senhor, e volta não volta bem se vê. Só que o problema não é de erro mas de percentagem. Além de que há erros e erros. Há o erro casual, há o erro por ignorância, há o erro grosseiro, e há o erro científico: o erro exacto na hora certa, o erro de preparação da "estocada" final, o erro para disfarçar e o erro praticado cientificamente num outro desafio, a quilómetros de distância, mas que também conta para a soma de pontos do campeonato.
Tudo isso é uma questão já com anos. E, por junto, entre berros e acusações, apuraram-se os casos Calheiros, Guímaro e poucos mais. Tudo de acordo com a vontade de não os encontrar.
Mudaram-se os tempos. A ver vamos se se mudaram as vontades.

Parabéns, Abnegado

Esta penosa queda é um texto que dignifica a blogoesfera pela intensidade que se desprende do encadeado de sentimentos que o seu autor consegue transmitir a quem o lê. Uma intensidade proibida na chamada imprensa livre. Parabéns ao Abnegado.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Misoginia Dominante II

Lembrando o que escrevi a 13 de Janeiro deste ano, não posso deixar de aconselhar Este texto .
Entendo que passa pela solução desta contradição própria de bárbaros a solução de alguns dos principais problemas da nossa sociedade. Sem que isso implique que os homens sejam menos homens ou as mulheres menos mulheres no seus papéis específicos. Pelo contrário.

Quem controla o que Se Come?

A medicina deu passos espantosos nos últimos anos. O país, independentemente de todas as dicussões políticas em torno da saúde e do assalto dos poderes financeiros à sua exploração, construiu um sistema de saúde com alternativas que a cada ano se valorizam e prestam melhores serviços à população.

Por isso se entende mal que as notícias nos apresentem as crianças e os adolescentes como estando em progressão na contagem dos doentes cancerígenos.

O cancro nunca foi entendida como uma epidemia da Humanidade porque, em regra, apenas atingia as pessoas que já tinham ultrapassado a idade da reprodução. Não parece que essa regra esteja a ser observada com o mesmo ávontade de há alguns anos.

Será legítimo desconfiar da alimentação, dos produtos sem controlo que cada um de nós compra para nossa casa?

Um dia destes abri uma embalagem de um produto alimentar que, no rótulo escrito em português, assegurava ser um produto importado da União Europeia. Todavia, o texto em alemão, garantia ser um produto importado da China. Em que ficamos?

Os alemães importam produtos em que não confiam e depois exportam-nos para países onde não há controlo efectivo dos produtos postos à venda? Portugal é um desses países?

domingo, janeiro 30, 2005

Leituras de Fim de Semana - Sábado

Por uma vez. Procuro outras leituras. Passo na Tabacaria e " As Aventuras do Miguel" levaram-me à compra. A leitura foi uma surpresa: "MEC na Sábado". Um membro da direcção diz que Miguel Esteves Cardoso é um génio do jornalismo português. Génio ? do jornalismo português ?
Até acredito que o MEC tenha carteira profissional, mas, apesar de todo o respeito que tenho por ele e pelas suas crónicas, penso que nunca tenha ido à procura de uma notícia, de uma reportagem. Entrevistas? sim, algumas. E uma delas é publicada nesta edição de "Sábado"- feita a Francisco Louçã.
Eu não a apresentaria como exemplo de entrevista. É mais um exercício literário, esteticamente perfeito, mas duvidoso do ponto de vista ético, sobretudo porque, logo a seguir, diminui o seu entrevistado numa crónica completamente reprovável, embora de bom estilo.
De resto, não é apenas MEC que trata mal Louçã. A direcção da revista ataca o Bloco de Esquerda, retirando do contexto frases do seu dirigente para, com uma forma verdadeiramente infantil, ingénua, "assustar" a classe média com o fantasma da "ruptura com o capitalismo" e as alterações ao "modelo de sociedade".
Lendo esta espécie de editorial percebe-se o fascínio da Direcção pela presença de MEC.
A leitura da entrevista do Ferreira Fernandes ao Miguel Sousa Tavares compensa. Ainda bem que nenhnum deles é apresentado como génio. Acredito mesmo que, continuando a escrever tão limpo como escreve na sua coluna de opinião, na última página da Revista, Ferreira Fernandes venha a ter algumas dificuldades em conviver com tanto génio.

