quinta-feira, dezembro 16, 2004

Heranças

Em Lisboa, perto do chamado "Túnel do Marquês" apareceram de um dia para o outro uns cartazes ("outdoors") a anunciar que alguém (não se sabe quem) queria parar a obra, mas «nós», a Câmara Municipal, "vamos fazê-lo".
É a herança da vitimização. Como se o Túnel do Marquês fosse uma necessidade e o processo que fez parar as obras tivesse constituído uma calamidade para os lisboetas.
Os lisboetas, os que vivem, de facto, na cidade, muito agradeciam que não se abrissem mais vias de invasão automóvel. E já agora: também agredeciam que o trânsito na cidade não fosse desenhado em função das entradas e saídas. As voltas que é preciso dar para fazer uma vida de cidadão normal nesta capital transformada em mundo de lata e de gases tóxicos!
Os cartazes da Câmara devem ser simpáticos para as empresas imobiliárias que vão vender as urbanizações da Artilharia 1 e do antigo Colégio dos Maristas entre a Travessa da Légua da Póvoa e a Avenida Duarte Pacheco e de que o público vai tomar conhecimento depois de o túnel do Marquês estar pronto - contra não se sabe quem - e com infraestruturas pagas pelos impostos de todos nós.
Quando o Engº. Cruz Abecassis deu luz verde à edificação do complexo das Amoreiras negociou com o seu promotor o pagamento das respectivas infraestruturas. Os promotores das novas urbanizações vão pagar alguma coisa pela vantagem de terem uma urbanização no centro da capital sem os inconvenientes do intenso tráfego, gerado na ligação com auto-estrada de Cascais? Vão partilhar com a Câmara, não com os autores dos "outdoors", as mais valias ali criadas?
Quem explica estes fenómenos? São os que herdaram a estratégia da vitimização ou é ele mesmo, o seu criador - o Pedro?

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Problema para netos resolverem

Quando toda a gente imaginava que o anedotário nacional acabara, eis que os dois se reunem no Ritz e, com toda a pompa e circunstância, anunciam a festa do divórcio. Só não se sabe onde foram passar a lua de mel. Vão regressar em breve ao casamento - a sério - para ralhar um com o outro. Novo casamento entre as respectivas famílias só já entre netos. Nessa altura espera-se que haja netas para a cerimónia.

São apenas conjecturas sugeridas por esta opereta a que temos assistido, com um final anunciado: no palco vai entrar um taxi para levar os deputados do PP ao Parlamento, já que vai ser necessário poupar para pagar as obras do Caldas. Paulo Portas recusar-se-á entrar.

No mesmo plano e mesma cena, ainda mais torto do que tem aparecido nos últimos dias, mais vergado e mais coitadinho, Santana Lopes sairá pela porta das traseiras para não ser visto pela multidão dos seus até agora apaniguados. Sem saber para onde ir, acabará, seguramente, por ser acolhido na Quinta, em grande festividade.

Ainda o FMI

Nos últimos tempos (já lá vão alguns anos), a economia, os economistas e o "economês" tomaram conta da política: Tudo se resume a números, ou à sua manipulação, uma vez que a mesma realidade algébrica nem sempre quer dizer a mesma coisa.
Agora reapareceu uma espécie de sindicato dos patrões, chamado "compromisso Portugal", cujo nascimento se anunciou como manifestação de apoio ao governo de Durão Barroso, mas que agora renasce como eminência parda do futuro poder.
Avistaram-se com o ainda primeiro-ministro e com o secretário-geral do PS, José Sócrates. No final, lá estavam os microfones com os respectivos pés, para ouvir que os senhores nem querem ser ministros de coisa nenhuma (alguns deixariam de ter dinheiro para os charutos), o que eles querem...o que eles querem é fazer lobi. Sejamos claros.
Lobi a favor de mais benefícios do Estado, lobi a favor de legislação laboral mais permissiva...lobi, enfim, no sentido de assustar o poder político, agora que a crise, sendo económica e social, também já é política.
Mal andam os políticos que não percebem as intenções por detrás destas movimentações. Mal andam os políticos que não sentem o cerco e se esquecem de afirmar o primado da política na gestão do Estado.
E o primado da política em Portugal determina, sem sombra para dúvidas, que as pessoas são o mais importante. As pessoas e, consequentemente, o espaço que elas habitam, a vida que lhes é permitida.
Em Portugal, no princípio do sec.XXI, o primado da política impõe um novo ordenamento do Território, um ordenamento que tenha em conta toda a gente que vive neste país, que começa a transbordar para o Oceano Atlântico, enquanto o interior arde porque não tem pessoas.
A um novo poder, eu, que não sou sindicato de coisa nenhuma e costumo reunir o meu comité central na cabine telefónica mais próxima, aconselho um Gabinete pequeno, com poucos ministros, mas de peso. E que um deles tenha o Ordenamento do Território, com capacidades várias, a mais importante das quais terá de ser a de implantar um Portugal coeso, do ponto de vista social e político. Colocar a economia ao serviço das pessoas - numa palavra
Aos economistas restará, nesta perspectiva, a tarefa (nobre tarefa) de sugerir programas que cumpram o objectivo. Sejam proactivos. Estamos todos cansados de os ouvir falar dos erros cometidos. Estou cansado de os ouvir defender os programas abandonados nos Estados Unidos, às vezes há mais de dez anos. E também estou surpreendido com o regresso dos gurús da economia do FMI. Talvez seja tempo para uma reedição do texto de José Mário Branco, suponho que de 1981, agora em CD. Sugiro para título: "Ainda o FMI".

