terça-feira, dezembro 21, 2004

Ingenuidades (?)

A propósito do regresso da polémica da co-incineração, provocada pelo candidato do PS a primeiro-ministro, uma parte da comunicação social portuguesa foi fundo e voltou a congregar todos os demónios, com entrevistas a gente vivamente interessada no problema e nas consequências das diversas soluções.O desassombro de alguns dos protagonistas não é nada claro. E a ingenuidade deles também não assenta bem.

As entrevistas de rua são um dos males do nosso tempo. Com equipamento que lhes permite, de qualquer lugarejo enviar um sinal em directo, os profissionais da comunicação social, sempre que têm oportunidade, recorrem a ele. Algumas vezes, simplesmente, para dizer que não há nada de novo.

Como é o caso desta requentada polémica: não há nada de novo. A não ser o acumular dos resíduos tóxicos perigosos, cuja tonelagem aumentou significativamente nestes dois anos e meio de governação coligada.
Também não é novo o facto de nenhum órgão de comunicação social (televisão, rádio, jornal) se ter referido ao problema durante este lapso de tempo.
Porque é que José Sócrates levantou tal questão, sabendo, concerteza, que ela seria aproveitada como uma verdadeira manobra de diversão para desviar as atenções do que está em causa neste momento? Terá sido por ingenuidade?
Logo apareceram algumas vozes a dizer que está a decorrer um concurso internacional para uma solução alternativa, muito mais eficaz e menos perigosa. Mas, se assim é porque não foi ela posta à discussão pública e, como seria de esperar, apresentada como uma das bandeiras do governo PSD/PP, já que nasceu da anulação de uma decisão muito polémica do último governo PS? Terá sido por ingenuidade? Logo agora que iam começar...
Das várias entrevistas a que assisti destaco duas: a primeira, durante um dos jornais da RTP - o das 13 - com um dos signatários dos relatários que recomendou a António Guterres a co-incineração e que, no final, perguntou ao profissional da comunicação social que o interrogava se, ele, por acaso, sabia o que significava a tal sigla que identificava a alternativa, sem indicar nenhuma tecnologia.
O profissional da comunicação social respondeu que nos próximos dias se saberia. Ficámos a saber que ele - profissional da comunicação social - , apesar de ter feito uma entrevista sobre o assunto, não conhecia o significado de uma sigla - que eu também não percebi. Terá sido ingénuo, ao prometer para os próximos dias o conhecimento de assunto tão momentoso? De certeza que vamos ouvir a tal sigla o número suficiente de vezes para a decorar. Os anti-co-incineração não se esquecerão de a lembrar. E a RTP também.
A outra entrevista é a de uma Souselense, que, em síntese, dizia que o engº. Sócrates, ao anunciar a sua decisão tão precocemente demonstrava que "os tinha no sítio" e garantia que os de Souselas também. Terá sido por ingenuidade?
De repente, lembrei-me da estória dos órgãos da Igreja de Souselas que tanto irritava os souselenses de outros tempos, dos tempos em que a cimenteira ainda não despejava por cima das hortas, das casas e das cabeças baixas o seu veneno branco.

sábado, dezembro 18, 2004

É Necessário Responsabilizar

O Engº. José Sócrates disse ontem, em Lisboa que, no caso de o PS ganhar as eleições de 20 de Fevereiro, não vai passar o tempo a criticar os anteriores governos, a fazer apelos ao passado e não vai desfazer o que, eventualmente esteja bem feito, só porque foi feito por outros.

Tudo bem. A conversa da herança do passado faz lembrar os poderes africanos, que, trinta anos depois, ainda atribuem as culpas de todas as desgraças ao colonialismo.

Todavia, é necessário responsabilizar os autores de erros graves, começando pela sua denúncia, para que não aconteça o que sucedeu ao PS, quando, em 1995, subiu ao poder e se esqueceu(?) de denunciar todos os atropelos cometidos pelos governos de Cavaco Silva. Apenas dois exemplos: o PSD de Cavaco Silva matinha milhares de trabalhadores da função pública a recibo verde, em situações verdadeiramente kafkianas e o PS admitiu-os nos quadros que comportavam as vagas para tal.

