terça-feira, janeiro 18, 2005

O País dos Primos

Não sei como, um dia destes, uma das televisões portuguesas abriu a antena para o Engº. Melancia, ex-governador de Macau, falar sobre a questão ingente das relações comerciais entre Portugal e a China. Isto, ao mesmo tempo que Jorge Sampaio, viajava para o Império do Oriente, acompanhado de uma comitiva recheada de empresários, e um sindicato, usando um porta-voz façanhudo, daqueles que ainda gritam "viva o marxismo-leninismo", responsabilizava, noutra televisão, o Presidente da República pela deslocalização de empresas do território nacional.
Ora aqui está matéria para uma semana de debate , mas entre gente interessada em analisar problemas e deixá-los, pelo menos, em equação e não entre cavalheiros dispostos a mostrar-se aos próximos patrões.
Queixou-se o engº. Melancia de que nunca se quis saber, em Portugal, das relações com China e do canal privilegiado que Macau representava para o seu desenvolvimento. Disse mais ainda: que nunca tinha sido perguntado pelo que quer que seja ácerca da China, ele, um conhecedor da realidade chinesa, um homem com uma experiência assente num quotidiano de grande exigência.
Ninguém ouviu o Engº Melancia, assim como ninguém ouviu outro dos muitos governadores de Macau. Em Portugal há sempre um primo, ou o amigo de um primo, ou da namorada do primo, ou a própria namorada - a pessoa ideal a quem perguntar, a quem dar um emprego bem remunerado - sobretudo se não tiver trabalho para fazer.
Sr. Engº Melancia: é um mal da nossa terra. Percebeu se alguma entidade com responsabilidades na gestão das relações de Portugal com África tivesse tido a preocupação de perguntar o que quer que fosse aos milhares de quadros - muitos deles altamente qualificados - que vieram das ex- colónias e aqui tiveram que se instalar.
O que é que se passou com esse "know-how"? Muito dele colocou-se ao serviço do estranheiro e o outro esqueceu o que sabia e habituou-se a ser primo. Os que ainda tinha idade fizeram-se de primos da namorada.
Qual é o conhecimento que Portugal tem hoje das realidades africanas? Muito pouco, porque, entretanto, as namoradas e os primos delas descobriram uns empregos simpáticos, que davam umas viagens aos trópicos, sobretudo no Inverno.
Com estas idiossincrasias não admira que os nossos empresários também não estejam muito interessados em gente com ideias lá nas suas empresas. Assim como assim, eles sabem um pouco de tudo e sempre se vão desenrascando. Mais subsídio, menos subsídio, sempre fogem à exigência dessa gente com ideias que quer alterar tudo e "acompanhar o Mundo... e essas coisas".
E, depois, o Presidente quando viaja sempre leva alguns deles e...sempre há uns programas livres: Por mais que o Presidente fale e explique, não entendem: foram convidados porque são pessoas importantes. Estudar os mercados ? Saber se é possível vender na China? Mas, então isso tem algum jeito? O Estado há-de dar. Se não for o Estado, sempre há Deus, e Braga, a cidade dos Arcebispos, onde se pode rezar a todos os santos.


domingo, janeiro 16, 2005

O Reformado

É espantoso! De repente, como se tivesse acontecido uma novidade, a comunicação social portuguesa fala do caso do Comandante da Polícia, desembargador reformado por uma Junta Médica. Aqui d'El Rei que o homem recebe mais de 5 mil Euros de Reforma e mais não sei quanto e não sei que mais.
E embrulham-se nesta análise meticulosa os mais insígnes jornalisas e não jornalistas da praça, ocupando preciosos espaços dos jornais, das revistas, das televisões, das rádios e, provavelmente, desviando as atenções dos chefes de família das suas mais pesadas responsabilidades para dizerem, pelo menos: ora, o malandro!
É isso, malandro. O sr. desembargador José Manuel Branquinho Lobo, chefe da polícia é uma malandro: primeiro, porque a doença dele não é de carácter psicológico. Ele bebe demais. E, por isso foi reformado. Não trabalha, não aparece no comando da polícia, basta ver o número de horas que a bandeira que assinala a sua presença no comando está hasteada.
O sr. desembargador delegou todas as suas competências num chefe de gabinete - que também é desembargador - e que também faz pouco e que também bebe demais. O comando da polícia trasnformou-se num coio de malandros.
Malandros de classe, porque recebem na messe da polícia toda a grã-finagem da alta sociedade portuguesa: Cavaco Silva, Dias Loureiro, Bagão Felix, etc, etc. - par almoçar e - alguns - charutar.
O resto, aquilo a que a nossa comunicação social resolveu, de repente, dar relevo, já foi falado - e muito - logo no dia da tomada de posse do comandante da PSP. E é legal - ele pode ser reformado e assumir aquelas funções, recebendo o que recebe.
A questão não é essa - a questão é saber se neste país não existe ninguém capaz de assumir aquele posto com alguma dignidade. Enfim, alguma, pelo menos... O problema já se punha quando o sr. desembargador Branquinho Lobo era inspector da Segurança Social. Ele é um santanocopófonico e, por isso, é comandante da PSP. Um dia ainda havemos todos de ter vergonha destas coisas.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