As Novidades da Lusomundo

O Expresso publicou "A NOTÍCIA": Luís Delgado é candidato à compra da Lusomundo, na sua condição de colaborador da empresa. Ora aqui está uma verdadeira novidade - que se soube mesmo antes de Luís Delgado ter sido imposto por Morais Sarmento ao BES e à Comissão Executiva da PT como presidente do grupo de Media.

Esta novidade já está escrita num post deste blog do dia 1 de Dezembro de 2004 e em alguns outros, a seguir. Donde virá o dinheiro a Luís Delgado para a operação? O Expresso não será capaz de descobrir?

E a Bolsa de Valores de Lisboa será capaz de encontrar nesta operação de lançamento de MBO uma actuação concertada dentro da estrutura decisora do resultado final?

E a Comissão Executiva da PT vai continuar a deixar-se pressionar?

E os accionistas da PT? Que podem fazer eles?

Leitura de Fim de Semana - Público

Helena Matos assina na edição de Sábado um texto notável, lembrando o essencial e o acessório da política, nomeadamente nesta fase de campanha eleitoral, em que os principais dirigentes dos partidos políticos portugueses se afadigam a falar de coisa nenhuma, deixando para trás o tanto (importante) que existe para tratar acerca da vida da nossa sociedade, organizada no mais antigo estado da Europa.
O mais antigo e, seguramente, aquele que reproduziu a sua Nação por mais Mundo, espalhando gente pelas sete partidas.
No seu texto, "A Natureza do Mal", a cronista clama contra a tentativa de os "líderes independentistas" espanhóis procurarem "obter em Portugal o reconhecimento tácito do seu estatudo de chefes de Estado".
Lamenta que Santa Lopes, na última reunião cimeira luso-espanhola tenha permitido ser tratado ao nível dos presidentes das comunidades autónomas de Espanha e que, nem ele, nem Sócrates se pronunciem sobre o que Josep Carol Rovira, líder da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) veio dizer a Portugal sobre o nosso próprio Estado: que devemos preparar-nos para um futuro de mera região ibérica, no quadro de um" Estado multipolar".
A indignação de Helena Matos tem toda a razão: os principais dirigentes deste país - principais porque disputam a possibilidade de nos governar - esquecem-se, perigosamente, de que a política tem a ver com a boa governação dos povos e não com interrogações ao espelho ou à fita métrica.
Ao sr. Rovira terá que haver alguém a lembrar que Portugal não é apenas o mais antigo Estado da Europa, mas aquele que fez sair o velho continente do seu confinamento miserabilista e doentio. Alguém que diga, com voz grossa, que na Península Ibérica existem e vão continuar a existir, pelo menos, dois Estados. Não nos misturem na confusão e nos erros dos espanhóis.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Os Resultados da Crise

A crise política portuguesa, que já se arrasta há demasiado tempo, está a ter consequências verdadeiramente surpreendentes. Em alguns casos, delirantes. Atente-se na repentina capacidade de unidade dos patrões - todos juntos para pressionar o poder político, que ainda não rstá definido, mas cujo retrato começa a ser pintado nas sondagens tornadas públicas e nas outras também.

É um verdadeiro desaforo porque aparecem em alturas de crise a apontar as pistolas, de rostos façanhudos, a exigir menos despesas sociais, menos estado, cada vez menos, mas não explicam onde meteram os resultados de trinta anos de trabalho com um taxa de produtividade que eles nunca especificam.

Estes mesmos patrões que aparecem a condicionar o poder político, a sair da vontade livremente expressa pelo povo, não explicam as falências fraudulentas, a má gestão das empresas, a pouca qualificação dos seus quadros e trabalhadores. Não explicam os seus altos níveis de vida, seus e dos seus gestores.

Não explicam, mas exigem. E fazem-no porque já dominam quase tudo.

Já é tão evidente o seu domínio sobre a Comunicação Social que uma das revistas deles apareceu com a ideia delirante de constituir "um governo de sonho" em que aparecem alguns nomes de gestores considerados grandes sumidades.

A Revista, que se chama Exame, só não fez uma coisa, as contas. Quanto custaria um Governo daqueles?

O Estado teria dinheiro para lhes pagar?

Até porque alguns deles começariam por estabelecer percentagens comissionistas sobre todo os negócios em que participassem.

