segunda-feira, junho 06, 2005

EM BUSCA DA SABEDORIA PERDIDA

Quando fiz a tropa, era Angola antes dos idos de um Março qualquer, um dos prazeres que raro voltei a ter era o de falar com os cabelos brandos dos velhos. Aliás realmente velhos porque o cabelo de negro é resistente ao encanecer.
Era então o falar com a sabedoria.
Falavam pausado, deixando a inteligência descansar por sobre os intervalos da lentidão, e só depois diziam.
O quê?
Ora, diziam o que dizem os sábios. No caso, sèculos de Angola.
Diferentemente do que dizem os velhos da Europa, que falam à velocidade dos novos europeus as mesmas banalidades que eles.
Mas com surpresas em todas as idades.
Entretanto um pescador em Sines
Um dia de tarde entrei numa taberna de Sines. Ia dar de beber à sede. E numa taberna por gosto do bom vinho de barril, que já não se vende, e de ouvir a sinceridade dos copos, que cada vez se usa menos. Até os bêbados falam o falso português dos jornais e das telefonias, quer-se dizer, falso de bem comportado e sem caixa de velocidades. Com excepções, evidentissimamente.
Três pescadores tinham-se-me antecipado nos copos e estavam em guerra vínica com o governo, um desses do costume que andava em guerra contra eles. O problema era de marisco e de proibições.
Então um deles, quando me percebeu interessado, deu uma lição marisqueira, com explicações de nascimento e procriações, da razoabilidade científica de certas leis e do amadorismo óbvio de outras, após o que transitou para a análise do reflexo económico da atitude governamental com contabilização de ganhos. E perdas, que eram para todos, país e pescadores. Disse.
Foi como ouvir uma sinfonia, um homem de camisa grossa aos quadrados e penso-o descalço, mas já não sei. O que sei é que gostava de ouvir a mesma sonoridade em Sócrates. No que temos.
E a lembrança de Chiesso
Ao ouvi-lo, a esse pescador-talvez-descalço, o vinho trouxe-me o Chiesso à memória.
Não era sèculo. Apenas um negro qualquer arrebanhado para a tropa e que calhou no "meu" pelotão. Já era fora de idade, um recruta com entre 30/40 anos. Acontecia. Era tudo feito a olho. Mediam-se os mancebos pelo pêlo púbico, e se o moço fosse felpudo, tivesse ou não tivesse idade, ia malhar com os ossos na tropa. Ou, de contrário, se fosse escasso de pêlo, tivesse ou não ultrapassado a idade, assentava praça.
Ora Chiesso não devia ser de abundante pilosidade. E no meio da moçada sentia-se deslocado. Ajudei-o com muita simpatia, que ele retribuia passando os domingos a apanhar pássaros que me oferecia. Não convivia com a rapaziada, talvez da idade dos seus filhos.
E aconteceu num dia daqueles tempos de paz, a pax lusitana como lhe chamou Mesquita Lemos, em que eu distribuía tarefas, lhe disse que "nós, que somos amigos" vamos fazer qualauer coisa que se perdeu no tempo. Aí Chiesso formalizou-se e ponderou discordância a respeito da amizade. O que me espantou:
- Não és meu amigo, Chiesso?
- Amigos, quer dizer, amigos, bom eu gosto do meu aspirante, o meu aspirante talvez goste de mim, mas, amigos, o meu aspirante tem os seus amigos e eu tenho os meus amigos.
O mistério no meio daquela amizade está no entender como um analfabeto conseguiu estudar de Karl Marx o seu discurso sobre classes sociais...
Este diz que não mas é
Ao certo, ao certo é benfiquista. Quanto ao ser comunista diz que não mas parece que é. Pelo menos desanca "neles" (PS, PSD e CDS) de manhã à noite. Durão Barrosso e Paulo Portas eram "esses macacos que estão no governo", Sócrates "é um gajo do mais à direita que tem o PS" e andando por essa via (será suspeita?) mas com fio de raciocínio a mostrar escola. Apurada para quem é de poucas letras.
Há dias andava numa de pessimismo sem esperança. Aí temperei com os exemplos da Irlanda e da Finlândia que conseguiram, como países, situação confortável. Embora modestos de capacidades naturais.
E a sua resposta foi instantânea:
- Ah, mas isso foi com confiança nos governantes. E quem é que vai confiar nestes gajos?
A confiança
Portugal é um país que vive asfixiado entre o discurso capcioso de juristas e o discurso contabilístico dos economistas. E, pelos indícios, tudo gente que acabou os cursos já doutores. Provavelmente ninguém lhes ensinou que a Universidade confere aos seus alunos apenas os ensinamentos necessários ao estudo. Não faz sábios. Os sábios fazem-se a si, estudando depois de sairem da escola.
Precisamente aquilo que os nossos ministros (eu excluo da maralha Maria de Lourdes Pintasilgo, António Guterres e assim; talvez outros engenheiros que se tivessem dado ao trabalho de perder, aliás ganhar tempo lendo e meditando sobre os problemas sociais) dizia então que os nossos ministros e deputados, a generalidade deles concerteza, deixou os bancos da faculdade já doutores. E pronto, sentiram-se aptos para doutorar na coisa política.
Daí que nenhum deles, até hoje, se preocupou em perguntar-se o porquê desta bagunça que tem gerido os destinos do país. O meio-comunista-e-benfiquista-completo diz que é por falta de confiança nos governantes. E di-lo do rés-do-chão da sua instrução primária.
Será?
E,se for, qual o projecto? qual o método? qual o estudo? qual o plano apresentado ao país para chamar os portugueses à confiança?
Mas pode ser que não seja. Porquê?
Poucos meses depois das últimas legislativas, Sócrates foi tão explícito quanto ao processo de captar a confiança da nação que já tinha esbanjado, com a salgalhada das pensões juntadas aos vencimentos ministeriais, o capital de confiança que o levara ao poder.
E Marques Mendes, o periquito falante, anda a exigir reformas da Administração Pública já! - em demonstração cabal de não fazer a mínima ideia da complexidade do problema, dos meses que se vão gastar a estudar a matéria, as perguntas de investigação, o que fazer o o como fazer. Talvez nunca tenha trabalhado na função pública nem na função privada. Estudou para doutor e para ministro. Saiu feito da máquina, como as salsichas.
Talvez então mandando esta gente repetir a instrução primária.
Não tanto? Os preparatórios? Então fica assim, preparatórios.

2 comentários:

hfm disse...

Gostei de ler.

pindérico disse...

E se o Chiesso quisesse, quantas mais verdades diria !!