Pois bem: alguns meses depois já o PS estava ser acusado de ter sobrecarregado a função pública.

Houve muitas auditorias levadas a cabo em diversas estruturas empresariais da responsabilidade do Estado e em diversos níveis da administração pública e que demonstravam erros e falcatruas dos anteriores gestores e que foram silenciadas. Porque razão? por causa das eventuais cumplicidades do chamado lobi dos gestores públicos - que fazem todos parte do bloco central?

Não interessam agora as razões, mas importa lembrar ao engº. Sócrates que o PS, mais tarde, acabou por pagar esse branqueamento.

O Beneficiário do Regime Durão-Santana

Um dos jornais de hoje avança com a ideia de que o empresário Pereira Coutinho pode vir a comprar a Lusomundo.
Depois que A JLM, por intermédio de Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes tomou conta daquele activo da PtMultimédia, beneficiando da acção política de Morais Sarmento, que ameaçou o BES de mandar retirar daquele Banco todas as contas do Estado e das empresas públicas, no caso de aqueles administradores não serem aceites (v. post anterior: "Administradores-Comentadores" e respectivo comentário)... desde essa altura que se têm visto na praça muitos potenciais compradores.
Mas este nome nunca tinha aparecido, pelo menos publicamente... Ao aparecer agora, naquele que parece o último fôlego do regime Durão-Santana, pode significar jogo perdido para os outros, inclusivé para a PTMultimédia e, por conseguinte para a PT, cujos accionistas, ou estão demasiado longe ou demasiado distraídos para perceberem as jogadas que por aí vão.
Pereira Coutinho é o mesmo que comprou a Quinta da Falagueira, que desenhou e já vendeu as urbanizações da Artilharia 1 e do ex-Colégio dos Maristas, beneficiando das mais valias do Túnel do Marquês, pagas pelo dinheiro de todos os contribuintes.
Ao propor-se como candidato à compra da Lusomundo tem a companhia de Morais Sarmento e outros políticos do actual circo político - o que quer dizer que um leque importante de órgãos de comunicação social sai da esfera de um grupo económico poderoso, mas respeitável, e ainda com alguma intervenção de um accionista - o Estado - que tem a obrigação de manter as distâncias necessárias, para a de um grupo económico que joga, aparentemente, na troca de favores e no compadrio político.
Por isso se estranha que o actual secretário-geral do PS, numa aparente posição de ignorância do jogo que se joga entre a JLM, Luís Delgado, Morais Sarmento e os eventuais financiadores de tal compra, venha defender que a PT se deve libertar da Lusomundo. A favor de quem?
O que deve ser defendido, antes de mais, é a clarificação dos interesses que se jogam através da João Líbano Monteiro e Associados, bem como de toda a rede dos seus interesses ( em que se incluem antigos e actuais ministros do PSD), com a colocação de gente sua em todas as grandes empresas ainda ligadas ao estado, mesmo que seja apenas por simples golden shares.
Defender a venda da Lusomundo nas actuais circunstâncias é favorecer, seguramente, o aparecimento de mais um grupo de comunicação social virado apenas para a defesa dos seus interesses.
Que os políticos não se queixem depois que o poder da comunicação social fragiliza o poder político. É que o poder económico paga ... enquanto o poder político aposta na sua capacidade de manipulação pela militância. Onde é que isso já vai?!

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Poder Fragilizado

Rui Rio, no Porto, disse que o poder político está fragilizado em virtude de outros poderes, nomeadamente o da Comunicação Social. Logo acorreu Morais Sarmento o ministro ex-barbudo, solícito a concordar.
Percebe-se cada vez melhor o fundamento da tentativa de criação de uma central de comunicação, assim como se entendem melhor as razões para as pressões denunciadas em texto deste blog, a que alguém juntou um comentário esclarecedor. Ver: "Administradores-Comentadores" e respectivo comentário