CTT - SALÁRIOS DOS AMIGOS

O que está a contecer nos CTT pode(?) ou deve(?) ser considerado crime público? A Procuradoria Geral da República tem que ser solicitada a intervir ou pode e deve fazê-lo por iniciativa própria, face a evidências públicas de gestão danosa de património público?
São muitas interrogações - mas são as que me assaltam face às informações que vão sendo confirmadas e segundo as quais, o actual conselho de administração dos CTT está a desbaratar, a esbanjar, a grande oportunidadade que teve para reforçar, nos últimos dois anos, um empresa de referência em Portugal e até na Europa.
Os CTT estão a receber do Estado entre 120 e 130 milhões de Euros por ano, graças à transferência do seu fundo de pensões para a Caixa Geral de Aposentações, feita por Manuel Ferreira Leite . Por essa transferência, os CTT deixaram de transferir aquelas quantias e, em contrapartida não tiveram, sequer que alienar património.
E o que faz o CA dos CTT com este presente caído do céu. A maior parte da sua actuação é pública: publicidade a rodos - o que permite ao seu presidente aparecer em constantes entrevistas nos jornais -, mudanças de imagem com custos exorbitantes e aumentos salariais extraordinários para os amigos, numa altura em que o país está quase negociar um lugar de pedinte na esquina de um maremoto.
Vejamos: quando este CA entrou em funções, as chamadas primeiras linhas da empresa auferiam mensalmente uma média de 5.000 Euros. Os que as ocupavam foram atirados para as prateleiras e foram substituídos por amigos dos novos "patrões", com vencimentos aumentados para mais de 6.000 Euros.
Em simultâneo foram sendo admitidos através de empresas privadas jovenss quadros, sem concursos, sem coisa nenhuma, apenas com o cartão do PSD ou com a simpatia do presidente.
No final deste ano, as actuais primeiras linhas foram aumentadas entre 33 por cento e 6 por cento. O nome mais falado deste aumento, até pela história da sua passagem pelos CTT e pela GALP é António José Cunha, que ganha agora, por mês, 8.746,10 Euros e está associado ao presidente nas grandes operações de marketing, publicidade e comunicação.
Da lista, apenas quatro dos directores foram aumentados entre 6 e 8 por cento. E são os que não amigos do presidente.
Mas há mais e pior: foram contratados no exterior 20 novos responsáveis, com contratos confidenciais, que não vão sequer aos Recusros Humanos da empresa e que contêm clausulas de indemnização substanciais, a prever já que uma próxima administração tenha que fazer umna limpeza da casa.
Ora aqui está um belíssimo objectivo de investigação para um dos inúmeros jornais económicos que existem em Portugal e que, na grande generalidade, ocupam o seu precioso espaço a falar dos baixos índices de produtividade dos trabalhadores portugueses. Esqueçam a publicidade e investiguem.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Procura-se Instabilidade

Em"Recursos Humanos", pag. 75 da Revista "Prémio", na sua edição de 24 de Dezembro de 2004 (belo dia para tal texto) está um resumo de algumas preciosas afirmações de alguns preciosos administradores executivos da nossa praça, produzidas durante um debate organizado pela preciosa "Portuguese American Post Graduate Society( PAPS).

O jornalista dá destaque a dois dos administradores presentes: Paulo Fernandes, da PT, e Rui Horta e Costa da EDP.

Já sabía que a família do barão se tinha multiplicado pela PT, a ponto de, supostamente, haver nos Recursos Humanos um departamento exclusivo da família Horta e Costa, se tinha estendido aos CTT, mas desconhecia que o baronato já tinha existência na EDP.

Mas, vamos às tais declarações:

Diz Paulo Fernandes, um ex-consultor de uma das empresas que foi dando papéis de reestruturação à PT: «No Grupo PT ainda existem muitos "gonçalvistas". Pessoas pouco ambiciosas e que foram educadas num clima de pós 25 de Abril em que o importante era manter o emprego, mesmo que a ganhar pouco».

A esta pérola, o barão da EDP acrescenta: «os trabalhadores têm de ter alguma coisa a perder. Saber punir é muito mais difícil que saber premiar. E os portugueses têm que se habituar a ser despedidos quando os objectivos não são cumpridos".

Ficamos agora a perceber porque é que algumas empresas em Portugal, em vez de directores de recursos humanos, têm "cangalheiros"...

Ficamos também a saber o que é que o patronato quer dizer com flexibilidade, que é, aliás, o título do tal texto "Procura-se flexibilidade". Qual flexibilidade?Instabilidade é que é, oh! senhor Nuno Abrantes Ferreira - o homem que assina o trabalhinho.

Trabalhinho imcompleto porque poderia ter perguntado áqueles preciosos administradores quanto ganham eles, quais os montante dos auto-prémios pelo cumprimento dos objectivos conseguido no esforço dos tais trabalhadores que devem" perder alguma coisa" e "habituar-se a ser despedidos".