Ex? Ditador (II)

A minha angústia de ontem pela alegria incontida dos chilenos transforma-se num sentimento de nojo: afinal o velho ditador nem sequer foi preso em casa. A defesa recorreu. A sensação de que aquele humanóide morrerá sem sequer sofrer um a parcela mínima do castigo que merece pelo sofrimento que inflingiu a milhares e milhares de pessoas é revoltante.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Ex? Ditador

Vejo as imagens. Tão a correr que, ou custam muito dinheiro, ou quem as edita acha que está a perder tempo. Terá, seguramente, alguns automóveis espatifados para mostrar de todos os ângulos possíveis...

Vejo as imagens vindas de Santiago e não posso deixar de me angustiar com a alegria estampada naqueles rostos de chilenos que, apesar de tudo, ainda têm alguma esperança. Esperança de que a morte dos seus mais queridos seja - ao menos! - lembrada.

É uma alegria que me angustia porque, afinal, o fascista ditador Pinochet é apenas acusado de 1 crime de homicídio e 9 de rapto.
A seguir, mais demoradamente, mostram o homem a quem chamam ex-ditador e a encenação que a sua gente faz para o exibir doente, incapacitado, coitado. As imagens demoram o tempo suficiente para lhe ver os olhos matreiros, como que a gozar o espectáculo.
São uns olhos que me fazem esquecer a angústia e me lembram todos os horrores que já vi descritos sobre os resultados das suas ordens a hordas de criminosos. Porque é que um monstro daqueles é apenas detido em casa e o Mundo lhe chama "ex-ditador"?
Nem no Inferno deixará de ser chamado de ditador, tirano, assassino! As agências noticiosas deviam ser mais rigorosas e chamar as coisas e os horrores pelos seus nomes: um ditador é sempre um ditador

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Os Excluídos

Nesta fase de pré-campanha eleitoral os políticos vão enchendo os ouvidos dos eleitores com palavras sonantes: Cidadania é uma delas. E a seguir, juntam-lhes uma outra: os excluídos. Seria bom que atentassem devidamente nos conceitos que estão por detrás delas. É que a gente que vem tomando conta do país deixou de reconhecer o direito à cidadania a muitos cidadãos: aos que foi despedindo, pura e simplesmente e aos que foi atirando para situações de pré-reforma, de reforma antecipada e outras situações ainda mais segregadoras.
Num tempo em que a esperança de vida tem subido, numa altura em que os sistemas de segurança social, por efeito das medidas que os descapitalizaram, ameaçam não ter capacidade para cumprir os compromissos assumidos com os cidadãos que os sustentam, os donos do país formam regimentos de excluídos, recorrendo às chamadas reestruturações de empresas, isto é, à elaboração de "projectos ambiciosos", que se resumem, em alguns casos, a mandar para casa alguns milhares de trabalhadores.
Deste modo, o país tem uma grande parte da sua capacidade humana na ociosidade, no desespero e as empresas vivem o drama de terem gente muito jovem mas sem experiência e sem conhecimento da realidade em que se movimentam, mas com características importantes: são primos do cunhado do motorista de sua excelência...
Estes donos do país fazem lembrar a colonização britânica na Austrália, que excluiu de todo e qualquer processo de produção os aborígenes. Mas, atenção: foi o PS que abriu as portas ao processo.