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Heranças

Em Lisboa, perto do chamado "Túnel do Marquês" apareceram de um dia para o outro uns cartazes ("outdoors") a anunciar que alguém (não se sabe quem) queria parar a obra, mas «nós», a Câmara Municipal, "vamos fazê-lo".
É a herança da vitimização. Como se o Túnel do Marquês fosse uma necessidade e o processo que fez parar as obras tivesse constituído uma calamidade para os lisboetas.
Os lisboetas, os que vivem, de facto, na cidade, muito agradeciam que não se abrissem mais vias de invasão automóvel. E já agora: também agredeciam que o trânsito na cidade não fosse desenhado em função das entradas e saídas. As voltas que é preciso dar para fazer uma vida de cidadão normal nesta capital transformada em mundo de lata e de gases tóxicos!
Os cartazes da Câmara devem ser simpáticos para as empresas imobiliárias que vão vender as urbanizações da Artilharia 1 e do antigo Colégio dos Maristas entre a Travessa da Légua da Póvoa e a Avenida Duarte Pacheco e de que o público vai tomar conhecimento depois de o túnel do Marquês estar pronto - contra não se sabe quem - e com infraestruturas pagas pelos impostos de todos nós.
Quando o Engº. Cruz Abecassis deu luz verde à edificação do complexo das Amoreiras negociou com o seu promotor o pagamento das respectivas infraestruturas. Os promotores das novas urbanizações vão pagar alguma coisa pela vantagem de terem uma urbanização no centro da capital sem os inconvenientes do intenso tráfego, gerado na ligação com auto-estrada de Cascais? Vão partilhar com a Câmara, não com os autores dos "outdoors", as mais valias ali criadas?
Quem explica estes fenómenos? São os que herdaram a estratégia da vitimização ou é ele mesmo, o seu criador - o Pedro?

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Problema para netos resolverem

Quando toda a gente imaginava que o anedotário nacional acabara, eis que os dois se reunem no Ritz e, com toda a pompa e circunstância, anunciam a festa do divórcio. Só não se sabe onde foram passar a lua de mel. Vão regressar em breve ao casamento - a sério - para ralhar um com o outro. Novo casamento entre as respectivas famílias só já entre netos. Nessa altura espera-se que haja netas para a cerimónia.

São apenas conjecturas sugeridas por esta opereta a que temos assistido, com um final anunciado: no palco vai entrar um taxi para levar os deputados do PP ao Parlamento, já que vai ser necessário poupar para pagar as obras do Caldas. Paulo Portas recusar-se-á entrar.

No mesmo plano e mesma cena, ainda mais torto do que tem aparecido nos últimos dias, mais vergado e mais coitadinho, Santana Lopes sairá pela porta das traseiras para não ser visto pela multidão dos seus até agora apaniguados. Sem saber para onde ir, acabará, seguramente, por ser acolhido na Quinta, em grande festividade.

Ainda o FMI

Nos últimos tempos (já lá vão alguns anos), a economia, os economistas e o "economês" tomaram conta da política: Tudo se resume a números, ou à sua manipulação, uma vez que a mesma realidade algébrica nem sempre quer dizer a mesma coisa.
Agora reapareceu uma espécie de sindicato dos patrões, chamado "compromisso Portugal", cujo nascimento se anunciou como manifestação de apoio ao governo de Durão Barroso, mas que agora renasce como eminência parda do futuro poder.
Avistaram-se com o ainda primeiro-ministro e com o secretário-geral do PS, José Sócrates. No final, lá estavam os microfones com os respectivos pés, para ouvir que os senhores nem querem ser ministros de coisa nenhuma (alguns deixariam de ter dinheiro para os charutos), o que eles querem...o que eles querem é fazer lobi. Sejamos claros.
Lobi a favor de mais benefícios do Estado, lobi a favor de legislação laboral mais permissiva...lobi, enfim, no sentido de assustar o poder político, agora que a crise, sendo económica e social, também já é política.
Mal andam os políticos que não percebem as intenções por detrás destas movimentações. Mal andam os políticos que não sentem o cerco e se esquecem de afirmar o primado da política na gestão do Estado.
E o primado da política em Portugal determina, sem sombra para dúvidas, que as pessoas são o mais importante. As pessoas e, consequentemente, o espaço que elas habitam, a vida que lhes é permitida.
Em Portugal, no princípio do sec.XXI, o primado da política impõe um novo ordenamento do Território, um ordenamento que tenha em conta toda a gente que vive neste país, que começa a transbordar para o Oceano Atlântico, enquanto o interior arde porque não tem pessoas.
A um novo poder, eu, que não sou sindicato de coisa nenhuma e costumo reunir o meu comité central na cabine telefónica mais próxima, aconselho um Gabinete pequeno, com poucos ministros, mas de peso. E que um deles tenha o Ordenamento do Território, com capacidades várias, a mais importante das quais terá de ser a de implantar um Portugal coeso, do ponto de vista social e político. Colocar a economia ao serviço das pessoas - numa palavra
Aos economistas restará, nesta perspectiva, a tarefa (nobre tarefa) de sugerir programas que cumpram o objectivo. Sejam proactivos. Estamos todos cansados de os ouvir falar dos erros cometidos. Estou cansado de os ouvir defender os programas abandonados nos Estados Unidos, às vezes há mais de dez anos. E também estou surpreendido com o regresso dos gurús da economia do FMI. Talvez seja tempo para uma reedição do texto de José Mário Branco, suponho que de 1981, agora em CD. Sugiro para título: "Ainda o FMI".