A Surpresa do Apoio de Freitas do Amaral

Este país parece não ter memória. Freitas do Amaral escreve um texto numa revista nacional a apoiar (mais do que apoiar, a pedir) uma maioria absoluta para o PS nas próximas eleições legislativas e toda a gente faz um ar espantado. Paulo Portas, inclusivé, diz que aquele não é o Freitas que ele conheceu.
Portas ainda andava de calções - ou bibe? - e já Freitas do Amaral fazia alianças com o PS. Esqueceram o governo PS/CDS, com Salgado Zenha a dar a cara para defender a iniciativa, classificando o CDS como partido do centro-esquerda?
Além disso, o próprio Diogo Freitas do Amaral, num daqueles programas televisivos para recordar os primeiros anos pós 25 de Abril, disse -não mandou ninguém dizer por ele - que Mário Soares o tinha incentivado a formar o CDS.
É evidente que a estratégia, nessa altura, era do secretário geral do PS: queria dividir a direita.
Mais tarde, quando foi necessário indicar alguém para Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Mário Soares indicou quem ? Diogo Freitas do Amaral.
Mais história: o PSD de Cavaco Silva não pagou a parte das contas que lhe cabia da campanha para a Presidência da República em que Freitas defrontou Soares. E ele assumiu o compromisso de as liquidar pessoalmente, com os proventos obtidos através dos seus pareceres jurídicos.
Mais ainda? Depois da vitória da AD, com Sá Carneiro, o PPM e a ASDI, o CDS ficou reduzido a um partido de taxi. E porquê? porque Pinto Balsemão, na sequência da morte de Sá Carneiro, não chegando a ser igual a Santana Lopes, andou lá perto.
Além da história, há a consciência cívica de Freitas do Amaral. Só os cidadãos sem consciência cívia hipotecam o seu voto a um cartão de partido, como se de um clube de futebol se tratatasse, assim como aquele que conta em público que no dia seguinte a ter nascido era sócio do Sporting.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Engano dos Números

Quando chegou ao poder em Lisboa, o ex-presidente da Figueira da Foz teve uma única preocupação: esconder os números, mistificá-los, para, desse modo criar, à semelhança do que fez na cidade de onde viajou para várias voltas ao Mundo, de automóvel, um oásis que levasse os portugueses a dar-lhe um mandato de, pelo menos, dez anos.
Par esse desiderato encontrou o parceiro ideal: António Bagão Felix, que já tinha enganado o pessoal na Segurança Social.
E assim, os dois, de mãos dadas, foram apresentando números cada vez mais optimistas, até que... afinal a receita fiscal não só não subiu 4,5 por cento, como até desceu 0,5 por cento.
É um hábito português: enganamo-nos uns aos outros com os números e com as percentagens. Somos peritos em manobrar percentagens. Mas não só.
Atentemos nas facturações de Dezembro das grandes empresas prestadoras de serviços. Os enganos que acontecem, sempre no sentido de aumentar os valores que lhes permitam apresentar melhores resultados do que os que realmente têm.
Mas não só: há empresas que param os pagamentos aos fornecedores a partir de Setembro. Para quê? Para apresentarem, com as necessárias engenharias financeiras, grandes resultados no final do ano. Os tais resultados que justificam os altos prémios de desempenho no cumprimento de objectivos.
Não é apenas no Estado, portanto. Também as grandes empresas mistificam os números. E estas com um objectivo provavelmente fraudulento.
E, se no Estado há a possibilidade de um novo governo pôr tudo a claro e iniciar uma nova vida, nas empresas ninguém arrisca, porque desmontar as engenharias financeiras de anos e anos pode significar o descalabro.
Foi este país e esta gente que nos coube em sorte. Que havemos de fazer?
PS. tenho recebido alguns e-mails que me interrogam sobre a razão por que trato o actual primeiro-ministro por ex-presidente da Figueira da Foz. Eu explico: é que foi a única coisa que ele fez na vida. E mesmo assim mal. Não chegou ao fim de nenhum outro mandato ou de qualquer outra tarefa.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

A Blogoesfera

Leio os jornais, ouço as rádios, vejos as televisões e volto ao computador, para a blogoesfera, onde encontro informação clara, comentários esclarecidos, poetas inspirados, fotógrafos com objectivas limpas.
E isto lembra-me a rede clandestina de cultura e informação que se desenvolveu na antiga União Soviética, à margem do poder instituído e que, aos poucos, foi impondo a exigência de uma informação que retratasse o mais possível aquela realidade e a do resto do Mundo.
A União Soviética começou a desmoronar-se quando atirou a informação do estrangeiro para os envelopes fechados dos correspondentes da TASS e a realidade nacional para as catacumbas dos intelectuais proscritos.
A comparação ainda está longe mas já ocorre, quando se leêm os nossos jornais, se ouvem as nossas rádios e se veêm as nossas televisões Eles retratam um regime tão fechado à volta de interesses de minorias tão parasitas como as do aparelho de poder da União Soviética.
A diferença, para além das dimensões, está, sobretudo, na aparência. Para quem não frequenta a blogoesfera, a comunicação oficial, de papel passado, parece livre e democrática. E colorida!

