sexta-feira, dezembro 10, 2004

O Estado-Empresa

Santana Lopes encarregou António Mexia de elaborar o programa de governo com que este PPD/PSD vai concorrer às próximas eleições legislativas antecipadas. Esta decisão do chefe (ou estará melhor dito caudilho?) do PSD pode ter várias interpretações. Deixo, todavia, apenas duas: ou o chefe acredita que é possível transformar o Estado numa empresa lucrativa, já que os cidadãos cumpridores e temerosos da lei vão continuar a pagar impostos para sustentar o Estado e os mesmos cidadãos, transformados em consumidores vão pagar tudo o que consumirem , de acordo com o único princípio defendido por António Mexia, o do consumidor-pagador.
Ou o Chefe acredita que a JLM ( João Líbano Monteiro e Associados) a poderosa central de comunicação (ou será melhor dito, de intoxicação ?), que suportou as sucessivas aparições de Mexia nas televisões e nos jornais vai fazer do programa do PPD/PSD um bestseller.

Clandestinidades do Nosso Tempo

Hoje em dia ninguém pensa em organizar um grupo político na clandestinidade. A democracia assenta na possibilidade que toda a gente tem de se juntar aos Partidos políticos existentes ou - se tiver força e influência para isso - fundar um outro, desde que cumpridas as necessárias formalidades legais. Digamos que, em matéria política, não há lugar para clandestinidades.
Todavia, a sociedade não é clara a todos os níveis e alguns dos que não são completamente claros atravessam a política, originando situações verdadeiramente inacreditáveis, quando olhadas às claras.
Não estou a falar da tendência portuguesa para uma certa prática do nepotismo, do amiguismo, etc., nem mesmo dos corredores que os dinheiros escuros percorrem para chegar sempre às mesmas bolsas.
Falo da necessidade urgente de o novo Parlamento, a sair das próximas eleições, aprovar, o mais depressa possível, uma lei que permita o casamento entre casais do mesmo sexo. Só desse modo a sociedade pode ficar livre da clandestinidade mais aberrante do nosso tempo.
Que os homossexuais tenham direito à família para nos salvarem de situações como as que, à boca pequena - trata-se de clandestinidades - se vão contando: ministros e secretários de estado ou chefes de gabinete a partilharem responsabilidades políticas e a cama; directores e directores adjuntos a partilharem opiniões e decisões de dia e noite, a todas as horas, situações que a ética por que se regem os casais heterossexuais impede que aconteçam.
Ao contrário do que possa parecer não estou a querer saber quem dorme com quem, estou apenas a defender o direito que os homossexuais têm de viver na plenitude os seus amores e o dever de a sociedade se organizar de forma cada vez mais transparente. Já nos bastam os lobis ilegais que já começaram, seguramente, a apertar o cerco a um eventual novo poder.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Libertem os Árbitros

Sou um apaixonado pelo futebol mas não consigo ler os jornais desportivos ( que são, de facto, jornais de futebol) e abomino as longas horas de conversa, quer na Rádio, quer na Televisão sobre o futebol. Mas, a verdade é que perante o verdadeiro bombardeamento noticioso sobre a "operação apito dourado" não posso ignorar as sua razões: alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Desde que me conheço que existe esta desconfiança. Ela vem de tempos em que todos os poderes eram autocráticos, totalitários, ditatoriais, etc. Aos árbitros não seria possível, sequer, sugerir a sua libertação dos esquemas apertados de controlo das entidades tutelares. Ora, a verdade é que, também alegadamente, vivemos em democracia há mais de trinta anos e, por isso, não faz sentido que não sejam os árbitros a regular a sua vida, a eleger os seus órgãos directivos a instituir os seus métodos de avaliação, a estabelecer o preço da sua colaboração, a decidir sobre se continuam como prestadores de serviços a um sector completamente profissionalizado, na condição de amadores.
Será que os árbitros têm interesse em continuar tutelados? Ou, pelo contrário, as várias tutelas desejam continuar a desenvolver alegadas pressões ou mesmo acções de corrupção sobre os árbitros.
Que diabo! Libertem os árbitros ! Ora aqui está um tema a sério para os jornais ditos desportivos e que apenas falam de futebol - bem como para preencher pelo menos uma das intermináveis horas que nas Rádios e nas Televisões se gastam a discutir o Benfica, o Sporting e o Porto - porque dos outros também não se fala.