Ex? Ditador (II)

A minha angústia de ontem pela alegria incontida dos chilenos transforma-se num sentimento de nojo: afinal o velho ditador nem sequer foi preso em casa. A defesa recorreu. A sensação de que aquele humanóide morrerá sem sequer sofrer um a parcela mínima do castigo que merece pelo sofrimento que inflingiu a milhares e milhares de pessoas é revoltante.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Ex? Ditador

Vejo as imagens. Tão a correr que, ou custam muito dinheiro, ou quem as edita acha que está a perder tempo. Terá, seguramente, alguns automóveis espatifados para mostrar de todos os ângulos possíveis...

Vejo as imagens vindas de Santiago e não posso deixar de me angustiar com a alegria estampada naqueles rostos de chilenos que, apesar de tudo, ainda têm alguma esperança. Esperança de que a morte dos seus mais queridos seja - ao menos! - lembrada.

É uma alegria que me angustia porque, afinal, o fascista ditador Pinochet é apenas acusado de 1 crime de homicídio e 9 de rapto.
A seguir, mais demoradamente, mostram o homem a quem chamam ex-ditador e a encenação que a sua gente faz para o exibir doente, incapacitado, coitado. As imagens demoram o tempo suficiente para lhe ver os olhos matreiros, como que a gozar o espectáculo.
São uns olhos que me fazem esquecer a angústia e me lembram todos os horrores que já vi descritos sobre os resultados das suas ordens a hordas de criminosos. Porque é que um monstro daqueles é apenas detido em casa e o Mundo lhe chama "ex-ditador"?
Nem no Inferno deixará de ser chamado de ditador, tirano, assassino! As agências noticiosas deviam ser mais rigorosas e chamar as coisas e os horrores pelos seus nomes: um ditador é sempre um ditador

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Os Excluídos

Nesta fase de pré-campanha eleitoral os políticos vão enchendo os ouvidos dos eleitores com palavras sonantes: Cidadania é uma delas. E a seguir, juntam-lhes uma outra: os excluídos. Seria bom que atentassem devidamente nos conceitos que estão por detrás delas. É que a gente que vem tomando conta do país deixou de reconhecer o direito à cidadania a muitos cidadãos: aos que foi despedindo, pura e simplesmente e aos que foi atirando para situações de pré-reforma, de reforma antecipada e outras situações ainda mais segregadoras.
Num tempo em que a esperança de vida tem subido, numa altura em que os sistemas de segurança social, por efeito das medidas que os descapitalizaram, ameaçam não ter capacidade para cumprir os compromissos assumidos com os cidadãos que os sustentam, os donos do país formam regimentos de excluídos, recorrendo às chamadas reestruturações de empresas, isto é, à elaboração de "projectos ambiciosos", que se resumem, em alguns casos, a mandar para casa alguns milhares de trabalhadores.
Deste modo, o país tem uma grande parte da sua capacidade humana na ociosidade, no desespero e as empresas vivem o drama de terem gente muito jovem mas sem experiência e sem conhecimento da realidade em que se movimentam, mas com características importantes: são primos do cunhado do motorista de sua excelência...
Estes donos do país fazem lembrar a colonização britânica na Austrália, que excluiu de todo e qualquer processo de produção os aborígenes. Mas, atenção: foi o PS que abriu as portas ao processo.

