terça-feira, abril 19, 2005

NOS DIAS DE NADA

Há semanas assim: não morre um papa nem escolhem outro, não treme a terra nem o mar invade a Ásia, Bush não liberta o Iraque nem Carlos dá escapadelas à cama de Camila, nem o petróleo desce nem o príncipe da batota e dos iates repete o seu trajecto de cá para lá (paz à sua alma e à do Papa (ex) também, em verdade nem mais nada..
Foi uma semana sem importância.
Portanto um rescaldo
Disse-o de ela própria uma fraqueza muito explicada, para que o mundo a visse e ouvisse enquanto dizia, por conseguinte falando aos microfones duma televisão que era ateia.
Ateia a sério, dessas de não acreditar mesmo, confessou-se. Não acreditar nem antes nem depois da morte de J.P. II.
Não obstante sentiu-se chamada a Roma, quando do passamento de um polaco sucessor de Pedro. Não sabia porquê!, admirou-se.
Então pôs-se a falar disso "urbi et orbi"como os papas fazem nos dias de festa cristã. Aventando porém que o chamamento talvez tivesse partido da personalidade falecida.
Queria ela dizer, e não disse, carisma. Por isso a ajudamos aqui. E a ajudamos também lembrando que as exéquias a que ela foi tinham o seu quê de agrado.
Era festa, reliogiosa mas aparatosa. Mais que ritual, um espectáculo, um espectáculo oferecido pela morte. Uma solenidade vestida de roupagens e mostrada por sentimentos. Sentidos uns, mostrados outros.
Uma cena chamando a atenção das indiferenças cosmopolitas. Que gostam de ver tudo e vão a todas.
A festa das chamas
Mas espectáculo de impossível comparação, foi o da pompa e dos ritos com que a igreja se engalanava depois de passar a ser apoiada por reis e suportada pelos respectivos braços seculares: o das fogueiras purificadoras de almas. As que mandavam para o inferno. A queima de hereges constituiu o acúmen da espectacularidade. Judeus, judaizantes, pagãos, bruxas, uma chusma de incréus corria sérios riscos de ser trasnformada em archote iluminante desde que o santo do tribunal da inquisição assim o entendesse.
Então a igreja vestia galas.
Estranhamanete, dada a sua origem judia e a nacionalidade do Filho que Deus mandou à Terra.
É que os judeus, quando martirizavam os seus incréus: os cristãos e outros idólatras (como chamavam, e chamam ainda, aos crentes na santidade de Cristo), eram de festas mais modestas.
Talvez por serem mais forretas.
Crucificavam-nos, e espetavam-nos com compridas lanças que chegavam até ao cimo das cruzes. Mas a pompa e circunstância era coisa barata. Não metia a ostentação de decotes a convidar ao pecado, usados pela rainha e mais damas da corte, nem o passeio de circunspectos bispos e luzidios nobres pelo palco se iriam assar pessoas.
Claro que o ar com que assistiam à gala era grave, mas curioso da festa em que as chamas engoliam os gritos. Calavam-nos tão completamente que deles ficava apenas o cheiro, diz-se que nauseabundo, além do lixo que as vidas deixam quando se vão.
Entre as duas festas, a dos judeus e a dos cristãos, a ciência ainda não escolheu qual a mais cruel: se o esplendor das labaredas se a sovinice duma tosca cruz onde se pregavam e espetavam pecados e pecadores.
Mas, como uma igreja é filha da outra, bem se pode dizer que tal pai tal filho. Ou tal mãe tal filha.
Os Clubes da Política
Em política recuso-me a ter clube. Poderia até votar nas eleições de todos os partidos e escolheria sempre o candidato que a honestidade aconselhasse.
Por isso que no PSD votaria em Marques Mendes. Depois do despassaramento santanista era de obrigação. Escolher Menezes pareceu grave risco à honestidade. O homem deu a impressão de ter um carreto fora do lugar. Ou dois.
E Marques Mendes não. Fala até o politiquês corrente, o daquelas frases redondas cheias de vazio, mas di-las com convicção. Homem a mostrar que não brinca em serviço. Portanto antes ele que outro.
Agora, tirando-lhe a convicção não lhe sobra grande coisa.
E, sendo pequeno de mais para chegar a papagaio, fica-se por periquito. Mas repete as palavras muito bem. Será portanto um periquito amestrado. O qual, falando da Administração Pública, repetiu isso que está na moda dizer: o isso que os empresários querem ouvir, o isso que o liberalismo defende para já, o isso da reacção. Convenha-se então que, mesmo para periquito não foi muito original. Embora tenha a chamada ideologia de ouvido. De onde se depreendeu que ignora que, em Portugal, a instituição Administração Pública nunca funcionou. Que foi sempre dominada pelos governantes. Dominada, infiltrada, esmagada. E que, em consequência, levará muito tempo e muito mais estudo até se perceber o que fazer dela. Como a remendar. Como reformar.
Daí a naturalidade da interrogação a querer saber onde trabalhou este homem, que só sabe periquitar.
Parece que trabalhou em lado nenhum, mas dá uma mãozinha na política. Ou seja, outro político de aviário.
Santo Deus! Está a ser cruel o destino deste Portugal, crucificado na política e assado por aprendizes da governação.

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