Mudanças do PCP

Apenas uma repórter da SIC Notícias, com aquele seu ar de quem está sempre a dizer coisas inteligentes ( além disso chama-se Ana Bela) notou uma das mudanças do PCP, no seu último Congresso. O Novo Secretário Geral, afinador de máquinas de profissão, pegou ao colo do neto, um gesto que, segundo a Ana Bela, configurava o início de uma nova atitude - o culto de personalidade de Jerónimo de Sousa. Mais ninguém - que eu tivesse ouvido ou lido - notou outras importantes mudanças: é que, sendo adepto do Benfica, o novo dirigente máximo (ou será o novo homem forte?) percebe que o seu jovem neto tem tendências sportinguistas e afirmou essa desconfiança ( ou será certeza?) em entrevista a Maria Flor Pedroso, na RDP. Ora esta tendência e esta aceitação prenuncia a mudança fundamental do novo PCP - as próximas gerações comunistas terão direito à discordância pública e publicitada.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Santana é um problema do PPD/PSD

A vida política portuguesa das últimas semanas atinge as raias do burlesco, mas tem um lado trágico-cómico que confrange pelo ridículo que revela. As reuniões dos estados-maiores dos partidos, os comunicados dos porta-vozes, as jogadas de antecipação percebidas pela recusa de falar com os jornalistas, a quem - entretanto - se comunicou, evidentemente, a existência de uma reunião. O que é preciso é o folclore das câmaras.
Os editores das televisões ainda não perceberam que não vale a pena mandar o microfone com o respectivo pé - basta a câmara para filmar os senhores, umas vezes com berrantes gravatas, outras com fatos desportivos a evidenciarem o como estão confrotáveis na pel e de políticos em fim de semana e quase a entrar de férias.
O CDS/PP vai ganhando as várias jogadas a que já assistimos e ainda não mecheu nenhuma peça importante. O PPD/PSD parece um clube da Segunda divisão a tentar não descer à terceira e impossibilitado de fazer uma chicotada psicológica - vai ter que sofrer até ao fim com o mesmo treinador.
Para o PPD/PSD no seu conjunto este cenário é um verdadeiro pesadelo. É que este partido é apenas um agrupamento de interesses e de pessoas com especial apetência para o poder. Basta veririficar que dos quase 31 anos da democracia portuguesa, 24 foram inteiramente dominados pelas suas siglas. E mesmo os seis anos de governo do PS têm, em muitas áreas, especialmente em empresas decisivas, o seu carimbo.
Pela primeira vez - se os homens que representam os interesses que os têm segurado no poder, nada fizerem - os chamados sociais-democratas vão iniciar uma longa travessia do deserto, um deserto tão agreste que pode implicar consequências catastróficas para os tais interesses e para os tais grupos de homens.
E tudo isto porque não conseguiram perceber na altura certa que mais lhes valia perder o poder por uns tempos, do que apostar num líder em quem ninguém confiava, um homem sem obra, só com conversa, conversa sem ideias.
Nem como dirigente desportivo conseguiu realizar nada. Como Presidente da Câmara da Figueira da Foz deixou um buraco de dívidas tão grande que o seu sucessor não tem feito outra coisa que pagar os calotes que por lá ficaram. De resto, ao relatório do Tribunal de Contas sobre a gestão de Santana na Figueira da Foz nunca foi dada nenhuma publicitação.
Eram os tempos em que dominava, de uma maneira ou de outra, a comuniucação social, a mesma que julgava poder continuar a dominar como primeiro-ministro - mesmo que para tal tivessse que recorrer à JLM e Associados para montar uma central de comunicação.
Só que os métodos da JLM, se chegaram para tirar o Fernando Lima da direcção do DN, não conseguiram eliminar o José Rodrigues dos Santos - que conhece bem um dos associados do João Líbano Monteiro.
Se os tais métodos conseguiram manter no ar, quase em permanência, alguns dos ministros de Santana, foi porque, entretanto, as redacções foram sendo invadidas por jovens jornalistas PSD's desejosos de servir os chefes e, às vezes, mais do que chefes.
Todavia, nas redacções dos Órgãos de Comunicação Social, existe uma desconfiança generalizada relativamente aos "colegas" que mantêm contactos com os "associados", uma desconfiança que leva os profissionais com estatuto, com nome e currriculum a ignorar pura e simplesmente as "notícias" provenientes dos seus vários agentes
O resultado do falhanço da única estratégia que Pedro Santana Lopes tinha - o controlo da CS - é esta peça trágico-cómica em que, se por um lado o CDS, o partido mais pequeno da coligação, anuncia que está a elaborar o seu programa e as suas listas para concorrer sózinho, o PSD fala de uma plataforma eleitoral sem contornos definidos.
Os portugueses vão ficando esclarecidos e aliviados, já que o problema chamado Pedro Santana Lopes deixou de ser nacional- ele é apenas do PPD/PSD. Pode ser que os sociais-democratas portugueses se redescubram durante os caminhos que os hão-de levar à inevitável solução, ainda que demorada.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Os Pobres e os Ricos

