segunda-feira, junho 20, 2005

Políticas

Se o mundo já não é o que era, é porque é o que nunca foi. E a verdade é que nunca foi coisa de grande jeito.
O que há sempre é uns e outros. Houve e vai havendo disso. Gente que quebra a monotonia da ainda animalidade; outra que não. E já lá vão centenas de milhões de anos.
Cansativo, realmente.
Sousa Martins, João Semana e ex-tradição
Quando Sousa Martins morreu, D. Carlos disse que se tinha apagado "a mais brilhante luz do meu reinado". E com certeza que sim, embora mais brilhante que luz ele foi humanista.
Um catedrático que calcorreou a escuridão da pobreza. Que servia a miséria ao preço de seu prazer, que ia a casa dela a pé, quando um fiacre não cabia nas vielas, e deixava ao lado das receitas o dinheiro para as pagar, que sofria com a dor alheia, que tinha um consultório aberto a quem não podia pagar - isso foi o que ele foi em primeiro lugar. Depois disso é que, então, fica o brilho do universitário, a competência, a luz que D. Carlos disse.
Mas o povo viu mais longe.
Se lhe rezou de joelhos décadas e décadas depois da sua morte, se lhe acendeu velas pelas mesmas décadas, se pelo Campo de Santana olhava de olhos tristes a estátua do homem como já não há e o homenageava como a um santo - isso, foi ao homem inteiro. Completo. De excepção.
Agora, o João Semana é que não foi excepção nenhuma. Foi um vulgaríssimo médico de província, o corajoso que se arriscava por despenhadeiros para assitir a um parto, um pai por vilas, aldeias e lugarejos. Pai português.
Como também foi português o médido das cidades que guardava um dia por semana para os pobres. E eram muitos. Leiam-se com atenção os clássicos portugueses para saber. Saber como há pouco mais de cem anos eram os médicos. Alguns até há menos de cem.
Note-se isso e pasme-se à dificuldade dos governantes e do povo para conseguirem deles, muitos deles, a prescrição de genéricos.
Claro que o vulgar das leis são mal feitas, que a vulgaridade dos políticos é amadora, mas vulgarmente os médicos não colaboram. Levantam entraves a propósito de tudo e de nada. Zangados com nada e com tudo. Com ninguém e com todos.
Leiam-se com atenção as explicações dos bastonários quando se levanta a questão. A luta e o resto por detrás.
A inefável Manuela
Saltitando de estação em estação à procura do nada que as Tvês normalmente oferecem, dei com a Manuela. Afável, simpática, voz doce, olho a pestanejar sentimentos. A dizer desonestidade política e suavidades assim, porque em tom brando.
Fugi, como fujo de normal de todas as estações. Mas fiquei a pensar na Manuela; mulher, que não acrescentou nada à política. Nem um toque a dizer que estou aqui e sou diferente de vocês, estúpidos homens que por todo o mundo fizeram da política a vergonha da humanidade. Todos irmãos, primos ou, pelo menos, parentes do clarividente e humaníssimo Bush.
Sinceramente, o homem não precisa de Ferreira Leite nenhuma para continuar no despautério de até aqui. Basta-se a si, como têm provado milénio a seguir a milénio. E, já agora esclareça-se que quando chama a alguma ministra "mulher de ferro" está a classificá-la como "uma das nossas".
O que não é elogio nenhum, porque, em versão livre, quer dizer tão estúpida como nós.
Para quem entende, evidentemente, já que ele, a si nunca se entendeu. Nunca se percebeu no tamanho da respectiva estupidez.
No fundo, mulher de ferro quer dizer, politicamente, virago. Coisa feia de ser para qualquer mulher.
Com os Estados Unidos às Costas
Tem sido a sina do mundo nestes últimos anos. Os Estados Unidos querem guerra, pois haja guerra. Os Estados Unidos estão-se lixando para o protocolo de Kioto, pois que se lixe o protocolo. Os Estados Unidos querem colocar os seus senhores da guerra em bons lugares da paz, pois lá está um dos seus tubarões à frente do Banco Mundial a falar de paz. Os Estados Unidos não querem os seus criminosos de guerra julgados nos tribunais internacionais competentes, pois que não sejam julgados. Os Estados Unidos querem enganar o mundo acerca do que poluem, pois elaborem relatórios falsos. E o mundo sabe.
Há anos que se lê sobre isso das falsificações de dados sobre as alterações climáticas, sobre as emissões de dióxido de carbono, sobre o aquecimento global.
No tempo do doutor Salazar, na comunicação social não se podia tocar em nada que tocasse na Casa Branca. O doutor tinha medo que se zangassem com ele. E a censura cortava tudo.
Enganou-se como todos aqueles que têm a certeza de que nunca se enganam. A Casa Branca está-se nas tintas para o que digam e o que deixem de dizer. Portanto está-se nas tintas também para o sr. José Manuel Fernandes, para o senhor Pacheco Pereira, para o senhor Paulo Portas e para outros nortamericanófilos-probishianos assim.
Mas, pelo sim e pelo não, sempre é bom estar-se nas boas graças da Casa e do dono da Casa. Olhem se o senhor Durão Barroso não tivessse servido o café nos Açores!...
Corria o risco de, um dia destes, acabar a servir cafés numa esplanada da Avenida.

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