O PORTUGAL DA POLÍTICA

De modo geral toda a actualidade política é feita de coisas velhas. E loisas também. Realidades velhas, ideias velhas, métodos velhos e políticos velhíssimos: até os novos, envelhecidos que são pelos vícios em que mergulham ao iniciar funções. Vícios institucionalizados.
Posto isto falemos de modernas velharias portuguesas.
O bafo duma onça chamada George
O poder é tão poderoso que até manda da distância. Realidade a caminho da eternização. Basta existir para ser obedecido. Até por adivinhação do seu pensamento.
Perceba-se agora a razão profunda da escolha de Durão Barroso para a presidência da União Europeia. Ou, o que é o mesmo, perceba-se a utilidade de ter servido café a Bush. O célebre café dos Açores, tão gozado na Europa mas que se tornou decisivo na preferência, ao fim de quatro tentativas, dada a um pardilho (sinónimo de pardacento, que politicamenmte era, e de cherne, como se soube por uxoriano anúncio público) lusitano.
Pardilho esse que foi, em consequência, juntamente com armamentistas, petrolíferas e assim, um dos raros e felizes contemplados com a desgraça do Iraque. Um tsunami que já vai em mais de 100.000 mortos, já se prolongou por mais de um ano e já se anuncia sem paz à vista, mas sorte grande para quem conseguiu um vencimento patriótico.
Ora, para tanta felicidade de Durão, bastou o bafo que talvez a onça não tenha dado. Mera suspeição dos seus capangas da U.E. .
La Fontaine, se fosse vivo, poderia construir, a partir daqui, a fábula do bafo adivinhado.

O PORTUGAL DA POLÍTICA

A Tragédia de Santana
E lá seguiu sacrificado ao interesse da pátria, o ex-esquerdista transmutado em neoconservador, oferecendo um país em crise ao seu ex-adversário, transmutado em companheiro neoliberal, Santana Lopes. Que, inocente, delirou com o presente envenenado.
Mas com muito veneno. Encapotado um, descarado outro, de dentro do partido, de fora dele, de membros da coligação, de adversários da mesma, enfim, comunistas, socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos, de todos os lados largaram vespas a ferrar em Santana. Exposto numa cruz de Santo André.
Contudo, as maiores ferroadas, pelo menos para magoar mais, partiram de pardos como Durão, de políticos que mudaram de valores. E mudaram porque para se calcorrearem os pedregosos atalhos que separam Mao ou Lenine de um Bush é fundamental, antes de mais, mudá-los. Vender a alma ao Diabo.
E é, pelo menos, de estranhar tanta agressividade partida de quem defendeu as atitudes de Bush, de quem lhe aceitou a insolência, de quem lhe perdoou as agressões aos direitos humanos, de quem lhe compreendeu as mentiras, de quem alinhou com as suas agressões ao direito internacional, de quem inventou justificações para as suas ambições político-imperiais, de quem o absolveu, e absolve, da sua pobreza mental.
De estranhar porque Santana Lopes é muito mais democrata que Bush, muito mais humano que Bush e, fundamentalmente, muito mais civilizado que Bush. Em verdade, e resumindo, muito mais pessoa.

O PORTUGAL DA POLÍTICA

A Razão de Sampaio, no entanto

Ora, mesmo precisamente por Bush ser, como pessoa, tão pouco é que o ser, comparativamente, mais que ele não basta para credenciar politicamente alguém.

Sampaio tinha mesmo que demitir Santana.

Encheu o seu mandato de vacilações. O que suportou a Rocha Vieira e, principalmente, a Alberto Jardim, ultrapassou até os limites do aceitável. Não tem margem para se repetir.

Faltava-lhe espaço, até moral, para deixar a inabilidade política (populismo não quer dizer talento) e escassez de conhecimentos de Santana Lopes, aliada à farfalhice de Paulo Portas, à rédea solta durante os últimos meses de presidência.

Ninguém é capaz de fazer ideia exacta do que aconteceria no país com a dupla Santana/Portas a governar dominando a A.R. e sem a tutela do P.R.. A balbúrdia dos escassos meses que levam do exercício do poder não auguram nenhum sossego.