E já agora, sr. Abrantes Ferreira - seja lá quem for - porque não lhes perguntou o que devem eles perder pelos gastos excessivos em mordomias - deles e dos colegas de administração , em despesas de representação, em viagens sumptuosas; pelos ganhos( para eles e para os amigos)conseguidos em negócios com os recursos das empresas que dizem administrar.

Por último, sr. Ferreira, deveria ter-lhes perguntado por que méritos especiais são eles administradores executivos das duas empresas ex-públicas mais importantes do país e que mantêm os preços dos seus produtos no mais alto nível da Europa.

E já agora, sr NAF, mude lá o título do próximo texto que escrever sobre a matéria - lute contra a porcaria do recibo verde que, de certeza, assina no final do mês para lhe pagarem uma porcaria de uma remuneracãozita.

PS. O Sr. Nuno Abrantes Ferreira poderia, inclusivé, no seu texto, e a propósito da PAPS, lembrar aos srs. administradores que os seus congéneres americanos assinam um termo de responsabilidade em que assumem, pessoalmente, as consequências dos seus actos ao serviço das respectivas empresas, incluindo actos de má gestão, prejuizos, etc. Por cá, as empresas apresentem os números que apresentarem os srs. administradores só têm direito aos prémios, que, de resto, vão "cobrando" ao longo do ano.

Misoginia Dominante

Na sua crónica do último domingo, Ana Sá Lopes , de quem sou leitor assíduo, fala da "misoginia dominante" na política nacional. E o que lá está está tudo certo. Todavia, também falta muita coisa. Suponho que a regra dos dois mil caracteres não a deixou ir mais longe.

É que a misoginia execrável que nos vai governando não existe apenas na política. Quantas mulheres existem nos conselhos de administração das grandes empresas, privadas semi-privadas, com golden shares estatais ? Quantas mulheres dirigem jornais, não especificamente femininos, em Portugal, apesar, de , como diz Ana Sá Lopes, as mulheres terem vencido as barreiras das redacções dos jornais?

Quantas mulheres saltaram nas redacções dos jornais em defesa de outras mulheres, nomeadamente políticas, sistematicamente perseguidas pela comunicação social por causa por das suas relações pessoais ? Mesmo nos casos em que a perseguição para além de um miserável sentimento misogino revelava outros, de natureza racista?
É que a misoginia não é uma atitude exclusiva dos homens. É uma condição cultural que também define as mulheres portuguesas e nos conduz a uma sociedade cada vez mais masculina, apesar de "elas" serem em maior número nas Faculdades, nas Empresas, na Administração Pública, etc. E não só mais - mais qualificadas.
As mulheres continuam a achar natural que elas próprias sejam criticadas e até excluídas porque, para além de competentes do ponto de vista técnico e mesmo político, têm os sentidos despertos, enquanto os homens continuam a ser medalhados - nem que seja pelo olhar extasiado de admiração - pela capacidade de derrubar saia atrás de saia, uma capacidade que pode constituir atributo exclusivo para chegar a primeiro-ministro.
São elas que conjugam o poder no masculino. São elas que aceitam as reuniões de horas e horas dos chamados homens importantes, dos poderosos, para quem o poder é uma dádiva divina - pertence-lhes por direito natural. Elas sabem que aquelas reuniões servem de pouco, representam apenas um dos rituais do poder masculino, que não têm outro tipo de preocupações.
Elas sabem que eles sabem que as questões familiares, com os filhos, com o canalizador, com o electricista, com as compras, as refeições, a atenção aos amigos, tudo, são resolvidas por elas.
Elas sabem que eles sabem que a família já não existe, mas eles continuam a fazer de conta (outro dos rituais masculinos...).
Elas sabem tudo isso. E a maior parte faz o quê? Aceita e imita os gestos, as atitudes, copia comportamentos. O resultado desta misoginia dominante será que um dia vamos ter uma sociedade culturalmente masculina, sem o conhecimento feminino da realidade e a consequente capacidade para resolver os problemas inerentes, uma sociedade apenas com os rituais masculinos, com feminilidades artificiais e com pouco sentido.
Enquanto existem esta capacidade e esta lógica de vida feminina é que deveriamos tentar a conjugação do poder no feminino. E nem lhes falta legitimidade, já que elas são o esteio da vida concreta.
Como é que se chega lá ? Não sei. Mas, a imitação não é, seguramente, o melhor caminho.

As Viagens

A viagem de Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe ( e não apenas S. Tomé como toda a comunicação social portuguesa repete) continua a fazer correr tinta. Ouvem-se as mais disparatadas observações. De resto, as viagens dos governantes sempre foram objecto da crítica de toda a gente - porque toda a gente gostaria de ir a alguns sítios onde eles (os governantes )vão ou foram. E não é só em Portugal. Todo o Mundo critica. Coitado do Presidente Lula no Brasil.
Aceite-se que esta viagem teve alguns exageros - ela mesma, pela oportunidade , pelo objecto, pelos gastos e pelas críticas que lhe foram feitas. Parecia um bando de mabecos a perseguir um deles, ferido numa pata...
Por isso, os jornais, as rádios e as trelevisões e as oposições, que agora andam tão atentas, estão a deixar passar uma outra viagem, essa sim uma verdadeira afronta.
Eu explico: a propósito dos 25 anos do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), o seu conselho directivo convida qualquer coisa como cerca de 12.000 (doze mil) pessoas para uma missa, um almoço e uma sessão solene em Coimbra, no próximo dia 29 de Janeiro.
O aniversário ocorreu a 29 de Dezembro e a direccção IEFP convida todos os colaboradores da instituição, que - supõe-se - deve estar a passar uma grave crise financeira, para uma viagem paga a eles e mais aos acompanhantes declarados até 18 de Janeiro.
Isto é que vai ser uma missa! As viagens estão asseguradas com partidas de todas as delegações regionais e da sede nacional, em Lisboa.
Coma falatde padres que há, ainda vamos ver algumas mulheres a rezar missa em Coimbra.