Refundação

Ouvimos as preocupações dos políticos e não podemos deixar de ficar preocupados: é que eles não vão além da descrição de estados de alma. E são sempre relativos aos seus adversários políticos, contextualizados no actual estado de coisas, um enredo que nunca mais tem fim. O Mundo dos políticos é um mundo à parte - só deles - mas que perturba a vida de toda a gente. O pobre mortal, que não faz política, que não conhece nenhum político, mas que os vê e ouve todos os dias nas televisões e nas rádios, tem um quotidiano angustiado.
Aquilo que ouve nunca encaixa na sua realidade, os problemas de que se fala não são os seus problemas e por mais foruns de opinião que se abram nas várias frequências públicas, ninguém o ouve.
A nossa é uma democracia de monólogos. A Nação não se entende com o Estado.
A Nação gostaria de ouvir os gestores do Estado, ou candidatos a isso, dizer que vão recuperar a nossa indústria, a nossa agricultura, a nosssa pesca, que vão acabar com os diversos tipos de exclusão e que não vão permitir que a Europa, de que fazemos parte e nos respalda dos disparates dos tais políticos, não nos vai transformar em mordomos, em homens e mulheres a dias daqueles que de facto mandam na Europa.
Daqueles que , tendo sido o ponto de partida para os tais fundos de coesão que nos ajudaram a sair da pobreza gerada nos tempos do fascismo, são também o ponto de chegada para grande parte desses mesmos fundos.
O que os portugueses gostavam de ouvir era uma declação de confiança em todos eles, de respeito pelos seus direitos, pela sua cultura, pela sua forma de estar na vida.
Estou seguro de que mesmo aqueles que vivendo longe e há muito tempo haveriam de recuperar o seu gosto e o seu orgulho de serem portugueses, se a política em Portugal deixasse de ser uma espécie de busca sistemática, e sempre frustrada, do homem providencial e se transformasse num instrumento de refundação de uma vontade nacional forte, mas assente no respeito pelos direitos de todos nós e não apenas nos privilégios de meia dúzia.

Os Erros a Evitar

Vejo no Canal 2 da RTP uma entrevista com Jorge Coelho. A falta de habilidade dos entrevistadores é evidente. Não me parece que tenham feito a mínima preparação para a entrevista e vão repetindo perguntas a que toda a gente já respondeu e insistem no julgamento aos governos de António Guterres. Jorge Coelho lá lhes vai dizendo que o PS já pagou pelos erros cometidos, mas eles insistem e querem saber que erros foram esses. O ex-ministro das polícias - agora elogiado por elas mesmas - e ex-ministro do Equipamento, um cargo que desejou dois anos antes de o ter - lá lhes aponta a má estratégia para a campanha de 99, da sua responsabilidade directa.
Na entrevista não assumiu esta responsabilidade pessoal, assim como na altura própria não assumiu o facto de ter sido o responsável pela perda de um deputado em Setúbal, círculo por onde concorreu, e pela derrota em Lisboa, de cuja Federação era presidente.
Para o PS seria bom que o mesmo Jorge Coelho, se voltar ao poder, no caso de os socialistas ganharem as próximas eleições, não repetisse a sua estratégia pessoal de alianças com gente do PSD em prejuizo dos seus próprios camaradas, para não acontecer o mesmo de há uns anos atrás: o PS tinha a responsabilidade política e o PSD os benefícios do poder.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Administradores-Comentadores