Eleições em Moçambique com uma abstenção de 70 por cento. Os moçambicanos estão fora do sistema político criado pelos que agora concorrem às eleições presidenciais. Um dos países mais empobrecidos (não pobres) do Mundo, dirigido por uma elite que não pára de enriquecer vira costas às eleições e ninguém tem uma explicação plausível. Mas há quem venha explicando já há algum tempo. Talvez valha a pena ler um texto de Mia Couto de 5/08/2003 :(link) //http://bazongadakilumba.blog-city.com/read/169355.htm Talvez dê para perceber que em Moçambique os ricos escolhem entre si quem governa o dinheiro deles. Os outros não têm nada nem ningém para escolher. Faz lembrar a pátria de onde veio a palavra democracia. Lá também havia os que não votavam - os escravos. Por isso Sócrates dizia: "rendo graças aos deuses, sobretudo por ter nascido livre e não escravo".

O Petróleo

O Petróleo continua a descer nos mercados internacionais. A descida já vai em 12 por cento em pouco tempo. Todavia, as petrolíferas não dizem nada, estão mudas e quedas. Nós - alguns de nós - sabemos que os preços do petróleo não têm um reflexo imediato no preço dos combustíveis vendidos ao público em geral. Nós e as petrolíferas sabemos que os aumentos de hás uns meses atrás só tinham justitificação no relevo que a comunicação social dava aos aumentos sucessivos do preço do crude.
E agora? porque é que as petrolíferas não anunciam a diminuição do preço da gasolina e do gasóleo? Porque a comunicação social - nomeadamente e sobretudo as televisões - não falam da descida dos preços do crude.
Aqui, lembro.me daquela inscrição que havia no muro da futura barragem de Alqueva "Porra, construam-me".
Oh jornalistas desta terra, olhem para a gente desta terra, Porrra! já chega de cegueira.
Sabem que há uma directiva da União Europeia que obriga os jornalistas de economia a fazer declaração de património?

Um País Parado

O País está parado. Ainda bem. Um passo mais e estaríamos estatelados no fundo precipício. O problema não é esse, o problema é que vai estar parado demasiado tempo. As instituições funcionam a carvão. O Presidente da República tem que cumprir não sei quantas formalidades e prazos para parar de facto o combóio da desgraça. Depois há os prazos das eleições e mais o tempo de espera depois delas. O país só vai andar daqui a seis meses ou mais.
Ora aqui está um tema sobre o qual se devia reflectir - sobretudo os Partidos que vão concorrer às eleições. Agora é que é tempo de apresentar propostas aos cidadãos.A criação de um sistema mais expedito, para nos livrarmos destes maquinistas suicidas talvez fosse bem visto.
Para além das vantagens que a rapidez de substituição de um mau governo tem, haveria ainda uma outra: obrigava os partidos políticos a estar permanentemente preparados para eleições, sob todos os pontos de vista, inclusivé o de saberem que entre os seus dirigentes há gente de quem o povo desconfia. A memória colectiva funciona melhor para os erros.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Os Comentadores - Jornalistas