Refundação

Ouvimos as preocupações dos políticos e não podemos deixar de ficar preocupados: é que eles não vão além da descrição de estados de alma. E são sempre relativos aos seus adversários políticos, contextualizados no actual estado de coisas, um enredo que nunca mais tem fim. O Mundo dos políticos é um mundo à parte - só deles - mas que perturba a vida de toda a gente. O pobre mortal, que não faz política, que não conhece nenhum político, mas que os vê e ouve todos os dias nas televisões e nas rádios, tem um quotidiano angustiado.
Aquilo que ouve nunca encaixa na sua realidade, os problemas de que se fala não são os seus problemas e por mais foruns de opinião que se abram nas várias frequências públicas, ninguém o ouve.
A nossa é uma democracia de monólogos. A Nação não se entende com o Estado.
A Nação gostaria de ouvir os gestores do Estado, ou candidatos a isso, dizer que vão recuperar a nossa indústria, a nossa agricultura, a nosssa pesca, que vão acabar com os diversos tipos de exclusão e que não vão permitir que a Europa, de que fazemos parte e nos respalda dos disparates dos tais políticos, não nos vai transformar em mordomos, em homens e mulheres a dias daqueles que de facto mandam na Europa.
Daqueles que , tendo sido o ponto de partida para os tais fundos de coesão que nos ajudaram a sair da pobreza gerada nos tempos do fascismo, são também o ponto de chegada para grande parte desses mesmos fundos.
O que os portugueses gostavam de ouvir era uma declação de confiança em todos eles, de respeito pelos seus direitos, pela sua cultura, pela sua forma de estar na vida.
Estou seguro de que mesmo aqueles que vivendo longe e há muito tempo haveriam de recuperar o seu gosto e o seu orgulho de serem portugueses, se a política em Portugal deixasse de ser uma espécie de busca sistemática, e sempre frustrada, do homem providencial e se transformasse num instrumento de refundação de uma vontade nacional forte, mas assente no respeito pelos direitos de todos nós e não apenas nos privilégios de meia dúzia.

Os Erros a Evitar

Vejo no Canal 2 da RTP uma entrevista com Jorge Coelho. A falta de habilidade dos entrevistadores é evidente. Não me parece que tenham feito a mínima preparação para a entrevista e vão repetindo perguntas a que toda a gente já respondeu e insistem no julgamento aos governos de António Guterres. Jorge Coelho lá lhes vai dizendo que o PS já pagou pelos erros cometidos, mas eles insistem e querem saber que erros foram esses. O ex-ministro das polícias - agora elogiado por elas mesmas - e ex-ministro do Equipamento, um cargo que desejou dois anos antes de o ter - lá lhes aponta a má estratégia para a campanha de 99, da sua responsabilidade directa.
Na entrevista não assumiu esta responsabilidade pessoal, assim como na altura própria não assumiu o facto de ter sido o responsável pela perda de um deputado em Setúbal, círculo por onde concorreu, e pela derrota em Lisboa, de cuja Federação era presidente.
Para o PS seria bom que o mesmo Jorge Coelho, se voltar ao poder, no caso de os socialistas ganharem as próximas eleições, não repetisse a sua estratégia pessoal de alianças com gente do PSD em prejuizo dos seus próprios camaradas, para não acontecer o mesmo de há uns anos atrás: o PS tinha a responsabilidade política e o PSD os benefícios do poder.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Administradores-Comentadores