Já aqui deixei algumas observações sobre a dupla condição que Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes exibem publicamente: a de jornalistas promovidos à condição de Presidente e Vice-presidente da Lusomundo, uma empresa proprietária de órgãos de comunicação social, e a de comentadores políticos com posições pró e contra bem identificadas.
Também liguei a estranheza desta duplicidade ao facto de conhecer a existência de uma dependência orgânica muito forte entre a PT Multimédia e a SIC-Notícias, onde Luís Delgado exibia a sua boçalidade e Rezendes a sua subtileza canhestra.
Nos últimos dias, entretanto, as duas criaturas não têm aparecido na estação de Carnaxide (é assim que se diz em alguns meios jornalísticos), mas não se eximem a debitar as suas mais que previsíveis opiniões no Jornal em que foram jornalistas e de que são, agora, a quase suprema autoridade, o Diário de Notícias.
Digo "quase suprema", porque entre a deles há, pelo menos duas. A primeira e, segundo as regras definidas pela lei de imprensa, é a direcção do próprio jornal - posta em causa sempre que aparecem os escritos dos administradores, ainda auto-intitulados jornalistas.
A segunda é a da PTSGPS, principal accionista da PT Multimédia, por sua vez principal accionista da Lusomundo.
A PT SGPS sempre teve algum cuidado no seu relacionamento com a Comunicação Social e, mesmo, nos primeiros tempos, quando comprou a Lusomundo, a atitude dos principais órgãos de gestão foi de não interferência, deixando que as coisas corressem de acordo com os critérios existentes - pelo menos, foi essa a ideia que transpareceu.
Como é que, de repente, a PT, presidida por um aristocrata, por um gentleman da administração, aceita a promoção destas duas criaturas à condição de principais responsáveis por uma empresa que detém o controlo de um punhado de órgãos de comunicação social de grande peso na sociedade portuguesa?
Como é que Miguel Horta e Costa se deixou cair nesta armadilha? Como é que ele aceitou a pressão da JLM para a demissão de Fernando Lima, um profissional do jornalismo a que toda a gente reconhece uma postura irrepreensível ao longo da sua longa carreira, ainda que o identifique com o chamado "cavaquismo".
É que, apesar de tudo, os benefícios de Horta e Costa não parecem muito evidentes. Os seus amigos controladores de jornalistas não têm conseguido que os portugueses conheçam melhor (ou pior) o presidente do maior grupo empresarial português.
Será que os accionistas da PT, nomeadamente o BES, que domina de forma asfixiante o grupo (sem legitimidade para isso) tem planos para a Lusomundo e os impõe a MHC, exibindo, deste modo uma terceira autoridade quase clandestina, mas muito eficaz?
E já agora, uma última pergunta: será que a nova direcção do DN aceita as regras que Fernando Lima recusou e que são ditadas pela JLM?

O Estado-Empresa

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Clandestinidades do Nosso Tempo

Hoje em dia ninguém pensa em organizar um grupo político na clandestinidade. A democracia assenta na possibilidade que toda a gente tem de se juntar aos Partidos políticos existentes ou - se tiver força e influência para isso - fundar um outro, desde que cumpridas as necessárias formalidades legais. Digamos que, em matéria política, não há lugar para clandestinidades.
Todavia, a sociedade não é clara a todos os níveis e alguns dos que não são completamente claros atravessam a política, originando situações verdadeiramente inacreditáveis, quando olhadas às claras.
Não estou a falar da tendência portuguesa para uma certa prática do nepotismo, do amiguismo, etc., nem mesmo dos corredores que os dinheiros escuros percorrem para chegar sempre às mesmas bolsas.
Falo da necessidade urgente de o novo Parlamento, a sair das próximas eleições, aprovar, o mais depressa possível, uma lei que permita o casamento entre casais do mesmo sexo. Só desse modo a sociedade pode ficar livre da clandestinidade mais aberrante do nosso tempo.
Que os homossexuais tenham direito à família para nos salvarem de situações como as que, à boca pequena - trata-se de clandestinidades - se vão contando: ministros e secretários de estado ou chefes de gabinete a partilharem responsabilidades políticas e a cama; directores e directores adjuntos a partilharem opiniões e decisões de dia e noite, a todas as horas, situações que a ética por que se regem os casais heterossexuais impede que aconteçam.
Ao contrário do que possa parecer não estou a querer saber quem dorme com quem, estou apenas a defender o direito que os homossexuais têm de viver na plenitude os seus amores e o dever de a sociedade se organizar de forma cada vez mais transparente. Já nos bastam os lobis ilegais que já começaram, seguramente, a apertar o cerco a um eventual novo poder.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Libertem os Árbitros

