sexta-feira, abril 01, 2005

DEPOIS DA SEMANA SANTA

A Páscoa, para os cristãos, normalmente os que se dizem isso, é um segundo Natal. Um lavar de consciências. Um sossegar o espírito com uma lágrima vertida à lembrança do sacrifício do Cordeiro de Deus. Depois dela é o que se segue. O que se sabe. O pecado nosso de todos os dias. Meses, anos, com um Natal e uma Páscoa para quietação nossa.
Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós agora e na hora da nossa morte. Amém.

Má Páscoa - I

Má para algumas terras desta aldeia portuguesa. Constou que bastantes. Mas isso foi um constar. Ao certo nunca se sabe.
É que com a chuva que molhou o dia da Ressurreição, e com os salpicos de antes, falhou a luz. Em duas importantes vilas (quase cidades) seguramente que sim.
Tal como nas vilórias perdidas pelos matos do Antigo Império Colonial Português. Iluminadas, quando eram, por um motor a gasóleo, que o senhor Gonçalves ou Tavares, seria Mendonça?, comandava com mão de mestre feito pela prática.
Falava-se com ele, ele estava ali, Senhor Mendonça, então?- Vai já, ou então, ainda demora um bocado, eram os dois tipos de resposta mais frequentes. Quando não estoirava uma peça e havia que esperar pela de substituição, que talvez chegasse num depois, que ele, Gonçalves ou Tavares, calculava. Mais mal que bem, mas falava, explicava, dava esperanças.
Agora não há o senhor. Há o não se sabe quem, duma escala hierarquica, que não se sabe qual, encimada por uma desconhecida trupe administrativa. E a luz vai faltando por tempo indeterminado sem responsáveis. E sem responsabilidades.
Os prejuízos também são indeterminados, porque ninguém faz as contas. E indetermináveis porque ninguém se queixa.
Esta ex-metrópole do ex-império do que precisa mesmo é duma colonização da responsabilidade.

Má Páscoa - II

E, faltando a luz, os telefones desregulam. Alguns, porque apenas uns. E, se uns, os outros não. Então telefona-se do vizinho do lado ou da vizinha da frente.
Não ao senhor Gonçalves ou Tavares, talvez Mendonça. Telefona-se a uma máquina que nos manda carregar no algarismo 1 se tem problemas no útero, no 2 se se sofre da próstata, no 3 se a erecção fraqueja até que se vai dar a um cemitério onde uma fala de cangalheira pergunta do que é que se queixa e, depois de ouvidas as queixas, com voz maquinal-tal-qual recita que o seu pedido vai ser atendido logo que possível.
E pronto. Estou à espera do que é possível com o telefone avariado desde sexta-feira. Hoje é quinta e continuo a receber chamadas sem poder fazer chamadas. Quem responde por isso? Quem me indemniza por isso?
A EDP e a PT respondem, com os bastos lucros que arrebanham anualmente, pelos prejuízos que causam aos portugueses e à Nação portuguesa? Há alguma forma expedita de pedir responsabilidades? Os senhores da privada que quase já tomaram conta dos bens públicos, porque competentes, eficientes, convenientes não pensarão ao menos ser um dia tão esclarecedores e eficazes como o talvez Mendonça?

Boa Páscoa

A propósito de um negócio qualquer com armas, compra de armamento ou coisa assim da guerra, a televisão, talvez a oficial, correu imagens do ex-ministro-da-guerra, ex-Paulinho-das-feiras, actualmente Paulo Portas a passar revista a uma guarda de honra.
Aquilo é que era farfalhudo! De fato domingeiron(o senhor deve ter mais fatos que domingos tem o ano) olhar ausente, estatal, cerimonial, as aletas do nariz em pose solene, a zabumba rufando a preceito e ele de glúteos a dar-a-dar, tão ao som das pancadas do bombo que aquilo era a imagem do fingimento a fingir. Correcta.
Um espectáculo.
Graças a Deus sem repetição. Que Deus repita o milagre de todas as Páscoas como esta. Dele só em imagem.

Péssima Páscoa

A Europa anda em guerra, primeiro com os Estados Unidos, depois entre alguns dela com toda ela. A questão é a criação do mercado único de serviços, e o resultado seria (se conseguissem) a passagem de tudo o que dá riqueza ao Estado para as mãos dos privados.
A riqueza do mundo foi criada à conta da exploração dos pobres. Dos trabalhadores. E os países que ficaram ricos não viram, e não vêem, com bons olhos que os demais (ex: China, Coreia) quisessem, e queiram, fazer o mesmo.
Argumentam que a concorrência desses países em vias de desenvolvimento é ilegítima porque é feita à custa dos baixos salários dos trabalhadores. Ou seja, que é feita imitando o que ela fez: à conta da pobreza portanto.
Mas a riqueza não pode hostilizar uma China, uma Índia, por exemplo. Então resolveu ressuscitar-se: voltar a explorar a sua pobreza: dum lado com flexibilizações e coisas parecidas, e doutro pondo fim às regalias sociais que, no passado, ofereceu aos trabalhadores. E agora já não quer.
O exemplo vem dos Estados Unidos, quer dizer da chusma de neos (neo-isto e neo-aquilo) componentes da camarilha Bush, assanhada privatizadora e pouco preocupada com a coisa estranha de o país mais rico do mundo ser também povoado por uma notável, em número, camada de pobres.
Esse o exemplo. Mas na Europa já se discute como seguir tal exemplo: fazer com que uma nem-crise (porque os ricos estão cada vez mais ricos) seja sustentada por quem não tem defesa: a pobreza.
Querem fechar, assim, a pescadinha de rabo na boca: com a pobreza enriqueceu a sua riqueza, e com a pobreza pensa combater a concorrência, a qual, por sua vez, à conta da pobreza própria está a enriquecer.
Pobre sofre...

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