Direitos do Consumidor

Estrada fora, a ouvir a minha música, isto é, a música que eu escolhi, sem me sujeitar às encomendas das editoras, que continuam a matraquear os portugueses com a mais descarada música pimba anglosaxónica e, de repente - porque eu autorizei - entra-me uma estação de rádio no sistema audio do automóvel, para me dar informações de trânsito.

Tudo certo.

Apenas um senão: quando accionei o mecanismo do meu auto-rádio que me permite saber como vai o trânsito, não autorizei mais nada. Não quero saber quem patrocina a informação, que porcarias está a oferecer em troca de não seio o quê; e também não quero saber o que é que a emissora vai trasnmitir a seguir.

A todas as horas os meus direitos estão a ser agredidos, a minha privacidade, violada. E o que fazem as organizações que se dizem defensoras dos consumidores? Publicam revistas, onde é possível vislumbrar informação não completamente isenta, projectam a imagem dos seus líderes, instalam-se como verdadeiras instituições de exploração da credibilidade dos otários que somos todos nós- os consumidores.
Não quero ouvir publicidade no meu auto-rádio. Já desliguei. Ponto final

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Carlos Magno

Conhece toda a gente, entende todos, percebe as atitudes, recomenda roturas, faz citações eruditas - é ele, o Carlos Magno, em todo o seu esplendor.

Ouço-o colocar em dúvida a candidatura de M. Sarmento por (pergunta à bengala do outro lado...em Lisboa: por que círculo?...)

Isso mesmo, Castelo Branco. E fica satisfeito, porque, se por um lado, compreendeu a atitude do sr. ministro ("conhecendo-o como conheço, não esperaria outra coisa..."), por outro, lançou uma dúvida intrigante: será que vamos ter "o combate SarmentoXSócrates em Castelo Branco?".

É esta habilidade que faz do Carlos Magno o concorrente mais sério ao prémio "Rolha das últimas duas décadas". É nestas épocas de transição que todas as suas qualidades de "comentador político" se notam. Dá até para pensar que as botas de sete léguas estão com ele, tal é o desembaraço das suas viagens pelo mundo da crítica. Nunca a bengala jornalística do "por um lado...por outro lado..." se aplicou com tanta propriedade.
Lá vamos ter que o ouvir por mais uma década, pelo menos.

A Ópera do Malandro

O José Nuno Martins que nos tem servido, nos últimos tempos, alguns pedaços de boa Rádio, e que foi atirado para aquele horário de que ninguém gosta, lá vai reaparecer a horas cristãs para nos devolver alguma da alegria que anda arredia de Portugal, segundo um estudo da Reuters - que agora já não se dedica em exclusivo aos números da bolsa. (Está mau, isto dos negócios com números...)
Em bora hora José Nuno volta a um horário decente. Assim terá a oportunidade de explicar a um maior número de portugueses que o espectáculo a trazer a Portugal, chamado "A Ópera do Malandro" é uma das muitas obras primas do Chico Buarque e não uma revista do novíssimo Parque Mayer,escritaa partir das peripécias do ex-presidente da Figueira da Foz, a que se juntou mais um verdadeiro malandro, um ministro de confiança, ex-habitante de S.Tomé, ex-boxeur e que na perspectiva de ver o seu pedido de demissão aceite já tinha mandado fazer novos cartões de visita:
M. SARMENTO, ex-passageiro de Falcon
em viagem de 83.000 Euros

terça-feira, janeiro 11, 2005

Os´´Indices de criminalidade"

Durante anos o deputado Paulo Portas matraqueou os ouvidos do Parlamento e de toda a gente com o crescente índice de criminalidade. Os números saltavam-lhe da garganta como coelhos da cartola de qualquer mágico. Assustava: as senhoras apertavam as carteiras contra o peito, os homens entravam no Metro a apalpar o bolso das calças e toda a gente fechava bem as janelas de toda a casa antes de ir para a cama. Mas, no dia seguinte, lá gritava o então deputado Paulo Portas - às vezes lançava o seu grito nas feiras - :" estamos a ser roubaaaaados!!!!".
Mas, isso foi há alguns anos. Agora, eu já fui à polícia sete vezes para dizer que me assaltaram o carro para roubar o rádio (vejam lá!... um insignificância) e há sempre um agente da ordem, com ar inteligente, que me diz para ter cuidado. Ele quer lá saber que eu pago impostos, que, supostamente, o obrigam a a velar pelos meus bens. Provavelmente, pensa que devo levar o carro para a cama, ou para um daqueles parques de estacionamento que o ex-presidente da Figueira prometeu para Lisboa.
Conheço outras pessoas a quem aconteceram coisas piores, mas não há um deputado como Paulo Portas para gritar: "aqui del-rei!!! que nos roubaaaaam!". Nem agora, que um ministro foi a S. Tomé doar uns gravadores de som, e uns microfones velhos e gastou oitenta e três mil euros. Oh! dr. Paulo Sacadura Cabral Portas, está a perder oportunidades! Mais de oitenta mil euros é um roubo a sério. Para mais num país em crise, em recessão, à beira da falência...