Sou um apaixonado pelo futebol mas não consigo ler os jornais desportivos ( que são, de facto, jornais de futebol) e abomino as longas horas de conversa, quer na Rádio, quer na Televisão sobre o futebol. Mas, a verdade é que perante o verdadeiro bombardeamento noticioso sobre a "operação apito dourado" não posso ignorar as sua razões: alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Desde que me conheço que existe esta desconfiança. Ela vem de tempos em que todos os poderes eram autocráticos, totalitários, ditatoriais, etc. Aos árbitros não seria possível, sequer, sugerir a sua libertação dos esquemas apertados de controlo das entidades tutelares. Ora, a verdade é que, também alegadamente, vivemos em democracia há mais de trinta anos e, por isso, não faz sentido que não sejam os árbitros a regular a sua vida, a eleger os seus órgãos directivos a instituir os seus métodos de avaliação, a estabelecer o preço da sua colaboração, a decidir sobre se continuam como prestadores de serviços a um sector completamente profissionalizado, na condição de amadores.
Será que os árbitros têm interesse em continuar tutelados? Ou, pelo contrário, as várias tutelas desejam continuar a desenvolver alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Que diabo! Libertem os árbitros ! Ora aqui está um tema a sério para os jornais ditos desportivos e que apenas falam de futebol - bem como para preencher pelo menos uma das intermináveis horas que nas Rádios e nas Televisões se gastam a discutir o Benfica, o Sporting e o Porto - porque dos outros também não se fala.

Mudanças do PCP

Apenas uma repórter da SIC Notícias, com aquele seu ar de quem está sempre a dizer coisas inteligentes ( além disso chama-se Ana Bela) notou uma das mudanças do PCP, no seu último Congresso. O Novo Secretário Geral, afinador de máquinas de profissão, pegou ao colo do neto, um gesto que, segundo a Ana Bela, configurava o início de uma nova atitude - o culto de personalidade de Jerónimo de Sousa. Mais ninguém - que eu tivesse ouvido ou lido - notou outras importantes mudanças: é que, sendo adepto do Benfica, o novo dirigente máximo (ou será o novo homem forte?) percebe que o seu jovem neto tem tendências sportinguistas e afirmou essa desconfiança ( ou será certeza?) em entrevista a Maria Flor Pedroso, na RDP. Ora esta tendência e esta aceitação prenuncia a mudança fundamental do novo PCP - as próximas gerações comunistas terão direito à discordância pública e publicitada.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Santana é um problema do PPD/PSD

A vida política portuguesa das últimas semanas atinge as raias do burlesco, mas tem um lado trágico-cómico que confrange pelo ridículo que revela. As reuniões dos estados-maiores dos partidos, os comunicados dos porta-vozes, as jogadas de antecipação percebidas pela recusa de falar com os jornalistas, a quem - entretanto - se comunicou, evidentemente, a existência de uma reunião. O que é preciso é o folclore das câmaras.
Os editores das televisões ainda não perceberam que não vale a pena mandar o microfone com o respectivo pé - basta a câmara para filmar os senhores, umas vezes com berrantes gravatas, outras com fatos desportivos a evidenciarem o como estão confrotáveis na pel e de políticos em fim de semana e quase a entrar de férias.
O CDS/PP vai ganhando as várias jogadas a que já assistimos e ainda não mecheu nenhuma peça importante. O PPD/PSD parece um clube da Segunda divisão a tentar não descer à terceira e impossibilitado de fazer uma chicotada psicológica - vai ter que sofrer até ao fim com o mesmo treinador.
Para o PPD/PSD no seu conjunto este cenário é um verdadeiro pesadelo. É que este partido é apenas um agrupamento de interesses e de pessoas com especial apetência para o poder. Basta veririficar que dos quase 31 anos da democracia portuguesa, 24 foram inteiramente dominados pelas suas siglas. E mesmo os seis anos de governo do PS têm, em muitas áreas, especialmente em empresas decisivas, o seu carimbo.
Pela primeira vez - se os homens que representam os interesses que os têm segurado no poder, nada fizerem - os chamados sociais-democratas vão iniciar uma longa travessia do deserto, um deserto tão agreste que pode implicar consequências catastróficas para os tais interesses e para os tais grupos de homens.
E tudo isto porque não conseguiram perceber na altura certa que mais lhes valia perder o poder por uns tempos, do que apostar num líder em quem ninguém confiava, um homem sem obra, só com conversa, conversa sem ideias.
Nem como dirigente desportivo conseguiu realizar nada. Como Presidente da Câmara da Figueira da Foz deixou um buraco de dívidas tão grande que o seu sucessor não tem feito outra coisa que pagar os calotes que por lá ficaram. De resto, ao relatório do Tribunal de Contas sobre a gestão de Santana na Figueira da Foz nunca foi dada nenhuma publicitação.
Eram os tempos em que dominava, de uma maneira ou de outra, a comuniucação social, a mesma que julgava poder continuar a dominar como primeiro-ministro - mesmo que para tal tivessse que recorrer à JLM e Associados para montar uma central de comunicação.
Só que os métodos da JLM, se chegaram para tirar o Fernando Lima da direcção do DN, não conseguiram eliminar o José Rodrigues dos Santos - que conhece bem um dos associados do João Líbano Monteiro.
Se os tais métodos conseguiram manter no ar, quase em permanência, alguns dos ministros de Santana, foi porque, entretanto, as redacções foram sendo invadidas por jovens jornalistas PSD's desejosos de servir os chefes e, às vezes, mais do que chefes.
Todavia, nas redacções dos Órgãos de Comunicação Social, existe uma desconfiança generalizada relativamente aos "colegas" que mantêm contactos com os "associados", uma desconfiança que leva os profissionais com estatuto, com nome e currriculum a ignorar pura e simplesmente as "notícias" provenientes dos seus vários agentes
O resultado do falhanço da única estratégia que Pedro Santana Lopes tinha - o controlo da CS - é esta peça trágico-cómica em que, se por um lado o CDS, o partido mais pequeno da coligação, anuncia que está a elaborar o seu programa e as suas listas para concorrer sózinho, o PSD fala de uma plataforma eleitoral sem contornos definidos.
Os portugueses vão ficando esclarecidos e aliviados, já que o problema chamado Pedro Santana Lopes deixou de ser nacional- ele é apenas do PPD/PSD. Pode ser que os sociais-democratas portugueses se redescubram durante os caminhos que os hão-de levar à inevitável solução, ainda que demorada.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Os Pobres e os Ricos

