terça-feira, março 22, 2005

VELHA PÁSCOA, VELHO VIVER

Todos os anos os judeus comemoram a sua saída do Egipto. Por todos esses mesmos anos os egípcios ignoram essa mesma saída. É coisa que nem consta da sua história, salvo erro, em absoluto. Talvez então que a história continue a ser o que cada um quer que seja, assim como para cada escrevinhador semanal a história da semana seja o que ele quer que seja.
Assim:
O tempo de julgar
Foi notícia dos últimos dias. Pequenina porque dos fracos não reza a história. Mas por cá sabe-se que se juntou em Lisboa um Tribunal Mundial Sobre o Iraque, o qual pretendeu julgar os responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque.
Um julgamento que pretende ser moral num mundo seguramente sem moral. Na prática acto nulo. Que aliás já foi feito há muito tempo. Os povos falaram do Japão à Inglaterra. A política, no entanto, não quis formalizar essa voz. E menos escrutinar resultados. No fundo, a malta barafustou e pronto.
Depois aconteceram os mortos, os feridos, os desaparecidos, a fome, as destruições e também pronto: entrou-se no politicamente correcto, que é o salvar a face da força. Irresponsabilizá-los. Nem há outra saída airosa do atoleiro por causa dos efeitos colaterais duma barrela ao acontecido.
Um verdadeiro julgamento dos invasores e ocupantes, porém, fê-lo a natureza. Em poucas horas conseguiu o que eles não conseguiram em dois anos. Puseram o Iraque a arder e os iraquianos a matar-se uns aos outros, mas mais nada que se saiba. Agora, o maremoto matou 250.000 duma assentada enquanto os outros, ao que consta, ainda não chegaram a 150.000. E com ajudas, com palavras mansas, com a invocação de novas amizades. Na verdade uma vergonha para quem se julgava dono do mundo e nem em dois anos dominou o Iraque. Se a tivessem.
Soubessem eles perceber-se na força que não têm. Ensinem-lhes isso, já que inteligência para se perceberem por si também não. Seria mais útil que proferir sentenças sem força para as executar.
Os vice-versa
Pela originalidade, os dois mais notáveis cronistas portugueses serão Marcelo Rebelo de Sousa e Pulido Valente. O primeiro porque discursa para os apartes (atenção para quando os diz, por vezes é só isso que quer dizer) ; e o segundo porque é um cronista figadal. Depende do lado para que tem a víscera virada.
Originais de facto.
Serão uma espécie de vice-versa. Não porque sejam o avesso do outro, mas porque em originalidade são duas das faces da qualidade. Portanto um nem-vice e outro nem-versa. Mas mais ou menos do mesmo cobril. Cronistas navegando com uma costa à vista e duas intenções no mastro.
O nem-vice
De Rebelo de Sousa a história há de registar o elogio que ofereceu a Mourinho, com reparo à irreverência que este demonstra.
Foi reparo e lembra-lhe que, lá por ser génio, não se lhe pode permitir tudo. Logo a seguir veio o aparte, o importante em suma, que dizia mais ou menos assim:
eu quando era jovem e bom aluno, quer-se dizer, quando ainda não professor universitário, também fui rebelde. Comparou-se a Mourinho, portanto.
Mas não se disse génio, comparou-se só.
Genial aparte, convenhamos.
O nem-versa
Agora o figadal Pulido Valente. Há dias deu-lhe para escrever o que se segue:
Em França, o antiamericanismo( leia-se antinorteamericanismo) e, subsidiariamente, o ódio à Inglaterra continua a ser o fundamento da ortodoxia de Estado. Uma ortodoxia, que, de resto, a França comunicou à "Europa" (ou, no mínimo, às "velha Europa" que não sofreu o comunismo) e que ameaça hoje dividir o Ocidente.
A coisa não está mal pensada de todo. A França tem realmente a mania. E quem estudou por livros seus pode chegar à conclusão de que os franceses também: corre-lhes a presunção nas veias. Nem é preciso lembrar De Gaulle, como costuma fazer-se.
Contudo, o ódio a um poder imperial não é exclusivo dos franceses, que de imperadores parece que só gostam de Napoleão. Há antinorteamericanistas que nem de Napoleão gostam.
Todos os imperialistas, desde antes de Átila a depois de Mussolini, foram odiados.
Serve de exemplo o povo português (o povo, não os senhores de conveniências privadas nem as madames que fizeram boa cama a generais e outros que tais da manada napoleónica que ocupou Portugal), o qual, não obstante os brandos costumes, logo que se sentiu capaz, ofereceu aos franceses o tormento duma vida negra.
Instigado por padres que arregaçaram as batinas e acirrado por suas mulheres, obrigaram-nos a passar as passas do Algarve.
Claro que também houve os militares, os heróis e os ingleses que faziam do antifrancesismo ortodoxia de Estado. Houve esses, sem dúvida. Mas o povo, sem ortodoxia, tratou-os abaixo de cão.
Pulido Valente, que julgo ser historiador, se durar o tempo necessário, ainda há de rir com o que o Asterix vai fazer a Bush quando resolver deixar César e os romanos em paz. Caso, evidentemente, a catadura figadal lhe consentir que a inteligência sorria.

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