"Para Elisa"

No começo chamava-se LUNA. Depois, os probelmas habituais, os costumados protestos e (não sei se chegou aí) os abaixo-assinados, houve um tubarão que comprou. O actual ministro-demissionário (felizmente) do ambiente ( não sei bem como ele se chama) juntou a Luna à sua colecção de Rádios. Já se chamou Clássica e agora chama-se classe 96. Falo de uma estação de Rádio que transmite música sem berros, a partir do Montijo, sem amplificadores de má qualidade e que está a descobrir algumas coisas simpáticas, sem eliminar o básico (aquele vestidinho preto...).

Entre o básico está o "Fur Elise"... que repetem...repetem...repetem. Alguma jovem descobriu que gosta daqueles acordes, tão harminosos, que lhe despertam a Juventude. Não sei se quem controla o computador é um ou uma jovem, mas tem uma jovem metida nisso, porque aquela canção foi escrita para uma mulher de olhos negros e de olhar alegre, na força da vida, a querer descobrir o que existia para além dela. Beethoven era mais para os olhos claros, mas a verdade é que também era surdo e escreveu a música qu escreveu.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Domingo - Vieira da Silva

Um friozinho cortante, dia cinzento, nem os pardais do Jardim das Amoreiras se atrevem ao saltitar constante do saibro para a relva e refugiam-se nos beirais. Museu da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva e a surpresa de salas cheias para ver a exposição " Vieira da Silva Nas Colecções Internacionais - Em Busca do Essencial".

O conforto inexplicável de um diálogo que nunca acaba porque se descobre um novo quadro, e no mesmo quadro um outro traço, uma outra tonalidade e o génio de uma cabeça que esteve sempre à frente do seu e do nosso tempo. Helena Vieira da Silva tranquiliza-me no desassossego da certeza das respostas que dá e das interrogações que me sugere.

À saída do Museu - ainda com muita gente a entrar - descobri no Jardim das Amoreiras uma verdadeira floresta de encantamentos.

PS. - A Exposição encerra apenas a 30 de Janeiro.

Domingo - Entrevista de Miguel Cadilhe

Este "homem do Norte" justifica a minha desconfiança relativamente à chamada "renovação das listas" assente em critérios de idade.

Aqui está um homem do país cuja experiência e sabedoria têm que ser úteis. Não se lhe pode atribuir a condição de "senador", sem Senado.

As suas preocupações políticas servem para mobilizar a economia ao serviço de projectos integrados numa realidade social que não pode ser analisada à luz das concepções europeias ou americanas dos consultores, com pós-graduações feitas em Universidades célebres e que, aos poucos, vão tomando conta dos executivos importantes, quer nas empresas, quer nos governos.

Portugal é um país concreto, com necessidades, qualidades e defeitos concretos. Não é uma abstracção e para o entender não basta um grande curriculum, obtido na frequência sucessiva de universidades cotadas. São precisas experiência e sabedoria.
Excluir deste processo de entendimento gente só porque já não suscita a admiração pela juventude, é condenar o país aos sobressaltos de experiências sempre interrompidas. É perda de tempo.

Sábado - Sondagens

As sondagens são o outro lado das cartomantes. A última que veio a público parece de uma bruxa má. Se os resultados das eleições se aproximarem daqueles números: um terço dos portugueses a querer continuar o actual estado de coisas, com mais seis ponto não sei quantos a deixar-se convencer pelo discurso das feiras, vou perguntar onde se pede a demissão desta Federação.
É que a política em Portugal faz lembrar uma disputa entre Sporting e Benfica: sejam quais forem os resultados ninguém abdica da simpatia clubista e das acusações ao árbitro.

sábado, janeiro 08, 2005

A estória da minha ida ao futebol

Amanhã, dia 8 de Janeiro, o país vai vibrar com mais um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica. Velha tradição a que se chamam os mais variados nomes: "clássico", "derby", "campeonato na segunda circular", eu sei lá mais quantas coisas, inventadas pela imaginação sempre muito fértil dos jornalistas desportivos. Lembro-me de um com uma imaginação tão brilhante que acabou confidente do director nacional da PJ.

Eu não vou ao estádio Alvalade XXI. Até talvez pudesse ir, mas tenho as minhas razões para não ir. É uma pequena história: no último dia 4 de Janeiro, disputava-se um jogo de futebol de pequeno cartaz naquele estádio, que eu ainda não tinha visto. Também por outras razões que não vêm ao caso, mas porque pensei ser aquele um jogo de pouco cartel e, portanto, com pouca gente, seria a oportunidade ideal.