Eleições em Moçambique com uma abstenção de 70 por cento. Os moçambicanos estão fora do sistema político criado pelos que agora concorrem às eleições presidenciais. Um dos países mais empobrecidos (não pobres) do Mundo, dirigido por uma elite que não pára de enriquecer vira costas às eleições e ninguém tem uma explicação plausível. Mas há quem venha explicando já há algum tempo. Talvez valha a pena ler um texto de Mia Couto de 5/08/2003 :(link) //http://bazongadakilumba.blog-city.com/read/169355.htm Talvez dê para perceber que em Moçambique os ricos escolhem entre si quem governa o dinheiro deles. Os outros não têm nada nem ningém para escolher. Faz lembrar a pátria de onde veio a palavra democracia. Lá também havia os que não votavam - os escravos. Por isso Sócrates dizia: "rendo graças aos deuses, sobretudo por ter nascido livre e não escravo".

O Petróleo

O Petróleo continua a descer nos mercados internacionais. A descida já vai em 12 por cento em pouco tempo. Todavia, as petrolíferas não dizem nada, estão mudas e quedas. Nós - alguns de nós - sabemos que os preços do petróleo não têm um reflexo imediato no preço dos combustíveis vendidos ao público em geral. Nós e as petrolíferas sabemos que os aumentos de hás uns meses atrás só tinham justitificação no relevo que a comunicação social dava aos aumentos sucessivos do preço do crude.
E agora? porque é que as petrolíferas não anunciam a diminuição do preço da gasolina e do gasóleo? Porque a comunicação social - nomeadamente e sobretudo as televisões - não falam da descida dos preços do crude.
Aqui, lembro.me daquela inscrição que havia no muro da futura barragem de Alqueva "Porra, construam-me".
Oh jornalistas desta terra, olhem para a gente desta terra, Porrra! já chega de cegueira.
Sabem que há uma directiva da União Europeia que obriga os jornalistas de economia a fazer declaração de património?