Já aqui fiz um reparo à permanência obsessiva de dois comentadores políticos na SIC Notícias e a relacionei com os contratos de parceria que existem entre a PT Multimédia e a SIC, por um lado, e a relação de poder absoluto entre a PT Multimédia e a Lusomundo, por outro. Repito os nomes: Luís Delgado e Mário Bettencourt Rezendes. Se, como jornalistas, pertencentes à Direcção de um Jornal, a sua posição validava as opiniões que expendiam, como presidente e vice-presidente da Lusomundo, as suas opiniões não têm o mesmo valor e, no caso, têm até alguns pressupostos que as deviam inibir. Refiro-me ao facto de se anunciar a possibilidade de venda da Lusomundo.
Esta possibilidade tem contornos mal definidos já que, se, por um lado, aparece como uma quase solução política para o que se considera a influência do governo numa panóplia de órgãos de comunicação social considerável, através de uma "golden share" do Estado na Portugal Telecom, por outro, ela é insinuada, nos chamados "meios bem informados" como uma operação que, beneficiando, sobretudo da posição de Luís Delgado na Lusomundo, faria passar a propriedade dos tais importantes órgãos de comunicação social para as mãos de gente ligada à política.
Neste cenário percebe-se mal que a SIC Notícias, que depende muito dos financiamentos da PTMultimédia, continue a recorrer a estes dois comentadores, em programas que, aparentemente, pretendem esclarecer a opinião pública, isto é, um conjunto muito grande de cidadãos, que, na altura própria, vai decidir em quem votar e, por isso, definir o novo poder político em Portugal. Ora, se o poder mudar, os projectos destes dois "comentadores"e dos interesses que os suportam, podem não se concretizar, pelo que o empenhamento com que defendem as suas opiniões não pode ser entendido como uma convicção político-ideológica. É um mero instrumento de negócio
De resto, a chusma de programas televisivos e radiofónicos com o aparente objectivo de promover a troca de opiniões é um dos nossos pecados, não porque o debate não seja importante, mas porque os intervenientes são sempre os mesmos, a dizer sempre as mesmas coisas. Muitos deles - percebe-se - já vivem há anos fora da realidade e apenas sabem discutir as intrigas dos corredores do poder, dos vários poderes que nos vão azucrinando a vida.
Se assim não fosse, já teriam aproveitado a oportunidade para promover a discussão dos problemas concretos do país, que têm a ver com a criação de riqueza e com a sua melhor distribuição, com o fim da Agricultura, da Indústria, da Pesca, com o encerramento de pequenas e médias empresas nacionais e com a fuga de grandes empresas internacionais.
Se conhecessem a realidade já se teriam preocupado em levar ao debate o aumento exponencial dos sem abrigo nas grandes cidades do país, sem se servir de reportagens acompanhadas pelos senhores vereadores camarários que tentam construir imagem em cima de algumas horas de atenção aos despojados da vida pelos poderes que se sentam às mesas redondas dos debates e, em simultâneo, à mesa dos orçamentos, cada vez mais difíceis de decifrar.
A verdade é que a maior parte destes comentadores-jornalistas são apenas porta-vozes de interesses e muitos deles, como jornalistas, nem sabem como é que se começa uma notícia, porque elas lhes aparecem "cozinhadas"pelo telefone, pelo fax ou pela internet, ou lhes são sugeridas em almoços pagos, em muitos casos, pelo produto do saque a que os novos-pobres foram sujeitos pelos novos-ricos.