Já aqui deixei algumas observações sobre a dupla condição que Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes exibem publicamente: a de jornalistas promovidos à condição de Presidente e Vice-presidente da Lusomundo, uma empresa proprietária de órgãos de comunicação social, e a de comentadores políticos com posições pró e contra bem identificadas.
Também liguei a estranheza desta duplicidade ao facto de conhecer a existência de uma dependência orgânica muito forte entre a PT Multimédia e a SIC-Notícias, onde Luís Delgado exibia a sua boçalidade e Rezendes a sua subtileza canhestra.
Nos últimos dias, entretanto, as duas criaturas não têm aparecido na estação de Carnaxide (é assim que se diz em alguns meios jornalísticos), mas não se eximem a debitar as suas mais que previsíveis opiniões no Jornal em que foram jornalistas e de que são, agora, a quase suprema autoridade, o Diário de Notícias.
Digo "quase suprema", porque entre a deles há, pelo menos duas. A primeira e, segundo as regras definidas pela lei de imprensa, é a direcção do próprio jornal - posta em causa sempre que aparecem os escritos dos administradores, ainda auto-intitulados jornalistas.
A segunda é a da PTSGPS, principal accionista da PT Multimédia, por sua vez principal accionista da Lusomundo.
A PT SGPS sempre teve algum cuidado no seu relacionamento com a Comunicação Social e, mesmo, nos primeiros tempos, quando comprou a Lusomundo, a atitude dos principais órgãos de gestão foi de não interferência, deixando que as coisas corressem de acordo com os critérios existentes - pelo menos, foi essa a ideia que transpareceu.
Como é que, de repente, a PT, presidida por um aristocrata, por um gentleman da administração, aceita a promoção destas duas criaturas à condição de principais responsáveis por uma empresa que detém o controlo de um punhado de órgãos de comunicação social de grande peso na sociedade portuguesa?
Como é que Miguel Horta e Costa se deixou cair nesta armadilha? Como é que ele aceitou a pressão da JLM para a demissão de Fernando Lima, um profissional do jornalismo a que toda a gente reconhece uma postura irrepreensível ao longo da sua longa carreira, ainda que o identifique com o chamado "cavaquismo".
É que, apesar de tudo, os benefícios de Horta e Costa não parecem muito evidentes. Os seus amigos controladores de jornalistas não têm conseguido que os portugueses conheçam melhor (ou pior) o presidente do maior grupo empresarial português.
Será que os accionistas da PT, nomeadamente o BES, que domina de forma asfixiante o grupo (sem legitimidade para isso) tem planos para a Lusomundo e os impõe a MHC, exibindo, deste modo uma terceira autoridade quase clandestina, mas muito eficaz?
E já agora, uma última pergunta: será que a nova direcção do DN aceita as regras que Fernando Lima recusou e que são ditadas pela JLM?

O Estado-Empresa

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Clandestinidades do Nosso Tempo

Hoje em dia ninguém pensa em organizar um grupo político na clandestinidade. A democracia assenta na possibilidade que toda a gente tem de se juntar aos Partidos políticos existentes ou - se tiver força e influência para isso - fundar um outro, desde que cumpridas as necessárias formalidades legais. Digamos que, em matéria política, não há lugar para clandestinidades.
Todavia, a sociedade não é clara a todos os níveis e alguns dos que não são completamente claros atravessam a política, originando situações verdadeiramente inacreditáveis, quando olhadas às claras.
Não estou a falar da tendência portuguesa para uma certa prática do nepotismo, do amiguismo, etc., nem mesmo dos corredores que os dinheiros escuros percorrem para chegar sempre às mesmas bolsas.
Falo da necessidade urgente de o novo Parlamento, a sair das próximas eleições, aprovar, o mais depressa possível, uma lei que permita o casamento entre casais do mesmo sexo. Só desse modo a sociedade pode ficar livre da clandestinidade mais aberrante do nosso tempo.
Que os homossexuais tenham direito à família para nos salvarem de situações como as que, à boca pequena - trata-se de clandestinidades - se vão contando: ministros e secretários de estado ou chefes de gabinete a partilharem responsabilidades políticas e a cama; directores e directores adjuntos a partilharem opiniões e decisões de dia e noite, a todas as horas, situações que a ética por que se regem os casais heterossexuais impede que aconteçam.
Ao contrário do que possa parecer não estou a querer saber quem dorme com quem, estou apenas a defender o direito que os homossexuais têm de viver na plenitude os seus amores e o dever de a sociedade se organizar de forma cada vez mais transparente. Já nos bastam os lobis ilegais que já começaram, seguramente, a apertar o cerco a um eventual novo poder.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Libertem os Árbitros