Um País Parado

O País está parado. Ainda bem. Um passo mais e estaríamos estatelados no fundo precipício. O problema não é esse, o problema é que vai estar parado demasiado tempo. As instituições funcionam a carvão. O Presidente da República tem que cumprir não sei quantas formalidades e prazos para parar de facto o combóio da desgraça. Depois há os prazos das eleições e mais o tempo de espera depois delas. O país só vai andar daqui a seis meses ou mais.
Ora aqui está um tema sobre o qual se devia reflectir - sobretudo os Partidos que vão concorrer às eleições. Agora é que é tempo de apresentar propostas aos cidadãos.A criação de um sistema mais expedito, para nos livrarmos destes maquinistas suicidas talvez fosse bem visto.
Para além das vantagens que a rapidez de substituição de um mau governo tem, haveria ainda uma outra: obrigava os partidos políticos a estar permanentemente preparados para eleições, sob todos os pontos de vista, inclusivé o de saberem que entre os seus dirigentes há gente de quem o povo desconfia. A memória colectiva funciona melhor para os erros.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Os Comentadores - Jornalistas

Já aqui fiz um reparo à permanência obsessiva de dois comentadores políticos na SIC Notícias e a relacionei com os contratos de parceria que existem entre a PT Multimédia e a SIC, por um lado, e a relação de poder absoluto entre a PT Multimédia e a Lusomundo, por outro. Repito os nomes: Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes. Se, como jornalistas, pertencentes à Direcção de um Jornal, a sua posição validava as opiniões que expendiam, como presidente e vice-presidente da Lusomundo, as suas opiniões não têm o mesmo valor e, no caso, têm até alguns pressupostos que as deviam inibir. Refiro-me ao facto de se anunciar a possibilidade de venda da Lusomundo.
Esta possibilidade tem contornos mal definidos já que, se, por um lado, aparece como uma quase solução política para o que se considera a influência do governo numa panóplia de órgãos de comunicação social considerável, através de uma "golden share" do Estado na Portugal Telecom, por outro, ela é insinuada, nos chamados "meios bem informados" como uma operação que, beneficiando, sobretudo da posição de Luís Delgado na Lusomundo, faria passar a propriedade dos tais importantes órgãos de comunicação social para as mãos de gente ligada à política.
Neste cenário percebe-se mal que a SIC Notícias, que depende muito dos financiamentos da PTMultimédia, continue a recorrer a estes dois comentadores, em programas que, aparentemente, pretendem esclarecer a opinião pública, isto é, um conjunto muito grande de cidadãos, que, na altura própria, vai decidir em quem votar e, por isso, definir o novo poder político em Portugal. Ora, se o poder mudar, os projectos destes dois "comentadores"e dos interesses que os suportam, podem não se concretizar, pelo que o empenhamento com que defendem as suas opiniões não pode ser entendido como uma convicção político-ideológica. É um mero instrumento de negócio
De resto, a chusma de programas televisivos e radiofónicos com o aparente objectivo de promover a troca de opiniões é um dos nossos pecados, não porque o debate não seja importante, mas porque os intervenientes são sempre os mesmos, a dizer sempre as mesmas coisas. Muitos deles - percebe-se - já vivem há anos fora da realidade e apenas sabem discutir as intrigas dos corredores do poder, dos vários poderes que nos vão azucrinando a vida.
Se assim não fosse, já teriam aproveitado a oportunidade para promover a discussão dos problemas concretos do país, que têm a ver com a criação de riqueza e com a sua melhor distribuição, com o fim da Agricultura, da Indústria, da Pesca, com o encerramento de pequenas e médias empresas nacionais e com a fuga de grandes empresas internacionais.
Se conhecessem a realidade já se teriam preocupado em levar ao debate o aumento exponencial dos sem abrigo nas grandes cidades do país, sem se servir de reportagens acompanhadas pelos senhores vereadores camarários que tentam construir imagem em cima de algumas horas de atenção aos despojados da vida pelos poderes que se sentam às mesas redondas dos debates e, em simultâneo, à mesa dos orçamentos, cada vez mais difíceis de decifrar.
A verdade é que a maior parte destes comentadores-jornalistas são apenas porta-vozes de interesses e muitos deles, como jornalistas, nem sabem como é que se começa uma notícia, porque elas lhes aparecem "cozinhadas"pelo telefone, pelo fax ou pela internet, ou lhes são sugeridas em almoços pagos, em muitos casos, pelo produto do saque a que os novos-pobres foram sujeitos pelos novos-ricos.