As Estratégias

A notícia, segundo a qual António Vitorino é o coordenador da elaboração do programa de governo com que o PS vai concorrer às eleições deste fim de Inverno é animadora e não apenas porque ele é a prova de que a profecia do "sebastianismo" às vezes se concretiza.
Toda a gente reconhece grandes qualidades de trabalho, saber e inteligência ao ex-comissário europeu e, portanto, é natural que a informação prestada pelo secretário-geral, José Socrates, anime sobretudo os socialistas, mas também os que, independentemente de cores partidárias, estão desejosos de ver um rumo e perceber uma estratégia para o país.
Uma estratégia, que, no caso da política externa, deveria conhecer uma viragem total, relativamente à que Portugal teve desde sempre. Nunca este país conseguiu delinear um programa de acção que, ao nível externo, respeitando os interesses do Estado, os incluisse nos interesses dos cidadãos.
Portugal foi dando mundos ao mundo e abandonando-os à sua sorte, desprezando os cidadãos que os iam povoando ou criando. E não me refiro apenas à chamada "epopeia das descobertas", levada a cabo por muitos poucos portugueses. Bem mais foram aqueles que, sobretudo durante quase todo o século XX, criaram outras cidades, outras comunidades, outras fábricas, outras riquezas - em outros países onde normalmente foram recebidos como cidadãos de baixa categoria.
Bem mais foram os que tiveram que lutar contra os racismos vários, contras as descriminações variadas, para vencer, muitas vezes para sobreviver, sem que o seu Estado lhes identificasse os méritos, os ajudasse nas dificuldades ou, sequer, os reconhecesse.
Desde sempre que a política externa portuguesa passou ao lado dos portugueses. Em muitas situações, as próprias embaixadas portuguesas não existem para atender aos problemas dos portugueses.
E, todavia, quando olhamos para o mapa do Mundo é difícil apontar uma região onde não haja ou tivesse havido portugueses. Portugueses que se reproduziram, que se integraram - e bem - nas comunidades que os acolheram. Na maior parte dos casos integraram-se depressa demais, para escaparem à condição de portugueses. Aprenderam rapidamente as línguas de adopção, que ensinaram aos filhos e a quem impuseram a condição de naturais do país de nascimento.
Rapidamente, da primeira para a segunda geração, Portugal perdeu o mais importante da sua riqueza - a sua gente. Basta pensar nos números da emigração portuguesa desde o princípio do século XX para imaginar os estragos que a política externa deste Estado, cuja Nação se foi repartindo pelo Mundo nos causou a todos. Porque o bom seria ter tido uma política externa com a estratégia de manter ligada a comunidade portuguesa, ainda que também francesa, também inglesa, também americana, também africana, também tudo o resto.
Se esta estratégia tivesse sido delineada e executada a tempo, não teriamos perdido gerações de portugueses e seríamos - também na diferença - a maior Nação da Europa, com influências positivas em grande parte do Mundo.
Agora que Portugal vai ver a sua política externa, concebida como o braço defensor dos interesses do Estado no exterior, integrada na União Europeia, é tempo de virar o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros para os portugueses, dedicando-se ao estudo e implantação de uma estratégia de unidade desta grande Nação.
António Vitorino como orientador da elaboração do programa de governo do PS tem ainda outra vantagem: esteve no estrangeiro o tempo suficiente para apreciar o valor dos portugueses fora do país e para avaliar o desgosto que sentem por perceberem que em Portugal ninguém pensa neles de forma proactiva.
Basta ouvir a Rádio e ver a Televisão que se faz para as comunidades portuguesas e para as que falam português para se entender a necessidade de uma estratégia que pense Portugal no Mundo. Neste domínio, do da comunicação social, só mesmo uma estratégia de «começar do zero»

Faltou o buzinão

Esta noite, ao fim da tarde, fiquei atento, à espera de ouvir as buzinas, de presenciar da minha janela a confusão de muitos automóveis na rua, com toda a gente a acenar uns aos outros e a rir, assim como quando, depois de 18 anos, o Sporting ganhou o campeonato. Ou melhor, como quando toda a gente, há trinta anos, saiu à Rua para se encontrar a si mesma e descobrir-se nos olhos de todos os outros. Mas não, não houve buzinão, nem alegria na rua, nem cumprimentos sorridentes. Toda a gente ficou em casa a confraternizar com as suas esperanças. Um dos meus amigos, a quem telefonei, todavia, tinha saído. A mulher dele, minha amiga também, disse-me que lhe parecia que ele teria ido a correr, para votar.

terça-feira, novembro 30, 2004

O Estado atira a Nação para o lixo

O primeiro-ministro cabo-verdiano, dr. José Maria Neves está em Lisboa. Ter-se-á encontrado com o ainda primeiro-ministro dr. Santana Lopes e com o presidente da República dr. Jorge Sampaio.A agenda da visita era, do lado cabo-verdiano, importante, não apenas por razões de negociação bilateral com Portugal, um dos principais parceiros do estado-arquipelago, mas também porque o principal responsável pelo governo da Praia, trouxe a Lisboa a sua preocupação de obter da parte da União Europeia um estatuto privilegiado, que lhe permita ultrapassar a sua actual e principal dificuldade com a comunidade internacional: é que o facto de ter crescido de modo a ultrapassar a definição de país subdesenvolvido implica o fim, em alguns casos, e a redução, noutros, da ajuda externa.

