sábado, abril 09, 2005

SEMANA DE LUTOS RUIDOSOS

Já muitos papas morreram. Já muitos deuses até, alguns caídos em completo esquecimento. Nenhum porém com morte tão troante como João Paulo II. Um papa de multidões, verdadeiramente "urbi et orbi". Já muitas insignificâncias morreram. Até muitas significâncias também. Aliás, uma vida que é de morrer, a morte mora com ela. É o seu outro lado. A Terri Schiavo, que não era morte nem vida, o que lhe aconteceu dois dias antes de Karol Jtyla?Nada que ela soubesse, mas um nada que correu mundo em barulhenta discussão.O homem adora casos.

O Papa Pop

K.J., depois de Papa, arrastou multidões. Nessa elevada função, comparativamente, teria sido mais popular que os Beatles. Tão contestado como eles, foi talvez mais adorado.E com razão.Correu extremos: teve a coragem de pedir desculpas pela violência da Igreja, faltou-lhe a coragem para colocar a mulher no lugar que lhe compete como ser humano. Deixou-a tão ostracizada na Igreja como a encontrou quando chegou ao seu cimo.Festejou a queda do comunismo e ao mesmo tempo que alertava para o capitalismo selvagem.Foi um herói quando afirmou que, enquanto as igrejas se mantiverem em guerra, não haverá paz no mundo. Faltou-lhe todavia centelha para, em simultâneo, divulgar que, enquanto as economias se encontrarem em guerra, a paz é um impossível.Em verdade foi o que foi, aquilo que era. Alguma coisa ou coisa pequena, depende.

A vida da morta

Terri Schiavo tinha uma vida vegetativa, ou viveu a sua morte como vegetal?Ninguém sabe, nem ela própria soube.Um dia a ciência saberá. Agora, porém, como as coisas estão, não vale a pena gastar latim com isso. O espanto é neste mundo, nesta carnagem diária, no preciso momento em que balas matam vidas, a histeria colectiva por se deixar morrer uma morte!Os rogos, os choros, as indignações, os insultos até, a tanta coisa por nada, num viver desumano em que se mata por tudo desde o petróleo à raiva, e se morre enquanto se espera pelo pão que não virá.Se toda a histeria pela morte duma morta tivesse graça seria humor negro, não tendo nem ponta de chiste será apenas negra da cor da tristeza. Pena desta gente, desta multidão que vive metida na crueldade e colabora nela activamente ou com a indiferença. O homem continua tão pequeno que a sua moral não passará de tão vegetativa como a vida de Terri Schiavo acabada de morrer.Ou seja, continua a viver por caminhos longe da pessoa humana.

A reza do falcão

W. Bush terá sido dos cristãos que menos importância deu a João Paulo II. Relativamente à função que lhe calhou por ser filho de seu pai, a Presidência dos Estados Unidos da América, foi-o com certeza.Nunca lhe tomou um conselho, nunca lhe satisfez um pedido, ignorou-lhe a palavra, e desprezou pura e simplesmente as críticas, umas claras outras implícitas, com que o Papa procurou amaciar um pouco a dureza cerebral que, segundo os cristãos, Deus lhe ofereceu para ser o homem menor que é.Pois não obstante, ainda o corpo de Karol não tinha partido desta para melhor, já corria mundo a notícia de que W. Bush rezava pelo Papa. Rádios, televisões, jornais, todos os comunicadores sociais informaram. Era bom que Deus existisse, era. Para julgar a ofensa. O mal do mundo é que os cristãos não acreditam nEle. E não têm medo dEle nem enquanto palavra nem como Ser Divino.

O lobo Wolfowitz

Wolfowitz foi o rosto, talvez mas lupino, da administração Bush na fase agressiva do seu imperialismo. Fracassada a experiência imperial, houve que recolher a agressividade, abrandar a velocidade, serenar os ânimos, mudar de política. E abandonar o papel do lobo-mau. Por enquanto.Em consequência do que houve também que escolher cantos onde acoitar os lobos. Tarefa de onde resultou a nomeação de Wolf para chefiar o Banco Mundial. Lugar que aceitou com a boa vontade que o vencimento que vai auferir desperta.Razão por que a luta contra a pobreza passou a ser a sua grande prioridade. Já não o fazer a guerra, já não o fazer pobres, a imensidão de pobres que fez com a aventura no Iraque. Agora, esse fazedor de pobres trata da luta contra a pobreza.Já agora, ao menos que aproveite o lugar a ver se acaba com a pobreza, já nem se pensa no mundo, apenas nos Estados Unidos. No seu país. Na pobreza de que curiosamente ninguém fala. Mas que, dizem os presidentes de câmaras como as de Nova Iorque, Filadélfia e mais cidades importantes, assume números cada vez maiores. Para eles assustadores. Quem diria ?...

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