Sou um apaixonado pelo futebol mas não consigo ler os jornais desportivos ( que são, de facto, jornais de futebol) e abomino as longas horas de conversa, quer na Rádio, quer na Televisão sobre o futebol. Mas, a verdade é que perante o verdadeiro bombardeamento noticioso sobre a "operação apito dourado" não posso ignorar as sua razões: alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Desde que me conheço que existe esta desconfiança. Ela vem de tempos em que todos os poderes eram autocráticos, totalitários, ditatoriais, etc. Aos árbitros não seria possível, sequer, sugerir a sua libertação dos esquemas apertados de controlo das entidades tutelares. Ora, a verdade é que, também alegadamente, vivemos em democracia há mais de trinta anos e, por isso, não faz sentido que não sejam os árbitros a regular a sua vida, a eleger os seus órgãos directivos a instituir os seus métodos de avaliação, a estabelecer o preço da sua colaboração, a decidir sobre se continuam como prestadores de serviços a um sector completamente profissionalizado, na condição de amadores.
Será que os árbitros têm interesse em continuar tutelados? Ou, pelo contrário, as várias tutelas desejam continuar a desenvolver alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Que diabo! Libertem os árbitros ! Ora aqui está um tema a sério para os jornais ditos desportivos e que apenas falam de futebol - bem como para preencher pelo menos uma das intermináveis horas que nas Rádios e nas Televisões se gastam a discutir o Benfica, o Sporting e o Porto - porque dos outros também não se fala.

Mudanças do PCP

Apenas uma repórter da SIC Notícias, com aquele seu ar de quem está sempre a dizer coisas inteligentes ( além disso chama-se Ana Bela) notou uma das mudanças do PCP, no seu último Congresso. O Novo Secretário Geral, afinador de máquinas de profissão, pegou ao colo do neto, um gesto que, segundo a Ana Bela, configurava o início de uma nova atitude - o culto de personalidade de Jerónimo de Sousa. Mais ninguém - que eu tivesse ouvido ou lido - notou outras importantes mudanças: é que, sendo adepto do Benfica, o novo dirigente máximo (ou será o novo homem forte?) percebe que o seu jovem neto tem tendências sportinguistas e afirmou essa desconfiança ( ou será certeza?) em entrevista a Maria Flor Pedroso, na RDP. Ora esta tendência e esta aceitação prenuncia a mudança fundamental do novo PCP - as próximas gerações comunistas terão direito à discordância pública e publicitada.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Santana é um problema do PPD/PSD