Cheguei ao local das bilheteiras para comprar bilhete com meia hora de antecedência. Havia tanta gente que tive vontade de desistir - palavrinha difícil esta!... - e lá estive o tempo necessário para obter o rectângulo de papel que me deu direito, primeiro, a ser apalpado, e depois, a entrar no Estádio. Estava a primeira parte do jogo a acabar.

Enquanto esperava que o pobre jogo recomeçasse fui matutanto nesta desgraça portuguesa da desorganização. Dantes, os estádios eram incómodos, frios, estavam à chuva e tantas outras coisas. Agora, o espaço é mais acolhedor, não se corre o risco de uma gripe se começar a chover, tem tudo um ar limpo.

Tudo muito bem. E os clientes? Deixam-se uma hora e meia à espera para ver o espetáculo!

Fazemos tantas vezes lembrar um país do terceiro mundo que começo a pensar na hipótese de não ser só piada. Estas falhas são uma questão de organização. A estrutura está lá: bonita, acolhedora, funcional -construída apenas para o futebol, mas está lá.

Iniciou-se a segunda parte do pobre jogo e os meus pobres tímpanos começaram a ser agredidos por sons estranhos: tambores e gritos amplificados por sistemas de som de má qualidade. Uma mistura que resultava num espectáculo horroroso, grotesco, que alguns espectadores, nas bancadas de topo acompanhavam com saltos simiescos e gestos descabidos.

Tudo isto, sem aparente justificação, porque na relva bem cuidada o pobre jogo continuava sem grandes primores técnicos.

Já há muito tempo que não ia ao futebol ao vivo - tenho-o preferido na televisão -. E com razão: pensei. Então perco eu alguma do meu tempo em deslocações, em esperas e depois, para além de um jogo mau, ainda tenho que assitir aquele espectáculo escabroso!

São as claques organizadas - dizem-me depois.

E são permitidas ? pergunto eu. Não só permitidas, estimuladas. Volto para casa a pensar que, para além de mal organizados no trabalho continuamos a ser mal organizados no lazer. Como é que eu algum dia convenceria a família a ir ao futebol comigo? A minha paixão pelo futebol seria definitivamente deitada no cesto das aberrações. Agora, já tenho que desligar o som por causa das crianças.Não vão elas aprender aquele linguajar dos jornalistas e comentadores futebolísticos, "aqueles que..."

sexta-feira, janeiro 07, 2005

As Listas

Os Partidos concorrentes às próximas eleições antecipadas têm vindo a divulgar as suas listas de deputados, mas o que os nossos jornais nos relatam não são as listas mas as opiniões que alguns dos jornalistas e não jornalistas (mais estes do que aqueles ) têm acerca das pessoas cujos nomes são divulgados.

Há até casos curiosos de directores de jornais - é o caso do JM Fernandes, que está agora menos gordo como diria o saudoso Mário Castrim - que se atiram "que nem gato a bofe" às listas do PS só porque, claramente, não gosta do partido nem de alguns dos nomes. Nota-se, de resto, que lhe parecendo não conseguir evitar a derrota do PS, começa já a fazer-lhe oposição - talvez na esperança de que alguns dos seus amigos, como o caso do David Justino, volte à ribalta.

As listas de deputados é claramente uma questão dos Partidos, dos seus dirigentese e quem neles milita. Aos cidadãos, e em particular aos jornalistas, cabe-lhes o principal papel que é o julgamento da actuação dos eleitos.

E, tal como não me parece justo estar a criticar desde já a composição das listas, também não me parece curial estar a louvar com algum frenesim a chamada renovação das listas com o critério da média das idades.

É que uma média de idade baixas entre os políticos significa inexperiência, transição, tudo o que não estamos a precisar neste momento . Nós necessitamos de renovação, mas renovação de qualidade e a juventude é boa, seguramente, para o futebol, não para a política. Já Platão o dizia na sua "República"

Viagem à China

O Presidente da República vai à China, para a semana. Com ele viajam mais de duzentas pessoas, a maioria empresários.

Ficamos a aguardar que, ao menos na China, os empresários nacionais consigam vender mais (não sei muito bem o quê... mas alguma coisa será: vinho, cortiça...). Os empresários nunca falam destas viagens, quando abrem a boca é sempre para dizer que a vida está má e que o Estado tem que abrir os cordões à bolsa para pagar os seus ferraris e outras máquinas assim.

Ficamos igualmente à espera que os homens de negócios se portem bem no intervalo dos ditos, porque os chineses não apreciam os disparates que levam os empresários portugueses a estas viagens.

Os chineses também não apreciam que os negociadores dos documentos a assinar em cerimónias protocolares estejam ausentes destas. É o que vai acontecer durante a assinatura do protocolo da RTP com a Televisão Chinesa, que permitirá à RTPI a utilização do sistema de satélites chineses e outras facilidades.

É óbvio que o Presidente não saberá desta gaffe diplomática, um hábito da nossa gente.
Uma coisa que o Presidente seguramente saberá é fazer notar às autoridades o seu grande apreço e respeito por todos os portugueses que residem naquele país. Assim, eles serão mais respeitados pelos chineses. É que os duzentos que vão são importantes, mas os que estão e ficam são-no mais ainda.

