segunda-feira, março 14, 2005

O JOGO DAS CONVENIÊNCIAS

Usa dizer-ser que o jornalismo é o espelho das sociedades modernas. Em Portugal ultrapassou-se esse dizer. O jornalismo foi o espelho das trapalhadas. Não todas de Santana porque ele, o trapalhão-mor, herdou algumas.
Delgado/Durão/Belmiro
Luís Delgado foi homem que atingiu súbita projecção, um autêntico estrelato, com a poderosa investida de Durão Barroso pela direita reaccionária internacional. Cá dentro maneteve-se nem-peixe-nem-carne, um habilidoso de pouca habilidade de confundir a social-democracia com o populismo, munido no entanto do supremo talento de se mudar como pedra de xadrez no momento exacto. E assim foi mudando desde a extrema-esquerda por caminhos que o levaram da modéstia do folclorismo político a gorda renda mensal.
E a bem da pátria! O que lhe dá vantagem, se um dia chegar a mais rico que Belmiro de Azevedo, não ter de suportar a invejosa auréola que coroa o já ar de suficiência com que o opolento cavalheiro de indústria fala de cátedra, ensinando aos governantes o que devem ou não devem fazer. Ele que chegou a hoje depois de largo tempo de comedimento político. Homem de fala modesta e serena.
O falar da conveniência, que muda em tempo de mudança. O susto de Abril já lá vai. Corram-se as imagens do conversar dos homens de negócios a ver como são outros. Também Barroso é outro, mesmo sem contar com o patriotismo, a tal vantagem. Ele partiu de trauliteiro para conveniência de maior respeito: a de menos traulitar e mais compostura. A da contenção. Ou seja, a mesma conveniência dos cavalheiros de indústrias, mas de sentido inverso.
Ora, foi neste entreacto barrosista, já com paz nas aldeias e cada um a falar no tom do seu interesse, que Luís Delgado floriu.
Delgado/Santana
Mas se floriu com Barroso foi com Santana que atingiu o apogeu. O senhor, que de ignorado colunista do DIÁRIO DE NOTÍCIAS (jornalista de carteira profissional todavia, na realidade, um falta-de-jeito notável), havia subido a administrador-delegado da LUSA, mas com Pedro no poder foi mandado administrar nem mais nem menos que a LUSOMUNDO. O que juntou às funções de comentador político, de entrevistado, de objecto de crónicas, pessoa quase tão importante como o Cristiano Ronaldo. Apto a figurar na Quinta das Celebridades.
E inchou. Quis ser como o Belmiro. Propôs-se a comprador da LUSOMUNDO inteira.
Para quê e para quem?
Para o mau ajuntador de letras que é, seria como que chegar ao céu à velocidade da luz.
Mas com que dinheiro? De quem o dinheiro? Para quem o negócio?
Se Almada Negreiros tivesse alma...
Se tivesse já cá estava ela. A apontar os que, pior que Dantas, cheiravam mal da boca. Pim!
A gritar contra o salvador Oliveira que acabou por ficar com o negócio da LUSOMUNDO logo que despediram o Pedro Santana, à sombra do qual manobrava, dizem, Morais Sarmento com não se sabe bem que interesses e interessados da PT, dizem também. Desconfia-se.
Para aumentar a confusão garante-se, de vários lados, que o negócio é obscuro e, doutro, que a suposta traficância é transparente.
E com boa vontade até é possível achar que um Oliveira de escassas letras esteja interessado, assim a seco, no DN, no JN, na TSF, no 24 e no resto do abecedário lusomundista. A alma do Almada é que não ia nessa. No seu entender, Júlio Dantas, o director do DN que lhe cheirava mal da boca, era um balofo, um cerimonioso, um petulante, um gongórico vazio, mas lavava os dentes. Contudo, dessa gente, agora metida e a meter-se nos jornais e telefonias, queria saber de onde lhes vinha o cheiro. Dúvida que lhe atazanava a sua ainda mania da higiene.
Cadê a inteligência?
Num programa da emissora oficial, Luís Delgado não agoirou bom governo a Augusto Santos Silva porque, esclareceu, o hoje ministro escreveu sobre a sua qualidade jornalística coisas como se fosse Maomé a falar do toucinho.
E rematou o seu mau-agoirar com um sentido reparo de onde constou um "ele nem me conhece!".
Mas quem é que, em Portugal, não conhece um cronista que anda nu pelo meio das letras que escreve, um comentarista radiofónico e televisivo que se despe em cada palavra que profere?
Como prova de escassa inteligência é difícil conceber-se outra mais significativa.

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