E um país não é propriamente um parque de recreio. Para além de que um populista despassarado como Santana, no exercício das funções de primeiro-ministro, corresponde à imagem do homem errado no lugar errado. Da bagunça no poder.

Até já mostrou que sim!

segunda-feira, janeiro 24, 2005

A Destruição do Audiovisual

Já aqui foi dito que uma das razões por que a Televisão Portuguesa continua com uma qualidade impossível de comparar com qualquer outra europeia tem a ver com a destruição do audiovisual português. É que o ministro Morais Sarmento, enquanto retirava capacidade de produção à RTP, a verdadeira escola nacional de Televisão, entregava a produção televisiva a grandes grupos internacionais .
Quem são eles?
Grupo Telefónica (espanhol), onde estão incluídas as empresas Endemol, Gestmusic, Sonotech, United Broadcast, Telefónica e outras pequenas empresas-satélite, constituídas especificamente para a concretização de determinados contactos ou projectos.
A GesteMusic, por exemplo, só se radicou em Portugal para produzir e realizar a "Operação Triunfo", tendo abandonado o país quase tão vertiginosamente como se implantou.
Entre outros conteúdos, o Grupo Telefónica é responsável por grande parte dos Reality-Shows (Big Brother, Big Brother dos Famosos, Quinta das Celebridades), concursos (Quem Quer Ser Milionário, o Elo Mais Fraco...), Academia das Estrelas (Operação Triunfo), grandes séries, gravação de concertos, algumas transmissões desportivas, etc.
Grupo Media Luso (espanhol) - Apenas duas ou três grandes empresas constituem este grupo, a Media Lusa, Media Burst e a Media Pro, que detêm, quase em exclusivo, todo o mercado das transmissões desportivas nacionais, nomeadamente, o futebol.
A entrada deste grupo em Portugal está, de resto, rodeada de alguns aspectos menos claros, no que respeita aos meios técnicos utilizados e ao pessoal contratado.
Grupo NBP (Colombiano) - A actual NBP pouco ou nada tem a ver com a empresa produtora inicialmente constituída e hoje há alguma dificuldade em determinar, com exactidão, a nacionalidade dos capitais envolvidos, nomeadamente porque não é possível saber o destino que teve o Grupo Bavaria e os fundos ingleses e americanos, inicialmente envolvidos na Media Capital e na TVI.
Após alguns anos de graves dificuldades económicas, a NBP lidera, hoje, em Portugal, a produção de Telenovelas. Continua a produzir, quase em exclusivo, para o mercado nacional por não ter motivado qualquer interesse significativo no mercado externo. Apesar disso, a NBP parece póspera e com grandes projectos para o futuro.
Fremantle - Trata-se de um grande grupo internacional com um representante em Portugal e que faz aprovar, sempre que se proporciona, programas de entretimento, testados e rodados no mercado externo. A produção e os meios técnicos ficam a cargo de uma das empresas nacionais ou estrangeiras, especializadas neste tipo de serviço.
A Portugal Telecom - É um caso único no panorama Audiovisual Europeu.
O Grupo PT tem, na prática, a propriedade efectiva e o controlo da infraestrutura de distribuição do sinal de Cabo.
Tem o quase monopólio da distribuição desse sinal através de um conjunto de empresas que cobrem quase todo o espaço nacional e, na prática, desvirtua os princípios básicos das leis do mercado.
Controla, ainda, os conteúdos transmitidos por via dos canais que selecciona para distribuição pública, não implementando alternativas técnicas que permitam aos assinantes do serviço escolher livremente o conjunto de canais que pretendem receber, dos mais de duzentos a que o grupo tem acesso.
Controla, directamente, os conteúdos de alguns dos canais que transmite e de que é o principal responsável editorial.
Controla a organização da própria oferta do cabo, o chamado" pacote básico", que altera sistematicamente e sem razão plausível, favorecendo alguns canais - escandalosamente todos os canais do grupo SIC - prejudicando outros, sobretudo a RTP e a TVI, retirando da grelha canais de interesse público - M6 - e substituindo-os por autênticas aberrações de interesse e gosto mais do que duvidoso (Vivir, televendas, etc).
Finalmente, controla o mercado publcitário dos canais do cabo, não generalistas, através de contratos de concessão a longo prazo, tudo na ausência de legislação que estabeleça regras, e com a conivência efectiva das entidades reguladoras, a Alta Autoridade para a Comunicação Social e a ANACOM.
Estamos, portanto, perante meia dúzia de grandes produtores ou grupos de produção que, globalmente, controlam a esmagadora maioria do volume de negócios da Televisão Portuguesa e, por esse meio, os próprios conteúdos produzidos.
A maioria das pequenas e médias empresas de produção nacional está à beira da falência, não tem mercado de programas que justifique o investimento e a actualização tecnológica, não dispõe de quadros especializados, não tem projectos nem perspectivas de poder vir a, num futuro próximo, realizar contratos que lhes permitam sobreviver.
Estão "entalados" entre os "grandes produtores" e as empresas de "vão de escada", cuja proliferação se acentuou a partir da entrega do canal 2 da RTp à chamada sociedade civil.
Ao contrário do que se passa no resto da Europa, em que se priveligia a constituição de pequenas e médias empresas, altamente especializadas, a concentração que se verifica em Portugal tem impedido o desenvolvimento tecnológico da grande maioria das empresas, a especialização dos seus quadros técnicos, actualização dos meios e sistemas de produção, enfim a prossecução de um projecto industrial, cultural e de produção autónomo, nacional e participado.
É por isso que hoje não se produz ou realiza, em Portugal, qualquer projecto televisivo inovador, não se conquista uma única parecela de mercado internacional, não se exporta um programa, não se vende uma ideia ou conceito, não se participa em nenhuma grande produção.
Nenhum projecto televisivo dura mais do que uma época (grelha de Verão ou de Inverno), os contratos de produção nunca excedem os seis meses de duração, não há projectos a médio ou longo prazo, as empresas não possuem especializações, não têm capacidade de rentabilização dos meios técnicos e humanos envolvidos, vivem sistematicamente à beira do colapso económico e financeiro.
A maior parte das empresas desconhce as regras de funcionamento do sistema, acreditam que o modelo implantado em Portugal é comum aos restantes países europeus, não desenvolvem parcerias internacionais, não têm capacidade financeira para participar de feiras, exposições e inovações que o normal desenvolvimento do sector impõe, estão completamenmte alheadas do que realmente se produz na Europa, estão quase tão isoladas, em termos internacionais, como durante o anterior regime.
Sr. Ministro M. Sarmento, espero que ainda esteja aí, para lhe explicar que o o sr. não foi um minisitro esforçado, inovador ou porra nenhuma. O sr. condenou um sector importante da vida portuguesa à estagnação. O senhor é responsável por uma grande fatia do desemprego que nos assola. O senhor nunca devia ter sido ministro de coisa alguma.
Teria muito mais a dizer-lhe, mas sabe: tenho um blog e a maioria dos meus leitores já está um bocado cansado desta matéria. Ficamos por aqui, mas não apareça em campanha a fazer do grande homem que salvou a televisão do caos e não sei de que mais!