O Destino

Esta coisa das previsões económicas a que se juntam eleições começa a fazer-me alguma confusão. Afinal, vamos votar para quê, se os economistas já sabem que daqui a dois anos ainda andaremos de mão estendida?

Hoje foi o Governador do Banco de Portugal a dizer "chegou a hora" e a sugerir consensos. Mais consensos?

Já ouvi falar de conspirações de silêncio, nunca ningém me tinha sugerido a possibilidade de uma conspiração de consensos. Parece ser o que está a acontecer. Se assim é, para quê votar? Os cidadãos não são chamados a votar as propostas políticas dos partidos? Eles ainda não as deram a conhecer, mas é sabido que os cidadãos pretendem uma mudança de políticas, sem consensos.

O povo está cansado de consensos, porque os consensos confirmam as previsões dos economistas.

Deixem os políticos falar e falar de política e não de défices. Depois iremos votar todos, ou quase todos. Que se calem os economistas. Parecem os jagudis da Guiné Bissau a sobrevoar o Hospital Simão Mendes, as cartomantes a adivinhar desgraças do destino.

É que se a política se resume a previsões económicas, então deixemo-nos de conversas e entreguemos tudo isto aos Bancos. Ficava tudo mais claro, cumpria-se rapidamente o destino.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

As Pequenas Mentiras

Há por todo o lado, sobretudo na blogoesfera, um grande frenesim na procura das grandes mentiras do nosso tempo. Nos chamados instrumentos de comunicação de massas essa preocupação já há muito desapareceu e não vale a pena falar deles enquanto instrumentos de debate.
É que, de uma forma geral, estão ao serviço das grandes mentiras e até das pequenas.
O Grupo Portugal Telecom, o maior grupo empresarial português, fez anunciar em grande parangonas dois programas de envolvimento do grupo com as famílias dos seus colaboradores.
Um deles diz respeito à facilidade de cada colaborador adquirir, por um período de quatro anos, um computador portátil, sem qualquer encargo: Findos os quatro anos, o colaborador obriga-se a pagar um valor residual do equipamento, "que venha a ser estipulado".
Esta e outras condições ainda se percebem. O que não se entende é o nº2 do Artigo 2º (Condições de aplicação), do respectivo regulamento:
"podem candidatar-se os colaboradores, referidos no número anterior, com rendimento per capita inferior ou igual a 5oo,oo Euros, apurado com base na última declaração de rendimentos".
Ora aqui está uma pequena mentira de que são feitos os nossos dias. Para quê tanta conversa do presidente do maior grupo empresarial português para oferecer uma coisa que nenhum dos colaboradores que preencham aquela condição vai poder aceitar? Com aquele rendimento ningém tem dinheiro para assumir "a responsabilidade de todos os encargos mensais decorrentes da adesão ao SAPO ADSL". Além disso, o tempo é pouco para outro emprego que lhe garanta a subsitência da família.
Francamente, dr. Miguel Horta e Costa, os seus consultores de imagem, a JLM, estão a perder qualidades. Ou será que têm a certeza de que nenhum órgão de comunicação social vai falar destas condições, decididas na reunião de 04.12.15 da Comissão Executiva, deixando prevalecer a ideia de que as preocupações da PT são reais?