As Estratégias

A notícia, segundo a qual António Vitorino é o coordenador da elaboração do programa de governo com que o PS vai concorrer às eleições deste fim de Inverno é animadora e não apenas porque ele é a prova de que a profecia do "sebastianismo" às vezes se concretiza.
Toda a gente reconhece grandes qualidades de trabalho, saber e inteligência ao ex-comissário europeu e, portanto, é natural que a informação prestada pelo secretário-geral, José Socrates, anime sobretudo os socialistas, mas também os que, independentemente de cores partidárias, estão desejosos de ver um rumo e perceber uma estratégia para o país.
Uma estratégia, que, no caso da política externa, deveria conhecer uma viragem total, relativamente à que Portugal teve desde sempre. Nunca este país conseguiu delinear um programa de acção que, ao nível externo, respeitando os interesses do Estado, os incluisse nos interesses dos cidadãos.
Portugal foi dando mundos ao mundo e abandonando-os à sua sorte, desprezando os cidadãos que os iam povoando ou criando. E não me refiro apenas à chamada "epopeia das descobertas", levada a cabo por muitos poucos portugueses. Bem mais foram aqueles que, sobretudo durante quase todo o século XX, criaram outras cidades, outras comunidades, outras fábricas, outras riquezas - em outros países onde normalmente foram recebidos como cidadãos de baixa categoria.
Bem mais foram os que tiveram que lutar contra os racismos vários, contras as descriminações variadas, para vencer, muitas vezes para sobreviver, sem que o seu Estado lhes identificasse os méritos, os ajudasse nas dificuldades ou, sequer, os reconhecesse.
Desde sempre que a política externa portuguesa passou ao lado dos portugueses. Em muitas situações, as próprias embaixadas portuguesas não existem para atender aos problemas dos portugueses.
E, todavia, quando olhamos para o mapa do Mundo é difícil apontar uma região onde não haja ou tivesse havido portugueses. Portugueses que se reproduziram, que se integraram - e bem - nas comunidades que os acolheram. Na maior parte dos casos integraram-se depressa demais, para escaparem à condição de portugueses. Aprenderam rapidamente as línguas de adopção, que ensinaram aos filhos e a quem impuseram a condição de naturais do país de nascimento.
Rapidamente, da primeira para a segunda geração, Portugal perdeu o mais importante da sua riqueza - a sua gente. Basta pensar nos números da emigração portuguesa desde o princípio do século XX para imaginar os estragos que a política externa deste Estado, cuja Nação se foi repartindo pelo Mundo nos causou a todos. Porque o bom seria ter tido uma política externa com a estratégia de manter ligada a comunidade portuguesa, ainda que também francesa, também inglesa, também americana, também africana, também tudo o resto.
Se esta estratégia tivesse sido delineada e executada a tempo, não teriamos perdido gerações de portugueses e seríamos - também na diferença - a maior Nação da Europa, com influências positivas em grande parte do Mundo.
Agora que Portugal vai ver a sua política externa, concebida como o braço defensor dos interesses do Estado no exterior, integrada na União Europeia, é tempo de virar o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros para os portugueses, dedicando-se ao estudo e implantação de uma estratégia de unidade desta grande Nação.
António Vitorino como orientador da elaboração do programa de governo do PS tem ainda outra vantagem: esteve no estrangeiro o tempo suficiente para apreciar o valor dos portugueses fora do país e para avaliar o desgosto que sentem por perceberem que em Portugal ninguém pensa neles de forma proactiva.
Basta ouvir a Rádio e ver a Televisão que se faz para as comunidades portuguesas e para as que falam português para se entender a necessidade de uma estratégia que pense Portugal no Mundo. Neste domínio, do da comunicação social, só mesmo uma estratégia de «começar do zero»

Faltou o buzinão

Esta noite, ao fim da tarde, fiquei atento, à espera de ouvir as buzinas, de presenciar da minha janela a confusão de muitos automóveis na rua, com toda a gente a acenar uns aos outros e a rir, assim como quando, depois de 18 anos, o Sporting ganhou o campeonato. Ou melhor, como quando toda a gente, há trinta anos, saiu à Rua para se encontrar a si mesma e descobrir-se nos olhos de todos os outros. Mas não, não houve buzinão, nem alegria na rua, nem cumprimentos sorridentes. Toda a gente ficou em casa a confraternizar com as suas esperanças. Um dos meus amigos, a quem telefonei, todavia, tinha saído. A mulher dele, minha amiga também, disse-me que lhe parecia que ele teria ido a correr, para votar.