A Desregulamentação da Televisão em Portugal

O sr. ministro Morais Sarmento devia, de facto, ter feito algum esforço e recorrido a uns acessores criativos para perceber onde estaria a importância do seu papel como entidade tuteladora da Televisão.
Devia, por exemplo, ter obrigado os vários operadores do ramo a cumprir um conjunto de disposições que já se encontram regulamentadas.
Todos eles deviam ser obrigados a cumprir, integralmente, o Contrato Programa que assinaram com o Estado Português e que legaliza as respectivas autorizações de emissão e distribuição de sinal.
Deviam, igualmente, respeitar os diplomas e regulamentos em vigor e que regem o sector Audiovisual, sob pena de lhes serem aplicadas coimas de valor suficientemente exemplar, já que não tem significado a aplicação de uma coima de valor inferior ao lucro que a contravenção proporciona.
Em simultâneo, devia ter estabelecido um novo quadro legal do sector, mais ajustado à realidade decorrente das evoluções tecnológicas recentes, que introduziram no mercado novos produtos: canais distribuídos por satélite e fibra óptica, canais privados e empresariais.
Quanto à Televisão Pública devia ter-se apoiado nas conclusões da comissão independente que convidou e depois desprezou para definir um modelo de televisão e, em seguida, criar uma estrutura técnica e uma direcção administrativa e de conteúdos, de informação e programas adaptadas ao modelo escolhido.
O que é que aconteceu com o sr. ministro M. Sarmento?
A RTP mudou de instalações próprias para umas instalações alugadas, sofreu uma "profunda reestruturação", cujos resultados ainda não são visíveis, mas que, pelo que se passa em sectores vitais da empresa, poderão ser os piores.
Mais alguma coisa, para além da continuada protecção aos canais de Pinto Balsemão, que, de resto, já vinha de trás?