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Rosa Enjeitada

Há uma palavra que me bate na cabeça de há muito tempo a esta parte. Um dia, num ano destes, em casa de um intelectual de renome no Brasil, que me mostrava os tesouros da família, guardados desde gerações, dos tempos da colonização, quando a Igreja congregava a Fé e a riqueza, tive a ousadia de dizer que o Brasil só teria solução quando tivesse coragem de assumir a necessidade de uma rotura. Respondeu-me o meu interlocutor: "você quer dizer, guerra!".
Não, nada disso, a guerra não é solução para coisa nenhuma, mas, no caso brasileiro, há que entender que a sucessão de elites que foi governando o país o deixou sem solução. Não há terra para mais ninguém. O imperador distribuiu, distribuiu, tudo, o que conhecia (pouco) e o que não conhecia (muito) e os vindouros ficaram agarrados à propriedade e à não propriedade.
No Brasil é necessária uma rotura que redefina a propriedade da terra, pelo usufruto, pelo aproveitamento, por qualquer critério que rompa a definição social que vem desde os tempos da colonização, passou pela época dos coroneis e se instalou na actual burguesia, que, tal como os seus antecessores continua a ter necessidade de âncoras financeiras no estrangeiro. A burguesia brasileira não investe no país porque não acredita e nem o presidente Lula da Silva conseguiu, até ao momento, liderar o Estado para uma rotura que signifique a igualdade entre cidadãos e o fim da verdadeira guerra civil que ali existe - uma guerra da pobreza contra a riqueza.
A palavra rotura dança-me na cabeça todos os dias, quando me angustio com arealidade que me rodeia, evidenciada nos jornais que leio, nas rádios que ouço, nas televisões que vejo e - mais do que isso - no comportamento das forças políticas, dos dirigentes que temos.
Ora, exactamente, a palavra rotura saltou-me aos olhos, quando, abrindo este blog, deparei com um comentário a um dos meus últimos posts, aquele em que verberava o conteúdo da mensagem de ano novo do Presidente da República - também ele incapaz de romper com o discurso estupidamentre economicista que se instalou entre nós.
É isso, meu caro "comentador": é nececessário romper! Romper com os conceitos políticos, desde logo. Romper com esta elite medíocre, seráfica, que não tem, sequer, capacidade, para vender um sonho. Este país foi grande - vanguarda europeia - quando teve uma elite capaz de sonhar.
Há quantos séculos isso aconteceu? Que é feito agora dos homens e das mulheres da nossa terra que não se conformam com a mediocridade que a sua condição de portugueses lhes oferece? Rumam outros lugares, outras nacionalidades, outras culturas, esquecem...esquecem que foram portugueses e fazem dos filhos gente de outras nacionalidades, de outros valores, de outras línguas. Já nem o conceito de Pátria defendio por Fernando Pessoa é válido!
Enquanto isso, assistimos diariamente ao desfilar da imensa mediocridade de quem nos governa, de quem escreve nos jornais e os dirige, de quem se opõe a quem nos governa, de toda esta gente que, entretanto, vai destilando boatos, acerca da sexualidade dos outros, acerca dos hábitos de honradez do próximo. Um mundo escabroso sem saída, sem solução, a não ser uma ROTURA inteligente.
Que rotura será essa ?
Rotura de conceitos, em primeiro lugar. O mais pindérico jornalista do mais pindérico jornal da praça já é capaz de escrever que é necessário reduzir as despesas de saúde, diminuir o número de trabalhadores da Administração Pública, acautelar os custos da Segurança Social, porque a sociedade está a envelhecer... Que o Estado existe para pagar o que não dá lucro e ( isso, eles não escrevem) para proteger os poderosos, que continuam, como há séculos, a viver dos subsídios estatais e do não pagamento de impostos.
São os conceitos da direita mais retrógrada a fazer escola, a determinar comportamentos, a definir atitudes.
E o que faz a esquerda?
O PCP lança para o ar um senil grito de "Viva o Marxismo-Leninismo", dando, claramente, a indicação de que, depois destes anos todos, não percebeu que o leninismo afogou o marxismo.
O PS fala em "esquerda moderna", mas joga o mesmo jogo de sempre, dentro dos mesmos grupos, sem entender que a modernidade da esquerda se cola ao mais moderno dos conceitos da política e da economia de hoje : a globalização.
A globalização que os portugueses abriram ao Mundo. Antes que americanos e japoneses falassem do fenómeno, já os portugueses o praticavam, levando e trazendo, mercadorias e ideias, gente e tecnologia. A diferença está em que a globalização dos portugueses não foi nunca um projecto de estado, mas antes mil e um projectos individuais de aventura, de fuga à mediocridade, à pobreza, à humilhação. O Estado - as várias formas de estado - nunca conseguiu entender esta dispersão de vontades, de inteligências que foram construindo outros mundos, sob outras bandeiras, servindo-se de outras línguas, de outras linguagens.
Os vários estados implantados aqui à beira-rio ( a beira-mar é outra coisa) nunca quis saber desses milhões de pedaços espalhados pelas sete partidas. E mesmo o poeta que cantou a primeira gesta desses homens lançados borda fora por esse Mundo além, foi marginalizado e ainda hoje - para glória da sua poesia, da sua generosidade e das suas ideias - continua a ser marginal.
A tal "esquerda moderna" ainda não percebeu que as sementes da rotura já foram lançadas há séculos. Há, agora, que buscar os frutos e lançar aos portugueses e seus descendentes por esse Mundo fora as flores de uma auto-estima que fará de Portugal e dos Portugueses, não apenas a vanguarda europeia, mas um exemplo para outra forma de encarar o Mundo, fazendo da globalização não uma forma de pilhagem alargada, mas um sistema de solidariedade.
O PS está longe de entender isto porque trata os portugueses residentes no estrangeiro e que ainda se interessam pelo que acontece no país (uma vez que votam) como gente de segunda, a quem faz o favor de sugerir dois representantes. Que diz Maria Carrilho e Aníbal Araújo a esses portugueses?
Que espécie de ligações é possível fazer com esta gente? Como é que esta gente será capaz de mobilizar uma ideia de Portugal espalhado pelo Mundo, de um povo presente em toda a parte onde, para construir alguma coisa, foi necessária força, espírito de sacrifício e respeito pelo próximo?
E O BE - que faz ele? Espera o barco do descontentamento generalizado para embarcar numa boleia que o leve ao poder e possa, como todas outras forças políticas, fazer os jogos da pequena política e do poder. Por que razão não se afirma com um programa alternativo a todos os disparates que andam no ar. Por que razão não se abalançam a construir um novo sonho para os portugueses, para todos os portugueses?
Onde está a capacidade de rotura das nossas elites políticas? Vamos continuar a fazer o discurso da desgraçadinha? " Afinal, Rosa enjeitada, quem és tu ? Uma mulher que sofreu!"