Alguém viu, ouviu ou leu alguma coisa a respeito desta questão?
Alguém já percebeu que política segue o actual governo relativamente aos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente os africanos?
Alguém já vislumbrou, neste e nos anteriores governos, uma preocupação real com a salvaguarda dos valores culturais portugueses espalhados pelas sete partidas do Mundo, que fazem de Portugal uma das maiores Nações do Mundo?
Relativamente a esta Nação, que medrou entre mares, florestas e desertos, graças ao espírito inconformado de alguns portugueses, o Estado, com sede no Terreiro do Paço, sempre foi ignorante, pequenino e invejoso. O Palácio das Necessidades vai fechando, por esse Mundo fora, algumas portas que ainda se podiam abrir aos portugueses de primeira, segunda e, talvez, terceira geração. O mesmo palácio, com a sua estrutura ainda napoleónica, vai olhando para as novas nações, nascidas do esforço de antigos portugueses, com um olhar de superioridade balofa e não é capaz, sequer, de influenciar a central de comunicação do todo poderoso Morais Sarmento para explicar as razões de uma visita de estado de um" país irmão", a quem se estendem os braços sem nunca os apertar.
Acredito, todavia, que o Palácio das Necessidades esteja atento às imagens televisivas que reportaram a recente cimeira francófona, onde, em lugar de destaque estavam sentados os presidentes das Repúblicas de Cabo Verde e de S.Tomé e Príncipe.
Acredito, igualmente, que tenha arquivo das imagens de Joaquim Chissano nas cimeiras da Commonwealth e das suas afirmações, de há uns tempos atrás, sobre a importância da língua inglesa em Moçambique.

Desejo ardentemente que estes hipotéticos arquivos não existam apenas para, um dia destes, se atirarem mais umas pedras aquelas comunidades que terão de desenhar estratégias de desenvolvimento que fujam ao nosso convívio, tal como os nossos emigrantes, que preferem falar as línguas de adopção, mesmo com os filhos, do que sofrer a vergonha de serem tutelados por tal Estado - que não sabe, sequer, a Nação que abarca.

As Perguntas

Já não são necessárias muitas considerações sobre a importância da chamada comunicação social na vida das comunidades. Em Portugal, essa importância ultrapassa os limites. Basta constatar a promiscuidade obscena que existe entre os títulos dos jornais diários, nas aberturas dos jornais das rádios e das televisões, para perceber que a comunidade informativa se controla de forma obsessiva. Uma obsessão que evidencia, pelo menos, medo. Medo de quê? Seguramente de ser considerado desenquadrado, de" estar fora do Mundo", de ser chamado à atenção pelo "chefe", pelo "patrão", pelo"dono". Porque será que todos os dias as notícias são as mesmas em todos os órgãos de comunicação social ?Estaremos perante uma operação de "intoxicação social"?

E, por falar em promiscuidade: como é possível admitir que ex-jornalistas, promovidos à condição de administradores de empresas proprietárias de órgãos de comunicaçlão social,( refiro-me ao presidente e vice-presidente da Lusomundo, Luís Delgado e Mário Rezendes) continuem a emitir opinião como se nada tivesse acontecido com eles. Será que a condição de comentadores de política que ostentam na SIC Notícias faz parte do contrato que liga aquele canal à PTMultimédia, sua accionista-pagante ao mesmo tempo que é accionista maioritária da Lusomundo?

AS RAZÕES

A partir de agora, de vez em quando, eu e - espero - mais alguns amigos, vamos divulgar a nossa "verdade", juntando-a a de tantos milhares de outras, contribuindo para a demonstração de que no Mundo já não cabe apenas uma verdade e que os chamados donos dela já andam a falar no deserto. Inicio este blogue com o mesmo entusiasmo com que - imagino - se começa um livro, um jornal, uma estação de rádio ou de televisão. Todavia, ele é um entusiasmo sem ansiedades, já que do outro lado do que escrevo estou apenas eu. Já nem caibo na anedota do autor admirado por ter encontrado o seu único leitor. Sou apenas uma voz cansada de não ter representação. Veremos se sou capaz de ser honesto comigo mesmo e representar-me perante este ecran colocado tranquilamente à minha frente.
M.Pedrosa