A vida política portuguesa das últimas semanas atinge as raias do burlesco, mas tem um lado trágico-cómico que confrange pelo ridículo que revela. As reuniões dos estados-maiores dos partidos, os comunicados dos porta-vozes, as jogadas de antecipação percebidas pela recusa de falar com os jornalistas, a quem - entretanto - se comunicou, evidentemente, a existência de uma reunião. O que é preciso é o folclore das câmaras.
Os editores das televisões ainda não perceberam que não vale a pena mandar o microfone com o respectivo pé - basta a câmara para filmar os senhores, umas vezes com berrantes gravatas, outras com fatos desportivos a evidenciarem o como estão confrotáveis na pel e de políticos em fim de semana e quase a entrar de férias.
O CDS/PP vai ganhando as várias jogadas a que já assistimos e ainda não mecheu nenhuma peça importante. O PPD/PSD parece um clube da Segunda divisão a tentar não descer à terceira e impossibilitado de fazer uma chicotada psicológica - vai ter que sofrer até ao fim com o mesmo treinador.
Para o PPD/PSD no seu conjunto este cenário é um verdadeiro pesadelo. É que este partido é apenas um agrupamento de interesses e de pessoas com especial apetência para o poder. Basta veririficar que dos quase 31 anos da democracia portuguesa, 24 foram inteiramente dominados pelas suas siglas. E mesmo os seis anos de governo do PS têm, em muitas áreas, especialmente em empresas decisivas, o seu carimbo.
Pela primeira vez - se os homens que representam os interesses que os têm segurado no poder, nada fizerem - os chamados sociais-democratas vão iniciar uma longa travessia do deserto, um deserto tão agreste que pode implicar consequências catastróficas para os tais interesses e para os tais grupos de homens.
E tudo isto porque não conseguiram perceber na altura certa que mais lhes valia perder o poder por uns tempos, do que apostar num líder em quem ninguém confiava, um homem sem obra, só com conversa, conversa sem ideias.
Nem como dirigente desportivo conseguiu realizar nada. Como Presidente da Câmara da Figueira da Foz deixou um buraco de dívidas tão grande que o seu sucessor não tem feito outra coisa que pagar os calotes que por lá ficaram. De resto, ao relatório do Tribunal de Contas sobre a gestão de Santana na Figueira da Foz nunca foi dada nenhuma publicitação.
Eram os tempos em que dominava, de uma maneira ou de outra, a comuniucação social, a mesma que julgava poder continuar a dominar como primeiro-ministro - mesmo que para tal tivessse que recorrer à JLM e Associados para montar uma central de comunicação.
Só que os métodos da JLM, se chegaram para tirar o Fernando Lima da direcção do DN, não conseguiram eliminar o José Rodrigues dos Santos - que conhece bem um dos associados do João Líbano Monteiro.
Se os tais métodos conseguiram manter no ar, quase em permanência, alguns dos ministros de Santana, foi porque, entretanto, as redacções foram sendo invadidas por jovens jornalistas PSD's desejosos de servir os chefes e, às vezes, mais do que chefes.
Todavia, nas redacções dos Órgãos de Comunicação Social, existe uma desconfiança generalizada relativamente aos "colegas" que mantêm contactos com os "associados", uma desconfiança que leva os profissionais com estatuto, com nome e currriculum a ignorar pura e simplesmente as "notícias" provenientes dos seus vários agentes
O resultado do falhanço da única estratégia que Pedro Santana Lopes tinha - o controlo da CS - é esta peça trágico-cómica em que, se por um lado o CDS, o partido mais pequeno da coligação, anuncia que está a elaborar o seu programa e as suas listas para concorrer sózinho, o PSD fala de uma plataforma eleitoral sem contornos definidos.
Os portugueses vão ficando esclarecidos e aliviados, já que o problema chamado Pedro Santana Lopes deixou de ser nacional- ele é apenas do PPD/PSD. Pode ser que os sociais-democratas portugueses se redescubram durante os caminhos que os hão-de levar à inevitável solução, ainda que demorada.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Os Pobres e os Ricos

Eleições em Moçambique com uma abstenção de 70 por cento. Os moçambicanos estão fora do sistema político criado pelos que agora concorrem às eleições presidenciais. Um dos países mais empobrecidos (não pobres) do Mundo, dirigido por uma elite que não pára de enriquecer vira costas às eleições e ninguém tem uma explicação plausível. Mas há quem venha explicando já há algum tempo. Talvez valha a pena ler um texto de Mia Couto de 5/08/2003 :(link) //http://bazongadakilumba.blog-city.com/read/169355.htm Talvez dê para perceber que em Moçambique os ricos escolhem entre si quem governa o dinheiro deles. Os outros não têm nada nem ningém para escolher. Faz lembrar a pátria de onde veio a palavra democracia. Lá também havia os que não votavam - os escravos. Por isso Sócrates dizia: "rendo graças aos deuses, sobretudo por ter nascido livre e não escravo".

O Petróleo

O Petróleo continua a descer nos mercados internacionais. A descida já vai em 12 por cento em pouco tempo. Todavia, as petrolíferas não dizem nada, estão mudas e quedas. Nós - alguns de nós - sabemos que os preços do petróleo não têm um reflexo imediato no preço dos combustíveis vendidos ao público em geral. Nós e as petrolíferas sabemos que os aumentos de hás uns meses atrás só tinham justitificação no relevo que a comunicação social dava aos aumentos sucessivos do preço do crude.
E agora? porque é que as petrolíferas não anunciam a diminuição do preço da gasolina e do gasóleo? Porque a comunicação social - nomeadamente e sobretudo as televisões - não falam da descida dos preços do crude.
Aqui, lembro.me daquela inscrição que havia no muro da futura barragem de Alqueva "Porra, construam-me".
Oh jornalistas desta terra, olhem para a gente desta terra, Porrra! já chega de cegueira.
Sabem que há uma directiva da União Europeia que obriga os jornalistas de economia a fazer declaração de património?