quinta-feira, abril 28, 2005

NA TERRA DA NOSSA IGNORÂNCIA

Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Parafraseando: nas terras da ignorância todos falam e ninguém sabe o que diz.
Claro que sempre há alguém que sabe o que diz. Uma ou outra excepção no meio da santa ignorância, que é o caminho mais eficaz de chegar ao céu. Por isso o inferno está quase vazio...
Carvalho da Silva, uma excepção
A gente da política faz profundos cálculos sobre a velocidade necessária ao despedimento dos funcionários da Administração Pública. E a profundidade oscila, salvo erro, entre os 100 à hora e os 6.000/ 6.500 ao ano.
Mas, espanto dos espantos! apareceu na santa terra lusitana um homem, Carvalho da Silva de seu nome, a perguntar por quê?
A querer saber como se pode chegar a números sem primeiro se definirem necessidades. Sem primeiro se estudarem as reformas da Administração Pública.
Um querer saber lapalissiano: ignorando-se o tamanho e o peso da carroça, como se pode calcular o número de bois necessários a puxá-la? A qualidade da carroça, aqui, tem de andar à frente do número de bois. É para isso que existe a ciência e o método científico. Para contrariar o que a ignorância diz.
E com isto somos chegados a um caso de polícia, a partir do qual todo o departamento de investigação terá de formular duas interrogações:
1 . Em que faculdades se formaram os senhores governantes, opositores e toda essa chusma de iluminados que vai para a política porque, diz-se, é um emprego que "tem saída"?
2. Que universidades portuguesas ensinam metodologia ?
De posse destes dados poderá, então, formular-se a extensão do crime, bem como as condições sociais que levam à proliferação de criminosos.
Marcelo Rebelo de Sousa, o génio
Um homem de outra galáxia. Génio como o Mourinho, ele próprio se sugeriu. Modestamente, como é seu timbre.
- No PSD não o acharam tão genial assim. E viram-no até de muito bons olhos pelas costas quando abandonou a direcção do partido. Provavelmente ingratos duma ingratidão que lhe classificou o génio como de serpe dum cobril sinistro;
- Na TVI despediram-no sob um cortejo de flores, desde o volte sempre até às juras de admiração, mas com o desejo secreto de que fosse andando e não voltasse;
- E na RTP já deve haver gente a pensar em como mandar passear um ilustre professor que utiliza o seu ziguezaguear como muleta de toureiro frente a um pacífico interlocutor sem direito à interlocução. Agora interlocutora, e com bonito penteado. Elogiou o mestre.
É que ele , o eu-sou-professor-universitário, a estar bem, só poderia estar na SIC, na TVI, entre gente da sua gente e nunca num órgão da informação estatal. Uma casa que tem obrigações de isenção, de suprapartidarismo, de supra-egocentrismo, dispensa de bom grado quem jornalisticamente mais parece um trapezista saltando entre os seus desígnios. Antiprofissionalmente.
Esperemos, portanto, que Ana de Sousa Dias lhe saiba pôr cobro ao tagarelar com que a atropela, ou tenha a coragem de o deixar a falar sozinho. Ele com ele dá-se muito bem, a palestra portanto teria melhor efeito. E mais verdade.
A flor do jardim
1. Julgo que foi D. João V. Também se não foi ele foi outro assim: uma magestade mandante.
E ia a magestade em seu coche quando, cruzando-se com um escravo, recebe deste um cumprimento desde o alto até ao chão. Ao qual responde com outro de igual tamanho.
Incomodado, o acompanhante real fez-lhe ver que o outro da troca de delicadezas era um escravo. Observação a que a magestade respondeu (mais ou menos, claro) :
- Em Portugal ninguém pode ser mais bem-educado que o rei de Portugal.
2. No tempo do colonialismo, o Estatuto do Funcionalismo Ultramarino obrigava todos os funcionários públicos, desde o governador ao servente, à urbanidade no trato. E um artigo do mesmo Estatuto estabelecia a pena a que correspondia a falta-de-educação. A qual, dependendo das circunstâncias e gravidade da ofensa, merecia registo no cadastro.
A partir destes dois pontos é importante investigar, em especial na democracia que governo, oposição, constituição, presidência da república, ministério-público e mais instituições democráticas dizem que Portugal é, quem é que deu, e dá, autorização a Alberto João Jardim para ser tão grosseiro.
Não há memória, na história portuguesa da ditadura recém-falecida e da democracia recém-nascida, de alguém tão incivil. E se nem a ditadura consentia que um seu servidor fosse assim, a que título e sob a responsabilidade de quem a democracia consente.
Será que a democracia portuguesa é da irresponsabilidade?
Ou será que os ditos democratas portugueses não sabem que a democracia sem responsabilidade não existe?
E o periquito tremeu
Alberto João também tremeu. Mas foi de fúria.
E mandou os seus recados ao partido de Marcelo Rebelo de Sousa, que é o seu e de outros espécimes igualmente notáveis, a propósito da limitação dos mandatos. Portanto da limitação do seu. Seu emprego. E parece que único porque não consta que saiba fazer mais nada.
Mandou recado mas só a fazer uh! uh!
E foi a vez de o periquito tremer. Mas de medo. Então periquito falou que sim senhor, que limitação sim senhor, que ele é pela limitação sim senhor, mas só daqui a 12 anos.
Esperto. Está convencido que doze anos chegam para que o Jardim seja acometido por um AVC vínico. Um AVCV portanto.
A ganda nóia
O periquito Marques Mendes da Nóia entrou em funções propriamente depois do uh! uh! que lhe fez o grande-chefe Jardim. Assustou-se primeiro, que uh! não é para menos, e depois teve que resolver de imediato, e duma assentada, as hipóteses de referendo sobre a constituição europeia e sobre a libertação da mulher portuguesa das garras dos tribunais e da polícia no caso de aborto.
E resolveu: o referendo sobre a Europa para já, é de interesse nacional; o referendo sobre a despenalização do aborto é do interesse do mulherio. Fica para depois.
Com a chegada do periquito que subiu ao poder no PSD, o partido transformou-se numa espécie de gaiola para a passarada.
Primeiro foi o passarão que voou atrás do seu interesse; depois foi o despassarado que o país pôs a voar por não ter interesse; agora arribou um passarinho que mal chega ao poleiro.
Não chega, mas se um dia o periquito crescer vão ver como o passarinho ainda se faz um homenzinho.

Sem comentários: